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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 07.12.21

Coimbra: Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra 2

Este papel na vida religiosa da região veio a ser reconhecido e reforçado em 1879 quando, a pedido de D. Manuel de Bastos Pina, bispo de Coimbra – e após várias vicissitudes, tentativas falhadas e persegui­ções – passou a funcionar no convento de Santa Teresa a Congregação Mariana de Maria Imaculada, destinada a leigos, sobretudo estudantes da Universidade.

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Convento de Santa Teresa, vista aérea

“Em 1897, as religiosas foram mesmo autorizadas, a título excecional, a permanecer no convento, depois do falecimento da última conventual. Para que a vida canónica regular pudesse prosseguir, vieram de Espanha três religiosas e em 1898 professaram mais sete noviças”.

A situação muda inteiramente em 1910, no contexto da revolução republicana. No dia 9 de outubro, “a comunidade de S. Teresa encontrou‑se rodeada pelos soldados e completamente isoladas de qualquer tipo de comunicação com os de fora; nem sequer podiam comunicar‑se com o capelão, P. Dr. António Antunes, mais tarde Bispo de Coimbra.” As reli­giosas são expulsas do convento e dispersas por várias comunidades, em Espanha. O edifício é entregue ao Estado e ocupado por serviços do Ministério da Guerra, mais concretamente o Hospital Militar.

Em 16 de dezembro de 1933, tendo mudado inteiramente o contexto político – em Portugal com a instauração do Estado Novo e em Espanha com a proclamação da República – dá‑se o restabelecimento do Carmelo em Coimbra: três das irmãs que haviam sido expulsas 23 anos antes e que ainda sobreviviam em Valência, no mosteiro de Corpus Christi – Glória do Coração de Jesus, Maria Luz de S. Teresa e Maria Isabel de Santa Ana – regressam, trazendo consigo outras três espanholas. Inicialmente alojadas em casa de familiar de uma delas, novamente na Arregaça, fixam‑se depois numa casa alugada, no Calhabé.

Em 26 de junho de 1934, chegam mais três do mosteiro madrileno de Loeches, entre as quais a nova prioresa, irmã Maria do Carmo do Santíssimo Sacramento, sendo esta data considerada, oficialmente, a da restauração do Carmelo, agora em casa da Ladeira do Seminário. Pouco depois (7/3/1937), a diocese cede‑lhes uma casa na Quinta do Cidral, aos Lóios, onde perma­necerão 10 anos.

Em 7 de março de 1946, após longas negociações, é reconhecido o direi­to de as freiras reocuparem o seu antigo convento, incluindo a cerca, a igreja e a casa do capelão, sendo o respetivo auto de entrega assinado em 14 de junho de 1946. Simbolicamente, as chaves são depositadas nas mãos da religiosa de quem tinham sido arrebatadas, em 10/10/1910, irmã Maria de Jesus.

Após as necessárias obras de reparação e limpeza, no dia 12 de janei­ro de 1947, as carmelitas saem da Quinta de Santo António, aos Lóios, e regressam solenemente ao seu convento. E para a irmã Maria Isabel de SantaAna foi efetivamente um regresso: tendo professado em 1905, foi expulsa em 1910, esteve exilada 23 anos, regressou a Coimbra em 1922, reentrou no seu convento em 1947, onde veio a falecer em 1959. O seu capelão nessa data, cónego Manuel dos Santos Rocha, será elevado ao bispado de Coimbra em 1948.

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Carmelita em oração

Desde então a comunidade tem florescido e daqui saíram algumas professas para fundar outras comunidades: em 1970 saíram 4 irmãs para fundarem um novo Carmelo em Braga e em 1994 saiu outro grupo de 7 irmãs para abrir um novo Carmelo na Guarda (e já em 1780 haviam saído 5 irmãs para a fundação do Carmelo de Viana do Castelo).

Em 1948, o Carmelo de Santa Teresa recebeu a sua irmã mais famosa deste século: a irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, ou irmã Lúcia, vidente de Fátima, que aí permaneceu até ao seu falecimento, em 2005.

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Estátua da Irmã Lúcia, inaugurada em 2013

No muro da frontaria do convento, voltado a norte, foi instalado um grande painel de azulejos comemorativo do centenário do seu nascimento;

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Recriação de uma cela

e junto ao muro do lado nascente foi construído um memorial, aberto em 2007, que permite ao público ver objetos que usou ou relacionados com a sua vida, bem assim como imaginar o dia‑a‑dia “na modéstia, na simplici­dade e despojamento”, próprio daquela comunidade.

Guedes, G.M.F. O Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra: inventário do acervo documental. In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. 26 (2013). Pg. 65 a 80.

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por Rodrigues Costa às 17:17

Sexta-feira, 15.10.21

Coimbra: Personalidades, Vergílio Correia

Vergílio Correia Pinto da Fonseca (1888-1944) foi uma das mais extraordinárias personalidades da cultura portuguesa do século passado.

Vergílio Correia com as insígnias universitária

Vergílio Correia com as insígnias universitárias, 1930. c© Museu Nacional de Castro. Acedido em https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/86865/1/Verg%C3%ADlio%20Correia.pdf

… Professor da Universidade de Coimbra, formou gerações de alunos na sensibilização pelo património histórico-artístico nacional, dentro de uma nova perspectiva de análise comparatista e globalizadora dos monumentos e obras de arte.

Vergílio Correia. Imagem acedida.png

Vergílio Correia. Imagem acedida em: http://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2017/05/2017-05-Vergilio-Correia-ProgramaV9.pdf

Estudioso apaixonado dos achados de Conímbriga, sobre a qual muito escreveu desde 1909, dedicou-se a investigá-los de modo profícuo; porém, como diz Jorge Alarcão, «a morte prematura sobrevinda aos 55 anos não lhe deu tempo de escrever sobre este oppidum a monografia que por força havia de trazer em mente». Já no campo da História da Arte deixou vasta bibliografia de referência ainda hoje incontornável, sobre temas como a tumulária gótica, a arte manuelina, a escultura e a pintura do Renascimento, a talha barroca, o azulejo, etc, bem como no campo da museologia, entre muitos outros temas em que foi observador pioneiro, e legou-nos ainda os dois grandes tomos do Inventário Artístico de Portugal (Cidade e Distrito de Coimbra), edição da Academia Nacional de Belas Artes, completados após a sua morte pelo seu amigo e fiel colaborador Padre António Nogueira Gonçalves e que são, também, absolutamente inovadores nos critérios de recenseamento e descrição de peças.

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Grupo de crianças descalças, em dia de Aleluia, provavelmente no Alentejo (sem/data). Vergílio Correia/Centro de Estudos. Acedido em: https://www.e-cultura.pt/artigo/22407

… Também na Etnografia os seus interesses se manifestaram, fruto do convívio inicial com José Leite de Vasconcelos, gerando artigos nas revistas Águia e Terra Portuguesa, ou a síntese Arte Popular Portuguesa, primeira sistematização no âmbito da nossa Antropologia antes dos discursos de folclorização e descaracterização associados à propaganda oficial do Estado Novo. Enquanto etnógrafo, arqueólogo e historiador de arte, além de museólogo, fotógrafo, ensaísta, pedagogo e professor universitário, Vergílio grangeou de justo renome internacional, dada a sua relação com os principais nomes na investigação nessas áreas pluridisciplinares, e gerou uma obra imensa, que a morte prematura aos cinquenta e cinco anos incompletou: por tudo isso, tem de ser considerado uma das figuras máximas da cultura portuguesa do século passado.

… Era, ademais, um homem de causas, educado nos princípios republicanos e defensor das liberdades cívicas. Foi militante do Partido Republicano Português desde a primeira hora, pertenceu às lojas maçónicas A Revolta, de Coimbra, e Acácia, de Lisboa … as ‘amizades perigosas’ com o grupo democrático do comandante Aragão e Melo, que levariam à sua breve prisão no Aljube, em 1932, por dar abrigo a um opositor à Ditadura. O reconhecimento das suas altíssimas capacidades permitiu, porém, que em tempos difíceis pudesse prosseguir a sua carreira universitária e museológica.

Avulta em toda a sua vasta obra uma personalidade extraordinária, com múltiplos interesses, muitas vezes esquecida pela desmemória e ingratidão dos homens mas que guarda plena atualidade e urge, por isso, voltar a conhecer.

Serrão, V. 2016. Vergilio Correia (1888-1944): Perfil de um grande historiador de arte e homem de cultura integral. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa 2013-2016.  3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 223-225. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 10:28

Quinta-feira, 29.07.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 29

Os obreiros das novas arquitecturas (continuação)

Mas não foram só os projetistas a imporem a sua marca na cidade, porque as arquiteturas que bordejam estes novos arruamentos apresentam, genericamente, uma matriz comum que passa pela utilização de cantarias lavradas, de azulejos e de ferros forjados. Trata-se da chancela que homens formados na Escola Livre das Artes do Desenho (ELAD) aplicavam nos imóveis que, obviamente não riscavam, mas decoravam.

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João Machado

Era esta a modernidade aposta na arquitetura que então se praticava numa cidade do interior, onde os artistas se viam impedidos, por inexistência, de frequentar uma Escola de Belas Artes. Se se compararem estas construções com as erguidas na capital, para já não falar com as das grandes metrópoles europeias, nota-se um atraso considerável. Contudo, a especificidade verificada na cidade do Mondego e patente na maior parte dos edifícios então edificados, permite-me rotular essas construções com o nome de ARQUITETURA ESCOLA LIVRE.

Fig. 51. António Augusto Gonçalves com um grupo

Fig. 51 – António Augusto Gonçalves com um grupo de alunos da ELAD numa visita de estudo.

É verdade que existem em Coimbra muitas obras deste período a caber no âmbito do ecletismo, mas todas elas apresentam a mesma matriz, baseada no gosto dos proprietários ou no saber dos canteiros que nelas trabalhavam. Ao fim e ao cabo, podem considerar-se o produto visível de uma cidade de província, fechada sobre si mesma, sem outros horizontes artísticos a não ser aqueles que a Escola Livre e também a Escola Industrial lhes proporcionavam.

Tem, frequentemente, sido feita referência à ELAD, isto é, à Escola Livre das Artes do Desenho. Como não havia em Coimbra uma escola de Belas Artes, António Augusto Gonçalves, homem dotado de grande capacidade de iniciativa e de vasta cultura, em 1878, acabou por fundar a Escola Livre, alfobre de muitos lavrantes que marcaram o panorama artístico de Coimbra, e não só, até cerca dos finais da terceira década de Novecentos.

A criação desta escola obedeceu “ao desejo de reunir todos os indivíduos que manifestavam aptidões artísticas, de propagar o estudo do desenho nas suas múltiplas aplicações às artes e às artes industriais, de tornar fácil e acessível a aquisição de conhecimentos sobre a forma de trabalhar os diversos materiais ensinando os princípios de estética indispensáveis à compreensão e interpretação das obras de arte”.

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‘Tugúrio de Almedina’

No ‘Tugúrio de Almedina’, onde as relações entre professores e alunos se estreitavam e confundiam, formaram-se serralheiros, canteiros, escultores, marceneiros, entalhadores, ceramistas e pintores, que procuraram colher ensinamentos válidos no campo da história da arte e que os utilizavam nas construções onde plasmavam o produto do seu labor.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:28

Terça-feira, 20.07.21

Coimbra: Forma e tipos de matrículas na Universidade

Até à Reforma Pombalina da Universidade em 1772 o registo de matrícula apresenta geralmente a seguinte informação:

Nome do aluno, naturalidade e filiação, sendo neste último caso apresentado apenas o nome do pai, seguido da informação sobre a data de matrícula e assinatura do aluno. No caso de alunos de ordens religiosas não é apresentado o dado de filiação.

Livro de Matrículas (1724-1725), fl.23.png

Livro de Matrículas (1724-1725), fl.23

Não é igualmente indicado o ano de curso, pelo que só compulsando todos os anos de frequência do aluno se pode saber exactamente os anos frequentados. No entanto, é comum ser indicado o grau de Bacharel no caso de o aluno já possuir este grau quando efectua a matrícula. Os livros apresentam as matrículas por ordem de Faculdades, sendo apresentada em primeiro lugar a Faculdade de Teologia, seguida de Cânones, Leis e Medicina. A matrícula na cadeira de Instituta (os designados alunos Institutários) ficou geralmente lançada antes dos registos da Faculdade de Medicina, mas pode também surgir depois destes.

Depois de 1772 são acrescentados os registos de matrícula das Faculdades de Matemática e Filosofia e deixa de existir a cadeira de Instituta. Os registos passam a ser apresentados por ordem alfabética e por ordem de ano de curso. A partir de 1793 passam a ser utilizados formulários impressos, com espaços em branco para neles se registar o nome do aluno, naturalidade e filiação. Na matrícula que ocorre no primeiro ano do curso ficou ainda regista a informação sobre as habilitações do aluno, em estudos preparatórios para o ingresso na Universidade (por exemplo: Latim, Retórica, Filosofia, Geometria).

Livro de Matrículas, Vol.21. (1792-1793), fl.17.p

Livro de Matrículas, Vol.21. (1792-1793), fl.17

O registo de matrícula apresenta ainda informação sobre a classe de ordinário ou de obrigado de cada aluno. Quanto aos alunos voluntários existem volumes próprios para o registo da matrícula nas Faculdades de Filosofia e de Matemática. Pode, eventualmente, surgir a informação, sobre a mudança de uma classe para outra, designada por trânsito do aluno, por exemplo de ordinário para obrigado, ou de voluntário para ordinário.

Livro de Matrículas, Vol.41 (1813-1814), fl.132.p

Livro de Matrículas, Vol.41 (1813-1814), fl.132

Após a reforma de 1911, de acordo com o Decreto com força de lei de 19 de Abril de 1911, no seu cap. IX, a matrícula é o acto pelo qual o aluno dá entrada na Universidade; por seu lado, a inscrição permite ao aluno, depois de matriculado, a frequência das diversas cadeiras e cursos. A partir desta data, os livros de matrículas passam a estar ordenados por cada Faculdade e não é dada indicação do ano de curso, uma vez que a matrícula diz respeito ao ingresso na Universidade e respectiva Faculdade. Até 1937 não indicam o ano de curso, ou mesmo o próprio curso a frequentar dentro de cada Faculdade. Estes dados só podem ser colhidos nos livros de Inscrições.

Livro de Inscrições, Vol.25 (1921-1934), fl.173v

Livro de Inscrições, Vol.25 (1921-1934), fl.173v

Bandeira, A.M.L. Percurso académico na Universidade de Coimbra, nos séculos XVI a XX (orientações para pesquisa). Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra. Acedido em: https://www.uc.pt/auc/orientacoes/UC_GuiaPercursoAcademico.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 13:00

Quinta-feira, 15.07.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 28

Os obreiros das novas arquitecturas

Os projetistas dos imóveis que neste período se iam edificando na cidade e especificamente no novo Bairro de Santa Cruz, a muitos dos quais já fomos fazendo referência ao longo do texto, eram, na sua maioria construtores civis, embora também encontremos o nome de condutores, mestres-de-obras e similares a riscarem prédios, a responsabilizar-se pela sua construção e a comprometerem-se, de acordo com regras estipuladas pela edilidade, com a segurança do operariado.

Através das deliberações tomadas na sessão da Câmara Municipal de Coimbra a 10 de setembro de 1908, fica-se a saber que, para poder assinar a planta de um edifício ou o projeto de modificação de uma qualquer fachada, teriam os autores de ser “engenheiros, arquitectos, desenhadores, ou condutores de obras públicas, ou mestres de obras devidamente inscritos”.

Contudo, um mestre-de-obras, para conseguir o diploma submeter-se-ia, obrigatoriamente, a um exame que, de acordo com o anúncio publicado na folha O Operario de Coimbra, constava “1.º Da leitura de um trecho facil da língua Portugueza; 2.º Das quatro operações sobre inteiras e decimaes; 3.º De calculos de areas e volumes das figuras mais usuaes; 4.º Da intelligencia e explicação de um plano de construcção civil; 5.º Do traçado de um pequeno projecto, copia ou original á escolha do candidato, que poderá servir-se de papel quadriculado; 6.º De noções geraes sobre materiaes de construcção, especialisando-se o que mais directamente se refira a estabilidade da cosntrucção e a segurança dos operários n'ella empregados”.

De entre os mestres-de-obras e os construtores civis a laborar na cidade, e naquele período, podem referir-se os nomes de “Abílio Augusto Vieira, de Cellas; Accacio Theodoro, da Portella da Cobiça; Antonio Augusto Pedro, Mont'Arroyo; Antonio da Silva Feitor, R. dos Militares; Antonio Simões; Benjamim Ventura; Francisco Antonio de Meira; Francisco de Campos; Francisco Collaço; João Antonio Maximo; João Gaspar Marques Neves; Joaquim Augusto Ladeira; Joaquim dos Santos Porto; Joaquim Simões Misarella; José Pedro de Jesus; José dos Santos Marques; Manuel Cardoso”.

Se se pensar, a nível de arquitetos e de acordo com o Annuario Commercial de Portugal, entre 1901 e 1925, apenas um, Augusto de Carvalho da Silva Pinto, aqui residia e mantinha atividade regular; contudo, não se pode escamotear a importância que neste período Raul Lino exerceu no contexto arquitetónico da cidade, quer através dos edifícios que projetou quer através da influência que a exposição dos seus trabalhos desempenhou tanto, lato sensu, na mentalidade da urbe, como no gosto de potenciais encomendantes.

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Fig. 49 – Assinatura do arquiteto Silva Pinto.

O primeiro, Silva Pinto, nasceu em Lisboa no ano de 1865 e faleceu na mesma cidade, onde foi procurar cura para os seus males, em 1938. Depois de ter terminado o curso especial de Arquitetura da Escola de Belas-Artes de Lisboa vai completar a sua formação na École des Beaux-Arts parisiense. Quando regressa de Paris, em 1895, fixa residência em Coimbra, dado que o arquiteto José Luís Monteiro, amigo do conde do Ameal, lho recomenda a fim de dirigir as obras de adaptação do colégio de S. Tomás, sito na Rua da Sofia, a residência do titular. A verdade é que se radicou na cidade e nela permaneceu até ao fim da vida, envolvendo-se nos mais diversos empreendimentos arquitetónicos e culturais que então se desenvolviam na urbe. Da sua mão saíram muitos e variados projetos de edifícios que espalham e espalhavam, porque alguns já desapareceram sob o camartelo cego dos poderes públicos, pela cidade; alem disso exerceu o magistério na Escola Brotero e envolveu-se com os cometimentos e com a “política” da urbe, e não só.

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Silva Pinto

O arquiteto Raul Lino nasceu em Lisboa a 21 de novembro de 1879 e aí faleceu a 14 de julho de 1974.

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Fig. 50 – Arquiteto Raul Lino.

Iniciou a sua formação em Inglaterra e, depois de 1893, continuou-a na Alemanha, onde foi discípulo de Albrecht Haupt, mestre que marcou profundamente o seu pensamento e a compreensão da corrente modernista.

Nos últimos anos do século XIX, certamente por influência de um take off tardio, Lisboa começou a crescer e muitas das novas zonas foram projetadas a partir dos princípios do design moderno vindo de Paris. Mas esses projetos não interessavam a Raul Lino, para quem os valores tradicionais e nacionais, como o amor pela pátria, para além de terem feito parte da sua formação, exerciam sobre ele uma profunda influência.

O alarife nutria uma grande simpatia pelos artistas de Coimbra ligados à ELAD, utilizando mesmo, e frequentemente, nos imóveis que projetava as cantarias e os ferros forjados saídos das suas oficinas; o gosto pela utilização azulejar como elemento decorativo também era comum. Esta afinidade talvez encontre explicação, porque Lino nutria o mesmo empenho, admiração e culto artístico pela arte nacional que encontrava seguidores em António Augusto Gonçalves e nos seus discípulos, homens que, em Coimbra iam “modestamente fazendo a renovação das nossas indústrias de arte”.

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Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, ‘Quim Martins’

Quim Martins, no seu jornal Resistencia, escrevia que em Raul Lino se encontra, o que era raro nos arquitetos, a preocupação com “physionomia da região, e com a côr da paysagem” e, além disso, “tira partido de tudo que possa dar um ar pittoresco e regional, á sua construção”.

Casa na Avenida Marnoco e Sousa. Projeto do Arquit

Casa na Avenida Marnoco e Sousa. Projeto do Arquiteto Agostinho da Fonseca. Foto Daniel Tiago, 2006

O artista, que frequentemente se deslocava a Coimbra, ao ter conhecimento de que se encontrava em projeto a abertura do Bairro do Penedo da Saudade, levou a cabo na sede do Instituto uma exposição dos seus trabalhos, porque, de acordo com o «Noticas de Coimbra» “ficariam ali muito bem prédios daquele tipo”; a mostra inaugurou-se no dia 14 de março de 1908.

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Av. Marnoco e Sousa, placa toponímica

O “festejado artista” vira já os seus méritos reconhecidos pela intelligenza da cidade que o fizera, em 1904, sócio do Instituto de Coimbra.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

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por Rodrigues Costa às 18:36

Quinta-feira, 08.07.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 27

Casa-Museu Bissaya Barreto

 Pegada ao Aqueduto de S. Sebastião, paredes meias com o Largo João Paulo II, ergue-se a casa que outrora foi residência do doutor Fernando Baeta Bissaia Barreto Rosa (1886-1974), atual Casa-Museu Bissaya Barreto.

O conhecido professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra adquiriu o terreno à edilidade, em 1923, por 51.615$18 escudos e o requerimento a pedir a autorização para a moradia ser erguida deu entrada na Câmara Municipal de Coimbra em janeiro de 1925; assinava-o, em nome do requerente, o construtor civil diplomado António Maia que também se responsabilizava pela segurança dos operários nos termos do regulamento de 06 de junho de 1895.

Tanto o projeto como a orientação da construção da casa foram entregues a um gabinete de arquitetura de Lisboa, “Fiel Viterbo L.da”, que não deixou rasto no panorama arquitetónico nacional.

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Fig. 47 – Fachada principal da moradia de Bissaia Barreto. Fiel Viterbo, L.da. [AOCMC. Proc. 01-96/1925].

Fig. 48. Casa de habitação de Bissaia Barreto.[F

Fig. 48 – Casa de habitação de Bissaia Barreto. [Foto RA].

Portão da casa de habitação de Bissaia Barreto.

Portão da casa de habitação de Bissaia Barreto. Foto Maluisbe

 moradia, que apresenta uma planta em forma de “L”, não possui um estilo arquitetónico definido: trata-se de um edifício ambíguo que oscila entre a ‘casa portuguesa’ e o neobarroco, mas ultrapassa, de qualquer modo, os parâmetros costumeiros. A escadaria desenvolve-se no ângulo formado pelos dois braços do corpo do imóvel que é coroado por um largo torreão octogonal fenestrado. O conjunto da casa e do jardim reflete o gosto e o requinte do proprietário que juntou elementos de outrora com peças atuais saídas das oficinas dos artífices conimbricenses. Os ferros forjados, de gosto neorrenascentista, que se observam nos portões e nas aberturas do muro, constituem um bom exemplo.

Portão da casa de habitação de Bissaia Barreto.

Portão da casa de habitação de Bissaia Barreto. Ferros forjados, pormenor. Foto RA

A consulta da documentação existente no arquivo da Fundação permite concluir a omnipresente participação do encomendante na construção da sua residência, mesmo face às orientações do arquiteto, bem como aquilatar a sensibilidade artística de Bissaia Barreto até, e principalmente, quando estavam em causa os pormenores.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

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por Rodrigues Costa às 19:32

Quarta-feira, 07.07.21

Coimbra: As Últimas Ceias de Nunes Pereira

No Seminário Maior de Coimbra, que presentemente se encontra em obras de recuperação, justamente no local onde Monsenhor Nunes Pereira teve a sua última oficina

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Nunes Pereira na sua oficina. Fotografia RA

e que atualmente se designa Museu Nunes Pereira, encontra-se patente ao público uma belíssima exposição intitulada “As Últimas Ceias de Nunes Pereira. Das Ceias à Ceia”, onde são apresentados alguns dos seus trabalhos relacionados com esta temática.

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“As Últimas Ceias de Nunes Pereira. Das Ceias à Ceia”, cartaz

Trata-de de uma pequena mostra – a exiguidade do espaço não permite mais – apresentada com grande despojamento, mas respeitando com dignidade a personalidade do Artista. Centra-se na apresentação de uma interessante coleção de “Últimas Ceias” que se materializam em diversos tipos de suporte, das quais apresentamos as seguintes obras.

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Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 1

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Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 2

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Nunes Pereira. Folha de sala. Última Ceia, 3

Para além da exposição, o visitante pode ainda visualizar a nossa Cidade a partir de um ângulo pouco conhecido, desfrutar de um pequeno espaço de lazer, deleitar-se com um gelado caseiro de qualidade e fruir de um baloiço que parece voar sobre o rio. Tudo sem problemas de estacionamento.

A folha de sala apresenta uma breve explicação sobre o significado da celebração da Última Ceia e apresenta-a como um local de encontro com a própria pessoa, de conversão e de perdão; onde o outro é mais importante, onde a vida é celebrada. Lugar de tomada de decisões e de tensão. Se pensarmos bem, a vida humana gira muito em torno deste lugar: a Mesa.

Refere ainda que as “Últimas Ceias de Nunes Pereira – Das Ceias à Ceia –“, constitui um percurso que mostra a forma como o artista plasmou, o Memorial – a Eucaristia – contido e inscrito em cada uma das suas obras: Jesus à mesa, ao centro, ladeado de seis apóstolos de cada lado, o pão e o cálice ao centro a serem abençoados e a ação de graças, evocada de vários modos, por parte de cada um dos apóstolos. Percurso que permite “saborear”, interiorizar e valorizar o significado da mesa, do alimento e da presença do outro na nossa vida. Lugar de gratidão, de conhecimento e de reconhecimento.

A exposição, promovida pelo Seminário Maior de Coimbra e que teve como curadora Cidália Santos, pode ser visitada, de Segunda a Sexta-feira, às 14h, 15h, 16h, 17h e, aos sábados, às 10h, 11h, 12h, 14h, 15h, 16h, 17h.

O uso de máscara é obrigatório e a marcação da visita deve ser feita com, pelo menos, 1 dia de antecedência, em:

 https://www.seminariomaiordecoimbra.com/pt/visitar-seminario/  

Em suma, não se pode deixar de visitar esta exposição, de relembrar essa personalidade ímpar da nossa cidade que foi Monsenhor Nunes Pereira e, simultaneamente, desfrutar a beleza do local.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:29

Terça-feira, 29.06.21

Coimbra: Mosteiro de Santa Maria de Celas

O Real Mosteiro de Santa Maria de Celas de Coimbra foi fundado por volta do ano de 1221 no ”celebre vale de Vimarães, e na extremidade do mais formoso arrabalde de Coimbra”.

Mosteiro de Celas, igreja. Foto Vítor Oliveira.jp

Mosteiro de Celas, igreja. Foto Vítor Oliveira

Na descrição feita por Frei Bernardo da Assunção, baseada nos documentos existentes no cartório deste mosteiro e mandada fazer pelas abadessas Maria Manuel e Maria de Mendonça, esta última eleita no ano de 1648, narra assim:

- “Dona Sancha, filha do rei Sancho I, (…) que viveu alguns anos neste lugar; acho memória sua do ano de mil e duzentos e dezanove em que fez algumas compras de fazenda, assi neste sítio e em lugares circunvizinhos (…). Mas como esta rainha não teve a quietação que era devida à qualidade de sua pessoa, pois em um tempo estava em Alenquer, em outro em Montemor, não pode efectuar o que o seu bom ânimo lhe pedia, que era aperfeiçoar este convento, para o qual intento pedio ao arcebispo de Braga e ao bispo de Coimbra lhe assinassem lugar para fazer hum oratório para viver com algumas religiosas em recolhimento, oração e contemplação: Foi-lhe concedida a licença (…) do tempo em que se concedeu esta licença não consta ao certo, porque não relata a concessão o ano em que foi passada, somente se faz menção do mês em que se concedeu: desta porta do sol e lugar dela não acho memória certa: devião de escolher este sítio como mais acomodado a seu intento, assim pela abundância das águas como pela fertilidade da terra e temperatura dos ares. Foi ordem da Divina bondade se fundasse tão religioso e observante mosteiro (…)”. [Livro de Títulos e Memórias Antigas MSMCCBR-35].

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Compra que fez a Rainha D. Sancha de uma vinha, olival e seu lagar na quinta de Guimarães, Coimbra. 1261.

Mais adiante narra o mesmo livro: “Suposto que este mosteiro de Santa Maria de Celas se possa dizer que na vila de Alenquer teve seu principio. Assim por a rainha Dona Sancha, filha e El-rei Dom Sancho primeiro do nome e segundo deste Reino, Senhora daquela vila ser sua padroeira: Como por haver primeiro naquela vila religiosas, que eu per notícia alcancei, não serem mais de sete, nem o sítio he capaz de mais gente: no qual sítio está ainda hoje uma capela da feitura da deste convento, e se chama Santa Maria, aonde a santa fazia muitos milagres”.

Compra que fez a Rainha D. Sancha de uma Almoínha

Compra que fez a Rainha D. Sancha de uma Almoínha, além da Ponte, que parte de nascente com o rio Mondego, de poente com vinha de Santiago da Ponte, de norte com azinhaga e do sul com almoínha de Santiago. 1262.

A sua fundadora mandou fazer uma igreja e dependências à sua volta, onde se recolhem as freiras. Do primitivo mosteiro cisterciense pouco resta, pois que o mesmo sofreu obras de vulto, nos séculos XVI e XVIII.

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Traslado da Carta de escambo feita entre El-rei Dom Dinis e o mosteiro de Celas. 1306.

Este mosteiro, dada a sua estirpe, foi escolhido por muitos ilustres para aqui colocarem as suas filhas

Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" e pelo Decreto de 30 de Maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respectivos bispos, até à morte da última freira, data do seu encerramento definitivo.

Em carta datada de 1837, diz que as religiosas deste mosteiro são 22 e estão reduzidas ao último apuro.

Com o falecimento da última freira em 15 de Abril de 1883, encerrou o Mosteiro de Santa Maria de Celas de Coimbra.

A irmandade de Nossa Senhora da Piedade, fundada em 1624, na Igreja de Nossa Senhora da Piedade de Celas de Coimbra, toma conta do mosteiro.

Mosteiro de Celas, claustro.jpg

Mosteiro de Celas, claustro

Em 1891 foram as suas instalações utilizadas para asilo de cegos e aleijados, em 1932 são as mesmas instalações aproveitadas para sanatório de mulheres, e desde 1977 que ali funcionou o Hospital Pediátrico de Coimbra.

O seu património documental passou a estar à guarda da Repartição de Finanças do Distrito de Coimbra.

Em 1937, o Ministério das Finanças – Direcção Geral da Fazenda Pública em cumprimento do Despacho Ministerial de 4 de Janeiro, ordena a transferência da documentação para o Arquivo da Universidade de Coimbra. O mesmo despacho acaba por ser executado a 28 de Dezembro de 1937.

Capela, L.C. Mosteiro de Santa Maria de Celas de Coimbra. Acedido em https://www.uc.pt/auc/fundos/ficheiros/MOS_SantaMariaCelasCoimbra.pdf

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quinta-feira, 24.06.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 25

Os estabelecimentos prisionais de Coimbra - Penitenciária

A Rua de Tomar, tal como a Garrett delimitam parcialmente, se é que assim se pode dizer, o Bairro de Santa Cruz e a primeira, conjuntamente com a Rua Pedro Monteiro e com a Rua Infantaria 23 contornam os estabelecimentos prisionais de Coimbra.

Na sequência da Reforma Penal e de Prisões acontecida em 1876, que avançava com uma nova maneira de olhar os reclusos e se debruçava sobre as condições físicas e morais em que estes eram mantidos, tornou-se premente renovar os edifícios prisionais.

Em Coimbra foi escolhido espaço pertencente outrora ao Colégio de Nossa Senhora da Conceição, de Tomar ou de Cristo, onde se instalavam os alunos pertencentes àquela Ordem e que frequentavam a Universidade.

Fig. 42. Colégio de Tomar. 1870. [Monumentos, 25,

Fig. 42 – Colégio de Tomar. 1870. [Monumentos, 25, p. 42]

A estrutura fora erguida no âmbito da transferência dos Estudos Gerais para a cidade, em 1537, por ordem de D. João III. Face ao processo de desamortização, em 1852, o Colégio a sua cerca foram vendidos a um particular e, posteriormente, adquiridos pelo município que acabou por ceder o espaço, a fim de nele ser construído um estabelecimento prisional.

A Penitenciária mondeguina segue o risco de Adolpho Ferreira de Loureiro, engenheiro que já anteriormente foi referido. Convém esclarecer que, bastas vezes, a autoria do projeto aparece, erroneamente, atribuído ao engenheiro Ricardo Júlio Ferraz (1824-1880).

Fig. 43. Penitenciária em construção [Revelar C

Fig. 43 – Penitenciária em construção [Revelar Coimbra, 46].

A cadeia Penitenciária de Coimbra começa a ser construída em 1876, inaugurou-se em 1894, mas só em 1901 entraram no estabelecimento os primeiros dez reclusos, embora o edifício, depois de concluídos os trabalhos, estivesse apto a receber mais oitenta presos.

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Penitenciária já concluída.

O referido estabelecimento prisional segue o modelo panótico radial, de planta em cruz latina, e mostra “4 alas ortogonais em volumes de predominante horizontal, das quais 1 maior e 3 de média extensão, conjugadas com 4 alas menores inseridas em volume poliédrico octogonal, configuram um conjunto de 8 braços irradiando a partir de um ponto focal ou panóptico, assinalado por espaço de acentuada verticalidade”.

Na sua construção predomina o ferro, a madeira e o vidro, tendo o primeiro, nesta obra, um papel muito relevante bem visível na estrutura da cúpula ou nos pormenores (guardas, claraboias, óculos, etc.).

No caso conimbricense, a especificidade radica ainda no recurso ao vocabulário neogótico, presente nos vãos em arco quebrado, nos muros ameados e em outros elementos.

Pode afirmar-se que a este contexto não estará “seguramente, alheio o contributo dos mestres da Escola Livre das Artes do Desenho de Coimbra”.

Fig. 44. Penitenciária e Bairro de Santa Cruz. 19

Fig. 44 – Penitenciária e Bairro de Santa Cruz. 1915. [Monumentos, 25, p. 126].

A adaptação ao terreno envolvente, a erudição das casas do diretor e dos chefes de guarda, as oficinas (que tornaram este espaço numa cadeia-oficina) e os logradouros revelam um traçado erudito que reforça a originalidade do projeto.

A cúpula da Penitenciária, feita em 1887, saiu da forja de Manuel José da Costa Soares, dono de uma alquilaria, sita à Rua da Sofia, na inacabada igreja de S. Domingos e que, ao fundo, um pouco afastado da entrada, montara a fundição. Os seus trabalhos de ferro já eram conhecidos, pois, como referi, é também da sua responsabilidade a parte metálica do Theatro-Circo, erguido na Avenida Sá da Bandeira.

Fig. 45. Penitenciária. Cúpula. [Foto RA].JPG

Fig. 45 – Penitenciária. Cúpula. [Foto RA].

Construído expressamente para o efeito, este edifício prisional conserva as suas características originais, constituindo um dos três exemplos de planta radial existentes no nosso país.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf.

 

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por Rodrigues Costa às 10:59

Quinta-feira, 17.06.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 24

O monumento aos Mortos da Grande Guerra

A chamada Primeira Grande Guerra, que se desenrolou entre 1914 e 1918 envolveu as grandes potências de todo o mundo e o nosso país acabou por também não assumir uma posição neutral.

As primeiras tropas nacionais, pertencentes ao Corpo Expedicionário Português partiram, em 1917, para o campo de batalha; dirigiram-se, num primeiro momento, para a Flandres e passaram, posteriormente, a combater em França.

Dos quase duzentos mil homens que chegaram a estar mobilizados, cerca de dez mil perderam a vida e os feridos cifraram-se em vários milhares; além disso, os custos económicos e sociais gerados pela conflagração mostraram-se gravosos para Portugal.

O desejo de perpetuar a participação portuguesa no conflito levou a que se organizasse, em 1921, a Comissão dos Padrões da Grande Guerra que serviu de base à intenção do governo republicano de, por um lado, fazer perdurar e homenagear o nome daqueles que haviam perdido a vida na guerra e, por outro, veicular os valores nacionalistas de uma Pátria triunfante.

Em Coimbra começou-se, de imediato, a pensar em corporizar a ideia e, logo em 1922 aparece na imprensa o projeto de um monumento aos Mortos da Grande Guerra saído da mão do canteiro-escultor António Francisco dos Santos, Filho.

Projeto de António Francisco dos Santos, Filho.jp

Projeto de António Francisco dos Santos, Filho

A ideia não se concretizou e só anos mais tarde, a 05 de outubro de 1930, foi lançada a primeira pedra do padrão, não sem que antes se tivesse desenrolado uma forte polémica em torno da sua localização.

Acabou por ser erguido no jardim central da Avenida Sá da Bandeira, na zona fronteira ao que hoje é o quartel da Polícia Municipal.

A iniciativa da construção do monumento partiu da Câmara Municipal de Coimbra e da comissão da Liga dos Combatentes sediada na cidade e teve por base o projeto delineado pelo escultor Luís Fernandes de Carvalho Reis (1895-1954) e pelo arquiteto António Varela (1903-1962); a inauguração aconteceu a 10 julho de 1932.

Fig. 41. Monumento aos Mortos da Grande Guerra. [F

Fig. 41 – Monumento aos Mortos da Grande Guerra. [Foto Manuel da Costa].

Monumento aos Mortos da Grande Guerra [Foto RA].JP

Monumento aos Mortos da Grande Guerra. Foto RA

Monumento aos Mortos da Grande Guerra. Pormenor [F

Monumento aos Mortos da Grande Guerra, pormenor. Foto RA

Estamos perante um monumento, arcaizante, a filiar-se em modelos do final do século XIX, inícios do XX, constituído por sólidos blocos de pedra justapostos onde se destacam, encostados a um pedestal troncopiramidal quatro soldados em sentido, com indumentária da época, segurando a arma ao alto, junto do peito; além de mostrar uma certa rigidez plástica, encontra-se decorado com alguns símbolos nacionais e remata com a figuração de uma bala.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf.

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por Rodrigues Costa às 10:25


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