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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 24.11.22

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos. Reflexões 2

Na anterior entrada referimos o recente trabalho do Professor Doutor José Amado Mendes, intitulado O património industrial e os museus: que relação?

Vamos seguir esse texto, a fim de compreender o que se entende por património industrial.

O património industrial é um novo bem cultural e um dos patrimónios emergentes. A sua grande relevância corresponde ao significado dos fenómenos históricos a que está indissociavelmente ligado, isto é, a Revolução Industrial, o processo de industrialização e o desenvolvimento da tecnologia.

O património que nos foi legado pela industrialização é imenso … A sua diversidade é enorme e passa, entre outras, pelas seguintes modalidades: estruturas… equipamentos … aquivos, fotografias e relatos orais … meios de transportes e comunicações.

Álvarez Areces: «A arqueologia industrial como matéria que estuda, investiga e defende a preservação do património industrial está-se convertendo num movimento cultural e social que amplia, dia a dia, o marco estrito de uma disciplina académica»

O património industrial tem dado um excelente contributo à museologia, em especial à chamada nova museologia, intimamente associada à profunda renovação dos museus, à “criatividade renovada”, iniciada nos anos de 1970 e que se acelerou na década de 1980.

Texto que é ilustrado com as seguintes imagens.

O património industrial e os museus, pg. 68.png

Op. cit. Pg. 68

O património industrial e os museus, pg. 69.pngOp. cit., pg. 69

O património industrial e os museus, pg. 70.pngOp. cit., pg. 70

O Autor prossegue para, no final do artigo, apresentar as seguintes conclusões:

A evolução política, socioeconómica e cultual das comunidades, desde meados do século XX, induziu os decisores, investigadores, professores e agentes culturais a prestarem mais atenção aos vestígios e testemunhos do desenvolvimento económico, ao longo do tempo. Consequentemente, a noção de património cultural ampliou-se de forma significativa, passando a englobar novos aspetos da realidade, de entre os quais se tem destacado exatamente o património industrial.

… Simultaneamente com a valorização e preservação do dito património industrial foi criada, a partir dos anos de 1950, um novo “território” de pesquisa e ensino-aprendizagem, a Arqueologia Industrial. Esta, cujo objeto é precisamente o mencionado património industrial, tem por função o estudo e divulgação, bem como a sua salvaguarda, requalificação e reutilização de bens culturais de índole industrial, no sentido genérico da expressão e sem restrições cronológicas rígidas.

As repercussões desse novo olhar para os bens culturais de índole industrial fizeram-se sentir, por exemplo, no mundo académico – investigação, ensino-aprendizagem e publicações especializadas –, no turismo, especialmente no turismo cultural, e nas políticas e estratégias de gestão cultural, urbanística e ambiental.

No âmbito da museologia – sobretudo na “nova museologia” – os efeitos foram de grande monta e muito contribuíram para a criação ou atualização de elevado número de instituições museológicas, designadamente museus, ecomuseus e centros de interpretação. Em muitas circunstâncias, tem-se também optado pela musealização e preservação in situ de ambientes industriais, mineiras ou relacionados com os transportes e comunicações.

Importa reter esta conclusão e, pensamos, as fotografias que seguidamente publicamos encontram-se em consonância com os conceitos atrás enunciados.

A primeira mostra as primitivas instalações, onde, na Rua da Alegria, os elétricos eram reparados e, inicialmente, guardados.

Primitiva oficina e recolha dos elétricos, nas in

Primitiva oficina e recolha dos elétricos, nas instalações da R. da Alegria

A segunda apresenta a fachada exterior dessas mesmas instalações, quando ali funcionava o Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra.

Museu dos Transportes, exterior.jpg

Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, exterior

Por último, reproduz-se um pequeno desdobrável do Museu, então elaborado.

Museu Transp Urbanos Coimbra 1.jpg

Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, desdobrável. Col. Vítor Rochete

Tudo o que ficou dito permite-nos colocar uma questão: a musealização e a preservação dos carros elétricos e da oficina onde eles eram reparados “in situ” é, ou não adequada? Tanto uns, como a outra, fazem parte do património histórico da cidade.

A resposta é, para nós, óbvia.

Rodrigues Costa

Mendes, J.A. 2022. O património industrial e os museus: que relação? In: Revista Memória em Rede, Pelotas, v.14, n.27, Jul/Dez 2022. Pg. 59-84.

 

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por Rodrigues Costa às 10:31

Terça-feira, 22.11.22

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos. Reflexões 1

Carro elétrico n.º1, à saída da fábrica.jpg

Carro elétrico n.º 1, à saída da empresa construtora, J.G. Brill Company.1910.

Noticia da inauguração.jpg

Noticia da inauguração da tração elétrica em Coimbra. In: Illustração Portugueza, n.º 258. 1911.01.30, pg. 139.

Quem tem uma já longa experiência de vida, a par com uma passagem – ainda que efémera – na esfera da ação política e quem trabalhou muitos anos numa autarquia, aprendeu, obviamente, algumas regras da prática política.

No âmbito deste contexto, embora fazendo uma caricatura onde as exceções só confirmam a regra, constata-se que um político nunca diz não a um projeto que lhe seja apresentado.  Numa primeira fase afirma: sabem que a autarquia não tem dinheiro, há que estabelecer prioridades, vamos pensar.

Num segundo tempo, se a pressão dos eleitores se fizer sentir de forma muito persuasiva, declara: vamos elaborar um projeto, a fim de analisar o que fazer e os respetivos custos.

Num terceiro momento, se a pressão pública continuar a fazer-se sentir, fala-se de um projeto, que raramente é apresentado publicamente, e, simultaneamente, revela-se a respetiva orçamentação, essa sim, bem publicitada e calculada por um valor tão elevado quanto o possível; ao mesmo tempo informa-se que esta obra não cabe dentro do orçamento camarário, consequentemente iremos apresentar uma candidatura destinada a obter o seu financiamento.

Estamos perante a quadratura do círculo perfeita, pois nada de concreto é feito, nada é prometido, mas o político pode afirmar o “grande” interesse do projeto e a esperança da atribuição do tal subsídio, ainda que este não tenha viabilidade ou aponte para uma hipotética exequibilidade, num futuro tão longínquo quanto possível.

Vem esta introdução a propósito, porque, curiosamente, no mesmo dia tive conhecimento de um artigo publicado no jornal “Público”, assinado pelo jornalista Camilo Soldado e de um relato difundido em Inglaterra, nas redes sociais, por Bob Lennox, um profundo conhecedor e estudioso dos sistemas de tração elétrica e da sua musealização. Os dois textos lançam alguma luz sobre o que se passou na nossa cidade nos últimos vinte e poucos anos, tantos quantos os que já decorreram desde o encerramento do então designado “Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra”.

Para além dos referidos textos, que tenciono abordar em entradas subsequentes, remeto os leitores para um recente trabalho do Professor Doutor José Amado Mendes, que se encontra disponível na net, intitulado O património industrial e os museus: que relação?

Os textos em causa merecem uma séria reflexão, até porque nos permitem esclarecer o que se tem passado com o espólio existente no Museu, a partir do seu encerramento no ano de 2000.

Ao longo destes anos tive conhecimento de “ideias” relacionadas com a criação de um Núcleo Museológico dedicado aos transportes urbanos de Coimbra a que estava associada a existência de uma linha histórico/turística. Contudo, se foi executado um qualquer projeto que desse corpo ao Museu, a verdade é que nunca o visualizei e, em contrapartida, relativamente ao preço da concretização dessas “ideias”, já ouvi referências ao seu elevado custo e à consequente necessidade de obter financiamento para o mesmo.

Elétrico com chora. Cerca de 1911.jpg

Carro elétrico com “chora”, na Rua da Sofia, cerca 1911

Estas “ideias” lançadas sem um projeto que as suporte, conjuntamente com os textos que referi, levam-me a tecer as seguintes considerações:

- Até ao momento, não me apercebi de que tenha sido alguma vez questionada a importância histórica do património então guardado no “extinto” Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra. Muito pelo contrário, tive conhecimento da existência de um elevado número de visitantes e das frases elogiosas que, acerca da estrutura então montada, proferiram.

Cito, apenas, a título de exemplo:

. Bob Lennox: Entrei no depósito da Alegria pela última vez em fevereiro de 1980. O depósito havia sido transformado em museu e alguns carros restaurados;

. Um dos impulsionadores do similar museu da Carris de Lisboa, ao visitar o Museu conimbricense, afirmou: Vocês com pouco fizeram muito.

- É verdade que já me inteirei, vagamente, da existência de projetos e referências relacionadas com a “futura” musealização do que ainda resta do espólio então exposto no “Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra”, mas jamais me foi concedida oportunidade de consultar a referida documentação. A notícia mais marcante relacionada com este assunto assenta na apresentação feita, com pompa e circunstância, em 2010.08.08, numa cerimónia presidida pela então Vereadora do Pelouro da Cultura, de um projeto para remusealização do material existente.

Dessa cerimónia subsiste documentação fotográfica que, seguidamente, reproduzimos.

Apresentação, em  2010.08.08 ---Col. Vitor Roche

Apresentação, em 2010.08.08, de um projeto de remusealização. Col. Vítor Rochete

Apresentação, em  2010.08.08 ---Col. Vitor Roche

Outro aspeto da mesma cerimónia, em 2010.08.08. Col. Vítor Rochete

Do que ficou dito depreende-se que tem sido abordada a forma de expor o material, mas ignoram-se os cuidados a ter com o património que ainda ali existe.

Esse património necessita de manutenção permanente, tem de estar recolhido em local que não permita a sua deterioração e muito menos pode ser mandado para a sucata ou ser oferecido a outras autarquias, a fim de estas enriquecerem com ele o seu acervo museológico.

Museu dos Transportes. Interior. 1995. Foto Ernest

Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra. Vista do interior. Foto Ernst Kers

Decorrem desta reflexão as propostas que seguidamente apresento:

- Alterem a designação de “Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra” para “Núcleo do Carro Elétrico do Museu da Cidade” ou aponham-lhe outro qualquer nome que julguem mais adequado. Para descanso das consciências outrossim sensíveis, até que seja possível a concretização dos seus grandes projetos, coloquem uma placa onde se possa ler “Instalações provisórias”.

- Procedam ao faseamento desses grandes projetos, dando prioridade à musealização “in situ” do património existente e deixem para uma segunda fase outras “ideias”, tais como a criação de uma linha histórica/turística, com a qual estamos, obviamente, de acordo, mas que implica uma manutenção consideravelmente onerosa.

- O Museu que existia, teve em mente dois objetivos essenciais: por um lado, salvaguardar um exemplar de cada um dos tipos de viaturas que, ao longo do tempo, integraram a frota do sistema de transportes urbanos de Coimbra e, por outro, manter a operacionalidade da oficina/recolha, de forma a assegurar a viabilização do funcionamento de uma hipotética futura linha histórica/turística.

De acordo com o que ficou dito, sugerimos que refaçam o Museu com as peças (ainda existentes) que estiveram expostas, com êxito, durante cerca de 20 anos, embora tendo em conta, na medida do possível, a nova filosofia da musealização do património industrial.

E isto, rapidamente, antes do possível desencaminhamento do património existente que ainda integra peças únicas a nível mundial.

A concretização, das sugestões que apresento, estão perfeitamente ao alcance das capacidades económicas do Município de Coimbra sem necessidade do recurso a qualquer subsídio ou candidatura, e podem ser levadas a cabo pelos técnicos municipais do sector.

Rodrigues da Costa

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:47

Quinta-feira, 10.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 4

Para terminar a divulgação do livro Coimbra de capa e batina, volume II, vamos às páginas 219 a 225, rever a conquista pela Associação Académica de Coimbra, em 1939, da Taça de Portugal, em futebol.

AAC emblema.png

Emblema da AAC. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Final da taça 2.png

Equipa que disputou a final da Taça de Portugal, ganhando ao Benfica por 4-3. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Bola Académica

Golo!... E o abraço caiu como um raio em cima do companheiro do lado!... 0 homem, porém, era do Benfica! . . .

~Vá lá abraçar um raio que o parta…

A situação foi salva imediatamente por uns companheiros da «claque», que o nervosismo nunca deixava estar parados nos 90 minutos do jogo. Daí o engano da fúria daquele abraço. . .

Mas a realidade era aquela. A Associação Académica tinha metido um estupendo golo...

Ali, nas redes do Benfica e no campo das Amoreiras! com o Tibério a ser «metralhado» por detrás das balizas.

Final da Taça 1.png

Intervenção do guarda-redes da AAC, Tibério. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

No retângulo do jogo, onze rapazes de camisola negra, davam luta de peito aberto a onze homens do Benfica e a uns milhares de adversários, espicaçados por aquele atrevimento dos «gajos» de Coimbra.

Sobre meia dúzia de adeptos da Associação começaram a cair as fúrias dos benfiquistas.

Mas, nem um passo de recuo… Nem uma vibração abalada. O grito era sempre o mesmo e redobrava de fé, a cada instante: é «Briosa»!!

Um fogo sagrado temperava aquela magnífica resistência dos estudantes de Coimbra. Havia ali a defender qualquer coisa de grande e de tradicional. Aquela equipe negra, impunha responsabilidades a jogadores e a adeptos.

Ninguém fugiu a dar. Os que jogavam aceitavam os ataques desleais dos adversários e procuravam destruí-los sem timidez. Os que aplaudiam, metidos entre agressões iminentes, mantinham a mesma atitude e continuavam a aclamar a Associação, que naquele momento se batia com um futebol e com uma alma, que um benfiquista traduziu, nesta expressão:

- Estes tipos são tremendos

Quando o árbitro deu por findo o encontro, o brio académico e a velha tradição da «malta» estavam perfeitamente salvos. O Benfica foi derrotado.

img20220826_14053862.jpg

No final do desafio da Taça de Portugal- Fan, Fan, Fan, Auto Fan… Repare-se na derrota estampada na cara dum jogador do Benfica… Op.cit. 225

Final da Taça. Op. cit. Pg. 225.jpg

No final do desafio da Taça de Portugal. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Uma espécie de loucura, atacou-nos então e ali, naquele campo das Amoreiras, mesmo nas barbas do Benfica e dos seus adeptos. Esqueceram-se posições sociais, conveniências próprias e o perigo de qualquer manifestação. Médicos, advogados funcionários públicos, alunos da Escola Militar, etc., deitaram cá para fora aquela alegria exuberante de incondicional estima pela Associação.

Que extraordinária vibração a desses momentos. Que admirável e sã energia, dum punhado de rapazes que traziam consigo aquela Coimbra eterna da nossa juventude!

Á saída, os jogadores estudantes, foram «assaltados» por nós. . . Um rapaz do grupo, que nunca estudou em Coimbra – Mas que ainda hoje é capaz duns bons murros para defender a Associação – queria por força abraçar as pernas do Faustino, que, no seu entender, foram as traves do desafio. Não sei se chegou a tal manifestação, o que sei, é que nessa noite levou a família ao Teatro. Chegou mesmo a «decretar» à mulher, que só iria nos dias em que a Associação ganhasse. Um empate merecia cinema. Uma derrota, não se jantava e ia tudo para a cama, com as galinhas, curtir a tristeza do chefe familiar.

Sou testemunha de que estas ordens foram algumas vezes cumpridas.

Nessa tarde, quando no Rossio continuavam as manifestações académicas, descobrimos, a entrar para a «Brasileira», um antigo estudante de Coimbra e diretor da Associação, com profundos traços de tristeza no fácies …  Aquele seu antigo grupo vencer o Benfica era mágoa que o acompanharia até à eternidade … Infelizmente há disto…

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

 

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por Rodrigues Costa às 12:30

Terça-feira, 08.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 3

Prosseguindo na divulgação do livro Coimbra de capa e batina, volume II, salienta-se que nas páginas 174 a 191 é apresentada a história do nascimento do Teatro Académico da Universidade de Coimbra. Desse texto selecionamos o que se segue.

O Teatro Académico, chegou a ser um sistema pedagógico, não só na Universidade de Coimbra como em outras da Europa. Mestres e alunos tomavam parte em representações e elas, por vezes, constituíam até uma parte do ensino que então se ministrava.

… Uma provisão de El-Rei D. João III, no ano de 1546, ordenou o seguinte, quanto ao Teatro Académico. «O lente de Gramática, da mais alta Regra, que lê no Colégio de São Gerónimo seja obrigado a fazer e a representar, em cada ano, uma comédia nas escolas, no tempo e nos lugares que pelo Reitor lhe for ordenado…»

E foi com muita graça e propriedade, que António José Soares – autor dos vários cenários dos autos de Gil Vicente e artista de rico temperamento – foi desenterrar a referida provisão aos Arquivos da Universidade, para a apresentar como sendo a «certidão de nascimento» do Teatro dos Estudantes de Coimbra que o Professor Doutor Paulo Quintela, com tanto brilho, vem dirigindo.

Talvez pareça estranho, mas é verdade: o Teatro dos Estudantes nasceu do Fado. Esta fatalidade nacional e coimbrã, foi sem dúvida, a origem do renascimento teatral na academia de Coimbra.

 A sua história é esta: Em 1937 existia em Coimbra o «Fado Académico». foi seu fundador e dirigente Jorge de Morais (Xabregas) que à sua volta reuniu todos os guitarristas e cantores que então havia na Academia. O grupo tinha um interesse profundamente romântico. Xabregas, com a sua eterna fé por esta terra ribeirinha, pretendia criar uma escola de cantores e guitarristas ao jeito coimbrão. Profetizava que um dia, deixaria de haver rouxinóis a cantar baladas de amor e de saudade.

Apesar dos seus esforços, o «Fado» morria de dia para dia … Jorge de Morais pensou então em remodelar o seu grupo e surgiu-lhe a ideia dum conjunto dramático.

E assim, em Novembro de 1937, foi eleita uma direção [segue-se uma relação de 12 estudantes]. A ideia da criação dum grupo cénico tomou então, vulto e para ela, foi solicitada a colaboração do Professor Doutor Paulo Quintela.

Paulo Quintela.png

Professor Doutor Paulo Quintela. Imagem acedida em: http://www.cvc.instituto-camoes.pt/seculo-xx/paulo-quintela.html#.Y0RA61LMJPY

Havia, porém, um grande problema a resolver: a inclusão, no grupo, de raparigas universitárias, sem as quais não seria possível realizar obra de vulto.

Mas esta Coimbra, mexeriqueira e maldosa criava sérias dificuldades, pois as raparigas num temor compreensível, negavam a sua colaboração. Até que surgiu a estudante Madalena Coelho de Almeida que de alma erguida se entregou devotadamente à realização de tão simpática iniciativa. Depois de vencer algumas resistências, apresentou uma lista de raparigas que se propunham colaborar no Teatro Académico. Vencido este obstáculo foi constituído o «Grupo Cénico» - designação inicial. [Segue-se uma relação de 9 alunas da Faculdade de Letras e de 10 alunos de diversas faculdades].

Numa sala do Museu Zoológico, iniciaram-se em seguida, os ensaios da peça «Braz Cadunha» do escritor Samuel Maia.

O Prof. Doutor Paulo Quintela, porém, tinha um Plano cultural mais vasto e o teatro clássico português desde o início que lhe merecia uma atenção especial. E assim, simultaneamente com o «Braz Cadunha» começaram os ensaios da «Farsa de Inês Pereira» de Gil Vicente. Estava dado o primeiro passo, para o que mais tarde viria a ser a coroa de glória do Teatro dos Estudantes. Três meses depois, o Grupo Cénico do «Fado Académico» apresentou-se no Teatro Avenida, em récita de gala, com a designação de «Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra». O «Fado Académico» morrera nessa noite.

TEUC logo.jpg

Logotipo. Imagem acedida em https://www.facebook.com/photo?fbid=1007766936661205&set=pb.100022837253956.-2207520000..

TEUC en cena. Op. cit. 117.jpg

Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Op. cit. Pg. 177

TEUC cartaz.jpg

O TEUC em 2022. Imagem acedida em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=7811227052228113&set=pb.100022837253956.-2207520000

O Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra venceu. A sua fama espalhou-se por Portugal inteiro e em Coimbra.

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

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por Rodrigues Costa às 16:17

Quinta-feira, 03.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 2

As páginas 149 a 153 do livro Coimbra de capa e batina, volume II, são dedicadas à «Orxestra Pitagórica», reinventada nos inícios dos anos 40, do século passado.

Orxestra Pitagórica. Op. cit. Pg. 153.jpg

A «Orxestra Pitagórica». Op. cit., pg. 153

Na legenda desta fotografia pode ler-se: Aires Biscaia, estudante agarrado ás tradições coimbrãs, meteu ombros à empresa e reorganizou há 2 anos a «Orxestra Pitagórica» que se apresentou, sob a sua regência, com um êxito notável. Aqui se «verifica» a referida «Orxestra» em «pleno rendimento musical… Rui Castilho, o romântico diretor da dita «Orxestra» «castiga as meninas de Coimbra, com versos caídos do Olímpio … e assinados por Júpiter com a marca do Rui.

No texto é referido.

A «Orxestra Pitagórica» foi durante muitos anos, um grande atrativo dos saraus académicos. Vários regentes (declaramos à posterioridade que Raposo Marques nunca pegou naquela batuta) afirmaram dela, as suas extraordinárias aptidões musicais, que em princípio, assentavam na base de não saber música … Conhecer o «do ré mi fá sol lá si dó» era «crime» de lesa «orxestra» e como tal punido com a determinação: «é proibida a entrada a estudantes que afinem pelo lamiré do Raposo Marques»…

Aquilo, ali, era só ouvidinho puro e desentupido … Quem sofresse de purgação dos mesmos, não podia ser pitagórico. A coisa era tocada à base do tímpano sem cera…

Figueirinhas, Figueiral, Figueiredo da Figueira da Foz, na vida civil, política, religiosa e no bilhete de identidade José de Figueiredo, foi durante muitos anos o regente da «Pitagórica» e diga-se de passagem, que neste período da sua intervenção naquele «famoso» organismo artístico, ele atingiu um grande apogeu na música mitológica…

As mais extraordinárias partituras do Olimpo, desceram à terra, para serem executadas pelos mais variados instrumentos de corda e de badalo … E mal rompia no palco a «Orxestra Pitagórica» dos estudantes de Coimbra, Condorcet, «enviado especial» de Júpiter, fazia a sua apresentação, ao respeitável público, nos seguintes termos:

Minhas senhoras e vossos senhores

Deram-me em Coimbra os doutores

Missão difícil a desempenhar;

Esta «orxestra» a vós apresentar

Prosseguia a apresentação no mesmo tom, relatando uma incrível zaragata entre os deuses do Olimpo para terminar deste modo:

Aqui o harmonioso penicofone

Além o tilintoso cuecofone

O silencioso cisofone

O telefone, o microfone

O gramofone e o mudo caladofone

Ireis ouvir colcheias desgrenhadas

Bemóis, claves, pausas descompassadas

Semifusas de cabelos à garçone

E contra breves a tocar saxofone

Não falando já, bem entendidos

Nas tremifusas que perdem os sentidos

E dir-me-eis agora qual é mais excelente

Se ser do mundo Rei se de tal … cambada.

A «Pitagórica» depois desapareceu…

A geração que lhe emprestou as cuecas com guizos, os ferrinhos e as pandeiretas, formou-se. A que se lhe seguiu não renovou esse instrumental, nem se dedicou a aprender as «altas» partituras musicais de tão «famoso agrupamento artístico»…

Nota:

Temos conhecimento de que, ao longo do tempo, surgiram tentativas para ressurgir a «Orxestra Pitagórica».

No site https://orxestrapitagorica.pt/ é contada, com omissões, a história deste tipo de música no seio da academia coimbrã. Ali surge uma Orxestra Pitagórica, enquanto grupo da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra que Nasce nos seios voluptuosos da Academia Coimbrã, criada exclusivamente por estudantes da cidade, com intuito de satirizar e dar a conhecer os assuntos principais da cidade, dos estudantes e do país.

São apresentados vídeos das suas atuações de que Zumba na caloira é um exemplo e é feita publicidade do nosso Tour: Pita Trapstar e habilitem-se a ouvir o cagar na primeira fila (promoção limitada ao stock existente).

São certamente outras músicas e outros tempos.

Rodrigues Costa

 

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

 

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por Rodrigues Costa às 19:23

Terça-feira, 01.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 1

Chegou-nos às mãos, datado de 1945, muito usado e em mau estado, o segundo volume de Coimbra de capa e batina, um verdadeiro retrato de uma época e de uma vivência académica.

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Coimbra de capa e batina. Volume II, capa

Este exemplar tem a particularidade de na página de anterrosto ter manuscrita a seguinte dedicatória:

Ao Julio Teixeira, velho e querido amigo dos tempos de Coimbra, com um abraço do Carminé Nobre. Coimbra 21/5/1945

 

Coimbra de capa e batina. Volume II, dedicatória.

Coimbra de capa e batina. Volume II, dedicatória

Carminé Gil Abranches Nobre, natural de freguesia de Vide, do concelho de Seixo, do distrito da Guarda. Em Coimbra, depois de concluir o curso de Magistério Primário, matriculou-se e frequentou o Curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras.

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Requerimento de matrícula no Curso de Ciências Pedagógicas. Imagem decida pelo AUC

Carmine Nobre foi um estudante com uma presença relevante na Academia do seu tempo, jornalista e escritor que faleceu em 1946, precocemente vitimado por um acidente de viação.

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Carminé Nobre. Imagem acedida em https://www.bing.com/images/search?view=detailv2&iss

O livro está dedicado AOS MEUS QUERIDOS AMIGOS: Dr. Guilherme de Oliveira, Dr. Ramiro Valadão, Tenente Manuel Delgado e Silva – ESTA LEMBRANÇA ALEGRE DE COIMBRA.

Na Nota com inicia o texto diz.

Quando em 1937 publiquei o I volume desta obra – que o publico esgotou em pouco tempo – propunha-me escrever a seguir o II volume.

Já passaram 8 ano sobre esse propósito e só agora esse livro aparece para concluir o documentário alegre e despretensioso que me propus realizar sobre a vida académica de Coimbra. Não perdi com a demora. Durante 8 anos de espera passaram muitos e curiosos factos que agora valorizam a obra de 1937.

No I volume fiz a advertência de que não existia nas suas páginas, qualquer pretensão de ordem literária. Neste II volume sigo a mesma rota… A nada sacrifico a graça do «dito», do «acontecimento» ou da «partida». De forma alguma. O que se segue é natural e verdadeiro. E é nesta base que o leitor deve principiar a ler este livro.

CN.

 Na realidade o livro é um documentário escrito sobre a vivência da primeira metade do século XX, nomeadamente do seu segundo quartel.

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Coimbra de capa e batina. Volume II, pg. 65

Dele iremos, em próximas entradas, destacar três dos relatos ali feitos.

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:39

Quinta-feira, 27.10.22

Coimbra: Do castro primitivo à cidade de hoje 4

O processo de fixação e estruturação do território não foi espontâneo nem casual, uma vez que obedeceu à lógica da implantação das Ordens e Comunidades religiosas e fixação das suas agregações em porções de terreno delimitados por cercas.

A regra de localização das capelas e igrejas foi ditada ao longo da via principal, aquela pela qual “todos” passavam, podendo assim fazer cumprir as suas obrigações de assistência no apoio aos peregrinos e de quem mais precisasse. Assim, o arrabalde passou a ser definido pela colocação de igrejas ao longo do eixo viário, direcionando todo o espaço urbano. Implantaram-se quatro templos: Santa Justa, S. Tiago, S. Bartolomeu e o convento Crúzio.

Os conventos foram as grandes estruturas organizadoras do arrabalde, tendo a sua fundação gerado importantes aglomerações, dentro de novas circunscrições religiosas. O casario crescia de forma compacta em torno dessas igrejas paroquiais.

Coimbra aos pedaços, pg. 31.png

Planta de Coimbra dos finais do século XVIII. Autor não identificado.. Fonte: “a Sofia. Primeiro episódio da reinstalação moderna da Universidade portuguesa”, Walter Rossa in Monumentos. Nº25. Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Setembro 2006. p.16. Op. cit., pg. 31

Destes espaços abertos nasceu uma tipologia urbanística que vive ainda nos nossos dias: o terreiro e o adro sempre foram espaços ancestrais de encontro e troca na cidade medieval. Poder-se-á dizer que são um elemento espacial identificador da cultura citadina. Os aglomerados populacionais reuniam-se à volta de uma paróquia como suporte institucional e espiritual da vida em comunidade. Atualmente, os largos fronteiros das igrejas ainda são palco de manifestações religiosas e culturais.

Coimbra aos pedaços. Largo de Sansão com vendede

Largo de Sansão, hoje Praça 8 de Maio. Inícios do séc. XX

Coimbra aos pedaços, pg. 41d.png

Praça do Comércio actual, após a remodelação em 2002. Fonte: BOOKPAPER – Publicidade e Artes Gráficas, Lda. in Coimbra Através dos Tempos, 2004, p.151. Original existente na Imagoteca da Biblioteca Municipal de Coimbra.

Dentro do sistema urbano, as Ordens religiosas dividiam-se e tinham funções bem específicas. A Ordem dos Agostinhos, implantada na parte alta da cidade, dava um apoio importante do poder real no processo da Reconquista e servia como referência dessa organização espacial. Posteriormente, deu-se a explosão urbanística fora das muralhas e o auge do processo de consolidação territorial, onde as ordens mendicantes – Dominicanos e Franciscanos – reforçariam o vigor e o entusiasmo burguês no desenvolvimento comercial das cidades. As ordens revelaram-se uma instituição que regrava toda a “política comunal das cidades”.

Enquanto arrabalde, a zona da Baixinha era considerada um bairro fora de portas, pertencente ao subúrbio da povoação da cidade alta, fora dos limites administrativos, mas com forte vocação mercantil. Situado entre a calçada romana e o rio, a zona fixava todas as atividades relacionadas com o comércio. Os mercadores instalavam-se ao longo da via, fora do perímetro amuralhado, onde os produtos não estavam sujeitos a taxas e onde havia espaço mais amplo, mais barato e de maior acessibilidade. O percurso mais direto entre a ponte e a porta da cidade foi o ponto propício ao início do fluxo de atividade comercial, donde resultou a chamada Rua dos Francos. Era o local onde se cobravam os direitos de “portagem”, quando as mercadorias ficavam dentro da cidade, ou de “passagem” quando estas apenas transitavam dentro dela Daí resultar a conformação de um “Largo da Portagem” com continuação da rua a que, hoje, designamos de Ferreira Borges.

R. Ferreira Borges com cartaz.jpg

Rua Ferreira Borges. Meados do século XX.

Durante toda a época medieval houve um progressivo desenvolvimento comercial da zona ribeirinha, potenciando a sua definição e consolidação urbana.

Ferreira, C.C. Coimbra aos pedaços. Uma abordagem ao espaço urbano da cidade. Prova Final de Licenciatura em Arquitectura pelo Departamento da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, orientada pelo Professor Arquitecto Adelino Gonçalves. 2007, acedido em https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/13799.

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por Rodrigues Costa às 15:41

Terça-feira, 25.10.22

Coimbra: Do castro primitivo à cidade de hoje 3

Da observação ao tecido urbano da Baixinha, são detetados alguns padrões morfológicos das cidades medievais, formalizados segundo percursos, largos, praças e quarteirões irregulares. Todos estes elementos de composição urbana possuem forte interdependência, originando um tecido coeso e destacado da restante morfologia.

A sua análise ilustra as características específicas de um modelo fundador da morfologia urbana que continuou a assegurar a unidade e continuidade no espaço e no tempo. O seu aspeto formal reflete as dinâmicas do urbanismo medieval, onde o espaço sempre teve funções de encontro, de troca e de circulação de bens e ideias. O carácter multifuncional, dado na altura, contribuiu para que os elementos estruturadores do espaço fossem agregadores de todas as atividades sociais, económicas, políticas e religiosas da urbe. A rua e a praça eram por isso, os elementos principais do sistema, assumindo o carácter central e identificador para cidade.

Coimbra aos Pedaços, pg. 30.png

Planta reproduzindo a morfologia urbana do arrabalde de Coimbra do século XIII. A colina da cidade alta está representada só pelos limites físicos da muralha.. Fonte: Imagem trabalhada graficamente a partir de desenho de Maria Raquel de Brito e Penha in Coimbra: caminhos de uma cidade. Evolução morfológica da cidade do Mondego. Prova Final do Departamento de Arquitectura da FCTUC. Setembro de 2005. p.37

Como primeira etapa de análise ao tecido urbano deste caso/cidade, procurei esclarecer e anotar algumas etapas do seu processo de formação e consolidação, desde o período romano até aos projetos atuais de intervenção e remodelação da morfologia inicial.

Assim, o sistema topográfico inicial era composto por uma colina e um rio navegável, contribuindo como elemento importante de circulação e ligação às zonas envolventes. Jorge Alarcão faz uma descrição das vantagens topográficas do sítio com “dois vales profundos” que, “cavam um fosso natural em redor da colina”. O primeiro assentamento humano iniciou o processo urbanístico da atual cidade no topo da colina, por razões de controlo territorial e defensivas. Por isso, aqui se implantou o primeiro núcleo citadino que herdou e deu continuidade às preexistências romanas, visigóticas e muçulmanas. O núcleo da Baixinha desenvolveu-se precisamente na borda Poente da colina em contacto direto com a via fluvial.

O local estava inserido numa rede viária de comunicação terrestre, criada na altura de expansão e difusão do Império Romano, funcionando para que todo o tipo de informação, acontecimentos e bens materiais fossem difundidos pelo território peninsular. O poder relacional da via tornou-a no principal agente de divulgação e consolidação urbanas. Assim, a via litoral da Península Ibérica Olissipo-Bracara Augusta foi uma ferramenta do sistema urbano nacional, importantíssima para o processo de assentamento e aglomeração urbanística, pois funcionou como um canal de ligação e como ponto de encontro junto dos aglomerados e promoveu o suporte às relações urbanas.

Coimbra aos pedaços, pg. 35.png

Estrutura urbana da Baixinha. Em sequência (de baixo para cima): o Largo da portagem; a rua Ferreira Borges e Visconde da Luz; a meio, a Praça do Comércio com as igrejas de S, Bartolomeu e S. Tiago; a Praça 8 de Maio como a igreja de Santa Cruz.

Neste sentido, a Baixinha, é o reflexo formal da aglomeração implantada em torno de uma via de passagem às portas de entrada da muralha da cidade propriamente dita.

Ferreira, C.C. Coimbra aos pedaços. Uma abordagem ao espaço urbano da cidade. Prova Final de Licenciatura em Arquitectura pelo Departamento da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, orientada pelo Professor Arquitecto Adelino Gonçalves. 2007, acedido em https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/13799.

 

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por Rodrigues Costa às 09:36

Quinta-feira, 20.10.22

Coimbra: Do castro primitivo à cidade de hoje 2

Em relação às políticas públicas de habitação, o Estado promove um Programa das Casas Económicas com vista à construção de habitações para alojamento da população sem capacidade de fazer frente à lógica do mercado imobiliário. A campanha visava atrair e fixar pessoas, oferecendo condições de estabilidade familiar e de emprego, contribuindo para desencorajar os conflitos laborais.

Dentro deste contexto, nasce em Coimbra o bairro de habitação, englobado no projeto de Planeamento geral da cidade, marcando um novo polo de expansão territorial. Atualmente, chamado de Bairro Norton de Matos, assinala uma das centralidades da rede urbana e marca morfologicamente a ação e convicções de desenho do período pelo qual foi construído.

Coimbra aos pedaços. Bairro Norton de Matos e ig.

 Bairro Norton de Matos e igreja de S. José, anos 50

Nas décadas de 50 a 70, deste mesmo século, é de assinalar o aparecimento de uma nova geração de arquitetos portugueses, nascida pela revolta às convicções urbanísticas impostas pelo regime estadonovista e pela divulgação teórica que saía dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna europeus.

… Em Coimbra, a ânsia de construir a Cidade Moderna está presente nas experiências realizadas na Solum, uma zona multifuncional da cidade com um modelo reconhecível e delimitado.

Coimbra aos Pedaços. Bairro da Solum 01.jpg

Bairro da Solum. Na parte superior da imagem à  direita, vislumbra-se o início da sua construção

Juntamente com Celas e com o Bairro Norton de Matos, desenha-se uma faixa Nascente de núcleos direcionais do crescimento e consolidação urbana.

Assim, tendo como referência a cidade alta, a expansão de Coimbra foi direcionada em três zonas. A zona Nordeste de Celas

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Hospital da Universidade de Coimbra inserido na área do Pólo III. Urbanização dispersa. O somatório de construções de diferentes escalas, cria vazios desconexos para o conjunto urbano. As formas fragmentadas da urbanização foram conduzidas pelo traçado dos eixos viários. Fonte: Filipe Jorge, 2003, in Coimbra Vista do Céu, p.59.

e Sudeste do Bairro Norton de Matos e Solum.

Coimbra aos Pedaços, pg. 24a.png

Construção do Pólo II da Universidade de Coimbra. Ocupa a área do antigo Pinhal de Marrocos que circundava o território consolidado. “O campus universitário (…) produz novas polaridades monofuncionais que ainda se articulam mal com a morfologia e o quotidiano da cidade.” (DOMINGUES, 2006: 31) Fonte: Filipe Jorge, 2006, in Cidade e Democracia. 30 Anos de Transformação Urbana em Portugal. Coordenação de Álvaro Domingues. p.31.

Cada núcleo com características bem diferentes, são uma referência importante para o processo de crescimento urbano da cidade. Assinalam uma marca tipológica e ideológica gerando diferentes “modelos de cidade” e por isso, cabendo nos seguintes capítulos como uma mostra de cidade autónoma e singular. Contribuem para a diversificação e polarização do conjunto urbano.

Conceitos como limite, fragmentação, continuidade, dispersão e coesão foram importantes para perceber toda a dinâmica que o desenho urbano gera na realidade, ou na chamada dinâmica urbana – aquela onde contribuem todos os domínios da polis.

 

Ferreira, C.C. Coimbra aos pedaços. Uma abordagem ao espaço urbano da cidade. Prova Final de Licenciatura em Arquitectura pelo Departamento da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, orientada pelo Professor Arquitecto Adelino Gonçalves. 2007, acedido em https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/13799.

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por Rodrigues Costa às 11:17

Terça-feira, 18.10.22

Coimbra: Do castro primitivo à cidade de hoje 1

Com a presente entrada iniciamos a divulgação de uma interessante prova final da Licenciatura em Arquitetura, apresentada em 2017, por Carolina Conceição Ferreira, intitulada Coimbra aos pedaços: uma abordagem ao espaço urbano da cidade.

Coimbra aos pedaços, capa.png

Op. cit., capa

Coimbra implantou-se no monte a 90 metros de altura sobre um rio navegável – o Mondego.

A estrutura urbana teve início no período romano e o sistema principal para a formação do castro era simples: uma elevação, para maior controlo do restante território, um rio e a via Olissipo-Bracara Augusta, que estabelecia a comunicação terrestre com o restante território peninsular.

Estava, assim, iniciado o processo de conformação da polis com seus órgãos de poder residentes no Fórum.

A fixação inicial não demorou até extravasar os limites em direção à zona mais baixa, junto do rio e ao longo da via romana. As razões defensivas deixaram de fazer sentido e, passado o período das reconquistas e da fixação da nacionalidade, despoletaram outras vontades e outras dinâmicas para o desenvolvimento do castro inicial.

A vida urbana foi-se estabelecendo ao longo da via romana, por ser o sítio de passagem propício a trocas e a todas as atividades relacionais que a caracterizam. A pouco e pouco a aglomeração da edificação foi construindo a via que, mais tarde, passou à designação de rua. Foi o lugar privilegiado para a ação e prática da cidadania.

O limite imposto pela muralha assinalou o zoneamento de duas áreas urbanas distintas: a “alta” e a “baixa”. O desenvolvimento da cidade medieval, na parte baixa, caracterizou-se basicamente pela consolidação do núcleo arrabaldino, como uma área de intensa atividade mercantil e social.

Mais tarde chamada de Baixinha, esta zona prevalece o centro da cidade durante longo tempo, depois da cidade alta.

As marcas do tempo foram-se acumulando e persistiram, na memória, até aos nossos dias. A sua carga simbólica na cidade atual faz, deste núcleo, um centro cheio de referências históricas com características tipo-morfológicas que identificam o espaço urbano medieval. Foi o primeiro grande tema da expansão e crescimento da cidade.

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Fotografia aérea vertical da cidade com os núcleos destacados no território. Fonte: Fotografia aérea vertical. Agosto 2001. Socarto. in Coimbra Vista do Céu p.6. Original da METRO-MONDEGO SA.

 Uma segunda grande ação de expansão territorial marcou a história do século XIX, corresponde ao nascimento da urbanística como disciplina de planeamento urbano.

…. Em Coimbra, foi rasgada uma Avenida à imagem de boulevard parisiense ligando a parte baixa à parte alta da cidade e projetando-a a novas extensões de território englobando os restantes burgos periféricos no seu perímetro.

Esta ação urbanística foi grandiosa, na medida que introduziu elementos inovadores no projeto urbano - redes de saneamento, abastecimento e iluminação públicas – e conseguiu, numa grande extensão de terreno “vazio”, planear e regular toda a edificação e infraestruturação a longo prazo do território. O resultado visível revela uma estrutura sólida e funcional capaz de suportar as mudanças programáticas e morfológicas normais da cidade.

Coimbra aos pdaços. Fotografia vertical do Bairro

Fotografia vertical do Bairro de Santa Cruz em 1934. Arquivo Histórico das Forças Armadas.

Este modo de planeamento concilia o investimento público e privado, controlando e delimitando as formas edificadas de cada parcela. O desenho de projeto era utilizado em complemento com a regulamentação logística de atuação para aquele plano. O cenário urbano alterou-se radicalmente, abrindo a “cidade e os cidadãos a novas conceções políticas, sociais e estruturais.” Surgiram novas tipologias e novas relações espaciais para a vivência e organização urbana de Coimbra. O peso infraestrutural da Avenida Sá da Bandeira lançou as bases das novas formas de conexão espacial da cidade.

Noutra etapa, o Estado Novo, regime político vigente entre 1933 e 1974, marcou toda a cultura urbanística portuguesa do século XX. Caracterizou-se pelas suas políticas autoritárias e de acentuado controlo social e ideológico. Essas convicções deixaram marcas no território urbano e no desenho da cidade, acentuando a baixa densidade, o uso de tipologias unifamiliares, estruturas viárias hierarquizadas e regulamentação higienista.

A ação estratégica de urbanizar o território segundo planos e métodos uniformizadores, foi concretizada através de Planos Gerais de Urbanização para as várias cidades do país, utilizando-os para a expressão da ação e controlo do Estado sobre o espaço social.

Coimbra aos pedaços, pg. 42a.png

Antevisão da Avenida de Santa Cruz, construída à custa da demolição das construções localizadas entre as Ruas da Moeda e Bordalo Pinheiro, do desaparecimento de alguns largos medievais típicos e da destruição da Estação Nova de Caminhos-de-ferro. Fonte: Ante-projecto de urbanização da cidade de Coimbra. Étienne De Groer. 1948

… Foi o caso de Etienne De Gröer, urbanista parisiense, que elabora o plano para Coimbra e lança as bases orientadoras do processo de expansão urbana da atual cidade. Com palavras do urbanista é mostrada a intenção geral deste «Plano de Extensão e Embelezamento de Coimbra».

Ferreira, C.C. Coimbra aos pedaços. Uma abordagem ao espaço urbano da cidade. Prova Final de Licenciatura em Arquitectura pelo Departamento da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, orientada pelo Professor Arquitecto Adelino Gonçalves. 2007, acedido em https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/13799.

 

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por Rodrigues Costa às 21:38


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