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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 02.04.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 2

A notícia da nova tentativa de criar uma unidade de lanifícios no antigo convento de Sâo Francisco da Ponte foi divulgada com regozijo pelo periódico «O Conimbricense», no dia 17 de março de 1888, invocando a oportunidade criada pela junção de «tres activos e habeis industriaes, todos de Sadadell, provincia de Catalunha, no visinho reino».
… A escritura de constituição da sociedade de comércio e indústria Peig, Planas & C.ª foi lavrada, em 24 de julho de 1888 … apresentando como finalidade «a fiação e manufactura de toda a espécie de tecidos de lã e estambre no edifício de São Francisco da Ponte».
... O período de montagem da estrutura fabril iniciou-se logo em abril de 1888, com a vinda de máquinas a vapor, caldeiras e teares mecânicos do estrangeiro, que, depois de montados nas salas do antigo complexo conventual, foram alvo de um período de testes para aferir o seu correto funcionamento, Finalmente, no dia 7 de dezembro, o periódico O Conimbricense anuncia «que se acha em plena laboração a fabrica de lanificios dos srs. Peig, Planas & C.ª, no edifício de S. Francisco além, da ponte. Estão trabalhando os differentes teares, fiações e cardas, e em geral todos os machinismos. Ainda bem que vemos em Coimbra a funccionar uma importante fabrica de lanificios, que pode vir a ser um forte incentivo para a creação de outras».

8-Excursao-FLSC-ao-Porto-usm-med-min[1].jpgPessoal da Fábrica em visita à Exposição Têxtil, no Porto. Fotografia de Lara Seixo Rodrigues, acedido em https://www.acabra.pt/2019/03/convento-sao-francisco-aborda-memorias-a-cores/

… Na aproximação da data comemorativa dos 50 anos de atividade (1938), os responsáveis pela empresa relembraram, em comunicado, a odisseia percorrida até então, enaltecendo a papel fundamental daqueles que nela labutaram e, em particular, as diligências iniciais dos sócios fundadores: «Se atendermos à vida difícil que têm atravessado as realizações industriaes portuguesas, particularmente nos lanifícios, o cincoentenário da Fábrica de Coimbra representa uma invulgar afirmação do valor conjunto dos seus dirigentes e dirigidos, pois todos se esforçaram atravez dos anos nem sempre fáceis e das circunstâncias quasi nunca propícias, por elevar sem descanso o progresso e o prestígio deste estabelecimento fabril».
… As mortes de Jaime Castanhinha Dória, em 9 de junho de 1956 e, no ano seguinte, de Vitorino Planas Dória (30 de junho) provocaram alterações significativas na direção da unidade fabril, a que se juntou o afastamento total de Luís Elias Casanovas, por já antever as dificuldades que o futuro dos lanifícios em Portugal, e da fábrica de Santa Clara em particular, teria com a emergência das unidades de confeção e do pronto-a-vestir. Entre saídas e decessos, podemos afirmar que se fechou um ciclo na gerência do estabelecimento fabril. Os novos tempos trarão novos donos, selecionados, uma vez mais, no seio familiar.

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios.jpg

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios em Santa Clara. Finais da década de 70 do século. Fotografia do arquivo particular de Pedro Planas Meunier, acedida, em https://www.publico.pt/2019/07/08/local/noticia/ascensao-queda-fabrica-coimbra-1878945

… Após o período fatídico de sucessivos falecimentos, a sociedade concentrou-se nas mãos dos herdeiros de Vitorino Planas Dória, dividindo-se pelas suas filhas Maria Irene Dória de Aguiar Planas Leitão, Maria Emília Dória de Aguiar Planas Raposo e Maria Vitorino Dória de Aguiar Planas Meunier, casada com o engenheiro George Greenwood Meunier (1926-1996). Este último tomará o comando da gestão da unidade fabril e, a 14 de dezembro de 1962, ascendeu ao estatuto de sócio a partir da compra das quota-partes pertencentes às irmãs da sua esposa.

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed. Pg. 37-59

 

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por Rodrigues Costa às 11:07

Terça-feira, 31.03.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 1

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aér

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aérea das instalações

A Fábrica de Lanifícios de Santa Clara apresenta-se como referência máxima do sector têxtil num polo citadino [de Coimbra) sem grandes tradições no referido do ramo, cujo período anterior à firma em evidência se pautou sobretudo, pelo amadorismo das confeções caseiras dos teares manuais e por tentativas de organização de módulos de produção de tecidos dos que não vingaram no tempo.

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidad

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidade

Neste último aspeto, atenda-se, como exemplo, à fábrica de tecidos da Rua de João Cabreira, fundada nos finais da centúria de Setecentos pelos empresários Manuel Fernandes e Guimarães, Manuel Fernandes da Costa e António Machado Pinto, ficando famosa pelos seus damascos «que se tornaram notáveis pelo gosto dos seus lavores e pelo ouro que entrava em muitos», segundo a apreciação do jornalista conimbricense Joaquim Martins de Carvalho.
Os mesmos negociantes fundaram, na cidade, outra unidade de produção de tecidos de algodão em vistosas instalações, uma vez que os relatos asseveram a existência na loja de materiais nobres como o bronze, o aço e madeiras do Brasil. O fornecimento da matéria-prima (fio de algodão) proveio de uma fábrica Tomar; de onde, igualmente, chegaram, para ocuparem um lugar no corpo de funcionários, Bernardo Ferreira de Brito, Paulo José da Silva Neves e Pedro Espingardeiro, epitetados de “habeis artistas”. Em termos de equipamento para produção, o citado espaço deteve 12 teares, cada um com 100 fusos, resultando num tecido de boa qualidade, «não obstante o motor ser de trabalho manual, e por isso sem a regularidade precisa; mas tudo venceu o machinista com a sua rara habilidade».
As causas subjacentes ao definhamentoe respetivo fecho dos dois espaços remetem-se para o roubo de uma porção significativa de fazenda por parte de um familiar dos sócios, bem como a instabilidade proveniente das invasões francesas e a abertura do mercado português aos produtos provindos da Inglaterra, numa consequência evidente do Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810.
Invoque-se, de igual modo, a importância da tentativa de implantação, já em 1875, da Fábrica de Fiação e Tecidos de Coimbra, uma vez que o objeto do presente estudo irá aproveitar as bases materiais deixadas por uma firma que não conseguiu estabelecer-se de modo definitivo e cujo projeto não deixou de espelhar um ímpeto de grandeza que trouxe em si o gérmen da própria derrocada. Se os primeiros tempos nos parecem auspiciosos, dada a grande procura na subscrição do capital social fixado em 150 000$000 réis – divididos em 1500 ações de 10$000 réis cada uma –, o conhecimento, por parte da opinião pública, dos detalhes da compra do convento de São Francisco da Ponte pela quantia, por muitos considerada exorbitante, de 30 000$000 réis, gerou a fuga do investimento inicial através da desistência de muitos dos subscritores.

Um «valente canudo».jpg

«valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade»

Apesar do citado revés, os membros da direção deram continuidade ao projeto, a partir da transformação do complexo conventual em unidade fabril, acrescentando ao edifício uma chaminé industrial, descrita pelo periódico A Voz do Artista como um «valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade».

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed.Pg. 27-29

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por Rodrigues Costa às 11:55

Terça-feira, 17.03.20

Coimbra: Uma História da Vida Académica

Da autoria de José Paulo Soares foi recentemente publicada a 2.ª edição, revista e corrigida, da obra Uma História da Vida Académica.

Capa.jpgCapa de Uma História da Vida Académica

Trata-se de um trabalho profusamente ilustrado e, da contracapa, extraímos o seguinte texto:

José Paulo dos Santos Soares é natural de Alcains (Castelo Branco) onde nasceu em 10 de março de 1936. Frequentou o Liceu Nuno Álvares em Castelo Branco, fim do qual se candidatou à farmácia em Lisboa, tendo depois pedido a transferência para Coimbra, onde chegou em 1955.

P. 25.jpg

Eis a “minha” primeira Tuna para onde entrei em Outubro de 1955.
In: Uma História da Vida Académica, pg. 25

P. 26.jpg

Ainda nesse ano fiz a minha inscrição nas Danças Regionais.
In: Uma História da Vida Académica, pg. 26

Integrou a Tuna Académica da Universidade e foi cofundador do grupo universitário de Danças Regionais, tendo sido elemento da ”República Klynic da Alta” (Não oficializada).

O livro traça as memórias da intensa vida académica do Autor. Passa pelas da sua permanência em Coimbra como estudante e também pelas rememorações das peripécias acontecidas a bordo do paquete “Vera Cruz”, aquando do Périplo de África, realizado em 1963, pela Tuna Académica da Universidade de Coimbra.

p. 127.jpg

Itinerário do Périplo de África
In: Uma História da Vida Académica, pg. 127

p. 155.jpg

Desembarque em Luanda
In: Uma História da Vida Académica, pg. 155

Explica o Autor a razão de ser deste livro.
Um dos meus netos entrou para a Universidade e eu, sem querer, senti-me velho! Já tenho um neto “Caloiro”! Então pensei em reviver nele, toda a minha juventude académica. Vida que ele vai iniciar e da qual lhe vou dar algumas “dicas”, do que foi a minha “passagem” pelos bancos da nossa vetusta e sempre querida Universidade de Coimbra.
Desiluda-se, contudo, quem pensar encontrar uma obra literária sobre assuntos académicos. Este “livro” não pretende, de modo algum, ser um documento que possa querer interpretar-se como uma verdade absoluta sobre, Praxe, Queima das Fitas, Latadas, ou quaisquer outras atividades académicas do meu tempo (e não só). Pretende, tão somente, lembrar a minha vida em Coimbra na década de 50, como entrei na Universidade de Coimbra, na Tuna, e principalmente a minha vivência na Tuna Académica da Universidade de Coimbra, no Grupo Universitário de Danças Regionais e na República “Klynica da Alta”.

Livro que se lê com muito agrado e que vai muito além do objetivo atrás referido.

Soares, J.P. 2018. Uma história de vida académica. Coimbra, Edição de Autor.

 

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por Rodrigues Costa às 11:00

Terça-feira, 25.02.20

Coimbra: Antigos caminhos e pequenos bairros a nascente da Cidade

Com esta entrada iniciamos a divulgação de alguns artigos publicados por Nogueira Gonçalves entre 1921 e 1991, principalmente em jornais. Este texto, um dos que mais nos tocou, integra a obra recentemente editada pela Câmara Municipal de Coimbra, intitulada “A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas”, que teve a coordenação de Regina Anacleto e de Nelson Correia Borges.
É nossa intenção voltar, uma e mais vezes, a este livro de grande valor histórico, escrito de uma forma admirável pela sua beleza e singeleza.

Nada mais natural pensar que a antiga estrada da Beira até á Portela tenha seguido um traçado que a atual decalca; o próprio terreno parece indicar esse lógico trajeto; e, todavia, não se deu isso.
Deixaremos para outra vez o caminho da rua da Alegria, Arregaça, seguindo para Marrocos, o caminho da via longa como outrora se dizia.
A estrada da Beira partia não da ponte mas da parte alta, da porta do Castelo.
Sigamo-la.
Passada a porta da fortaleza tinha-se logo abaixo ao lado direito o caminho que permitia voltar á cidade pela porta da Traição; à esquerda a estrada de Entremuros que levaria a Fonte Nova, de onde se tomaria para a porta Nova ou rua das Figueirinhas ou ainda se cortaria a norte para o Montarroio.
Além de entrada principal da cidade travessas várias pois daí se tomavam; não faltaria a qualquer hora gente a calcorrear o ponto de separação viário.

Aqueduto de S. Sebastião. Arco principal 03.jpgNa parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Coleção Regina Anacleto

Muito naturalmente o sítio, na parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Ao lado direito, aonde vinha bater o muro da velha quinta dos crúzios, havia um, como hoje, em frente ao aqueduto. Prolongava-se mais que agora (e duma demolição recente ainda nos lembramos todos), fazendo uma correnteza de casas, tendo só encostadas aos arcos e em frente, portanto das outras umas duas ou três.
Tinha para o lado da Penitenciária a modesta capela de S. Martinho, e em ponto levemente anterior o oratório do Santo Cristo das Maleitas, transformação dum cruzeiro de caminho.
Era este o fatal bairro popular que precedia a entrada das cidades fortificadas. Tabernas, pequenos negócios, gente sem eira nem beira, vivendo em tugúrios e pronta a qualquer serviço humilde, a alombar todos os carregos, a encarregar-se de qualquer recado, tudo isso aí ficaria.
Sigamos o caminho, passando sob o arco principal, pois que a topografia foi modificada com o muro do jardim botânico. Era aqui o ladeirento e pequeno campo de Santa Ana, com o chafariz, donde seguia o caminho de Celas e cortava o da Beira para o novo bairrozinho, o de S. José, tirando o nome do colégio conventual de S. José dos Marianos (hospital militar).
Logo na esquina, tal como hoje, lá esperaria sem sombra de dúvida outra taberna aos que vinham da cidade e aos que cansara a ladeira que nós iremos descer.
Paremos e deixemos que os nossos olhos repousem a despedir-se das duas casas que as demolições deixaram em pé por uns breves dias.
Uma das coisas mais incompletas que há pelo campo das ciências é a geografia humana; em nenhum livro dos vários que dela se ocupam e que percorri (em nenhum!) encontrei este capítulo: – a taberna fulcro da fixação dos agregados populacionais. Valia a pena estudá-lo e escrevê-lo, que daria perspetivas novas a esta ciência.
A taberna atual deverá representar uma série infinda delas. Já ali beberam as tropas de Massena, para não falar em tempos mais antigos. Quantos almocreves, carreiros, gente de todo o género por ali não passou, quantos mendigos ali não trocaram uns tostõezinhos por um bom copo, compensador da miséria e do abandono, dando-lhes um verdadeiro antegosto dum céu particular!
Não há sensibilidade nesta desgraçada terra, não há amor da tradição, escusado será pedir à fria gente da Câmara para a conservar no meio dum larguito, enramada de larga parreira e com um loureiro a dar sombra. Dentro de dias o balcão esmurrado e nodoento será tirado, desaparecerá aquele soalho aonde cuspiram centenas de gerações! Exultaram os higienistas, como é de seu mau instinto, e eu entristecer-me-ei por saber que os malandros que hoje me pedem um tostãozinho não terão aonde o ir empregar sem tardança!

S. Antoninho dos porcos 1.jpgCapela de Santo Antoninho dos porcos, na sua atual localização. Coleção Regina Anacleto

S. Antoninho dos porcos 2.JPGCapela de Santo Antoninho dos porcos, interior. Coleção Regina Anacleto

Começava a descida e, à capela de Santo Antoninho dos porcos (pois que ali se fazia o mercado deles) passava o caminho pelo desvio angular que ainda ali se vê, para depois se meter pela ladeira calçada das Alpenduradas.
No fundo da descida, depois do mercado e das traseiras da fábrica, atingindo o vale, encontrava-se, como hoje, o começo do bairro do Calhabé e que se continuava esgarçadamente até perto da passagem de nível, sítio este aonde todos nós conhecemos umas casas baixas.

Calhabé 7 CF.jpgNuma destas parece que viveu o velho Calhabé. Coleção Carlos Ferrão

Numa destas parece que viveu o velho Calhabé, prazenteiro e bebedor, mas que fora homem de representação.
Já outrora ninguém pensaria que ainda fosse cidade o Calhabé, bem ao contrário do que os justos fados talharam e que começa a realizar-se: o Calhabé ser a cidade e Coimbra um pobre bairro do mesmo Calhabé!
Podia-se descansar um pouco que uma nova ladeira esperava o caminhante. Lentamente subia-se á Portela da Cobiça.

Portela da Cobiça.JPGPortela da Cobiça. O que resta, no seu estado original, do percurso descrito

Lançado um último olhar à cidade afastada, transposto o colo, caminhava-se pelo vale transverso até ao rio, que depois se ia acompanhando para cima das Torres.

Barc do Concelho.JPGLocal onde funcionava a “barca do Concelho”

Em frente aos Palheiros esperava-se que a barca do concelho viesse da outra margem e nos transportasse.
A cidade, aonde ficava ela!
Não vale a pena continuar só pela esperança de a tornar a ver do alto do monte, vencida a longa e áspera ladeira.
Lá seguiriam os viandantes, pelo cume, até Carvalho. Por Poiares, Almas da Serra, (S. Pedro Dias) iriam cair na Ponte de Mucela, aonde buscariam agasalho conforme a sua bolsa.
A serra máxima, a da Estrela do pastor, esperava-os. Quantas horas não levariam, moídos do mau piso e da distância! Tudo isso tão longínquo, não é verdade? E, todavia, para a gente da minha infância e um pouco mais velha, com a melhoria das diligências e da estrada a macadame, quão próximo e compreensivo, que os tempos anteriores se poderiam fazer surgir sem espanto; como tudo está longe, porém desta gente que já foi embalada num bom automóvel!
«Diário de Coimbra», 1952.12.25.

Gonçalves, A. N. 2019. António Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas. Coordenação de Regina Anacleto e Nelson Correia Borges. Prefácio de José de Encarnação. Coimbra, Câmara Municipal. Volume II, pg. 498-500

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por Rodrigues Costa às 10:02

Quinta-feira, 30.01.20

Coimbra: Nogueira Gonçalves coletânea de artigos

Será apresentado no próximo dia 6 de fevereiro, às 17h00, na Casa Municipal da Cultura, sala Francisco de Sá de Miranda, o livro A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas.

Capa do livro.jpg

A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas, capa

A obra, editada pela Câmara Municipal de Coimbra, é constituída por 1148 páginas que se dividem por 2 volumes e incluem, no final, os índices onomástico e toponímico que, obviamente, se revelam de enorme utilidade. Reúne os textos que o Padre Nogueira Gonçalves foi inserindo, ao longo da sua vida, em publicações periódicas, não propriamente de índole científica, mas onde procurava transmitir ao cidadão comum, através de palavras simples e de frases bem buriladas, o seu muito saber. Todo este material, que se encontra disperso e, na maior parte das vezes, é de difícil acesso, passa a estar reunido numa única fonte.
Deve-se aos seus discípulos Doutores Regina Anacleto e Nelson Correia Borges a árdua tarefa de terem procurado e agrupado esses numerosos textos.
O índice dos dois volumes, que aqui reproduzimos, é elucidativo.

Índice do livro.jpg

Índice da obra

Lembro-me bem da sua figura de homem alto e austero, a caminhar lentamente pela Cidade, de olhos atentos a tudo o que via.

A. Nogueira Gonçalves.jpg

P.e António Nogueira Gonçalves

Conhecendo parte dos escritos ora reunidos – que iremos divulgando neste blogue – não tenho qualquer dúvida em afirmar que se trata de uma obra que irá ser de consulta obrigatória para todos quantos se interessam e dedicam à história de Coimbra e da Região onde a nossa Cidade se insere.
Deve ainda salientar-se a qualidade estética dos textos, dos quais ressalta a paixão pelos temas tratados e o imenso saber de quem os escreveu.

Rodrigues Costa

Notas biográficas;

António Nogueira Gonçalves deixou uma profunda marca na historiografia da arte portuguesa, uma vez que iniciou caminhos nunca antes trilhados e que se vieram a tornar credibilizadores desta área do conhecimento.
Nasceu a 22 de dezembro de 1901 na Sorgaçosa, pequena aldeia escondida nas pregas da serra do Açor, bem perto da mata da Margaraça, concelho de Arganil… Ordenado presbítero a 26 de julho de 1925.
A “res artística” desde muito cedo o atraiu e, apenas com 19 anos, em setembro de 1921, publica no jornal A Comarca de Arganil, um texto onde dá a conhecer a existência, na igreja de Pomares, de um arco românico.
… A dimensão científica que o virá a projetar no tempo, absolutamente pioneira quando, nessa década de 30, desenhou os seus primeiros passos, prosseguirá quase até ao final da vida e manter-se-á, em muitos domínios, inultrapassada.
… A sua multifacetada erudição permitiu-lhe abranger vastas áreas: da Epigrafia à Pintura, da Heráldica à Arquitetura, da Paleografia à Escultura, passando pela Ourivesaria, pela Cerâmica, pelos Tecidos, etc.
Autor de uma vasta obra da qual se releva os “Inventários Artísticos da Cidade de Coimbra” (1947) e do “Distrito de Coimbra” (1952), inicialmente entregues a Vergílio Correia, mas que este mal teve tempo de começar e nos três volumes do “Inventário Artístico” dedicados ao “Distrito de Aveiro” (1959, 1981 e 1991), já da sua inteira responsabilidade.
… Foi nomeado conservador do Museu Machado de Castro em 1942, e depois da morte de Vergílio Correia assumiu a sua direção.
… Em 1968, a Universidade de Coimbra convidou-o para lecionar, na Faculdade de Letras, as disciplinas de História da Arte. Aí se manteve, até à jubilação, ocorrida no ano de 1976, ultrapassado que era o limite de idade.
… A Universidade de Coimbra concedeu-lhe o grau de “Doctor honoris causa” pela Faculdade de Letras em dezembro de 1979.
A Academia Nacional de Belas Artes, por seu turno, elevou-o à categoria de Académico de Honra e, posteriormente, agraciou-o, em 1991, com a Medalha de Mérito de Belas Artes, classe de ouro.
Anos depois, em 1983, a Câmara Municipal de Coimbra, terra que adotara como sua, numa homenagem merecida, atribuiu-lhe a medalha de ouro da cidade e o título de cidadão honorário.
A edilidade arganilense, considerando-o «uma personalidade multímoda, de saber diversificado e profundo», orgulhosa por o poder contar entre as suas gentes, numa sessão solene realizada a 6 de setembro de 1992, no salão nobre dos Paços do Concelho, condecorou-o com a medalha de ouro da municipalidade.
Homem «de um só parecer, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer», como diria Sá de Miranda, faleceu na sua Sorgaçosa natal a 25 de Abril de 1998.

In: A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas. Nota biográfica. 2019. Coimbra, Câmara Muncipal, pg. 11-13.

 

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por Rodrigues Costa às 10:11

Terça-feira, 28.01.20

Coimbra: Rua das Covas 2

(As minhas) Memórias da Rua das Covas (continuação)

Rua das Covas, vista do telhado da minha casa.jpg

Rua das Covas, telhados

Toda a rua era um fervilhar de vida, um ovo de humanas esperanças e ambições.
Recordo o Sr. Edmundo, sapateiro, o Sr. Joaquim, da mercearia, onde eu ia buscar um litro de vinho por oitenta centavos, a numerosa família Damasceno, a senhora que morava no rés-do-chão, quase em frente da porta principal do prédio, sempre sorridente, com alcunha famosa que galgou fronteiras, muitos outros a quem me falece a memória. Por fim, o Sr. António Calmeirão, afamado mandador de Fogueiras, na sua oficina de sapateiro, onde dominava, solene, o seu retrato vestido de lente de Direito.

Calmeirão de borla e capelo.jpg

Calmeirão de borla e capelo

Recordo a comoção que a todos atingiu, quando um vizinho morreu, de doença incurável!
Essa rua era Coimbra, com as suas gentes, os seus estudantes, pois não poucos prescindiam dos seus espaços para os alugar aos senhores doutores, que já eram antes de o ser! Aos conimbricenses de gema, aos salatinas, se mesclavam forasteiros como eu, comungando da mesma cultura, como a Lurdes, de Vila Seca e o seu gato Barbaças, a Carlota, das Lajes, sempre com uma cantiga na boca, a D. Isaura, de Maiorca, ou a D. Adelaide, da Régua, frequentadoras de tudo quanto era cerimónia na Sé Nova.

Aquelas casas singelas, ou mais arranjadinhas, tinham majestade, pareciam amplificar a vitalidade de todos esses moradores, empurrando pelas janelas adentro o pregão de gente que fazia pela vida:
- Sardinha d'areeeia!
- Meeerc'a mim carqueja!
- Há p'r'ai quem tenha peles, farrapos ou ferro velho pra vender??!!
- Areia fiiina!
- Merca hortaliça!
Aos domingos à tarde era a tremoceira, no seu andar remexido: - Ó meninas! Tramoceira! ...
A Lurdes era das pessoas mais reinadias lá do prédio. Mal a tremoceira vinha pela rua acima, bradava ela da janela: - Ó Guilherme! E a tremoceira, julgando ouvir: - Ó mulher! Gritava lá de baixo: - Lá vou freguesa! Passou-se isto por diversas vezes, até a pobre da vendedora se aperceber da brincadeira.
Aos domingos à tarde... era também a ansiosa expectativa de ir à matiné ao Sousa Bastos ou por vezes ao Avenida, acompanhados pelo entretém da pevide suiça.

Rua das Covas, casas austeras.jpg

Rua das Covas, casas austeras

Rua estreitinha, de casas austeras, quinhentistas e seiscentistas, na sua maioria, com janelas de avental, sem brasões nem arrebiques, a atestar o fluir da História, as vidas que se sucedem. Mas havia, claro, a dos números 17-21, a mais notável, com bossagens rusticadas maneiristas, na moldura das portas e janelas. Em tempos albergou uma tipografia e a fachada fora enobrecida com o medalhão ruanesco da Fortuna, levado para o Museu. É pena que não se faça uma reprodução para voltar ao lugar que ocupou durante séculos.
Um pouco mais acima, entroncava o Beco das Condeixeiras, entre altos muros e poucas casas, com buganvílias e parreiras debruçadas, roupa estendida a enxugar, um recanto rural no meio da cidade, mais familiar para mim do que a imensa mole do Museu Machado de Castro, que dominava toda a parte alta da rua.
O Beco das Condeixeiras era o limite do grande quintal, pertencente à casa onde morei, e comunicava com o cimo da Rua do Cabido. Por porta aberta no muro das traseiras também se fazia o mesmo acesso, de forma fácil. Por lá passava eu, para ir à missa a S. Salvador, ou acompanhar a D. Adelaide, quando ia zelar o Senhor dos Passos dessa igreja e às novenas do Menino Jesus, na Sé Nova. Mesmo em frente dessa porta do quintal morava a D. Piedade, melhor, a Menina Piedade, que recordo sempre na elegância do seu negro vestir: sapato de camurça, meia de seda, saia travada, xaile de merino de oito pontas, pelos ombros, a preceito, e lenço seguro na nuca com fitinha de veludo que lhe envolvia e pescoço, o vicente. Parecia uma figura da Renascença!
Na casa onde vivi, o quarenta e três, tudo me parecia enorme: a escadaria, os sombrios corredores, o tecto alto dos quartos. Em todos os recantos havia uma aura de mistério, a que se vinha juntar o ruído cavo dos trabalhos de remoção do entulho nas galerias do criptopórtico romano.
Certo dia, os meus pais decidiram mudar para Montarroio, mas, para mim, a Rua das Covas ficou sempre o meu berço coimbrão. Muitas vezes lá passei, mais tarde, discretamente, a matar saudades, a assistir preocupado à degradação do meu antigo habitat. A alegria que senti quando soube que tinha sido adquirido pelo Museu apenas tornou maior a mágoa de a ver desaparecida.
Como está diferente a Rua das Covas! Quase não há casas no lado dos ímpares!
Será sina de Coimbra ser palco de amores infelizes e vítima do camartelo, seja ele do Município, do Marquês de Pombal, do Estado Novo, ou do Estado Democrático? Poderão refazer-lhe as casas que demoliram, poderão construir-lhe cubos pós-modernistas, mas a Rua das Covas jamais voltará a ser a mesma, fraterna, de vidas em comum, perpassadas de cantigas brejeiras e de dores sentidas, de raivas e esperanças, muito humana, aconchegante, onde não tinha lugar a solidão.

Nelson Correia Borges

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por Rodrigues Costa às 19:21

Quinta-feira, 23.01.20

Coimbra: Rua das Covas 1

(As minhas) Memórias da Rua das Covas

Rua das Covas, vista do lado da Sé Velha.jpgRua das Covas, vista do lado da Sé Velha

Em 1883 a Câmara Municipal de Coimbra decidiu rebaptizá-la com o nome de Rua Borges Carneiro, em homenagem a um dos activistas da Revolução de 1820 - de seu nome próprio Manuel -, que, por volta de 1800, passara pela cidade, a licenciar-se em Cânones. E o nome lá perdura, agora em azulejos, à esquina do Largo da Sé Velha.

Rua das Covas, placa toponimica.JPG

Rua das Covas, placa toponimica

Mas não teve grande efeito a decisão dos edis citadinos, porquanto, como observa José Pinto Loureiro, para toda a gente, a declivosa via continuou sempre a manter o vetusto nome de Rua das Covas, vindo já dos tempos da formação da nacionalidade. Há quem diga que o topónimo se originou nas covas de sepultura que se abriam no adro da Sé, mesmo no fundo da rua. Mas há igualmente quem pense, talvez mais avisadamente, que as tais covas não seriam outra coisa senão as galerias do criptopórtico romano, que permaneceriam abertas para o ar livre, ou parcialmente entulhadas, nos baixos do paço episcopal.

Rua das Covas, vista do lado da Sé Nova.jpg

Rua das Covas, vista do lado da Sé Nova

Fosse como fosse, covas nas ruas nunca faltaram em Coimbra, e certo é que a Rua das Covas sempre foi de capital importância na mobilidade de pessoas e coisas entre a Baixa e a Alta que Deus Haja, em eixo natural concertado com o Quebra Costas e o Largo da Sé Velha, aproveitando a linha de água entre a colina do Paço e a do Salvador.
Muitas são as memórias que pairam em seu redor e, por certo, serei eu a pessoa menos indicada para delas falar.

Rua das Covas, casa demolida.jpg

Casa onde vivi, demolida com as obras de ampliação do Museu

Para o miúdo tímido de finais dos anos 1940, que era eu, vindo de uma casa de aldeia, de loja e sobrado, para morar num terceiro andar, acima dos beirados, tudo parecia estranho e fantástico: o enfadonho pico-pico dos alvenéis talhando a silharia da nova Faculdade de Letras; as manhãs enevoadas, com o arrulhar misterioso das pombas na Sé Velha e em S. João de Almedina; o insólito atirar de trastaria velha para a rua, na noite de fim de ano, por entre o ensurdecedor bater de testos; as agitadas quintas-feiras da Ascensão, com multidões de aperaltados camponeses a corrupiar pelas varandas do Museu Machado de Castro; os regressos do Espírito Santo, com o festivo tilintar das campainhas de barro; as espantosas festas da Senhora da Boa Morte, na Sé Nova e o seu sino temeroso; as serenatas a desoras, junto à casa fronteira que alugava quartos a meninas estudantes. Olhos e ouvidos eram ávidos de apreender todas estas novidades estranhas. Até a linguagem e a forma das coisas: - ouvir dizer boa noute, ou nomear pote a um cântaro com duas asas junto à boca, ou chamar meninas a senhoras que podiam ser minhas avós ...
Na Rua das Covas morei num prédio com andar acrescentado acima dos beirados, como outros prédios dessa rua. Da rua não eram visíveis estes andares espúrios, nem tão pouco dos mesmos se alcançava a rua, devido ao avanço dos beirados e à estreiteza da mesma: era como um mundo à parte, uma janela indiscreta, a comunicar com o vizinho da frente e donde até se podiam lançar ditos de escárnio e maldizer, pelo Entrudo, a coberto da ocultação.
Ali viviam à volta de três dezenas de famílias. Um simples quarto, dos vários dispostos em cada andar, ao longo de comprido corredor, era abrigo suficiente para solitários e casais, ou, mesmo mais pessoas.
Nelson Correia Borges (continua)

 

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por Rodrigues Costa às 11:00

Terça-feira, 21.01.20

Coimbra: República de Coimbra no Porto

Foi recentemente publicado o primeiro volume da obra Os Lysíadas. A epopeia dos Ly.S.O.S. Uma República de Coimbra no Porto, cuja leitura recomendo aos Coimbrinhas como eu.

Os Lysíadas, capa.jpgOs Lysíadas, capa

O seu Autor – o Zé Veloso – um antigo estudante de Coimbra onde integrou o conjunto que alguns de nós bem se lembram, os Alamos, é o fundador do blogue Penedo d@ Saudade – Tertúlia.

Os Lysiades 3.jpg

Os Alamos antes e agora

Numa divertida reformulação de Os Lusíadas de Luís de Camões, conta a história da migração de um conjunto de estudantes de Coimbra para o Porto e da vivência académica da Real República dos LyS.O.S. que ali fundaram.

Os Lysíadas2.jpg

Real República dos Lysos

Cada canto é completado por uma nota explicativa onde são contados factos e memórias da vida académica em Coimbra, em meados do século passado e não só.
Mas o melhor é dar palavra ao que é dito na contracapa:

Os Lysíadas 1.jpg

Os Lysíades, contracapa

Os Lysíadas conta-nos a saga de um grupo de estudantes de Coimbra que em 1959 foram concluir as suas formaturas no Porto, onde fundaram a Real República dos LyS.O.S [leia-se Lisos], segundo a tradição das Repúblicas de Coimbra.
Poema épico de fácil leitura, inspirado n’Os Lusíadas, Os Lysíades segue uma linha paralela à narrativa de Camões, adaptando os episódios mais marcantes da obra do Poeta aos temas que trata e aos tempos que retrata, de forma criativa, irreverente e bem-humorada.
Para além de colocar o leitor dentro da vida de uma República de estudantes dos anos 50 e 60 do século passado, o livro contém ainda informações preciosas sobre a história e as histórias de Coimbra, sua Universidade, sua Academia, suas gentes e suas tradições centenárias.

Veloso, José. 2019. Os Lysíadas. A epopeia dos LyS.O.S. Uma república de Coimbra no Porto. Volume I. De Coimbra ao Porto. Coimbra, Minerva Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 10:32

Quinta-feira, 16.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 3

 

Illustração Portugueza. p. 85 01.jpgIllustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 85

Do século XII, a croça do báculo de S. Bernar¬do, em cobre dourado, e o belo cálice românico que na orla da base tem a legenda: «Geda Menendiz me fecit in onorem sci michaelis e MCLXXXX»;

Cálice românico.jpgCálice românico

Do século XIV, o relicário de coral e prata, a imagem da Virgem com o Menino ao colo e a cruz de ágata, objetos que pertenceram á Rainha Santa, e todos eles marcados com as armas de Portugal e de Aragão;

Relicário de coral e prata 01. Pertenceu à RainhRelicário de coral e prata que pertenceu à Rainha Santa

Do século XV, a grandiosa cruz processional cuja reprodução acompanha estas linhas;

Cruz gótica(1).jpgCruz processional

Do século XVI, a custódia tão sumptuosamente decorativa de D. Jorge d'Almeida, uma caldeirinha de prata com o brasão do mesmo Prelado, uma riquíssima coleção de cálices, e a bacia e gomil também aqui reproduzidos em gravura; do século XVII, a grande custódia e a cruz-relicário do Bispo D. João Manuel, o relicário de Santa Comba e uma grande cruz de azeviche; finalmente, do século XVIII, o jogo de sacras em prata e lápis-lazúli.
Na secção dos paramentos, figura, em primeiro lugar, a capa da abadessa de Lorvão, com sebastos soberbamente bordados, e na das tapeçarias um pano flamengo, representando Marte o Vénus surpreendidos por Vulcano, e uma alcatifa persa, em seda, verdadeira maravilha de brilho e cor.
Referindo-se ao Tesouro da Sé, escrevia há meses o sr. Joaquim de Vasconcelos: «Quem subscreve «estas linhas teve ensejo de visitar repetidas vezes os museus capitulares de alguns dos cabidos mais ricos da Europa; pode comparar sem prevenções e julgar do valor das obras expostas por experiência própria e por algum estudo, adquirido durante longos anos de pacientes investigações; não hesita, contudo, em afirmar que o Museu de Coimbra rivaliza com os mais opulentos».
O mesmo ilustre crítico escrevera também na «Arte e Natureza em Portugal»: «A criação do Museu é um exemplo preclaro, dado aos restantes prelados portugueses, que podem e devem abrir, os tesouros das catedrais ao estudo. O senhor Bispo-Conde soube achar em Coimbra o artista erudito, competente para a difícil obra da Sé Velha. Temos fé que encontrará, sem sair de Coimbra, o arqueólogo sagaz e bem informado, que deve inventariar num índice impresso, luminoso, manuseável o barato as incomparáveis riquezas do museu diocesano».

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

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por Rodrigues Costa às 09:48

Quinta-feira, 09.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 2

Illustração Portugueza. p. 86 01.jpg

Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 86

A primitiva instalação constava apenas de duas salas: na primeira, estavam as tapeçarias e os paramentos; na segunda, as peças de ouro e prata.

Capa da Abadessa de Lorvão.jpg

Capa da Abadessa de Lorvão

No entanto os últimos conventos iam acabando, e, à proporção que acabavam, ia a coleção crescendo. Não sem o obstáculo de alguns respeitáveis pedregulhos, cuja remoção não foi das mais fáceis, de Lorvão, de Semide, de Santa Clara, de Tentúgal e de Vila Pouca vinha correndo para o Tesouro da Sé uma rutilante enxurrada de alfaias preciosas, relicários, cibórios, turíbulos, cálices, gomis, frontais e dalmáticas, numa estranha confusão em que o ouro, a prata, as pedrarias e os esmaltes se misturavam com o veludo, a seda, a tartaruga, o coral e a malaquite.

Exposição de vários objetos religiosos.jpg

Exposição de vários objetos religiosos

A acumulação tornara-se excessiva. Ousadamen¬te, se rasgou en¬tão uma ampla galeria contigua às duas salas, e ao longo dela se dispuseram, em vitrines, os objetos mais preciosos. Entro estes, alguns há que lu¬ziriam como estrelas de primeira grandeza nos mais ricos museus do estrangeiro. Dadas as di¬mensões naturalmente estabelecidas para este ar¬tigo, apenas mencionarei as peças mais notáveis pe¬la beleza e pelo valor histórico.

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

 

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por Rodrigues Costa às 09:26


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