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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 02.01.18

Coimbra: Retábulo-mor da igreja da Graça

Colégio de Nossa Senhora da Graça, de Eremitas Calçados de Santo Agostinho, mais conhecidos por gracianos. Fundado e dotado por D. João III, em 1543, já a igreja se encontrava pronta de arquitetura em 1555. Os frades gracianos foram os introdutores em Portugal do culto e das procissões dos Senhor dos Passos. Também em Coimbra se realizou esta procissão durante séculos, percorrendo as ruas da Baixa. Dela resta o passo da Verónica junto à igreja de S. Bartolomeu. Após a extinção das ordens religiosas foi a igreja entregue à Irmandade do Senhor dos Passos e a parte colegial ao Exército.

Na fachada da igreja sobressai o portal de linhas clássicas, encimado por um nicho com a escultura de Nossa Senhora do Pópulo, feita por Diogo Jacques, em 1543. O espaço interior ordena-se numa única nave abobadada e capelas nos flancos que comunicam entre si. Nestas se encontram interessantes retábulos da época rococó, mas é o retábulo-mor que imediatamente se impõe, preenchendo por completo a cabeceira da igreja. 

Nelson C Borges Ig. Graça.JPGIgreja da Graça, retábulo-mor

 Assenta num soco de cantaria, onde se podem ver alguns símbolos marianos, acompanhados de inscrições. Apresenta uma estrutura predominantemente arquitetónica com colunas emparelhadas que se sucedem em três andares, numa conceção ainda inteiramente maneirista. Porém a escultura começa a adquirir aqui o protagonismo que irá ter mais tarde na época barroca, no terço inferior das colunas, no remate retabular e na predela, onde figuram religiosos e religiosas da ordem. 

N.S.Graça.JPG

 Imagem de Nossa Senhora da Graça

Também no primeiro andar se abrigam em nichos esculturas de Nossa Senhora da Graça e de Santo Agostinho vestido de eremita, de boa proporção e execução. No centro deste primeiro corpo do retábulo vê-se ainda uma tela do século XIX, representando o encontro de Cristo com a Virgem no caminho do calvário. Oculta ou ocultou o trono eucarístico, ainda sem a monumentalidade que viria a adquirir em tempos posteriores. Toda esta alentada obra de talha e marcenaria deve datar dos anos imediatamente anteriores a 1644. O seu executor deverá ter sido o marceneiro francês Samuel Tibau.

            O segundo e terceiro corpo do retábulo servem de moldura a seis telas com a data de 1644, executas por Baltazar Gomes Figueira, constituindo o núcleo mais importante da sua obra conhecida e podem ser consideradas uma obra-prima. Baltazar Gomes Figueira fez a sua aprendizagem essencial em Sevilha, onde absorveu a linguagem naturalista que se observa nestas suas telas. Ao tempo deveriam ter sido novidade e motivo de admiração numa cidade ainda presa ao formalismo maneirista. Transmitiu também o gosto pela pintura a sua filha Josefa de Óbidos que, em fama, acabaria por ultrapassar o pai.

            No segundo corpo do retábulo podemos admirar a “Imaculada Conceição”, o tema central da “Anunciação” e o “Nascimento da Virgem”; no terceiro, a “Visitação”, a “Coroação” e o “Repouso na fuga para o Egipto”. São cenas encantadoras, de desenho seguro e tonalidades diversificadas, infelizmente escurecidas pelo tempo. Os gracianos quiseram aqui prestar culto e homenagem à sua padroeira e conseguiram-no de uma forma superior.

O retábulo da Graça é o mais mariano e um dos mais monumentais de Coimbra e deve continuar a suscitar admiração e veneração.

Borges, N.C. 2017. O retábulo-mor da igreja da Graça, em Coimbra. In Correio de Coimbra, n.º 4672, 14.12.2017.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Sexta-feira, 30.12.16

Coimbra: as Festas e o Passeio Público 2

Em Coimbra, o Jardim Botânico era local aprazível. No Colégio das Ursulinas que lhe ficava contíguo, principalmente em Maio, à tarde, praticava-se a devoção do mês de Maria, o que, o tornava de passagem obrigatória. As damas, envergando os seus melhores trajos, piedosamente, dirigiam-se à igreja, a fim de tomar parte naquela devoção mariana e os cavalheiros, molemente encostados às grades, viam-nas passar, outorgando com a sua presença a organização de tômbolas e festejos. Além dos agradáveis momentos de ócio que estes proporcionavam, permitiam ainda auxiliar qualquer obra de caridade. Em 1899, o Dr. Júlio Henriques, ilustre director daquele Jardim, mandou vir bambus das nossas colónias, afim de construir, na alameda principal, mesmo em frente ao edifício de S. Bento, um coreto onde a música pudesse executar algumas peças do seu repertório. Colmatava desta forma a lacuna que em Coimbra existia, porque tanto o do Cais como o da Quinta de Santa Cruz se encontravam degradados. Esperava-se, contudo, que brevemente fossem reformulados, até porque as filarmónicas da cidade já haviam solicitado à câmara autorização para tocar aos domingos nos referidos coretos. A construção do Botânico alegrou os janotas do tempo e, segundo constava, iria ficar «muito elegante e de excelente gosto» .

Cá em baixo, mesmo junto ao rio, desde 1887 que se transformava lentamente o largo espaço do Cais das Ameias num belo Passeio Público, com canteiros ajardinados e maciços de verdura. Colocava-se o gradeamento do lado do rio e empedravam-se os passeios. Coimbra, no dealbar do século XX, totalmente desfasada até já da capital, aspirava ver concluídas estas obras que lhe permitiriam usufruir, pela disposição, aproveitamento, frescas sombras e formoso panorama, de um dos melhores Passeios Públicos da província . Dirigia os trabalhos o Eng. Jorge de Lucena .

Fazer construir um coreto decente era tarefa que urgia, até porque, realmente, aos domingos a banda exibia-se e, para tal, utilizava aquela ruína a que impropriamente se atribuía tal denominação .

Mas as obras do Cais prosseguiam lentamente, não só porque as dotações camarárias e estatais eram mínimas, como também porque por vezes as desviavam e, em 1902, aquando da efectivarão das festas da Rainha Santa, trabalhava-se ainda febrilmente a fim de as conclui , o que não se verificou .

E toda a imprensa citadina continuava a insistir na necessidade de erguer no novo Passeio Público um coreto que estivesse à altura dos pergaminhos do burgo. Não como aqueles que normalmente se levantavam por ocasião da romaria do Espírito Santo ou da passagem por Coimbra de qualquer personalidade ilustre , arquitectura efémera, logo desmontada e eventualmente destruída após ter servido o fim a que se destinava, mas algo de sólido, duradouro e artístico, procurando honrar o autor e prestigiar a edilidade promotora da construção.

A fim de satisfazer o povo de Coimbra e lhe proporcionar uma distracção de que já desfrutavam outras terras portuguesas com muito menos habitantes, a câmara presidida pelo Dr. Dias da Silva deliberou na sessão de 25 de Junho de 1903 aprovar o orçamento para a construção do envasamento do «encantado» coreto afim de, posteriormente, lhe ajustar um pavilhão de ferro que não podia ultrapassar os 358$563 réis

Anacleto, R. 1983. O coreto do parque Dr. Manuel Braga em Coimbra, In Mundo da Arte, 14, Coimbra, 1983, p. 17-30, il., sep. Pg. 5 a 7

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por Rodrigues Costa às 09:44

Quarta-feira, 28.12.16

Coimbra: as Festas e o Passeio Público 1

Coimbra, nos finais do século passado (século XIX) e inícios deste, apenas saía da pacatez que a envolvia, quando festejava qualquer santo da sua devoção ou se realizavam as tradicionais feiras. Também os grandes acontecimentos nacionais, ou a visita de qualquer personalidade, a mais das vezes política, faziam alterar o quotidiano das gentes do burgo, intelectuais e artífices que, grosso modo, se movimentavam na cidade em quadrantes espaciais diferentes. Os primeiros, gravitavam em torno da velha alcáçova, enquanto os segundos se haviam instalado na zona baixa, já fora de portas, em ruas estreitas, que se desenvolviam circularmente em volta dos muros carcomidos pelos anos.

Dentro da mentalidade europeia que norteou a Revolução Industrial e que só tardiamente se fez sentir no nosso país e mormente em Coimbra, a indústria começou a assentar arraiais e a dar frutos ... Divertimentos e espectáculos infiltraram-se lentamente na vida das pessoas. A mentalidade romântica que se estendeu entre nós para além dos limites do razoável, encontrou eco tanto na burguesia endinheirada como na nobreza decadente. E se as iniciativas chegavam já a Lisboa com um certo atraso em relação ao resto do velho continente, essa diferença, em Coimbra, ainda mais se jazia sentir.

A capital, através da iniciativa particular, ergueu em 1792-93 o Teatro de S. Carlos ... Na cidade mondeguina só um século depois, aquando do loteamento da Quinta de Santa Cruz, se formou uma sociedade de homens ligados ao mundo dos negócios com a finalidade de construir um Teatro-Circo .

Entretanto os costumes haviam-se modificado: as diversões e os passeios entraram no quotidiano. Vir à rua tornou-se um hábito e já não eram só os homens que o faziam, porque as mulheres também deixaram de sair de casa apenas para se deslocar à igreja.

Na capital, deambulava-se pelo miradouro de S. Pedro de Alcântara e pelo jardim do Príncipe Real antes da feitura do Passeio Público , ideia do Marquês de Pombal, concretizada pelo lápis de Reinaldo Manuel, fechado por grandes muros, qual cerca conventual, a que dava acesso uma alta cancela verde ... Toda a melhor sociedade da capital ali marcava ponto de encontro: burguesia e nobreza. As festas aconteciam com uma certa regularidade e eram, no verão, o grande atractivo de Lisboa. Às velas de cebo, tigelas de azeite e balões venezianos sucedeu-se o deslumbramento da iluminação a gás. As atracções eram numerosas e variadas: a música tocava no coreto, lançava-se fogo de artifício e exibiam-se, entre outras, cançonetistas, funâmbulos e bailarinos.

Se entretanto em Lisboa a moda do Passeio Público decaiu e a sua demolição se processou a partir de 1883, outro tanto se não pode dizer ao que acontecia na província. Aqui, a moda chegou, muito mais tarde e, consequentemente, a mentalidade que a acompanhou também já era outra: servia mais gentes, os muros e as grades desapareceram, era aberto e muito mais modesto. A música tocava, quase sempre de tarde, no coreto, rodeado de bancos, que se erguia no meio de um recinto aprazível e ajardinado. Todos iam ouvir a banda e, segundo os seus interesses e a sua cultura as pessoas agrupavam-se. A ocasião, além de servir para descontrair o espírito, permitia a troca de impressões, o acertar de um negócio e, porque não, o nascer de qualquer idílio.

Anacleto, R. 1983. O coreto do parque Dr. Manuel Braga em Coimbra, In Mundo da Arte, 14, Coimbra, 1983, p. 17-30, il., sep. Pg. 1 a 4

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por Rodrigues Costa às 20:01


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