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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 29.03.17

Coimbra: a Questão Académica de 1907 2

Afrontando as expressas recomendações das autoridades militares, Belisário Pimenta, ... viveu entusiasticamente a luta académica. Participou na greve geral, não encerrou matrícula como impunha o Governo, não fez exames. Foi um dos 160 intransigentes. 

... Ele foi um repórter da crise: um repórter privilegiado, que a via pelo lado de dentro; e um repórter engajado, porque era um militante da causa estudantil.

.... Nesse dia 8 de Abril, levantou-se cedo, fardou-se e encaminhou-se para a Rua Larga, com uma grande ânsia de saber a atitude dos rapazes. O nevoeiro denso que cobria a Alta da cidade mal deixava ver ao fundo, junto à Porta Férrea, a mancha negra e compacta da multidão de estudantes, que, silenciosa, se estendia desde a Rua de São João. Os cavalos da guarda passavam, em trote indeciso, para um e para outro lado. A polícia invadira a Via Latina e os Gerais ... nenhum estudante, salvo um ou outro padre ou militar, entrara na Universidade ... “A greve era, pois, geral e solene”.

greve 1907 tres.jpg

Ilustração Portuguesa, n.º 55, de 11.3.1907

... Foi depois à esquadra da Alta, onde estavam os estudantes presos na madrugada anterior ... expulsos, que, por força da decisão do Conselho de Decanos que os punira disciplinarmente, haviam sido compelidos a sair da cidade e que a ela não podiam regressar, tinham tentado entrar discretamente em Coimbra ... Na Baixa, todos falavam do brilhantismo da greve. No Lusitano – café que era o ponto de encontro dos republicanos na Calçada – e no passeio em frente, discutiam-se, permanentemente e com grande animação, as incidências da greve. Do outro lado da rua, os franquistas, no seu pouso do costume, às portas da Havaneza, mostravam-se furiosos. Nas montras de algumas lojas da Baixa exibia-se, “numa bela fotogravura com dizeres encomiásticos por baixo”, o retrato de José Eugénio Dias Ferreira, “pobre vítima amarrada ao poste da celebridade” ... No dia 10 de Abril, na Calçada, liam-se com avidez e discutiam-se os discursos feitos nas Câmaras no dia anterior .. Na noite seguinte, os estudantes expulsos foram libertados e conduzidos de comboio para Lisboa ... Houve manifestação de estudantes na estação e muitos dos manifestantes invadiram o comboio e acompanharam-nos até Pombal

... A animação crescente nos cafés da Baixa, particularmente no Lusitano, onde os rapazes se concentravam para saberem as novidades, para discutirem os acontecimentos do dia

... Sobre os estudantes caía agora todo o tipo de pressões: dirigentes da Sociedade Filantrópica Académica ameaçavam estudantes protegidos de lhes não ser concedida ajuda no ano letivo seguinte, se fossem grevistas ... Comandante de Infantaria 23, convocava os cadetes, para lhes recordar que, faltando aos atos, não lhes seria renovada a licença; o Reitor chamava os estudantes que eram também professores de liceu, para lhes sugerir que fizessem declarações de repúdio à greve, sob pena de lhes retirar as licenças que os liceus lhes haviam concedido para estarem em Coimbra; até o Bispo-Conde levou à demissão um professor do Seminário, que era também estudante de Teologia, que se recusou a aceitar as pressões que sobre ele exercia. 

... E esse nome – pulhas – foi o que ficou colado aos estudantes que furaram a greve académica de 1907. Nas noites seguintes, cantava-se em coro no Lusitano uma cançoneta, cuja letra começava assim: “Para poder furar a greve/ Todo o pulha mete, mete (bis)/ Requerimento p’ra acto./ Mete, mete/ Mete, mete/ Em novecentos e sete./

Ribeiro, V.A.P.V. 19. 2011. As memórias de Belisário Pimenta. Percursos de um republicano coimbrão. Dissertação de Mestrado em História Contemporânea. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Pg. 21 a 31

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por Rodrigues Costa às 09:42

Segunda-feira, 27.03.17

Coimbra: a Questão Académica de 1907 1

... a grande aglomeração de rapazes, que descia a escadaria, (da Via Latina) soltando frases de indignação, encabeçada por um pequeno grupo que erguia em ombros o licenciado José Eugénio Dias Ferreira. Aquela multidão de estudantes saiu pela Porta Férrea, meteu pela Rua Larga e desceu para a Baixa e, sempre a engrossar, seguiu para a Arregaça, para casa de José Eugénio, onde se ouviram discursos inflamados.

Dias Ferreira fora tratado de forma indigna e reprovado por unanimidade no ato de conclusões magnas, o que já se prenunciava, pois corria na cidade o rumor de que o doutorando – que na sua tese adotara uma metodologia positivista e exarara uma dedicatória a Teófilo Braga – seria reprovado.

 Esse foi o rastilho que fez rebentar o grave conflito que ficou conhecido como a questão académica de 1907.

A assembleia magna da academia, reunida nessa noite, deliberou a falta às aulas no dia seguinte. O Governo de João Franco, reagindo desproporcionadamente, fez publicar, logo no dia 2 de Março, um decreto que suspendeu as atividades académicas até que fossem julgados os processos disciplinares a instaurar, relativos aos acontecimentos. O subsequente encerramento da Universidade e o envio de fortes contingentes policiais para Coimbra transformou aquilo que começou por ser apenas um incidente referido à reprovação de Dias Ferreira em um movimento reivindicativo de âmbito muito mais vasto, que se insurgia contra o anquilosamento da instituição universitária e reclamava a reforma profunda dos estudos.

Greve de 1907.jpg

... a deslocação a Lisboa de uma delegação da academia de Coimbra, encabeçada por António Granjo e composta por mais de quatrocentos estudantes, mandatada para apresentar ao Governo e ao presidente da Câmara dos Deputados exposições críticas sobre o ensino universitário, deram projeção nacional à questão académica. A causa coimbrã foi secundada pelas instituições universitárias de Lisboa e do Porto e pelos estudantes dos liceus. Os deputados republicanos, especialmente António José de Almeida, levaram o debate sobre a crise académica e sobre o ensino à Câmara dos Deputados e Hintze Ribeiro interpelava o Governo sobre a questão na Câmara dos Pares ... Bernardino Machado, figura de grande prestígio, que, por solidariedade para com os estudantes expulsos, pedira a exoneração do seu cargo de professor catedrático da Faculdade de Filosofia ... Confiando no efeito dissuasor das penas disciplinares decretadas, João Franco determinou que a Universidade reabrisse no dia 8 de Abril.

Enganou-se. A greve geral foi plenamente retomada a partir desse dia e a solidariedade com a Academia de Coimbra estendeu-se às escolas superiores de Lisboa e do Porto. Na semana seguinte, o Governo mandou encerrar todos os estabelecimentos do ensino superior e técnico do país. E, em 18 de Abril, foi nomeado ... um novo Reitor.

 ... O decreto de 23 de Maio veio definir os termos para encerramento de matrícula e admissão a exame. O mesmo diploma vedava a permanência na cidade de Coimbra aos estudantes que aí não residissem com as suas famílias ou que não frequentassem os cursos livres, então improvisados. Oitocentos e oitenta e seis estudantes, submetidos a pressões de múltipla ordem, acabaram por requerer exame. Os que se negaram até ao fim a fazê-lo – os Intransigentes – foram cento e sessenta.

O decreto de 26 de Agosto de 1907 veio comutar as penas de expulsão em repreensão e censura e permitir a submissão a exames a todos os que o pretendessem. Apesar da sua meia-derrota, a luta generosa desta geração de estudantes ficou gravada na memória da Academia.

Ribeiro, V.A.P.V. 19. 2011. As memórias de Belisário Pimenta. Percursos de um republicano coimbrão. Dissertação de Mestrado em história Contemporânea. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Pg. 19 a 21

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por Rodrigues Costa às 10:19

Quinta-feira, 06.10.16

Coimbra e as suas personalidades: Belisário Pimenta

Belisário Pimenta nasceu em 3 de Outubro de 1879 ... prédio com o número 11 da Praça do Comércio, a velha praça burguesa da Baixa coimbrã.  A sua primeira canção de embalar foi o ronronar cadenciado das máquinas da tipografia do avô materno, instalada nos dois andares de baixo.

... Na sessão em que ingressou na Academia Portuguesa de História, em 28 de Janeiro de 1966, Belisário Pimenta apresentou-se como “homem do Século Dezanove" ... Ansiando pelas grandes batalhas, Belisário Pimenta não perdia de vista que a luta se travava também noutros patamares, ainda que menos decisivos. Empenhava-se no movimento para instalação em Coimbra do Jardim-Escola João de Deus ... Participou na instalação da delegação de Coimbra da Sociedade da Cruz Vermelha ... Foi membro da Sociedade de Propaganda e Defesa de Coimbra.

... No Verão de 1900, concluídos os preparatórios na Universidade, foi admitido na Escola do Exército

... Era no Lusitano, nas longas conversas com os seus amigos republicanos, que retemperava o ânimo. Ia do quartel diretamente para lá, muitas vezes ainda com a farda de serviço ou até, como no dia da visita do Rei a Coimbra, de grande uniforme, causando escândalo entre os oficiais talassas, frequentadores do passeio em frente, do outro lado da Calçada.

Os passeios da Calçada não deixavam margem para equívocos ou para manifestações dúbias. Ali, os campos estavam rigorosamente definidos. O Tenente Belisário Pimenta, oficial do Exército e do Regimento de Infantaria n.º 23, nunca largava o Lusitano e nunca ia ao outro passeio. E fazia questão nisso: “O passeio do Lusitano é dos republicanos, tendo como pontos de concentração o café, a relojoaria do Ferreira; ao passo que o passeio do outro lado, do lado da Havaneza, é dos monárquicos, tendo como pontos de reunião principais a Havaneza para a gente fina, intelectuais, a casa das máquinas Singer para os oficiais do exército talassas e a farmácia Donato para uma certa gente ociosa, franquistagem reles e alguns oficiais correspondentes.”

... No Domingo, dia 9 (de Outubro de 1910), foi chamado ... ao gabinete do Governador Civil, este puxou-o para uma das varandas que davam para o Largo da Feira e fez-lhe a proposta que já esperava. Belisário Pimenta alinhou todos os argumentos que pôde para evitar o que entendia vir a ser um desastre. Mas Fernandes Costa opôs-lhe que o momento não era azado para dúvidas e que “achava pouco patriótico e pouco próprio de um republicano não fazer um sacrifício […] quando a República nascente precisava de todos” ... ao descer as escadas do Governo Civil, já com a posse tomada (de Comissário da Polícia de Coimbra) e com o alvará dobrado no bolso, deu ordem ao primeiro guarda que viu para que houvesse, daí a pouco, formatura geral do corpo de polícia, para fazer a sua apresentação. A corporação esperava-o, formada por esquadras no claustro ... Depois dos lugares comuns, fez-lhes “uma antevisão do que seria o serviço policial com o regime democrático, simples missão de cordura e de paz, com prestígio e força moral, com delicadeza e respeito.”  

... Por essa altura, em 1932, já Belisário Pimenta dedicava preferencialmente o seu trabalho de investigação à história militar ... legou à Biblioteca Geral da Universidade Coimbra a sua livraria, os arquivos pessoais e a coleção dos seus originais autógrafos ... Aí, está disponibilizado, para além de um conjunto de 67 fotografias obtidas a partir da coleção de negativos de vidro que faz parte do legado, o acervo de originais manuscritos.

 

Ribeiro, V.A.P.V. 19. 2011. As memórias de Belisário Pimenta. Percursos de um republicano coimbrão. Dissertação de Mestrado em história Contemporânea. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Pg. 7, 8, 14, 39, 43, 57, 119

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por Rodrigues Costa às 09:02

Quarta-feira, 05.10.16

Coimbra: a Implantação da República 3

No Centro Dr. José Falcão, à Praça Velha, havia sessão permanente, em que se discutia, normalmente com veemência, tudo o que as novas autoridades republicanas faziam. Alguns dos filiados recentes – em que se contavam antigos monárquicos, convertidos de fresco à República – eram os discursadores mais acalorados. Ao contrário de Fernandes Costa, que, com o seu temperamento calmo, fazia por ignorar as atividades do Centro, Belisário Pimenta entendia que havia ali gente de “pouco senso”, convencida que “aquilo já não era o velho Centro Eleitoral, mas sim uma verdadeira Convenção”. Era sobre ele, na sua condição de Comissário, que recaíam os dissabores que resultavam do aventureirismo ali estimulado. Por sugestões saídas das exaltadas sessões do Centro, faziam-se assaltos à mão armada, arrombavam-se portas, faziam-se buscas – como aconteceu na Quinta de São Jorge, propriedade de um velho republicano do Porto, na Quinta das Varandas e na da Malavada –, tudo sem qualquer fundamento, mas sempre com o pretexto de se procurarem jesuítas escondidos. Naquelas semanas, em que se viveu numa atmosfera de suspeição e de balbúrdia, chegavam constantemente ao Comissariado informações que denotavam preocupação com uma eventual atividade conspirativa de monárquicos. Eles, que não se haviam de resignar à derrota, favorecidos pela benignidade do novo regime, pareciam já refazer-se da surpresa.

... Belisário Pimenta, num ou noutro caso, mandava vigiar os denunciados, mas, em geral, os avisos não tinham consistência e as averiguações não alcançavam resultados. Não podia confiar tais serviços à Judiciária – a polícia da secreta, como era geralmente conhecida –, constituída por homens vindos da Monarquia e, quase todos, ali colocados por monárquicos influentes. Encarregava das tarefas de vigilância “certos rapazes considerados republicanos sérios” ... Mas até estes lhe mereciam algumas reservas: as suas informações pareciam-lhe, muitas vezes, francamente fantasiadas.

No dia 16, ao fim da tarde, Belisário Pimenta foi procurado ... nessa noite ou na manhã seguinte, a Falange Demagógica iria deitar umas bombas na Universidade, “para acabar com aquilo”. A Falange Demagógica era um grupo aguerrido de estudantes anarquistas ... Ao ouvir que os estudantes escalariam as grades da Porta de Minerva e derramariam petróleo para incendiarem a Biblioteca e a Secretaria, reagiu vivamente...tranquilizou, dizendo-lhe que isso era apenas um desejo que não concretizariam, porque o grupo só queria meter um susto aos professores da Universidade ... naquela tarde na Universidade: foram lançadas bombas nos urinóis, ao fundo do corredor da capela; no vestiário dos professores, foi tudo desarrumado e foram levadas algumas borlas doutorais; na Sala dos Capelos, foram dados tiros no retrato de D. Manuel II, que foi também atingido por uma faca, que lhe causou um rasgão na tela; e foram destruídas as cátedras solenes das aulas.

... Num dos primeiros dias de Novembro, tomou posse como Governador Civil o Dr. Cerqueira Coimbra ... Terminada a cerimónia da tomada de posse do novo Governador Civil, Belisário Pimenta apresentou-lhe o seu pedido de demissão ... a sua presença no Comissariado se vinha tornando pouco desejada por alguns republicanos “vejo-me obrigado a ir embora, antes que a tal vox populi [a mesma que correu em 6 de Outubro, anunciando que ele seria nomeado Comissário] me ponha fora. E com motivos: eu não encontrei conspiração alguma, nas buscas realizadas, que fornecesse talassas para a cadeia ou até, quem sabe, para a forca; eu não mandei prender todo e qualquer indivíduo que coerentemente manifestasse desagrado à República […]; eu lançava baldes de água fria sobre a chama ardente do entusiasmo jacobino. […] julgo do meu dever ir embora. […] É um lugar sobre o qual caem as mais violentas e desencontradas opiniões, de forma que é de um equilíbrio, se não impossível, pelo menos difícil como todos os diabos. […].”

 

Ribeiro, V.A.P.V. 19. 2011. As memórias de Belisário Pimenta. Percursos de um republicano coimbrão. Dissertação de Mestrado em história Contemporânea. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Pg. 63 a 69

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por Rodrigues Costa às 08:52

Terça-feira, 04.10.16

Coimbra: a Implantação da República 2

Nos dias seguintes, correu pela cidade que Belisário Pimenta fora nomeado Comissário da Polícia ... No Domingo, dia 9, ... ao descer as escadas do Governo Civil, já com a posse tomada e com o alvará dobrado no bolso, deu ordem ao primeiro guarda que viu para que houvesse, daí a pouco, formatura geral do corpo de polícia, para fazer a sua apresentação. A corporação esperava-o, formada por esquadras no claustro, com a Judiciária à esquerda e os chefes à frente ... Depois dos lugares comuns, fez-lhes “uma antevisão do que seria o serviço policial com o regime democrático, simples missão de cordura e de paz, com prestígio e força moral, com delicadeza e respeito.”

 ... Teve também visitas de vários oficiais da guarnição, de gente dos jornais e de um ou outro professor da Universidade ... Para além de toda esta gente, que lhe tirava tempo, mas cujas felicitações aceitava com agrado, caíram-lhe no gabinete os que queriam aparecer às janelas que davam para a Rua Larga no “tu cá, tu lá com uma autoridade republicana” e alguns monárquicos, que, com à-vontade, pediam emprego ou compaixão. E até a Júlia, patroa de meretrizes, vestida à moda e com um grande chapéu de plumas, se apresentou ao novo Comissário.

 ... Governo Provisório, já no dia 8 de Outubro, havia decretado a repristinação das leis anti congreganistas do Marquês de Pombal e de Joaquim António de Aguiar, revogado o decreto de 18 de Abril de 1901 (que permitira a reconstituição, sujeita a condições restritivas, das ordens religiosas

... Em Coimbra, o povo, cioso da Revolução, via inimigos em todo o lado. Corria que padres jesuítas fugidos se acoitavam em vários pontos da cidade. 

Logo ao fim do dia em que tomara posse ... constava que, à uma da manhã, haveria assaltos de populares à Quinta de São Jorge e ao Convento de Santa ... Perto da meia-noite, meteram-se num carro fechado, a caminho de Santa Clara. Logo no Largo da Portagem, à entrada da ponte, um grupo armado fê-los parar. Estudantes, operários, comerciantes, caixeiros, todos com as golas dos casacos levantadas, que a noite estava fria, e apalpando o bolso das calças onde tinham o revólver, cercaram o carro. Alguns, de arma na mão, meteram a cabeça pela portinhola. Ao verem o Governador Civil e o Comissário, perderam o ar feroz que haviam tomado e deixaram seguir o carro. Umas dezenas de metros mais à frente, surgiu outro grupo ameaçador e a cena repetiu-se. Já na escuridão do rossio de Santa Clara, de trás das árvores e das sebes dos taludes, saíram vultos, que rodearam o carro, agitados e afagando as coronhas das pistolas. Depois de um deles se ter chegado à portinhola a inquirir, tudo sossegou. Mas, nesta altura, Fernandes Costa, já impaciente, não resistiu a perguntar: “Olhe lá: para que é tanta coisa?”. O cabecilha do grupo de vigilância, quase indignado, respondeu-lhe: “Então não sabe que há tanto padre fugido e escondido? Por aqui, não passam eles!”.

... o carro seguiu até à Quinta de São Jorge. No “jesuítico casarão”, tudo era sossego e escuridão e nada denunciava que alguém por ali estivesse escondido.

... No dia 10, já o povo de Coimbra murmurava por as autoridades não terem dado ainda cumprimento ao decreto de 8 de Outubro ... Na tarde desse dia 10, Fernandes Costa e Belisário Pimenta foram a Santa Clara. Depararam-se com uma multidão, que, de má catadura e debaixo de chuva, enchia o pátio do convento. Ao passarem em direção à portaria, do ajuntamento popular vinham frases de advertência: “Tenham cuidado, que há padres! Acautelem-se com as traições!” ...  A vistoria demorava já mais de uma hora, quando o polícia que ficara de guarda à portaria mandou recado a Belisário Pimenta, pedindo-lhe que viesse à entrada. A multidão que se comprimia no exterior do convento soltou um brado de alívio e satisfação, ao ver aparecer ao portão o Comissário. A demora fizera imaginar uma emboscada traiçoeira, na escuridão dos infindáveis corredores ... foram recebidos com vivas e manifestações de alegria. Fernandes Costa tranquilizou a multidão, informando que as freiras partiriam, mas que, por razões humanitárias, se lhes daria tempo para arranjarem as suas coisas. Daí a três ou quatro dias, todas as freiras de Santa Clara foram embora, para Vigo.

 

Ribeiro, V.A.P.V. 19. 2011. As memórias de Belisário Pimenta. Percursos de um republicano coimbrão. Dissertação de Mestrado em história Contemporânea. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Pg. 57 a 61

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por Rodrigues Costa às 10:33

Quinta-feira, 29.09.16

Coimbra: a Implantação da República 1

No dia 4 de Outubro (de 1910), quando (Belisário Pimenta) se despedia ... ouviram ambos de um empregado da Estação que o comboio não viera, porque em Lisboa havia revolução. Os dois oficiais olharam um para o outro, sem saber o que dizer: “Era a revolução, finalmente!”. Seguiram-se “dois dias e duas noites de uma ansiedade horrível. […] nada se sabia, andávamos a perguntar notícias uns aos outros.”            

Ao Comité (Militar de Coimbra), reunido de urgência desde as dez da manhã do dia 4, chegara a notícia do assassinato de Miguel Bombarda, mas nada fora comunicado sobre o movimento insurrecional... No dia 5, à tarde, Belisário Pimenta meteu-se em casa, dividido entre o desânimo e a esperança de que aquela demora prenunciasse a vitória dos republicanos. Por volta das quatro e meia da manhã do dia 6, chegou a Coimbra a notícia da proclamação da República em Lisboa ...  “pela madrugada, foguetório, músicas, vivas, chegaram aos meus ouvidos como aos olhos de um náufrago deve aparecer o porto salvador! Era a República, caramba! “

Os vivas que Belisário Pimenta, com comoção, ouvia naquela madrugada soltavam-se de uma manifestação popular, que se formara em Santa Clara e vinha engrossando no seu percurso pelas ruas da cidade. A multidão aclamava a República e os seus homens ...  “Quando, na madrugada de 6 de Outubro de 1910, o povo redemoinhava por aí, alegre e triunfante, […] lembrou-se de vir, em turba, cantando e gritando, até à minha rua solitária e, parando em frente da minha casa, exigiu que eu aparecesse. Cheguei-me ao alpendre da entrada e vi a turba enchendo de lado a lado a calçada; uma filarmónica rouquejava como podia A Portuguesa e quando eu andava aos abraços e rebolões por entre todos, alguém gritou:  – Viva o nosso comissário!  Não olhei para quem lançou o grito traiçoeiro, porque me pareceu ter a visão [premonitória] da tortura de dois meses e tanto; mas ouvi a multidão repetir com força: – Viva! Viva!

... Nesse dia 6, às duas da tarde, nos Paços do Concelho, foi solenemente proclamada a República Portuguesa na cidade de Coimbra. Do Auto de Proclamação consta que, estando reunida a Câmara Municipal, sob a presidência de Sílvio Pélico Lopes Ferreira Neto, vice-presidente em exercício, deram entrada na sala de sessões Francisco José Fernandes Costa, já na qualidade de Governador Civil do Distrito, nomeado pelo Governo Provisório, e António Cândido de Almeida Leitão, administrador interino do concelho de Coimbra. O novo Governador Civil fez, então, uma alocução perante a numerosa assembleia, que, por entre manifestações de adesão e entusiasmo, terminou pela aclamação solene do Governo da República Portuguesa. De seguida, o Dr. Fernandes Costa dirigiu-se à multidão que se encontrava frente aos Paços do Concelho, que acolheu as suas palavras com brados patrióticos e vibrantes vivas à Pátria e à República Portuguesa.

O Auto de Proclamação foi assinado pelos Vereadores destituídos, por Fernandes Costa e Almeida Leitão, e por mais de trezentos cidadãos, que estavam presentes ou que pediram para o assinar.

Ribeiro, V.A.P.V. 19. 2011. As memórias de Belisário Pimenta. Percursos de um republicano coimbrão. Dissertação de Mestrado em história Contemporânea. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Pg. 54 a 57

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por Rodrigues Costa às 10:20

Terça-feira, 16.02.16

O passado e o presente da Canção de Coimbra como Oferta Turística, 6.ª feira 18h00

 

Ciclo de conversas: Canção de Coimbra – Cultores e Repertórios
No âmbito da animação do Núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra do Museu Municipal, instalado na Torre de Anto, promovida pela Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra

Primeira sessão: 19 de Fevereiro de 2016, 6.ª feira, pelas 18h00, na Torre de Anto

Tema: O passado e o presente da Canção de Coimbra como Oferta Turística
A decorrer em dois tempos: o primeiro em que será abordada, de uma forma necessariamente muito simples o que se julga ser a informação teórica mínima para uma discussão adequada do tema; um segundo tempo, o de debate, em que se procurarão alcançar algumas conclusões.

Responsável pela reflexão e animação do debate: Rodrigues Costa
Nascido na Alta de Coimbra, liderou a equipa que organizou e realizou os primeiros Seminários de Fado. Professor jubilado do ensino superior, na área do turismo.

 

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por Rodrigues Costa às 10:38


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