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A' Cerca de Coimbra


Sexta-feira, 13.03.20

Coimbra: Conversas Abertas, uma explicação necessária

No ano de 2018-2019, numa colaboração com a Casa da Escrita, organizamos uma série de Conversas Abertas, que tiveram alguma repercussão traduzida numa assistência média de cerca de 30 pessoas, em inúmeras mensagens de incentivo e agora, em algumas perguntas relacionadas com a continuidade da iniciativa.

Conversas abertas 01. 2019.05.10.jpg

Conversa aberta de 10 de maio de 2019

A título de esclarecimento diremos que, em 2 de novembro de 2019, a fim de dar continuidade ao projeto, apresentamos à Casa da Escrita uma proposta de programação para o ano em curso; contudo, 4 meses se passaram sem que nos fosse dada qualquer resposta o que nos levou, face ao silêncio manifestado, a retirar a iniciativa.

Temos agora o prazer de informar que, por despacho da Senhora Doutora Cristina Vieira Freitas, Dig.mª Diretora do Arquivo da Universidade de Coimbra, foi autorizada a realização do evento nas instalações desse mesmo Arquivo.

Arquivo da Universidade, localização 1.jpg

Arquivo da Universidade de Coimbra, localização
Imagem Google

Arquivo da Universidade, localização 2.jpgArquivo da Universidade de Coimbra, exterior
Imagem Coleção RA

Trata-se de uma alternativa que tem a vantagem de se poderem utilizar os abundantes transportes municipais que ali passam, para além de, à hora de início previsto para as Conversas Abertas, já ser mais provável encontrar estacionamento naquela zona.
No entanto, sucedeu um percalço que se chama COVID-19. Neste contexto, decidiu-se não iniciar, para já, o ciclo de Conversas Abertas, contando que a primeira sessão se possa vir a realizar NA ÚLTIMA 6.ª FEIRA DE SETEMBRO.
Daremos mais notícias em momento ajustado.

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por Rodrigues Costa às 19:43

Terça-feira, 10.03.20

Coimbra: O Senhor dos Passos da Graça

Situamo-nos em Coimbra, na rua da Sofia. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, com decreto redigido por Joaquim António de Aguiar, alcunhado de “Mata Frades”, teve o edifício colegial de Nossa Senhora da Graça, dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, diversas utilizações.

Igreja da Graça_Coimbra_IMG_9159.jpgIgreja da Graça, exterior.
In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_da_Gra%C3%A7a_(Coimbra)

A igreja foi, porém, entregue à Irmandade do Senhor dos Passos, ali existente e gozando de prestígio na cidade, graças ao culto prestado à imagem do Senhor dos Passos, “muito gabada por sua beleza”, no dizer de Simões de Castro, em 1867.

Igreja da Graça.jpgIgreja da Graça, interior.
In:https://www.facebook.com/baixadecoimbra/photos/pcb.1063879910297440/1063879780297453/?type=3&theater

Este culto, com a procissão representando os passos da Via Sacra, foi estabelecido em Coimbra pelos frades gracianos, à semelhança do que tinha acontecido em Lisboa em finais do século XVI. Três nomes andam associados à introdução deste ato litúrgico em Portugal. Fr. Manuel da Conceição presenciara a procissão no convento de Santo Agostinho em Sevilha, estabelecida havia pouco tempo, e foi portador da ideia para Portugal. Para aquela cidade andaluza se dirigiu, pouco depois, Fr. Domingos de Azevedo, para se inteirar e documentar. De lá trouxe todos os pormenores, até a medida dos Passos, tudo autenticado por notário. Mas o grande entusiasta foi o pintor de estandartes, bandeiras e diversas imagens, Luís Álvares de Andrade, mais gabado pelas virtudes granjeadoras do título de “pintor santo” que pela sua arte. Foi o fundador da Irmandade ou Confraria da Santa e Vera Cruz, sediada numa capela do convento da Graça, em Lisboa, em 1586. Esta associação, que hoje existe com o nome de Real Irmandade da Santa Cruz e Passos da Graça, em breve se transformou na preferida de todo o povo da capital, dos nobres, e dos próprios soberanos.
Rapidamente a devoção chegou a Coimbra e se espalhou por todo o país, proliferando as confrarias, algumas delas instituídas em mosteiros e conventos. Na igreja da Graça, tratava da devoção a Irmandade de S. Nicolau e das Almas, extinta em 1721, para dar lugar à Irmandade do Senhor dos Passos.

Igreja da Graça P1100566.JPG

Igreja da Graça. Altar do Senhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

O culto na igreja da Graça deve ter começado ainda no século XVI, como a mesa do altar parece indicar: esculpida em pedra de Ançã, apresenta quatro pilastras decoradas com losangos, dividindo panos ornamentados com os símbolos da Paixão e pinturas de que hoje restam vestígios.
Sobre esta mesa de altar ergueram, em finais do século XVII o retábulo de talhas douradas com camarim profundo, onde se abriga a imagem do Senhor dos Passos. Tem quatro colunas espiraladas sobre mísulas de exuberante decoração, formando intercolúnios laterais, onde se encontram as imagens de Santo Ildefonso e S. Tomás de Vila Nova. A decoração das colunas é a habitual desta época, constituída por parras, cachos de uva com gavinhas e aves debicando. As colunas centrais prolongam-se em arquivolta superior e as laterais em grandes volutas em que se sentam anjos mostrando um medalhão central com as insígnias da Paixão. São conhecidos os nomes dos entalhadores e douradores, provavelmente do Porto: Manuel de Almeida, João de Sousa e Domingos de Almeida (o documento não refere datas nem outros dados).

Igreja da Graça. Sr.dos Passos. Fotografia NelsonSenhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

A imagem atual deverá também ser contemporânea do retábulo. Apresenta apenas o rosto, as mãos e os pés esculpidos, sendo o corpo revestido por tecido. Este tipo de imagens, genericamente designadas por “de roca”, foi um traço comum da época barroca e é uma representação quase exclusiva do mundo de cultura ibérica. São raras as que ostentam as vestimentas originais, envergando muitas vezes tecidos de pouco merecimento, o que altera a sua leitura como obra de arte e devocional. São resultado de uma época, na sequência do Concílio de Trento, em que se procurava o máximo de realismo, para mostrar que os santos eram pessoas comuns e que, portanto, todos podiam ser santos. Eram fáceis de transportar em procissões, onde o realismo era acentuado pelo movimento que os tecidos adquiriam.

Procissão.JPGProcissão do Senhor dos Passos. 2019. Fotografia Nelson Correia Borges

Há que valorizar esta forma de expressão artística tão digna de ser considerada escultura, como certas correntes da escultura contemporânea.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra n: º 4777, de 5 de março de 2020.

 

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por Rodrigues Costa às 10:05

Quinta-feira, 30.01.20

Coimbra: Nogueira Gonçalves coletânea de artigos

Será apresentado no próximo dia 6 de fevereiro, às 17h00, na Casa Municipal da Cultura, sala Francisco de Sá de Miranda, o livro A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas.

Capa do livro.jpg

A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas, capa

A obra, editada pela Câmara Municipal de Coimbra, é constituída por 1148 páginas que se dividem por 2 volumes e incluem, no final, os índices onomástico e toponímico que, obviamente, se revelam de enorme utilidade. Reúne os textos que o Padre Nogueira Gonçalves foi inserindo, ao longo da sua vida, em publicações periódicas, não propriamente de índole científica, mas onde procurava transmitir ao cidadão comum, através de palavras simples e de frases bem buriladas, o seu muito saber. Todo este material, que se encontra disperso e, na maior parte das vezes, é de difícil acesso, passa a estar reunido numa única fonte.
Deve-se aos seus discípulos Doutores Regina Anacleto e Nelson Correia Borges a árdua tarefa de terem procurado e agrupado esses numerosos textos.
O índice dos dois volumes, que aqui reproduzimos, é elucidativo.

Índice do livro.jpg

Índice da obra

Lembro-me bem da sua figura de homem alto e austero, a caminhar lentamente pela Cidade, de olhos atentos a tudo o que via.

A. Nogueira Gonçalves.jpg

P.e António Nogueira Gonçalves

Conhecendo parte dos escritos ora reunidos – que iremos divulgando neste blogue – não tenho qualquer dúvida em afirmar que se trata de uma obra que irá ser de consulta obrigatória para todos quantos se interessam e dedicam à história de Coimbra e da Região onde a nossa Cidade se insere.
Deve ainda salientar-se a qualidade estética dos textos, dos quais ressalta a paixão pelos temas tratados e o imenso saber de quem os escreveu.

Rodrigues Costa

Notas biográficas;

António Nogueira Gonçalves deixou uma profunda marca na historiografia da arte portuguesa, uma vez que iniciou caminhos nunca antes trilhados e que se vieram a tornar credibilizadores desta área do conhecimento.
Nasceu a 22 de dezembro de 1901 na Sorgaçosa, pequena aldeia escondida nas pregas da serra do Açor, bem perto da mata da Margaraça, concelho de Arganil… Ordenado presbítero a 26 de julho de 1925.
A “res artística” desde muito cedo o atraiu e, apenas com 19 anos, em setembro de 1921, publica no jornal A Comarca de Arganil, um texto onde dá a conhecer a existência, na igreja de Pomares, de um arco românico.
… A dimensão científica que o virá a projetar no tempo, absolutamente pioneira quando, nessa década de 30, desenhou os seus primeiros passos, prosseguirá quase até ao final da vida e manter-se-á, em muitos domínios, inultrapassada.
… A sua multifacetada erudição permitiu-lhe abranger vastas áreas: da Epigrafia à Pintura, da Heráldica à Arquitetura, da Paleografia à Escultura, passando pela Ourivesaria, pela Cerâmica, pelos Tecidos, etc.
Autor de uma vasta obra da qual se releva os “Inventários Artísticos da Cidade de Coimbra” (1947) e do “Distrito de Coimbra” (1952), inicialmente entregues a Vergílio Correia, mas que este mal teve tempo de começar e nos três volumes do “Inventário Artístico” dedicados ao “Distrito de Aveiro” (1959, 1981 e 1991), já da sua inteira responsabilidade.
… Foi nomeado conservador do Museu Machado de Castro em 1942, e depois da morte de Vergílio Correia assumiu a sua direção.
… Em 1968, a Universidade de Coimbra convidou-o para lecionar, na Faculdade de Letras, as disciplinas de História da Arte. Aí se manteve, até à jubilação, ocorrida no ano de 1976, ultrapassado que era o limite de idade.
… A Universidade de Coimbra concedeu-lhe o grau de “Doctor honoris causa” pela Faculdade de Letras em dezembro de 1979.
A Academia Nacional de Belas Artes, por seu turno, elevou-o à categoria de Académico de Honra e, posteriormente, agraciou-o, em 1991, com a Medalha de Mérito de Belas Artes, classe de ouro.
Anos depois, em 1983, a Câmara Municipal de Coimbra, terra que adotara como sua, numa homenagem merecida, atribuiu-lhe a medalha de ouro da cidade e o título de cidadão honorário.
A edilidade arganilense, considerando-o «uma personalidade multímoda, de saber diversificado e profundo», orgulhosa por o poder contar entre as suas gentes, numa sessão solene realizada a 6 de setembro de 1992, no salão nobre dos Paços do Concelho, condecorou-o com a medalha de ouro da municipalidade.
Homem «de um só parecer, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer», como diria Sá de Miranda, faleceu na sua Sorgaçosa natal a 25 de Abril de 1998.

In: A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas. Nota biográfica. 2019. Coimbra, Câmara Muncipal, pg. 11-13.

 

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por Rodrigues Costa às 10:11

Terça-feira, 12.11.19

Coimbra: Memórias de um salatina 3

Extrato de uma comunicação apresentada no ciclo de conferências comemorativo dos 900 anos de Almedina. (conclusão)

Na Alta também havia venda ambulante.

Leiteiras antigas.jpgLeiteiras antigas

As leiteiras. Inicialmente eram assim, mas havia quem dissesse que tinham por hábito “mijar no cântaro” o que terá de se entender por juntar água ao leite.

Leiteira. Palácio de Sobre Ribas.jpg

Leiteira fardadas e com cântaros lacrados

Depois, veio a obrigação de andarem de bata branca e com um cântaro de folha de flandres com um feitio esquisito, no qual dependuravam as medidas. Cântaro, diariamente lacrado pela Delegação de Saúde.
Os padeiros e as padeiras, com grandes cestos de vergas às costas cobertos com um pano branco, indo de casa em casa, deixar o pão que era pago à semana.

Peixeiras da Figueira.jpgPeixeiras das Figueira

As peixeiras da Figueira, vestidas com as suas saias tradicionais, a blusa e o xaile traçado e a rodilha na cabeça. Normalmente esguias e apressadas com as canastras à cabeça e o seu pregão tradicional, entoado de uma forma única: sardinha da areiaaaa! Oh freguesa é linda e fresquinha! 3 dez tostões! Quase sempre descalças, ou com um chinelo calçado e outro na mão pois havia que evitar as multas policiais de vinte e cinco tostões por se andar descalço.
O cafezeiro com a sua mala castanha e o seu pregão: Olha o cafezeiro! Compre agora! Vou para o norte e só volto para a semana!
Havia ainda o petrolino com a sua carroça puxada por um cavalo que vendia petróleo e azeite e que avisava a sua presença com o toque de uma corneta.

Amolador.jpgAmolador

E o amolador, com a sua flauta e toque típico, cujo pregão era: amola tesouras e navalhas, põe gatos nas panelas e gatos nas talhas! Exercia, ainda, as funções de capador de gatos.
Um aparte para terminar.

Flávio  Rodrigues.JPGFlávio Rodrigues e José Trego mestres de tantas gerações de estudantes e futricas. Fotografia retirada de “Flávio Rodrigues Silva - Fragmentos para uma Guitarra” de António Manuel Nunes e José dos Santos Paulo

Quando se fala de fado de Coimbra associa-se sempre a estudantes. Não é inteiramente verdade. Basta lembrar Artur Paredes e Flávio Rodrigues mestres e iniciadores no fado de Coimbra de tantos estudantes e futricas.

Três breves reflexões à laia de conclusão.
A primeira é óbvia. A Alta dos tempos dos salatinas está a desaparecer com a geração dos que viveram esse tempo. Não obstante a permanência de alguns velhos resistentes, passaram, na atualidade, a predominar os alojamentos para estudantes e os de curta duração, com o consequente surgimento de bares e de lojas para turistas.
Embora reconhecendo estarem em curso algumas obras de recuperação, há que assinalar a existência de situações carecidas de intervenção urgente: os imóveis em ruína e o estacionamento abusivo de automóveis nas ruas da Couraça dos Apóstolos, João Jacinto e, nomeadamente, no Largo da Sé Velha, aqui com evidentes consequências negativas para a fruição e preservação deste monumento nacional.
Terceira e última reflexão. O fenómeno da “turisficação” que começa a surgir na Alta está estudado, bem como os perigos e efeitos de uma aposta exclusiva no turismo. Há que nunca esquecer que um destino turístico está sujeito à moda de momento e são inúmeros os destinos que deixaram de estar na moda. Não obstante a tendência para o crescimento sustentado do turismo, o percurso de um destino turístico, se depende essencialmente da sua riqueza patrimonial e/ou paisagística, também depende da forma como organiza a sua oferta e se é capaz de criar experiências nos turistas que o procuram.
A Alta necessita de ser repensada e planeada para o curto e para o longo prazo. Daí o meu apelo à União de Freguesias para organizar umas jornadas técnicas, com a participação de credenciados especialistas multidisciplinares, quer da Cidade, quer de fora dela, tendo por tema a “Alta de hoje e a Alta do futuro”. O evento não se deve limitar a elencar ideias, mas, fundamentalmente, a definir projetos e a congregar esforços que permitam à Alta do futuro fazer jus ao seu passado.
A “nossa” Alta precisa do saber, do conhecimento, mas também precisa de carinho e de amor.
Que as Comemorações dos 900 de Almedina não sejam um ponto de chegada, mas sim de partida.
Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 10:12

Quinta-feira, 06.09.18

Coimbra: Mata de S. Bento ou do Jardim Botânico

Há já algum tempo utilizei o pequeno autocarro que liga o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha à Universidade, passando pela Mata do Botânico, a fim de desfrutar a beleza que tal deslocação (devia) proporciona(r), mas, na passada quarta feira (29 de agosto) percorri a pé parte da Mata, partindo do belíssimo portão que se encontra na Rua da Alegria até ao Reservatório, adossado ao que resta da muralha que ainda se pode visualizar num pequeno troço da Couraça de Lisboa.  

Tive então ocasião de analisar mais pormenorizadamente todo o percurso e, se vi coisas de que gostei, outras houve que me causaram tristeza e me desgostaram.

Começando pelas primeiras.

 - Portão da Rua da Alegria

Antiga Faculdade de Letras.jpg

 Antiga Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Portão da Rua da Alegria.JPG

 Portão da Rua da Alegria, antes do recente restauro

Portão da Rua da Alegria. Pormenor 01.JPG

 Portão da Rua da Alegria. Pormenor

A peça pertenceu a uma das entradas da primitiva Faculdade de Letras que se erguia no local onde atualmente se encontra a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Projetou o edifício, em 1912, o arquiteto Augusto de Carvalho da Silva Pinto. O desenho dos portões, colocados apenas em agosto de 1927, também lhe pertence e foram batidos por Manuel Pedro de Jesus, António Maria da Conceição (Rato), Daniel Rodrigues e Albertino Marques, todos eles saídos da plêiade dos serralheiros artísticos de Coimbra. Depois da intervenção na zona da Alta, que acabou por transformar o edifício em causa, um dos portões foi transferido para a Rua da Alegria, enquanto os outros e as bandeiras das aberturas levaram sumiço. Como se comprova estamos perante mais uma muito boa obra de serralharia saída das oficinas coimbrãs a merecer um olhar atento.

 - Recuperação do caminho pela Mata

O caminho percorrido pelo miniautocarro atravessa parte da mata e, para além de ser muito belo, está bem conseguido; passa, nomeadamente, junto ao bambuzal, provavelmente o maior da Europa. O número de turistas que utilizam aquele transporte, bem como os que se deslocam a pé e que encontrei tanto a descer como a subir podem fruir da beleza da mata. Realidades que justificam a existência da carreira e a necessidade de a manter a funcionar.

 - Reservatório

Embora ainda não esteja completa a recuperação do reservatório de água existente na Mata do Botânico e que serviu para, outrora, abastecer do precioso líquido a parte baixa da cidade, aquilo que já foi feito – como se constata a partir da entrada publicada na passada 3.ª feira – permitiu alertar para a existência de um património de interesse que se encontrava completamente esquecido e cuja reabilitação importa terminar dando-lhe uma conveniente utilização, quiçá de índole cultural. Talvez seja de equacionar, por nos parecer uma boa utilização deste espaço, a instalação de um polo do Museu da Água.

 Passo a referir, a partir daqui, os aspetos que me causaram tristeza e me desgostaram.

 - Fonte da Mata de S. Bento

Capela.jpg

 Fonte da Mata de S. Bento

Magnificamente enquadrada na Mata o Professor Nelson Correia Borges carateriza-a como sendo uma fonte típica das “cercas monásticas, que, juntamente com sítios de fresco, capelas e tanques de água se assumiam como locais de recreio, de meditação e de oração situadas sempre em contacto com a natureza”.

A imagem fala por si mesma, mostrando que a estrutura se mostra carecida de urgente recuperação antes que os homens, o tempo e a Natureza a façam desaparecer.

 - Capela de S. Bento

Capela de S. Bento.jpg

 Capela de S. Bento

Seguindo as placas de orientação chega-se a um local paradisíaco. Um dossel de árvores abriga a capela de S. Bento, onde a reflexão em profunda interação com a Natureza por certo acontecia.

Como os trabalhos de desmatação levados a cabo no local se tornam evidentes, pensamos que, sem grandes custos, se podia ter ido mais longe e limparem-se as paredes exteriores e isto sem prejuízo das obras de maior envergadura de que a capela, por certo, necessita.

 - Muralha de Coimbra

Ao prosseguir no caminho de acesso ao Reservatório passámos por um local onde outrora existiu um miradouro e de onde nos foi possível recolher as imagens que seguidamente publicamos.

Muralha. Couraça de Lisboa 1.JPG

 Muralha. Couraça de Lisboa 1

Muralha. Couraça de Lisboa 2.JPG

 Muralha. Couraça de Lisboa 2

Muralha. Couraça de Lisboa 3.JPG

 Muralha. Couraça de Lisboa 3

Muralha. Couraça de Lisboa 4.JPG

  Muralha. Couraça de Lisboa 4

Ao longo dos séculos a cidade e as suas gentes não quiseram, ou não puderam, evitar o desmantelamento da Muralha de Coimbra.

É verdade que a valorização do pouco que resta já se iniciou, mas urge prosseguir para fielmente, e assente em dados concretos, se escrever a História de cidade e valorizar dignamente o que subsiste dessa estrutura.

É hoje inquestionável que a valorização de uma cidade passa pelo progresso, mas este deve assentar no respeito que os seus habitantes e os seus autarcas mostrarem (e demonstrarem) tanto pelo passado, como pela História da urbe.

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por Rodrigues Costa às 10:40

Segunda-feira, 02.07.18

Coimbra: Concerto memorável ou uma lição a considerar

Assisti ontem, em Coimbra, a um concerto notável realizado na Igreja de Santa Cruz por dois grupos que se mobilizaram conjuntamente, a fim de levar a cabo o evento.

Um– MOÇOS DO CORO – dirigido por um jovem maestro, integrava seis vozes femininas e seis vozes masculinas, na sua maioria jovens estudantes e professores de música. O outro – GRUPO VOCAL ANÇÃ-BLE – era composto por 5 elementos masculinos pertencentes a uma Família que, de alguma maneira, se encontra ligada a Coimbra.

Comecemos pela folha de sala, de evidente bom gosto:

coral_0001.jpg

 O programa, tal como se mostra na imagem seguinte, encontrava-se arrolado no anverso.

coral_0002.jpg

 

Constava de quatro obras da autoria de Dom Pedro de Cristo e de quatro peças, escritas por cada um dos quatro jovens autores que se encontravam presentes; estes compositores, no respeito pela ambiência musical própria do polifonismo, conseguiram integrar nas suas obras traços significativos e significantes do tempo atual.

A interpretação, para além de aproveitar as excecionais condições acústicas existentes no templo, atingiu um nível de altíssima qualidade.

O público – onde sobressaía um significativo número de estrangeiros – quase encheu a igreja e, no final, manifestou o seu apreço pelo que lhe tinha sido dado ouvir com um justo e longo aplauso.

 

Depois de relatar o que me foi dado presenciar gostaria de partilhar aqui algumas reflexões que tenho tentado, em vão e na justa medida das minhas limitações, transmitir a quem de direito, a fim incentivar a cidade de Coimbra a aproveitar melhor o muito de bom que a ela se encontra vinculado; infelizmente apenas tenho esbarrado com um fechar de olhos e um virar de costas.

Essas reflexões vão traduzidas em forma de questões e começo por perguntar qual o número de Conimbricenses que sabe quem foi Dom Pedro de Cristo?

Eis algumas achegas para a resposta:


Pedro_de_Cristo[2].pngDom Pedro de Cristo. Imagem extraída de

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_de_Cristo#/media/File:Pedro_de_Cristo.PNG

 

Dom Pedro de Cristo nasceu em Coimbra (Portugal) em c.1550. Passou a maior parte de sua vida em Coimbra, no Mosteiro de Santa Cruz, onde tomou hábito em 1571.

Mestre de capela do mosteiro, cargo de que foi titular a partir de 1597, Dom Pedro de Cristo foi ao mesmo tempo professor de música, cantor e tangedor de vários instrumentos, nomeadamente de tecla, harpa e flauta. Morreu em Coimbra, em 16 de dezembro de 1618.

Dom Pedro de Cristo - cujo nome secular era Domingos - pode ser considerado um dos maiores polifonistas do século XVI no domínio da música religiosa. É como compositor que tem o seu lugar na história, com a sua vasta obra vocal polifônica de 3 a 6 vozes, compreendida por inúmeros motetos, responsórios, salmos, missas, hinos, paixões, lamentações, versos aleluiáticos, cânticos e vilancicos espirituais.

Pouco conhecido, em virtude da sua obra não ter sido ainda publicada na quase totalidade, é possível, todavia, avaliar da qualidade e número de suas obras através do que foi publicado sobre ele por Ernesto Gonçalves de Pinho, com alguns dados biográficos inéditos e uma informação valiosa sobre as obras, ainda manuscritas deste frade crúzio.

 

- Outra questão: qual a razão porque Coimbra e as suas instituições não efetuam um trabalho de divulgação relacionada com um dos grandes vultos da cidade e com a sua importante obra?

 

- Mais uma pergunta: porque motivo estão por recordar e por homenagear tantos Conimbricenses ilustres?

 

- Ainda uma outra: porque não se aproveita o extraordinário património organístico existente em Coimbra e que tive o gosto de enumerar numa entrada deste Blog publicada vai para um ano, em 2017.08.17, sobre o título “Coimbra; Cidade ECHO?”. Nessa entrada propunha a adesão de Coimbra à Europae Civitates Historicorum Organorum, organização fundada em 1997, que tem como objetivo desenvolver, no contexto europeu, um papel unificador de projetos comuns levados a cabo no âmbito das cidades possuidoras de órgãos com valor histórico.

 

- Uma última questão, não despicienda, mas que, propositadamente, deixo sem resposta: qual a razão porque Coimbra é uma cidade tão madrasta para os seus Filhos?

 

Bibliografia:

https://acercadecoimbra.blogs.sapo.pt/coimbra-cidade-echo-109632

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_de_Cristo

 

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por Rodrigues Costa às 21:44

Segunda-feira, 28.05.18

Coimbra: Museu da Ciência da Universidade de Coimbra

Os caloiros que iniciaram a licenciatura em Ciências Físico-Químicas em 1963, reuniram-se ontem e mais uma vez, desta feita em Coimbra. Do programa constou missa e a recordação da bênção das pastas e ainda uma visita ao Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, num retorno aos locais onde tiveram das suas primeiras aulas.

Para esta visita – que se recomenda a quem ainda a não fez – foi elaborado o pequeno guião que aqui se divulga.

 Breve síntese histórica

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra ocupa atualmente dois edifícios: o Laboratorio Chimico e o Colégio de Jesus. Ambos pertenceram ao Colégio dos Padres Jesuítas, também denominados Apóstolos (o nome perpetua-se na Couraça) e ao Colégio das Artes. A primeira pedra do Colégio dos Jesuítas foi lançada no dia 14 de abril de 1547 e a igreja, riscada pelo arquiteto Baltazar Álvares, membro da Companhia; a sua construção iniciou-se em 1598 e prolongou-se durante um século. 

Colégio de Jesus desenho.TIFColégio de Jesus e Colégio das Artes em 1732 (gravura de Carlo Grandi)

 O Colégio das Artes, entretanto criado por D. João III, ocupou, num primeiro momento, espaços pertencentes a Santa Cruz e foi entregue aos Jesuítas no ano de 1555, ainda antes do edifício (que se ergue quase paredes-meias com o dos Apóstolos e fora iniciado em 1568) estar concluído.

Os imóveis encontravam-se ligados por dois pequenos corpos de passadiço, perpendiculares à fachada oriental. Um fazia comunicar o Colégio de Jesus com o Colégio das Artes e o outro ligava o complexo colegial ao edifício onde, graças aos trabalhos arqueológicos recentemente efetuados, se ficou a saber que estava instalada a sala do refeitório bem como, provavelmente, as cozinhas e a ucharia, ou seja, estamos a referir-nos ao atual Laboratório Chimico.

Os Jesuítas de Coimbra gozaram por pouco tempo da sua igreja e das restantes estruturas, porque, em 1759, foram expulsos do país, o colégio extinto e os bens sequestrados. Os edifícios ficaram abandonados durante treze anos.

Aquando da Reforma Pombalina da Universidade, iniciada em 1772, parte do complexo passou para a posse da Universidade e a igreja, com mais alguns anexos, foram entregues ao Cabido diocesano.

O marquês de Pombal, ao implementar a reforma universitária que, obviamente, necessitava de espaços adequados, apoderou-se de uma parte considerável do Colégio de Jesus. Contudo, ciente da importância do ensino experimental, estava já na posse de planos trazidos de Viena de Áustria por Joseph Francisco Leal destinados à construção do Laboratorio Chimico; no entanto, este projeto não saiu do papel, tendo-o substituído um outro desenhado na Casa do Risco, sob orientação do engenheiro militar tenente-coronel Guilherme Elsden, que se salientou como diretor das Obras da Universidade de Coimbra. 


Laboratório Chimico.jpgFachada do Laboratorio Chimico, desenho de G. Elsden e R. F. de Almeida, 1777 in Franco, M.S. “Riscos das Obras da Universidade de Coimbra”, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra, 1983.

Trata-se de um edifício de grande qualidade, muito elegante e onde se destaca o frontão central, em corpo avançado sobre colunas. No entanto, o projeto original do coroamento do edifício foi alterado e só lhe foi aposto no século XIX.

Guilherme Elsden foi também o responsável pela adaptação dos edifícios preexistentes destinados a acolherem os Gabinetes de História Natural e de Física Experimental.

A estrutura vira para o Largo do Marquês de Pombal e mostra uma longa fachada de 110 metros de comprimento, de nobres linhas protoneoclássicas, onde se salienta o corpo central, coroado por frontão triangular preenchido por um belo relevo da autoria de Joaquim Machado de Castro, representando a Natureza e cinzelado pelo escultor António Machado. Nos gradeamentos das ventanas pode observar-se um pequeno medalhão com o busto do marquês de Pombal. 

Laboratório de Fisica.jpg

 Frontão alegórico

No interior destaca-se a escadaria de aparato e os alizares de azulejo.

Refira-se ainda que nas alas norte e poente do Colégio funcionaram, inicialmente, os Hospitais da Universidade de Coimbra.

Os objetivos pedagógicos que então se pretendiam atingir encontram-se bem expressos nos Estatutos Pombalinos, datados de 1772, onde se lê que “os estudantes não somente devem ver executar as experiências, com que se demonstram as verdades até ao presente, conhecidas … mas também adquirir o hábito de as fazer com sagacidade e destreza, que se requer nos Exploradores da Natureza”.

A adaptação dos dois imóveis a Museu da Ciência ocorreu nos primeiros anos do presente século, tendo a primeira fase sido inaugurada em 2006 sob projeto de João Mendes Ribeiro, Carlos Antunes e Desirée Pedro. Trabalhos que visaram, essencialmente, reconduzir os espaços ao seu aspeto inicial.

Está classificado, desde 2016, como Sítio Histórico pela Sociedade Europeia de Física.

Recordamos que foi nestes espaços, nos idos dos anos 60, que os caloiros que então eramos, tiveram as primeiras aulas da licenciatura em Ciências Físico-química.

 

A nossa visita

A duração prevista é de cerca de uma hora segundo o seguinte percurso:  

- Gabinete de Física

Foi equipado com seis centenas de máquinas que representavam o que de melhor e mais moderno então existia no campo da investigação científica. Cada uma delas tinha uma conceção que a tornava adequada a um dos capítulos do programa descrito no curso redigido por Dalla Bella.

O Gabinete de Física de Coimbra, mostra bem a profunda influência que as ideias e os instrumentos provenientes das mais diversas zonas da Europa tiveram em Portugal no século das luzes. O que resta dos instrumentos pertencentes ao Gabinete do século XVIII considera-se, atualmente, verdadeiras obras de arte, valorizadas pela riqueza dos materiais e pela perfeição da execução. Ocupam ainda as salas e o mobiliário primitivo, permanecendo no seu espaço de origem e mantendo as suas características específicas desde o tempo da fundação; constituem uma coleção de instrumentos científicos e uma representação notável da evolução da Física nos Séculos XVIII e XIX.

Visitamos o anfiteatro e as salas Figueiredo Freire (séc. XIX) e Dalla Bella (séc. XVIII).

- Gabinete de História Natural

Por força dos Estatutos Pombalinos da Universidade, datados de 1772, os professores da Faculdade de Filosofia deviam coordenar a recolha das espécies. O espólio assim obtido incorporou inicialmente a coleção privada de Vandelli e foi muito enriquecido com a Viagem Philosofica à Amazónia realizada por Alexandre Rodrigues Ferreira.

Os espécimes encontram-se organizados por regiões com recurso às técnicas de conservação e exposição então em uso. 

Visitamos as salas das viagens, do mar, de África, das avestruzes e de Portugal.

- Laboratório Chimico

Encontra patente neste edifício a exposição Segredos da luz e da matéria que trata este tema a partir dos objetos e instrumentos científicos das coleções da Universidade de Coimbra, uma das mais notáveis e raras da Europa. Um conjunto de experiências e módulos interativos possibilitam a observação de fenómenos, desde a experiência de decomposição da luz, de Newton, até à neurobiologia da visão.

 BORGES. Nelson Correia, Coimbra e região, Lisboa, Presença, 1987.

CORREIA, Vergílio; GONÇALVES, António Nogueira, Inventário artístico de Portugal. Cidade de Coimbra, Lisboa, Academia Nacional de Belas Artes, 1947.

DIAS, Pedro; GONÇALVES, António Nogueira, O património artístico da Universidade de Coimbra, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1991.

VASCONCELOS, António de, Escritos vários, vol. I, Coimbra, AUC, 1987 [Reedição].

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=content&option=museum&action=project&mid=5

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=content&option=museum

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por Rodrigues Costa às 11:19

Terça-feira, 03.04.18

Coimbra: Cidade bela, mas também cidade vandalizada 2

No passado dia 15 de janeiro de 2016 tivemos ocasião de organizar uma visita à Igreja do Salvador em Coimbra guiada pelo historiador Nelson Correia Borges.

Ao iniciar a visita apelámos à necessidade urgente de reabilitar este monumento nacional.

Penso que no final dessa visita as numerosas Pessoas que nela participaram, reconheceram também tal urgência e necessidade.

Recordo que, conforme refere Joana Garcia, Técnica Superior de Arqueologia na Divisão de Reabilitação Urbana da Câmara Municipal de Coimbra, a Igreja do Salvador é de origem medieval, mais propriamente da segunda metade do século XII e pertence ao segundo românico de Coimbra. Este templo terá vindo substituir outro mais antigo, cuja existência está comprovada pelo menos em 1064.

Numa das minhas habituais deambulações pela Alta tive ocasião de, ontem, fazer as seguintes fotografias:

Igreja Salvador 1a.jpg

 Portal de 1179, pormenor 1 

Igreja Salvador 2a.jpg

 Portal de 1179, pormenor 2

Igreja Salvador 3 a.jpg

 Portal de 1179, pormenor 3

Igreja Salvador 4 a.jpg

 Parede lateral, pormenor 1

Igreja Salvador 5 a.jpg

 Parede lateral pormenor 2, com insultos ao Papa

Julgo que estas imagens evidenciam que se ultrapassou o limite da dignidade e do respeito pela História e pelas Pessoas.

Considero que os Monumentos Nacionais bem como as demais Autoridades não podem ficar indiferentes perante este ato do mais abjeto vandalismo.

E se isso não se verificar, ao menos se levante um clamor público capaz de obrigar a uma atuação adequada. No mínimo, a imediata remoção do lixo pintado nestas paredes.

 

Rodrigues Costa

 

Nota: Cópia deste alerta irá ser enviado, por email, às competentes Autoridades Civis e Religiosas, bem como aos Órgãos de Comunicação Social

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por Rodrigues Costa às 09:06

Terça-feira, 27.03.18

Coimbra: Cidade bela, mas também cidade vandalizada

Há dias realizamos um curto passeio pela zona do Jardim Botânico e verificámos que a maior parte dos muros e dos portões, muitos deles recentemente recuperados, apresentavam uma enorme degradação decorrente dos escritos que lhe haviam sido apostos.

Concluímos que estávamos perante atos de puro vandalismo, pois trata-se apenas de destruir ou danificar a propriedade alheia, pública ou privada, de forma intencional e sem qualquer outro motivo aparente que não seja o propósito de, sem permissão do dono, causar prejuízos e desfigurar o existente.

A denominação “vandalismo” foi, num primeiro momento, atribuída pelos romanos às ações praticadas por um povo bárbaro germânico, oriundo da Europa Central, que se caracterizava por atuar de maneira selvagem, descontrolada e sem respeito para com nada. Na sequência, essas gentes, acabaram por ser formalmente chamados de Vândalos. Não é por acaso que esse nome, com o tempo, tivesse sido transferido para nossa língua, a fim de denominar as pessoas ou os grupos que se comportam de maneira caótica e, por vezes, violenta.

A comunidade acaba por ser a mais afetada pela destruição referida, na medida em que a situação atinge diretamente os lugares públicos que fazem parte do cotidiano de todos nós.

Estes grupos atuam, na maioria dos casos, pela calada da noite, altura em que a segurança não é tão eficaz, permitindo-lhes uma maior liberdade e dando-lhes a possibilidade de não serem apanhados em flagrante delito.

As inscrições feitas em paredes são vulgarmente chamadas de grafite, grafito ou grafíti, pois trata-se de uma inscrição caligrafada ou de um desenho pintado ou gravado sobre um suporte que não se destina a essa finalidade.

Os grafitos foram olhados durante muitos anos como assunto irrelevante ou como mera infração considerada de pequena gravidade, mas a sua significação tem variado, ao longo dos tempos de acordo com a evolução da sociedade e, atualmente, nalguns casos, já os consideram como uma forma de expressão incluída no âmbito das artes visuais, mais especificamente, da street art ou “arte urbana”, em que o artista aproveita os espaços públicos, criando uma linguagem intencional destinada a interferir na cidade.

Contudo, há quem não concorde e equipare os grafitos à pichação, ou seja, ao ato de escrever ou rabiscar sobre muros, fachadas de edificações, asfalto de ruas ou monumentos, usando tinta em spray aerossol, dificilmente removível, marcadores ou mesmo rolo de tinta. Regra geral escrevem frases de protesto ou de insulto, assinaturas pessoais ou mesmo declarações de amor. Para transmitir a sua mensagem podem utilizar grupos de letras que funcionam como abreviaturas, símbolos e logotipos.

A praga é velha e até já foi pior.

Mas, lentamente, vai voltando e trata-se de uma praga que – em nosso parecer – para ser combatida carece de trabalho persistente levado a cabo, nomeadamente pelas escolas, destinado a alertar os mais jovens para a salvaguarda de um património que é de todos.

Embora o rápido apagar destes “escritos” deva ser uma preocupação das Autoridades, julgamos que a resolução do problema passa, num primeiro momento e primordialmente, pela formação cívica a que deve ser incutida em todos os cidadãos e que estes têm a obrigação de vivenciar.

Aqui fica o nosso protesto acompanhado de elucidativas imagens. 

Ladeira das Alpendurada casa recentemente recupera

 Rua dos Combatentes/Ladeira das Alpenduradas, casa recentemente recuperada

 

Alameda Júlio Henriques.JPG

 Alameda Júlio Henriques

 

Alameda Júlio Henriques, muro do jardim dos patos

 Alameda Júlio Henriques, muro do jardim dos patos

 

Jardim Botânico, muros exteriores.JPG

 Jardim Botânico, muros exteriores

Rua dos Combstentes portão de garagem.JPG

 Rua dos Combatentes, portão de garagem

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por Rodrigues Costa às 10:20

Quinta-feira, 21.12.17

Coimbra: Parque Verde do Mondego

No início do milénio, no âmbito do Programa Polis, foi projetado, pela empresa de arquitetura paisagista PROAP, o Parque Verde do Mondego, que se estende por 3 quilómetros da frente ribeirinha ao longo das duas margens do rio Mondego entre a Ponte de Santa Clara e a Ponte Europa. À beleza do rio veio, assim associar-se uma obra paisagística, já do século XXI, que permite uma valorização plena das famosas margens do Mondego

Parque Verde.jpg

 Parque Verde

 Três áreas se destacam, criando unidades diferentes: a frente rio, propriamente dita, plantada de salgueiros e choupos, com pequenos ancoradouros que se projetam sobre o rio e criam estadias sobre a água; a área de restaurantes e apoio aos desportos náuticos; e a zona de estacionamento. Recuada e separando a área de lazer da área de estacionamento, destaca-se uma enorme fonte-canal, paralela ao rio, de traçado inovador.

Rio Mondego pontes.jpg

 

Parque verde pontes

 Para ligar as duas margens, agora sempre distantes com o espelho de água que o Mondego passou a oferecer desde a construção do açude, foi projetada uma ponte pedonal pelos engenheiros Adão da Fonseca e Cecil Balmond que se completa no Outono de 2006.

A partir da saída da ponte, na margem esquerda, o projeto prevê uma ligação por túnel à área do Convento de Santa Clara-a-Velha e, mais além, ao Portugal dos pequenitos.

 

Nota:

Quanto ao Parque Verde cumpre-me dar um testemunho.

Um certo dia, ao fundo da ladeira do Batista designação popular do troço onde se inicia a Rua do Brasil, encontrei o Dr. Mendes Silva, então já ex-presidente da Câmara e, como advogado, regressado às suas funções de promotor imobiliário. Vinha eufórico. Segundo o que então me disse tinha acabado de estabelecer com os proprietários dos terrenos da Ínsua dos Bentos – que o atual Parque Verde parcialmente integrava – uma proposta de acordo a apresentar à Câmara da doação à Cidade do terreno da zona situada entre a linha da Lousã e o rio, em troca da possibilidade de construir na restante parte do terreno. Era a conclusão de um processo que, desde o seu mandato à frente da Câmara, vinha procurando erguer.

Não posso testemunhar o desenrolar das negociações, pois estas aconteceram num período em que, tendo concluído que me era impossível continuar a desempenhar o cargo de Diretor do Departamento de Cultura, Desporto e Turismo da Câmara de Coimbra, dentro do contexto que eu considerava ser o correto, tomei a decisão de renunciar a essa função e procurar trabalho onde se me pudesse realizar como pessoa e como profissional.

Coimbra, por vezes, é madrasta. E foi-o para essa figura ímpar de Conimbricense que se chamou Dr. Mendes Silva, a quem a Cidade ainda deve a homenagem e o reconhecimento do muito que por ela fez.

 

Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 180

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por Rodrigues Costa às 09:25


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