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A' Cerca de Coimbra


Sexta-feira, 15.03.24

Conversas Abertas: Mikveh em Coimbra, resultados da escavação arqueológica

É já – de hoje a oito dias, na 6.ª feira, dia 22 de março, às 18h00 – que no Arquivo da Universidade de Coimbra, as Conversas Abertas irão prosseguir, com uma palestra em que serão apresentados os resultados das escavações arqueológicas, realizadas no único vestígio construtivo conhecido, da desaparecida comunidade judaica de Coimbra, localizado na Rua Visconde da Luz.

Recordo que uma «mikveh» é um tanque onde é recolhida a água de uma nascente, que serve para a realização de uma cerimónia de purificação, por imersão em água, praticada na religião judaica.

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Cartaz da palestra

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Folha de sala a distribuir na palestra, 1

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Folha de sala a distribuir na palestra, 2

 

A entrada é livre e após uma introdução do tema pelo palestrante seguir-se-á o habitual tempo de discussão com os assistentes.

Pedimos a ajuda de todos na divulgação deste evento.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:38

Quinta-feira, 15.02.24

Coimbra: Personalidades, Jorge Gomes 3

Conclusão do texto de Manuel Campos Coroa sobre Jorge Gomes.

Jorge Gomes começou por ensinar jovens a tocar guitarra na sua casa, mas logo em 1971 foi convidado para integrar um projeto pedagógico de forma mais intensa e estruturada, no edifício das antigas piscinas municipais da cidade, em consequência de mais uma notável iniciativa do Dr. Fernando Mendes Silva, que criou a escola onde o mestre ensinou várias dezenas de alunos de ambos os sexos. Esta iniciativa passou também pela ACM, num esforço alargado de revitalização da música popular de Coimbra.

Em 1978, na sequência do 1º seminário do fado, a Camara Municipal de Coimbra criou a chamada Escola do Chiado, pela mão do Dr. António Rodrigues Costa e coordenação pedagógica de Jorge Gomes, onde também lecionou Fernando Monteiro.

JG 8 primeiros_alunos_escola_fado_chiado.pngJorge Gomes e alguns dos primeiros alunos da Escola de Fado do Chiado. Igreja de Santa Cruz, capela de S. Teotónio. 1979

JG 9 toze_moreira_primeiros_alunos_escola_fado_chiTozé Moreira, um dos primeiros alunos da Escola de Fado do Chiado. 1979

JG 10 seminario_fado_coimbra.pngJorge Gomes com alunos da Escola de Fado do Chiado. II Seminário do Fado, serenata na Sé Velha. 1979

Esta escola, que funcionou no edifício camarário da rua Ferreira Borges, começou a “produzir” com regularidade uma grande quantidade de jovens guitarristas, violistas e cantores, com muita qualidade, num tempo em que era necessária uma dose reforçada de coragem, pela necessidade de combater uma ideia (errada), que começou a ser estabelecida na cidade, de certo modo, logo no período da crise académica de 1969, mas com um impacto muito maior durante o período revolucionário (PREC), em que tudo o que se relacionasse com guitarras e canto tradicional era considerado reacionário. Os elementos dos grupos que ousavam fazer serenatas de rua, eram frequentemente vítimas de agressão física, ou insultados porque os consideravam saudosistas do Estado Novo.

Os jovens desse período, honra lhes seja feita, nunca tiveram medo e não pararam as atividades. A escola camarária continuaria a funcionar, mudando de instalações para a ladeira do Carmo e mais tarde para o Centro Norton de Matos, sempre coordenada por Jorge Gomes, até que foi abruptamente encerrada, sem que se desse qualquer explicação aos alunos já inscritos, ou mesmo aos monitores. As razões deste encerramento, embora conhecidas, nunca foram frontalmente assumidas pelos responsáveis políticos da época.

No início da década de 80, mestre Jorge Gomes estende a sua atividade, ao sindicato dos Bancários, à escola de música do Colégio de São Teotónio, e também à AAC, mais concretamente à TAUC e à Secção de Fado, onde inicialmente esteve também Fernando Monteiro.

Esta fase, foi a mais produtiva do percurso de Jorge Gomes no ensino da guitarra, da viola e do canto. Preparou ali instrumentistas às centenas e consequentemente, uma quantidade enorme de grupos de canção de Coimbra, com alto nível artístico, que projetaram de uma forma notável todo o esplendor do património musical da academia e da cidade, através de incontáveis espetáculos “Urbi et Orbi”.

Mestre Jorge Gomes é um homem de fortes convicções e personalidade, que se manteve fiel à forma de ensino tradicional da guitarra, com comprovadíssima e incontestável eficácia. 

Dono de uma generosidade notável, ensinou tudo o que sabia a todos os alunos que julgou merecedores. Nada lhe dá mais satisfação do que saber que os seus alunos brilham pelo seu mérito, e quanto mais novos forem melhor. Por isso reagiu sempre às tentativas (mais ou menos explícitas) de desvalorização do mérito que pertence aos alunos e decorre da sua própria dedicação, talento e inteligência.

Dedicou a maior parte da sua vida ao ensino da guitarra de Coimbra, motivado unicamente pelo serviço à causa, sem nunca se servir dela em benefício próprio. Foi muitas vezes incompreendido e criticado por quem acha a sua metodologia desadequada face ao ensino formal da música.

Uma personalidade que fez muitos e bons amigos, mas criou, por outro lado, fortes anticorpos e também alguns inimigos, mas nunca deixou de ser fiel a si próprio, Jorge Gomes soube manter uma total Independência face aos poderes instituídos e por isso, nunca foi passível de instrumentalizar.

A intolerância que sempre teve, à introdução de ornamentação instrumental excessiva nos acompanhamentos e de alguns trejeitos no canto, mais próprios de outras regiões do País, levou a que alguns sectores menos cultos da atividade, o acusassem de fundamentalismo e até de ser um anacrónico travão da “evolução” para a modernidade.

É fundamental compreender que a intenção e a força interpretativa da palavra cantada, a emoção da poesia, reforçada com a adequação e a qualidade nos acompanhamentos, é o que tem que passar para quem ouve. Por isso, tudo o que contribua para “distrair” o ouvinte do essencial, é, na estética da canção de Coimbra, totalmente dispensável.

Tocar guitarra e cantar Coimbra, não pode transformar-se em mero exibicionismo circense ou em feiras de vaidade.

Quando o ouvinte consegue abstrair-se das figuras que cantam ou tocam e se centra emocionalmente na mensagem, mais perto estaremos da perfeição.

A evolução da música de matriz coimbrã, acontecerá de forma independente das vontades, das ambições pessoais, das modas ou de simples circunstâncias conjunturais.  Apenas o tempo, na sua sabedoria, separará o “Trigo do Joio“ e ditará o que sobrevive no futuro.

Ao que julgo saber, nenhum dos grandes protagonistas da história da canção de Coimbra, trabalhou com a intenção de procurar o estrelato, ou teve sequer consciência durante o processo criativo, da importância que o futuro lhes concedeu.

Mestre Jorge Gomes foi, durante muitas décadas um verdadeiro guardião do património musical popular de Coimbra, muito particularmente da sua guitarra, garantindo através da transmissão oral direta e do ensino tradicional, a sobrevivência de um tesouro cultural inestimável, de uma forma absolutamente excecional.

Os resultados falam por si. Não conheço outra escola que se lhe compare, seja na qualidade ou na quantidade dos intérpretes que produziu.

Encerrou definitivamente a sua atividade de ensino na Secção de Fado da AAC, em março de 2020, por ocasião do confinamento determinado pela pandemia de Covid-19.

Infelizmente, mais do que o fator idade, foi em grande medida o ambiente de facilitismo instalado na cidade e na academia, com uma crescente falta de ética, grande desrespeito pelas exigências técnicas e estéticas, que foram decisivas para que o Mestre não voltasse.

O fenómeno de crescente mercantilização da música de Coimbra, que caminha a passos largos para uma certa “globalização” descaracterizadora, pouco exigente no gosto e no rigor, protagonizada pelos que se servem da arte para obtenção de lucros e/ou notoriedade pessoal a todo o custo, é manifestamente incompatível com os valores morais e éticos, de homens com a verticalidade do Mestre Jorge Gomes.

Na cultura, como na biologia, é imperativo defender a diferença, as especificidades regionais e locais, porque a beleza da arte também reside na diversidade e a Humanidade precisa do belo.

Serão as forças vivas da cidade, capazes de garantir a sobrevivência deste legado cultural, com a indispensável independência face a interesses conjunturais de qualquer natureza?  Seremos capazes de defender e preservar este tesouro cultural?

Ficam as perguntas.

 Coimbra, 28 de janeiro de 2024

Manuel Campos Coroa

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por Rodrigues Costa às 10:39

Terça-feira, 13.02.24

Coimbra: Personalidades, Jorge Gomes 2

Continuação do texto de Manuel Campos Coroa sobre Jorge Gomes.

Jorge Gomes, persistiu no seu método pedagógico por mais de 5 décadas e nunca deixou morrer em Coimbra o legado de Artur Paredes, que de contrário seria, na minha opinião, mais um génio esquecido no tempo.

Identifica como seus mestres, Fernando Rodrigues (irmão de Flávio), José Rodrigues, bem como os estudantes Octávio Sérgio, Arménio Serrão Assis e Santos, a que se somavam também alguns outros guitarristas com quem convivia.

O instrumento que hoje possui, foi-lhe vendido em 1959 por Octávio Sérgio, que o tinha comprado na casa de Olímpio Medina. É uma Guitarra de Coimbra em pau-santo da Baía, da lavra do mestre guitarreiro João Pedro Grácio Júnior, sua companheira de incontáveis serenatas e gravações, que o acompanhou durante a comissão militar em Angola e que iria mais tarde emprestando a alunos de sucessivas gerações, que ainda não tinham guitarra própria, possibilitando-lhes assim a aprendizagem e o uso em eventos especiais.

Integrou como instrumentista vários grupos de canção de Coimbra, a começar pelo grupo em que se estreou, tocando viola, numa serenata realizada no antigo colégio Camões (à Av. Dias da Silva), acompanhando os guitarristas Manuel Pais e Frias Gonçalves, com  Fernando Ermida no canto, até ao Grupo Folclórico de Coimbra, passando também por muitos outros agrupamentos de destaque.

Para referir apenas alguns grupos que Jorge Gomes integrou no seu extenso percurso musical, destaco um com David Leandro, outro com o guitarrista/cantor Manuel Branquinho (com quem gravou em estúdio), mas também com os amigos António Ralha e Manuel Dourado, acompanhando regularmente cantores como Serra Leitão, Raúl Diniz, José Manuel dos Santos, Armando Marta, ou também, de forma pontual, Fernando Rolim, ou Glória Correia, entre muitos outros intérpretes.  

Durante vários anos, foi 2º guitarra no grupo liderado por António Pinho Brojo, com Aurélio Reis e Manuel Dourado nas violas, acompanhando o cantor José Mesquita, em espetáculos e gravações de estúdio.

Gravou como violista os discos, Fogueiras de São João I e II, editados pelo Grupo Folclórico de Coimbra,

JG 5 grupo_folclorico_coimbra_passo_fundo.png

Grupo Folclórico de Coimbra, com Jorge Gomes na guitarra de Coimbra. Comemorações dos 500 anos da descoberta. do Brasil, junto ao monumento a Pedro Alvares Cabra, em Passo Fundo, Brasil. 2000.

mas também outros editados pela Secção de Fado da AAC, como “Olhar Coimbra”, integrando à guitarra o grupo “Árreum Pórreum” com temas de música futrica ou ainda o disco da Secção de Fado “Coimbra, Baladas Fados e Guitarradas”, em que gravou a peça de sua autoria “Maio de 78“, composta no edifício Chiado em homenagem ao retomar das tradições académicas, que resultou das conclusões extraídas do primeiro seminário do fado, realizado naquela data no auditório da reitoria da UC.

JG 6 JorgeGomes e Alunos S.F. Santa Cruz.jpgJorge Gomes com alunos da Secção de Fado da AAC. Abril de 2005.

JG 7 JorgeGomes e Alunos S.F. Santa Cruz  2.JPGJorge Gomes com alunos da Secção de Fado da AAC, no café de Santa Cruz. Inícios dos anos 2000.

A sua dimensão pedagógica, é sem sombra de dúvida a que mais se destaca, pelo enorme talento natural para a transmissão de conhecimentos, mas essencialmente porque ensinou sempre de forma dedicada, com um visível gosto pessoal e verdadeira vocação, quer a música quer a História, disciplina em que é licenciado pela FLUC e que lecionou durante anos no colégio de S. Teotónio.

Pude testemunhar em frequentes ocasiões, a grande cumplicidade que se estabelece naturalmente com os jovens e adolescentes com quem se relaciona, acrescentando ao trabalho técnico, alguns episódios de sã brincadeira, que contribuem  de forma decisiva para o fortalecimento dos laços de amizade para a vida.

Os seus alunos de guitarra, para além da aprendizagem técnica e estética da música de matriz coimbrã, absorveram quase sem dar conta, com frequência à volta de uma mesa de lanche ou refeição, conceitos absolutamente essenciais para a correta compreensão e o indispensável enquadramento histórico-cultural das atividades artísticas, promotores de uma formação de base sólida, que estimula de forma decisiva, o sentimento coletivo de pertença.

Mestre Jorge Gomes é, na minha opinião e na de muitas dezenas de cultores, o maior vulto do ensino da guitarra de Coimbra de sempre. Pelo abrangente conhecimento da cultura, da história,  pela consciência da grande importância do contributo para a arte, daqueles que foram passando pela cidade em busca de conhecimento e por  cá deixaram as mais diversificadas influências e que muito contribuíram para o enriquecimento deste “caldo de cultura” que se chama Coimbra, influenciando de forma muito particular a música, nas suas vertentes académica e futrica, elas próprias, verdadeiramente indissociáveis.

O cerne do ensino de Jorge Gomes na arte de bem tocar a Guitarra de Coimbra, reside na transmissão rigorosa de uma técnica de dedilhação apoiada da mão direita, em que polegar e indicador percutem as cordas utilizando em simultâneo a unha (que não deverá ser demasiado comprida, nem ter forma de palheta)  e a polpa dos dedos, ficando estes, ato contínuo, apoiados nas cordas imediatamente adjacentes, quase sempre no uso do polegar e na flexão do indicador, favorecendo desta forma a consistência, a intensidade e a qualidade das notas musicais, o que, aliado à destreza da mão esquerda, contribui de forma decisiva para a qualidade do som extraído da guitarra, que é uma das principais características diferenciadoras no toque da guitarra de Coimbra,   em que Jorge Gomes é exímio.

Importa esclarecer, que não foi Jorge Gomes o “inventor” destas técnicas, mas sim Artur Paredes, como se poderá constatar pela leitura da obra do amigo e 2.º guitarra, Dr. Afonso de Sousa: “O canto e a guitarra na década de oiro da Academia de Coimbra (1920-1930)” – Coimbra Editora 1986.

 Conclusão na entrada seguinte.

 Coimbra, 28 de janeiro de 2024

Manuel Campos Coroa

 

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por Rodrigues Costa às 10:39

Quinta-feira, 08.02.24

Coimbra: Personalidades, Jorge Gomes 1

Conheço Jorge Gomes há largos anos. A sua personalidade assenta em duas vertentes, a de um homem vertical e forte nas suas convicções e um acrisolado amor ao ensino e preservação do Fado de Coimbra. Lembro o tempo em que tantos “meteram a viola no saco” e ele continuar firme e destemido na defesa de uma das razões de ser da sua vida.

È, de inteira justiça, integrar a galeria das Personalidades de Coimbra.

O texto de hoje da autoria de Manuel Campos Coroa, é o primeiro de uma série de três entradas, sobre um percurso de vida ímpar.

 Falar sobre o Dr. Jorge Gomes, é falar num bom amigo e mestre, com quem mantenho há várias décadas uma proximidade diária, numa relação que extravasa em muito o universo da Guitarra de Coimbra, mas não existiria sem ela.

Fazê-lo para corresponder a um desafio do Dr. António Rodrigues Costa, transforma estas linhas numa tarefa tão irrecusável quanto difícil, porque apela a um exigente poder de síntese, que confesso não ter.

JG 1 jorge_gomes.png

Jorge Gomes

Não me é possível falar do Mestre, sem um olhar pluridimensional sobre o Homem, o Professor e o Músico, na sua relação afetiva com o universo histórico-cultural da sua Coimbra natal.

Jorge Luiz da Costa Gomes, nasceu em Coimbra no dia 19 de julho de 1941 e cá vive desde sempre, com exceção do período em que cumpriu o serviço militar obrigatório, com passagem por Angola. Mantém uma memória remota notável, com grande capacidade de evocação de factos e personalidades do passado, identificando os protagonistas e acontecimentos com grande clareza.

Viveu a sua infância e adolescência na travessa de Moura e Sá, em Montes Claros, na companhia de seus pais e irmã, de onde posteriormente se mudariam para a rua Verde Pinho.

Foi neste ambiente, onde pontificou a influência familiar, que se forjou Homem de honestidade a toda prova, verdadeiramente desprendido de interesses materiais e convictamente avesso ao elogio da própria personalidade.

Na Escola Primária de Almedina, foi colega de carteira e amigo, do malogrado Fernando Frias Gonçalves, que seria também um talentoso guitarrista com quem partilhava o interesse e a aptidão para a música, em particular para os instrumentos de corda, em que o genial guitarrista Artur Paredes era referência maior.

JG 2. Filhos da Madrugada - Casa de Coimbra no Alg

 Fernando Frias Gonçalves na viola, Jorge Godinho e Eduardo Melo na guitarra e José Miguel Batista, no canto. Finais dos anos 60. Imagem acedida em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=2040525446055952&set=pcb.2040525472722616

Jorge Gomes, revelou desde jovem uma grande habilidade manual, começando mesmo por fabricar os seus próprios instrumentos, ainda que muito rudimentares, usando para isso (às escondidas), tábuas e fios metálicos, que o pai usava no fabrico de resistências para fogões elétricos. Eram “instrumentos-brinquedo”, que embora muito primários, permitiam já a afinação das “cordas” e a formação de acordes musicais,  no que seriam os primeiros passos para mais tarde construir  as suas próprias guitarras e sobretudo uma viola toeira de Coimbra, que ofereceu ao Dr. Manuel Louzã Henriques, depois do desaparecimento (em 1981) do guitarreiro Raúl Simões, último construtor e tocador conhecido de violas toeiras, de que já não havia na época qualquer exemplar tocável .

JG 3 viola_toeira.pngViola toeira construída por Jorge Gomes, 2003 c.

Esta viola toeira construída por Jorge Gomes, pode ainda hoje ser vista na coleção de instrumentos populares do Dr. Lousã Henriques.

A necessidade de aprender a tocar de forma mais sistematizada a guitarra de Coimbra e o violão de acompanhamento, rapidamente se impôs.

A primeira guitarra que teve, foi-lhe oferecida por uma tia, que, notando o entusiasmo e o talento do rapaz para a música, a decidiu comprar na casa Olímpio Medina, por ocasião da conclusão do ensino primário e ingresso no Liceu.

Só que o Pai, Joaquim Flório Gomes, homem dedicado ao trabalho, eletricista muito solicitado pela sua competência técnica e honestidade, via na guitarra uma grande fonte de distração do filho e pensava que o largo tempo que lhe dedicava, o iria prejudicar no cumprimento das obrigações escolares.

Nestas circunstâncias, não lhe sendo possível treinar em casa, restou a solução de levar o instrumento para casa do amigo Frias Gonçalves, no Tovim, para que este lhe fosse dando uso durante a semana.

Aos fins de semana, principalmente aos sábados de tarde, lá ia o Jorge sempre a correr até ao Tovim, o mais depressa que podia, ausentando-se muitas vezes (sorrateiramente) das atividades desportivas da mocidade portuguesa, para aproveitar também a sua guitarra com o Frias.

Ouviam ambos, repetidamente, nos discos de 78 rpm e nas fitas magnéticas, as variações do ídolo, Artur Paredes, usando “apenas” os ouvidos para tentar descobrir os segredos da execução, tentando aperfeiçoar o mais possível a própria técnica, na busca da maior aproximação possível à excelência interpretativa do Mestre.

JG 4 Artua Paredes.jpgArtur Paredes. Acedido em: https://www.bing.com/images/search

Tarefas exigentes e trabalhosas aquelas, em que era preciso distinguir o que era tocado pelo solista (1ª guitarra), do que provinha da guitarra de acompanhamento (2ª guitarra) ou mesmo de cada um dos violões (normalmente 2). É de salientar, que as gravações que normalmente usavam eram de muito baixa qualidade e não dispunham de quaisquer recursos técnicos adicionais.

Devemos ao Jorge Gomes e a alguns outros jovens da mesma geração, o podermos hoje usufruir de verdadeiras obras primas da guitarra de Coimbra, de grande rigor técnico na execução.

Mesmo os jovens do século XXI, que se ora dedicam ao estudo da guitarra e da vasta obra de Artur Paredes e outros autores,  recorrem a avançados programas informáticos e aplicações de telemóvel, que possibilitam a rigorosa audição de cada nota, ou de pequenas frases musicais de forma repetida, lenta e sem qualquer desafinação tonal, o que possibilita identificar rigorosamente muitos detalhes e mesmo “erros” de transcrição por vezes apontados ao mestre, mas que eram virtualmente impossíveis de perceber sem estes recursos.

Coimbra, 28 de janeiro de 2024

Manuel Campos Coroa

Continua na entrada da próxima 3.ª feira.

 

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por Rodrigues Costa às 16:14

Terça-feira, 23.01.24

Personalidades de Coimbra: Francisco Faria

Francisco de Assis Ferreira de Faria (S. Paio de Seide, 1926 – Coimbra, 2022) numa entrevista realizada 15 de Setembro de 2009 (https://ria.ua.pt/bitstream/10773/1227/1/2010000612.pdf) recorda que já tinha nascido em S. Paio e os nossos pais passaram de S. Miguel para S. Paio por necessidade de vida. Eles eram “agrários”, o trabalho deles era o campo e em S. Miguel de Ceide não havia proprietários que dessem trabalho, então S. Paio de Ceide é que era a freguesia dos lavradores, por isso também era uma Freguesia de gente mais abastada. S. Miguel era uma freguesia de gente mais pobre.

Estas origens humildes não impediram um percurso notável.  Sem nunca esquecer de onde vinha, tonou-se num conimbricense por adoção, figurando com inteira justiça na lista das Personalidades de Coimbra.

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Francisco Faria, maestro

Na edição do “Campeão das Províncias” de 14 de novembro de 2022, é recordado como “um homem extraordinário que merece toda a nossa consideração e respeito”, conforme afirmou Paulo Oliveira, presidente do Coro dos Antigos Orfeonistas da UC. Também Manuel Rebanda sublinhou que Francisco Faria era “uma referência da advocacia em Coimbra”.

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Francisco Faria, advogado

Na página da net https://www.meloteca.com/portfolio-item/francisco-faria/ é assim recordado por Gil Tocantins Figueiredo. A sua personalidade e temperamento marcaram todos aqueles que com ele conviveram. O Humanismo e o Cristianismo que ele cultivava fizeram-no abraçar muitas causas em vários setores tendo-se isso refletido também no plano profissional onde atingiu níveis de excelência – Distinto Advogado (primus inter pares) durante alguns anos integrou o Conselho Superior da Magistratura.

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Francisco Faria, membro do Conselho Superior da Magistratura

Como musicólogo de reconhecida competência foi professor de História da Música na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e, para muitos um dos melhores diretores artísticos de música coral – nas suas mãos os coros não cantavam, interpretavam. Coimbra bem pode agradecer tudo o que ele fez pela música coral e também pela etnomusicologia (que o digam os Grupos Folclóricos do Concelho de Coimbra).

Nesta área sou testemunha do trabalho que desenvolveu em prol da música e, em particular, do seu esforço permanente na divulgação da música do patrono do Grupo, D. Pedro de Cristo, bem como em situar a música de seu irmão o compositor P.e Manuel Faria, no lugar a que, por direito próprio, lhe é devido. Sempre aberto a responder graciosamente aos pedidos de ajuda que lhe fizemos para diversas iniciativas, há a destacar a sua participação na Comissão de Analise dos Grupos Folclóricos, onde foi figura de destaque quer no separar o tripo do joio, quer em passar para pautas as músicas recolhidas pelos grupos. 

A atribuição, em 1986 da medalha de vermeil da Cidade de Coimbra de mérito cultural, sempre achei pouco para agradecer o muito trabalho realizado, pelo que considero que a Autarquia ainda tem uma dívida de gratidão a saldar para com esta Personalidade de Coimbra.

Sendo polifacetada a atividade desenvolvida por Francisco Faria, aquela pela qual ficou mais conhecido pelos conimbricenses, como recorda o próprio Coro na já referida página https://www.meloteca.com/portfolio-item/francisco-faria/, O Dr. Francisco Faria não foi só o fundador do Coro D. Pedro de Cristo e o seu extraordinário Diretor artístico durante 39 anos, mas também um Homem carismático, de princípios, com uma generosidade intrínseca, reconhecida por todos quantos o conheceram de perto. Ele foi o “rosto”, a marca de qualidade do Coro D. Pedro de Cristo durante 39 anos.

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Francisco Faria, fundador e maestro do Coro D. Pedro de Cristo

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Coro que continua a ser um grupo de referência não só a nível nacional, como mesmo internacional e que tanto tem honrado o País pela qualidade que, sempre, apresenta.

Rodrigues Costa

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:47

Sexta-feira, 19.01.24

Coimbra: Conversas Abertas 2024

Inicia-se na próxima 6.ª feira dia 26, às 18h00, na sala D. João III, do Arquivo da Universidade de Coimbra, a primeira das Conversas Abertas 2024, uma série de sete palestras, a decorrerem nas últimas 6.ªs feiras dos próximos meses, até junho, sempre à mesma hora, onde os assistentes são convidados a participar e nas quais serão abordados os seguintes temas: evolução das freguesias da cidade, o mikved e a comunidade judaica na Cidade, as habitações coimbrãs no século XV, a história do Instituto, a fotografia na cidade no século XIX e a Bio-Reserva do Senhora da Alegria.

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Folha de sala da primeira Conversa Aberta 2024

Esta série, será iniciada pelo P. Doutor Nuno Santos que abordará o tema “Seminário Maior de Coimbra”.

Seminário 01 RA.jpgSeminário Maior de Coimbra. Imagem da coleção RA

Fig. 13. Órgão da Igreja da Sagrada Família.pngSeminário Maior de Coimbra. Capela. Teto e órgão

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Seminário Maior de Coimbra. Corredor

Ao convidar a participar todos os que gostam de se debruçar sobre a história de Coimbra, também pedimos a sua ajuda na divulgação destes eventos.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:03

Sexta-feira, 12.01.24

Coimbra: Conversas Abertas, retomam o caminho

As Conversas Abertas reiniciam-se, na 6.ª feira, dia 26 de janeiro, às 18h00, tendo como palestrante o P. Doutor Nuno Santos.

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Como ocorreu nos últimos anos, as Conversas decorrerão nas últimas sextas feiras, dos meses de janeiro a junho, sempre à mesma hora, com entrada livre, na sala D. João III, do Arquivo da Universidade de Coimbra.

AUC. Fachada 2.png

Eis o cartaz desta Conversa.

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Relembro que após a intervenção do Palestrante, é usual abrir um período de debate onde todos poderão colocar as suas questões.

Para os que costumam assistir e para os que nunca participaram aqui fica o convite para estarem presentes.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:02

Quinta-feira, 04.01.24

Coimbra: Milésima entrada do blogue A’Cerca de Coimbra

A fim de assinalar a milésima entrada do blogue “A’Cerca de Coimbra”, entendemos, em jeito de balanço, solicitar a alguns dos qualificados leitores habituais, um breve comentário sobre o caminho já percorrido.

Pela nossa parte comprometemo-nos a prosseguir o trabalho encetado, enquanto a saúde nos permitir, embora admitamos introduzir alguns ajustamentos que se considerem pertinentes.

Aos Autores dos comentários, apresentados por ordem alfabética, simplesmente, o nosso muito obrigado.  

Rodrigues Costa

 

António Cabral de Oliveira

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Faz anos que sou frequentador assíduo, sempre com renovado interesse e o maior provento, de A’Cerca de Coimbra, o blog de Rodrigues Costa que, com coerência e determinação, tanto tem contribuído para o aprofundamento dos saberes sobre esta cidade – e seu termo –, também para um maior enraizamento do que alguns, poucos, ainda chamam, imagine-se, de orgulho coimbrão.

A ele recorro, sistematicamente, precioso auxiliar numa vida dedicada ao jornalismo, sobretudo de proximidade, para fonte confiável, não raro inspiradora, esclarecer dúvidas, ganhar conhecimentos, melhor me entrosar na realidade histórica e quotidiana de Coimbra.

A quem goste de Coimbra, de conhecer mais intrinsecamente a sua cidade, recomendo, como leitura obrigatória, uma circunstanciada e permanente consulta do blog. É indizível, em verdade, o quanto se aprende, o tanto que havia – há sempre – ainda por descobrir.

Gosto de visitar o site. Só lhe falta, mas talvez um dia, sistematizadamente, o alcance, o toque que a materialidade do papel propicia, aquele resto de cheiro a tinta que nos arrebata no livro.

Dispensado de encómios pessoais – em nome da consideração, respeito e amizade que há décadas nos une –, obriga-me, contudo, uma palavra de grande elogio, na simplicidade que só poucos alcançam, ao trabalho desenvolvido, persistência da regularidade, à excelência alcançada.

Por ocasião da entrada milésima, parabéns, Rodrigues Costa, pelo empenhamento e persistência afirmados. E, permitindo-me falar não apenas a título pessoal, um bem-hajas por mais um serviço, enorme – se isto não é servir Coimbra, não sei, então, o que o será – à cidade que nos enleva.

Longa vida – queira Deus – para nossa inteira vantagem pessoal, essencialmente enquanto inquebrantável esteio na defesa dos superiores anseios de Coimbra, ao A’Cerca de Coimbra.

António Cabral de Oliveira

 

Carlos Ferrão

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Promover a Cultura é um desafio interminável, que convoca o melhor da inteligência humana a surpreender-se sobre o passado, agir no presente e preparar-se para o futuro.

Durante séculos o mais importante veículo de disseminação da cultura escrita, era o papel em livros, revistas, jornais ou panfletos. O seu uso foi posto em causa durante muito tempo e com o início da era digital, "a morte do papel" tornou-se um conceito plausível de ser discutido por vários teóricos e especialistas, trazendo novos domínios vantajosos, como a mobilidade, a pesquisa, a edição e a partilha.

Com a utilização maciça do computador, o uso do papel não foi totalmente suplantado, mas surgiram espaços próprios e originais para a escrita e apareceram novas ou diferentes convenções do texto que revolucionaram a própria escrita.

A escrita eletrónica e o texto digital parecem potenciar, de facto, a diferenciação de géneros e audiências. No atual contexto de publicação, estão contemplados os textos digitais, os websites, os chats, as redes sociais e em particular os blogs.

Os blogs passaram a ser o “coração” de uma estratégia em ambiente web, uma vez que, dirigidos a audiências especificas e segmentadas, alimentam as redes sociais e permitem a interação entre o editor e o leitor.

Aqui chegados, escolhida a ferramenta para criar e editar e a plataforma de alojamento, o blog “A’ Cerca de Coimbra”, faz o seu primeiro “post” em 15 de Maio de 2015, para um amplo projeto de partilha cultural.

Apoiado na História, na Sociologia ou a Antropologia, e focado no património material e imaterial faz despertar a atenção dos leitores para a enorme e rica herança cultural que a cidade possui, e passou a ser um espaço de excelência onde se procura, ou conquista o saber em conteúdos de qualidade e consistência e onde se encontra uma porta aberta para opinar.

“A’ Cerca de Coimbra”, regista neste mês de dezembro a sua 1000ª entrada. Não pode deixar-se passar em claro este tão relevante facto, e destacar o seu importante papel na transmissão de conhecimento que a partir de um enorme trabalho continuo de investigação, enriqueceu e continua a enriquecer a comunidade.

Parabéns ao Dr. Rodrigues Costa, fundador e editor do blog “A’ Cerca de Coimbra”, pelo empenho e por esta importante conquista que alcançou e faz acreditar que no mundo virtual, esta é uma forma real e transparente do que deve ser a divulgação da cultura.

Venham mais 1000, 2000 ou 3000 “postagens”!

Carlos Ferrão

 

Isabel Anjinho

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Numa época em que todos fazem blogues, mesmo que sejam “blogues acerca de nada”, como pude constatar recentemente, é justíssimo enaltecer e falar um pouco sobre o blogue A’Cerca de Coimbra, iniciado em Maio de 2015, na sua milésima entrada.

Mas, em primeiro lugar, uma palavra sobre o seu autor, António Rodrigues Costa, que me honra com o tratamento por “Filha”, de que já não prescindo. Homem de convicções, “salatina” de gema, na sua modéstia pouco fala sobre os altos cargos que desempenhou na Câmara Municipal de Coimbra, nomeadamente de Vereador e Director de Cultura. Durante a sua passagem pela Praça 8 de Maio, um dos legados que nos tentou deixar e que, infelizmente, os que o seguiram não entenderam manter, foi o saudoso Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra. E talvez tenha sido a sensação de um trabalho não reconhecido, nem na sua maioria continuado e até mesmo por vezes deliberadamente escondido, que o levou a encetar este magnífico blogue sobre a história de Coimbra. Nesta empreitada, a que se propôs, esteve apoiado pelos Amigos de sempre, Regina Anacleto e Nelson Correia Borges (permitam-me não usar os títulos, sobejamente conhecidos, dos três protagonistas desta história).

O blogue A’Cerca de Coimbra teve o seu começo em 13 de Maio de 2015, sendo o seu objectivo “recolher referências à cidade do Mondego existentes em obras publicadas e divulgá-las utilizando os recursos que as novas tecnologias disponibilizam”.

Bem organizado, por datas e/ou por temas, apresenta uma escrita clara e objectiva, com as “fontes bibliográficas” sempre no final de cada entrada. A sua leitura é um prazer, sendo igualmente um excelente auxílio à investigação. De facto, basta recorrer ao índice de “tags” para, rapidamente, se chegar ao assunto desejado.

De entre tudo o que pude ler no blogue, destaco uma entrada, de 20 de Setembro de 2022, que me impressionou, pelo implícito grito de dor do autor, que o levava a quebrar a sua tão característica descrição no que respeitava aos cargos desempenhados: «... A sua consulta levou-nos a constatar que nesse Inventário [da Documentação de Turismo no AHMC ] se encontra omitido a esmagadora maioria de um significativo número de processos respeitantes ao período situado entre 1974 e 1983, processos esses que se encontravam devidamente organizados e arquivados e que patenteavam evidente e relevante interesse histórico. Em suma, os anos [entre 1977 e 1988] em que tive a honra de dirigir aqueles serviços [municipais de turismo] foram, pura e simplesmente ignorados». Percebemos, depois, que a documentação referente a esses anos simplesmente desaparecera do conjunto arquivístico a tratar, razão porque não pudera ser incluída.  Seria da maior justiça a revisão dessa publicação bem como um agradecimento público, por parte da edilidade ao António Rodrigues Costa.

Isabel Anjinho

 

Mário Araújo Torres

Mário Torres a.jpg

Iniciado em 13 de maio de 2015, o blogue «A’ Cerca de Coimbra», criado e mantido ao longo de quase nove anos por António Rodrigues da Costa, um reconhecido especialista apaixonado por assuntos conimbricenses, atinge a sua milésima publicação.

Nascido na Couraça dos Apóstolos, “na casa da Cerca, adossada à muralha”, “muito jovem, aos 16 anos, tive como primeiro emprego a responsabilidade de dactilografar os difíceis originais do historiador de Coimbra, Dr. José Pinto Monteiro, que rapidamente também me encarregou de fazer pesquisas, nomeadamente nesse magnífico jornal que foi «O Conimbricense». Nasceu daí o meu gosto pela história de Coimbra.” (publicação de 20 de maio de 2015).

Aplicou-se ao longo dos anos, no seu blogue, a dar a conhecer dados sobre a história de Coimbra, recolhendo e divulgando as informações que ia coligindo, enquanto leitor compulsivo que sempre foi. 

Se as primeiras publicações quase se limitaram à reprodução de breves extratos das obras que ia lendo, com o tempo foram aumentando em extensão e enriquecidas com informações bibliográficas e pertinentes imagens.

É insuscetível de enumeração nesta breve nota a quantidade e variedade dos temas tratados, sempre centrados em Coimbra: as vicissitudes da sua história, a origem e beleza dos seus monumentos, as suas paisagens e tradições, as suas personalidades (do Conde Sesnando a José Afonso), a sua bibliografia.

Acresce a pertinência, a riqueza e a qualidade das ilustrações, sempre com a preocupação de indicação das fontes.

E, por último, o completo domínio dos instrumentos informáticos, com inserção de palavras-chave que, com um clique, nos remetem para os textos que tratam as centenas de temas, e um índice cronológico das publicações.

Por ocasião da milésima publicação de “A’ Cerca de Coimbra?”, os seus leitores agradecem a António Rodrigues da Costa o seu ingente esforço e aguardam que finalmente as autoridades municipais manifestem publicamente o seu reconhecimento.

Mário Araújo Torres. 

 

Regina Anacleto

aa. Regina Anacleto.jpg

O blogue “A’ Cerca de Coimbra”, da responsabilidade do Dr. Rodrigues Costa, começou a ser publicado em 2015 e regista hoje a sua 1000.ª entrada.

Esta plataforma digital tinha e continua a ter como objetivo principal a divulgação de temas de recorte específico, maioritariamente relacionados com a história da cidade de Coimbra.   

Utilizando textos de múltiplos autores, sempre devidamente identificados, o blogue procura estabelecer uma conexão profunda com o leitor, disponibilizando-lhe, através desta forma de comunicação, conhecimentos diversificados e, por vezes, de difícil acesso. Para estimular esse diálogo vivo com o público, os textos são, sempre que possível, acompanhados de imagens ilustrativas dos conteúdos.

No blogue, o seu responsável procura dar uma visão global da história da urbe, caldeando textos mais antigos com publicações atuais, portadoras de novas visões e achegas. A História não é uma ciência estática. Está em constante movimento face a novos achados e a novas interpretações, resultantes, algumas vezes, das modernas tecnologias colocadas à disposição do investigador. Convém esclarecer que a perfeição é inatingível e que ninguém consegue saber tudo nem dizer tudo. Por isso, o facto de o Dr. Rodrigues Costa se encontrar umbilicalmente ligado à sua cidade natal e ao estudo da sua história alia-se, no seu blogue, a uma perceção clara dos movimentos da História e do modo como se articulam com a história local.

Saliente-se, de resto, neste contexto, que a história local, durante longos anos ostracizada, tem vindo a despertar o interesse dos investigadores, desde meados do século XIX, na exata medida em que contribui para um mais profundo entendimento da História (em sentido global), tornando-se num precioso auxiliar capaz de aportar múltiplos esclarecimentos aos campos político, económico, social e mental. Os indivíduos, assim como as sociedades, procuram preservar o passado como um guia que serve de orientação para enfrentar as incertezas do presente e do futuro.

Acrescente-se ainda, na esteira da dinâmica deste blogue, que a memória coletiva de uma determinada população estende-se aos territórios onde vive, aos seus monumentos, aos vestígios do passado e do presente, aos seus problemas, à cultura material e imaterial e, também, às pessoas.

De tudo isto dá conta “A’ Cerca de Coimbra”.

Por isso, na ocasião da publicação desta 1000.ª entrada do blogue “A’ Cerca de Coimbra”, não podemos deixar de parabenizar o Dr. Rodrigues Costa pela transmissão de tão grande volume de saber relacionado sobretudo com a cidade do Mondego e de salientar o enorme esforço de criteriosa investigação a que a publicação em causa o tem obrigado.

Resta-nos esperar a possibilidade de continuar a aprender com tão pertinentes ensinamentos.

Regina Anacleto

 

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por Rodrigues Costa às 11:01

Quinta-feira, 21.09.23

Coimbra: Reservatório de água do Jardim Botânico

Prosseguindo na divulgação do texto do Professor Doutor Amado Mendes, inserido na brochura Abastecimento de água a Coimbra: Reservatório do Botânico, dedicamos esta entrada à referida estrutura, conhecida de muitos poucos.

Aquando dos primórdios do abastecimento domiciliário de água a Coimbra, cujo sistema primitivo foi instalado em 1888 e entrou em funcionamento em meados de 1889, como se disse já, foram construídos dois reservatórios: um na Cumeada (considerado o principal e que se mantém em funcionamento), destinado ao abastecimento da zona mais elevada da cidade; o outro (especial, segundo os termos do contrato), na Cerca de São Bento / Jardim Botânico, que desde há anos se encontra desativado.

RB. Reservatório do Botânico.jpg

Reservatório do Jardim Botânico, na atualidade. Foto RC

 O primeiro, localizado a uma cota de108 m, era o principal e enquadra-se na classificação de grande, pois a sua capacidade ultrapassa os 5000 m3. Por seu lado, o segundo, a uma cota de 50 m, era de média dimensão, pois tinha a capacidade de 3000 m3.

RB pg. 7.jpgReservatório do Jardim Botânico (desativado) Op. cit., pg. 7

Como são raros os reservatórios enterrados desativados, o do Jardim Botânico é um belo exemplar do património industrial da água, pelo que se reveste da maior relevância histórica e científica, suscetível de despertar interesse no âmbito do turismo cultural, a nível não só local, mas também nacional e internacional.

No que toca à sua localização, verificou-se uma certa hesitação inicial, não só pela natureza da respetiva área (parte integrante do Jardim Botânico, com toda a carga histórica e científica), mas também pela pouca adequação do terreno ao fim em vista. Aliás, praticamente na altura em que o sistema de abastecimento de água a Coimbra estava prestes a entrar em funcionamento (primeira metade do ano de 1889), já se manifestavam preocupações acerca da consolidação da estrutura. Com efeito, pode ler-se em ata camarária, acerca de alguns aspetos do empreendimento:

«Consolidação dos terrenos, na cerca de S. Bento, junto à casa das máquinas, que ameaçavam desmoronar-se; colocação de um portão de ferro no Arco da Traição, para serventia do reservatório das águas das zonas média e baixa da cidade»". Numa outra ata volta a focar-se o assunto, apontando as deficiências: «não foram construídos anexos da casa das máquinas; os reservatórios perdem quantidades de água assinaláveis; o reservatório das zonas média e baixa [Reservatório do Botânico] está ameaçado por desabamento de terras; o terreno vizinho ameaça escorregar por não ter sido drenado; não funcionam os indicadores elétricos de níveis de água».

RB. pg. 8.jpg

Op. cit., pg. 8

… Uma observação atenta do Reservatório do Botânico permite-nos observar, «in loco», parte do que geralmente é referido nas publicações da especialidade e, bem assim, na própria legislação que enquadra este género de estruturas.

Comecemos pelo exterior.

Aqui destaca-se uma pequena construção (em alvenaria e tijolo e com janelas), à qual o Presidente da Câmara Municipal de Coimbra se referia como a "casa das máquinas", na qual estava instalado o equipamento de controlo do Reservatório. Embora de pequenas dimensões, uma vez que já não alberga equipamento e que acaba de beneficiar de obras de consolidação, manutenção e restauro, esta pequena “casa” pode ser utilizada pra diversas funções culturais:   espaço de exposições permanentes ou temporárias), centro de interpretação (sobre o património hidráulico da cidade e do próprio Botânico, local de realização de atividades lúdico-pedagógicas, etc.).

No amplo espaço envolvente, de terreno com alguma vegetação e que pode bem ser ajardinado, para ali também se efetuarem eventos adequados, entre os quais exposições sobre temáticas diversas, observam-se pequenas estruturas, partes integrantes dos ventiladores / chaminés ou respiradouros. No total são 10, quatro um pouco maiores e seis mais pequenos.

A ventilação tem uma função importante na qualidade da água, processo muito antigo e que antecedeu. inclusive, o uso do cloro (começado a utilizar nos Estados Unidos da América em 1908 e que chegou a Portugal (a Coimbra e a Lisboa), em finais dos anos 1920", e para manter a pressão atmosférica.

Acerca do assunto, e como alerta dc prevenção, já foi escrito: «As coberturas dos reservatórios devem ser providas de uma ou mais chaminés de ventilação, a fim de que o nível da água fique sempre sob pressão atmosférica.

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Interior do Reservatório do Jardim Botânico (desativado). Op. cit., pg. 9

Da casa das máquinas, por duas escadas íngremes e com espaço reduzido (inclusive na altura, relativamente à estrutura superior o que obriga a fazei algum exercício para as utilizar), tem-se acesso às duas células ou câmaras, simétricas e que ocupam uma área considerável, cujas dimensões apenas são devidamente perspetivadas quando se acede ao seu interior. Aquelas encontram-se em estado razoável de conservação, não obstante no teto já se notarem certas fendas que podem denotar alguma fragilidade, em termos de futuro.

As paredes laterais assim como a parede divisória entre as duas células são em alvenaria rebocada. Em cada célula ou câmara se encontram 6 pilares, também de alvenaria, sendo o de uma das células (a do lado direito, quando se entra pela porta principal da casa das máquinas) reforçado.

Em termos de tecnologia, pouco se encontra no local, salvo algumas canalizações e equipamento metálico de regularização do fluxo de água,

…. Em suma: trata-se de um espaço amplo que, caso venha a ser devidamente restaurado e consolidado, bem poderá servir não só para visita turística mas também para eventos culturais, como espetáculos de teatro, música ou dança, exposições, oficinas de atividades pedagógicas, etc.

Mendes, J.A. Abastecimento de água a Coimbra: Reservatório do Botânico. Sem data. Coimbra, Águas de Coimbra E.M.

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por Rodrigues Costa às 21:03

Terça-feira, 19.09.23

Coimbra: Abastecimento de água 1

Começamos hoje a divulgar um texto do Professor Doutor Amado Mendes, inserido numa pequena, e muito interessante, brochura editada pelas, hoje, Águas de Coimbra, Empresa Municipal. O texto está dividido em duas partes, a que conta, de forma breve, a história do abastecimento de Água, em Coimbra e outra dedicada ao Reservatório do Botânico.

RB. capa.jpg

Op. cit., capa

Entre os maiores benefícios para o bem-estar das populações conta-se precisamente o abastecimento de água ao domicílio e, bem assim, a implantação do saneamento básico. Na sequência da invenção da máquina a vapor … viria a expandir-se por diversos países ao longo dos séculos XIX-XX, beneficiando não só a indústria, os transportes e comunicações e outro tipo de serviços como também o abastecimento de água ao domicílio.

Esta inovação, adotada por algumas grandes cidades nos anos de 1830-1850, viria depois a beneficiar muitos centros urbanos, inclusive em Portugal. Assim, Lisboa, teve acesso a esse melhoramento excecional em 1880, o Porto em 1886 e, Coimbra, pouco depois, ou seja, em 1889.

… A população da cidade, em1863, para se abastecer de água tinha que recorrer aos meios tradicionais. Nessa altura existiam em Coimbra 10 fontes, 2 poços e 2 cisternas. A situação era muito difícil, agravando-se com o desenvolvimento com o desenvolvimento urbano, espacialmente na parte alta da cidade e no verão, quando era mais frequente a ocorrência de incêndios. Por isso o abastecimento de água passou a ser um assunto prioritário, como se pode constar pelas notícias da imprensa local, com destaque para as de «O Conimbricense». Com efeito, neste podia ler-se, na sua edição de 05 de setembro de 1867:

“A primeira e, incontestavelmente, a mais urgente necessidade que há em Coimbra é a do abastecimento de águas. Pode-se mais ou menos suportar uma rua mal calçada; pode-se tolerar uma casa de residência municipal mais ou menos luxuosa e confortável – o que não se pode adiar, o que de forma nenhuma se pode sofrer é a falta de água.

E Coimbra está a esse respeito cada vez pior. Havia antigamente só no bairro baixo três chafarizes, um na Praça de S. Bartolomeu, hoje do Comércio, outro na Calçada e outro em Sansão, hoje Praça 8 de Maio; e até em épocas antigas, houve neste último local dois chafarizes. Atualmente não há nenhum, porque esse mesmo que se vê na Praça do Comércio é como se não existira, porque quase nunca tem água.

Se isto sucede no bairro baixo, no bairro alto é a situação dos habitantes muito mais deplorável. É certo que há um chafariz no Largo da Feira e outro na Sé Velha;

RB. Largo da Feira. Fonte dos Bicos 01.jpg

“Mãe" de água e chafariz do Largo da Feira

RB. Sé Velha. Archivo Pittoresco. 1866.09.jpg

Fonte da Sé Velha, in “Arquivo Pitoresco”. Col. RA

RB. Igreja de  Santa Cruz.jpg

Fontes do Largo de Sansão. “Estampas Coimbrãs.”, pormenor

mas de ano para ano vão cada vez mais diminuindo na porção de água que deitam; e; assim; aquele bairro, que se abastece quase exclusivamente de água as fontes, sofre das maiores inclemências pela falta deste género, indispensável à vida. As criadas aglomeram-se em número extraordinário junto dos dois chafarizes e ali se demoram longo tempo, até que possa achar vez para

encher os potes».

RB. Mulher de Coimbra com cântaros.jpg

“Estampas Coimbrãs. Mulher de Coimbra conduzindo água da fonte ou do Mondego”

… O primeiro projeto de abastecimento de água à cidade, cujo contrato, entre a Câmara Municipal de Coimbra e a dita empresa. [empresa londrina da especialidade, representada pelo Eng.º James Easton] foi publicado no «Diário do Governo» de 09 de agosto de 1982.

RB. pg. 4 e 5.jpg

Op. cit,, pg. 4-5

 Todavia, o projeto não se concretizou, pois houve atrasos sucessivos quanto ao início das obras. Entre outros entraves, verificava-se uma divergência relativamente ao avanço simultâneo do processo de abastecimento de água ao domicílio e do saneamento (“canalização dos esgotos”), defendido pela empresa, mas não aprovado pela Câmara Municipal. Não tendo sido possível ultrapassar o impasse, na sessão camarária de 21 de setembro de 1887, foi apresentada a escritura de rescisão do contrato.

Logo no mês seguinte (outubro de 1887) foi publicado edital para abertura do concurso para o abastecimento de água a Coimbra (O Conimbricense, de 29-10-1887), bem como o respetivo regulamento.

… A proposta mais baixa foi a de Albert Nillus & C. (83 700$000 réis), pelo que as obras lhe foram adjudicadas.

Como previsto no contrato as obras terão começado no primeiro semestre de 1888, prolongando-se por cerca de ano e meio … até que «provavelmente na segunda quinzena de maio de 1889, Coimbra vê chegar o extraordinário melhoramento, que é o abastecimento de água por métodos modernos». O fenómeno é de tal relevância para a qualidade de vidas das confinidades que até já foi designado como “o Milagre da Torneira".

Op. cit. imagem do contrarosto.jpg

Op. ct., pg. de contra rosto

 … o abastecimento é suportado por uma estrutura bastante complexa, da qual fazem parte, fundamentalmente, os seguintes pilares:

. Processo da captação da água no rio Mondego (junto ao Parque Dr. Manuel Braga, de 1889 a 1956-58 e, desde então, na Boavista), sua adução e respetivo tratamento;

. Estação elevatória (instalada na Rua da Alegria, de 1889 a 1924, no Parque da Cidade, de 1924 a meados dos anos de 1950 e, desde então, na Boavista), que tem por função conduzir a água para os reservatórios, distribuídos por locais estratégicos da cidade;

. Sua distribuição, por força da gravidade, através de uma vasta rede de canalizações, pelos numerosos locais de abastecimento (doméstico, público, industrial, institucional, etc.);

- O apertado controlo de qualidade é efetuado em laboratório e por meio de tecnologia adequada, enquanto a medição da água captada, consumida ou desperdiçada é realizada por equipamento apropriado e, obviamente pelos conhecidos contadores de água que, ao longo do tempo, têm registados sucessivos aperfeiçoamentos.

 Mendes, J.A. Abastecimento de água a Coimbra: Reservatório do Botânico. Sem data. Coimbra, Águas de Coimbra E.M.

 

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por Rodrigues Costa às 22:17


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