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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 27.10.20

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos 1

Foi recentemente divulgado na internet um trabalho intitulado O Museu Municipal de Coimbra: Contributos para o Programa do Núcleo Museológico do Carro Elétrico.

Trata-se do Relatório de Estágio de Mestrado em Política Cultural Autárquica, apresentada em 2016 ao Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, por Ana Filipa de Jesus Pereira. Estágio que teve como orientadora a Senhora Professora Doutora Maria Margarida Sobral Neto e como acompanhante responsável a Senhora Dr.ª Elisabete Carvalho.

Por razões éticas, dado que nos últimos 25 anos da minha carreira profissional exerci funções docentes, não irei discutir o mérito do referido trabalho, sem, contudo, deixar de sublinhar que a autora dispunha de fontes primárias e de informadores qualificados que marginalizou.

A obra apresentada tem, nas palavras da autora, como “principal objetivo contribuir para o enriquecimento dos conteúdos do futuro Núcleo do Carro Elétrico do Museu Municipal de Coimbra” o que a faz partir de um pressuposto errado.

Existe um Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, que ocupa a antiga oficina de reparações da rua da Alegria e que foi criado por decisão do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados, em 1982, apenas concretizada dois anos mais tarde, quando o seu Regulamento foi aprovado e os respetivos corpos diretivos empossados, ficando, desta forma, o Museu dotado de personalidade jurídica e de autonomia financeira. Ora, não tendo conhecimento de uma decisão formal da sua extinção e ainda que, lamentavelmente, as suas portas continuem vai 16 anos encerradas, a maioria do espólio que lhe dá razão de ser continua ali guardado.

O que seria de esperar é que a autora, depois de contextualizar a formação do Museu procurasse dar um contributo positivo para a sua revitalização e apontar caminhos que se inserissem no contexto das novas filosofias museológicas.

Face à minha intervenção no processo, considero ter o dever de comentar algumas situações que se encontram expressas ao longo do referido Relatório.

Desempenhava, na altura, o cargo de Diretor do Departamento de Cultura, Desporto e Turismo da Câmara Municipal de Coimbra e, nesta qualidade, fui chamado a exercer as funções de Diretor do Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, cargo que desempenhei durante os cinco primeiros anos de vida do mesmo.

As intervenções e trabalhos desenvolvidos no Museu durante o tempo em que fui responsável por aquela Instituição foram objeto de uma comunicação que apresentei ao “I Encontro sobre Património Industrial”, acontecido em Coimbra, Guimarães e Lisboa no ano de 1986 e publicada em 1990 no primeiro volume das Actas e Comunicações, pg. 265-278.

Irei republicar essa comunicação neste espaço, prometendo, desde já, se a minha saúde o permitir e logo que o Covid nos deixe, numa das conferências que vimos organizando, voltar a abordar o tema relacionado com o Museu Municipal de Coimbra,

Aqui, torna-se pertinente recordar que, em 2007, escrevi no livro Troleicarros de Coimbra. 60 anos de História que na minha perspetiva, o Museu dos Transporte Urbanos de Coimbra foi uma iniciativa que se pretendia como o primeiro núcleo de um projeto, ainda, tão necessário: o da criação de um Museu da Cidade, polinucleado, que abranja as múltiplas facetas de que o passado da nossa cidade se reveste.

Acresce que o Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra esteve aberto ao público durante 13 anos, assentou num trabalho de recolha e investigação e ali estava guardado e exposto um património valioso, parte do qual foi recuperado e mantido no propósito imposto pelo respetivo Regulamento, o de poder vir a ser utilizado numa sonhada e nunca concretizada linha histórica.

Um Museu que tem a sua história e um trabalho que no livro em apreço foi resumido, na página 34, do seguinte modo: Importa por fim referir que neste espaço funcionou de 1982 a 1995 o Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, tendo sido o seu primeiro diretor António Rodrigues da Costa.

Perante o exposto, fica demonstrado que o principal objetivo da autora do trabalho não tem razão de ser, pois a haver um futuro Núcleo do Carro Elétrico, o mesmo terá que resultar da transformação do Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra.

Aliás, é patente ao longo do Relatório, não só a intenção de passar uma esponja sobre o passado, cujo porquê não quero qualificar, bem como a tentativa de perspetivar um projeto salvífico que, como se disse, o poderia ser, mas com coordenadas bem diferentes das que foram apresentadas.

Embora desconhecendo as condições em que este tipo de estágio se efetua e não desejando formular processos de intenção, seja-me permitido, no entanto, manifestar a minha estranheza perante a (des)informação, nada compreensível, manifestada pela responsável deste trabalho efetivado no Museu Municipal de Coimbra, departamento de cuja equipa fazem parte Técnicos que ao tempo integravam o quadro de pessoal do Departamento de Cultura, Desporto e Turismo, que não podiam ignorar o que então se passou.

Quero ainda afirmar que um Museu não pode ser estático, tem de se ir transformando e adaptando, tanto à evolução das técnicas, como das novas filosofias museológicas que, entretanto, se vão desenvolvendo. Decorre destes pressupostos a necessidade de surgirem novos projetos, devidamente enquadrados, capazes de marcar o rumo dessa evolução; não se pode, contudo, esquecer o acervo existente, razão da sua existência, acervo esse que se torna necessário salvaguardar e manter. Qualquer museu, e este em especial devido às suas características, exige um trabalho permanente e persistente de investigação capaz de completar e explicar com maior profundidade a sua história e simbolismo.

Quero ainda de chamar a atenção para a legenda de figura 4 que afirma tratar-se da Fachada da Remise / Futuras instalações do núcleo do carro elétrico.

Em primeiro lugar direi que “remise” é uma palavra francesa que tem como um dos significados mais arcaicos e menos usuais o de garagem, cocheira e recolha e que manda a verdade que esse termo foi utilizado por algumas pessoas para designar o local de recolha dos carros elétricos. Mas, também, manda a verdade que se diga que usualmente era usada a palavra portuguesa recolha.

2930.jpgVista geral das instalações. 1911 c. Col. Carlos Ferrão

Acontece, ainda, que o termo inicialmente utlizado para designar o local destinado a guardar os carros elétricos, foi o de cocheira, como se pode verificar numa fonte secundária, o Noticias de Coimbra datado do início de janeiro de 1911, onde se pode ler que a cocheira, situada junto à Central, tem espaço para recolher onze carros, tendo junto a oficina de reparações, o atelier de pintura e os armazéns de material.

Ora, a zona fotografada no livro em apreço, diz respeito à área da oficina de reparações e como tal foi salvaguardada aquando da abertura do Museu. Daí, a legenda estar errada.

Por último recordo que existiram em Coimbra três locais de recolha dos carros elétricos.

A primeira foi atrás referida, a qual com a expansão da frota, foi transferida para a antiga fábrica de produção de gás de iluminação, na rua Figueira da Foz.

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Recolha dos carros elétricos na fábrica do gás. Coleção Carlos Ferrão

Com a cedência desses terrenos ao Ministério da Justiça e a criação das oficinas na margem esquerda do rio Mondego, a recolha dos elétricos voltou à rua da Alegria, mas ocupou um outro local como se documenta na imagem que seguidamente se publica.

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Recolha de elétricos na zona da Alegria

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 13:04

Terça-feira, 20.10.20

Coimbra: Coro D. Pedro de Cristo 3

Para os mais velhos, ao falar do Coro D. Pedro de Cristo está, sempre, associado o nome do Dr. Francisco Faria.

Recorda Maria do Rosário Pericão, uma das fundadoras do Coro.

Com efeito o Dr. Francisco apresentava já, naquela época [aquando do início do Coro] um notável curriculum como fica demonstrado nos dados biográficos então divulgados e que nos permitimos transcrever.

«Nascido em S. Paio de Seide (V.N. de Famalicão) no ano de 1926, Francisco Faria começou os seus estudos no Seminário Diocesano de Braga, tendo como professor seu irmão o compositor Manuel Faria e continuou os seus estudos musicais em Coimbra ao mesmo tempo que cursava Direito o que concluiu em 1954 … em 1961 foi nomeado professor de História da Música da Faculdade de Letras de Coimbra.

Durante a sua permanência em Coimbra e ainda estudante, participa em todas as manifestações musicais que culminaram na criação do Coral  dos Estudantes da Faculdade de Letras de que foi Diretor Artístico e à frente do qual durante quase dezasseis anos deu o melhor do seu trabalho e saber conduzindo-o aos maiores sucessos no país e no estrangeiro.

Homenagem do Coro e do Instituto.jpgHomenagem do Coro e do Instituto de Justiça e Paz que atribuiu o nome de Francisco Faria, à sala de ensaios. 06.07.2016

Tendo sido honrado com o pedido de um curto depoimento para esta obra ali figura o seguinte texto.

Acompanhei o nascimento do Coro D. Pedro de Cristo, mas o meu relacionamento com o grupo assumiu outra dimensão depois de ter passado a exercer as funções de primeiro Diretor do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Foi no exercício desse cargo e da amizade então cimentada com o Dr. Francisco Faria - pessoa com quem tanto aprendi - que aprofundei o meu conhecimento acerca das escolas de música que outrora  existiram em Coimbra, da importância do Patrono do Grupo na música coral portuguesa e da pertinência  deste tipo de música.

Posso afirmar a qualidade do Coro recordando uma pequena história, No âmbito da geminação de Coimbra com Poitiers, o Coro D, Pedro de Cristo, em permuta com o Chorale Josquin des Prés, deslocou-se àquela cidade, onde atuou. O nível artístico atingido mereceu, na imprensa local, lisonjeiras referências.

Retribuindo a visita, o referido Chorale deslocou-se a esta cidade e realizou um concerto na Sé Nova. Recordo a «zanga» de Francisco Faria, quando, no decurso da atuação do grupo constatou que o mesmo, a fim de atingir uma qualidade semelhante à patenteada pelo grupo português, tinha sentido necessidade de se socorrer da colaboração de profissionais do canto. Fica o meu testemunho.

Concerto de Reis dedicado aos utentes.jpg

Concerto de Reis dedicado aos utentes e funcionários do Solar das Chãs. 05.01.2020

Medalha.jpgMedalha comemorativa do cinquentenário do Coro D. Pedro de Cristo

Pereira, I.B., Pedro, I., Figueiredo G.T. Coordenadores. Coro D. Pedro de Cristo. 50 anos: memórias e história(s). 1970-2020. Coimbra, Coro D. Pedro de Cristo – Associação Cultural.

 

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por Rodrigues Costa às 19:32

Quinta-feira, 15.10.20

Coimbra: Coro D. Pedro de Cristo 2

O antigo coralista Dr. Francisco José Jacob Neves salienta que o Coro D. Pedro Cristo ao optar claramente por incluir música antiga no seu reportório leva a que o coro continue a   interpretar regularmente ainda os «Quatro Responsórios de Natal» de D. Pedro da Esperança, compositor da mesma escola. Nas largas dezenas de folhas de sala que o coro possui no seu arquivo vemos ainda obras dos cancioneiros tardo-medievais e maneiristas ibéricos e obras de todas as épocas até ao séc. XXI de compositores portugueses e estrangeiros.

… A influência musical e o gosto especial que o coro tem pela música de produção nacional tem também origem nas apostas do seu primeiro diretor que marcaram um estilo que ainda hoje se mantém. Quatro grandes compositores se destacam neste âmbito: o patrono do coro, D. Pedro de Cristo, o seu irmão e compositor Padre Manuel Faria, o professor e compositor Mário de Sousa Santos e o compositor e etnomusicólogo Fernando Lopes-Graça.

Concerto no Colégio de S. Teotónio.jpgConcerto no Colégio de S. Teotónio em Coimbra. 16.03.1979. Op. cit. Pg. 201

Senhor de um grande historial o Coro tornou-se ao longo dos anos uma grande família com uma atividade notória e com uma intervenção musical, cultural e social muito significativa.

Não havendo registo sistemático e global de todos os concertos … foram levadas a cabo 670 atuações comprovadas … destas cerca de 35 foram no estrangeiro.

 

Digressão do Coro a França.jpg

Digressão do Coro a França – Região da Alsácia. Março e Abril de 1980. Op. cit. Pg. 208

 Apresentou mais de 350 obras de 72 autores nacionais e estrangeiros. Participaram nestas atividades cerca de 520 coralistas, aproximadamente entre 40 a 60 por ano,

Leonor Martins de Almeida, único elemento ativo desde a fundação do Coro, recorda de forma emocionada a vivência que nele se vive, salientando que ao mesmo tempo que o Coro se foi afirmando pela sua qualidade artística, o grupo foi-se tornando mais coeso, um verdadeiro grupo de amigos … Em particular, nos naipes geraram muitas amizades para a vida.

Recorda ainda como foi assegurada a continuidade. Inevitavelmente, a idade já um pouco avançada do nosso querido «Chefe», obrigou-o a procurar por vários momentos, uma alternativa para a sua substituição como maestro do Coro. A Cristina Faria surgia sempre com a alternativa óbvia, mas ela entendia não ser ainda o seu tempo e o «Chefe» lá se foi mantendo e, finalmente, em 2009, a Cristina acabou por aceitar ficar como maestrina, a pedido insistente do Coro e do seu Pai.

 

Concerto de Reis, no Conservatório de Música de Concerto de Reis, no Conservatório de Música de Coimbra. 11.01.2020. Op. cit. Pg. 175

Via a Cristina Faria ainda criança, no início do Coro a deambular pela sala dos ensaios e, mais crescida, como soprano quando entrou para o Coro, em 1976. E que soprano! Uma voz belíssima … E agora ali estava ela, a dirigir o Coro, uma maestrina com muita «garra», com o seu estilo próprio.

Pereira, I.B., Pedro, I., Figueiredo G.T. Coordenadores. Coro D. Pedro de Cristo. 50 anos: memórias e história(s). 1970-2020. Coimbra, Coro D. Pedro de Cristo – Associação Cultural.

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por Rodrigues Costa às 18:21

Terça-feira, 13.10.20

Coimbra: Coro D. Pedro de Cristo 1

Foi recentemente pulicado o livro Coro D. Pedro de Cristo. 50 anos: memórias e história(s). 1970-2020. Com estas três entradas – constituídas por textos e imagens ali publicadas – queremos homenagear um Coro que tem honrado a cidade de Coimbra e levado o seu nome por esse Mundo fora. Pelo meu lado, simplesmente: OBRIGADO.

Coro D. Pedro de Cristo, capa.jpgCoro D. Pedro de Cristo. 50 anos: memórias e história(s). 1970-2020, capa

No programa do seu 1.º concerto, realizado em 16 de maio de 1970, era referido.

O Coro D. Pedro de Cristo, para além da cultura dos seus componentes e convivência através do canto, propõe-se contribuir para a animação e renovação das liturgias, bem como para a difusão da arte musical para um público que geralmente não participa em espetáculos.

Tudo tinha começado quando o Doutor José Antunes, um dos elementos fundadores do Coro, em Março de 1970, ao ter conhecimento de que o Dr. Francisco Faria se encontrava desvinculado da direção artística do Coral de Letras da Universidade de Coimbra, procurei, de imediato, o bom e grande amigo de longa data. Encontrámo-nos, e em conversa muito franca e cordial, comunicou-me que muito ambicionava fundar um Coro. Dada tão peculiar coincidência de planos e até de objetivos entre ambos, sugeri então ao distinto maestro que poderia levar por diante o seu auspicioso projeto, criando e integrando um Coro do Centro de Estudos Teológicos, como prolongamento da cadeira de Liturgia, comprometendo-me, pela minha parte, a proporcionar condições favoráveis e sede própria. E foi assim que com um misto de bom entendimento e de júbilo, surgiu, em boa e ditosa hora, o grupo coral denominado (por feliz sugestão do Dr. Francisco Faria), Coro de D. Pedro de Cristo. Um nome, aliás, recebido com plena satisfação por todos os seus primeiros componentes, porquanto evocava e prestava merecida homenagem a um insigne e grande compositor português, dos finais do século XVI e princípios do século XVII, o Cónego Regrante D. Pedro de Cristo (1550-1618), verdadeiro "esplendor musical" do prestigiado Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

 

Concerto nos Claustros do Mosteiro de Santa Cruz.j

Concerto em 19.06.1970. Claustros do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Op. cit. Pg. 178

 Não admira, por isso que um bom grupo de jovens universitários, constituído por crentes e não crentes, assim como outros elementos fora da Universidade, tenham aderido, de imediato, ao Coro D. Pedro de Cristo, logo que surgiu como grupo, no meio académico, desejosos de levar a todos os recantos a boa arte musical, bem conscientes, como hoje, de que a difusão do belo não tem fronteiras.

Basílica de S. Pedro em Roma.jpg

Basílica de S. Pedro em Roma, 02.12.2010. Depois da participação na missa. Op. cit. pg. 256

Pereira, I.B., Pedro, I., Figueiredo G.T. Coordenadores. Coro D. Pedro de Cristo. 50 anos: memórias e história(s). 1970-2020. Coimbra, Coro D. Pedro de Cristo – Associação Cultural.

 

 

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por Rodrigues Costa às 12:38

Terça-feira, 14.04.20

Coimbra: Presumível capela junto ao Convento de S. Francisco

No passado dia 2, publiquei uma entrada com o título “Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 2” e, relacionada com ela, um leitor questionou-me no sentido de saber que estrutura é aquela que se vê à frente do convento … seria alguma capela de alminhas/via sacra como existe na ladeira que desce de Sta. Clara-a-Nova?
Referia-se ao edifício quadrangular que se visualiza na fotografia então publicada.

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios.jpgComplexo industrial da Fábrica de Lanifícios em Santa Clara. Finais da década de 70 do século. Fotografia do arquivo particular de Pedro Planas Meunier, acedida, em https://www.publico.pt/2019/07/08/local/noticia/ascensao-queda-fabrica-coimbra-1878945

Dessa estrutura, a partir de uma outra fotografia, obtivemos o seguinte pormenor que a mostra numa posição frontal.

Presumível capela no antigo Rossio de Santa ClaraPresumível capela no antigo Rossio de Santa Clara, hoje Praça das Cortes (pormenor)
Col. Carlos Ferrão

Respondi que, embora ainda me lembrasse do edifício, nada sabia sobre o mesmo, razão pela qual iria tentar obter algumas informações.

A primeira ajuda veio-me de Carlos Ferrão que disponibilizou boa parte das fotografias utilizadas para ilustrar esta entrada e suscitou várias hipóteses referidas mais à frente.
Uma vez na posse das fotografias pedimos uma opinião a Nelson Correia Borges que nos adiantou o seguinte parecer: Relaciono essa construção com os torreões que existem no terreiro da nossa antiga escola [a Brotero, atual Jaime Cortesão], com um que ainda está a meio da Av. Sá da Bandeira e mesmo com os da entrada no jardim de Santa Cruz.

Antigo torreão da cerca do Mosteiro de Santa CruzAntigo torreão da cerca do Mosteiro de Santa Cruz, localizado na Av. Sá da Bandeira
Imagem do Google Maps

Numa das fotos vê-se bem o cuidado tratamento que foi dado ao lintel da porta e ao óculo superior, pelo que não tenho dúvida que a construção será bem anterior à Fábrica. Estes elementos parecem poder ser datados da segunda metade do século XVIII. Para o que serviria? Inclino-me para uma finalidade de tipo religioso e poderia ter albergado o cruzeiro viário referido pelo Prof. Nogueira Gonçalves. É evidente que teve intervenção posterior, como se vê pelas janelas laterais que se detetam em fotografias. Trata-se, no entanto, de mera hipótese de trabalho.
Perante esta pista, guiados pela mão de Regina Anacleto, chegamos ao Inventário Artístico de Portugal. Cidade de Coimbra e a um texto de Nogueira Gonçalves.
O primeiro, o Inventário, descreve o local, dizendo que dava acesso à Igreja do Convento de S. Francisco uma escadaria dupla, paralela ao adro, existindo uma grande cruz no muro em posição medial.
Na estrada, havia um cruzeiro do século XVII, que pela modificação viária, ficou metido na entrada da fábrica. (In: Correia, V., Gonçalves, A. N. Inventário Artístico de Portugal – Cidade de Coimbra. Lisboa, 1947, pg. 91).

Edifício inserido na entrada da fábrica.jpgEdifício inserido na entrada da fábrica
DGARQ - Centro Português de Fotografia (Estúdios Tavares da Fonseca), pormenor

O segundo, de Nogueira Gonçalves, diz-nos que A região coimbrã teve predileção por certa variante de cruzei¬ros, aquela em que a cruz se abriga num templete, formado de quatro colunas e suportam cobertura hemisférica ou piramidal.
Na própria cidade levantaram se alguns.
A piedade que os ergueu foi os melhorando pelo tempo fora ordinariamente seguindo as seguintes fases.
Primeiramente deu se lhes uma lanterna ou lâmpada e uma caixa de esmolas. Fecharam se lhes depois três lados, por meio de paredes, e no quarto colocou se uma porta com gradeamento de ferro; valorizaram se as paredes internas com diversos reves¬timentos; dotaram se, nalguns casos, de altar. O santuariozinho completou se frequentemente com um corpo de capela, ou mes-mo, amparado de maior favor, foi substituído por uma autênti¬ca capela ampla. (In: A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em publicações periódicas. Coordenação de Regina Anacleto e Nelson Correia Borges. 2019. Coimbra, Câmara Municipal, I vol., pg.231)

Foram estes textos que nos levaram a eleger o título da entrada; contudo, eles não nos dão a certeza de que, inicialmente, teria sido essa a finalidade do edifício em apreço.

Como referimos, também batemos à porta de Carlos Ferrão que analisou as possíveis e diversificadas utilizações da estrutura depois da extinção das ordens religiosas e, consequentemente do convento, concluindo:
Independente do que teria sido antes, nos anos 20 do século passado, a estrutura, é apontada como sendo um Posto de Transformação (PT) de eletricidade da rede publica ligado à Fábrica de Santa Clara. Posto que era bidirecional, recebendo e injetando energia elétrica na rede pública.

Outra imagem do edifício.jpgOutra imagem do edifício
Col. Carlos Ferrão

Importa recordar que em Coimbra, existiram 21 centrais elétricas, todas termoelétricas. Uma de serviço público, as outras de serviço particular como a de Santa Clara, da empresa Planas & Cª que funcionou entre 1942 e 1947, com uma potência de 144 kW.
A fábrica por ser também produtora, era vendedora e compradora de energia à Câmara Municipal.

Depois de exploradas estas pistas concluímos que algo se adiantou, embora as dúvidas continuem a persistir.
Decorre daí o facto de serem bem-vindas outras informações passíveis de continuar a aclarar o assunto.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 10:44

Terça-feira, 07.04.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 3

Os esparsos registos contabilísticos que chegaram até nós reportam-se, sobretudo, aos anos de 1960 - em particular a 1961 e a 1969 -, permitindo-nos, deste modo, certificar a situação financeira da firma e, ao mesmo tempo, compreender as decisões tomadas no início da década seguinte. O valor total da rubrica Balanço de 1961 - calculado a 31 de dezembro do referido ano - fixou-se em 20.590.641$73, onde se inclui o lucro geral do exercício assente em 26461$46.

Logotipo de Planas & C.ª. 1967.jpg

Logotipo de Planas & C.ª. 1967. (APPM), pg. 54

… Na comparação possível com os valores registados em 1969, é notória a diminuição significativa do valor da unidade industrial, uma vez que o Balanço se fixou em 1 780 450$98, com a conta Ganhos e Perdas a registar um prejuízo de 55 793$75 … A solvabilidade da Fábrica de Lanifícios de Santa Clara encontrava-se comprometida e urgia uma tomada de posição por parte da gerência.
A crise não se cingiu somente à unidade conimbricense e deverá ser englobada num todo nacional e internacional do referido sector, uma vez que a massificação do pronto-a-vestir e a emergência das fábricas de confeção tornaram, de certo modo, obsoletos os métodos de negócio baseados, sobretudo, na venda de fazendas a grandes armazéns.
A alteração estrutural do mercado dos lanifícios já se notara nos finais dos anos de 1950 e tornou-se irreversivelmente mais forte na década seguinte.
...Tal como os artesãos que ajudara a eliminar, a Fábrica de Lanifícios de Santa Clara ia ser obrigada a reformular a sua forma de trabalho para produzir mais, mais depressa e mais barato, para tentar responder à solicitação de um mercado cada vez mais competitivo e menos sensível às simples gradações de cinzento de uma flanela".
A fundação, oficializada em 30 de Janeiro de 1970, da Dislan, de Lanifícios Santa Clara, Ld.", como unidade integrada na Planas & C.", tornou-se a resposta mais visível e direta, ainda que manifestamente tardia, face às novas exigências do mercado e dos consumidores.

Logotipo de Dislan, 1971, (APPM).jpgLogotipo de Dislan, 1971, (APPM), pg. 56

O seu tempo de vida foi manifestamente curto, uma vez que os "novos tempos" e as "novas vontades" trouxeram mudanças substâncias na vida política, económica e social do país.

Logotipo da Planas &D.ª, 1974 (APPM), pg. 57.jpg

Logotipo da Planas & C.ª, 1974 (APPM), pg. 57

… A "Revolução dos Cravos", iniciada na madrugada de 25 de Abril de 1974, terminou com 41 anos de Estado Novo e lançou as bases para a instituição de um novo contexto político sedimentado numa democracia plural e representativa.
… A instabilidade vivida afetou igualmente as pequenas e médias empresas do foro privado, como foi o caso paradigmático da Planas & C.ª, que não conseguiu colher os frutos da reestruturação efetuada anos antes, sobretudo com a entrada em funcionamento da Dislan, Ld.". Num extenso ofício enviado ao Ministério do Trabalho, de 15 de Junho de 1974, a unidade fabril conimbricense expõe, nos seguintes moldes, as dificuldades de solvabilidade então vividas: «Actualmente, e devido à conjuntura económica nacional, aliado aos grandes investimentos efectuados nas nossas empresas, estamos a viver uma tal dificuldade de sobrevivência, que a nossa situação é muito grave e crítica».
… o processo de recuperação e dinamização da empresa, elaborado por George Meunier e com a anuência dos principais credores … não produziu qualquer efeito capaz de anular as extremas dificuldades financeiras da firma e a sua falência tornou-se um dado certo e irreversível.
Ainda assim, verificou-se, da parte da comissão de trabalhadores, a tentativa de reabilitar a unidade industrial através da criação de uma cooperativa, registada com o nome de Clarcoop - Tecidos e Confeções Santa Clara, SCRL, acordando, em 1978, com o administrador da massa falida da Planas & C.", o aluguer do espaço sito no antigo convento de São Francisco e a utilização das máquinas, utensílios e móveis existentes, de modo a prosseguirem com a atividade de fabrico de lanifícios e de confeção de vestuário masculino!".

Logotipo da Clarcoop. 1979 (APPM), pg. 59.jpg

Logotipo da Clarcoop. 1979 (APPM), pg. 59

A citada firma trabalhou até finais de 1994 e encontrou-se oficialmente em regime de laboração suspensa já no ano seguinte, terminando, deste modo, a existência de 106 anos da indústria de lanifícios no lugar do antigo Rossio de Santa Clara.

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed.Pg. 64-70

 

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por Rodrigues Costa às 11:34

Quinta-feira, 02.04.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 2

A notícia da nova tentativa de criar uma unidade de lanifícios no antigo convento de Sâo Francisco da Ponte foi divulgada com regozijo pelo periódico «O Conimbricense», no dia 17 de março de 1888, invocando a oportunidade criada pela junção de «tres activos e habeis industriaes, todos de Sadadell, provincia de Catalunha, no visinho reino».
… A escritura de constituição da sociedade de comércio e indústria Peig, Planas & C.ª foi lavrada, em 24 de julho de 1888 … apresentando como finalidade «a fiação e manufactura de toda a espécie de tecidos de lã e estambre no edifício de São Francisco da Ponte».
... O período de montagem da estrutura fabril iniciou-se logo em abril de 1888, com a vinda de máquinas a vapor, caldeiras e teares mecânicos do estrangeiro, que, depois de montados nas salas do antigo complexo conventual, foram alvo de um período de testes para aferir o seu correto funcionamento, Finalmente, no dia 7 de dezembro, o periódico O Conimbricense anuncia «que se acha em plena laboração a fabrica de lanificios dos srs. Peig, Planas & C.ª, no edifício de S. Francisco além, da ponte. Estão trabalhando os differentes teares, fiações e cardas, e em geral todos os machinismos. Ainda bem que vemos em Coimbra a funccionar uma importante fabrica de lanificios, que pode vir a ser um forte incentivo para a creação de outras».

8-Excursao-FLSC-ao-Porto-usm-med-min[1].jpgPessoal da Fábrica em visita à Exposição Têxtil, no Porto. Fotografia de Lara Seixo Rodrigues, acedido em https://www.acabra.pt/2019/03/convento-sao-francisco-aborda-memorias-a-cores/

… Na aproximação da data comemorativa dos 50 anos de atividade (1938), os responsáveis pela empresa relembraram, em comunicado, a odisseia percorrida até então, enaltecendo a papel fundamental daqueles que nela labutaram e, em particular, as diligências iniciais dos sócios fundadores: «Se atendermos à vida difícil que têm atravessado as realizações industriaes portuguesas, particularmente nos lanifícios, o cincoentenário da Fábrica de Coimbra representa uma invulgar afirmação do valor conjunto dos seus dirigentes e dirigidos, pois todos se esforçaram atravez dos anos nem sempre fáceis e das circunstâncias quasi nunca propícias, por elevar sem descanso o progresso e o prestígio deste estabelecimento fabril».
… As mortes de Jaime Castanhinha Dória, em 9 de junho de 1956 e, no ano seguinte, de Vitorino Planas Dória (30 de junho) provocaram alterações significativas na direção da unidade fabril, a que se juntou o afastamento total de Luís Elias Casanovas, por já antever as dificuldades que o futuro dos lanifícios em Portugal, e da fábrica de Santa Clara em particular, teria com a emergência das unidades de confeção e do pronto-a-vestir. Entre saídas e decessos, podemos afirmar que se fechou um ciclo na gerência do estabelecimento fabril. Os novos tempos trarão novos donos, selecionados, uma vez mais, no seio familiar.

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios.jpg

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios em Santa Clara. Finais da década de 70 do século. Fotografia do arquivo particular de Pedro Planas Meunier, acedida, em https://www.publico.pt/2019/07/08/local/noticia/ascensao-queda-fabrica-coimbra-1878945

… Após o período fatídico de sucessivos falecimentos, a sociedade concentrou-se nas mãos dos herdeiros de Vitorino Planas Dória, dividindo-se pelas suas filhas Maria Irene Dória de Aguiar Planas Leitão, Maria Emília Dória de Aguiar Planas Raposo e Maria Vitorino Dória de Aguiar Planas Meunier, casada com o engenheiro George Greenwood Meunier (1926-1996). Este último tomará o comando da gestão da unidade fabril e, a 14 de dezembro de 1962, ascendeu ao estatuto de sócio a partir da compra das quota-partes pertencentes às irmãs da sua esposa.

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed. Pg. 37-59

 

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por Rodrigues Costa às 11:07

Terça-feira, 31.03.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 1

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aér

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aérea das instalações

A Fábrica de Lanifícios de Santa Clara apresenta-se como referência máxima do sector têxtil num polo citadino [de Coimbra) sem grandes tradições no referido do ramo, cujo período anterior à firma em evidência se pautou sobretudo, pelo amadorismo das confeções caseiras dos teares manuais e por tentativas de organização de módulos de produção de tecidos dos que não vingaram no tempo.

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidad

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidade

Neste último aspeto, atenda-se, como exemplo, à fábrica de tecidos da Rua de João Cabreira, fundada nos finais da centúria de Setecentos pelos empresários Manuel Fernandes e Guimarães, Manuel Fernandes da Costa e António Machado Pinto, ficando famosa pelos seus damascos «que se tornaram notáveis pelo gosto dos seus lavores e pelo ouro que entrava em muitos», segundo a apreciação do jornalista conimbricense Joaquim Martins de Carvalho.
Os mesmos negociantes fundaram, na cidade, outra unidade de produção de tecidos de algodão em vistosas instalações, uma vez que os relatos asseveram a existência na loja de materiais nobres como o bronze, o aço e madeiras do Brasil. O fornecimento da matéria-prima (fio de algodão) proveio de uma fábrica Tomar; de onde, igualmente, chegaram, para ocuparem um lugar no corpo de funcionários, Bernardo Ferreira de Brito, Paulo José da Silva Neves e Pedro Espingardeiro, epitetados de “habeis artistas”. Em termos de equipamento para produção, o citado espaço deteve 12 teares, cada um com 100 fusos, resultando num tecido de boa qualidade, «não obstante o motor ser de trabalho manual, e por isso sem a regularidade precisa; mas tudo venceu o machinista com a sua rara habilidade».
As causas subjacentes ao definhamentoe respetivo fecho dos dois espaços remetem-se para o roubo de uma porção significativa de fazenda por parte de um familiar dos sócios, bem como a instabilidade proveniente das invasões francesas e a abertura do mercado português aos produtos provindos da Inglaterra, numa consequência evidente do Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810.
Invoque-se, de igual modo, a importância da tentativa de implantação, já em 1875, da Fábrica de Fiação e Tecidos de Coimbra, uma vez que o objeto do presente estudo irá aproveitar as bases materiais deixadas por uma firma que não conseguiu estabelecer-se de modo definitivo e cujo projeto não deixou de espelhar um ímpeto de grandeza que trouxe em si o gérmen da própria derrocada. Se os primeiros tempos nos parecem auspiciosos, dada a grande procura na subscrição do capital social fixado em 150 000$000 réis – divididos em 1500 ações de 10$000 réis cada uma –, o conhecimento, por parte da opinião pública, dos detalhes da compra do convento de São Francisco da Ponte pela quantia, por muitos considerada exorbitante, de 30 000$000 réis, gerou a fuga do investimento inicial através da desistência de muitos dos subscritores.

Um «valente canudo».jpg

«valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade»

Apesar do citado revés, os membros da direção deram continuidade ao projeto, a partir da transformação do complexo conventual em unidade fabril, acrescentando ao edifício uma chaminé industrial, descrita pelo periódico A Voz do Artista como um «valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade».

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed.Pg. 27-29

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por Rodrigues Costa às 11:55

Terça-feira, 17.03.20

Coimbra: Uma História da Vida Académica

Da autoria de José Paulo Soares foi recentemente publicada a 2.ª edição, revista e corrigida, da obra Uma História da Vida Académica.

Capa.jpgCapa de Uma História da Vida Académica

Trata-se de um trabalho profusamente ilustrado e, da contracapa, extraímos o seguinte texto:

José Paulo dos Santos Soares é natural de Alcains (Castelo Branco) onde nasceu em 10 de março de 1936. Frequentou o Liceu Nuno Álvares em Castelo Branco, fim do qual se candidatou à farmácia em Lisboa, tendo depois pedido a transferência para Coimbra, onde chegou em 1955.

P. 25.jpg

Eis a “minha” primeira Tuna para onde entrei em Outubro de 1955.
In: Uma História da Vida Académica, pg. 25

P. 26.jpg

Ainda nesse ano fiz a minha inscrição nas Danças Regionais.
In: Uma História da Vida Académica, pg. 26

Integrou a Tuna Académica da Universidade e foi cofundador do grupo universitário de Danças Regionais, tendo sido elemento da ”República Klynic da Alta” (Não oficializada).

O livro traça as memórias da intensa vida académica do Autor. Passa pelas da sua permanência em Coimbra como estudante e também pelas rememorações das peripécias acontecidas a bordo do paquete “Vera Cruz”, aquando do Périplo de África, realizado em 1963, pela Tuna Académica da Universidade de Coimbra.

p. 127.jpg

Itinerário do Périplo de África
In: Uma História da Vida Académica, pg. 127

p. 155.jpg

Desembarque em Luanda
In: Uma História da Vida Académica, pg. 155

Explica o Autor a razão de ser deste livro.
Um dos meus netos entrou para a Universidade e eu, sem querer, senti-me velho! Já tenho um neto “Caloiro”! Então pensei em reviver nele, toda a minha juventude académica. Vida que ele vai iniciar e da qual lhe vou dar algumas “dicas”, do que foi a minha “passagem” pelos bancos da nossa vetusta e sempre querida Universidade de Coimbra.
Desiluda-se, contudo, quem pensar encontrar uma obra literária sobre assuntos académicos. Este “livro” não pretende, de modo algum, ser um documento que possa querer interpretar-se como uma verdade absoluta sobre, Praxe, Queima das Fitas, Latadas, ou quaisquer outras atividades académicas do meu tempo (e não só). Pretende, tão somente, lembrar a minha vida em Coimbra na década de 50, como entrei na Universidade de Coimbra, na Tuna, e principalmente a minha vivência na Tuna Académica da Universidade de Coimbra, no Grupo Universitário de Danças Regionais e na República “Klynica da Alta”.

Livro que se lê com muito agrado e que vai muito além do objetivo atrás referido.

Soares, J.P. 2018. Uma história de vida académica. Coimbra, Edição de Autor.

 

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por Rodrigues Costa às 11:00

Terça-feira, 25.02.20

Coimbra: Antigos caminhos e pequenos bairros a nascente da Cidade

Com esta entrada iniciamos a divulgação de alguns artigos publicados por Nogueira Gonçalves entre 1921 e 1991, principalmente em jornais. Este texto, um dos que mais nos tocou, integra a obra recentemente editada pela Câmara Municipal de Coimbra, intitulada “A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas”, que teve a coordenação de Regina Anacleto e de Nelson Correia Borges.
É nossa intenção voltar, uma e mais vezes, a este livro de grande valor histórico, escrito de uma forma admirável pela sua beleza e singeleza.

Nada mais natural pensar que a antiga estrada da Beira até á Portela tenha seguido um traçado que a atual decalca; o próprio terreno parece indicar esse lógico trajeto; e, todavia, não se deu isso.
Deixaremos para outra vez o caminho da rua da Alegria, Arregaça, seguindo para Marrocos, o caminho da via longa como outrora se dizia.
A estrada da Beira partia não da ponte mas da parte alta, da porta do Castelo.
Sigamo-la.
Passada a porta da fortaleza tinha-se logo abaixo ao lado direito o caminho que permitia voltar á cidade pela porta da Traição; à esquerda a estrada de Entremuros que levaria a Fonte Nova, de onde se tomaria para a porta Nova ou rua das Figueirinhas ou ainda se cortaria a norte para o Montarroio.
Além de entrada principal da cidade travessas várias pois daí se tomavam; não faltaria a qualquer hora gente a calcorrear o ponto de separação viário.

Aqueduto de S. Sebastião. Arco principal 03.jpgNa parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Coleção Regina Anacleto

Muito naturalmente o sítio, na parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Ao lado direito, aonde vinha bater o muro da velha quinta dos crúzios, havia um, como hoje, em frente ao aqueduto. Prolongava-se mais que agora (e duma demolição recente ainda nos lembramos todos), fazendo uma correnteza de casas, tendo só encostadas aos arcos e em frente, portanto das outras umas duas ou três.
Tinha para o lado da Penitenciária a modesta capela de S. Martinho, e em ponto levemente anterior o oratório do Santo Cristo das Maleitas, transformação dum cruzeiro de caminho.
Era este o fatal bairro popular que precedia a entrada das cidades fortificadas. Tabernas, pequenos negócios, gente sem eira nem beira, vivendo em tugúrios e pronta a qualquer serviço humilde, a alombar todos os carregos, a encarregar-se de qualquer recado, tudo isso aí ficaria.
Sigamos o caminho, passando sob o arco principal, pois que a topografia foi modificada com o muro do jardim botânico. Era aqui o ladeirento e pequeno campo de Santa Ana, com o chafariz, donde seguia o caminho de Celas e cortava o da Beira para o novo bairrozinho, o de S. José, tirando o nome do colégio conventual de S. José dos Marianos (hospital militar).
Logo na esquina, tal como hoje, lá esperaria sem sombra de dúvida outra taberna aos que vinham da cidade e aos que cansara a ladeira que nós iremos descer.
Paremos e deixemos que os nossos olhos repousem a despedir-se das duas casas que as demolições deixaram em pé por uns breves dias.
Uma das coisas mais incompletas que há pelo campo das ciências é a geografia humana; em nenhum livro dos vários que dela se ocupam e que percorri (em nenhum!) encontrei este capítulo: – a taberna fulcro da fixação dos agregados populacionais. Valia a pena estudá-lo e escrevê-lo, que daria perspetivas novas a esta ciência.
A taberna atual deverá representar uma série infinda delas. Já ali beberam as tropas de Massena, para não falar em tempos mais antigos. Quantos almocreves, carreiros, gente de todo o género por ali não passou, quantos mendigos ali não trocaram uns tostõezinhos por um bom copo, compensador da miséria e do abandono, dando-lhes um verdadeiro antegosto dum céu particular!
Não há sensibilidade nesta desgraçada terra, não há amor da tradição, escusado será pedir à fria gente da Câmara para a conservar no meio dum larguito, enramada de larga parreira e com um loureiro a dar sombra. Dentro de dias o balcão esmurrado e nodoento será tirado, desaparecerá aquele soalho aonde cuspiram centenas de gerações! Exultaram os higienistas, como é de seu mau instinto, e eu entristecer-me-ei por saber que os malandros que hoje me pedem um tostãozinho não terão aonde o ir empregar sem tardança!

S. Antoninho dos porcos 1.jpgCapela de Santo Antoninho dos porcos, na sua atual localização. Coleção Regina Anacleto

S. Antoninho dos porcos 2.JPGCapela de Santo Antoninho dos porcos, interior. Coleção Regina Anacleto

Começava a descida e, à capela de Santo Antoninho dos porcos (pois que ali se fazia o mercado deles) passava o caminho pelo desvio angular que ainda ali se vê, para depois se meter pela ladeira calçada das Alpenduradas.
No fundo da descida, depois do mercado e das traseiras da fábrica, atingindo o vale, encontrava-se, como hoje, o começo do bairro do Calhabé e que se continuava esgarçadamente até perto da passagem de nível, sítio este aonde todos nós conhecemos umas casas baixas.

Calhabé 7 CF.jpgNuma destas parece que viveu o velho Calhabé. Coleção Carlos Ferrão

Numa destas parece que viveu o velho Calhabé, prazenteiro e bebedor, mas que fora homem de representação.
Já outrora ninguém pensaria que ainda fosse cidade o Calhabé, bem ao contrário do que os justos fados talharam e que começa a realizar-se: o Calhabé ser a cidade e Coimbra um pobre bairro do mesmo Calhabé!
Podia-se descansar um pouco que uma nova ladeira esperava o caminhante. Lentamente subia-se á Portela da Cobiça.

Portela da Cobiça.JPGPortela da Cobiça. O que resta, no seu estado original, do percurso descrito

Lançado um último olhar à cidade afastada, transposto o colo, caminhava-se pelo vale transverso até ao rio, que depois se ia acompanhando para cima das Torres.

Barc do Concelho.JPGLocal onde funcionava a “barca do Concelho”

Em frente aos Palheiros esperava-se que a barca do concelho viesse da outra margem e nos transportasse.
A cidade, aonde ficava ela!
Não vale a pena continuar só pela esperança de a tornar a ver do alto do monte, vencida a longa e áspera ladeira.
Lá seguiriam os viandantes, pelo cume, até Carvalho. Por Poiares, Almas da Serra, (S. Pedro Dias) iriam cair na Ponte de Mucela, aonde buscariam agasalho conforme a sua bolsa.
A serra máxima, a da Estrela do pastor, esperava-os. Quantas horas não levariam, moídos do mau piso e da distância! Tudo isso tão longínquo, não é verdade? E, todavia, para a gente da minha infância e um pouco mais velha, com a melhoria das diligências e da estrada a macadame, quão próximo e compreensivo, que os tempos anteriores se poderiam fazer surgir sem espanto; como tudo está longe, porém desta gente que já foi embalada num bom automóvel!
«Diário de Coimbra», 1952.12.25.

Gonçalves, A. N. 2019. António Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas. Coordenação de Regina Anacleto e Nelson Correia Borges. Prefácio de José de Encarnação. Coimbra, Câmara Municipal. Volume II, pg. 498-500

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por Rodrigues Costa às 10:02


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