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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 02.12.21

Coimbra: Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra 1

O convento de Santa Teresa de Jesus, em Coimbra, pertence ao ramo das Carmelitas Descalças e remonta à 1ª metade do século XVIII. A fun­dação deste Carmelo parece ter correspondido à vontade e ao fervor religioso de vários sectores da sociedade e das autoridades religiosas da cidade. Citem‑se, entre outros, a determinação e os esforços de frei Luís de Santa Teresa, nascido Luís Salgado, mais tarde bispo de Olinda, que, após ter frequentado o Colégio das Artes e as Faculdades de Cânones e Leis, onde atingiu o grau de Doutor e onde foi, igualmente, professor – além de juiz corregedor da comarca – abandonou a promissora carreira das leis e, em 1723, com 30 anos de idade, ingressou nos Carmelitas, no Convento de Nossa Senhora dos Remédios, de Lisboa … Na década de 30 regressou a Coimbra “animado pela ideia de aí fundar um convento de Carmelitas Descalças, para o que pedia esmolas de porta em porta, fazen­do os mais servis trabalhos”.

Em 6 de junho de 1737, a Câmara concede licença para a fundação de um convento de Carmelitas Descalças na cidade, por proposta de um grupo de cidadãos encabeçado pelo Doutor Manuel Francisco, professor jubilado da Faculdade de Medicina, que tomam a seu cargo a busca de um local apro­priado, o qual vêm a encontrar no denominado Casal do Chantre, então situado nos arrabaldes. Em 20 de janeiro de 1739, o rei Magnânimo promul­ga a provisão que autoriza a fundação do convento e na tarde do dia 14 de fevereiro chegam as 11 religiosas que o Provincial, Frei Manuel de Jesus Maria e José, nomeara para o efeito, oriundas de vários outros conventos da ordem, em Portugal. Hospedam‑se no vizinho Convento de Sant’Ana, das religiosas de Santo Agostinho. No dia seguinte, são recebidas na igreja do Colégio dos Carmelitas Descalços – Colégio de S. José dos Marianos, atualmente Hospital Militar – com um solene Te Deum. Daí seguem para a quinta de Simão Pereira Homem, sita na Arregaça, onde permanecerão por quatro anos.

No dia de Nossa Senhora das Dores, 9 de abril, de 1740 é lançada a 1ª pedra do convento, num terreno doado pelo cónegochantre da Sé, Manuel Moreira Rebelo. O projeto – muito simples e austero, como fica bem a uma congregação com estas características – é da autoria do arquiteto carmelita Frei Pedro da Encarnação e estaria elaborado desde 1714. O conjunto “é artisticamente modesto, valendo unicamente pelos portais de entrada da igreja onde se crava o milésimo de 1744, e pelo retábulo barroco da capelamor.

A planta do templo privativo é simples, de uma só nave de forma retangular, com um coro alto, uma abóbada de tijolo, uma capela única de cabeceira e uma cúpula no cruzeiro.

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Convento de Santa Teresa, interior

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Convento de Santa Teresa, capela-mor

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Convento de Santa Teresa, portal

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Convento de Santa Teresa, pormenor do portal

” Nesta igreja será sepultado, com grande solenidade, o pintor italiano Pasquale Parenti ou Pascoal Parente, que deixou notabilíssima obra espalhada por todo o país e especialmente por Coimbra e pela região centro, na 2ª metade do século XVIII. À volta do claustro, de cinco arcos de cada lado, dispõemse as dependências monacais, sendo os dormitórios no andar superior.

A 23 de junho de 1744, as religiosas Carmelitas deixam as instalações precárias, embora adaptadas, na Arregaça, e fazem a sua entrada no convento construído expressamente para elas e para as características da sua vida contemplativa e de clausura – tendo o sermão da trasladação sido proferido por Estanislau Manso, Sociedade de Jesus.

Aí permanecem sem grandes percalços, durante quase um século, acrescentando o número de professas e granjeando a simpatia da cidade.

Porém, a revolução liberal e as guerras que se lhe seguiram como, antes, as invasões francesas, trouxeram incertezas e perturbações a que nenhuma comunidade ou instituição ficou alheia.

…O Carmelo de S. Teresa viu serem‑lhe subtraídos os poucos bens que possuía e a iminência da extinção pesar‑lhe sobre a cabeça, uma vez que fora proibida a admissão de noviças.

Porém, em breve “a tempestade passou”; poucos anos depois, a igreja de Santa Teresa era, mesmo, um centro de vida espiritual altamente marcante na cidade”. Enquanto a vida religiosa em Coimbra “definhava” e “nos conventos de Santa Clara, Celas e Sant’Ana morriam as últimas frei­ras” (…) o convento de Santa Teresa era “o maior, para não dizer o único centro de piedade” que “contrastava, à evidência, com o ambiente de indiferença religiosa que era comum dos habitantes da cidade. Ali concorriam as famílias da nobreza e aristocracia coimbrã, que haviam conservado as velhas tradições portuguesas, sem se deixar contaminar pelo liberalismo e pelo formalismo externo (…) Ali concorria também muita gente devota, muita gente pobre e humilde… Neste convento, havia bas­tantes religiosas ainda válidas e algumas novas, todas piedosíssimas, passando a vida em penitências austeras e edificantes.

Elas tinham sabido renovar o seu pessoal professo. Como? Deus o sabe e elas também o sabiam. Era na Igreja das Teresinhas, e só ali, que todos os dias se viam fiéis”.

Guedes, G.M.F. O Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra: inventário do acervo documental. In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. 26 (2013). Pg. 65 a 80.

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por Rodrigues Costa às 09:40

Terça-feira, 02.11.21

Coimbra: O Seminário Maior de Coimbra 3

No ano de 1751 chega a Coimbra, vindo de Lisboa, o bolonhês Guiseppe Antonio Landi que ali se fixou de junho a novembro de 1751, altura em que foram retomadas a grande velocidade as obras do Seminário (existindo registos semanais para esses meses). Fontes divulgadas por Rui Lobo e Giuseppina Raggi sustentam a teoria de que este arquiteto italiano tenha “ganhado muito dinheiro com a revisão e remodelação do projeto da fábrica do seminário e a sua subsequente construção”. Landi terá sido apresentado a Nicola Giliberti por Giovanni Angelo Brunelli, um cónego que possivelmente terá conhecido Giliberti ainda em Itália. Numa carta de 20 de junho de 1751 Brunelli escreve: “Ho mandato al Landi a Coimbra, dove è andato per una visita di una fabrica, la lettera che mi inviate per lui”. Assim podemos afirmar que Landi terá vindo para Coimbra a convite de Brunelli e que terá participado numa obra “per una mia reccomandazione”. Outra carta que faz sustentar a tese que Landi tenha trabalhado para Giliberti é a forma de como o arquiteto saúda o reitor do seminário numa carta datada de 12 de novembro de 1776: “questo suo antico servitore (…) Suo umilissimo e obbligat. Servitore Antonio Giuseppe Landi”.

A presença bolonhesa no edifício faz-se sentir especialmente na da Igreja da Sagrada Família uma vez que a planta da Igreja do Seminário apresenta algumas semelhanças à da Igreja de Santa Maria della Vita, precisamente, em Bolonha.

Fig. 11. Retábulo da capela-mor da Igreja da Sagr

Fig. 11. Retábulo da capela-mor da Igreja da Sagrada Família

 Guiseppe Landi parte para o Brasil no dia 2 de junho de 1753, mas antes pode ter sido o próprio a ter sugerido a Giliberti a contratação do mestre-de-obras João Francisco Tamossi, pessoa de confiança pessoal de Landi, para a execução do seu projeto para o Seminário Maior de Coimbra. A verdade é que Tamossi pode não ter acrescentado em muito no traçado do edifício uma vez que teve um final trágico ao cair de uma das torres acabando por falecer no local no dia 6 de outubro de 1755.

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Fig. 4. Escadas em caracol

Fig. 9. Lavatório ao lado da porta da Biblioteca

Fig. 9. Lavatório ao lado da porta da Biblioteca Velha

Fig. 12. Cúpula do Seminário.png

Fig. 12. Cúpula do Seminário

Fig. 13. Órgão da Igreja da Sagrada Família.png

Fig. 13. Órgão da Igreja da Sagrada Família

 Após a morte funesta de Tamossi foi designado Giacomo Azollini para terminar a construção do Seminário. A Azollini é atribuída “(…) a conclusão das escadas em espiral, (…) a Capela de São Miguel (…); desenhou e fez o portal da igreja (…)”. Rui Lobo e Giuseppina Raggi atribuem também a Azzolini o lavabo junto à Biblioteca Velha e o «trompe-l’oeil» ao fundo do corpo oeste.

Claudino, L.M.G. Seminário Maior de Coimbra. História, património e museologia. Relatório de Estágio do Mestrado em Património Cultural e Museologia no ramo de Gestão e Programação. 2018. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 20:37

Quinta-feira, 28.10.21

Coimbra: O Seminário Maior de Coimbra 2

Os custos da construção do Seminário começaram de acordo com o «Processo de Isenção do Seminário», com o «aere próprio» do Bispo fundador D. Miguel da Anunciação, mas também contribuíram para esta obra os cofres da Mitra e as esmolas dos fiéis. Na Pastoral de 25 de abril de 1749 o Bispo exortava aos párocos para que:

«(…) no tempo do recolhimento dos frutos, e ainda nos dias santos e domingos do ano,  hajam de pedir esmolas e, quando houverem de remeter os seus róis de confessados, farão conta, com individualização, da importância delas, tanto das que tiraram pelas suas freguesias, como daquelas com que concorreram as Confrarias, as Irmandades e as que voluntariamente quiser dar cada um dos mesmos párocos».

Fig. 6. Vista para o claustro da Capela de S. Migu

Fig. 6. Vista para o claustro da Capela de S. Miguel 

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Fig. 7. Aposentos episcopais

Fig. 8. Biblioteca velha do Seminario Maior de Coi

Fig. 8. Biblioteca velha do Seminário Maior de Coimbra

 Para o incentivo à esmola, o Bispo requereu à Nunciatura que deferisse indulgências a quem auxiliasse na construção do Seminário. Do mesmo modo D. Miguel da Anunciação pede a isenção da Diocese de Coimbra do pagamento da terceira parte das suas rendas à Patriarcal. Também a coroa patroneou a obra oferecendo madeiras do Pinhal de Leiria e do Brasil.

 

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Fig. 10. Sala dos azulejos

Pela cronologia apresentada pelos vários estudiosos da história do Seminário podemos afirmar que o primeiro encarregado das obras da Casa Velha terá sido Frei João da Soledade. O primeiro reitor, Nicola Giliberti, assinou um contrato com esse arquiteto franciscano e com o mestre-de-obras Manuel Rodrigues, a 11 de junho de 1748, com o intuito de construir o Seminário. Um mês após esse contrato, no dia 16 de julho de 1748, por ocasião da solenidade de Nossa Senhora do Carmo, foi lançada a primeira pedra da igreja do Seminário.

Essa celebração foi presidida pelo Bispo Conde D. Miguel da Anunciação e terão comparecido nela todo o restante cabido da Sé, seminaristas e vários nobres da cidade. João da Soledade terá sido o responsável até 1750 altura em que o plano das obras entrou em crise forçando porventura a paragem das mesmas.

Claudino, L.M.G. Seminário Maior de Coimbra. História, património e museologia. Relatório de Estágio do Mestrado em Património Cultural e Museologia no ramo de Gestão e Programação. 2018. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 19:44

Sexta-feira, 22.10.21

Coimbra: O Seminário Maior de Coimbra 1

As primeiras intenções da construção de um seminário diocesano começaram em 1743 quando D. Miguel da Anunciação procurava um terreno onde se pudesse construir um colégio com regime de internato fora dos limites da cidade, e onde o ambiente fosse mais propicio ao estudo.

Fig. 2. Retrato de D. Miguel da Anunciação.png

Fig. 2. Retrato de D. Miguel da Anunciação

Na cidade de Coimbra existiam algumas casas de aluguer que albergavam seminaristas. Porém, ao ver o crescente número de candidatos ao sacerdócio, D. Miguel da Anunciação sentiu a necessidade de se construir uma casa “ampla, onde pudessem estar á vontade Mestres, Ordinandos e Porcionistas”. A construção de um seminário reforçava o poder do Bispado relativamente à Universidade no que diz respeito à formação da teologia, competindo assim à Diocese a formação do seu clero secular.

A razão pela qual não se construiu um seminário na cidade de Coimbra após a decisão do Concilio de Trento é nos justificada numa carta do Bispo D. Frei Álvaro de São Boaventura datada de junho de 1675, onde podemos ler que nesta “Diocese não fizeram os Bispos Seminário por haver nella uma tão insigne Universidade onde se ensinam todas as ciências; mas ainda assim teem os Bispos duas cadeiras de Theologia Moral que pagam das suas rendas e leem os Padres da Companhia de Jesus no seu Colégio das Escolas Menores; e na claustra da Sé, uma cadeira de Gramática que paga o Mestre escola para aprenderem os moços do Coro…”.

A 14 de agosto de 1744, pedia o rei D. João V que se “visse e consultasse” no Tribunal da Mesa da Consciência e Ordem “a petição do Bispo Coimbrão em que se referia que o Antístite intentava erigir um Seminário que provesse às necessidades da Diocese. A Mesa deu parecer favorável a 6 de novembro de 1749”.

Os motivos pelas quais D. Miguel da Anunciação pretendia a criação de um seminário são explanados pelo próprio na Pastoral de 23 de maio de 1744:

«Considerando Nós a grande utilidade espiritual e temporal, que há-de resultar a este Bispado de nele se erigir um seminário, ou colégio para a educação dos meninos pobres e de pouca idade, que sendo a ele recolhidos possam ser bem instruidos em virtudes e  letras, donde saindo nelas consumados e perfeitos nos possam ajudar na cultura da vinha…».

Miguel da Anunciação volta a defender a construção do Seminário de Jesus, Maria e José numa Carta Pastoral de 3 de janeiro de 1763 onde o Bispo escreve que:

 «A ereção do nosso Seminário, para que educando-se nele os nossos súbditos destinados ao sacerdócio se nutrissem com as palavras da Fé, crescessem na sciencia de Deus, se instruissem nas máximas do Evangelho, e se enchessem dos frutos da justiça e da verdade; de modo que fossem, idóneos ministros do Novo Testamento, providos cooperadores da nossa ordem, na mencionada empreza da celebração do nosso sínodo diocesano, e capazes de os aplicarmos aos diferentes ministérios, que pedisse a sua execução, e a sua observancia, para maior honra, e glória de Deus, que é o Sagrado Centro, ao qual se devem dirigir todas as linhas que são as acções, que procedem do circulo da nossa vida, e do nosso governo».

Fig. 1. Vista geral para a Casa Velha do Seminári

Fig. 1. Vista geral para a Casa Velha do Seminário

 

O Seminário foi construído fora dos limites da cidade perto do Convento de Santana (atual Quartel Militar), e do Colégio de São José dos Marianos (atual Hospital Militar). Na área onde se instalou o Seminário eram, até aos finais da primeira metade do século XVIII, oito parcelas de olivais distribuídas por diferentes proprietários, sendo duas delas doadas por causa pia.

 Claudino, L.M.G. Seminário Maior de Coimbra. História, património e museologia. Relatório de Estágio do Mestrado em Património Cultural e Museologia no ramo de Gestão e Programação. 2018. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

 

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por Rodrigues Costa às 12:42

Sexta-feira, 01.10.21

Coimbra: “cando o Ryo de Mondego he cheeo”

No âmbito da evocação da Noite Europeia dos Investigadores: ciência para o clima, o Arquivo da Universidade de Coimbra, divulgou no passado dia 24 de setembro, uma muito curiosa exposição documental on-line, intitulada “cando o Ryo de Mondego he cheeo”, quando tudo foi destruído pela pedra e alagados os terrenos. Documentos do AUC (séc. XV-XIX).

O belo catálogo desta exposição está acessível em https://www.uc.pt/auc/slideshow/docs/noiteeuropeiadosinvestigadores?fbclid=IwAR0njcS_LdO6SsGDotTd-r-2ky9qgY8uX-M68QnVkZyYlp099gjFUZWhi8c.

Como refere a Diretora do Arquivo, Professora Doutora Maria Cristina Vieira de Freitas, o objetivo desta iniciativa foi o de dar resposta à seguinte interrogação: “Como pode a ciência contribuir para o conhecimento sobre as causas e efeitos das alterações climáticas e para a neutralidade do clima até 2050?”

O contributo do AUC é constituído pela apresentação de um conjunto de 12 documentos existentes naquela Instituição que ilustram alguns dos fenómenos que encontram as suas origens nos vários eventos cíclicos climáticos.

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PT/AUC/HOS/HSLC – Hospital de São Lázaro de Coimbra (F); Coleção de pergaminhos (COL) - AUC-IV-3.ª- Gav. 52- pt. 2 - n.º 61

 Respigamos do Catálogo os seguintes documentos:

- Documento 1, Emitido em Coimbra e datado de 11 de janeiro de 1452, do qual é apresentada a seguinte síntese.

Aforamento feito por Gonçalo Pires, vedor e João Gonçalves do Rio, escrivão do Hospital de São Lázaro, juntamente com os lázaros do dito Hospital, a João Afonso Pintor e sua mulher Catarina Anes, moradores em Coimbra, de certas propriedades localizadas em Rio de Vide. Pagariam de foro anual dois alqueires de trigo e um capão, postos no Hospital, por dia de São Miguel de setembro, ou seja, dia 29.

A escritura foi feita pelo tabelião Pedro Dias, na quintã do Hospital «honde os lazaros soem de hir folgar cando o Ryo de Mondego he cheeo” (v. linha 5 do documento). Desde sempre, o rio determinou a saída da população, de uns locais para outros, devido às enchentes, sobretudo nos meses de inverno, como é o caso deste documento, do séc. XV.

Anote-se a particularidade da frase escrita à cabeça do documento, na margem superior, em letra de diferente punho: “esta hase de aclarar com o remedio”. Esta frase é elucidativa sobre o uso de um “remédio” a famosa solução de noz de galha, utilizada para tornar mais nítida a leitura de um documento em pergaminho, quando a tinta estava delida, mas que o inutilizava, ao deixar secar sobre toda a superfície da pele, essa mesma solução.

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PT/AUC/HOS/HSLC – Hospital de São Lázaro de Coimbra (F); Coleção de pergaminhos (COL) - AUC-IV-3.ª- Gav. 52- pt. 2 - n.º 61

- Documento 3. Emitido em Coimbra em 1633, do qual é apresentado o seguinte resumo.

Registo da neve trazida para Coimbra, para o Real Colégio de São Pedro, referindo-se que o neveiro a começou a trazer no dia 26 de maio de 1633: “e trouxe nesse dia sinco arrobas e doze arrates”.

As informações lançadas neste pequeno volume evidenciam o transporte de neve (ou gelo) a partir da Lousã, nos meses de maio a setembro.

É frequente a indicação de que o neveiro trouxe “neve limpa”, assim como se refere que foi trazida numa arca. A sua utilização seria, seguramente, para a refrigeração de bebidas e conservação de alimentos. Em anos sequentes, as indicações de aquisição de neve são feitas a partir de junho, podendo dizer-se que havia remessas semanais de neve.

Esta prática dos neveiros já há muito desapareceu e, também, as alterações climáticas já não permitem a acumulação de neve, na serra da Lousã.

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PT/AUC/UC – Universidade de Coimbra (F); Real Colégio de São Pedro (SF); Livro de registo do neveiro e do carneireiro do Colégio (DC), 1633-1638, fl. [fl. 3] – AUC-IV-1.ªE-7-3

- Documento 7. Emitido em Lisboa, a 6 de outubro de 1817, sendo apresentado o seguinte resumo.

Procuração dada pelo Doutor José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) a José Pires da Veiga Bulhões para que, como seu procurador, possa receber os vencimentos da Universidade, com lente jubilado na cadeira de Metalurgia.

Todos os seus títulos e cargos são mencionados, no formulário inicial da procuração, incluindo o de Superintendente do Rio Mondego e Obras Públicas de Coimbra. Verdadeiramente, o cargo teve a designação de Superintendente e diretor do encanamento do Rio Mondego, para o qual foi nomeado por Alvará de 13 de julho de 1807. No séc. XIX voltava de novo a colocar-se a necessidade de proteger os campos do Mondego, com terras férteis no designado baixo Mondego, sendo também uma preocupação a navegação fluvial, pois o rio era o principal meio de comunicação entre Coimbra e as terras até à foz do rio, na Figueira da Foz. Destaque-se a cheia torrencial e devastadora de 22 a 24 de fevereiro de 1788 que muito marcou a população, para ilustrar situações anteriores.

Pelo rio se escoavam e entravam produtos e se abastecia a cidade e todas as povoações, situadas ao longo das margens do rio. Sempre que os invernos eram rigorosos e a chuva abundante, mesmo fora das estações mais próprias, perdiam-se culturas, arruinava-se a trajeto fluvial e as populações perdiam os seus bens.

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PT/AUC/ELU/UC – Universidade de Coimbra (F); Processos de Professores (SR), cx. 326 – AUV-IV-1.ªD-8-5-326

AUC. “cando o Ryo de Mondego he cheeo”, quando tudo foi destruído pela pedra e alagados os terrenos. Documentos do AUC (séc. XV-XIX). Catálogo on-line. Acedido em: https://www.uc.pt/auc/slideshow/docs/noiteeuropeiadosinvestigadores?fbclid=IwAR0njcS_LdO6SsGDotTd-r-2ky9qgY8uX-M68QnVkZyYlp099gjFUZWhi8c

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por Rodrigues Costa às 19:22

Terça-feira, 21.09.21

Coimbra: Bartolomeu de Gusmão, aluno da Universidade

Prosseguindo no cumprimento dos objetivos traçados que passam por divulgar documentos com interesse existentes no Arquivo da Universidade de Coimbra, inéditos ou praticamente desconhecidos do público, a ilustre investigadora Dr.ª Ana Maria Bandeira debruçou-se, recentemente, sobre a documentação relativa à presença, no acervo do referido Arquivo, de registos relacionados com a conhecida figura do apelidado “padre voador”.

Com a devida autorização, partilhamos este relevante texto.

No final de julho (não há indicação de mês, mas, habitualmente, eram feitas as reuniões das informações no final de julho ou início de agosto) de 1720 “na salla da Universidade”, certamente a Sala dos Capelos, teve lugar a reunião para a atribuição das informações gerais, ou informações finais, do ano letivo de 1719-1720.

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Fig. 1 - Informação final de Bartolomeu Lourenço de Gusmão, como Doutor em Cânones (penúltimo da lista) - (AUC - IV-1.ªD-2-1-52)

Quando se matriculou na Faculdade de Cânones, em 1 de dezembro de 1708, com o nome de Bartolomeu Lourenço, já como sacerdote, desconhecia-se, ainda, a célebre figura em que se tornaria, no ano seguinte, devido ao prodigioso invento de um aeróstato, recebendo, por isso, o epíteto de “padre voador”. Era o primeiro balão de papel que se ergueria no ar, sem fazer grande voo, tendo recebido do Rei D. João V a exclusividade da construção de “máquinas voadoras”. A primeira apresentação pública, feita em Lisboa, no Palácio Real, não teve sucesso e o balão ardeu, sem ter feito qualquer voo. Só numa segunda tentativa, em 8 de agosto de 1709, se ergueu no ar, em voo de 4 metros de altura. A ”passarola voadora”, de que se conhecem diversos desenhos e gravuras, não seria mais do que um projeto que o engenhoso inventor nunca chegou a construir.

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Fig. 2 - Bartolomeu Lourenço de Gusmão, filho de Francisco Lourenço, “de Santos no Brazil” recebeu como informação M.to Bom estudante.

O período em que esteve ausente da frequência universitária, entre os anos de 1710 a 1717 ficou a dever-se a ausências para o estrangeiro, no sentido de aperfeiçoar os seus conhecimentos aerostáticos.

Regressado à Universidade, viria a obter o doutoramento na Faculdade de Cânones, em 16 de junho de 1720.

Dois outros estudantes brasileiros, seus contemporâneos, figuram na mesma folha de registo de informações finais. São eles o Padre Vicente Correa Gomes, de Pernambuco e o Padre José Ferreira de Abreu, do Rio de Janeiro.

No final da atribuição das informações finais (vide fl. 50v) encontram-se as assinaturas de quem presidiu à reunião: o Reitor Pedro Sanches Farinha de Baena e os lentes Manuel Borges de Cerqueira, Francisco de Almeida Cayado, Manuel da Gama Lobo e Giraldo Pereira Coutinho.

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Fig. 3 - Gravura francesa com representação da “passarola”. De acordo com a legenda da gravura, teria espaço para dez viajantes.

Bandeira, A.M. 2021. O inventivo Bartolomeu de Gusmão, “padre voador”, aluno da Universidade de Coimbra. Acedido em

https://www.uc.pt/cultura/voos/inventivo/?fbclid=IwAR1SqYA4LfmA0QvHXcwGOxJ6jFVRFlyHIZAN0q84alXt_UMCZ9Jmy0NYlHk

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:30

Quarta-feira, 01.09.21

Coimbra. Igreja de Nossa Senhora da Graça, visitas guiadas

Está a decorrer um conjunto de visitas guiadas à Igreja de Nossa Senhora da Graça que habitualmente está encerrada, só abrindo para as Celebrações Eucarísticas.

Estão ainda livres as seguintes datas: 3.ªs feiras, dias 7 e 14 de setembro; 5.ªs feiras, dias 2 e 9 de setembro; e sábados, dias 4 e 11 de setembro.

As visitas decorrem em dois horários, às 11h00 e às 15h00 e implicam a prévia inscrição para o telemóvel 924 448 266.

Igreja da Graça, visita 31-8-2021.jpg

Folheto de divulgação

Realizamos ontem esta visita. Foi tempo bem empregue, foi a possibilidade de melhor conhecer uma das igrejas da Rua da Sofia, todas elas tão pouco conhecidas.

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Igreja de Nossa Senhora da Graça, exterior

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Igreja de Nossa Senhora da Graça, interior

Trata-se de uma igreja bela na sua sobriedade e despojamento, enriquecido que por retábulos de belo efeito,

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Igreja de Nossa Senhora da Graça, Capela-mor

Igereja da Graça. Sr.dos Passos. Fotografia Nelso

Igreja de Nossa Senhora da Graça, Retábulo do Senhor dos Passos. Foto Nelson Correia Borges

Quer, ainda, pela estatuária ali existente.

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Imagem de Nossa Senhora da Graça

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Imagem de S. Agostinho

Uma visita que se recomenda, enriquecida pelo trabalho bem informado e simpático da Guia,

Rodrigues Costa

 

 

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por Rodrigues Costa às 20:07

Terça-feira, 20.07.21

Coimbra: Forma e tipos de matrículas na Universidade

Até à Reforma Pombalina da Universidade em 1772 o registo de matrícula apresenta geralmente a seguinte informação:

Nome do aluno, naturalidade e filiação, sendo neste último caso apresentado apenas o nome do pai, seguido da informação sobre a data de matrícula e assinatura do aluno. No caso de alunos de ordens religiosas não é apresentado o dado de filiação.

Livro de Matrículas (1724-1725), fl.23.png

Livro de Matrículas (1724-1725), fl.23

Não é igualmente indicado o ano de curso, pelo que só compulsando todos os anos de frequência do aluno se pode saber exactamente os anos frequentados. No entanto, é comum ser indicado o grau de Bacharel no caso de o aluno já possuir este grau quando efectua a matrícula. Os livros apresentam as matrículas por ordem de Faculdades, sendo apresentada em primeiro lugar a Faculdade de Teologia, seguida de Cânones, Leis e Medicina. A matrícula na cadeira de Instituta (os designados alunos Institutários) ficou geralmente lançada antes dos registos da Faculdade de Medicina, mas pode também surgir depois destes.

Depois de 1772 são acrescentados os registos de matrícula das Faculdades de Matemática e Filosofia e deixa de existir a cadeira de Instituta. Os registos passam a ser apresentados por ordem alfabética e por ordem de ano de curso. A partir de 1793 passam a ser utilizados formulários impressos, com espaços em branco para neles se registar o nome do aluno, naturalidade e filiação. Na matrícula que ocorre no primeiro ano do curso ficou ainda regista a informação sobre as habilitações do aluno, em estudos preparatórios para o ingresso na Universidade (por exemplo: Latim, Retórica, Filosofia, Geometria).

Livro de Matrículas, Vol.21. (1792-1793), fl.17.p

Livro de Matrículas, Vol.21. (1792-1793), fl.17

O registo de matrícula apresenta ainda informação sobre a classe de ordinário ou de obrigado de cada aluno. Quanto aos alunos voluntários existem volumes próprios para o registo da matrícula nas Faculdades de Filosofia e de Matemática. Pode, eventualmente, surgir a informação, sobre a mudança de uma classe para outra, designada por trânsito do aluno, por exemplo de ordinário para obrigado, ou de voluntário para ordinário.

Livro de Matrículas, Vol.41 (1813-1814), fl.132.p

Livro de Matrículas, Vol.41 (1813-1814), fl.132

Após a reforma de 1911, de acordo com o Decreto com força de lei de 19 de Abril de 1911, no seu cap. IX, a matrícula é o acto pelo qual o aluno dá entrada na Universidade; por seu lado, a inscrição permite ao aluno, depois de matriculado, a frequência das diversas cadeiras e cursos. A partir desta data, os livros de matrículas passam a estar ordenados por cada Faculdade e não é dada indicação do ano de curso, uma vez que a matrícula diz respeito ao ingresso na Universidade e respectiva Faculdade. Até 1937 não indicam o ano de curso, ou mesmo o próprio curso a frequentar dentro de cada Faculdade. Estes dados só podem ser colhidos nos livros de Inscrições.

Livro de Inscrições, Vol.25 (1921-1934), fl.173v

Livro de Inscrições, Vol.25 (1921-1934), fl.173v

Bandeira, A.M.L. Percurso académico na Universidade de Coimbra, nos séculos XVI a XX (orientações para pesquisa). Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra. Acedido em: https://www.uc.pt/auc/orientacoes/UC_GuiaPercursoAcademico.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 13:00

Terça-feira, 01.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 1

Numa longa cronologia que definimos do século XIV ao XIX, constatamos vários surtos epidémicos, de diferentes patologias. Ressaltam os mais violentos de peste bubónica e propagam-se de umas zonas para outras, através das rotas comerciais.

O surto mais violento, largamente documentado, chega à Europa em 1348, através de Itália e tem origem no Oriente. Afetará também, Portugal e Coimbra.

No século XV, em Portugal, as pestes estão associadas às guerras e conquistas no Norte de África, concretamente à conquista de Ceuta, em 1415.

No século XVI serão os contatos comerciais a trazer a peste a Lisboa, e Porto. Os séculos XVII, XVIII e XIX trarão outras epidemias: a febre amarela, a cólera, a varíola. O último surto de peste bubónica, atingirá Portugal, em1899.

Ao longo dos séculos constata-se também que estes surtos epidémicos aparecem associados a “alterações climáticas”, diríamos hoje: cheias, secas, tendo como consequência maus anos agrícolas, fomes, e grande mortalidade exigindo dos governantes várias medidas de recuperação económica, consubstanciadas em vária legislação de que é um exemplo a “Lei das Sesmarias”, em 1375, obrigando ao cultivo dos campos incultos e abandonados e tentando impedir a fuga do campesinato para as cidades, em busca de melhores condições de vida.

A epidemia de 1569

… O Dr. António de Oliveira, nosso professor de saudosa memória, a quem prestamos aqui a nossa sentida homenagem, na sua tese de doutoramento sobre Coimbra, no século XVI, apresenta a evolução da população, a partir da análise dos Registos de Baptismo e Óbito, nas várias paróquias de Coimbra, entre 1545 e 1640. É notório o pico de mortalidade devido às epidemias, em 1569 e 1599-1600 e a consequente baixa da natalidade.

Captura de ecrã 2021-05-27 202812.png

No reinado de D. Sebastião há um surto de peste em Lisboa, em Janeiro de 1569, que se vai espalhando por outros locais do reino.

Em Coimbra têm conhecimento da situação e vão tomar diversas medidas, a partir de Julho, para defender a cidade: nomeiam um guarda-mor, encerram as portas da cidade, estabelecem o isolamento “degredo”, para os que vêm de locais infectados na zona de Vila Franca.

AHMC. Livro dos Acordos e Vereções da Câmara de

Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1569. (Fevereiro, 12 até -Dezembro, 29).1569, Julho, 20, Vereação [fl. 90]

 […] - E logo na dita camara asemtarão que todalas pesoas que vyerem a guarda dos lugares empedidos e quiserem emtrar nesta cydade sendo lhe duvidada pello guarda moor se va por nos olivaeis de vila Framqua, ao longo do rio pasando pelo vao, a quinta d’ Ambrosyo de Saa, e não comunyquarão com pessoa algua da terra somente tomarão seu comer pelo regimento que lhe der o guarda moor, omde estarão em degredo os dias que lhe for manda[do] pelo guarda moor, que conheser de suas sertidões a soalhamdo seu fato e pessoas cada dia.

- E neste tempo que emtrarem em seu degredo o farão serto, digo, a saber a Gonçalo Afomso, morador na Copeira e asy quamdo hacabarem so pena de dous mil rs, e hum ano de degredo semdo achados que não cumpram estes mandados, a metade pera os tapumes desta cidade e a outra pera quem os acusar,

- E asy mais asemtarão que toda a pessoa que for achada pasar e sobyr pellos tapumes que estam pera guarda destes ares maos paguara mil rs, as pessoas que [fl. 90v] sem licença e os moços que amdarem sobymdo e destapando cem rs, a metade pera os tapumes da cidade e a outra pera quem os acusar,

… [fl. 93v] Aos trimta dias do mes de Julho de mil quinhentos e sesemta e nove em camara foy mandado a Bras Foreyro, que por constar vir de terras empedidas destes ares maoos de peste de que Noso Señor nos livre, que elle estevese em degredo, na sua quinta sem sair fora della a comunicar nem falar das suas janelas com pessoa nenhua, so pena de semdo achado fora a falar com nyngem so licença do guarda moor, pagar cem cruzados, hua parte pera a cidade e a outra pera os tapumes da dita cidade, e outra pera quem o acusar […]

… [fl. 149v] - Aos sete dias do mes de Dezembro de mil e quinhentos e sesemta e nove deu sua fee Pero Fernandez como apregoara pelos lugares pubricos que nenhua pessoa de qualquer calidade que seja joge a bola nos olivaeis e cemsiraeis d’alem da pomte,

Gravura do jogo de Calcio 2.png

Gravura do Jogo de Calcio, Florença séc. XVII. Pietro di Lorenzo Bini (ed.), Memorie del calcio fiorentino tratte da diverse scritture e dedicate all'altezze serenissime di Ferdinando Principe di Toscana e Violante Beatrice di Baviera, Firenze, Stamperia di S.A.S. alla Condotta [1688] https://pt.wikipedia.org/wiki/Calcio_Storico#/media/Ficheiro:Calcio_fiorentino_1688.jpg

nem va a pescar da Lapa dos Esteos ate o Almege, nem a jogar a bareyra soma de dous mil rs, a metade pera os tapumes desta cidade e a outra pera quem os acusar, e asy pelo dito modo que nenhua pesoa joge bola nem bareyra no Arnado, des a pomte ate a Fontoura nem pesque fora dos tapumes da cidade, sob a dita pena e asy pelo dyto modo das cousas segimtes, da porta do Castello ate Aregaça, sob a dita pena, como foy acordado em camara e asynou aquy o dito Pero Fernandez, porteyro. João Gonçalvez de Sequeira, o sprevi. […]

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 1.pn

 

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 2.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 3.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 4.pn

 

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 10:44

Terça-feira, 02.03.21

Coimbra: Abastecimento de carne e sal (1641-1721) 3

Os contratos do sal eram assinados, geralmente, em janeiro (34,21%) e fevereiro (26,32%) … Ao contrário dos contratos da carne, estes aparentam garantir o abastecimento contínuo ao longo do ano, não focando um período específico e tinham, geralmente, a duração de um ano.

… O sal era fornecido por barqueiros e era provável que a maioria destes homens se fosse abastecer fora do termo de Coimbra. No séc. XVI, o sal provinha de Aveiro e Buarcos, o que é confirmado na segunda metade do séc. XVII, quando a Câmara ordenou que se anunciasse nessas terras e em Vagos para se trazer sal à cidade (Loureiro 1960: 286 e Oliveira 2016: 934). A proveniência dos obrigados não nos ajuda à análise, visto a esmagadora maioria ser natural de Coimbra.

Barqueiro do Mondego.jpg

Durante toda a cronologia em análise, a quantidade acordada entre os barqueiros e a câmara foi sempre a mesma: sal em abundância e sem falta alguma. Isto pode revelar, juntamente com a ausência de reclamações relativamente à falta do produto, que não houve grandes dificuldades em garantir o seu abastecimento.

Os preços negociados nos contratos apresentam uma evolução diferente comparativamente aos preços da carne: mantêm-se sensivelmente baixos até 1654 (exceto 1650), aumentando gradualmente após 1656; até 1689 mantêm-se relativamente estáveis, atingindo os 50 réis por alqueire em três anos; em 1694, o preço do sal atinge o valor mais elevado de toda a série (70 réis), decrescendo depois, até atingir os 20 réis em 1703; com o início do conflito, o seu preço aumenta gradualmente até 1711, exceto no ano de 1707.

Sobre o preço do sal incidia um tributo conhecido como o usual, que até 1689 correspondia a 20 réis (AHMC, Notas, L. 11, fl. 138) e a partir de 1694 a 30 réis (AHMC, Arrematações e arrendamentos, L. 2, fl. 221v), não se sabendo se depois da guerra se regressou ao valor anterior ou se deixou de ser cobrado os preços apresentados no gráfico e tabela não incluem este valor.

Pescador de Coimbra com rede.jpeg

Pescador de Coimbra, com rede

Rio Mondego, caneiro.jpeg

Rio Mondego, caneiro para pesca

 … Se as quantidades do produto não geraram problemas, os conflitos entre a câmara e os arrematantes pelos preços foram frequentes. Em janeiro de 1642 a câmara permitiu ao obrigado do sal elevar o preço do alqueire para 13 réis, mas teria de pagar 50 000 réis imediatamente para as despesas da câmara (Loureiro 1960: 48)25. Em janeiro de 1657 a câmara proibiu a passagem do sal para “cima da ponte” e estabeleceu o preço do alqueire nos 18 réis, alegando que os barqueiros estavam a abusar do seu estatuto de monopólio para praticar preços muito altos (Loureiro 1960: 286). No mesmo ano constatou-se que os comerciantes não queriam vender ao preço estabelecido pela câmara, pelo que açambarcaram todo o sal nas marinhas e estavam a expedi-lo para fora da cidade durante a noite. O senado decidiu intervir, aplicando as penas previstas para as transgressões e ordenando a colocação de travessas nas portas de todas as casas que tivessem o produto, impedindo que este saísse sem licença da câmara (Loureiro 1960: 287-288). A 30 de junho de 1708, um ano após o sal ter atingido um dos valores mais baixos da série, as vendedoras da cidade queixam-se dos preços muito elevados e nas dificuldades que têm em vender, o que constituiu um indicador da grande volatilidade a que os preços estavam sujeitos (AHMC, Vereações, L. 59, fl. 168v).

Barbosa, J.L. S. O abastecimento de carne e sal em Coimbra: os contratos de obrigação da Câmara Municipal (1641-1721). Acedido em https://impactum-journals.uc.pt/rhsc/article/view/1645-2259_19_6

 

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por Rodrigues Costa às 10:50


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