Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 13.04.21

Coimbra: Comedia Sobre a Devisa da Cidade de Coimbra 1

A Comedia Sobre a Devisa da Cidade de Coimbra foi escrita em 1527 por ocasião da estada em Coimbra do rei D. João III e sua corte.

Capa do livro segundo.jpg

Livro Segundo que he das comédias … Compilação de 1562

Página da Comédia. p. 226.jpg

Livro Segundo que he das comédias … Compilação de 1562, pg. 226

Sobre o assunto da mesma é referido pelo próprio Gil Vicente que é uma comédia onde “(…) se trata o que deve significar aquela princesa, leão e serpentes e cales ou fonte que tem por devisa (…)”, ou seja, é o desiderato do autor aventar uma leitura simbólica do brasão-de-armas da citada cidade, aborda ainda “(…) o nome do rio e outras antiguidades (…)”, sobre as quais se afirma perentoriamente que “(…) nam é sabido verdadeiramente seu origem (…)”. Refere que esta “divisa” não seria de criação recente uma vez que informa claramente que esta viria “(…) já d’anteguidade.” O que não será verdade já que as armas que Gil Vicente analisa não são as primeiras usadas pela cidade, mas que apenas terão sido utilizadas a partir do século XIV.

Não é de Gil Vicente a primeira proposta de análise simbólica. A mais antiga que se conhece pode ser encontrada na obra de Rui de Pina «Chronica de El-Rey D. Affonso V», onde aquele coloca na fala do infante D. Henrique uma proposta de leitura que corresponde a uma alegoria à governação do regente infante D. Pedro, na menoridade de D. Afonso V, relativa às relações entre Castela e Portugal, que considera simbolizada no Leão das armas de Castela e na Serpe do timbre de Portugal.

… A peça raramente foi representada. Nos últimos anos, sabe-se que foi levada à cena em Coimbra, pela companhia Escola da Noite em 1993-4, tendo este espetáculo sido reposto em 2004…. A ultima vez que ocorreu ser levada ao palco foi em 2010, sob a designação de Divisa na Escola Superior de Teatro e Cinema como exercício do 2.º ano do curso de Teatro.

I - DAS ARMAS DA CIDADE DE COIMBRA

Uma das mais antigas representações que se conhece do escudo-de-armas da cidade de Coimbra encontra-se no arco do Almedina nesta urbe. Atendendo a que fazem parte de um bloco onde está também figurado o escudo de Portugal, as características deste último permitem datar, o primeiro.

Figura 1 — Pedra esculpida com o escudo de Portu

Figura 1 — Pedra esculpida com o escudo de Portugal e de Coimbra implantada no Arco de Almedina, Coimbra. Fotografia de Nuno Oliveira

Ao contrário do que é afirmado por Mário Nunes: "(...) brasão nacional com bordadura de quatorze castelos, trabalho manuelino", este é claramente anterior o que pode ser confirmado pelo facto de os escudetes estarem ainda apontados ao centro.

A partir do reinado de D. João I o escudo nacional passou a incluir as pontas da cruz da Ordem Militar de Avis, o que só deixou de suceder no tempo de D. João II, altura em que também os escudetes laterais deixaram de estar apontados ao centro e ficaram pendentes, à semelhança dos outros. Assim, acredita-se que a cidade de Coimbra, pelo menos no final da primeira dinastia, já estivesse a usar armas com o campo muito semelhante ao atual.

Paralelamente e ainda segundo Mário Nunes, a introdução no campo do escudo das figuras do leão e do dragão ter-se-á dado no decurso do século XV e quando D. Manuel I conferiu o foral novo àquela cidade, o brasão já estaria "(...) alindado com esses ornamentos." Os escudos que encontramos no Arco de Almedina são efetivamente os mesmos que figuram, embora com alterações cromáticas e um desenho mais naturalista, na iluminura do rosto do foral.

Figura 2 — Detalhe do rosto do Foral de Coimbra,

Figura 2 — Detalhe do rosto do Foral de Coimbra, 1516.

Alexandre, P.M. Uma patranha heráldico-genealógica de Gil Vicente: «A comedia sobre a devisa da cidade de coimbra» e o brasão-de-armas de Coimbra. In: Alicerces. Revista de Investigação, Ciência Tecnologia e Arte. Ano VI, n.º 6. 2016, julho. Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa. Pg. 65-88. Acedido em https://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/8644/1/revista_alicerces6_2016_pv.pdf.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:29

Quinta-feira, 08.04.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 14

Da Estrada dos Jesuítas à Rua Abílio Roque

 Em junho de 1910, António Heitor, Chefe da Repartição das Obras Municipais e condutor, assinava um desenho com o loteamento da “rua n.º 2” da Sá da Bandeira e da que se desenvolvia pegada ao muro da Cerca dos Jesuítas; ou seja da via ascendente da Avenida e da Abílio Roque (atual Padre António Vieira).

Fig. 18. Loteamento Sá da Bandeira e Abílio Roqu

Fig. 18 – Loteamento Sá da Bandeira e Abílio Roque. [AHMC. Repartição de obras municipais. Pasta 18. B-14].

Penso poder afirmar que este desenho, para além de apontar os lotes ainda disponíveis, serviu para confirmar a delimitação de parcelamentos preexistentes, dado que, em data anterior à apresentação do plano, já ali haviam sido construídos edifícios.

Mas a edilidade não se queda por aí e pensa abrir, quiçá em data mais ou menos simultânea ao loteamento apresentado por Heitor para os dois arruamentos, uma via destinada a unir a Abílio Roque à Praça de República. Como este projeto não se encontra nem datado nem assinado aponto para uma data posterior a 1910 dado que o Largo D. Luís já se transmutara em Praça da República, o que aconteceu apenas depois da queda da monarquia.

Fig. 19. Projeto para ligação da Rua Abílio Roq

Fig. 19 – Projeto para ligação da Rua Abílio Roque com a Praça da Republica. [AHMC. Repartição de obras municipais. Posto de desinfestação e outros. Pasta 18. B-14].

 Esta rua, projetada e nunca concretizada, iniciar-se-ia no local onde a Abílio Roque confluía com a Rua de Entre Muros, estender-se-ia nas traseiras do espaço onde funcionou o “Ninho dos Pequenitos”, integrado na obra assistencial do dr. Bissaia Barreto, e desembocava no início da Oliveira Matos, justamente na esquina fronteira à casa que João Francisco dos Santos construíra, nos finais do século XIX, na Praça da República.

Nas traseiras do espaço onde funcionou o Ninho do

Nas traseiras do espaço onde funcionou o “Ninho dos Pequenitos”.

O novo bairro e toda a zona envolvente ia-se pontuando com edifícios e a 29 de outubro de 1914, Joaquim Fernandes dos Santos submete à aprovação camarária um novo projeto (o primeiro fora rejeitado com base na simplicidade das fachadas), a fim de construir quatro casas nos lotes que havia comprado ao cimo da Abílio Roque. Curiosamente, o desenho apresentado mostra seis fachadas e não quatro. Esses edifícios foram construídos e até ao terceiro quartel do século XX mantiveram-se, tendo sido, mais ou menos nessa época, paulatinamente substituídos por prédios mais modernos e funcionais.

Outro tanto não aconteceu com a moradia que se ergue quase no início da rua, logo a seguir à curva e que ainda se mantém de pé. É verdade que a sua construção foi muito mais tardia, pois a 03 de junho de 1940 Albino Pereira da Costa fez dar entrada na devida repartição da edilidade o pedido de autorização para a construção de um edifício que ocuparia os lotes n.os 6 e 7 da referida artéria; esses lotes haviam sido comprados a Joaquim da Costa Neto que os adquirira em 1928.

Fig. 20. Moradia de Albino Pereira da Costa. [Foto

Fig. 20 – Moradia de Albino Pereira da Costa. [Foto RA].

 O requerimento, devidamente instruído, integrava o projeto do imóvel, a inserir-se, como se compreende numa outra linguagem arquitetónica e assinado pelo arquiteto Edmundo Tavares (1892-1983).

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 15:08

Terça-feira, 06.04.21

Coimbra: Evolução do Brasão do Concelho 4

Ainda como elementos interessantes para as armas de Coimbra, venho dizer que a pág. 74 da II parte da Crônica da Ordem dos Cónegos Regrantes do Patriarca S. Agostinho, de D. Nicolau de S. Maria, Lisboa, 1668, vem a descrição de uma procissão que da Sé de Coimbra seguia com relíquias de santos para o Mosteiro de Santa Cruz da mesma cidade, em 29 de outubro de 1595, onde existe um período, a pág. 78, que interessa às armas de Coimbra, que é o seguinte:

 «Neste dia estauão já aparelhadas diuersas estancias pellas ruas por onde hauia de passar a procissão das Santas Reliquias, & as ruas todas armadas, & juncadas de flores, &. eruas cheirosas, mas por nâo sermos compridos nesta relação, faremos só menção da primeira estancla, que pera receber tam precioso thezouro se offerecia no principio da rua junto á Sé. Estaua esta estancia ornada com dous arcos vestidos de varias sedas, semeadas com varios frutos de cera muito ao natural, no meio dos arcos estaua hua fermosa Dama posta no theatro de joelhos entre Serpe & Leão, com as mãos ao Ceo leuantadas, que representaua a nobre, &. sempre leal Cidade de Coimbra, em cujas mãos fazia Deos a entrega real de tam grande thesouro de Relíquias & estaua de joelhos, & com as mãos leuantadas, como dando as graças ao mesmo Deos, & Senhor, por tam alta mercê, & beneficio.»

 Nota – No intervalo que vai de 18 de maio de 1932, em que escrevi estes elementos foram apresentados, até agora, mais uma conjetura se me formou no espirito sobre a entrada do leão e do dragão nas armas de Coimbra.

Como foi em Coimbra que teve base uma nova orientação da política portuguesa, no momento em que naquela histórica cidade foi aclamado D. João I, não daria este facto notável da História de Portugal motivo a colocar nas respetivas armas, como que amparando e, portanto, protegendo a figura simbólica da cidade, os timbres das armas de D. João I (o dragão) e da Rainha D. Filipa de Lencastre (o leão)?

MNAA. D. João I. Autor anónimo.jpg

MNAA. D. João I. Autor anónimo. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Cortes_de_Coimbra_de_1385

D. .João I, eleito rei de Portugal nas segundas C

D. João I, eleito rei de Portugal nas segundas Cortes de Coimbra. Acedido em https://www.infopedia.pt/$cortes-de-coimbra

Brasão de D. Filipa d Lancastre.jpg

Brasão de D. Filipa de LancastreAcedido em 5729471997_09d94099a3.jpg (375×500) (flickr.com)

Brasão de Armas e Bandeira Quadrada de D. João I

Brasão de Armas e Bandeira Quadrada de D. João I. Acedido em https://www.pinterest.pt/pin/524950900291616754/

Este meu novo pensamento sobre o assunto nasceu de muito ter lido e estudado a história de Coimbra com o desejo de encontrar uma razão satisfatória para a existência de um leão na composição das mesmas armas.

O dragão, enfim, poderia ser uma interpretação da cobra das antigas armas. É mais uma suposição que pode ser aceite, pelo menos, pelas pessoas que conhecem a organização e ordenação da heráldica.

Dornelas, A. Os Selos da Cidade de Coimbra. In: O Instituto, Vol. 88.º. 1935. Pg. 5-16. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 19:25

Quinta-feira, 01.04.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 13

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

Tal como aconteceu com o Teatro-Circo, adiante referido, e como vai suceder com outros imóveis considerados de interesse para a cidade, o terreno para a Associação Comercial e Industrial de Coimbra também foi cedido pela edilidade mediante a concessão de uma redução no preço, embora com a condição de ali ser instalada uma escola prática destinada a permitir aos jovens a aprendizagem das técnicas essenciais à vida económica.

Edificio da Associação Comercial.jpg

Edifício da Associação Commercial

Assina o projeto Manuel Gonçalves de Campos que, sob o seu nome apõe um “A.” passível de o identificar como arquiteto. Até ao momento não consegui obter qualquer informação relacionada com o alarife em causa.

Francisco António dos Santos, Filho lavrou as cantarias; ele próprio o confessou a Abreu d’Aguiar Oteda, quando este o entrevistou para a crónica “A arte e os artistas de Coimbra”, por altura da sua nomeação como professor interino da Escola Brotero, em substituição de João Machado, artista com quem, pese embora o teor da conversa, rivalizava.

Abreu d’Aguiar Oteda manteve em “O Despertar”, durante bastante tempo, esta crónica e nela publicava as entrevistas que ia fazendo aos mais diversos artistas da cidade.

Associação Comercial e Industrial de Coimbra. Po

Associação Comercial e Industrial de Coimbra, pormenor. Foto RA

No mesmo ano em que foi solicitada à edilidade a aprovação do desenho destinado à sede da ACIC, Francisco Barreto Chichorro apresentava também, a fim de lhe ser concedida a licença e o alinhamento, o projeto da casa que pretendia construir na Sá da Bandeira; assinava-o Bernardino José, construtor de Obras Públicas, de quem não encontrei, ao longo da investigação, mais nenhuma referência.

O então presidente da Câmara, Marnoco e Sousa, deferiu o requerimento a 22 de julho de 1909. Do edifício, uma moradia geminada, salientam-se apenas as sucessivas aberturas neobarrocas da platibanda e os dois, acrescentados ao desenho inicial, pseudofrontões destinados, possivelmente, enriquecer a fachada.

Casa de Francisco Barreto Chichorro Foto [RA].jpg

Casa de Francisco Barreto Chichorro. Foto RA.

Casa de Francisco Barreto Chichorro. Pormenor [Fot

Casa de Francisco Barreto Chichorro, pormenor. Foto RA

Do mesmo lado, no local onde mais tarde foi edificada uma garagem que atualmente virou banco, isto é, entre a casa de Francisco Chichorro,

Garagem que atualmente virou banco. Foto RA.jpg

Garagem que atualmente virou banco. Foto RA.

e o atual (2016) edifício sede da Polícia Municipal,

Edificio da Polícia Municipal. Foto RA.jpg

Edifício sede da Polícia Municipal. Foto RA.

 onde funcionou, durante largos anos, o quartel dos bombeiros municipais, construiu-se um picadeiro, que teve vida efémera.

Em 1908 já fora aprovado pela autarquia o projeto do imóvel do picadeiro, a construir em terrenos que haviam sido cedidos em condições idênticas aos do Teatro-Circo, visto ambos se destinarem a melhoramentos públicos. O risco foi elaborado pelo “habil constructor civil” João Gaspar Marques Neves e “o professor do picadeiro será o sr. D. João de Mello, professor da Escola Nacional d’Agricultura, muito habil e muito competente”.

O Noticias de Coimbra ainda acrescentava que “tendo fallado em melhoramento com que esta cidade vae ser dotada, resta-nos dizer que elle se deve aos srs. Francisco e Miguel Barreto Chichorro, que bem podem ser considerados dois benemeritos, porque, se não fossem elles, Coimbra não teria tão depressa uma escola de cavalaria”, onde também se ensina, para além da equitação, “ginástica, jogos de armas, etc. para a educação física mais completa”.

O referido estabelecimento “encontra-se em magníficas condições e veio preencher uma lacuna que há muito se fazia sentir na cidade”, mas pouco tempo volvido após ter iniciado a sua atividade, por motivo de doença ou afazeres, os proprietários anunciam que arrendam ou vendem o picadeiro.

A partir desta data ignoro o que se terá passado, mas, nem mesmo os mais idosos, retém na memória e existência, em Coimbra, desta escola de equitação.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 18:35

Quinta-feira, 25.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 12

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

A Avenida Sá da Bandeira, verdadeiro boulevard conimbricense, mostra, na sua conceção, aspetos haussmannianos: ruas largas a ladearem uma zona ajardinada que dão acesso a uma praça de onde partem, em diversas direções, vias de comunicação.

Avenida Sá da Bandeira. c. 1920.jpg

Av. Sá da Bandeira, c. 1920

No entanto, é bem provável que na base da sua abertura não se encontrassem presentes teorias urbanísticas eruditas e academizantes, mas sim o conhecimento das necessidades reais do alargamento urbano da cidade dentro de um contexto pragmático passível de se adaptar às caraterísticas do espaço disponível.

A Sá da Bandeira, que vale pelo conjunto, ainda hoje apresenta, embora vilmente mutilada, marcas de uma mentalidade e de um espírito bem característicos da época em que foi traçada. Trata-se de uma zona que deve ser preservada pela autarquia e pelos conimbricenses. Integra a memória coletiva da cidade e a urbe, como qualquer um de nós, não pode sobreviver sem raízes.

Como já mencionei, para a nova zona urbana foram pensados alguns edifícios que jamais ultrapassaram a fase de projeto; entre estes pode referir-se o que se destinava a sede da Associação dos Artistas de Coimbra.

Olímpio Nicolau Rui Fernandes.jpg

Olímpio Nicolau Rui Fernandes

A coletividade, criada em 1862, teve como fundador e principal dinamizador Olímpio Nicolau Rui Fernandes, homem que, nascido em Lisboa, se radicara em Coimbra, onde exerceu o cargo de Administrador da Imprensa da Universidade.

Entre 1862 e 1866, data em que passou a ocupar o refeitório dos frades crúzios, a Associação terá utilizado, a fim de aí poder ministrar as aulas, um outro qualquer espaço.

Já depois da morte do fundador, no final da centúria, mais concretamente em 1895, a direção encarregou “o hábil e acreditado conductor de obras públicas, o sr. Eduardo Augusto de Parada e Silva Leitão” de elaborar o projeto da sua nunca construída sede que, de acordo com as informações insertas nos periódicos locais, se exteriormente se inseria no gosto neorromânico, no interior utilizava o neogótico.

Mas se a sede da Associação dos Artistas de Coimbra ficou no papel, outro tanto se não pode dizer da Associação Comercial e Industrial de Coimbra que então girava sob o nome de Associação Comercial de Coimbra. O vice-presidente da direção, José Martins dos Santos, requere à edilidade, a 07 de setembro de 1909, autorização para “construir uma casa para a sua sede” no “talhão n.º 3” da Avenida Sá da Bandeira.

O edifício, construído durante a presidência de João de Moura Marques, foi inaugurado a 01 de janeiro de 1912, com pompa e circunstância, a deixar claramente sentir o republicanismo exacerbado dos promotores e, provavelmente também, alguma ideologia maçónica. A notícia da inauguração do edifício, inserta na Gazeta de Coimbra (n.º 54, 1912.01.03), comprova amplamente este posicionamento.

A fachada do imóvel insere-se dentro do gosto Arte Nova e, porque utiliza linhas bastante duras e carregadas, falta-lhe a leveza e a graciosidade que caracterizam o estilo. De qualquer forma, trata-se de uma aproximação à moderna estética europeia. Do interior, tem de se destacar o grande “salão que deve comportar mais de 500 pessoas [e que] fica sendo um dos maiores e mais bonitos desta cidade”.

Fig. 17. Associação Comercial e Industrial de Co

Fig. 17 – Associação Comercial e Industrial de Coimbra. [Foto RA].

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:12

Quinta-feira, 18.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 11

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

 No lado oposto da então Rua Sá da Bandeira, junto à antiga Fonte Nova, ainda hoje se pode observar um prédio para rendimento mandado construir, depois de 1915, por duas senhoras que, julgo, seriam irmãs: Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Conceição Almeida.

Casa de Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Con

Casa de Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Conceição Almeida. Foto RA.

Casa de Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Con

Casa de Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Conceição Almeida, pormenor. Foto RA.

O projeto foi riscado pelo construtor civil diplomado, inscrito nas Obras Públicas de Coimbra, João Gaspar Marques das Neves. O autor, como os terrenos naquela zona eram bastante húmidos e uma vez que a fachada posterior deitava para sul, “procurou captar a concentração do calôr pelo recinto que se acha entre os refeitorios, tendo dado a devida luz e ar a todos os compartimentos”, preocupações bem de acordo com os preceitos higienistas da época.

O prédio em questão não apresenta, estruturalmente, qualquer laivo de modernidade. A sua especificidade advém-lhe da decoração utilizada, quer nos azulejos, quer no trabalho de cantaria ou até mesmo no das grades.

Continuando a pôr de lado a cronologia, olhemos para o edifício que, um pouco mais acima do anteriormente referido, em 1913, António Mizarela e Augusto Lopes fizeram construir na nova artéria citadina. O imóvel que, ao nível da fachada, mostra aquilo a que, quiçá impropriamente, se pode apelidar de laivos de Arte Nova, ostenta oito painéis cerâmicos destinados a ornamentar lateralmente os pés-direitos das janelas principais saídos das mãos do pintor-azulejista Miguel Costa.

Casa decorada com azulejos da autoria de Miguel Co

Casa decorada com azulejos da autoria de Miguel Costa. Foto RA.

O ceramista utiliza nos azulejos que pintou um colorido intenso e brilhante, as paisagens campestres e fluviais surgem envoltas por malmequeres, papoilas, rosas e amores-perfeitos; num desses quadros, de entre as papoilas, sobressai a ‘barca serrana’, velha de séculos, que durante tantos anos prestou relevantes serviços não só à população ribeirinha do Mondego, como também àquela que residia no interior da Zona Centro.

 

Fig. 16. Casa decorada com azulejos da autoria de

Fig. 16 – Casa decorada com azulejos da autoria de Miguel Costa. Pormenor de uma janela. Foto RA.

Mas o transeunte apressado mal se dá conta, se é que se dá mesmo conta, da beleza desses azulejos, embora sejam eles, conjuntamente com outros pequenos-grandes nadas que, no fundo, conferem caráter a uma cidade.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em: https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:39

Terça-feira, 16.03.21

Coimbra: Evolução do Brasão do Concelho 1

Formulado o parecer sobre a evolução porque tem passado as armas da cidade de Coimbra e sobre a forma de as ordenar presentemente, colhendo do estudo feito os dados que mais salientam o brilho histórico e sentimental de tão notável cidade, apresentei-o à Secção de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, que o aprovou em setembro de 1930, sendo imediatamente enviado à Câmara Municipal daquela cidade, que também concordou com o mesmo parecer, conseguindo do Governo a seguinte confirmação:

«Portaria n.º 6956 - Manda o Governo da Repüblíca Portuguesa, pelo Ministro do Interior, que a constituição heráldica das armas daquele município seja a seguinte: De vermelho com uma taça de ouro realçada de púrpura, acompanhada de uma serpe alada e um leão batalhantes, ambos de ouro, armados e lampassados de púrpura. Em chefe, um busto de mulher coroado de ouro, vestido de púrpura e com manto de prata, acompanhado por doís escudetes antigos das quinas, Colar da Torre e Espada.

Brasão de Coimbra.png

Brasão de Coimbra. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Coimbra#/media/Ficheiro:CBR.png

Bandeira com um metro quadrado, quarteado de amarelo e de púrpura. Listel branco com letras pretas, Cordões e borlas de ouro e púrpura. Lança e haste de ouro

Bandeira de Coimbra.gif

Bandeira de Coimba. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Coimbra#/media/Ficheiro:CBR.png

Regulado o assunto por esta forma e baseado nos elementos que constitulrarn o referido parecer, posso hoje confirmar que um dos principais argumentos que fortalecem o critério da representação do busto de mulher nas mesmas armas, nada tem com a taça que em certa altura começou a aparecer na composição do selo de Coimbra.

No n.º 3 do ano 1.º da Revista do Conselho de Arte e Arqueologia, vêm incluídos dois interessantes artigos, a que me vou referir:

O primeiro intitula-se «O brasão da cidade apôsto em casas foreiras» e é da autoria do ilustríssimo arqueólogo Antonio Augusto Gonçalves, tão notável por variados méritos.

Começando por relatar o facto criminoso de no primeiro terço do século XIX ter sido permitido pela Câmara Municipal de Coimbra que um sonhador de tesouros escondidos escavacasse uma escultura existente no arco de Almedina, que representava o busto de mulher coroada que sempre apareceu nas armas de Coimbra, por supor ali escondido um rico tesouro,

Torre de Almedina, sendo perceptíval a mutilaçã

Torre de Almedina, sendo perceptíval a mutilação do brasão. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Porta_e_Torre_de_Almedina.

passa a citar o facto interessante de já vigorar em 1503 a obrigação dos enfiteutas colocarem frontaria dos prédios Ioreiros à cidade.

A propósito deste facto, refere-se aos 12 exemplares destas esculturas existentes actualmente no Museu de Machado de Castro, dos quais reproduz 10, tendo todos o busto de mulher sainte duma taça.

MNMC708, E587 a.jpg

Pedra colocada sobre a porta de uma foreira da Câmara. © DGPC| Arquivo do MNMC. 708, E587

MNMC6348, E598.JPG

Pedra colocada sobre a porta de uma foreira da Câmara. © DGPC| Arquivo do MNMC. 6348, E598.

Estas referências são da maior importância para o estudo das armas de Coimbra, pois que estando determinado que os enfiteutas colocassem uma lápide com as armas da cidade na frontaria do prédio foreiro, ficamos sabendo que essas armas eram esculpidas por qualquer artista medíocre, que trabalhasse mais barato, e então, desde que um pôs o busto de mulher sainte duma taça, é natural que, inconscientemente, todos o copiassem, e, por tal forma este processo foi repetido, que o costume quási passou a ser lei.

O Senhor Antônio Augusto Gonçalves, referindo-se aos autores dessas esculturas, diz:

Pertencem à produção desses grupos de artifices desalumiados, a que se atribuem as obras destituídas de intenção e de carácter, sem rumo e sem norte, à mercê das sugestões do momento. Por isso a classificação cronológica não é fácil, visto que lhe faltam lndtcíos definidos e acentuados. Com raras excepções, só hipotetícamente se poderão descobrir lnflüências de estilo.

… Vendo as reproduções das ingénuas esculturas citadas, e não se sabendo que houve tempo em que nas armas de Coimbra apareceu uma taça, qualquer pessoa dirá que se trata apenas de um busto com seu pedestal e não de uma taça tendo um busto de mulher sainte.

A ligação do peito da mulher à taça, foi feita inconscientemente, e naturalmente os diferentes artistas estavam convencidos de que se tratava efectivamente de um busto com o respectivo pedestal para se colocar sôbre um móvel.

Vejamos agora o segundo artigo publicado no citado número da revista intltulada «Arte e Arqueologia»: «Brasões de Coirnbra no Museu Machado de Castro pelo erudito escritor Augusto Mendes Simões de Castro, que tantos trabalhos já tem sôbre o selo e armas da histórica cidade de Coimbra.

Começo por transcrever o 3.° período deste interessantíssimo artigo:

No «Indice Chronologíco dos Pergaminhos e Foraes existentes no archivo da Camara Municipal de Coimbra» por João Correia Ayres de Campos, 2.ª edição (1875), pags. 57 e 58, vem citada uma sentença datada de 29 de Maio de 1503, [onde é referido] «dentro de dous meses da Ieitura d'este em diamte poer na parede sobre ho portall da dita casa hua pedra de dous palmos de lomguo e dous de larguo q sera assy emlleuada ê que sse ponhã as armas da dita cidade E teera letras q dlguã esta casa he da cydade de Coimbra …»

O Sr. Dr. Sirnões de Castro transcrevendo esta interessantíssima referência sôbre a utilidade da heráldica de domínio, trata, no seu artigo, das esculturas existentes no Museu de Machado de Castro, e referentes à sinalização dos prédios foreiros à cidade de Coimbra, dando a entender que, nas armas de Coimbra, a taça não tem outra representação que não seja a de servir para dela sair o busto da mulher.

Dornelas, A. Os Selos da Cidade de Coimbra. In: O Instituto, Vol. 88.º. 1935. Pg. 5-16. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt

Em ordem às imagens das pedras estavam colocadas sobre as portas das casas foreiras da Câmara de Coimbra e hoje estão guardadas no Museu Nacional de Machado de Castro, agradecemos aos Técnicos daquele Museu, Drs. Pedro Ferrão e Jorge Venceslau, a ajuda na sua localização.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:22

Quinta-feira, 11.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 10

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

 Um pouco mais acima ergue-se a Escola de Santa Cruz.

Em 1904, quando o arquiteto Adães Bermudes veio propositadamente à cidade, a fim de estudar a possibilidade de alargar a escola de S. Bartolomeu e de ver o local onde, na então Rua Sá da Bandeira, se devia edificar a nova escola primária, não era a primeira vez que se pensava em fazer erguer, naquela área, um complexo escolar, pois a Câmara Municipal, na sessão de 25 de abril de 1889, dera o seu aval à planta do “grandioso edifício” que se projetava construir no novo Bairro de Santa Cruz para esse fim, embora pensasse em o levantar num largo que já estava terraplenado em frente ao jogo da bola, virado para os Arcos de S. Sebastião, ou seja, num dos lados da atual Praça da República.

O local apontado para edificar a chamada Escola de Santa Cruz, ao tempo da estada de Bermudes em Coimbra, situava-se na esquina da Sá da Bandeira com a Rua da Manutenção Militar; mas, para isso, tornava-se necessário, demolir “a casa esqueleto para exercicio dos bombeiros municipaes, e onde se encontra a estação principal do material de incendios”, estruturas construídas, como referi, havia muito pouco tempo. Além disso, tratava-se de um terreno que se localizava na freguesia da Sé Nova e se destinava a ali ser levantada a escola da freguesia de Santa Cruz. Ingredientes mais que suficientes para não tornar o assunto pacífico.

 

Adães Bermudes.jpg

Adães Bermudes

 O arquiteto Arnaldo Redondo Adães Bermudes (Porto, 1864.10.01-Sintra, 1948.02.18) é que se encarregou de elaborar, tanto o projeto da escola Central (escola de Santa Cruz), como o da ampliação da de S. Bartolomeu e acompanhou de perto os trabalhos, não só porque era inspetor das construções escolares, mas também porque havia sido galardoado com uma medalha de ouro na parisina Exposição Universal de 1900, onde expusera “umas magníficas plantas para escolas da instrução primária de ambos os sexos, conjunta ou isoladamente”; o alarife, de acordo com o que consta no seu processo [AHMOP], é responsável pelos projetos de cento e oitenta edifícios de escolas primárias construídas por todo o país.

Escola de Santa Cruz.jpg

Escola de Santa Cruz, 1922 c.

 … O edifício insere-se, apenas na zona central da fachada, dentro de um estilo neorromânico, fugindo aos posteriores massificados projetos de escolas riscados pelo arquiteto e que enxameiam o país. As arquivoltas que rodeiam o tímpano hemicircular, onde se inscreve um relógio aposto sobre vistosos azulejos decorativos atribuíveis, por comparação, ao ceramista conimbricense Miguel Costa, são interrompidas pelo escudo real rematado pela coroa que, talvez pela altura a que se encontra, escapou intacta aos ventos da implantação da República.

A colocação de relógios nas estações de caminho-de-ferro, nos grandes armazéns, nas fábricas, nas escolas e em espaços semelhantes tornou-se, no século XIX e nos inícios do seguinte, tão carismática como a utilização do ferro; eram eles que mantinham a disciplina, propagando a religião da hora exata e contrapunham um tempo tradicional, celeste e solar a um tempo pagão e tecnológico.

Fig. 15. Escola de Santa Cruz. [Foto RA].jpg

Fig. 15 – Escola de Santa Cruz. [Foto RA].

Escola de Santa Cruz. Pormenor. [Foto RA].jpg Escola de Santa Cruz, pormenor. Foto RA

 Em dezembro de 1907 o edifício já se encontrava terminado há cerca de um mês e sendo “o primeiro do paiz no seu genero, veio rematar lindamente as amplas ruas de Sá da Bandeira e Manutenção Militar, dando belleza e realce ao local onde se acha construido” e “ao empreiteiro sr. Manoel Alexandre Sellada, cabem louvores, por isso que, apesar de ter luctado com falta de recursos pecuniarios pela demora dos pagamentos, nos apresenta esse bello edificio com execução fiel da planta feita pelo distincto architecto sr. Adães Bermudes”. A Escola Central Primária de Santa Cruz recebeu os primeiros alunos em 1908.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:11

Terça-feira, 09.03.21

Coimbra: Av. Navarro no dealbar do séc. XX

Surgiu, recentemente, nas redes sociais esta bela fotografia:

Av. Emídio Navarro. Coimbra AML a.jpg

Av. Navarro com comboio a chegar à Estação nova. 1910-1917. Acedida  em: http://arquivomunicipal2.cmlisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/Documento.aspx?DocumentoID=1634678&AplicacaoID=1&Value=13c2034062824bf375d7c03644adbdb93f8b0298073a5a6a&view=1

Trata-se de uma fotografia do espólio do Arquivo Municipal de Lisboa, onde foi identificada, em 2014 por Paulo Mestre, membro da Associação Portuguesa dos Amigos dos Comboios que a divulgou no blogue LusoCarris fórum.

Tendo solicitado ajuda para a datação da imagem ao meu filho Pedro Rodrigues Costa – um estudioso da temática dos comboios e carros elétricos – ele juntou o seu saber ao de outros dois conhecedores desta matéria, Jorge Oliveira e Fernando Pedreira, que acabaram por propor o período compreendido entre 1910 e 1917.

A proposta teve por base os seguintes pressupostos:

- A locomotiva que se vê na fotografia é da série CP 17 a 22 e foi construída em 1862.

Esquena das locomotivas.jpg

Esquema das locomotivas da série CP 17 a 22. In: Nomenclatura das Máquinas a vapor

 Segundo Fernando Pedreira este tipo de locomotivas fez parte do parque de Coimbra/Alfarelos até, pelo menos, meados dos anos 40 do século passado, devendo a sua utilização ter-se iniciado entre 1911 e 1919, ou mesmo antes. Entre 1916 e o fim de 1919 devem ter andado a queimar lenha, sendo que no «tender» não se vê nem lenha nem os acrescentos que lá colocavam para a conter, não tendo a chaminé para-fagulhas, tipo «faroeste» que muitas tiveram nessa altura. No entanto, já vi uma foto de uma delas, dos anos da 2ª Guerra mundial, no Largo da Portagem, a rebocar um vagão.

Pedro Rodrigues Costa, acrescentou ainda que a fotografia terá de ser posterior a 1911 porque nela se vêm os postes da rede de elétricos de Coimbra e porque num deles se vêm dois belos candeeiros de iluminação pública a gás que só em 1919 foram substituídos por iluminação elétrica, aproveitando para o efeito a infraestrutura dos carros elétricos.

Pormenor Coimbra AML c.jpg

Pormenor da fotografia acima publicada

Jorge Oliveira salientou ainda que no edifício da esquina se vê, uma pala ou para-sol em ferro, similar ao do edifício Chiado e ao da Havaneza ao fundo da Rua Visconde da Luz, representativo do estilo Arte Nova.

Ali funcionava, na minha meninice, a firma Júlio da Cunha Pinto, que vendia tabaco, jogos de lotaria, perfumes, edição de postais ilustrados. E, acrescento eu, papel selado e selos fiscais, um imposto encapotado para quem fazia algum contrato ou tinha que se dirigir a uma entidade oficial.

Deste edifício existe uma outra fotografia bem elucidativa.

Av. Emídio Navarro. Frente à Estação Nova.jpgEdifício na esquina da Av. Navarro com o Largo das Ameias. Postal ilustrado.

Por último, Jorge Oliveira socorrendo-se de um texto de Carlos Ferrão, identifica o edifício que se vê na fotografia seguinte como sendo o mais luxuoso hotel da cidade no princípio do séc. XX, o Palace Hotel, que viria a ser devorado pelo fogo em 30 de Abril de 1917.

Av. Emídio Navarro antes da Estação Nova 02. Pa

Postal ilustrado, onde é visível uma placa publicitária do Palace Hotel

No primeiro andar do edifício que o substituiu funcionou um local onde as artes musicais e dança passaram a ser rainhas. A abertura solene e inauguração da Academia de Música de Coimbra foi a 10 de Fevereiro de 1929.

Edifício onde funcionou a Academia.jpg

Edifício onde funcionou a Academia de Música de Coimbra. Foto do espólio fotográfico de Jorge Oliveira

Posteriormente, neste edifício, de acordo com as minhas memórias, funcionou o Hotel Internacional e um Café com o mesmo nome, muito frequentado pelos estudantes de então.

Av. Emídio Navarro e Estação Nova 02.jpg

Postal ilustrado, onde são visíveis os para-sol do Café Internacional

Av. Emídio Navarro. Café Internacional 02.jpg

Café Internacional da minha juventude, hoje loja de moda

Saliente-se, como conclusão, que ao pretender datar uma fotografia, a análise da mesma e o saber de Alguns tornaram possível recordar diversos e interessantes factos da história coimbrã.

Rodrigues Costa

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 19:07

Quinta-feira, 04.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 9

O novo Bairro de Santa Cruz

 Os proprietários que haviam adquirido lotes na recém programada urbanização, com mais ou menos celeridade e dentro dos parâmetros estabelecidos pela Câmara, começavam a construir as suas casas de habitação ou de rendimento. Para se erguerem ao longo das novas artérias projetaram-se também edifícios de utilidade pública que, algumas vezes, não saíram do papel.

Convém esclarecer que não vou deixar de aludir a esses não construídos imóveis sempre que esteja na posse de elementos passíveis de os referir minimamente.

E se entra neste lote dos não concretizados a sede da Associação dos Artistas de Coimbra, outro tanto se não pode dizer da estação do corpo de bombeiros municipais, com projeto de Hans Dickel, aprovado em março de 1891.

 

Estação do corpo de bombeiros municipais.jpgEstação do corpo de bombeiros municipais. Foto RA

 Ao falar dos edifícios construídos, ou não, na urbanização da Quinta de Santa Cruz coloquei de lado a cronologia, a fim de seguir como que uma caminhada virtual, iniciada no entorno da Fonte Nova.

Inicio o percurso olhando para o edifício da sucursal da Manutenção Militar que começou a ser construído em 1899, no local em que outrora existiu a casa do palheiro do mosteiro de Santa Cruz, ocupado pelo município depois da desamortização e transformado em matadouro. Será de referir, contudo, que a atual estrutura resultou do aumento da primeira edificação.

Manutenção militar 02.jpg

Manutenção Militar

 Parece que estes e outros edifícios já erguidos na nova artéria não agradavam ao diretor do jornal Resistencia, o conhecido Quim Martins, pois quando Raul Lino, em 1902 se deslocou a Coimbra, o então “jornalista” acompanhou-o num pequeno passeio pelo Bairro de Santa Cruz e narra assim essa digressão: “Encaixados num caleche, sob um sol abrazador, aí pela 1 hora, passámos pela Avenida e mostrámos-lhe, primeiro que as nossas bellezas architectónicas, aquella galeria de monstrosinhos, que os honestos, mas pouco artistas, mestres de obras, cá da terra, e mais alguns têem ido poisando por êsse Bairro de Santa Cruz fóra.

“Apresentámos-lhe aquelle mostrengo da Padaria militar, sellado na frontaria, com todas as coisas” e “fizemo-lo admirar aquelle caprichosinho ingénuo e ridiculo, de uma casolita de boneca, feita de tijolo, e encarrapitada na chaminé da mesma padaria”.

O articulista mostra-se muito crítico em relação às construções levadas a efeito no novo bairro e escreve que, aos poucos, foi apontando a Raul Lino “aquellas frontarias chatas, em rectangulo, com jánellas em rectangulo, e portas em rectangulo, monótonas variações sobre o mesmo thema, – o rectángulo, ou então construcções estylo cartão de visita”.

Continuando o nosso peregrinar deparamo-nos com a Câmara, em 1905, a planear construir o edifício destinado à Inspeção de Incêndios. A planta, assinada a 30 de agosto de 1905 por António Heitor que era condutor de Obras Públicas e, penso, chefe do respetivo departamento camarário, conheceu deferimento a 01 de outubro e foi aprovado pelo Secretário de Estado dos Negócios do Reino a 22 do mês seguinte. Devia erguer-se logo acima do pavilhão do peixe, pegado à Rua do Colégio Novo e nas proximidades da Fonte Nova. O desenho do conjunto e o alçado do edifício, acompanhado do correspondente processo, encontra-se no AMC e permite determinar com exatidão o local onde se devia erguer. Trata-se de mais uma estrutura que não saiu do papel ou melhor, no caso vertente, da tela imperial.

Fig. 14. Inspecção de incêndios. [AHMC. Reparti

Fig. 14 – Inspecção de incêndios. [AHMC. Repartição de obras municipais. Pasta 24. B-14].

 Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 17:48


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Abril 2021

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930