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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 23.01.20

Coimbra: Rua das Covas 1

(As minhas) Memórias da Rua das Covas

Rua das Covas, vista do lado da Sé Velha.jpgRua das Covas, vista do lado da Sé Velha

Em 1883 a Câmara Municipal de Coimbra decidiu rebaptizá-la com o nome de Rua Borges Carneiro, em homenagem a um dos activistas da Revolução de 1820 - de seu nome próprio Manuel -, que, por volta de 1800, passara pela cidade, a licenciar-se em Cânones. E o nome lá perdura, agora em azulejos, à esquina do Largo da Sé Velha.

Rua das Covas, placa toponimica.JPG

Rua das Covas, placa toponimica

Mas não teve grande efeito a decisão dos edis citadinos, porquanto, como observa José Pinto Loureiro, para toda a gente, a declivosa via continuou sempre a manter o vetusto nome de Rua das Covas, vindo já dos tempos da formação da nacionalidade. Há quem diga que o topónimo se originou nas covas de sepultura que se abriam no adro da Sé, mesmo no fundo da rua. Mas há igualmente quem pense, talvez mais avisadamente, que as tais covas não seriam outra coisa senão as galerias do criptopórtico romano, que permaneceriam abertas para o ar livre, ou parcialmente entulhadas, nos baixos do paço episcopal.

Rua das Covas, vista do lado da Sé Nova.jpg

Rua das Covas, vista do lado da Sé Nova

Fosse como fosse, covas nas ruas nunca faltaram em Coimbra, e certo é que a Rua das Covas sempre foi de capital importância na mobilidade de pessoas e coisas entre a Baixa e a Alta que Deus Haja, em eixo natural concertado com o Quebra Costas e o Largo da Sé Velha, aproveitando a linha de água entre a colina do Paço e a do Salvador.
Muitas são as memórias que pairam em seu redor e, por certo, serei eu a pessoa menos indicada para delas falar.

Rua das Covas, casa demolida.jpg

Casa onde vivi, demolida com as obras de ampliação do Museu

Para o miúdo tímido de finais dos anos 1940, que era eu, vindo de uma casa de aldeia, de loja e sobrado, para morar num terceiro andar, acima dos beirados, tudo parecia estranho e fantástico: o enfadonho pico-pico dos alvenéis talhando a silharia da nova Faculdade de Letras; as manhãs enevoadas, com o arrulhar misterioso das pombas na Sé Velha e em S. João de Almedina; o insólito atirar de trastaria velha para a rua, na noite de fim de ano, por entre o ensurdecedor bater de testos; as agitadas quintas-feiras da Ascensão, com multidões de aperaltados camponeses a corrupiar pelas varandas do Museu Machado de Castro; os regressos do Espírito Santo, com o festivo tilintar das campainhas de barro; as espantosas festas da Senhora da Boa Morte, na Sé Nova e o seu sino temeroso; as serenatas a desoras, junto à casa fronteira que alugava quartos a meninas estudantes. Olhos e ouvidos eram ávidos de apreender todas estas novidades estranhas. Até a linguagem e a forma das coisas: - ouvir dizer boa noute, ou nomear pote a um cântaro com duas asas junto à boca, ou chamar meninas a senhoras que podiam ser minhas avós ...
Na Rua das Covas morei num prédio com andar acrescentado acima dos beirados, como outros prédios dessa rua. Da rua não eram visíveis estes andares espúrios, nem tão pouco dos mesmos se alcançava a rua, devido ao avanço dos beirados e à estreiteza da mesma: era como um mundo à parte, uma janela indiscreta, a comunicar com o vizinho da frente e donde até se podiam lançar ditos de escárnio e maldizer, pelo Entrudo, a coberto da ocultação.
Ali viviam à volta de três dezenas de famílias. Um simples quarto, dos vários dispostos em cada andar, ao longo de comprido corredor, era abrigo suficiente para solitários e casais, ou, mesmo mais pessoas.
Nelson Correia Borges (continua)

 

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por Rodrigues Costa às 11:00

Terça-feira, 21.01.20

Coimbra: República de Coimbra no Porto

Foi recentemente publicado o primeiro volume da obra Os Lysíadas. A epopeia dos Ly.S.O.S. Uma República de Coimbra no Porto, cuja leitura recomendo aos Coimbrinhas como eu.

Os Lysíadas, capa.jpgOs Lysíadas, capa

O seu Autor – o Zé Veloso – um antigo estudante de Coimbra onde integrou o conjunto que alguns de nós bem se lembram, os Alamos, é o fundador do blogue Penedo d@ Saudade – Tertúlia.

Os Lysiades 3.jpg

Os Alamos antes e agora

Numa divertida reformulação de Os Lusíadas de Luís de Camões, conta a história da migração de um conjunto de estudantes de Coimbra para o Porto e da vivência académica da Real República dos LyS.O.S. que ali fundaram.

Os Lysíadas2.jpg

Real República dos Lysos

Cada canto é completado por uma nota explicativa onde são contados factos e memórias da vida académica em Coimbra, em meados do século passado e não só.
Mas o melhor é dar palavra ao que é dito na contracapa:

Os Lysíadas 1.jpg

Os Lysíades, contracapa

Os Lysíadas conta-nos a saga de um grupo de estudantes de Coimbra que em 1959 foram concluir as suas formaturas no Porto, onde fundaram a Real República dos LyS.O.S [leia-se Lisos], segundo a tradição das Repúblicas de Coimbra.
Poema épico de fácil leitura, inspirado n’Os Lusíadas, Os Lysíades segue uma linha paralela à narrativa de Camões, adaptando os episódios mais marcantes da obra do Poeta aos temas que trata e aos tempos que retrata, de forma criativa, irreverente e bem-humorada.
Para além de colocar o leitor dentro da vida de uma República de estudantes dos anos 50 e 60 do século passado, o livro contém ainda informações preciosas sobre a história e as histórias de Coimbra, sua Universidade, sua Academia, suas gentes e suas tradições centenárias.

Veloso, José. 2019. Os Lysíadas. A epopeia dos LyS.O.S. Uma república de Coimbra no Porto. Volume I. De Coimbra ao Porto. Coimbra, Minerva Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 10:32

Quinta-feira, 16.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 3

 

Illustração Portugueza. p. 85 01.jpgIllustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 85

Do século XII, a croça do báculo de S. Bernar¬do, em cobre dourado, e o belo cálice românico que na orla da base tem a legenda: «Geda Menendiz me fecit in onorem sci michaelis e MCLXXXX»;

Cálice românico.jpgCálice românico

Do século XIV, o relicário de coral e prata, a imagem da Virgem com o Menino ao colo e a cruz de ágata, objetos que pertenceram á Rainha Santa, e todos eles marcados com as armas de Portugal e de Aragão;

Relicário de coral e prata 01. Pertenceu à RainhRelicário de coral e prata que pertenceu à Rainha Santa

Do século XV, a grandiosa cruz processional cuja reprodução acompanha estas linhas;

Cruz gótica(1).jpgCruz processional

Do século XVI, a custódia tão sumptuosamente decorativa de D. Jorge d'Almeida, uma caldeirinha de prata com o brasão do mesmo Prelado, uma riquíssima coleção de cálices, e a bacia e gomil também aqui reproduzidos em gravura; do século XVII, a grande custódia e a cruz-relicário do Bispo D. João Manuel, o relicário de Santa Comba e uma grande cruz de azeviche; finalmente, do século XVIII, o jogo de sacras em prata e lápis-lazúli.
Na secção dos paramentos, figura, em primeiro lugar, a capa da abadessa de Lorvão, com sebastos soberbamente bordados, e na das tapeçarias um pano flamengo, representando Marte o Vénus surpreendidos por Vulcano, e uma alcatifa persa, em seda, verdadeira maravilha de brilho e cor.
Referindo-se ao Tesouro da Sé, escrevia há meses o sr. Joaquim de Vasconcelos: «Quem subscreve «estas linhas teve ensejo de visitar repetidas vezes os museus capitulares de alguns dos cabidos mais ricos da Europa; pode comparar sem prevenções e julgar do valor das obras expostas por experiência própria e por algum estudo, adquirido durante longos anos de pacientes investigações; não hesita, contudo, em afirmar que o Museu de Coimbra rivaliza com os mais opulentos».
O mesmo ilustre crítico escrevera também na «Arte e Natureza em Portugal»: «A criação do Museu é um exemplo preclaro, dado aos restantes prelados portugueses, que podem e devem abrir, os tesouros das catedrais ao estudo. O senhor Bispo-Conde soube achar em Coimbra o artista erudito, competente para a difícil obra da Sé Velha. Temos fé que encontrará, sem sair de Coimbra, o arqueólogo sagaz e bem informado, que deve inventariar num índice impresso, luminoso, manuseável o barato as incomparáveis riquezas do museu diocesano».

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

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por Rodrigues Costa às 09:48

Quinta-feira, 09.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 2

Illustração Portugueza. p. 86 01.jpg

Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 86

A primitiva instalação constava apenas de duas salas: na primeira, estavam as tapeçarias e os paramentos; na segunda, as peças de ouro e prata.

Capa da Abadessa de Lorvão.jpg

Capa da Abadessa de Lorvão

No entanto os últimos conventos iam acabando, e, à proporção que acabavam, ia a coleção crescendo. Não sem o obstáculo de alguns respeitáveis pedregulhos, cuja remoção não foi das mais fáceis, de Lorvão, de Semide, de Santa Clara, de Tentúgal e de Vila Pouca vinha correndo para o Tesouro da Sé uma rutilante enxurrada de alfaias preciosas, relicários, cibórios, turíbulos, cálices, gomis, frontais e dalmáticas, numa estranha confusão em que o ouro, a prata, as pedrarias e os esmaltes se misturavam com o veludo, a seda, a tartaruga, o coral e a malaquite.

Exposição de vários objetos religiosos.jpg

Exposição de vários objetos religiosos

A acumulação tornara-se excessiva. Ousadamen¬te, se rasgou en¬tão uma ampla galeria contigua às duas salas, e ao longo dela se dispuseram, em vitrines, os objetos mais preciosos. Entro estes, alguns há que lu¬ziriam como estrelas de primeira grandeza nos mais ricos museus do estrangeiro. Dadas as di¬mensões naturalmente estabelecidas para este ar¬tigo, apenas mencionarei as peças mais notáveis pe¬la beleza e pelo valor histórico.

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

 

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por Rodrigues Costa às 09:26

Quinta-feira, 19.12.19

Coimbra: Tascas antigas que ainda vão existindo

Com esta entrada termina a série sobre tascas de Coimbra da responsabilidade de Carlos Ferrão que geraram um número significativo de visualizações e comentários. Ficamos à espera de mais colaborações

- O TAPA
Localização: Rua das Rãs

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O Tapa, na atualidade

O Tapa mantém-se vai para 70 anos, na Rua das Rãs, em plena baixa da cidade. Local muito pequeno, bom para pausas de trabalho ou uma paragem de passeio, beber um copo e andar.
Ganhou o nome, porque nos seus primeiros tempos o copo era acompanhado por uma azeitona que o taberneiro fazia questão de oferecer, retirando-a do pote com uma pequena concha que suportava apenas uma unidade. Ninguém bebia sem um tapa.
Atualmente, tem menu de petiscos e seguindo os princípios da boa dieta mediterrânica há sempre sopa!

Tapa-2.jpg

O Tapa, publicidade

O lema da casa é: Vir a Coimbra e não ir ao Tapa é o mesmo que ir a Roma e não ver o papa.

- A SENHORA ALEXANDRINA, depois CAROCHA, depois JOÃO BRASILEIRO, hoje RESTAURANTE MONDEGO
Localização: Praça do Comércio n.ºs 109-111

Tasca da Alexandrina, ao fundo.jpg

Tasca da Alexandrina, ao fundo, ao lado da torre da Igreja de S. Bartolomeu

Perto da Igreja de S. Bartolomeu, em frente da capelinha do Senhor dos Passos, a senhora Alexandrina, já era matrona madura e muito sabida, começou por se estabelecer com um café, que veio com os tempos a transformar-se em café-restaurante.
A sua ajudante de campo era uma sobrinha que não dava trela a qualquer, mantinha um ar sério e grave.
Tinham uma criada de ordens, a celebrada Marocas, aquela Marocas traquinas… A Marocas era pau para toda a colher, sempre com aqueles sorrisos cativantes metia os fregueses ... na despesa e o caso é que caiam como patos, saindo dali a arrastar-se, envenenados com o absinto requentado no preço, e espatifado na manipulação caseira. Se ficavam mais um momento embalados pelos enguiços da Marocas, retiravam-se depenados. Não era a senhora Alexandrina que lhe incutisse esse espirito de ferrar a unha, a Marocas pagava-se do luxo dos deleites.
A patroa costumava sentar-se numa poltrona na cozinha, que ao mesmo tempo servia de casa de jantar, e a seu lado, por vezes um pouco afastada, a delicada da sobrinha entretida em idílios aéreos com algum estudante idolatrado, meio sentado a seus pés, expondo-lhes as suas paixões assolapadas, que viravam de rumo, apenas ele transpunha os umbrais da porta da rua, fineza que ela retribuía com igual constância!
Mais do que um café, era um autentico club da rapaziada mística, académicos, militares e futricas; palestrava-se, faziam-se sermões laudatórios em cima das mesas, ou recitavam-se poesias improvisadas, onde se testemunhou que Adelino Veiga (o poeta operário), desde tenra idade dos 15 anos, aí iria versejar com facilidade e espontaneidade.
A senhora Alexandrina faleceu em fevereiro de 1886, a sobrinha tinha falecido antes e a Marocas retirou-se para a Beira Alta onde voltou a ter o nome de Maria e ficou o resto da sua vida a recordar algumas das suas paixões!

Passou depois a ser conhecido pelo "Carocha", por atenderem a clientela duas galantes raparigas, tão morenas, como atenciosas, filhas do proprietário, o "Pai Carocha"! Com novo dono, que mal um cliente entrasse dizia sempre: "obrigadinho", ficou conhecido pelo "Obrigadinho".

Alexandrina-1.jpg

Tasca do João Brasileiro

Seguidamente entra em cena o Sr. João que vindo do Brasil deu o nome ao estabelecimento de “João Brasileiro” e que não deixou durante a sua gerência que o seu sotaque se perdesse o mesmo fazendo acontecer à qualidade do serviço.
Atualmente é o restaurante "Mondego", sossegado, acolhedor e informal.

Painel de azulegos representando o Calvário.jpg

Painel de azulegos representando o Calvário aplicado na frontaria do edifício


Carlos Ferrão 

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por Rodrigues Costa às 10:43

Terça-feira, 17.12.19

Coimbra: Cerca do Colégio de S. Agostinho

Extrato de uma comunicação apresentada no ciclo de conferências comemorativo dos 900 anos de Almedina.

A Cerca de S. Agostinho, quando ali nasci, estaria, praticamente, como quando em 1834 o Mosteiro de Santa Cruz foi extinto. Constituía um anexo do Colégio da Sapiência ou de S. Agostinho. Era, então, chamada Cerca dos Órfãos ou simplesmente Cerca.

Imagem mais antiga da Cerca.jpgImagem mais antiga da Cerca que se conhece

Já não conheci, obviamente, o passadiço e casas anexas que ligavam o Colégio da Sapiência à Cerca.

Passadiço do Colégio.jpeg

Passadiço do Colégio para a Cerca

Disposta em socalcos era um mundo fantástico, cheia de segredos e de subterrâneos.

Cerca outra imagem.jpg

Outra imagem antiga da Cerca

A casa onde nasci estava em parte sobre o que poderá ser uma cisterna, pois ainda me lembro de ver parte de uma abóbada feita em tijolos, e quando se deitava água por um buraco ouvia-se cair no fundo.
Sobre os restos da antiga muralha que a separava da Couraça dos Apóstolos corria um cano vindo da fonte que existiu em frente ao Laboratório Chimico, o qual lançava água num pequeno tanque. Dali ia, por um outro cano enterrado, ia para a leira do jardim, onde vertia para um outro pequeno tanque. Leira do jardim onde existiam arbustos e flores que só ali se viam.
Encostadas ao muro do lado nascente que a separava da cerca dos Jesuítas, existiam duas capelas, com vestígios de pinturas murais. A de cima com bancos de pedra embutidos na parede e a de baixo, com bancos de madeira.
Sobrepujava a capela de baixo uma imagem de pedra que hoje já não existe. Arruado da colunata.jpg

O arruado da colunata e ao fundo a capela de baixo onde ainda se pode vislumbrar a estátua de S. Agostinho.

Ligando diretamente a capela de baixo à entrada da Cerca estava uma colunata, a que chamávamos o arruado, uma longa fila de pilares que sustentavam uma latada cheia de roseiras.
A meio da colunata, na parede, havia o que parecia uma porta de pedra. Tinha um buraco e, hoje, penso deveria ser por onde passava a ligação da referida possível cisterna, ao tanque da leira mais abaixo.
A ligação entre os socalcos era feita por escadas de pedra, uma delas com lindos balaustres também em pedra.

Cerca leira de cima.jpg

A leira de cima da Cerca … uma pálida imagem do passado

Na leira mais elevada, no muro sobranceiro ao arruado, havia uma série de bancos de pedra separados entre si por pequenos alegretes. Na leira junto ao muro sobre a Rua do Colégio Novo havia uma pedra com uma data. Era ali que os meninos do Colégio dos Órfãos, raramente, brincavam. Recreio que estava separado, por uma porta de madeira, da leira que o prolongava e de uma outra leira que era a mais baixa.
Ali existia uma mina que devia ter cerca de 50 metros de extensão cuja água vertia para um tanque de grandes dimensões.
Como se pode constatar o aproveitamento da água, tinha ali um exemplo da luta de séculos do Mosteiro de Santa Cruz pelo controlo desse bem essencial.
Na Cerca – que estava e está na posse da Misericórdia de Coimbra – eram então produzidos vegetais e fruta destinados à alimentação das meninas e meninos do Colégio dos Órfãos, hoje Colégio de Caetano.
Rodrigues Costa 

 

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por Rodrigues Costa às 09:55

Quinta-feira, 05.12.19

Coimbra: Tascas que já não existem 4

- COVA FUNDA DO CAREQUINHA
Localização: Av. João das Regras, um pouco mais a jusante, da antiga ponte de ferro.

Cova Funda-1.jpg

Cova Funda, publicidade

À saída da Ponte de Santa Clara, ficava a taberna de Manuel Claro, o conhecido "Carequinha", que possuía magnificas e aprazíveis retiros. O seu proprietário era um homem com muita piada que se tornou popular por mascarar-se todos os anos pelo Carnaval percorrendo as ruas da cidade.

Cova Funda-3.jpg

Cova Funda, publicidade

A Cova Funda do “Carequinha” era construída em madeira, género barracão, tinha umas pequenas vitrinas onde expunha brinquedos de lata e de celuloide, bijutarias, alguns artigos religiosos e pequenos livros de histórias que vendia ali e também na Feira de São Bartolomeu. Quem ficasse encantado com o canto dos canários do “Carequinha”, era também ali que os vendia com ou sem gaiola. A taberna, ficava na cave ao fundo de uma escadaria, espaçosa tinha mesas de pinho e bancos. A Cova Funda era um estabelecimento característico, de certa originalidade, em que o cliente encontrava belos petiscos, saborosas frutas, ótimos vinhos das melhores procedências do país e interessantes distrações proporcionadas pelo seu proprietário, Sr. Manuel Fernandes Claro.
Nos dias das feiras dos 7 e 23 a casa estava particularmente cheia, mas era um local muito escolhido para se organizarem almoços de datas comemorativas de formatura e outros.
A Cova Funda do “Carequinha” como era conhecida a casa, acabou em 1951.

- ZÉ NETO
Localização: Rua das Azeiteiras
No princípio, era uma taberna e casa de pasto.
Um dia, em 1956, para melhor receber os clientes, Zé Neto decidiu transformar a taberna e abrir um restaurante.

Zé Neto-1.jpg

O Zé Neto. pintura de S. Harrison, 1965 (Coleção Particular)

Eram vários os fatores que tornaram o "Zé Neto" um local de referência. A qualidade e frescura dos produtos, a cozinha familiar e, claro, a presença simpática e diária do Senhor Zé Neto, um homem simples, que faleceu em 2017 com 89 anos e que muito acarinhava todos os que visitavam a sua casa.

Zé Neto-2.jpg

O Zé Neto

O ambiente familiar e acolhedor, manteve-se com a sua única filha, D. Esmeralda, licenciada em Engenheira Química, que abdicou da carreira para apoiar os pais no restaurante, e garantia na cozinha, a melhor comida tradicional portuguesa, que marcava todos os clientes e os obriga a voltar.
A sala sempre foi pequena, mas nunca faltou espaço para acolher os amigos que se reuniam em jeito de tertúlia, onde as conversas fluíam entre uma petinga frita ou jaquinzinhos, a famosa açorda de coentros e um bom copo de vinho tinto.
A 3 de Agosto de 2019, foi o último dia que o número 10 da rua das Azeiteiras abriu as portas para servir os clientes.
A alma da Baixa da cidade ficou mais pobre. O Restaurante “Zé Neto” fechou!

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 10:37

Terça-feira, 03.12.19

Coimbra: Por portas travessas. Histórias de miúdos da velha Baixa de Coimbra

Com esta entrada pretendo chamar a atenção de todos aqueles que, como eu, se assumem como coimbrinhas, sejam salatinas, chibatas ou da baixa, para um livro recentemente reeditado, com o título Por portas travessas. Histórias de miúdos da velha Baixa de Coimbra. É um relato, escrito na primeira pessoa, das vivências de infância e juventude do Carlos António Pinto dos Santos, nado e criado na Rua das Padeiras.
Estou convicto que o gostarão de ler.

Por portas travessas, Capa.jpg

Por Portas Travessas, capa
.

A cabra equilibrista

O toque alegre do pandeiro atrai a nossa atenção. Chegam e instalam-se no largo, mas não há um apresentador que nos diga quem são, de onde vêm, em que cama de estrelas dormiram, que estradas tomarão ao amanhecer de outro dia.
O espetáculo desenrola-se à altura dos nossos olhos que captam, ao pormenor, o esforço abnegado dos artistas em conquistar mais do que a mera simpatia da assistência.
O profissionalismo surpreendente da cabra, a esmerar-se no seu número de equilíbrio, girando as quatro patas sobre a pequena base; a agilidade do macaco, fazendo por ignorar a tensão da corrente que o agarra àquela forma de vida; o som virtuoso do pandeiro a marcar o ritmo dos acrobatas.

A cabra equilibrista.jpgO Homem do pandeiro, a cabra Lolita e a macaca
(Na Alta era chamada de Dona Fabela)

A Lolita, equilibrista, ė a estrela da companhia. Altiva no seu papel, sabe da vida que hoje é estrela, amanhã pele de pandeiro.
Mas o macaco, que se limita a levar as mãos à cabeça, a dar cambalhotas no chão e a saltar para os ombros do homem, dá-lhe a graça do palhaço pobre que vive das gargalhadas infantis.
A carreira artística, que lhes roubou a quietude e os largos horizontes só alcançáveis do alto das montanhas e do cimo das árvores, é uma opção antinatural ditada pela necessidade de sobreviverem juntos por estradas e lugares que lhes são estranhos. O homem pouco fala, mas parece ter um sotaque raiano, e o macaco parece interrogar-nos com o olhar, sobre o porquê de o chamarmos de Barnabé.
Entregues ao seu ofício, mal se dão conta do prestígio que é estar ali, em representação de uma antiga arte de rua que não se rende.

Termina o espetáculo. Ninguém recusa as palmas e, respondendo à nossa súplica silenciosa para que desabe uma chuva de prata sobre quem tanto precisa e merece, caem, condescendentes, umas quantas moedas pretas no púcaro empunhado pelo macaco, deixando-nos abalados e pensativos sobre o poder efetivo das preces.
O homem do pandeiro agradece descobrindo a cabeça, volta a colocar o chapéu, pega no banco às costas e os três, seguidos pela miudagem, dirigem-se rua abaixo ao encontro de um mundo mais generoso, que pode estar ali mesmo, ao virar da esquina.
E é assim até ao fim do dia. Talvez até ao fim da vida.

Santos, C.A.P. 2018. Por portas travessas. Histórias de miúdos da velha Baixa de Coimbra. 2.ª edição. Coimbra, Edição de autor

O livro pode ser adquirido pela módica quantia de 5,00 €. Para o fazer basta contactar o autor Pinto dos Santos (Toni) nas redes sociais. É uma excelente sugestão de oferta de Natal, para quantos viveram Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 09:40

Quinta-feira, 28.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 3

- TIAS CAMELAS
Localização: Ruas Larga e do Borralho, hoje desaparecidas

Rua do Borrralho.jpgRua do Borralho, onde se localizava a tasca das Tias Camelas. In: A Velha Alta … Desaparecida

As Tias Camelas, eram consideradas as Mães da Academia. Tinham a sua taberna na esquina oposta da Associação Académica na Rua Larga também com entrada pela Rua do Borralho.

Sede da AAC, na rua Larga.jpgSede da AAC, na Rua Larga. In: A Velha Alta … Desaparecida

Um cubículo onde apenas cabia a pipa do vinho, o fogareiro e com dificuldade se acomodavam os frequentadores. Ali, comia-se e bebia-se à farta. Quem não tinha dinheiro não pagava, ou pagava quando podia, às vezes no fim do mês, quando chegava a mesada. As Tias Camelas só recomendavam é que não se esquecessem de pôr um pataco para o Azeiteiro. O Azeiteiro era um Santo António de barro, sempre alumiado por uma torcida de candeia de azeite!
Apesar de ser uma lojinha escura e cheia de fumo, celebrizou-se pelo seu bom peixe frito, vinho e os rapazes literatos e boémios que ali se juntavam. Certamente não faltaram às diversas noites de tertúlia Camilo, Guerra Junqueiro, Trindade Coelho, Gonçalves Crespo ou Silva Gaio. António Nobre deixou-a para sempre imortalizada no seu livro Só e Eça de Queirós recordaria na sua obra A Correspondência de Fradique Mendes.
… tias Camelas, essas encantadoras velhas, que escrupulosamente, através de lascivas gerações de estudantes, tinham permanecido virgens, para poderem no Céu, ao lado de Santa Cecília, passar toda uma eternidade a tocar harpa... Era uma das suas memórias melhores de Coimbra essa taverna das tias Camelas, e as ceias desabaladas que custavam setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra fumarenta das pipas, com o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por entre temerosas contendas de Metafísica e de Arte. E que sardinhas! Que arte divina em frigir o peixe!”.
A tasca das Tias Camelas foi por assim dizer o cenáculo literário da academia da segunda metade do séc. XIX e João Penha era na Tasca das Tias Camelas o pontífice máximo. As suas palavras de conforto e salvação sossegavam Maria Camela que era uma velhinha magra, um pouco corcovada, de cabelos brancos, olhos grandes e orbitas vermelhas e humedecidos pelo fumo da frigideira. Nunca sentira amor mundano e não sabia para que servissem os homens, a não ser para fregueses de peixe frito e vinho. Acreditava piamente na existência de um coro celeste de onze mil virgens, entre as quais sabia que tinha um lugar... Lamentou-se um dia de já não ser jovem e, assim, não poder candidatar-se ao celeste coro. Para a tranquilizar, João Penha confortou-a com os seus obscuros conhecimentos, dizendo-lhe: sossegue, Tia Maria, eu garanto-lhe que terá o seu lugar reservado num coro muito distinto. Acredite no que lhe digo: há o coro das virgens que o foram por acaso, e o das virgens pelas forças das circunstâncias...

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 11:06

Quinta-feira, 21.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 2

- JOAQUINA CARDOSA
Localização: R. do Paço do Conde

Tasca da Joaquina Cardosa, finais do séc. XIX.jpg

Tasca da Joaquina Cardosa, finais do séc. XIX

A Joaquina Cardosa, do Paço do Conde foi um dos mais procurados lugares da Coimbra boémia e noctívaga.
A Piedade, a criada da tia Joaquina, uma doce morena de olhos tristes e magoados, punha naquele ingénuo cenário uma nota cheia de pureza e gravidade. Não houve poeta que por lá fosse que a não cantasse e aí está, entre tantas outras, a atestá-lo, essa deliciosa quadra de Afonso Lopes Vieira:

Maria da Piedade
Que nome te foram por,
Tu que não tens piedade
De mim que te tenho amor.

A Piedade, ouvia indiferente todos os galanteios, afável e carinhosa, entre condescendente e compassiva, mas se alguém soltava algum dito mais forte logo discretamente ela desaparecia, silenciosamente.

Tasca da Joaquina Cardosa, inicios do séc. XX.jpgTasca da Joaquina Cardosa, inícios do séc. XX

A boa e prazenteira tia Joaquina (Cardosa Marques) retirou-se do negócio nos primeiros anos do século XX, descansando de uma vida de trabalho e retirando-se para uma aldeia nos arredores da cidade. Tão amorável para todos, ainda mais para os seus “filhos” da academia, bem merece, que em sua memória, fique a notabilidade quase glorificadora dos admiradores da sua culinária e da sua resignada paciência…

- MANEL DO SEMINÁRIO
Localização: Rua dos Militares, já desaparecida

Tasca do Manel do Seminário.jpg

Tasca do Manel do Seminário

Em 1896 um antigo “moço de recados” do Seminário Episcopal montou, a meio da Rua dos Militares, por baixo da Real República Ribatejana, a “Loja do Povo”, mercearia, taberna e carvoaria que veio a ser uma das mais famosas tascas da Alta desaparecida e conhecida como “O Manel do Seminário”.

Rua dos Militares, hoje desaparecida.jpgRua dos Militares, hoje desaparecida. In: A Alta Desaparecida

Após a sua morte, o filho, que ficou com a alcunha do pai manteve o negócio que incrementou e uma das iniciativas de modernidade que tomou foi comprar em 1939 um rádio (novidade nas tascas da Alta) na altura da II Grande Guerra para o fregueses ouvirem os noticiários da BBC. Fechou, já nos anos 50, aquando das últimas demolições da Velha Alta.

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 10:08


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