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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 24.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 6

 

O Cego da Abrunheira e seu Moço (Des. Eduardo Mac

 O Cego da Abrunheira e seu Moço (Desenho de Eduardo Macedo)

 A galeria popular coimbrã é vasta, e se nela há vultos de somenos originalidade como lembrando, ao acaso, O Cego da Abrunheira, lugar próximo de Coimbra, que vinha, ás vezes, á cidade em companhia de um moço, ganhar a vida tocando e cantando alguns improvisos, verdadeiros disparates, a quem lhe desse alguma coisa, outros há que merecem um pouco de atenção, como, por exemplo, o Francisquinho Tanana, a Feliciana Pereira, a Maria do Gato Negro e tantos outros que passarei a citar. 

O Chiquinho Tanana  (Retrato a óleo Eduardo Maced

 O Chiquinho Tanana  (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

O célebre Francisquinho Tanana, um velhito magro como um junco, de pele encarquilhada, morava junto ao cemitério, lá no alto do Pio, e passava à tarde para o rio a buscar água num pote de barro que, à volta, trazia à cabeça com muito cuidado. A pobreza do seu vestuário era tão grande que chegava a ser imoral, pois tanto importava esse conjunto de andrajos como nada, o corpo andava quase todo à mostra, e uma vez vi-o eu nesse estado, a gritar como um possesso nuns gritos selvagens e a arrepelar-se todo porque os garotos, além de lhe chamarem Tanana, tinham-lhe feito partir o pote que levava à cabeça e que se desequilibrou ao atirar uma pedra, arma com que se defendia da rapaziada brejeira.

Quando se ouvissem uns gritos agudos, por vezes em falsete, acompanhados de um choro ridiculamente convulso, era certo e sabido que andava por perto o Francisquinho Tanana e toda a gente assomava às portas e ás janelas para ver esse espetáculo miserável da vida das ruas.

O José Maria Mudo.jpgO José Maria Mudo

Facto quase idêntico se dava com O Mudo, um calceteiro que a Câmara Municipal tinha admitido ao seu serviço. 

Esse não tinha nada com os garotos, só se importava com o pessoal que dirigia, mas, para lhe transmitir as suas ordens, para se fazer compreender, desfazia-se em gestos desesperados e gritos tão agudos que se ouviam com certeza sete léguas em redor. Olhar a fronte cheia de rugas do Francisquinho é trazer à ideia toda uma série de magníficas cabeças de estudo que se encontram nesses mendigos vadios perdidos pelas ruas de Coimbra.

O Rabino.jpg

 O Rabino

É ver o D. Sebastião, de que já falei, o Rabino, um belo tipo de judeu, de rosto bem vincado, de linhas bem definidas, que vivia de expedientes e tinha o seu dito espirituoso lá de vez em quando.

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

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por Rodrigues Costa às 11:18

Terça-feira, 22.05.18

Coimbra: Imprensa da Universidade

Em 1542, João da Barreira e João Álvares instalaram em Coimbra a sua imprensa, saindo logo nesse ano dos seus prelos a obra jurídica de Martín de Azpilcueta. O Reitor da Universidade... estabelece com eles contrato para serem impressores da Universidade... recebendo os ditos impressores doze mil reis anuais. Os mesmos impressores são comissionados para ir a Lisboa em 1546 recolher todo o material da Imprensa com que D. João III dotara a Universidade.

Estatutos da Universidade 1593.jpg

 Estatutos da Universidade publicados em 1593

Na oficina da Universidade continuou António da Barreira a atividade de seu pai João da Barreira, após o falecimento deste em 1590. Da sua mão saíram os Estatutos da Universidade publicados em 1593, cuja aprovação se dera já em 1591.

Nos Estatutos de 1559 surgem já referências a impressões da Universidade, ficando os assuntos com ela relacionados a cargo do guarda do cartório.

Inicialmente a Universidade não possuía oficina própria; tinha por isso necessidade de recorrer ao serviço de impressores com casa montada que se tornavam, deste modo, oficiais privilegiados da Universidade.

Estatutos da Universidade 1653.jpg

 Estatutos da Universidade publicados em 1653

 Os estatutos de 1653, ao referirem estes privilegiados registam a existência de “duas Impressões” privilegiadas, a par da existência de “quatro tendes de Livreiros”. O cuidado na impressão ficava confiado do “corretor da impressão”.

 

... A Imprensa do Colégio das Artes, de que é feito sequestro em 1759, será integrada na Universidade, entrando esta, assim, na posse de oficina própria. O mesmo acontecera com o material tipográfico da Academia Liturgica de Coimbra, incorporado na Oficina Tipográfica da Universidade quando, em 1767, a Academia é extinta. Devido às reduzidas dimensões para o que se desejava fosse uma tipografia à altura da Universidade reformada em 1772, é a oficina trasladada para o devoluto Claustro da Sé Velha de Coimbra... As instalações da Imprensa e seu edifício estão concluídas em finais de Junho de 1773. A oficina é depois apetrechada com prelos e outro material tipográfico.

O Decreto-Lei... de 30 de Junho de 1934 extingue a Imprensa da Universidade... Todo o seu material foi incorporado na Imprensa Nacional de Lisboa. Para aí se transferiram os antigos e valiosos prelos – já então peças históricas – e ainda tipos, vinhetas, gravuras e demais material tipográfico que era propriedade da Imprensa da Universidade.

 Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 147-149

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:00

Quinta-feira, 17.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 5

 

O António das Almas  (Retrato a óleo Eduardo Mac

 O António das Almas (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

O António das Almas era um pandego incorrigível, um emérito patusco que sabia arranjar-se menos mal, fundado no grandioso princípio de que não há nada melhor para não morrer á fome e ter dinheiro do que ser amigo de estudantes e captar-lhes as simpatias. Além disso o António não desperdiçou nunca o seu tempo, pois que a par dessa amizade colocava a sua qualidade de pregador, sendo raro o dia em que deixava de pregar um sermão por dá cá aquela palha. O António jamais perdia as ocasiões propícias, inclusive a festa das latas, esse banzé, sabbat infernal, que os estudantes fazem, arrastando latas velhas pelas ruas da cidade mal escurece o dia do encerramento das aulas, do começo das férias do ponto, para não deixarem dormir nem estudar os colegas das outras faculdades que por desgraça vejam as suas aulas encerradas mais tarde.

Pregando em toda a parte e a toda a hora, gostava, no entanto, muito mais de pregar no largo de Sansão, num pilar de pedra que ali havia e ainda se vê atualmente encaixado na parede duma casa que faz esquina com a rua do Corvo e rua da Louça. Chegado aí, no meio do povoléu que lhe servia de séquito, subia ao seu púlpito, persignava-se e rompia sempre nestes termos:

Eu sou o António das Almas. As mulheres são como as cabras que andam pelos outeiros. De Celas nem eles nem elas. E voltava ao princípio... Eu sou o António das Almas…, sendo capaz de estar meia hora assim, na mesma arenga, com tanto que lhe dessem um cigarro, umas calças, um colete servido, que era, em geral, a espécie de moeda que preferia para pagamento dos seus sermões.

Sucedeu, porém, uma vez que, em certa festa das latas, o António não quis pregar, porque dizia faltar-lhe uma papeleta com o tema do sermão, mas isso era o menos. Ele apenas pretendia fazer-se rogado para lhe pagarem melhor. E foi o que sucedeu… Um estudante seu amigo, desejando ouvir mais um sermão dos seus, meteu-lhe na mão uns dinheiros em prata ao mesmo tempo que lhe dizia, entregando-lhe um papel em branco: «Aí tens a papeleta»...

O António das Almas olhou para o dinheiro num grande sorriso de satisfação e exclamou agitando o papel – Meus senhores cá está a papeleta… e mirando o papel de um lado e do outro, pôs-se a cismar… «Deste lado, nada… do outro, também nada… ora do nada criou Deus o céu e a terra… E pregou sobre este assunto o melhor sermão entre os muitos que fez em toda a sua vida.

Por outra vez, devido a um caso inexplicável, o António das Almas que morava para os lados de Montarroio, não pôde pagar ao senhorio o aluguer da casa que habitava com uma mulher chamada a Caqueireira e sendo posto na rua por tal motivo, na rua foi levantar um simulacro de tenda de campanha. Iam, assim, as coisas muito bem.... mas, certo dia, lembrou-se de viajar nas águas de Cupido perante a revolta dos transeuntes que barafustavam e um agente da polícia, então a cargo dos zeladores municipais, deitou-lhe a mão e espetou com ele na cadeia. Pois o António das Almas nada se ralou com isso, pelo contrário, pinchava de contente exclamando em altos gritos: Ora graças a Deus! Aqui está-se debaixo de telha e tem a gente casa de graça!....

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 10:38

Terça-feira, 15.05.18

Coimbra: Hotel Astória 2

A Companhia de Seguros “A Nacional” ocupou ou seu edifício-sede até finais de outubro ou inícios de novembro de 1925 altura em que Alexandre de Almeida assina uma escritura de arrendamento com a seguradora, a fim de ali vir a instalar um luxuoso hotel. O contrato, com início no dia 1 de janeiro do ano seguinte, prolongava-se por 19 anos com a renda mensal de quatro mil escudos, reservando, a seguradora, três divisões no primeiro andar, a fim de lhe servirem de sede.

O jornal “O Despertar” escrevia na sua edição de 11 de novembro desse ano que “Coimbra fica agora ricamente servida de bons hotéis, nenhuma outra cidade havendo, além de Lisboa e Porto, que os possua em melhores condições de luxo e conforto”.

O conhecido empresário, a fim de “fazer a aquisição de mobiliário e outros artigos para o referido hotel” deslocou-se à Alemanha, embora tenha encomendado no Porto, à Casa Venâncio do Nascimento as cadeiras e as mesas e adquirido na mesma cidade os revestimentos de madeira das paredes, os apliques e o pavimento.

Mas a verdade é que o interior de um edifício que fora construído para servir de escritório não podia acolher, sem adaptações vultuosas, um hotel e, além disso, o espaço disponível não se mostrava suficiente para responder às necessidades.

Espaço a ser anexado.jpg

Espaço a ser anexado ao Hotel Astória

 O arrendatário recorreu, então, aos serviços do conhecido arquiteto portuense Francisco de Oliveira Ferreira, a fim de organizar e ampliar o futuro hotel que pretendia vir a colocar à disposição do público mondeguino, e não só.

Oliveira Ferreira nasceu no Porto em 1885 e faleceu em Miramar no ano de 1957. Diplomou-se em arquitetura na Academia Portuense de Belas Artes e exerceu uma intensa atividade naquela área ao mesmo tempo que se interessava por assuntos de arte e de arqueologia. Viajava frequentemente pela Europa, a fim de aprofundar os seus conhecimentos e marcou significativamente, com alguns dos trabalhos saídos do seu lápis, principalmente, as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia. O artista “ficará, certamente, na história da nossa arquitetura como um caso de coerência no ofício e na arte de ser arquiteto em Portugal”.

Edifício do Hotel Astória.jpg

Edifício do Hotel Astória depois da intervenção de Oliveira Ferreira

 Obviamente que, para responder ao desafio de Alexandre de Almeida, não passou pela cabeça, nem pela mão de Oliveira Ferreira imitar, no exterior e na zona que ia acoplar ao edifício de “A Nacional”, o gosto eclético do pré-existente, mas conseguiu, utilizando embora uma linguagem completamente diferente, que o todo se mostrasse harmonioso e não chocasse.

A 28 de março de 1926 o Hotel Astória foi, finalmente, inaugurado e, tal como “O Despertar” noticiara podia considerar-se, “na altura como a catedral dos hotéis nacionais e internacionais”, porque a existência de uma central telefónica, do elevador, do aquecimento central ou do requintado e luxuoso mobiliário, o permitiam.

Da festa inaugurativa, abrilhantada pelo sexteto "Jazz Band César Magliano", constava um banquete (almoço) e um chá dançante (jantar). O evento foi considerado um verdadeiro acontecimento social.

O Hotel Astória que ainda na atualidade conserva o aspeto romântico da época da abertura e contém no recheio artístico e arquitetónico verdadeiras relíquias tornou-se, quase desde a sua inauguração, num ex-líbris de Coimbra e o edifício projetado a duas mãos, saiu, comprovadamente do lápis de Francisco Oliveira Ferreira e, com grande margem de segurança, do de Adães Bermudes.

 

Lisboa. Monumento aos Restauradores.jpg

 Lisboa. Monumento aos Restauradores. “Génio da Independência”. Alberto Nunes

 Ao longo dos tempos conheceu diversas campanhas de obras, com destaque para as realizadas em 1945, 1980, 1990 e 2002, esta última a contemplar também o exterior do hotel.

As intervenções de 1990 foram levadas a cabo na sequência da escolha do hotel para albergar Mário Soares, então Presidente da República, e a sua comitiva durante a “Presidência Aberta” que aconteceu na cidade; é que, durante 10 dias “a Presidência da República ficou instalada na Reitoria da Universidade de Coimbra (instituição a comemorar 700 anos)”, enquanto a comitiva pernoitou no Hotel Astória, então chamado pela população citadina de «Palácio de Belém da Portagem».

 

O Génio da Independência.jpg

 O “Génio da Independência”, emblema da Companhia de Seguros “A Nacional” decorou durante quase cem anos a fachada do Hotel Astória, mas sumiu…

 A Companhia de Seguros “A Nacional” tinha por emblema o “Génio da Independência”, escultura que se pode observar no monumento da Praça dos Restauradores, em Lisboa. O padrão, inaugurado a 28 de abril de 1886, consagra a Revolução de 1640 e Eça de Queirós, em «Os Maias», descreve-o como sendo “um traço cor de açúcar na vibração fina da manhã de Inverno”.

O Génio da Independência”, esculpido por Alberto Nunes (1838-1912) representa um jovem alado a quebrar as cadeias que o manietavam e a transportar a bandeira; a peça bastava, por si só, para fazer a reputação de um artista.

Durante quase um século, uma réplica em bronze do “Génio da Independência”, símbolo da companhia seguradora, ornamentou a fachada do conimbricense Hotel Astória, mas aquando de uma das obras de conservação, provavelmente das de 2002, levou sumiço, ou porque incomodava os donos do imóvel, ou porque a sua venda tornava passível minorar os custos da intervenção! Seria interessante conhecer o seu paradeiro…

Em 2011 o edifício do Hotel Astória passou a integrar a lista de monumentos de interesse público, classificados pelo Ministério da Cultura e foi-lhe fixada uma Zona Especial de Proteção.

 

Bibliografia:

ANACLETO, Regina, Neoclassicismo e romantismo, em História da arte em Portugal, vol. 10, Lisboa, Alfa, 1986.

Arquitectura, pintura, escultura, desenho. Património da Escola Superior de Belas Artes do Porto e da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, Universidade do Porto, 1987.

BAIRRADA, Eduardo Martins, Prémio Valmor (1902-1952), Lisboa, Manuela R. de A. Martins Bairrada, 1988.

Construcção Moderna (A), Ano VII, 20, Lisboa, 212, 1907.02.01.

Despertar (O), 882, Coimbra, 1925.11.11.

Gazeta de Coimbra, 1823, Coimbra, 1925.11.19.

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/hotel-astoria-em-coimbra.html

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/companhia-de-seguros-nacional.html

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por Rodrigues Costa às 09:41

Quinta-feira, 10.05.18

Coimbra: Hotel Astória 1

Tendo, ultimamente, surgido nas redes sociais algumas notícias menos corretas sobre o edifício do Hotel Astória, iniciámos a publicação de uma série de 2 entradas que procuraram fazer luz sobre o mesmo.

 

O Largo da Portagem, bem como as atuais ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz nem sempre se apresentaram como atualmente as visualizamos. Já em 1813, Joaquim José de Miranda, arquiteto da Universidade, riscara algumas alterações destinadas a transformar o Largo (as mudanças deste espaço foram uma constante ao longo do tempo) e, anos depois, em 1857, o arquiteto João Ribeiro da Silva projeta a retificação da Calçada e da Rua de Coruche.

O Banco de Portugal, no âmbito dos princípios que norteavam aquela instituição, criara em Coimbra, a 03 de fevereiro de 1891, uma agência, mas pretendia fazer construir de raiz, a fim de a instalar, um edifício condigno.

Depois de analisados diversos locais onde o imóvel poderia ser erguido, a que se seguiu a costumeira polémica, os responsáveis optaram pelo Largo Príncipe D. Carlos, batizado, após a implantação da República, com o nome de Miguel Bombarda, para, finalmente, em 1942 virar definitivamente (espera-se) Largo da Portagem.

De riscar o projeto da sucursal bancária encarregou-se, em torno de 1907, o arquiteto Arnaldo Redondo Adães Bermudes (1864-1948) mais conhecido por Adães Bermudes, artista e que já apusera a sua assinatura na conimbricense escola de Santa Cruz construída, a partir de 1905, na Avenida Sá da Bandeira.

Não cabe, nesta entrada, analisar a problemática da construção nem a arquitetura da agência do Banco de Portugal. Fica para outra ocasião; e se a elas aludimos é porque pensamos que o arquiteto deste imóvel e o de parte do edifício onde se encontra instalado o Hotel Astória poderá ser o mesmo, como vamos tentar provar. Estamos a referir-nos à zona que ocupa a esquina da Avenida Emídio Navarro com a Rua da Sota, o mesmo que, num primeiro momento, foi construído para servir de sede à Companhia de Seguros “A Nacional”.

Largo da Portagem. Banco de Portugal.jpg

 Largo da Portagem. Banco de Portugal e antiga Companhia de Seguros “A Nacional”

 A conhecida associação mutualista, apenas nacionalizada em 1975, foi fundada a 17 de abril de 1906 e tinha como objetivo principal fomentar a adesão aos seguros de vida. Com sede em Lisboa, primeiro na esquina da Rua do Alecrim com a Praça Duque da Terceire e, depois, na Avenida da Liberdade, iniciou em 1919 a construção da sua filial na cidade do Porto, na Avenida dos Aliados, com projeto do arquiteto José Marques da Silva.

A filial aeminiense julgamos que se ergueu um pouco antes, no Largo da Portagem, quase paredes meias com o Banco de Portugal.

Não conhecemos qualquer notícia relacionada com a construção do imóvel, nem com a sua inauguração, mas parece (e apenas apontamos a data, porque não a podemos fundamentar) que a sucursal conimbricense da Companhia de Seguros foi construída entre 1915 e 1919.

Analisando sumariamente a vastíssima produção artística de Adães Bermudes concluímos que este riscou, em 1907, para o dr. Guilherme Augusto Coelho, o projeto de um prédio construído em Lisboa, no ângulo da Avenida D. Amélia (atual Almirante Reis) com o Largo do Intendente; o edifício mereceu mesmo ser reconhecido com o prestigiado Prémio Valmor de 1908.

Lisboa. Confluência da Avenida.jpg

 Lisboa. Confluência da Avenida Almirante Reis com o Largo do Intendente. Adães Bermudes. Prémio Valmor 1908

 

Coimbra. Confluência da Avenida Emídio.jpg

 Coimbra. Confluência da Avenida Emídio Navarro com a Rua da Sota. Antiga sede da Companhia de Seguros “A Nacional”

 Ao compararmos a sede conimbricense da Companhia de Seguros “A Nacional” e o referido imóvel constatamos analogias irrefutáveis e não se torna credível que, estando ainda Adães Bermudes vivo qualquer outro artista, arquiteto ou não, se tenha atrevido a apor o seu nome num projeto que, obviamente, viria a ser considerado um plágio.

Atrevemo-nos, dadas as semelhanças existentes entre os dois imóveis, o lisboeta e o mondeguino, e pensando quer na vizinhança do Banco de Portugal, quer na escolha de renomados arquitetos para riscar as filiais da Companhia de Seguros, a atribuir a paternidade de uma parte do atual Hotel Astória a Adães Bermudes. Mas não passamos da atribuição, embora fundamentada.

 Bibliografia:

ANACLETO, Regina, Neoclassicismo e romantismo, em História da arte em Portugal, vol. 10, Lisboa, Alfa, 1986.

Arquitectura, pintura, escultura, desenho. Património da Escola Superior de Belas Artes do Porto e da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, Universidade do Porto, 1987.

BAIRRADA, Eduardo Martins, Prémio Valmor (1902-1952), Lisboa, Manuela R. de A. Martins Bairrada, 1988.

Construcção Moderna (A), Ano VII, 20, Lisboa, 212, 1907.02.01.

Despertar (O), 882, Coimbra, 1925.11.11.

Gazeta de Coimbra, 1823, Coimbra, 1925.11.19.

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/hotel-astoria-em-coimbra.html

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/companhia-de-seguros-nacional.html

 

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por Rodrigues Costa às 09:17

Terça-feira, 08.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 4

E o Rosalino Cândido?

Do Rosalino Cândido de Sampaio e Brito, nome mil vezes maior do que o dono, um velhito pequerrucho, de barba branca, não há ninguém, quer-me parecer, que não conheça aquela cena com o Manso Preto, em geometria, no Liceu.  

O Rosalino Cândido (Des. Raf. B. Pinheiro).jpg

 O Rosalino Cândido (Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro)

 

Como não soubesse a lição, em certo dia, lembrou-se de pedir dispensa em verso… E se bem o pensou melhor o fez: 

 

Como incomodado estado tenho

Dispensa a V S.ª pedir venho

E por não a pedir por varias vezes

Peço-a por dois ou três meses,

 

Responde-lhe o professor:

Por um ano se quiser!

 

E o Rosalino não perdeu a ocasião de retorquir:

Isso mesmo é o que se requer!

 

O Rosalino era pobre, mesmo muito pobre, mas cheio de altivez, para não pedir coisa alguma, fez-se poeta e prosador de sete costados. A publicar folhetos não havia quem o vencesse...no número! Eram às dezenas, às centenas, aos milhares!... Foi assim que O diabo fechado na minha gaveta e a luz da razão vieram à luz do dia, a par de tantos outros folhetos que ele próprio distribuía em troca de alguns vinténs.

Pedir não pedia, mas, usando deste processo, tudo vinha a dar no mesmo...

Falando do Rosalino vem muito a propósito contar um facto pouco divulgado, mas cuja veracidade eu posso garantir. Uma vez, um estudante da Universidade teve a estranha lembrança de enviar as obras de Rosalino não sei a que escritor sueco ou norueguês. Os folhetos partiram e, passado pouco tempo, esse mesmo estudante lia, num jornal estrangeiro, uma pomposa crítica à obra monumental de Rosalino firmada pelo tal escritor que dizia e asseverava, entre muitas outras coisas, que o Rosalino era o primeiro prosador de Portugal!!!

Escusado será dizer que o jornal, passando de mão em mão, foi lido pela academia em peso entre enormes explosões de gargalhadas, enquanto o nosso poeta, impando de orgulho, inchado, ia pensando de si para si: – que grande Rosalino não havia de ser Alexandre Herculano se mandassem o Eurico a este escritor!...

E, arranjando uma casaca, não sei onde nem como, foi assim, todo bem-posto, que se apresentou nas ruidosas e memoráveis festas que a Academia de Coimbra fez pelo tricentenário de Camões. Depois, usou-a, usou-a, como competia a um tão digno e ilustre ornamento das letras pátrias, até que a pôs no fio e teve de encobri-la lançando-lhe por cima a sua inseparável e conhecida capa! Foi um portento esse Rosalino! 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

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por Rodrigues Costa às 09:34

Quinta-feira, 03.05.18

Coimbra: Queima das Fitas de 1931

Começa hoje à meia-noite mais uma Queima da Fitas, esta envolta em alguma polémica. Para melhor compreender esta tradição académica apresentam-se algumas notas sobre a sua génese, assentes na recordação da Queima de 1931.

 

A Tradição Académica encontra-se associada a diversas celebrações que pontuam o calendário estudantil. Em Coimbra, as primeiras manifestações deste tipo remontam aos festejos do centenário da sebenta, aos que marcavam o início e o fim das aulas, aos do enterro do grau, etc.

Contudo, ao longo dos tempos foram ganhando raízes toda uma série de iniciativas relacionadas com o desenrolar do calendário académico e que, obviamente passaram a integrar a Tradição. Refira-se sem qualquer preocupação exaustiva, a queima das “Fitas” dos Quartanistas surgida por volta de 1896; a prática da Pastada na década de 1920; a introdução da Garraiada em 1929/30; a missa de Bênção das Pastas, em 1930; a invenção das Cartolas e Bengalas por 1931; a introdução da Venda da Pasta pelos finalistas de Medicina da UC, em 1932; o Baile de Gala das Faculdades, em 1933; a Imposição de Insígnias dos Quartanistas Grelados em 1946; a inclusão da Monumental Serenata no programa da Queima das Fitas, em 1949; as latadas de abertura do ano escolar inventadas nos inícios da década de 1950; a adoção do ritual da compra/roubo do grelo às vendedeiras do Mercado Municipal, costume adotado a partir da Revolta do Grelo acontecida em 1903.

Mas, no século passado, a festa de maior impacto realizada em Coimbra e que assinalava, grosso modo, o final do ano letivo era a “Queima das Fitas”.

Em 1931 integrava o cortejo um carro de bois que transportava alguns caloiros, dois deles identificados pela pessoa que nos facultou a fotografia.

Queima das Fitas. 1931 ou 32.tif

 Data desse mesmo ano de 1931 o cartaz da Queima das Fitas que, deteriorado pelo passar dos anos, não permite uma leitura integral.

No entanto, face ao interesse do documento, apresentamos a transcrição possível e pedimos que nos auxiliem na sua leitura integral. Permitimo-nos chamar a atenção não só para estilo da escrita, como para o aliciante programa nele anunciado.

Queima das Fitas 1931.jpg

 Coimbra da tradição e da lenda

QUEIMA DAS FITAS

As mais bizarras festas académicas que se realizam na Europa

De 24 a 27 de maio de 1931

 

Domingo, 24

Imponente garraiada, no Colizeu de Coimbra, em homenagem aos Quartanistas de todas as Faculdades «Diestros» dos mais afamados de Coimbra.

À NOITE Maravilhoso festival no Parque da Cidade

 

Segunda Feira, 25

À TARDE Grandioso desafio de foot-ball no campo de Santa Cruz entre… de Lisboa

À NOITE Na Associação Académica conferência sobre … académicos do passado

 

Terça Feira, 26

À TARDE Entram os caloiros em Coimbra. Grande … caloiral no Largo da Feira e entrega das insígnias e mais atributos

À NOITE Imponente Sarau no Teatro Avenida promovido pelo nosso Orfeon

 

Quarta Feira, 27

A Queima das Fitas

Grandioso cortejo burlesco que sairá da Universidade pelas 14 horas. Queima dos Grêlos no Largo da Feira, desfile do imponente cortejo pelas ruas da Cidade.

Carros….

À NOITE … no Parque da Cidade. Maravilhoso fogo de artificio dos … de Viana do Castelo

….

 

Uma breve nota informativa para dizer que o Colizeu de Coimbra referido no cartaz era a praça de touros, inaugurada em 26 de julho de 1925, e destruída por um grande incêndio no dia 4 de abril de 1935. Estava erguida no atual Parque Verde do Mondego, justamente no local da Praça da Canção.

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por Rodrigues Costa às 09:06

Terça-feira, 01.05.18

Coimbra: Teatro Avenida, uma saudade 2

... Ao longo dos anos passaram pelo Avenida e lá atuaram muitas e famosas companhias, mas o velho teatro também teve papel de relevo na vida académica. No entanto, logo em 1894, se verificou uma tentativa de mudança de donos, que não sabemos se realmente veio a concretizar-se e em 1902 o Sr. António Jacob Júnior passou a ser o novo proprietário do imóvel, embora se falasse no surgimento de uma empresa que passaria a explorá-lo». Anacleto, R. O fim do Teatro Avenida?, In Domingo, Coimbra.

Teatro-Avenida 1962.jpg

Teatro Avenida em 1962

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 Sarau da Tuna Académica em 1959, cartaz

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 Filme 1964, cartaz

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 Espetáculo 1964, cartaz

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 Bilhete, fevereiro de 1964

Nos finais dos anos 70 do século XX, o “Teatro Avenida” é demolido e no início dos anos 80 foi construído um edifício que albergou o Centro Comercial “Galerias Avenida”.

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 Galerias Avenida

 O espaço que tinha sido preservado do antigo “Teatro Avenida”, inserido no edifício do Centro Comercial, abriria em 12 de Novembro de 2010 com cara e nome novos, o “Theatrix”, um espaço noturno e sala de espetáculos, vocacionada sobretudo para a música, com concertos e sessões de DJ, stand-up comedy, novo circo, dança e também cinema. Viria a encerrar, creio que em 2014.

Theatrix.jpg

 “Theatrix” (foto do espetáculo Opsis, realizado pela Tuna Académica)

 

Nota – Para completar e corrigir estas informações, consultar a entrada publicada neste blogue em 2016.12.26, com o título Coimbra: o desaparecido Teatro Avenida.   

Restos de Colecção (blogue). Teatro Avenida em Coimbra. Acedido em 2018.04.12, em

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2017/11/teatro-avenida-em-coimbra.html

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por Rodrigues Costa às 09:25

Quinta-feira, 26.04.18

Coimbra: Teatro Avenida, uma saudade 1

O “Teatro-Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, [num primeiro momento apenas Theatro-Circo] após 5 de outubro de 1910 renomeado de Teatro Avenida, na Avenida Sá da Bandeira em Coimbra, propriedade de António Jacob Júnior, Moraes Silvano e Mendes d'Abreu [e outros], foi projetado pelo arquiteto Hans Dickel, e inaugurado em 20 de janeiro de 1892.

Teatro Avenida (Principe Real) a.jpg

 Teatro-Circo a seguir à sua inauguração

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 Enquadramento do Teatro na Avenida Sá da Bandeira

 A sua construção, em terrenos cedidos pela Câmara Municipal de Coimbra, teve início em 1891 e nela trabalharam cerca de 100 operários. Dos estuques encarregou-se Francisco António Meira. As grades dos camarotes, as colunas que os sustentam e as cadeiras para a prateia foram fundidas na oficina de Manuel José da Costa Soares.

Este Teatro, oferecia: 28 camarotes de uma só ordem, 8 frisas, 28 lugares de balcão, 450 cadeiras e 450 lugares de geral.

A inauguração do, então, “Teatro Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, contou com a atuação de uma «companhia equestre, gymnástica, acrobática, cómica e mimíca, do Real Coilyseo, de Lisboa, de que é director o sr. D. Henrique Diaz»

A sala de espetáculos, com um «pano de boca» pintado por mestre António Augusto Gonçalves, tinha capacidade para 1.700 espectadores e o seu custo ultrapassou os 20 000$000 réis. Podiam lá realizar-se espetáculos equestres, de declamação e canto. Embora os espaços de receção e hall de entrada fossem construídos em alvenaria de pedra, o espaço central e cúpula tinham estrutura metálica, vinda de um Teatro mais antigo, o «Teatro-Circo Do Arnado». [Esta informação não nos foi confirmada por uma historiadora deste período]

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 Projecionista do “Teatro Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, em 1902

 «Para qualquer companhia é o theatro alugado por 80$000 réis. O actual emprezario, que procura sempre variar os espectaculos com peças escolhidas das melhores companhias e que é fiel cumpridor dos seus deveres, é o sr. Manoel Francisco Esteves. Tem o theatro orchestra e banda, sob a direcção do habil e intelligente professor Dias Costa. É esta casa de espectaculos muito elegante e tem commodidades. Na epocha propria é muito frequentado pelos academicos.» in: “Diccionario do Theatro Portuguez” - Sousa Bastos - 1908.

Sarau Acdémico.jpg

 Sarau académico

 

Nota – Para completar e corrigir estas informações, consultar a entrada publicada neste blogue em 2016.12.26, com o título Coimbra: o desaparecido Teatro Avenida.   

Restos de Colecção (blogue). Teatro Avenida em Coimbra. Acedido em 2018.04.12, em

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2017/11/teatro-avenida-em-coimbra.html

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por Rodrigues Costa às 22:13

Terça-feira, 24.04.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 3

Quem não conheceu mendigando pelas ruas, ainda há bem pouco tempo?

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 Jinó

O Jinó, essa figura esquelética de velho, de cabelo desgrenhado, de olhar mau, vivo e penetrante, que todo se exasperava quando o rapazio lhe gritava, pondo-se a dançar diante dele: Ó Jinó larga a Maria viúva, talvez alusão a quaisquer amoricos passados, ou Ó Jinó larga o velhó, não porque ele tivesse roubado qualquer velhó, mas pela tendência que o povo sempre teve e tem para rimar tudo o que significa ridículo e tem de dizer repetidas vezes?...

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 D. Sebastião ou Pitónó

 E o D. Sebastião, um belo tipo de velhote que andava pelas ruas vendendo reportórios novos, apregoando-os de tal forma que parecia dizer Pitónó, razão da sua segunda alcunha, que acreditava na vinda de el-rei D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, e que ia a casa dos sapateiros pedir-lhes uma faca emprestada para se lhes sentar á porta a limpar e aparar as unhas dos pés num estendal imenso de miséria e porcaria?!

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 Zé Macaco

E o Zé Macaco, o José Macaque da Rattazzi no Portugal à vol d'oiseau, o criado do antigo Hotel Mondego, cuja presença daria um imenso prazer a Darwin, esse imperdoável falador que desandava a discutir com os hóspedes, enquanto os servia, sobre assuntos de política!

Hóspede que lá caísse e que já tivesse sido ministro, o fosse nessa ocasião, ou estivesse em vésperas de o ser, já podia contar com um vigoroso ataque de argumentos irrisórios e disparatados cujo fecho era sempre este: «os senhores afinal prometem…, prometem…, mas, em chegando lá, fazem todos o mesmo. Tão bons são uns como outros!...» 

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 Cobra Ladrão

E o Cobra, que tinha uma cara de mau, versejador de má morte, que diziam ter roubado as pratas da Sé e ia esconder-se atrás dos silvados, à beira do rio, pescando à linha a roupa, dentro em breve reduzida a metal sonante, que as lavadeiras, belas moçoilas frescas e apetitosas, de saia arregaçada até ao joelho, aí estendiam a enxugar?

Este costume de pescar roupa alheia e de andar, de noite, roubando as chaves que encontrava pelas portas para as ir vender a qualquer ferro-velho, mereceu-lhe o epíteto pouco glorioso de ladrão, que o tornava apoplético e o fazia correr à pedra a garotada que o perseguia.

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 10:10


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