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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 19.03.19

Coimbra: Misericórdia breve história

Dentro de alguns anos [1998] passa o meio milénio da Misericórdia coimbrã … Entre vária documentação notável, merece referência o conjunto de 25 grossos volumes, denominados «Documentos antigos», que agrupam manuscritos que vêm da fundação da Casa até meados do seculo XVIII, e o precioso «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra».


Folha de abertura do Memorial de João Baptista.jp

Folha de abertura do «Memorial» de João Baptista

…. Abrindo com uma folha branca, está a folha seguinte toda ocupada por um desenho nas cores sépia, preto e vermelho … Na oval, em chefe, está a figura de Nossa Senhora da Misericórdia lateralizada por dois anjos apoiados nos brasões nacional e dos Almeidas, decerto em lembrança do benemérito bispo Dom Jorge de Almeida, que na sua Sé acolheu a Misericórdia quando da sua instituição.
…. [Do «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra»] Se respigam alguns capítulos concernentes à história da Santa Casa até ao ano [1645] em que ele a escreveu:
- Teve sua origem em princípio de 1498.
- No ano de 1500 se ordenou essa Confraria na cidade de Coimbra, como parece, por uma carta do … Rei de 12 de Setembro de 1500 escrita aos Vereadores desta cidade em que os louva e aprova quererem instituir a dita confraria e lhe concede os privilégios todos que haviam concedido à Misericórdia de Lisboa por um alvará feito no mesmo dia.
- É tradição que primeiro se assentou esta Confraria da Santa Misericórdia na Sé, daí se passou para a Igreja de Santiago, na casa que serve de celeiro, na quina da praça onde se diziam as missas e se chamava Capela da Misericórdia.
- No mesmo sítio esteve até o ano de 1546 em que se ordenou fazer-se nova casa sobre a Igreja de Santiago como está edificada, como se vê do contrato celebrado pelo provedor e mais irmãos dela… e o prior … e mais beneficiados da dita Igreja [de Santiago].

Relevo da frontaria da Misericórdia de Coimbra 02

Relevo da frontaria da Misericórdia e Coimbra (In: Borges, N.C. 1960. João de Ruão. Escultor da Renascença Coimbrã)

- Os retábulos e mais obras desta casa parece fazer aquele grande mestre João de Ruão como se vê de uma quitação sua.
- Depois, em diversos tempos, se tratou de mudar a casa da Misericórdia para vários sítios, escolhendo a praça desta cidade no canto do hospital de S. Bartolomeu até o Romal e para isso compraram as moradas de casas que estão feitas na praça nas costas da mesma Igreja do hospital que ao depois se tornaram a vender. E depois se quis edificar na entrada da Rua do Corpo de Deus, onde se começou nova casa em o ano de 1589 a 29 de Maio, cujas obras se suspenderam depois da obra estar aberta, havendo-se nela despendido já cópia de dinheiro.

A Misericórdia ocupava os dois pisos superiores.j

A Misericórdia ocupava os dois pisos superiores ao portal de Santiago, e ali se encontravam somente a administração e a capela, de que se nota a Torre sineira

- Finalmente no ano de 1605, em 6 de Março se tomou o último assento que a casa da Misericórdia se não mudasse e se fizesse as casas, convém a saber, do despacho, sacristia, e da cera, e mais obras novas na forma e que hoje estão.

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Miseri

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Misericórdia, pormenor c.1773

…. Perante os insucessos a Irmandade vai-se mantendo na sua exótica Igreja e sede -porque, caso único, estava construída sobre outra igreja – até que tendo o Cabido da Sé sido mudado da velha Sé para a Igreja dos Jesuítas, logo a Irmandade da Misericórdia, em Março de 1772, voltou à casa onde havia nascido quase três séculos antes.

- As grandes dificuldades de alojamento só viriam a ser resolvidas pela Carta de Lei de 15.XI.1841 quando concedeu à Misericórdia a ocupação do Colégio Novo (onde num pequeno espaço funcionava o Tribunal, e em resultado da cedência teve que vir instalar-se na Torre de Almedina).


Colégio Novo restaurado após o incêndio.jpg

O «Colégio Novo» restaurado após o incêndio. À direita a «Torre de Anto» e o moderno colégio onde se encontram os alunos

- A vida da Misericórdia continuou com altos e baixos até que na noite de 1 de Janeiro de 1967 um violento incêndio destrói grande parte do edifício

Nota:
O trabalho citado integra uma transcrição do Inventário dos «Moveis desta S. Caza…» realizado em 1645.

Silva, A. C. 1985. Um Inventário seiscentista da Misericórdia de Coimbra. Separata de Munda.

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por Rodrigues Costa às 21:32

Terça-feira, 12.03.19

Coimbra: Igreja de Santiago 1

Determinaram as «Constituições Sinodais do Bispado de Coimbra», em 1591 … que em todas as igrejas houvesse um livro de Tombo, autêntico, donde constassem todas as suas propriedades e bens … Assim surge o «Inventário da prata e ouro, ornamentos e roupa do serviço da igreja de Nossa Senhora e dos Sanctos e de todas as cousas de que se serve a Igreja de S. Tiago que mandou fazer o prior».

…. O aspeto que esta igreja citadina de um dos topos da Praça Velha, depois de restaurada, nos oferece, poderá não ser, porventura, o mesmo da sua primitiva fábrica. Todavia, temos de reconhecer que a reconstituição feita foi, na ocasião, a única e a melhor possível.

A igreja de Sant’Iago antes das obras de restaur

A igreja de Sant’Iago antes das obras de restauro

A Igreja  de Sant'Iago durante as obras de restaur

A Igreja de Sant'Iago durante as obras de restauro

A Igreja  de Sant'Iago depois das obras de restaur

A igreja de Sant’Iago depois as obras de restauro

Está a sua fundação envolta em lendas que se relacionam com a tomada da cidade, em 1064, por Fernando Magno. De concreto apenas se sabe que antes da reconstrução dos finais do século XII e inícios do XIII – a nova igreja foi sagrada em 28 de Agosto de 1206 – já no local existia outro templo de que há referências documentais no século XII.
[A origem lendária da fundação da Igreja de Sant’Iago foi contestada, nomeadamente, por António de Vasconcelos … e F.A. Martins de Carvalho… Para estes historiadores o documento mais antigo respeitante a Sant’Iago apenas remontava a 1183. Foi A. Nogueira Gonçalves quem revelou e chamou a tenção para notícias anteriores àquela data].
No século XVI, a fisionomia do monumento foi grandemente alterada,
Com efeito, em 3 de Junho de 1546 lavrou-se contrato entre a Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia e a Colegiada de Sant’Iago para a construção da casa e igreja da Misericórdia sobre o velho templo românico.

Entrada para a Misericórdia.jpg

Entrada para a Misericórdia antes das obras de restauro da Igreja de Sant’Iago

O novo edifício ficou edificado sobre a nave da «capela de S. Simão, onde ora está o Santíssimo Sacramento e sobre a capela de Vasco de Freitas», com entrada pela rua de Coruche, na parte posterior, o que era possível graças ao grande desnível do terreno. O patim de acesso foi feito sobre a «sacristia e capela de S. Simão».
Para segurança de ambos os templos se estipulavam a construção de «arcos», «na dita nave de S. Simão», bem como diversas medidas a tomar quanto ao encaminhamento das águas pluviais.

…. Que capelas ou altares haveria então na Igreja de Sant’Iago?
Também a este respeito o inventário fornece indiretamente algumas informações. O número não iria além de sete: três na cabeceira e quatro do corpo da igreja, sendo uma à Epístola e três do lado do Evangelho.
Na capela-mor se encontrava a imagem do orago, Sant’Iago, e o sacrário com o Santíssimo Sacramento que mais tarde esteve também na capela do Bom Jesus. Nas colaterais destacavam-se os altares de Nossa Senhora da Conceição, à Epístola. O primeiro era da administração da Colegiada. O segundo pertencia à respetiva confraria, constituída por nobres, no dizer do escrivão do inventário, e «muito rica», segundo as palavras do prior.
…. No corpo da igreja, do lado direito, entre a porta travessa e a escada que subia para o coro, situava-se a capela gótica primitivamente dedicada a S. Pedro e depois a Santa Escolástica, ao Bom Jesus, e, por fim, ao Sacramento. Nas obras de restauro foi transferida para o tramo fronteiro, indo ocupar o espaço da capela de Santo Ildefonso.
Do lado esquerdo estavam as capelas de Santo Elói e Santo Ildefonso, a que mais tarde se juntaria a do Espírito Santo, instituída em 1653 por Úrsula Luís, viúva do mercador Manuel Roiz-
…. A capela de Santo Ildefonso era da família dos Alpoins.
.… A capela de Santo Elói «que edificaram e fabricaram os ourives desta freguesia …» era a primeira, ao entrar no portão principal.
…. Resta ainda a capela de S. Simão e a de Vasco de Freitas… A primeira é a da Senhora da Conceção, ou seja, a colateral direita da cabeceira da igreja. A última deverá talvez corresponder à do Bom Jesus, primitivamente de S. Pedro.
Quanto a Santo André, que aparece com certo destaque no inventário, com suas vestes próprias e um possível altar, onde «servia» uma estampa e um frontal de rede, a ter existido na verdade este altar, seria bastante singelo. O mais lógico é que se tratasse de uma imagem integrada num dos outros altares.
…. Além das confrarias de Nossa Senhora da Conceição, dos nobres, e de Santo Elói, dos ourives, o inventário fala ainda das de S. Simão, Santo André, Sant’Iago, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Piedade e Espírito Santo. Todas possuíam a sua arca, destinada a arrecadar a cera que cada confrade deveria pagar anualmente e de que se faziam as tochas que eram levadas na procissão do Corpo de Deus.

Borges, N.C. 1980. O Inventario dos Ornamentos e Joias da Igreja de Sant’Iago de Coimbra, em 1697. Coimbra, Instituto de História da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 09:31

Quinta-feira, 14.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 4

Vista geral da Alta, antes das demolições.jpg

Vista geral da Alta, antes das demolições

Durante o primeiro terço do século XX, os grandes projetos de remodelação urbana centravam-se na Baixa, mas foi na Alta que, quase subitamente, eles se começaram a aplicar. Por razões que não cabem neste momento explicar, o Estado Novo encetou em 1942 um vasto projeto de reconstrução das instalações universitárias, que ocasionou a demolição de mais de duzentos prédios e a construção de grandes blocos destinados a Faculdades.

Prédios demolidos durante as obras da Cidade Universitária segundo o número de pisos

Tipos de prédios  Número  Percentagem

Um piso                          1                   0,5
Dois pisos                     10                   5,0
Três pisos                     46                 22,8
Quatro pisos                 95                 47,0
Cinco pisos                   49                 24,3
Seis pisos                       1                   0,5
TOTAL                        202               100,1

Localização dos prédios demolidos.jpg

Localização dos prédios demolidos

…. Na véspera da construção da cidade universitária, a Alta era mais importante do que hoje não só por razões simbólicas, mas também pelo número e proporção de habitantes relativamente ao total de Coimbra e pelo superior relevo económico. O crescimento urbano verificado até 1940 não diluíra a polarização Alta-Baixa e o incremento da circulação automóvel ainda não tornara obsoletas as suas íngremes e estreitas ruas.
Ao contrário do que pretendeu e em grande parte realizou o Estado Novo, durante séculos não houve segregação entre zonas residenciais e escolares. A vizinhança entre os locais de ensino e os quarteirões de habitação, associada à dispersão dos colégios e dos próprios estudantes, implicava as zonas mais afastadas da Alta na atividade universitária sem que, no seu núcleo, fosse sentida qualquer necessidade de isolamento. Mas o plano de Cottinelli Telmo, responsável pela revolução urbanística realizada ao longo dos anos quarenta e sessenta, no seguimento de sugestões anteriores, assumiu a ideia de monofuncionalizar a área universitária.
A demolição sistemática da zona superior da Alta permitiu construir o Arquivo (1943-1948), a Faculdade de Letras (1945-1951), a Faculdade de Medicina (1949-1956) e os edifícios da Matemática (1964-1969) e de Física e Química (1966-1975): quatro imóveis de estudada monumentalidade, que provocaram uma profunda rutura urbanística e arquitetónica. E ainda ficou por construir o hospital previsto para o local dos Colégios de S. Jerónimo e das Artes, e os pórticos unindo os edifícios.

Alta de Coimbra. Rua Larga.jpg

Alta de Coimbra. Rua Larga. Década de 40

Vista geral da Alta, depois das demolições.jpg

Vista geral da Alta, depois das demolições

…Toda a zona se encontrava vivificada por um ativo comércio, ocupando o rés-do-chão de inúmeros prédios, vocacionando para a satisfação das necessidades diárias e ocasionais da população. Lucília Caetano … concluiu pela existência, na área demolida, dos seguintes «artesãos e pequenas empresas artesanais»: em 1942, havia seis alfaiatarias, duas modistas de vestidos, um marceneiro e restaurador, quatro encadernadores e douradores, duas tipografias, duas latoarias, cinco barbearias e uma relojaria. De acordo com a mesma autora, havia em 1910 sessenta e sete estabelecimentos comerciais e artesanais na Alta destruída e quarenta e sete fora dela.
… O plano de Cottinelli Telmo não alterou apenas o rosto da acrópole universitária. Devido ao âmbito das expropriações e à inerente necessidade de realojamentos, o seu impacto estendeu-se ao resto da cidade.

Vista geral do Bairro de Celas.jpg

Vista geral do Bairro de Celas

Em 1952, o reitor Maximino Correia calculou em dois a três milhares o número de pessoas que foram obrigadas a abandonar a Alta, ou seja, cerca de 5% da população da cidade, que em início dos anos quarenta rondava os cinquenta mil habitantes. A construção de bairros de realojamento apressaram e em parte definiram esse desenvolvimento urbano.

Rosmaninho, N. Coimbra no Estado Novo. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 65-92.

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por Rodrigues Costa às 09:45

Terça-feira, 12.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 3

«Por 1850, Coimbra continuava ainda o velho burgo académico, iluminando-se a candeeiros de azeite, sem águas canalizadas, nem esgotos, nem vias férreas, nem estradas, nem escolas, dormitando letargicamente à sombra da Universidade e restabelecendo-se penosamente e com lentidão do enorme abalo sofrido com a extinção das congregações religiosas que mantinham aqui nada menos de 7 mosteiros e 22 colégios».
Assim escreve José Pinto Loureiro, em 1937, no preâmbulo dos «Anais do Município de Coimbra».
… Eram de facto estas as características da vida urbana. Mas Coimbra não era exceção nem caso isolado. Era a regra. Durante a primeira metade de oitocentos muitas cidades portuguesas e mesmo a capital do reino encontravam-se, quanto ao desenvolvimento urbano, tal como as da grande maioria dos países europeus, expectantes.

Cidade de Coimbra. Pinho Henriques.JPG

Cidade de Coimbra. Pinho Henriques. Séc. XIX

… A construção das infraestruturas é um tema caro às politicas liberais. Como resultado destas iniciativas, a partir da segunda metade do século, Coimbra ganha outro protagonismo dentro da rede urbana nacional. A mala-posta, em 1855, servindo-se de uma estrutura viária renovada, volta a ligar a cidade ao Carregado, retomando-se um serviço de transporte rápido e regular. Mas o tempo de comunicação da informação ainda mais se encurta quando, em 1856, no mesmo ano em que a cidade se ilumina a gás, se inaugura o telégrafo elétrico entre Lisboa e Coimbra, e depois Porto, anunciando a chegada do comboio. No entanto, é apenas em 1864 que a cidade passa a integrar a rede ferroviária com a inauguração do troço entre Taveiro e Vila Nova de Gaia, completando-se a linha do norte. Paralelamente a administração pública municipal vai-se modernizando, de acordo com a lei de 25 de novembro de 1854, reduzindo em número as freguesias e regularizando as suas fronteiras.
Criaram-se, assim, as condições para a implementação dos melhoramentos necessários a Coimbra.

Projecto para instalação de canos de abastecimen

Projecto para instalação de canos de abastecimento à cadeia da Portagem. Joaquim José de Miranda. Séc. XIX

Projeto da Ruas da Calçada. João Ribeiro da SilvProjecto da estrada entre as ruas da Calçada e da Sofia. João Ribeiro da Silva. 1857
Ponte de Santa Clara.jpgPonte de Santa Clara

…Como parte do programa de regularização e subida da cota dos cais incluiu-se o redesenho do largo da Portagem e a construção de uma nova ponte. O largo ganhou uma dimensão moderna como entrada urbana e como rótula de distribuição viária, depois de vagas de demolições e obras de regularização. A ponte construiu-se em ferro, no ano de 1875, depois da demolição da antiga ponde de pedra, em 1873,
…. Pela nova ponte continuou a conduzir-se o tráfego que ligava, pelo litoral, o norte ao sul do país, cruzando o largo da Portagem e percorrendo as ruas até Santa Cruz, e daí até à saída pela rua da Sofia, prolongada na rua Fora de Portas. Era este o caminho urbano da estrada real na ligação de Lisboa ao Porto e por aqui passavam as carruagens ao serviço da mala-posta.

Macedo, M.C. Coimbra na segunda metade do século XIX. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 43-64.

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por Rodrigues Costa às 18:59

Terça-feira, 05.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 1

O Concelho de Coimbra com 31 freguesias e uma área aproximada de 317 km2, teve uma evolução populacional apreciável, entre os anos sessenta do século XIX e os anos sessenta do século XX. Os censos de 1864 … indicavam uma população de 40.681 habitantes; cerca de cem anos depois, a estatística de 1960, apresenta uma população concelhia de 106.404 habitantes…. Atualmente, [2001], a população do concelho atingiu os 148.443 habitantes.

Mapa topográfico da cidade com a divisão das freMappa topográfico do Bispado de Coimbra com todas as vilas, parochias e Lugares. José Carlos Magne 1797

…. No que respeita apenas à Cidade, existem elementos cartográficos desde 1845.
… A malha urbana da cidade encontrava-se espartilhada por duas cintas: a primeira, a conventual, e a segunda formada por um enorme conjunto de quintas. No século XIX, deram-se grandes alterações na estrutura produtiva da maioria dessas grandes quintas que rodeavam a cidade de Coimbra, com as suas casas solarengas, das quais algumas ainda resistem como, por exemplo, a do Regalo, Espertina, Portela e das Lágrimas, algumas absorvidas pelo crescimento urbano, outras ainda em ruínas expectantes.
A cintura de mosteiros, mais junto da cidade, tornou difícil o desenvolvimento urbano de Coimbra durante muitos séculos: mosteiros como os de S. Domingos, de Celas, de Santa Cruz, Santa Ana, Santa Clara, S. Francisco e Santa Teresa, impediram diretamente a expansão da cidade.

A Cidade de Coimbra. Evolução do espaço urbano.

A Cidade de Coimbra. Evolução do espaço urbano

Relativamente à cidade é mais fácil determinar com rigor o seu crescimento, quer pela existência de elementos edificados datáveis, quer pela existência de cartografia [feita] com rigor, desde 1873. A área urbana cresceu 10 vezes entre 1873 e 1940, e passou de 1.106 ha (1940) para 3.000 ha (Plano Diretor Municipal – 1944).
…. Nos finais deste século [séc. XX], a cidade conheceu um crescimento importante da sua população (40% em 30 anos), sem que se assistisse ao crescimento da sua área urbana, que nas primeiras décadas do século XX aumentou consideravelmente.
Se nos finais do século XVI, a Rua da Sofia é o suporte do desenvolvimento urbano, nos finais do século XIX é a Avenida Sá da Bandeira que serve de eixo de desenvolvimento: arruamento desanexado à Quinta de Santa Cruz aonde, a partir de 1880, são postos à venda lotes de terreno.
…. Entre 1900 e 1930, a área urbana da cidade duplicou. Com este crescimento aumentou também o número de indústrias na parte baixa da cidade e posteriormente ao longo da via férrea e da Estrada Nacional n.º 1. A zona da «Baixinha» ressentiu-se com esta deslocação de atividades e desde então começou-se a sentir a necessidade de algum planeamento. São desta época os primeiros planos para a sua reestruturação.

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Plan d’Aménagement et d’extension – Rapport génerale. Étienne de Groër. 1940

…. Um certo imobilismo das administrações local e central levou a que somente em 1839, se adjudicasse um primeiro plano, de carácter geral, ao Arq. Étienne de Groër.
…. Em termos futuros, a atenção de todos nós, deverá concentrar-se nestas áreas suburbanas em termos de requalificação. Embora o Centro Histórico necessite de urgente reabilitação, a sua concretização está mais dependente da resolução de problemas financeiros e de vontade política, do que de grandes estudos teóricos, dado que as metodologias de intervenção são já aceites há muito por todos.

Faria, J.S. Evolução do Espaço Físico de Coimbra. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 9-16.

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por Rodrigues Costa às 18:57

Quinta-feira, 17.01.19

Coimbra: Quinta da Portela 2

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Fachada principal do Palácio

A fachada principal, que é a única inteiramente nova … [e] nela se resume com maior evidência a introdução dos cânones neoclássicos, muito embora esta tentativa de racionalização seja interrompida pelo eixo do portal.

Ângulo esquerdo do Palácio.jpg

Ângulo esquerdo do Palácio

É uma fachada delimitada por fortes cunhais de cantaria lisa encimados por urnas com fogaréus barrocos, e composta por dois pisos demarcados por uma barra horizontal de cantaria, sendo o inferior rasgado apenas por duas janelas de verga lisa que ladeiam o portal … No piso superior, seis janelas de sacada com grade de fero e avental recortado.

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Zona central da fachada do palácio

…. Estruturalmente, o portal desenvolve-se a partir de um vão retangular ladeado por duas pilastras encimadas por duplas mísulas volutiformes. Coroadas por plintos de perfil bojudo.

Passagem, através do portal principal, ao pátio

Passagem, através do portal principal, ao pátio interior

Acesso ao pátio interior com a porta de entrada d

Acesso ao pátio interior com a porta de entrada da capela ao fundo

O portal estabelece a ligação com o pátio interior, ao qual se acede através de um largo e comprido túnel com cobertura em madeira … sustentada no outro extremo num possante arco abatido e tendo como pano de fundo o portal da capela.


Pavimento do pátio interior.jpg

Pavimento do pátio interior

O túnel … é pavimentado com uma calçada bicolor feita com pedras do rio, solução que é retomada no pavimento do pátio, onde está desenhada uma admirável rosa-dos-ventos.

Nota: Após a realização deste excelente trabalho de investigação, a área da Quinta da Portela foi urbanizada e o palácio – que se mantem na posse da Família – embora mantendo a traça original, sofreu obras de reabilitação.

Mora, L.M.C.F.O. 2001. A Quinta da Portela. História e Arte. Seminário de História da Arte. Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vol. I e II. dactilografados.

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por Rodrigues Costa às 09:30

Quinta-feira, 03.01.19

Coimbra: Instituto de Coimbra

A Academia Dramática, criada em 1836, onde alunos e professores preparavam e exibiam peças teatrais. Os estatutos da nova academia, aprovados em 4 de dezembro de 1840 … previam a existência de três conservatórios (Dramático, de Música e de Pintura), que passaram a designar-se Institutos e que se viriam a fundir numa única entidade conhecida por “Instituto”. Ao Instituto incumbia a realização de trabalhos literários e artísticos, sendo por isso constituída por indivíduos versados nas artes de declamação, música, pintura e literatura, na sua maioria lentes da Universidade de Coimbra.
Os atritos e afrontamentos que foram surgindo entre os membros do Instituto e os restantes elementos da Academia Dramática originaram uma dissensão, efetivada pela comissão que dirigia o Instituto em 1851.
… A nova sociedade académica foi iniciada a 3 de janeiro de 1852, com a aprovação em Assembleia-geral dos novos estatutos que declaravam como objetivos “a cultura das ciências, belas letras e belas artes.” Com a fundação do “novo” Instituto de Coimbra incorporou-se uma área vocacionada para a cultura das ciências.
Toda a história do Instituto de Coimbra se entrelaçou com a história da Universidade, não sendo possível “dar conta da vida desta instituição científica isolando-a da Universidade de Coimbra, onde as suas raízes vão colher constantemente a seiva que o vivifica, e a todo o momento lhe fornece novas e pujantes forças” (Lobo, 1937, p. 6). Alguns consideraram o Instituto de Coimbra um “rebento juvenil” da alma mater que era a antiga Universidade (idem, p. 9).

Instituto sala.jpgPrimeira sala do Museu de Antiguidades do Instituto de Coimbra

… O Instituto de Coimbra compreendia três classes, que tinham de ser escolhidas pelos seus associados, designadamente: I Classe - Ciências morais e sociais, dedicada aos assuntos relacionados com a economia e o direito; II Classe – Ciências Físico-matemáticas, que englobava todas as ciências naturais e exatas; e III Classe – Literatura, belas letras e artes, composta pelas secções de literatura, literatura dramática e belas artes.
… A primeira reformulação dos estatutos originais, de 3 de Janeiro de 1852, surgiu nos já referidos estatutos de 1860. Em Assembleia geral de 4 e 7 de Junho de 1882 foram aprovadas alterações dos estatutos, onde se destacou a descrição da medalha de prata a ser usada pelos sócios efetivos. Esta teria a inscrição – Instituto de Coimbra 1852, de um lado e a insígnia da sociedade no outro, com a legenda Auro Pretiosior1, devendo ser usada suspensa de um duplo colar de prata.

Instituto.jpgColar com a insígnia do Instituto de Coimbra

Desde o início, a publicação de um jornal científico e literário surgiu como a principal ferramenta de prossecução dos objetivos definidos para a nova sociedade académica.
Proveniente da primeira corporação científica do país (Sampaio, 1852, p. 1) O Instituto título atribuído à publicação, não se assumiu de modo nenhum como um periódico popular, mas antes como um meio de divulgar os trabalhos dos seus sócios entre os seus pares, mesmo que de áreas distintas, e um espaço de debate de ideias ao promover “diálogo entre intelectuais” (Xavier, 1992, p. 91).O Insituto. Volume Primeiro. 1853.jpgO Instituto. Jornal Scientifico e Litterario. Volume Primeiro. 1853

… A revista científica e literária O Instituto adquiriu, pela sua longevidade, singularidade no panorama nacional. Ganhou prestígio ao tornar-se uma obra de troca. Em 1935, O Instituto era permutado com mais de 200 periódicos nacionais e internacionais. Ao longo de 130 anos foram publicados 141 volumes, o último dos quais em 1981, prenunciando já o fim do Instituto de Coimbra. Em 1942, quando se publicou o centésimo volume de O Instituto, o Secretariado da Propaganda Nacional, órgão do Estado Novo, ofereceu uma lápide comemorativa descerrada na sede do Instituto de Coimbra, onde, ainda hoje, se pode ler: “Neste edifício tem a sua sede a mais antiga revista literária do país.”

Leonardo, A.J., Martins, D.R. e Fiolhais, C. O Instituto de Coimbra e a Ciência na Universidade de Coimbra. Acedido em 2018.11.12, em file:///C:/Users/Rodrigues%20Costa/Desktop/Blogue%20entradas%20a%20fazer/Instituto/Instituto%20de%20Coimbra.pdf

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por Rodrigues Costa às 20:28

Quinta-feira, 27.12.18

Coimbra: Senhora da Alegria de Almalaguês

Quase ignorado santuário de montanha, dedicado à Virgem Maria, é este.

Capela da Senhora da Alegria exterior.JPG

Capela da Senhora da Alegria exterior

Poucos autores se lhe referem, com exceção do Pe. Luiz Cardoso no seu Dicionário Geográfico de 1747. E, no entanto, a sua antiguidade é incontestável. Situa-se no cimo de um cômoro, donde se vislumbra e sente uma infinidade de aldeias em redor, circundado pela ribeira afluente do Dueça e agora pela autoestrada 13. O acesso é ao presente facilitado por esta via e por caminhos alcatroados, outrora veredas rurais percorridas a pé por romeiros devotos.
O monte tem o sugestivo nome de Crasto ou Castro, a remeter-nos para eras de um passado remoto, com habitações pré-históricas ou fortificação de defesa na época da reconquista cristã, como aconteceu nesta região de Bera, designadamente na vizinha Torre de Bera. Fica-lhe de fronte a aldeia de Almalaguês, a cerca de um quilómetro. Por aqui ainda se pode ouvir o bater de um ou outro tear, mas esta atividade que outrora foi importante e fez de Almalaguês o maior centro de tecelagem artesanal da Europa encontra-se hoje decadente. Houvesse em Coimbra uma edilidade consciente dos valores culturais do seu território e teria protegido convenientemente a tecelagem de Almalaguês e o que resta da torre de Bera.

Capela da Senhora da Alegria interior.JPG

Capela da Senhora da Alegria interior

À falta de fontes escritas é a própria capela que ditará a sua história. O edifício é modesto, com uma só nave, de apreciável tamanho para uma ermida, capela-mor e sacristia adossada a norte. Sensivelmente a meio da nave encontra-se um púlpito de forma cilíndrica sobre coluna dórica, lavrado em pedra calcária, com caneluras e dois frisos de cabecitas aladas de anjos. Tem aposta uma inscrição onde se lê que a capela foi mandada construir em 1634 pelo pároco Teodósio Abreu. Na fachada abre-se um portal do século XVIII, atestando outra intervenção. Esta tem certa nobreza na sua austeridade: porta encimada por frontão triangular e decorada com brincos laterais, na tradição da época de D. João V, cunhais vincados de cantarias e discreto campanariozinho.
No topo da nave erguem-se dois altares colaterais em popular e tardio neoclassicismo. O arco cruzeiro, de cantarias, abre-se para a capela-mor onde avulta o retábulo com a imagem da titular. Tem duas colunas espiraladas por banda, recobertas por folhagens, cachos de uva e aves debicando os bagos. O remate é uma composição de elementos diversos coroados por um medalhão com as iniciais AM. Pena é que tudo isto se encontre repintado de branco e purpurinas, apenas restando alguma policromia antiga em certas cabeças de anjo.
Cobria o teto da capela-mor um revestimento de madeira com vinte caixotões, do qual apenas existe atualmente uma pequena parte envolvendo o retábulo. Os caixotões, da reforma do século XVIII, ostentavam pinturas e dísticos de alegorias à piedade, mansidão, prudência, justiça, fortaleza, temperança, caridade, humildade e pureza. Os que restam, colocados em volta do retábulo ilustram algumas litanias da Virgem Maria.

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Capela da Senhora da Alegria capela-mor

Reveste as paredes da capela-mor um encantador alizar de azulejos recortados da segunda metade do século XVIII, da oficina coimbrã de Salvador de Sousa e Carvalho. As cenas representadas são: a Adoração dos Magos, Adoração dos Pastores, e Nossa Senhora da Conceição; Nascimento da Virgem, Anunciação e Visitação.
A Senhora da Alegria, bem como uma santa mutilada, do século XV, num retábulo colateral, atestam a antiguidade deste lugar sagrado. A imagem da Senhora, de madeira, é de uma época difícil de definir, talvez século XIV ou mesmo XIII. Só um exame científico poderá ajudar. Ampara o Menino no antebraço esquerdo e com a mão direita faz um gesto de bênção. Apresenta uma ligeira curvatura à direita, que pode ter sido um aproveitamento do tronco em que foi esculpida.
Outro motivo de interesse deste santuário são os ex-votos, dos séculos XVIII e XIX.
Já aqui não mora o ermitão de que nos fala Luiz Cardoso, mas a Senhora da Alegria continua a receber devotos, nos dias da sua festa, que é segunda feira da Pascoela, e sempre, como pudemos testemunhar. Permanece o mesmo encanto espiritual que tanto atraiu as gentes dos séculos passados.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra,  n.º 4718, de 2018.12.06

 

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por Rodrigues Costa às 12:25

Quinta-feira, 20.12.18

Coimbra: Personalidades Augusto de Carvalho Silva Pinto

O arquitecto Augusto de Carvalho da Silva Pinto nasceu em Lisboa a 7 de Maio de 1865 .... Depois de ter frequentado o “Instituto Industrial e Comercial de Lisboa”, matriculou-se, em 1882 … na “Escola de Belas Artes” e, seguidamente, inscreveu-se na especialidade de Arquitectura Civil, que integrava o curriculum daquela escola lisboeta.
Durante algum tempo leccionou no estabelecimento de ensino onde se havia formado e onde fora aluno brilhante, mas logo de seguida partiu para Paris, a fim de se valorizar e tomar contacto com as novas correntes estéticas … Regressou em 1895 e, logo depois, veio fixar residência em Coimbra, terra que adoptou como sua.

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Augusto de Carvalho Silva Pinto

Este facto revestiu-se de grande significado para a cidade, que se encontrava afastada dos grandes centros, fechada sobre si mesma, sem possibilidade de se desenvolver, e passou a dispor de um homem com concepções arquitectónicas modernas, capaz de colocar o seu saber ao serviço da comunidade.
Logo após a chegada e acumulando com outras tarefas, entra como professor para a Escola Industrial Brotero onde permaneceu, ensinando gerações, até atingir o limite de idade; além disso, integra-se na vida artística do burgo, que quase se reduzia só à Escola Livre das Artes do Desenho, fundada por Mestre António Augusto Gonçalves em 1878, e por todos os artistas e artífices que gravitavam em torno dela.
…Em 1904 o engenheiro Augusto Barbosa é encarregado pela municipalidade de elaborar o projecto [de urbanização da Quinta de S. Cruz]. Silva Pinto desenha a casa do Doutor Ferrand Pimentel de Almeida, a construir na Avenida Dias da Silva.
… A Universidade, a Câmara Municipal e alguns particulares utilizam os seus serviços. A primeira, a partir de 28 de Outubro de 1913, passa a pagar-lhe mensalmente 5$00 “por ser o superintendente das obras” , mas a municipalidade adiantara-se e no derradeiro ano do século XIX encomendou-lhe “o projecto de um mercado público destinado ao local onde se vê o de D. Pedro V”, cuja construção ocorrera em 1867 … Foi este, sem dúvida, o edifício mais ousado que Silva Pinto projectou para Coimbra. Todo em ferro, tijolo e vidro, seguia os moldes europeus …No entanto, apesar de se tratar de uma construção bem dentro dos parâmetros utilizados na época, embora dentro de proporções modestas, mas de acordo com os orçamentos disponíveis, a verdade é que … um dos jornais citadinos não se eximia de, para atacar o arquitecto, apelidar de “aquário” o pavilhão da venda do peixe.

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Projeto não concretizado do Mercado D. Pedro V

… A primeira notícia conhecida e que nos fala da possibilidade de criar uma Faculdade de Letras na Universidade de Coimbra remonta ao tricentenário da morte de Camões, ocorrido em 1880 … só trinta anos após a primeira tentativa, já então num quadro político e mental bem diverso, se veio a concretizar aquilo que o Doutor António Ribeiro de Vasconcelos considerava “uma necessidade urgente e inadiável”.
… O problema das instalações colocou-se de imediato à nova direcção; como consequência solicitou ao governo a cedência do terreno onde se andava a construir o edifício destinado ao Teatro Académico e que ocupava o sítio do antigo Colégio S. Paulo … Para riscar a nova casa universitária encarregaram o arquitecto Augusto de Carvalho da Silva Pinto … O Conselho da Faculdade aprovou as plantas e alçados do novo edifício a 31 de Julho de 1913 … Silva Pinto projectou uma fábrica que patenteava uma fachada equilibrada e harmónica, onde os volumes e o movimento provocado pelas aberturas, pilastras e colunas jogavam com a luz.
O espaço exterior do edifício apresentava uma forma entre o rectangular e o trapezoidal; quanto ao interior, embora ajustando-se ao fim a que se destinava, aproveitava algumas fundações do inacabado, ou melhor, mal começado, Teatro Académico.
… Bem ritmado, com o piso térreo de silharia de junta fendida e torreões marcados nas extremidades, a zona central do primeiro andar apresenta as aberturas vazadas no paramento e separadas por pilastras adossadas à parede ou por colunas duplas. A parte superior do vão das janelas oscila entre o arco de volta perfeita e o frontão triangular, para, numa liberdade criativa total, mostrar o lado inferior das ventanas colocadas nos pseudo-torreões a acompanhar os degraus da escada interior. Bem ritmado, com o piso térreo de silharia de junta fendida e torreões marcados nas extremidades, a zona central do primeiro andar apresenta as aberturas vazadas no paramento e separadas por pilastras adossadas à parede ou por colunas duplas. A parte superior do vão das janelas oscila entre o arco de volta perfeita e o frontão triangular, para, numa liberdade criativa total, mostrar o lado inferior das ventanas colocadas nos pseudo-torreões a acompanhar os degraus da escada interior.
… Lamentavelmente o projecto não se realizou tal como havia sido concebido. Construído ao longo de duas dezenas de anos, cedo mostrou a exiguidade de espaço. O arquitecto viu-se na necessidade de, no decorrer das obras, criar uma área maior dentro da estrutura prevista.

Antiga Faculdade de Letras. Início dos anos 40.jp

Antiga Faculdade de Letras da UC no início dos anos 40 do século XX

…De qualquer forma, a primeira Faculdade de Letras, no seu conjunto, expressava um maior gabarito do que a actual fachada da Biblioteca Geral, que, ao fim e ao cabo e despudoradamente, ainda se apoderou de grande parte das estruturas interiores.
… O amplo salão de leitura e a cúpula elíptica, de arrojado traçado, que o encimava, foram reaproveitados, embora a contextura de um mal amanhado tecto disfarce aquela composição; o mesmo aconteceu com o elegante vestíbulo e escadas de acesso.
Nem sequer tiveram dó dos belos portões de ferro forjado, dos magníficos lustres do mesmo material, dos lindos artefactos de talha que se encontravam portas a dentro e do grande vitral de manufactura italiana existente na vasta sala do Museu.
… O então Director da Faculdade de Letras, Doutor António de Vasconcelos, a 12 de Dezembro de 1914, escreveu-lhe uma carta a comunicar “que o Conselho da Faculdade de Letras, (...) em sessão hoje celebrada para inauguração da parte já concluída do seu edifício em construção, resolveu por unanimidade que se lançasse na acta um voto de louvor pelo zelo, saber, competencia e desvelado carinho com que VEx.ci fez o estudo da modificação e adaptação, para instalação da Faculdade de Letras, do antigo projécto do teatro académico, aproveitando quasi toda a obra que já se achava realizada; e com que tem dirigido superiormente os trabalhos de construção do mesmo edifício.
… Silva Pinto, ao longo dos anos que permaneceu em Coimbra não se desligou do quotidiano. Relacionado com a vida artística, pois, para além da sua actividade profissional esteve intimamente ligado com a Escola Livre das Artes do Desenho, com Mestre Gonçalves, com o Dr. Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, mais conhecido por Quim Martins, e ainda com os numerosos artistas saídos desses dois alfobres que foram as escolas da Torre de Almedina e a Brotero, andou também de braço dado com a política.
Pertenceu ao executivo municipal, exerceu o cargo de Governador Civil Substituto e, mais tarde, por discordar do sistema vigente instaurado após 1928, conheceu mesmo as agruras da prisão. Republicano convicto acabou por ser preso a 6 de Maio de 1930 e, embora libertado onze dias depois, foi-lhe imposta residência fixa em Tentúgal, até Agosto do mesmo ano.

Anacleto, R. e Policarpo, I.P.L. O arquitecto Silva Pinto e a Universidade de Coimbra, em Universidade(s). História. Memória. Perspectivas, Vol. 2, Congresso História da Universidade. 7.º centenário, Coimbra, 1991, p. 327-346.

 

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por Rodrigues Costa às 10:44

Terça-feira, 30.10.18

Coimbra: Sinos da cidade e suas “conversas”

 

Joaquim Martins Teixeira de Carvalho.jpeg

 Joaquim Martins Teixeira de Carvalho

Contavam os velhos que a voz dos sinos tinha força de convencer os homens.

Da campainha de S. Francisco Xavier se conta na India que levava atrás dele os mais infiéis.

Goa. Igreja do convento de S. Francisco Xavier.jpg

 Goa. Igreja do convento de S. Francisco Xavier

Não havia cão de herege, que, ao ouvir a campainha, não ficasse inquieto, agitado, movendo-se sem saber porquê, e não acabasse por dobrar a cabeça e pôr-se a andar atrás dela até a igreja.

Os sinos passavam por falar a verdade; nas igrejas estavam em altas torres para serem vistos de longe e atirarem para vales distantes a sua voz a anunciar a hora da oração, ou da vida ou da morte.

Há quem diga até que os sinos eram indiscretos e que, muitas vezes, em lugar de palavras de oração, contavam sem querer o que ia nos conventos, e por eles se vinha a saber o que por lá se passava.

 Em Coimbra, contavam-me antigamente que os sinos até conversavam, e se respondiam uns aos outros.

Convento do Buçaco antes da construção do Hotel

Convento do Buçaco antes da construção do Hotel

No Bussaco, a cada hora de oração tocavam os sinos das ermidas todas dispersas pela mata e, contam crónicas, que o diabo tentara por vezes impedir que alguns frades juntassem a voz do pequeno sino das suas ermidas desertas à dos outros que em cada hora chamavam num coro baixo, com medo do vento e da chuva, à oração.

 

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Buçaco. Capela do Sepulcro

 

Em Coimbra os sinos eram de menos devoção, e deviam fazer rir muito o próprio diabo.

Quando eu cheguei a Coimbra, explicou-me um dia um velho a voz dos sinos desta terra.

Era ao pôr-do-sol. Vínhamos descendo do Penedo da Saudade para o jardim.

Mosteiro de Santa Teresa. Porta da igreja.jpg

 Mosteiro de Santa Teresa. Porta da igreja

Pela porta da igreja de Santa Teresa sumiam-se caladas mulheres de idade, com o ar remediado, que dá a limpeza devota.

Alguns estudantes passeavam no adro.

De dentro vinha o canto rezado das freiras, áspero e delgado.

O sino pôs-se a dobrar, cortando as sílabas.

- Pe … ni … tência…, pe …ni… tência! …

Assim o ouvi, mal mo disse o velho com quem ia, e que andando e sorrindo repetia imitando a voz do sino   pe … ni … tência…, pe …ni… tência! …

Quando chegamos ao fundo da ladeira, fez-me o meu companheiro notar a voz doutro sino, que vinha de longe, do convento de Santa Clara, que brilhava alegre na atmosfera dourada do poente.

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 Vista de Santa Clara. c. 1860. (Passado ao espelho, p. 50)

Pus-me a ouvir o sino, e ele a ensinar-mo a entender.

O som era mais grave, mas duma gravidade de ironia e dizia muito claramente.

- Tan … ta não! Tan.. ta não!

Eu ria-me. Quando ele me chamou a atenção para o sino de Sant’Ana, que se ouvia então e me disse:

- Veja o que diz esse agora!

- Eu sei lá!

- E bem simples: nem tanta, nem tão pouca!

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 Colégios de Tomar e de Sant’Ana. No primeiro plano a residência do prior-mor de Santa Cruz e, por cima, os Arcos do Jardim. Junto destes o pequeno Bairro de S. Sebastião. (Fototeca BMC. Cota: BMC_A033)

E era verdade. O sino de Sant’Ana, dizia num som delgado, com voz de nariz:

- Nem … tan … ta … nem … tão … pouca! Nem … tan … ta … nem … tão … pouca!

Assim fiquei eu sabendo que quando, às horas de oração o sino de Santa Tereza dizia:

- Penitência, penitência!...

O de Santa Clara lhe respondia:

- Tanta não! Tanta não.

E o de Sant’Ana fechava conceituosamente o coro, repetindo:

- Nem tanta! Nem tão pouca.

E assim fazia eu ideia, do que devia ser a vida destes conventos.

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 Pátio da Universidade e torre. 1869. (Passado ao espelho, p. 55)

Dos da Universidade, tão austeros canta João de Deus:

Toca o capelo, vou vê-lo

E vejo de vária cor

Não doutores de capelo

Mas capelos de doutor.

Esses também a mim me enganaram.

T.C.

Carvalho, J.M.T. Bric-à-Brac. In. Resistência, de 1903.01.29

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por Rodrigues Costa às 10:03


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