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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 07.07.21

Coimbra: As Últimas Ceias de Nunes Pereira

No Seminário Maior de Coimbra, que presentemente se encontra em obras de recuperação, justamente no local onde Monsenhor Nunes Pereira teve a sua última oficina

Nunes Pereira , oficina.jpg

Nunes Pereira na sua oficina. Fotografia RA

e que atualmente se designa Museu Nunes Pereira, encontra-se patente ao público uma belíssima exposição intitulada “As Últimas Ceias de Nunes Pereira. Das Ceias à Ceia”, onde são apresentados alguns dos seus trabalhos relacionados com esta temática.

Nunes Pereira, cartaz.JPG

“As Últimas Ceias de Nunes Pereira. Das Ceias à Ceia”, cartaz

Trata-de de uma pequena mostra – a exiguidade do espaço não permite mais – apresentada com grande despojamento, mas respeitando com dignidade a personalidade do Artista. Centra-se na apresentação de uma interessante coleção de “Últimas Ceias” que se materializam em diversos tipos de suporte, das quais apresentamos as seguintes obras.

Nunes Pereira 1.JPG

Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 1

Nunes Pereira, 2.JPG

Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 2

Nunes Pereira 3.JPG

Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 3

Para além da exposição, o visitante pode ainda visualizar a nossa Cidade a partir de um ângulo pouco conhecido, desfrutar de um pequeno espaço de lazer, deleitar-se com um gelado caseiro de qualidade e fruir de um baloiço que parece voar sobre o rio. Tudo sem problemas de estacionamento.

A folha de sala apresenta uma breve explicação sobre o significado da celebração da Última Ceia e apresenta-a como um local de encontro com a própria pessoa, de conversão e de perdão; onde o outro é mais importante, onde a vida é celebrada. Lugar de tomada de decisões e de tensão. Se pensarmos bem, a vida humana gira muito em torno deste lugar: a Mesa.

Refere ainda que as “Últimas Ceias de Nunes Pereira – Das Ceias à Ceia –“, constitui um percurso que mostra a forma como o artista plasmou, o Memorial – a Eucaristia – contido e inscrito em cada uma das suas obras: Jesus à mesa, ao centro, ladeado de seis apóstolos de cada lado, o pão e o cálice ao centro a serem abençoados e a ação de graças, evocada de vários modos, por parte de cada um dos apóstolos. Percurso que permite “saborear”, interiorizar e valorizar o significado da mesa, do alimento e da presença do outro na nossa vida. Lugar de gratidão, de conhecimento e de reconhecimento.

A exposição, promovida pelo Seminário Maior de Coimbra e que teve como curadora Cidália Santos, pode ser visitada, de Segunda a Sexta-feira, às 14h, 15h, 16h, 17h e, aos sábados, às 10h, 11h, 12h, 14h, 15h, 16h, 17h.

O uso de máscara é obrigatório e a marcação da visita deve ser feita com, pelo menos, 1 dia de antecedência, em:

 https://www.seminariomaiordecoimbra.com/pt/visitar-seminario/  

Em suma, não se pode deixar de visitar esta exposição, de relembrar essa personalidade ímpar da nossa cidade que foi Monsenhor Nunes Pereira e, simultaneamente, desfrutar a beleza do local.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:29

Terça-feira, 25.05.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos

No Arquivo Histórico Municipal de Coimbra encontra-se patente ao público uma pequena exposição que tem por tema «D’este mal de peste, que Deus nos livre».

A mostra impõe-se por si e, embora refletindo as limitações do exíguo espaço disponível, afirma-se, sobretudo, pelo excelente Catálogo que insere ainda um belíssimo estudo relacionado com a documentação encontrada e exposta.

Tanto o catálogo, como a exposição resultam do trabalho levado a cabo pelas funcionárias daquele departamento municipal.

Capa.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre.

Capa. Letra T.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Capa, pormenor.

O título que é uma citação tirada da página 35, do Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1598.

Documento. p. 35.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Pg. 35

Profusamente ilustrado é o seguinte o teor da sua apresentação.

Os tempos extraordinários que estamos a viver, determinaram o confinamento em Março de 2020, devido à pandemia de COVID-19, que afectou o nosso país. O AHMC, como outros serviços da administração pública, teve que encerrar ao público.

Readaptando o nosso trabalho arquivístico a estas circunstâncias, encetámos uma pesquisa sobre o tema das doenças, ao longo da história: como é que a cidade de Coimbra, vivera estas situações ao longo dos séculos, como se organizara, que medidas tomara para proteger a população, e assegurar a sobrevivência, como enfrentara a adversidade e gerira o bem comum.

O objetivo seria divulgar essa informação, quando pudéssemos reabrir novamente, através da organização de um projecto expositivo, num formato físico, no espaço da sala do Arquivo que pudesse ser visitável, ou num formato digital (pdf), para divulgar através do espaço do Arquivo Histórico no site do Município.

Assim sendo, que tipo de documentos nos forneceriam as melhores informações sobre este assunto, no nosso Arquivo, e noutros arquivos, que tipo de fontes históricas devíamos analisar?

O primeiro passo desta investigação, para os que conhecem os nossos instrumentos de descrição documental, seria através da consulta do Catálogo do AHMC, e do inventário antigo de Ayres de Campos.

Numa segunda etapa, pesquisámos também os Anais do Município de Coimbra de, 1640-1668 e de 1840 até 1959, a melhor forma de referência para encontrar deliberações do executivo municipal, ao longo do tempo.

Encontrámos bastantes referências: do século XIV até ao século XX. O difícil iria ser, ter de selecionar.

Letra E. p. 15.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Pg. 15. Extraído de Tractado repartido en cinco partes principales que declaran el mal que significa este nombre peste […], Ambrosio Nuñez, em Coimbra, na Officina de Diogo Gomez Loureyro, 1601.

Uma recomendação: trata-se de uma exposição para ver e de um catálogo para ler e analisar. Espero, proximamente, voltar a este tema.

Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 10.11.20

Coimbra: Museu Militar

No dia 6 de dezembro de 1985, com a presença do então Presidente da República, General Ramalho Eanes foi inaugurado o Museu Militar instalado em parte do dormitório da Convento de Santa Clara-a-Nova, onde tinha funcionado primeiro o Regimento de Artilharia Ligeira n.º 2 e depois o Centro de Seleção e recrutamento do exército.

Museu Militar em Coimbra, extinto.pngMuseu Militar em Coimbra, extinto. Imagem acedida em https://www.portugalfinest.pt/pt/cr1s7wSjG/nr1iefEWyyuC/

Carro de combate pesado. MM Coimbra.pngCarro de combate pesado, de lagartas, “M 47 Patton” exposto à entrada do Museu. Imagem acedida em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f1/Museu_Militar_de_Coimbra_-_Portugal_%282516675164%29.jpg

Carro de combare. MM Coimbra.pngCarro de combate de rodas, Saladin exposto na área lateral de exposição de viaturas do Museu. Imagem acedida em https://www.portugalfinest.pt/pt/cr1s7wSjG/nr1iefEWyyuC/

Segundo o site https://www.igogo.pt/museu-militar-de-coimbra o museu era constituído por salas de exposição no rés-do-chão e 1º andar, parque de armas pesadas, oficina de restauro e arrecadação de material.

O património ali exposto era descrito da seguinte forma em https://www.portugalfinest.pt/pt/cr1s7wSjG/nr1iefEWyyuC/.

O Museu Militar de Coimbra tem exposto o material que, ao longo dos tempos, foi utilizado pelo exército português. Seis salas dão a conhecer a história militar de Portugal. Fotografias de painéis de azulejos antigos e de vitrais. Uma carroça de transportes de munições. Uma exposição temática sobre trincheiras. Estes são apenas alguns dos temas que o Museu Militar de Coimbra aborda e que dão a conhecer um pouco mais da história militar portuguesa.

Mas existe uma outra fonte que nos permite melhor conhecer esse património. Trata-se de um vídeo acessível em https://www.youtube.com/watch?v=CRBUnvkd-20 que nos revela, nomeadamente, imagens do  primeiro computador a ser utilizado em Portugal.

A extinção deste Museu foi assim relatada por Cátia Santos em  https://catiasantos.wordpress.com/137-2/

Em Dezembro de 2009, o Museu Militar de Coimbra fechou portas ao público, por questões económicas. No dia 31, do presente mês, a chave é entregue aos responsáveis.

Depois de 14 anos a mostrar carros de combate, armas e fardas, de acordo com o desenvolvimento do exército português, o local turístico vai encerrar.

Os materiais expostos estão a ser distribuídos por unidades Militares de todo o país, desde Bragança a Elvas.

O património ali existente, segundo informações fidedignas, foi maioritariamente deslocado para o Museu Militar de Elvas e, ainda, para o Museu Militar de Bragança e outras unidades militares.

Carro de combate pesado, MM Elvas. Foto Pedro Rodr

Carro de combate pesado, de lagartas, “M 47 Patton” que pertenceu ao Museu Militar de Coimbra e agora exposto no Museu Militar de Elvas. Foto Pedro Rodrigues Costa

Peças artilharia. MM Elvas. Foto Pedro Rodrigues

Peças de artilharia que integraram o Museu Militar de Coimbra e agora expostas no Museu Militar de Elvas. Foto Pedro Rodrigues da Costa

Ou seja, no espaço de cinco anos, em Coimbra, e se bem me lembro perante um silêncio de chumbo, viu encerrar em 2004 as portas do Museu dos Transportes Urbanos e depois, em 2009, as do Museu Militar.

Triste sina a da minha terra no que concerne à perda do seu património multisecular.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 09:55

Quinta-feira, 22.10.20

Coimbra:  Paço de D. Pedro, em Tentúgal

Num dos seus passeios de fim-de-semana um nosso familiar deparou-se com um edifício localizado a sul de Tentúgal e como tal no concelho de Montemor-o-Velho que lhe despertou a atenção pela sua grandiosidade e estado de destruição em que se encontra. Do mesmo fez, entre outras, com as seguintes imagens.

Paço de Tentugal, 1. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 1. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 2. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 2. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 3. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 3. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 4. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 4. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 5. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 5. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 6. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 6. Foto Dora Matos

 

As fotografias vinham acompanhadas de um desafio: “deve dar para uma entrada do seu blogue”. Desafio que pelo presente assumo.

As fotografias são – segundo o site www.monumentos.gov.pt – do Paço do Infante D. Pedro, também designado por: Quinta do Paço, Paço dos Condes de Tentúgal, Paço dos Duques de Cadaval e Paço de Tentúgal.

Mais ali é referido que se trata de um imóvel classificado por Portaria de 31 de julho de 2013, como MIP – Monumento de Interesse Público e está localizado em zona "non aedificandi", sendo o monumento assim descrito:

O Paço de Tentúgal, originalmente constituído por casa, eira, celeiro e capela, já referidos em documentação do último terço do século XV, fazia parte da extensa Quinta do Paço, integrada nos férteis campos do Mondego, tudo indica doada em 1413 por D. João I ao Infante D. Pedro, futuro duque de Coimbra, e que em 1417 obteve a jurisdição da vila.

O conjunto arquitetónico terá sido reconstruído por D. Pedro na mesma época, quando patrocinou igualmente a construção da igreja matriz local, cujo portal principal apresenta modelo muito semelhante ao da capela do paço. Apesar das obras de reedificação levadas a cabo no século XIX, que se seguiram a duas centúrias de abandono e vandalização, tendo alterado profundamente as suas características estruturais, e embora atualmente se conservem apenas as paredes da capela e do celeiro e uma parte do paço, é ainda possível distinguir no notável conjunto, de volumetria intacta, diversas estruturas quatrocentistas e quinhentistas de grande interesse.

Nelas se inclui a capela tardo-gótica, dedicada a São Miguel, de que restam as paredes, de altura invulgar, e o pórtico ogival, que constitui talvez o primeiro exemplar de um ciclo arquitetónico que abrange a igreja do Convento de Santiago de Palmela, igualmente patrocinada por D. Pedro.

O palácio, um dos raros paços conservados em Portugal, é composto por diversos corpos pontuados pela disposição das aberturas ogivais e pelas altas chaminés, dominando um pátio nobre formado por um conjunto de arcadas com capitéis ornados de folhagem e motivos de inspiração andaluza que se repetem nas colunas de mármore branco da loggia de gosto renascentista. No vasto celeiro situado à direita do paço, já datado de finais do século XVI, destacam-se o portal clássico e o curioso interior, com três naves separadas por colunas dóricas com arcos de volta perfeita, tipologia única em construções de caráter agrícola.

Para quem estiver interessado em aprofundar o seu conhecimento sobre este imóvel, poderão ser consultados os seguintes sites:

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5214, para além de apresentar 11 fotografias e um mapa são referidos outros dados.

https://www.cm-montemorvelho.pt/index.php/component/k2/item/198-paco-dos-condes-de-tentugal-dos-duques-do-cadaval

Onde, nomeadamente, é referida a existência de uma eira (com 100 m de comprimento por 60 m de largura), onde, em tempos idos, se granjeava não só o milho, como se procedia à secagem dos dízimos. Atualmente, este local está ocupado por uma vinha.

https://www.academia.edu/23377940/Pa%C3%A7o_Ducal_de_Tent%C3%BAgal_patrim%C3%B3nio_a_proteger_com_urg%C3%AAncia_2011_

Um artigo publicado pelo Doutor Rui Lobo da Universidade de Coimbra, sob o título Paço Ducal de Tentúgal: património a proteger com urgência (2011), no qual é contada a história do imóvel e do processo que levou à sua classificação onde, nomeadamente, é referido que o conjunto foi muito alterado ao longo dos anos. Estaria já em ruínas em 1721, tendo sido incendiado pelos liberais em 1834. Foi depois reconstruído sem critério, ainda no século XIX, na forma atual.

Antes de terminar não posso deixar de lamentar, profundamente, que um edifício tão carregado de história esteja na situação em que se encontra, não se vislumbrando um fim feliz para o mesmo.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 22:16

Sexta-feira, 13.03.20

Coimbra: Conversas Abertas, uma explicação necessária

No ano de 2018-2019, numa colaboração com a Casa da Escrita, organizamos uma série de Conversas Abertas, que tiveram alguma repercussão traduzida numa assistência média de cerca de 30 pessoas, em inúmeras mensagens de incentivo e agora, em algumas perguntas relacionadas com a continuidade da iniciativa.

Conversas abertas 01. 2019.05.10.jpg

Conversa aberta de 10 de maio de 2019

A título de esclarecimento diremos que, em 2 de novembro de 2019, a fim de dar continuidade ao projeto, apresentamos à Casa da Escrita uma proposta de programação para o ano em curso; contudo, 4 meses se passaram sem que nos fosse dada qualquer resposta o que nos levou, face ao silêncio manifestado, a retirar a iniciativa.

Temos agora o prazer de informar que, por despacho da Senhora Doutora Cristina Vieira Freitas, Dig.mª Diretora do Arquivo da Universidade de Coimbra, foi autorizada a realização do evento nas instalações desse mesmo Arquivo.

Arquivo da Universidade, localização 1.jpg

Arquivo da Universidade de Coimbra, localização
Imagem Google

Arquivo da Universidade, localização 2.jpgArquivo da Universidade de Coimbra, exterior
Imagem Coleção RA

Trata-se de uma alternativa que tem a vantagem de se poderem utilizar os abundantes transportes municipais que ali passam, para além de, à hora de início previsto para as Conversas Abertas, já ser mais provável encontrar estacionamento naquela zona.
No entanto, sucedeu um percalço que se chama COVID-19. Neste contexto, decidiu-se não iniciar, para já, o ciclo de Conversas Abertas, contando que a primeira sessão se possa vir a realizar NA ÚLTIMA 6.ª FEIRA DE SETEMBRO.
Daremos mais notícias em momento ajustado.

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por Rodrigues Costa às 19:43

Terça-feira, 10.03.20

Coimbra: O Senhor dos Passos da Graça

Situamo-nos em Coimbra, na rua da Sofia. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, com decreto redigido por Joaquim António de Aguiar, alcunhado de “Mata Frades”, teve o edifício colegial de Nossa Senhora da Graça, dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, diversas utilizações.

Igreja da Graça_Coimbra_IMG_9159.jpgIgreja da Graça, exterior.
In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_da_Gra%C3%A7a_(Coimbra)

A igreja foi, porém, entregue à Irmandade do Senhor dos Passos, ali existente e gozando de prestígio na cidade, graças ao culto prestado à imagem do Senhor dos Passos, “muito gabada por sua beleza”, no dizer de Simões de Castro, em 1867.

Igreja da Graça.jpgIgreja da Graça, interior.
In:https://www.facebook.com/baixadecoimbra/photos/pcb.1063879910297440/1063879780297453/?type=3&theater

Este culto, com a procissão representando os passos da Via Sacra, foi estabelecido em Coimbra pelos frades gracianos, à semelhança do que tinha acontecido em Lisboa em finais do século XVI. Três nomes andam associados à introdução deste ato litúrgico em Portugal. Fr. Manuel da Conceição presenciara a procissão no convento de Santo Agostinho em Sevilha, estabelecida havia pouco tempo, e foi portador da ideia para Portugal. Para aquela cidade andaluza se dirigiu, pouco depois, Fr. Domingos de Azevedo, para se inteirar e documentar. De lá trouxe todos os pormenores, até a medida dos Passos, tudo autenticado por notário. Mas o grande entusiasta foi o pintor de estandartes, bandeiras e diversas imagens, Luís Álvares de Andrade, mais gabado pelas virtudes granjeadoras do título de “pintor santo” que pela sua arte. Foi o fundador da Irmandade ou Confraria da Santa e Vera Cruz, sediada numa capela do convento da Graça, em Lisboa, em 1586. Esta associação, que hoje existe com o nome de Real Irmandade da Santa Cruz e Passos da Graça, em breve se transformou na preferida de todo o povo da capital, dos nobres, e dos próprios soberanos.
Rapidamente a devoção chegou a Coimbra e se espalhou por todo o país, proliferando as confrarias, algumas delas instituídas em mosteiros e conventos. Na igreja da Graça, tratava da devoção a Irmandade de S. Nicolau e das Almas, extinta em 1721, para dar lugar à Irmandade do Senhor dos Passos.

Igreja da Graça P1100566.JPG

Igreja da Graça. Altar do Senhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

O culto na igreja da Graça deve ter começado ainda no século XVI, como a mesa do altar parece indicar: esculpida em pedra de Ançã, apresenta quatro pilastras decoradas com losangos, dividindo panos ornamentados com os símbolos da Paixão e pinturas de que hoje restam vestígios.
Sobre esta mesa de altar ergueram, em finais do século XVII o retábulo de talhas douradas com camarim profundo, onde se abriga a imagem do Senhor dos Passos. Tem quatro colunas espiraladas sobre mísulas de exuberante decoração, formando intercolúnios laterais, onde se encontram as imagens de Santo Ildefonso e S. Tomás de Vila Nova. A decoração das colunas é a habitual desta época, constituída por parras, cachos de uva com gavinhas e aves debicando. As colunas centrais prolongam-se em arquivolta superior e as laterais em grandes volutas em que se sentam anjos mostrando um medalhão central com as insígnias da Paixão. São conhecidos os nomes dos entalhadores e douradores, provavelmente do Porto: Manuel de Almeida, João de Sousa e Domingos de Almeida (o documento não refere datas nem outros dados).

Igreja da Graça. Sr.dos Passos. Fotografia NelsonSenhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

A imagem atual deverá também ser contemporânea do retábulo. Apresenta apenas o rosto, as mãos e os pés esculpidos, sendo o corpo revestido por tecido. Este tipo de imagens, genericamente designadas por “de roca”, foi um traço comum da época barroca e é uma representação quase exclusiva do mundo de cultura ibérica. São raras as que ostentam as vestimentas originais, envergando muitas vezes tecidos de pouco merecimento, o que altera a sua leitura como obra de arte e devocional. São resultado de uma época, na sequência do Concílio de Trento, em que se procurava o máximo de realismo, para mostrar que os santos eram pessoas comuns e que, portanto, todos podiam ser santos. Eram fáceis de transportar em procissões, onde o realismo era acentuado pelo movimento que os tecidos adquiriam.

Procissão.JPGProcissão do Senhor dos Passos. 2019. Fotografia Nelson Correia Borges

Há que valorizar esta forma de expressão artística tão digna de ser considerada escultura, como certas correntes da escultura contemporânea.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra n: º 4777, de 5 de março de 2020.

 

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por Rodrigues Costa às 10:05

Quinta-feira, 30.01.20

Coimbra: Nogueira Gonçalves coletânea de artigos

Será apresentado no próximo dia 6 de fevereiro, às 17h00, na Casa Municipal da Cultura, sala Francisco de Sá de Miranda, o livro A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas.

Capa do livro.jpg

A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas, capa

A obra, editada pela Câmara Municipal de Coimbra, é constituída por 1148 páginas que se dividem por 2 volumes e incluem, no final, os índices onomástico e toponímico que, obviamente, se revelam de enorme utilidade. Reúne os textos que o Padre Nogueira Gonçalves foi inserindo, ao longo da sua vida, em publicações periódicas, não propriamente de índole científica, mas onde procurava transmitir ao cidadão comum, através de palavras simples e de frases bem buriladas, o seu muito saber. Todo este material, que se encontra disperso e, na maior parte das vezes, é de difícil acesso, passa a estar reunido numa única fonte.
Deve-se aos seus discípulos Doutores Regina Anacleto e Nelson Correia Borges a árdua tarefa de terem procurado e agrupado esses numerosos textos.
O índice dos dois volumes, que aqui reproduzimos, é elucidativo.

Índice do livro.jpg

Índice da obra

Lembro-me bem da sua figura de homem alto e austero, a caminhar lentamente pela Cidade, de olhos atentos a tudo o que via.

A. Nogueira Gonçalves.jpg

P.e António Nogueira Gonçalves

Conhecendo parte dos escritos ora reunidos – que iremos divulgando neste blogue – não tenho qualquer dúvida em afirmar que se trata de uma obra que irá ser de consulta obrigatória para todos quantos se interessam e dedicam à história de Coimbra e da Região onde a nossa Cidade se insere.
Deve ainda salientar-se a qualidade estética dos textos, dos quais ressalta a paixão pelos temas tratados e o imenso saber de quem os escreveu.

Rodrigues Costa

Notas biográficas;

António Nogueira Gonçalves deixou uma profunda marca na historiografia da arte portuguesa, uma vez que iniciou caminhos nunca antes trilhados e que se vieram a tornar credibilizadores desta área do conhecimento.
Nasceu a 22 de dezembro de 1901 na Sorgaçosa, pequena aldeia escondida nas pregas da serra do Açor, bem perto da mata da Margaraça, concelho de Arganil… Ordenado presbítero a 26 de julho de 1925.
A “res artística” desde muito cedo o atraiu e, apenas com 19 anos, em setembro de 1921, publica no jornal A Comarca de Arganil, um texto onde dá a conhecer a existência, na igreja de Pomares, de um arco românico.
… A dimensão científica que o virá a projetar no tempo, absolutamente pioneira quando, nessa década de 30, desenhou os seus primeiros passos, prosseguirá quase até ao final da vida e manter-se-á, em muitos domínios, inultrapassada.
… A sua multifacetada erudição permitiu-lhe abranger vastas áreas: da Epigrafia à Pintura, da Heráldica à Arquitetura, da Paleografia à Escultura, passando pela Ourivesaria, pela Cerâmica, pelos Tecidos, etc.
Autor de uma vasta obra da qual se releva os “Inventários Artísticos da Cidade de Coimbra” (1947) e do “Distrito de Coimbra” (1952), inicialmente entregues a Vergílio Correia, mas que este mal teve tempo de começar e nos três volumes do “Inventário Artístico” dedicados ao “Distrito de Aveiro” (1959, 1981 e 1991), já da sua inteira responsabilidade.
… Foi nomeado conservador do Museu Machado de Castro em 1942, e depois da morte de Vergílio Correia assumiu a sua direção.
… Em 1968, a Universidade de Coimbra convidou-o para lecionar, na Faculdade de Letras, as disciplinas de História da Arte. Aí se manteve, até à jubilação, ocorrida no ano de 1976, ultrapassado que era o limite de idade.
… A Universidade de Coimbra concedeu-lhe o grau de “Doctor honoris causa” pela Faculdade de Letras em dezembro de 1979.
A Academia Nacional de Belas Artes, por seu turno, elevou-o à categoria de Académico de Honra e, posteriormente, agraciou-o, em 1991, com a Medalha de Mérito de Belas Artes, classe de ouro.
Anos depois, em 1983, a Câmara Municipal de Coimbra, terra que adotara como sua, numa homenagem merecida, atribuiu-lhe a medalha de ouro da cidade e o título de cidadão honorário.
A edilidade arganilense, considerando-o «uma personalidade multímoda, de saber diversificado e profundo», orgulhosa por o poder contar entre as suas gentes, numa sessão solene realizada a 6 de setembro de 1992, no salão nobre dos Paços do Concelho, condecorou-o com a medalha de ouro da municipalidade.
Homem «de um só parecer, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer», como diria Sá de Miranda, faleceu na sua Sorgaçosa natal a 25 de Abril de 1998.

In: A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas. Nota biográfica. 2019. Coimbra, Câmara Muncipal, pg. 11-13.

 

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por Rodrigues Costa às 10:11

Terça-feira, 12.11.19

Coimbra: Memórias de um salatina 3

Extrato de uma comunicação apresentada no ciclo de conferências comemorativo dos 900 anos de Almedina. (conclusão)

Na Alta também havia venda ambulante.

Leiteiras antigas.jpgLeiteiras antigas

As leiteiras. Inicialmente eram assim, mas havia quem dissesse que tinham por hábito “mijar no cântaro” o que terá de se entender por juntar água ao leite.

Leiteira. Palácio de Sobre Ribas.jpg

Leiteira fardadas e com cântaros lacrados

Depois, veio a obrigação de andarem de bata branca e com um cântaro de folha de flandres com um feitio esquisito, no qual dependuravam as medidas. Cântaro, diariamente lacrado pela Delegação de Saúde.
Os padeiros e as padeiras, com grandes cestos de vergas às costas cobertos com um pano branco, indo de casa em casa, deixar o pão que era pago à semana.

Peixeiras da Figueira.jpgPeixeiras das Figueira

As peixeiras da Figueira, vestidas com as suas saias tradicionais, a blusa e o xaile traçado e a rodilha na cabeça. Normalmente esguias e apressadas com as canastras à cabeça e o seu pregão tradicional, entoado de uma forma única: sardinha da areiaaaa! Oh freguesa é linda e fresquinha! 3 dez tostões! Quase sempre descalças, ou com um chinelo calçado e outro na mão pois havia que evitar as multas policiais de vinte e cinco tostões por se andar descalço.
O cafezeiro com a sua mala castanha e o seu pregão: Olha o cafezeiro! Compre agora! Vou para o norte e só volto para a semana!
Havia ainda o petrolino com a sua carroça puxada por um cavalo que vendia petróleo e azeite e que avisava a sua presença com o toque de uma corneta.

Amolador.jpgAmolador

E o amolador, com a sua flauta e toque típico, cujo pregão era: amola tesouras e navalhas, põe gatos nas panelas e gatos nas talhas! Exercia, ainda, as funções de capador de gatos.
Um aparte para terminar.

Flávio  Rodrigues.JPGFlávio Rodrigues e José Trego mestres de tantas gerações de estudantes e futricas. Fotografia retirada de “Flávio Rodrigues Silva - Fragmentos para uma Guitarra” de António Manuel Nunes e José dos Santos Paulo

Quando se fala de fado de Coimbra associa-se sempre a estudantes. Não é inteiramente verdade. Basta lembrar Artur Paredes e Flávio Rodrigues mestres e iniciadores no fado de Coimbra de tantos estudantes e futricas.

Três breves reflexões à laia de conclusão.
A primeira é óbvia. A Alta dos tempos dos salatinas está a desaparecer com a geração dos que viveram esse tempo. Não obstante a permanência de alguns velhos resistentes, passaram, na atualidade, a predominar os alojamentos para estudantes e os de curta duração, com o consequente surgimento de bares e de lojas para turistas.
Embora reconhecendo estarem em curso algumas obras de recuperação, há que assinalar a existência de situações carecidas de intervenção urgente: os imóveis em ruína e o estacionamento abusivo de automóveis nas ruas da Couraça dos Apóstolos, João Jacinto e, nomeadamente, no Largo da Sé Velha, aqui com evidentes consequências negativas para a fruição e preservação deste monumento nacional.
Terceira e última reflexão. O fenómeno da “turisficação” que começa a surgir na Alta está estudado, bem como os perigos e efeitos de uma aposta exclusiva no turismo. Há que nunca esquecer que um destino turístico está sujeito à moda de momento e são inúmeros os destinos que deixaram de estar na moda. Não obstante a tendência para o crescimento sustentado do turismo, o percurso de um destino turístico, se depende essencialmente da sua riqueza patrimonial e/ou paisagística, também depende da forma como organiza a sua oferta e se é capaz de criar experiências nos turistas que o procuram.
A Alta necessita de ser repensada e planeada para o curto e para o longo prazo. Daí o meu apelo à União de Freguesias para organizar umas jornadas técnicas, com a participação de credenciados especialistas multidisciplinares, quer da Cidade, quer de fora dela, tendo por tema a “Alta de hoje e a Alta do futuro”. O evento não se deve limitar a elencar ideias, mas, fundamentalmente, a definir projetos e a congregar esforços que permitam à Alta do futuro fazer jus ao seu passado.
A “nossa” Alta precisa do saber, do conhecimento, mas também precisa de carinho e de amor.
Que as Comemorações dos 900 de Almedina não sejam um ponto de chegada, mas sim de partida.
Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 10:12

Quinta-feira, 06.09.18

Coimbra: Mata de S. Bento ou do Jardim Botânico

Há já algum tempo utilizei o pequeno autocarro que liga o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha à Universidade, passando pela Mata do Botânico, a fim de desfrutar a beleza que tal deslocação (devia) proporciona(r), mas, na passada quarta feira (29 de agosto) percorri a pé parte da Mata, partindo do belíssimo portão que se encontra na Rua da Alegria até ao Reservatório, adossado ao que resta da muralha que ainda se pode visualizar num pequeno troço da Couraça de Lisboa.  

Tive então ocasião de analisar mais pormenorizadamente todo o percurso e, se vi coisas de que gostei, outras houve que me causaram tristeza e me desgostaram.

Começando pelas primeiras.

 - Portão da Rua da Alegria

Antiga Faculdade de Letras.jpg

 Antiga Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Portão da Rua da Alegria.JPG

 Portão da Rua da Alegria, antes do recente restauro

Portão da Rua da Alegria. Pormenor 01.JPG

 Portão da Rua da Alegria. Pormenor

A peça pertenceu a uma das entradas da primitiva Faculdade de Letras que se erguia no local onde atualmente se encontra a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Projetou o edifício, em 1912, o arquiteto Augusto de Carvalho da Silva Pinto. O desenho dos portões, colocados apenas em agosto de 1927, também lhe pertence e foram batidos por Manuel Pedro de Jesus, António Maria da Conceição (Rato), Daniel Rodrigues e Albertino Marques, todos eles saídos da plêiade dos serralheiros artísticos de Coimbra. Depois da intervenção na zona da Alta, que acabou por transformar o edifício em causa, um dos portões foi transferido para a Rua da Alegria, enquanto os outros e as bandeiras das aberturas levaram sumiço. Como se comprova estamos perante mais uma muito boa obra de serralharia saída das oficinas coimbrãs a merecer um olhar atento.

 - Recuperação do caminho pela Mata

O caminho percorrido pelo miniautocarro atravessa parte da mata e, para além de ser muito belo, está bem conseguido; passa, nomeadamente, junto ao bambuzal, provavelmente o maior da Europa. O número de turistas que utilizam aquele transporte, bem como os que se deslocam a pé e que encontrei tanto a descer como a subir podem fruir da beleza da mata. Realidades que justificam a existência da carreira e a necessidade de a manter a funcionar.

 - Reservatório

Embora ainda não esteja completa a recuperação do reservatório de água existente na Mata do Botânico e que serviu para, outrora, abastecer do precioso líquido a parte baixa da cidade, aquilo que já foi feito – como se constata a partir da entrada publicada na passada 3.ª feira – permitiu alertar para a existência de um património de interesse que se encontrava completamente esquecido e cuja reabilitação importa terminar dando-lhe uma conveniente utilização, quiçá de índole cultural. Talvez seja de equacionar, por nos parecer uma boa utilização deste espaço, a instalação de um polo do Museu da Água.

 Passo a referir, a partir daqui, os aspetos que me causaram tristeza e me desgostaram.

 - Fonte da Mata de S. Bento

Capela.jpg

 Fonte da Mata de S. Bento

Magnificamente enquadrada na Mata o Professor Nelson Correia Borges carateriza-a como sendo uma fonte típica das “cercas monásticas, que, juntamente com sítios de fresco, capelas e tanques de água se assumiam como locais de recreio, de meditação e de oração situadas sempre em contacto com a natureza”.

A imagem fala por si mesma, mostrando que a estrutura se mostra carecida de urgente recuperação antes que os homens, o tempo e a Natureza a façam desaparecer.

 - Capela de S. Bento

Capela de S. Bento.jpg

 Capela de S. Bento

Seguindo as placas de orientação chega-se a um local paradisíaco. Um dossel de árvores abriga a capela de S. Bento, onde a reflexão em profunda interação com a Natureza por certo acontecia.

Como os trabalhos de desmatação levados a cabo no local se tornam evidentes, pensamos que, sem grandes custos, se podia ter ido mais longe e limparem-se as paredes exteriores e isto sem prejuízo das obras de maior envergadura de que a capela, por certo, necessita.

 - Muralha de Coimbra

Ao prosseguir no caminho de acesso ao Reservatório passámos por um local onde outrora existiu um miradouro e de onde nos foi possível recolher as imagens que seguidamente publicamos.

Muralha. Couraça de Lisboa 1.JPG

 Muralha. Couraça de Lisboa 1

Muralha. Couraça de Lisboa 2.JPG

 Muralha. Couraça de Lisboa 2

Muralha. Couraça de Lisboa 3.JPG

 Muralha. Couraça de Lisboa 3

Muralha. Couraça de Lisboa 4.JPG

  Muralha. Couraça de Lisboa 4

Ao longo dos séculos a cidade e as suas gentes não quiseram, ou não puderam, evitar o desmantelamento da Muralha de Coimbra.

É verdade que a valorização do pouco que resta já se iniciou, mas urge prosseguir para fielmente, e assente em dados concretos, se escrever a História de cidade e valorizar dignamente o que subsiste dessa estrutura.

É hoje inquestionável que a valorização de uma cidade passa pelo progresso, mas este deve assentar no respeito que os seus habitantes e os seus autarcas mostrarem (e demonstrarem) tanto pelo passado, como pela História da urbe.

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por Rodrigues Costa às 10:40

Segunda-feira, 02.07.18

Coimbra: Concerto memorável ou uma lição a considerar

Assisti ontem, em Coimbra, a um concerto notável realizado na Igreja de Santa Cruz por dois grupos que se mobilizaram conjuntamente, a fim de levar a cabo o evento.

Um– MOÇOS DO CORO – dirigido por um jovem maestro, integrava seis vozes femininas e seis vozes masculinas, na sua maioria jovens estudantes e professores de música. O outro – GRUPO VOCAL ANÇÃ-BLE – era composto por 5 elementos masculinos pertencentes a uma Família que, de alguma maneira, se encontra ligada a Coimbra.

Comecemos pela folha de sala, de evidente bom gosto:

coral_0001.jpg

 O programa, tal como se mostra na imagem seguinte, encontrava-se arrolado no anverso.

coral_0002.jpg

 

Constava de quatro obras da autoria de Dom Pedro de Cristo e de quatro peças, escritas por cada um dos quatro jovens autores que se encontravam presentes; estes compositores, no respeito pela ambiência musical própria do polifonismo, conseguiram integrar nas suas obras traços significativos e significantes do tempo atual.

A interpretação, para além de aproveitar as excecionais condições acústicas existentes no templo, atingiu um nível de altíssima qualidade.

O público – onde sobressaía um significativo número de estrangeiros – quase encheu a igreja e, no final, manifestou o seu apreço pelo que lhe tinha sido dado ouvir com um justo e longo aplauso.

 

Depois de relatar o que me foi dado presenciar gostaria de partilhar aqui algumas reflexões que tenho tentado, em vão e na justa medida das minhas limitações, transmitir a quem de direito, a fim incentivar a cidade de Coimbra a aproveitar melhor o muito de bom que a ela se encontra vinculado; infelizmente apenas tenho esbarrado com um fechar de olhos e um virar de costas.

Essas reflexões vão traduzidas em forma de questões e começo por perguntar qual o número de Conimbricenses que sabe quem foi Dom Pedro de Cristo?

Eis algumas achegas para a resposta:


Pedro_de_Cristo[2].pngDom Pedro de Cristo. Imagem extraída de

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_de_Cristo#/media/File:Pedro_de_Cristo.PNG

 

Dom Pedro de Cristo nasceu em Coimbra (Portugal) em c.1550. Passou a maior parte de sua vida em Coimbra, no Mosteiro de Santa Cruz, onde tomou hábito em 1571.

Mestre de capela do mosteiro, cargo de que foi titular a partir de 1597, Dom Pedro de Cristo foi ao mesmo tempo professor de música, cantor e tangedor de vários instrumentos, nomeadamente de tecla, harpa e flauta. Morreu em Coimbra, em 16 de dezembro de 1618.

Dom Pedro de Cristo - cujo nome secular era Domingos - pode ser considerado um dos maiores polifonistas do século XVI no domínio da música religiosa. É como compositor que tem o seu lugar na história, com a sua vasta obra vocal polifônica de 3 a 6 vozes, compreendida por inúmeros motetos, responsórios, salmos, missas, hinos, paixões, lamentações, versos aleluiáticos, cânticos e vilancicos espirituais.

Pouco conhecido, em virtude da sua obra não ter sido ainda publicada na quase totalidade, é possível, todavia, avaliar da qualidade e número de suas obras através do que foi publicado sobre ele por Ernesto Gonçalves de Pinho, com alguns dados biográficos inéditos e uma informação valiosa sobre as obras, ainda manuscritas deste frade crúzio.

 

- Outra questão: qual a razão porque Coimbra e as suas instituições não efetuam um trabalho de divulgação relacionada com um dos grandes vultos da cidade e com a sua importante obra?

 

- Mais uma pergunta: porque motivo estão por recordar e por homenagear tantos Conimbricenses ilustres?

 

- Ainda uma outra: porque não se aproveita o extraordinário património organístico existente em Coimbra e que tive o gosto de enumerar numa entrada deste Blog publicada vai para um ano, em 2017.08.17, sobre o título “Coimbra; Cidade ECHO?”. Nessa entrada propunha a adesão de Coimbra à Europae Civitates Historicorum Organorum, organização fundada em 1997, que tem como objetivo desenvolver, no contexto europeu, um papel unificador de projetos comuns levados a cabo no âmbito das cidades possuidoras de órgãos com valor histórico.

 

- Uma última questão, não despicienda, mas que, propositadamente, deixo sem resposta: qual a razão porque Coimbra é uma cidade tão madrasta para os seus Filhos?

 

Bibliografia:

https://acercadecoimbra.blogs.sapo.pt/coimbra-cidade-echo-109632

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_de_Cristo

 

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por Rodrigues Costa às 21:44


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