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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 10.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 4

Para terminar a divulgação do livro Coimbra de capa e batina, volume II, vamos às páginas 219 a 225, rever a conquista pela Associação Académica de Coimbra, em 1939, da Taça de Portugal, em futebol.

AAC emblema.png

Emblema da AAC. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Final da taça 2.png

Equipa que disputou a final da Taça de Portugal, ganhando ao Benfica por 4-3. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Bola Académica

Golo!... E o abraço caiu como um raio em cima do companheiro do lado!... 0 homem, porém, era do Benfica! . . .

~Vá lá abraçar um raio que o parta…

A situação foi salva imediatamente por uns companheiros da «claque», que o nervosismo nunca deixava estar parados nos 90 minutos do jogo. Daí o engano da fúria daquele abraço. . .

Mas a realidade era aquela. A Associação Académica tinha metido um estupendo golo...

Ali, nas redes do Benfica e no campo das Amoreiras! com o Tibério a ser «metralhado» por detrás das balizas.

Final da Taça 1.png

Intervenção do guarda-redes da AAC, Tibério. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

No retângulo do jogo, onze rapazes de camisola negra, davam luta de peito aberto a onze homens do Benfica e a uns milhares de adversários, espicaçados por aquele atrevimento dos «gajos» de Coimbra.

Sobre meia dúzia de adeptos da Associação começaram a cair as fúrias dos benfiquistas.

Mas, nem um passo de recuo… Nem uma vibração abalada. O grito era sempre o mesmo e redobrava de fé, a cada instante: é «Briosa»!!

Um fogo sagrado temperava aquela magnífica resistência dos estudantes de Coimbra. Havia ali a defender qualquer coisa de grande e de tradicional. Aquela equipe negra, impunha responsabilidades a jogadores e a adeptos.

Ninguém fugiu a dar. Os que jogavam aceitavam os ataques desleais dos adversários e procuravam destruí-los sem timidez. Os que aplaudiam, metidos entre agressões iminentes, mantinham a mesma atitude e continuavam a aclamar a Associação, que naquele momento se batia com um futebol e com uma alma, que um benfiquista traduziu, nesta expressão:

- Estes tipos são tremendos

Quando o árbitro deu por findo o encontro, o brio académico e a velha tradição da «malta» estavam perfeitamente salvos. O Benfica foi derrotado.

img20220826_14053862.jpg

No final do desafio da Taça de Portugal- Fan, Fan, Fan, Auto Fan… Repare-se na derrota estampada na cara dum jogador do Benfica… Op.cit. 225

Final da Taça. Op. cit. Pg. 225.jpg

No final do desafio da Taça de Portugal. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Uma espécie de loucura, atacou-nos então e ali, naquele campo das Amoreiras, mesmo nas barbas do Benfica e dos seus adeptos. Esqueceram-se posições sociais, conveniências próprias e o perigo de qualquer manifestação. Médicos, advogados funcionários públicos, alunos da Escola Militar, etc., deitaram cá para fora aquela alegria exuberante de incondicional estima pela Associação.

Que extraordinária vibração a desses momentos. Que admirável e sã energia, dum punhado de rapazes que traziam consigo aquela Coimbra eterna da nossa juventude!

Á saída, os jogadores estudantes, foram «assaltados» por nós. . . Um rapaz do grupo, que nunca estudou em Coimbra – Mas que ainda hoje é capaz duns bons murros para defender a Associação – queria por força abraçar as pernas do Faustino, que, no seu entender, foram as traves do desafio. Não sei se chegou a tal manifestação, o que sei, é que nessa noite levou a família ao Teatro. Chegou mesmo a «decretar» à mulher, que só iria nos dias em que a Associação ganhasse. Um empate merecia cinema. Uma derrota, não se jantava e ia tudo para a cama, com as galinhas, curtir a tristeza do chefe familiar.

Sou testemunha de que estas ordens foram algumas vezes cumpridas.

Nessa tarde, quando no Rossio continuavam as manifestações académicas, descobrimos, a entrar para a «Brasileira», um antigo estudante de Coimbra e diretor da Associação, com profundos traços de tristeza no fácies …  Aquele seu antigo grupo vencer o Benfica era mágoa que o acompanharia até à eternidade … Infelizmente há disto…

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

 

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por Rodrigues Costa às 12:30

Terça-feira, 08.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 3

Prosseguindo na divulgação do livro Coimbra de capa e batina, volume II, salienta-se que nas páginas 174 a 191 é apresentada a história do nascimento do Teatro Académico da Universidade de Coimbra. Desse texto selecionamos o que se segue.

O Teatro Académico, chegou a ser um sistema pedagógico, não só na Universidade de Coimbra como em outras da Europa. Mestres e alunos tomavam parte em representações e elas, por vezes, constituíam até uma parte do ensino que então se ministrava.

… Uma provisão de El-Rei D. João III, no ano de 1546, ordenou o seguinte, quanto ao Teatro Académico. «O lente de Gramática, da mais alta Regra, que lê no Colégio de São Gerónimo seja obrigado a fazer e a representar, em cada ano, uma comédia nas escolas, no tempo e nos lugares que pelo Reitor lhe for ordenado…»

E foi com muita graça e propriedade, que António José Soares – autor dos vários cenários dos autos de Gil Vicente e artista de rico temperamento – foi desenterrar a referida provisão aos Arquivos da Universidade, para a apresentar como sendo a «certidão de nascimento» do Teatro dos Estudantes de Coimbra que o Professor Doutor Paulo Quintela, com tanto brilho, vem dirigindo.

Talvez pareça estranho, mas é verdade: o Teatro dos Estudantes nasceu do Fado. Esta fatalidade nacional e coimbrã, foi sem dúvida, a origem do renascimento teatral na academia de Coimbra.

 A sua história é esta: Em 1937 existia em Coimbra o «Fado Académico». foi seu fundador e dirigente Jorge de Morais (Xabregas) que à sua volta reuniu todos os guitarristas e cantores que então havia na Academia. O grupo tinha um interesse profundamente romântico. Xabregas, com a sua eterna fé por esta terra ribeirinha, pretendia criar uma escola de cantores e guitarristas ao jeito coimbrão. Profetizava que um dia, deixaria de haver rouxinóis a cantar baladas de amor e de saudade.

Apesar dos seus esforços, o «Fado» morria de dia para dia … Jorge de Morais pensou então em remodelar o seu grupo e surgiu-lhe a ideia dum conjunto dramático.

E assim, em Novembro de 1937, foi eleita uma direção [segue-se uma relação de 12 estudantes]. A ideia da criação dum grupo cénico tomou então, vulto e para ela, foi solicitada a colaboração do Professor Doutor Paulo Quintela.

Paulo Quintela.png

Professor Doutor Paulo Quintela. Imagem acedida em: http://www.cvc.instituto-camoes.pt/seculo-xx/paulo-quintela.html#.Y0RA61LMJPY

Havia, porém, um grande problema a resolver: a inclusão, no grupo, de raparigas universitárias, sem as quais não seria possível realizar obra de vulto.

Mas esta Coimbra, mexeriqueira e maldosa criava sérias dificuldades, pois as raparigas num temor compreensível, negavam a sua colaboração. Até que surgiu a estudante Madalena Coelho de Almeida que de alma erguida se entregou devotadamente à realização de tão simpática iniciativa. Depois de vencer algumas resistências, apresentou uma lista de raparigas que se propunham colaborar no Teatro Académico. Vencido este obstáculo foi constituído o «Grupo Cénico» - designação inicial. [Segue-se uma relação de 9 alunas da Faculdade de Letras e de 10 alunos de diversas faculdades].

Numa sala do Museu Zoológico, iniciaram-se em seguida, os ensaios da peça «Braz Cadunha» do escritor Samuel Maia.

O Prof. Doutor Paulo Quintela, porém, tinha um Plano cultural mais vasto e o teatro clássico português desde o início que lhe merecia uma atenção especial. E assim, simultaneamente com o «Braz Cadunha» começaram os ensaios da «Farsa de Inês Pereira» de Gil Vicente. Estava dado o primeiro passo, para o que mais tarde viria a ser a coroa de glória do Teatro dos Estudantes. Três meses depois, o Grupo Cénico do «Fado Académico» apresentou-se no Teatro Avenida, em récita de gala, com a designação de «Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra». O «Fado Académico» morrera nessa noite.

TEUC logo.jpg

Logotipo. Imagem acedida em https://www.facebook.com/photo?fbid=1007766936661205&set=pb.100022837253956.-2207520000..

TEUC en cena. Op. cit. 117.jpg

Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Op. cit. Pg. 177

TEUC cartaz.jpg

O TEUC em 2022. Imagem acedida em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=7811227052228113&set=pb.100022837253956.-2207520000

O Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra venceu. A sua fama espalhou-se por Portugal inteiro e em Coimbra.

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

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por Rodrigues Costa às 16:17

Quinta-feira, 03.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 2

As páginas 149 a 153 do livro Coimbra de capa e batina, volume II, são dedicadas à «Orxestra Pitagórica», reinventada nos inícios dos anos 40, do século passado.

Orxestra Pitagórica. Op. cit. Pg. 153.jpg

A «Orxestra Pitagórica». Op. cit., pg. 153

Na legenda desta fotografia pode ler-se: Aires Biscaia, estudante agarrado ás tradições coimbrãs, meteu ombros à empresa e reorganizou há 2 anos a «Orxestra Pitagórica» que se apresentou, sob a sua regência, com um êxito notável. Aqui se «verifica» a referida «Orxestra» em «pleno rendimento musical… Rui Castilho, o romântico diretor da dita «Orxestra» «castiga as meninas de Coimbra, com versos caídos do Olímpio … e assinados por Júpiter com a marca do Rui.

No texto é referido.

A «Orxestra Pitagórica» foi durante muitos anos, um grande atrativo dos saraus académicos. Vários regentes (declaramos à posterioridade que Raposo Marques nunca pegou naquela batuta) afirmaram dela, as suas extraordinárias aptidões musicais, que em princípio, assentavam na base de não saber música … Conhecer o «do ré mi fá sol lá si dó» era «crime» de lesa «orxestra» e como tal punido com a determinação: «é proibida a entrada a estudantes que afinem pelo lamiré do Raposo Marques»…

Aquilo, ali, era só ouvidinho puro e desentupido … Quem sofresse de purgação dos mesmos, não podia ser pitagórico. A coisa era tocada à base do tímpano sem cera…

Figueirinhas, Figueiral, Figueiredo da Figueira da Foz, na vida civil, política, religiosa e no bilhete de identidade José de Figueiredo, foi durante muitos anos o regente da «Pitagórica» e diga-se de passagem, que neste período da sua intervenção naquele «famoso» organismo artístico, ele atingiu um grande apogeu na música mitológica…

As mais extraordinárias partituras do Olimpo, desceram à terra, para serem executadas pelos mais variados instrumentos de corda e de badalo … E mal rompia no palco a «Orxestra Pitagórica» dos estudantes de Coimbra, Condorcet, «enviado especial» de Júpiter, fazia a sua apresentação, ao respeitável público, nos seguintes termos:

Minhas senhoras e vossos senhores

Deram-me em Coimbra os doutores

Missão difícil a desempenhar;

Esta «orxestra» a vós apresentar

Prosseguia a apresentação no mesmo tom, relatando uma incrível zaragata entre os deuses do Olimpo para terminar deste modo:

Aqui o harmonioso penicofone

Além o tilintoso cuecofone

O silencioso cisofone

O telefone, o microfone

O gramofone e o mudo caladofone

Ireis ouvir colcheias desgrenhadas

Bemóis, claves, pausas descompassadas

Semifusas de cabelos à garçone

E contra breves a tocar saxofone

Não falando já, bem entendidos

Nas tremifusas que perdem os sentidos

E dir-me-eis agora qual é mais excelente

Se ser do mundo Rei se de tal … cambada.

A «Pitagórica» depois desapareceu…

A geração que lhe emprestou as cuecas com guizos, os ferrinhos e as pandeiretas, formou-se. A que se lhe seguiu não renovou esse instrumental, nem se dedicou a aprender as «altas» partituras musicais de tão «famoso agrupamento artístico»…

Nota:

Temos conhecimento de que, ao longo do tempo, surgiram tentativas para ressurgir a «Orxestra Pitagórica».

No site https://orxestrapitagorica.pt/ é contada, com omissões, a história deste tipo de música no seio da academia coimbrã. Ali surge uma Orxestra Pitagórica, enquanto grupo da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra que Nasce nos seios voluptuosos da Academia Coimbrã, criada exclusivamente por estudantes da cidade, com intuito de satirizar e dar a conhecer os assuntos principais da cidade, dos estudantes e do país.

São apresentados vídeos das suas atuações de que Zumba na caloira é um exemplo e é feita publicidade do nosso Tour: Pita Trapstar e habilitem-se a ouvir o cagar na primeira fila (promoção limitada ao stock existente).

São certamente outras músicas e outros tempos.

Rodrigues Costa

 

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

 

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por Rodrigues Costa às 19:23

Quinta-feira, 14.04.22

Coimbra: Faculdade de Farmácia e a sua história 2

Em 1921 as Escolas Superiores de Farmácia passaram ao estatuto de Faculdades. Contudo foi no ano-letivo de 1921/1922 que se implementou a nova reforma de estudos cujo regulamento data de agosto de 1921.

AUC. Insignias 2.png

AUC. Insignias 1.png

Insignias doutorais da Faculdade de Farmácia

Pelo meio ficavam outras etapas e reformas relevantes: por exemplo, em 1902 houve uma reforma profunda da Escola de Farmácia e do plano de estudos e pela primeira vez o ensino farmacêutico passou a ser considerado superior.

Em 1911 uma nova reforma do plano de estudos conferiu autonomia do curso relativamente à Faculdade de Medicina, na senda das reformas de ensino promulgadas pela jovem República.

Em 1915 a Escola de Farmácia inaugurou instalações próprias na chamada Casa ou Palácio dos Melos cedida anos antes para o ensino farmacêutico e que se veio a transformar num símbolo do ensino da farmácia em Portugal.

Casa dos Melos. Faculdade de Farmácia. 1937.jpg

Faculdade de Farmácia. Casa dos Melos.1937. Imagem acedida em https://www.uc.pt/ffuc/patrimonio_historico_farmaceutico 

 Em 1918 uma nova reforma do plano de estudos e da Escola estabeleceu a designação de Escola Superior de Farmácia. Um ano depois a Escola de Farmácia passou a conceder o grau de licenciado. Em 1928 foi decretada a extinção da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, embora tenha continuado o seu funcionamento, surgindo novamente em 1932 com a designação de Escola.

Estas medidas de extinção e de ressurgimento da Escola enquadram-se num conjunto de medidas restritivas nas instituições de ensino executadas no Estado Novo. Somente em 1968 a Escola de Farmácia da Universidade de Coimbra passou, novamente, ao estatuto de Faculdade.

De então para cá, a Faculdade teve novos Estatutos, passou por diferentes reformas de ensino e fixou-se em novas e modernas instalações no Pólo III da Universidade em 2009 de acordo com os mais adequados parâmetros internacionais.

Faculdade de Farmácia Polo III.jpg

Faculdade de Farmácia nos dias de hoje. Polo III, da Universidade de Coimbra. Imagem acedida em https://www.uc.pt/ffuc 

Toda esta história do ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra, que é parte da história do ensino farmacêutico em Portugal, está bem conservada no Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC). Os estudos que temos realizado na história da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra ao longo de mais de três décadas dão-nos autoridade para afirmar que, com efeito, esta prestigiada instituição conserva documentação importantíssima relativa ao ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra.

A exposição comemorativa do centenário da Faculdade de Farmácia dá a conhecer uma pequeníssima parte desses documentos em vários momentos da história da instituição e que se encontram magnificamente conservados e catalogados. Leva-nos a uma viagem no tempo, justamente através das diferentes etapas do ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra.

AUC. Espólio da FFUC.png

Imagem acedida em https://www.uc.pt/ffuc 

 Gostaríamos de salientar a boa receção que a proposta de exposição teve por parte da Senhora Diretora do AUC, Professora Doutora Maria Cristina Freitas, o nosso bem-haja. Também queremos expressar o nosso mais sentido agradecimento à Senhora Dr.ª Ana Maria Bandeira pela seleção dos documentos e organização da exposição que acompanhámos desde a primeira hora, bem como ao Senhor Dr. Ilídio Barbosa Pereira pela execução do catálogo.

Tal como em 1996, ano em que o Arquivo da Universidade também se associou às comemorações do 75.º centenário da Faculdade de Farmácia, também no centenário da nossa instituição o Arquivo da Universidade se associa numa manifestação de solidariedade institucional e de importante demonstração de vitalidade científica.

AUC. 100 anos de Faculdade de Farmácia. Universidade de Coimbra. Exposição documental. Arquivo da Universidade de Coimbra. Fevereiro-Março 2022. Acedido em https://www.uc.pt/auc/article?key=a-cb0df61dab

 

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por Rodrigues Costa às 10:19

Quarta-feira, 07.07.21

Coimbra: As Últimas Ceias de Nunes Pereira

No Seminário Maior de Coimbra, que presentemente se encontra em obras de recuperação, justamente no local onde Monsenhor Nunes Pereira teve a sua última oficina

Nunes Pereira , oficina.jpg

Nunes Pereira na sua oficina. Fotografia RA

e que atualmente se designa Museu Nunes Pereira, encontra-se patente ao público uma belíssima exposição intitulada “As Últimas Ceias de Nunes Pereira. Das Ceias à Ceia”, onde são apresentados alguns dos seus trabalhos relacionados com esta temática.

Nunes Pereira, cartaz.JPG

“As Últimas Ceias de Nunes Pereira. Das Ceias à Ceia”, cartaz

Trata-de de uma pequena mostra – a exiguidade do espaço não permite mais – apresentada com grande despojamento, mas respeitando com dignidade a personalidade do Artista. Centra-se na apresentação de uma interessante coleção de “Últimas Ceias” que se materializam em diversos tipos de suporte, das quais apresentamos as seguintes obras.

Nunes Pereira 1.JPG

Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 1

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Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 2

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Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 3

Para além da exposição, o visitante pode ainda visualizar a nossa Cidade a partir de um ângulo pouco conhecido, desfrutar de um pequeno espaço de lazer, deleitar-se com um gelado caseiro de qualidade e fruir de um baloiço que parece voar sobre o rio. Tudo sem problemas de estacionamento.

A folha de sala apresenta uma breve explicação sobre o significado da celebração da Última Ceia e apresenta-a como um local de encontro com a própria pessoa, de conversão e de perdão; onde o outro é mais importante, onde a vida é celebrada. Lugar de tomada de decisões e de tensão. Se pensarmos bem, a vida humana gira muito em torno deste lugar: a Mesa.

Refere ainda que as “Últimas Ceias de Nunes Pereira – Das Ceias à Ceia –“, constitui um percurso que mostra a forma como o artista plasmou, o Memorial – a Eucaristia – contido e inscrito em cada uma das suas obras: Jesus à mesa, ao centro, ladeado de seis apóstolos de cada lado, o pão e o cálice ao centro a serem abençoados e a ação de graças, evocada de vários modos, por parte de cada um dos apóstolos. Percurso que permite “saborear”, interiorizar e valorizar o significado da mesa, do alimento e da presença do outro na nossa vida. Lugar de gratidão, de conhecimento e de reconhecimento.

A exposição, promovida pelo Seminário Maior de Coimbra e que teve como curadora Cidália Santos, pode ser visitada, de Segunda a Sexta-feira, às 14h, 15h, 16h, 17h e, aos sábados, às 10h, 11h, 12h, 14h, 15h, 16h, 17h.

O uso de máscara é obrigatório e a marcação da visita deve ser feita com, pelo menos, 1 dia de antecedência, em:

 https://www.seminariomaiordecoimbra.com/pt/visitar-seminario/  

Em suma, não se pode deixar de visitar esta exposição, de relembrar essa personalidade ímpar da nossa cidade que foi Monsenhor Nunes Pereira e, simultaneamente, desfrutar a beleza do local.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:29

Terça-feira, 25.05.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos

No Arquivo Histórico Municipal de Coimbra encontra-se patente ao público uma pequena exposição que tem por tema «D’este mal de peste, que Deus nos livre».

A mostra impõe-se por si e, embora refletindo as limitações do exíguo espaço disponível, afirma-se, sobretudo, pelo excelente Catálogo que insere ainda um belíssimo estudo relacionado com a documentação encontrada e exposta.

Tanto o catálogo, como a exposição resultam do trabalho levado a cabo pelas funcionárias daquele departamento municipal.

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D’este mal de peste, que Deus nos livre.

Capa. Letra T.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Capa, pormenor.

O título que é uma citação tirada da página 35, do Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1598.

Documento. p. 35.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Pg. 35

Profusamente ilustrado é o seguinte o teor da sua apresentação.

Os tempos extraordinários que estamos a viver, determinaram o confinamento em Março de 2020, devido à pandemia de COVID-19, que afectou o nosso país. O AHMC, como outros serviços da administração pública, teve que encerrar ao público.

Readaptando o nosso trabalho arquivístico a estas circunstâncias, encetámos uma pesquisa sobre o tema das doenças, ao longo da história: como é que a cidade de Coimbra, vivera estas situações ao longo dos séculos, como se organizara, que medidas tomara para proteger a população, e assegurar a sobrevivência, como enfrentara a adversidade e gerira o bem comum.

O objetivo seria divulgar essa informação, quando pudéssemos reabrir novamente, através da organização de um projecto expositivo, num formato físico, no espaço da sala do Arquivo que pudesse ser visitável, ou num formato digital (pdf), para divulgar através do espaço do Arquivo Histórico no site do Município.

Assim sendo, que tipo de documentos nos forneceriam as melhores informações sobre este assunto, no nosso Arquivo, e noutros arquivos, que tipo de fontes históricas devíamos analisar?

O primeiro passo desta investigação, para os que conhecem os nossos instrumentos de descrição documental, seria através da consulta do Catálogo do AHMC, e do inventário antigo de Ayres de Campos.

Numa segunda etapa, pesquisámos também os Anais do Município de Coimbra de, 1640-1668 e de 1840 até 1959, a melhor forma de referência para encontrar deliberações do executivo municipal, ao longo do tempo.

Encontrámos bastantes referências: do século XIV até ao século XX. O difícil iria ser, ter de selecionar.

Letra E. p. 15.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Pg. 15. Extraído de Tractado repartido en cinco partes principales que declaran el mal que significa este nombre peste […], Ambrosio Nuñez, em Coimbra, na Officina de Diogo Gomez Loureyro, 1601.

Uma recomendação: trata-se de uma exposição para ver e de um catálogo para ler e analisar. Espero, proximamente, voltar a este tema.

Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 10.11.20

Coimbra: Museu Militar

No dia 6 de dezembro de 1985, com a presença do então Presidente da República, General Ramalho Eanes foi inaugurado o Museu Militar instalado em parte do dormitório da Convento de Santa Clara-a-Nova, onde tinha funcionado primeiro o Regimento de Artilharia Ligeira n.º 2 e depois o Centro de Seleção e recrutamento do exército.

Museu Militar em Coimbra, extinto.pngMuseu Militar em Coimbra, extinto. Imagem acedida em https://www.portugalfinest.pt/pt/cr1s7wSjG/nr1iefEWyyuC/

Carro de combate pesado. MM Coimbra.pngCarro de combate pesado, de lagartas, “M 47 Patton” exposto à entrada do Museu. Imagem acedida em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f1/Museu_Militar_de_Coimbra_-_Portugal_%282516675164%29.jpg

Carro de combare. MM Coimbra.pngCarro de combate de rodas, Saladin exposto na área lateral de exposição de viaturas do Museu. Imagem acedida em https://www.portugalfinest.pt/pt/cr1s7wSjG/nr1iefEWyyuC/

Segundo o site https://www.igogo.pt/museu-militar-de-coimbra o museu era constituído por salas de exposição no rés-do-chão e 1º andar, parque de armas pesadas, oficina de restauro e arrecadação de material.

O património ali exposto era descrito da seguinte forma em https://www.portugalfinest.pt/pt/cr1s7wSjG/nr1iefEWyyuC/.

O Museu Militar de Coimbra tem exposto o material que, ao longo dos tempos, foi utilizado pelo exército português. Seis salas dão a conhecer a história militar de Portugal. Fotografias de painéis de azulejos antigos e de vitrais. Uma carroça de transportes de munições. Uma exposição temática sobre trincheiras. Estes são apenas alguns dos temas que o Museu Militar de Coimbra aborda e que dão a conhecer um pouco mais da história militar portuguesa.

Mas existe uma outra fonte que nos permite melhor conhecer esse património. Trata-se de um vídeo acessível em https://www.youtube.com/watch?v=CRBUnvkd-20 que nos revela, nomeadamente, imagens do  primeiro computador a ser utilizado em Portugal.

A extinção deste Museu foi assim relatada por Cátia Santos em  https://catiasantos.wordpress.com/137-2/

Em Dezembro de 2009, o Museu Militar de Coimbra fechou portas ao público, por questões económicas. No dia 31, do presente mês, a chave é entregue aos responsáveis.

Depois de 14 anos a mostrar carros de combate, armas e fardas, de acordo com o desenvolvimento do exército português, o local turístico vai encerrar.

Os materiais expostos estão a ser distribuídos por unidades Militares de todo o país, desde Bragança a Elvas.

O património ali existente, segundo informações fidedignas, foi maioritariamente deslocado para o Museu Militar de Elvas e, ainda, para o Museu Militar de Bragança e outras unidades militares.

Carro de combate pesado, MM Elvas. Foto Pedro Rodr

Carro de combate pesado, de lagartas, “M 47 Patton” que pertenceu ao Museu Militar de Coimbra e agora exposto no Museu Militar de Elvas. Foto Pedro Rodrigues Costa

Peças artilharia. MM Elvas. Foto Pedro Rodrigues

Peças de artilharia que integraram o Museu Militar de Coimbra e agora expostas no Museu Militar de Elvas. Foto Pedro Rodrigues da Costa

Ou seja, no espaço de cinco anos, em Coimbra, e se bem me lembro perante um silêncio de chumbo, viu encerrar em 2004 as portas do Museu dos Transportes Urbanos e depois, em 2009, as do Museu Militar.

Triste sina a da minha terra no que concerne à perda do seu património multisecular.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 09:55

Quinta-feira, 22.10.20

Coimbra:  Paço de D. Pedro, em Tentúgal

Num dos seus passeios de fim-de-semana um nosso familiar deparou-se com um edifício localizado a sul de Tentúgal e como tal no concelho de Montemor-o-Velho que lhe despertou a atenção pela sua grandiosidade e estado de destruição em que se encontra. Do mesmo fez, entre outras, com as seguintes imagens.

Paço de Tentugal, 1. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 1. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 2. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 2. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 3. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 3. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 4. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 4. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 5. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 5. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 6. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 6. Foto Dora Matos

 

As fotografias vinham acompanhadas de um desafio: “deve dar para uma entrada do seu blogue”. Desafio que pelo presente assumo.

As fotografias são – segundo o site www.monumentos.gov.pt – do Paço do Infante D. Pedro, também designado por: Quinta do Paço, Paço dos Condes de Tentúgal, Paço dos Duques de Cadaval e Paço de Tentúgal.

Mais ali é referido que se trata de um imóvel classificado por Portaria de 31 de julho de 2013, como MIP – Monumento de Interesse Público e está localizado em zona "non aedificandi", sendo o monumento assim descrito:

O Paço de Tentúgal, originalmente constituído por casa, eira, celeiro e capela, já referidos em documentação do último terço do século XV, fazia parte da extensa Quinta do Paço, integrada nos férteis campos do Mondego, tudo indica doada em 1413 por D. João I ao Infante D. Pedro, futuro duque de Coimbra, e que em 1417 obteve a jurisdição da vila.

O conjunto arquitetónico terá sido reconstruído por D. Pedro na mesma época, quando patrocinou igualmente a construção da igreja matriz local, cujo portal principal apresenta modelo muito semelhante ao da capela do paço. Apesar das obras de reedificação levadas a cabo no século XIX, que se seguiram a duas centúrias de abandono e vandalização, tendo alterado profundamente as suas características estruturais, e embora atualmente se conservem apenas as paredes da capela e do celeiro e uma parte do paço, é ainda possível distinguir no notável conjunto, de volumetria intacta, diversas estruturas quatrocentistas e quinhentistas de grande interesse.

Nelas se inclui a capela tardo-gótica, dedicada a São Miguel, de que restam as paredes, de altura invulgar, e o pórtico ogival, que constitui talvez o primeiro exemplar de um ciclo arquitetónico que abrange a igreja do Convento de Santiago de Palmela, igualmente patrocinada por D. Pedro.

O palácio, um dos raros paços conservados em Portugal, é composto por diversos corpos pontuados pela disposição das aberturas ogivais e pelas altas chaminés, dominando um pátio nobre formado por um conjunto de arcadas com capitéis ornados de folhagem e motivos de inspiração andaluza que se repetem nas colunas de mármore branco da loggia de gosto renascentista. No vasto celeiro situado à direita do paço, já datado de finais do século XVI, destacam-se o portal clássico e o curioso interior, com três naves separadas por colunas dóricas com arcos de volta perfeita, tipologia única em construções de caráter agrícola.

Para quem estiver interessado em aprofundar o seu conhecimento sobre este imóvel, poderão ser consultados os seguintes sites:

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5214, para além de apresentar 11 fotografias e um mapa são referidos outros dados.

https://www.cm-montemorvelho.pt/index.php/component/k2/item/198-paco-dos-condes-de-tentugal-dos-duques-do-cadaval

Onde, nomeadamente, é referida a existência de uma eira (com 100 m de comprimento por 60 m de largura), onde, em tempos idos, se granjeava não só o milho, como se procedia à secagem dos dízimos. Atualmente, este local está ocupado por uma vinha.

https://www.academia.edu/23377940/Pa%C3%A7o_Ducal_de_Tent%C3%BAgal_patrim%C3%B3nio_a_proteger_com_urg%C3%AAncia_2011_

Um artigo publicado pelo Doutor Rui Lobo da Universidade de Coimbra, sob o título Paço Ducal de Tentúgal: património a proteger com urgência (2011), no qual é contada a história do imóvel e do processo que levou à sua classificação onde, nomeadamente, é referido que o conjunto foi muito alterado ao longo dos anos. Estaria já em ruínas em 1721, tendo sido incendiado pelos liberais em 1834. Foi depois reconstruído sem critério, ainda no século XIX, na forma atual.

Antes de terminar não posso deixar de lamentar, profundamente, que um edifício tão carregado de história esteja na situação em que se encontra, não se vislumbrando um fim feliz para o mesmo.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 22:16

Sexta-feira, 13.03.20

Coimbra: Conversas Abertas, uma explicação necessária

No ano de 2018-2019, numa colaboração com a Casa da Escrita, organizamos uma série de Conversas Abertas, que tiveram alguma repercussão traduzida numa assistência média de cerca de 30 pessoas, em inúmeras mensagens de incentivo e agora, em algumas perguntas relacionadas com a continuidade da iniciativa.

Conversas abertas 01. 2019.05.10.jpg

Conversa aberta de 10 de maio de 2019

A título de esclarecimento diremos que, em 2 de novembro de 2019, a fim de dar continuidade ao projeto, apresentamos à Casa da Escrita uma proposta de programação para o ano em curso; contudo, 4 meses se passaram sem que nos fosse dada qualquer resposta o que nos levou, face ao silêncio manifestado, a retirar a iniciativa.

Temos agora o prazer de informar que, por despacho da Senhora Doutora Cristina Vieira Freitas, Dig.mª Diretora do Arquivo da Universidade de Coimbra, foi autorizada a realização do evento nas instalações desse mesmo Arquivo.

Arquivo da Universidade, localização 1.jpg

Arquivo da Universidade de Coimbra, localização
Imagem Google

Arquivo da Universidade, localização 2.jpgArquivo da Universidade de Coimbra, exterior
Imagem Coleção RA

Trata-se de uma alternativa que tem a vantagem de se poderem utilizar os abundantes transportes municipais que ali passam, para além de, à hora de início previsto para as Conversas Abertas, já ser mais provável encontrar estacionamento naquela zona.
No entanto, sucedeu um percalço que se chama COVID-19. Neste contexto, decidiu-se não iniciar, para já, o ciclo de Conversas Abertas, contando que a primeira sessão se possa vir a realizar NA ÚLTIMA 6.ª FEIRA DE SETEMBRO.
Daremos mais notícias em momento ajustado.

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por Rodrigues Costa às 19:43

Terça-feira, 10.03.20

Coimbra: O Senhor dos Passos da Graça

Situamo-nos em Coimbra, na rua da Sofia. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, com decreto redigido por Joaquim António de Aguiar, alcunhado de “Mata Frades”, teve o edifício colegial de Nossa Senhora da Graça, dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, diversas utilizações.

Igreja da Graça_Coimbra_IMG_9159.jpgIgreja da Graça, exterior.
In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_da_Gra%C3%A7a_(Coimbra)

A igreja foi, porém, entregue à Irmandade do Senhor dos Passos, ali existente e gozando de prestígio na cidade, graças ao culto prestado à imagem do Senhor dos Passos, “muito gabada por sua beleza”, no dizer de Simões de Castro, em 1867.

Igreja da Graça.jpgIgreja da Graça, interior.
In:https://www.facebook.com/baixadecoimbra/photos/pcb.1063879910297440/1063879780297453/?type=3&theater

Este culto, com a procissão representando os passos da Via Sacra, foi estabelecido em Coimbra pelos frades gracianos, à semelhança do que tinha acontecido em Lisboa em finais do século XVI. Três nomes andam associados à introdução deste ato litúrgico em Portugal. Fr. Manuel da Conceição presenciara a procissão no convento de Santo Agostinho em Sevilha, estabelecida havia pouco tempo, e foi portador da ideia para Portugal. Para aquela cidade andaluza se dirigiu, pouco depois, Fr. Domingos de Azevedo, para se inteirar e documentar. De lá trouxe todos os pormenores, até a medida dos Passos, tudo autenticado por notário. Mas o grande entusiasta foi o pintor de estandartes, bandeiras e diversas imagens, Luís Álvares de Andrade, mais gabado pelas virtudes granjeadoras do título de “pintor santo” que pela sua arte. Foi o fundador da Irmandade ou Confraria da Santa e Vera Cruz, sediada numa capela do convento da Graça, em Lisboa, em 1586. Esta associação, que hoje existe com o nome de Real Irmandade da Santa Cruz e Passos da Graça, em breve se transformou na preferida de todo o povo da capital, dos nobres, e dos próprios soberanos.
Rapidamente a devoção chegou a Coimbra e se espalhou por todo o país, proliferando as confrarias, algumas delas instituídas em mosteiros e conventos. Na igreja da Graça, tratava da devoção a Irmandade de S. Nicolau e das Almas, extinta em 1721, para dar lugar à Irmandade do Senhor dos Passos.

Igreja da Graça P1100566.JPG

Igreja da Graça. Altar do Senhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

O culto na igreja da Graça deve ter começado ainda no século XVI, como a mesa do altar parece indicar: esculpida em pedra de Ançã, apresenta quatro pilastras decoradas com losangos, dividindo panos ornamentados com os símbolos da Paixão e pinturas de que hoje restam vestígios.
Sobre esta mesa de altar ergueram, em finais do século XVII o retábulo de talhas douradas com camarim profundo, onde se abriga a imagem do Senhor dos Passos. Tem quatro colunas espiraladas sobre mísulas de exuberante decoração, formando intercolúnios laterais, onde se encontram as imagens de Santo Ildefonso e S. Tomás de Vila Nova. A decoração das colunas é a habitual desta época, constituída por parras, cachos de uva com gavinhas e aves debicando. As colunas centrais prolongam-se em arquivolta superior e as laterais em grandes volutas em que se sentam anjos mostrando um medalhão central com as insígnias da Paixão. São conhecidos os nomes dos entalhadores e douradores, provavelmente do Porto: Manuel de Almeida, João de Sousa e Domingos de Almeida (o documento não refere datas nem outros dados).

Igreja da Graça. Sr.dos Passos. Fotografia NelsonSenhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

A imagem atual deverá também ser contemporânea do retábulo. Apresenta apenas o rosto, as mãos e os pés esculpidos, sendo o corpo revestido por tecido. Este tipo de imagens, genericamente designadas por “de roca”, foi um traço comum da época barroca e é uma representação quase exclusiva do mundo de cultura ibérica. São raras as que ostentam as vestimentas originais, envergando muitas vezes tecidos de pouco merecimento, o que altera a sua leitura como obra de arte e devocional. São resultado de uma época, na sequência do Concílio de Trento, em que se procurava o máximo de realismo, para mostrar que os santos eram pessoas comuns e que, portanto, todos podiam ser santos. Eram fáceis de transportar em procissões, onde o realismo era acentuado pelo movimento que os tecidos adquiriam.

Procissão.JPGProcissão do Senhor dos Passos. 2019. Fotografia Nelson Correia Borges

Há que valorizar esta forma de expressão artística tão digna de ser considerada escultura, como certas correntes da escultura contemporânea.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra n: º 4777, de 5 de março de 2020.

 

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por Rodrigues Costa às 10:05


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