Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 09.04.20

Coimbra: Igreja de S. Martinho do Bispo

A reconquista de Coimbra por D. Fernando Magno, em 1064, foi a viragem decisiva para a região, doravante definitivamente em posse dos cristãos. À frente da cidade de Coimbra e de toda a região, D. Fernando colocou um moçárabe, o alvasil D. Sisnando para que a povoasse e defendesse dos mouros. O sábio governo de D. Sisnando resultou em grande progresso para a região: foram construídos castelos, edificadas casas, plantadas vinhas e arroteadas terras. É neste contexto que surge a figura do abade Pedro, vindo da região em poder da moirama. A 26 de Abril de 1080, D. Sisnando dou-lhe terras a sul do Mondego que ele diligentemente repovoou. O abade Pedro edificou aí, próximo à cidade, a igreja de S. Martinho, dando origem a uma das mais populosas freguesias rurais do país, mas hoje plenamente absorvida no perímetro urbano de Coimbra.
Em 24 de Fevereiro de 1094 o abade Pedro doou os seus domínios à Sé de Coimbra, onde avultava a igreja edificada à sua custa e dotada com as casas necessárias, vinhas e outras árvores e ainda uma torre de defesa. Os bispos continuaram a obra de repovoamento e de valorização da igreja. Em 1104 o bispo D. Maurício concedeu carta de povoação, espécie de foral, reformada por D. Bernardo, em 1141. Aqui mantiveram os bispos de Coimbra uma quinta de veraneio e também se refugiaram das cheias do Mondego, no século XVI, as freiras do convento de Santana, numa quinta doada pelo bispo D. João Soares.
Da igreja medieval, que sabemos ter sido protegida por muros e torres de defesa, praticamente nada resta. Foi renovada em tempos posteriores, com se vê pela porta principal, seiscentista, de frontão curvo interrompido, e pela torre dos sinos, datada de 1733 por um discreto relógio de sol. A torre encontra-se afastada do corpo da igreja e em quase alinhamento com a porta principal. Sabe-se que houve obras na igreja e residência paroquial contratadas pelo carpinteiro de Coimbra Xavier Gomes da Costa em 19 de julho de 1739.
A igreja atual começou a edificar-se em 1754. Em 18 de novembro desse ano a obra das paredes e frontispício foi contratada pelos pedreiros José Ribeiro Facaia e José Francisco Botas, por 780$000 réis. Logo a 20 foi feito contrato com os carpinteiros Custódio Gonçalves, Domingos Gonçalves e José Gonçalves para a obra de carpintaria, por 290$000 réis.

Igreja S. Martinho do Bispo, exterior.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, exterior. Foto Nelson Correia Borges

A fachada é de simples traçado, com dois corpos laterais vincados por pilastras unindo-se ao central mais alto por arco decorativo. No corpo central rasga-se um arco de volta perfeita, formando pequeno átrio abobadado. Aqui se encontra sepultado o padre António da Cunha Rebelo, certamente o mentor da renovação da igreja, como o epitáfio de 1780 humildemente deixa entender.
O corpo da igreja é amplo, de larga nave com cobertura lígnea em caixotões retangulares, aparentado com o de S. Bartolomeu de Coimbra, da mesma época.

Igreja S. Martinho do Bispo, capela mor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, capela mor. Foto Nelson Correia Borges

A capela mor profunda segue o mesmo tipo espacial.
O topo da igreja, acima do degrau, constitui um outro espaço, outrora separado por teia, como área mais sagrada. Aqui se encontra o revestimento azulejar, os altares laterais e colaterais e a capela-mor.
O retábulo principal é da primeira metade do século XVIII, com colunas torsas de grinalda no cavado, remate de anjos segurando festões de flores e mostrando as insígnias de S. Martinho. O trono e o camarim incluem elementos anteriores e posteriores.

Igreja S. Martinho do Bispo, altar lateral.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, altar lateral. Foto Nelson Correia Borges

Os retábulos colaterais e laterais são excelentes exemplares do estilo rococó coimbrão. Os colaterais, geminados, foram executados pelo notável entalhador Domingos Moreira, autor de vários outros trabalhos de igrejas de Coimbra e da região, morador em Santa Clara, com contrato lavrado em 28 de março de 1757. Custaram 215$000 réis. Mostram colunas de capitéis compósitos, concheados sóbrios e remate elaborado de volutas sobrepostas, com querubins e cabecitas aladas.
Os laterais, de idêntica estrutura, têm remates mais movimentados, com volutas em avanço e glórias solares. Todos os retábulos se encontram marmoreados de lápis-lazúli com dourados, o que aliado à azulejaria confere ao conjunto uma interessante nota cromática.

 

Igreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor. Foto Nelson Correia Borges

Os painéis de azulejo recortados são de fabrico coimbrão, provavelmente da oficina de Salvador de Sousa Carvalho. Na capela-mor representam S. Martinho celebrando e Aparição de Cristo a S. Martinho. No espaço dos retábulos, S. Domingos, Santo António e Última Ceia e Senhora da Conceição.
Entre as esculturas destaca-se a de S. Martinho, do século XVII e, da segunda metade do século XVIII, as de Senhora dos Remédios e Senhora da Conceição. Há ainda uma bandeira processional pintada por Pascoal Parente, em 1756 com Cristo crucificado e a Senhora do Rosário. A tela que preenchia o camarim do altar-mor, já de 1877, encontra-se agora no corpo da nave da igreja.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra, n.º 4781, de 2 de abril de 2020

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:35

Terça-feira, 31.03.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 1

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aér

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aérea das instalações

A Fábrica de Lanifícios de Santa Clara apresenta-se como referência máxima do sector têxtil num polo citadino [de Coimbra) sem grandes tradições no referido do ramo, cujo período anterior à firma em evidência se pautou sobretudo, pelo amadorismo das confeções caseiras dos teares manuais e por tentativas de organização de módulos de produção de tecidos dos que não vingaram no tempo.

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidad

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidade

Neste último aspeto, atenda-se, como exemplo, à fábrica de tecidos da Rua de João Cabreira, fundada nos finais da centúria de Setecentos pelos empresários Manuel Fernandes e Guimarães, Manuel Fernandes da Costa e António Machado Pinto, ficando famosa pelos seus damascos «que se tornaram notáveis pelo gosto dos seus lavores e pelo ouro que entrava em muitos», segundo a apreciação do jornalista conimbricense Joaquim Martins de Carvalho.
Os mesmos negociantes fundaram, na cidade, outra unidade de produção de tecidos de algodão em vistosas instalações, uma vez que os relatos asseveram a existência na loja de materiais nobres como o bronze, o aço e madeiras do Brasil. O fornecimento da matéria-prima (fio de algodão) proveio de uma fábrica Tomar; de onde, igualmente, chegaram, para ocuparem um lugar no corpo de funcionários, Bernardo Ferreira de Brito, Paulo José da Silva Neves e Pedro Espingardeiro, epitetados de “habeis artistas”. Em termos de equipamento para produção, o citado espaço deteve 12 teares, cada um com 100 fusos, resultando num tecido de boa qualidade, «não obstante o motor ser de trabalho manual, e por isso sem a regularidade precisa; mas tudo venceu o machinista com a sua rara habilidade».
As causas subjacentes ao definhamentoe respetivo fecho dos dois espaços remetem-se para o roubo de uma porção significativa de fazenda por parte de um familiar dos sócios, bem como a instabilidade proveniente das invasões francesas e a abertura do mercado português aos produtos provindos da Inglaterra, numa consequência evidente do Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810.
Invoque-se, de igual modo, a importância da tentativa de implantação, já em 1875, da Fábrica de Fiação e Tecidos de Coimbra, uma vez que o objeto do presente estudo irá aproveitar as bases materiais deixadas por uma firma que não conseguiu estabelecer-se de modo definitivo e cujo projeto não deixou de espelhar um ímpeto de grandeza que trouxe em si o gérmen da própria derrocada. Se os primeiros tempos nos parecem auspiciosos, dada a grande procura na subscrição do capital social fixado em 150 000$000 réis – divididos em 1500 ações de 10$000 réis cada uma –, o conhecimento, por parte da opinião pública, dos detalhes da compra do convento de São Francisco da Ponte pela quantia, por muitos considerada exorbitante, de 30 000$000 réis, gerou a fuga do investimento inicial através da desistência de muitos dos subscritores.

Um «valente canudo».jpg

«valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade»

Apesar do citado revés, os membros da direção deram continuidade ao projeto, a partir da transformação do complexo conventual em unidade fabril, acrescentando ao edifício uma chaminé industrial, descrita pelo periódico A Voz do Artista como um «valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade».

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed.Pg. 27-29

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:55

Terça-feira, 18.02.20

Coimbra: Festas de Nossa Senhora da Boa Morte, em 1897

Coimbra, a ridentíssima cidade, decantada pelos nossos mais egrégios poetas, que tantíssimas vezes se tem extasiado perante a beleza incomparável dos seus arredores, povoados de luxuriantes pomares, e a amenidade sempre constante das formosas margens do Mondego. O deleitoso rio sobre a qual se debruçam os rumorosos salgueiros, enamorados da prata das suas águas; Coimbra a vetusta cidade, onde os seus carcomidos e tisnados monumentos, iluminados pelos clarões das façanhas épicas dos nossos antepassados, nos fazem evocar os cultos legendários de outras eras e as tocantes e sentimentais legendas que brotaram da imaginação popular, é uma das terras portuguesas, em que se encontra mais intensamente radicado o sentimento da religiosidade, que se manifesta de uma maneira exuberante nas esplendorosas solenidades religiosas que se celebram nos seus templos e a que o povo conimbricense, de índole essencialmente bondosa e sincera, se associa espontaneamente como para agradecer a Deus os mil e um encantos de que revestiu a Atenas portuguesa, o foco vivíssimo das ciências, de onde irradiam as luzes para todo o país.
… Mas como estávamos dizendo, são na verdade sumptuosas as festividades que costumam realizar-se na Sé de Coimbra; há, porém, uma que eclipsa todas as outras, tal é o brilhantismo que costuma assumir, tal é a riqueza que se apresenta perante a nossa vista fascinada: a festividade de Nossa Senhora da Boa Morte, feita a expensas da irmandade que possui o mesmo nome e que, desde 1723, se encontra ereta na capela particular na Catedral de Coimbra.

Sé Nova. Imagem de NS Boa Morte.jpg

No tempo dos jesuítas e nos anos anteriores esta festa, que há anos passou a bienal a fim de lhe aumentar o esplendor, costumava fazer-se no segundo domingo de agosto, consoante as prescrições dos seus estatutos; como, porém, nesse tempo Coimbra se acha quase deserta em virtude da debandada de famílias que se retiram para as praias, e como todos se lastimassem que uma tão luzida procissão percorresse algumas ruas sem vivalma, a irmandade deliberou que este ano [1897] se celebrasse no dia 4 do corrente mês [de Julho], como se celebrou, com uma pompa extraordinária, tornando-se a útil instituição religiosa digna dos mais rasgados encómios.
Como o nosso intento é dar uma leve ideia dessa festividade, e como muitos dos nossos leitores podem ser interessados em saber os primórdios do culto pela Senhora da Boa Morte, principiaremos por apresentar uns ligeiros traços históricos relativamente a este assunto.

Foi em Roma que se instituiu a primeira irmandade sob o sugestivo titulo de Nossa Senhora da Boa Morte … os exercícios deviam realizar-se em todas as sextas-feiras do ano na Igreja da Casa professa da companhia de Jesus.
Em Lisboa estabeleceu-se a primeira irmandade no século XVII; outras cidades e povoações portuguesas seguiram o exemplo da capital, sendo somente instituída pelos jesuítas no Real Colégio de Coimbra no dia 15 de agosto de 1723.
…. Foi copioso o número de irmãos que se inscreveram logo depois da instituição da irmandade em Coimbra, concorrendo para isso as muitas graças e indulgências que por esse tempo foram concedidas em três breves particulares, pelo papa Inocêncio XIII.
A corrente de adesões redobrou quando o papa Benedito XIII expediu, a 23 de setembro de 1729, a bula especial que principia, «Redemptoris nostri Jesu Christi etc.» concedendo à congregação de Nossa Senhora da Boa Morte de Roma grande número de indulgências prerrogativas e isenções … Desejando a irmandade do colégio de Coimbra participar desses privilégios, resolveu agregar-se à de Roma, união que se efetuou a 8 de setembro de 1731.
… Este ano a festividade excedeu as dos anos anteriores, deixando deslumbrados os que tiveram a felicidade de a ver. Não falaremos da bonita ornamentação das ruas com festões e galhardetes e cuja iluminação produzia um belo efeito, nem do soberbo fogo que na véspera se queimou no Largo da Feira e em que os pirotécnicos de Coimbra mostraram mais uma vez os recursos de que dispõem, se bem que desejássemos extintas por completo essas velhas usanças de fogo preso, que podiam ser substituídas por um lauto bodo aos pobres, para nos ocuparmos exclusivamente do aspeto verdadeiramente majestoso que apresentava o amplo templo jesuítico que, como por encanto, perdeu a sua aparência pesada e fria, transformando-se numa mansão celestial…
A nossa paleta não possui tintas com que possa dar uma ideia do brilhantismo que imprimia a festividade o sumptuoso altar-mor, onde se ostentava descoberto o riquíssimo trono, chapeado de prata lavrada, e com o frontal e dossel do mesmo metal; os altares do transepto onde faiscavam riquíssimas pratas e que estavam ornamentados com discrição e bom gosto, e sobretudo a monumental eça, mandada fazer em Roma pelos jesuítas, que se elevava ao centro do cruzeiro, com uma profusão enorme de lumes e flores que lhe davam o aspeto de um formosíssimo jardim.

Sé Nova. Eça de NS Boa Morte.jpgNo centro da eça achava-se colocada a formosa imagem da Senhora da Boa Morte, mandada vir de Itália pelos jesuítas.

Sé Nova. Imagem de NS Boa Morte atual.jpg

Sé Nova, imagem de Nossa Senhora da Boa Morte

A imagem, que é de cera e de escultura muito regular, veste ricamente e está deitada numa graciosa naveta de talha dourada e revestida de uma prodigiosa quantidade de mimosas florinhas.

Sé Nova. Naveta de NS Boa Morte.jpg

De manhã a festividade teve a realçar a palavra inspirada no notável orador sagrado e talentoso lente de teologia sr. Dr. Porfírio da Silva, que produziu um discurso à altura dos créditos de que goza: de tarde saiu a formosa imagem em imponente procissão, que levava um grande número de anjinhos primorosamente vestidos.
Eis uma ligeira resenha, ao correr da pena, do que foi essa solene e esplendorosa, festa que pode ombrear com as que Coimbra dedica a Santa Isabel.

Sousa, A.J.V. A Festividade de Nossa Senhora da Boa Morte (Em Coimbra). In: Branco e Negro. Semanário Illustrado. 2.º ano. n.º 67, de 4 de Julho de 1897. Lisboa, Editora de António Maria Pereira.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 12:03

Quinta-feira, 17.10.19

Coimbra: Espada de D. Afonso Henriques levada do Mosteiro de Santa Cruz 1

O Museu Portuense ou Ateneu D. Pedro foi criado em 1833, por iniciativa de D. Pedro IV, e esteve na origem do que é hoje o Museu Nacional de Soares dos Reis.
Seria essa jovem instituição que, em junho de 1834, acolheria cerca de meia centena de pinturas e mais de cem volumes ilustrados provenientes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e aí escolhidos por Francisco Pedro de Oliveira e Sousa e Alexandre Herculano.
Os dois comissários nomeados para procederem à escolha dos bens dos conventos abandonados terão ainda selecionado, para seguirem junto da primeira remessa de pinturas e livros, a célebre espada de D. Afonso Henriques, um estojo contendo uma escrivaninha italiana de tartaruga marchetada a ouro e madrepérola e uma série de vinte e seis pequenas placas de esmalte pintado de Limoges.

xxx

A existência de uma espada, dita de D. Afonso Henriques, venerada entre outras relíquias em Santa Cruz de Coimbra está relativamente mal documentada.
A sua presença no Mosteiro não é mencionada quando, em meados de quinhentos, ao tempo de D. João III, se reúnem os fundamentos para a canonização de D. Afonso Henriques. No documento onde se organizam esses fundamentos, além da narrativa dos alegados milagres do monarca / santo, faz-se uma descrição das suas relíquias que até ai se haviam venerado no mosteiro, conta-se que D. Afonso se igualava aos monges quando assistia a missa no Mosteiro, rezando no coro e ofício divino como qualquer deles e que para o efeito quando entrava deixava na porta a espada e vestia uma sobrepeliz.

D. Afonso Henriques. Datada do final do século XI

D. Afonso Henriques. Datada do final do século XII ou início do século XIII, esta poderá ser a mais antiga representação do primeiro monarca português. Já coroado e de espada em punho, o rei enverga também o manto real. (Créditos: Museu Arqueológico do Carmo/ José Pessoa/ IMC). Acedida em https://nationalgeographic.sapo.pt/historia/grandes-reportagens/953-afonso-henriques

Em memória desse gesto, a porta por onde entrava ficou a designar-se de espada cinta, designação que manteve até à data da sua demolição em 1628. Todavia nenhuma espada propriamente dita é aí mencionada enquanto objeto de devoção.
… Parte do debate gerado em torno da genuinidade da espada que hoje conhecemos como de D. Afonso Henriques, é suscitado pela improbabilidade do regresso das armas de Alcácer Quibir depois da trágica derrota de D. Sebastião.
Em 1604, numa vida de San António de Padua da autoria de Mateo Aleman, fomos encontrar a mais remota referência a este episódio que até agora conhecemos, em que se justifica a não utilização das armas e o consequente regresso com facto de o exército de terra estar já vencido quando chegou a armada onde se transportava a recamara do Rei e onde viajavam estas armas e não por esquecimento como divulgaram outros ao longo do Século XVII.
Ainda na primeira metade do Século XVII, quer D. Vicente quer D. José de Cristo, memorialistas de Santa Cruz, voltam a referir-se a ela, este último para dizer que se perdeu num incêndio da Sacristia.
Em 1628, Faria e Sousa refere-as como «oyas inestimables» que são no Mosteiro, ainda nesses dias, a espada, o escudo e a sobrepeliz com que seguia o Coro.
D. Vicente e D. José de Cristo acrescentam às narrativas que trasladam observações de carácter prático que eventualmente decorreriam do seu contacto mais direto com os objetos em questão e com o cartório onde os registos dos acontecimentos que os envolviam se guardavam. Da espada regista D. Vicente:
«Assi com ElRei pedio nesta carta assi se fez,/ mandaramlhe a espada, e escudo, e pera ir/ mais venerado, lhe fizeram a caixa preta/ que agora tem, sobre a antiga, a espada também a alimparam, e lhe fizeram aquella/ bainha e cabos, e caixa, porque dantes disto/ nam tinha cabos, senão amaçam largo, e huã bainha antigo como de facas».
Na miscelânea de D. José de Cristo guarda-se uma descrição detalhada que, a nosso ver, vem avolumar as muitas dúvidas levantadas sobre a originalidade da arma que em 1834 chega ao Museu Portuense:
«Dej-/xounos também huã espada de cingir que tem sinco palmos / de comprido, a guarnição ao Antigo, de largura de tres dedos e / vaj se deminuindo ate a ponta em dous, a qual antiguamente / era maior e mais larga e Comprida, mas como he de tantos an-/ os o ferro vajse guastando de alimparem porque a conser-/vamos sem ferrugem e mui lustrada como tal reliquea me-/resse. Alem disto também lhe fizeram as guardas e punho / mais curto do que era quando El Rej D. Sebastião a quis levar / pera africa».

Espada dita de D.  Afonso Henriques.png

Espada dita de D. Afonso Henriques

A informação pode ser verdadeira e descrever a espada que efetivamente regressou do Norte de África e a sua posterior alteração, ou ser fantasiosa e descrever uma espada nova que se fez para substituir a relíquia perdida, justificando as diferenças entre a original e que então se descrevia com as alterações e a usura do tempo. Em qualquer dos casos a espada que hoje se conserva não apresenta vestígios de semelhante desgaste ou alterações.
Das relíquias de D. Afonso Henriques guardadas em Santa Cruz apenas a espada chegou até nós. Da sobrepeliz e do escudo, deixa, que saibamos, de haver notícia depois do século XVII.

Espada dita de D. Afonso Henriques, último quarte

Espada dita de D. Afonso Henriques, último quartel do Século XVI ?, Museu Nacional de Soares dos Reis/ em dep. No Museu Militar do Porto (fot. José Pessoa IMC/ MC)

[Em 1985] A espada de D. Afonso Henriques cuja posse tanta polémica suscitara, é solicitada para uma exposição comemorativa do 8.º centenário da morte do Fundador no Museu Militar do Porto sendo em seguida pedida para passar a integrar a exposição permanente desse museu. A facilidade com que o Museu Soares dos Reis acede ao pedido evidencia que a peça não estava já incluída no programa de exposição. No Museu Militar a espada ocupa hoje lugar de destaque em exposição permanente. Todos os anos é solenemente transportada a Coimbra, até junto do túmulo de D. Afonso Henriques, no contexto das comemorações do dia do Exército.

Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:29

Quinta-feira, 03.10.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 7

O documento que hoje se divulga, está incluído numa coletânea de documentos manuscritos, datados de 1754-1792, organizada em volume em 1854, pelo Dr. António Henriques Seco que a doou à Biblioteca Municipal.
Neste volume encadernado há obras da autoria de seu bisavô, o Dr. Luís de Sousa Reis, (1707-1783), nomeadamente o Rayo de Luz Catholica que inclui o texto a seguir transcrito.

Grande chuvada inunda o Mosteiro de Santa Cruz
Grande chuvada que ocorre no dia 23 de Abril de 1766, dia de São Jorge, inundando as águas várias dependências do Mosteiro de Santa Cruz, junto à Porta do Carro, onde se forma um grande lago que obriga os frades a pedir a ajuda dos populares, para lhe quebrarem a Porta, pelo lado do Terreiro de Sansão.

Transcrição paleográfica (parcial)
[fl. 135] A 195- E bem mingoadas horas forão as que elles tiverão na madrugada do dia de São Jorge 23 deste mês de Abril. Em toda aquella noute esteve a chover, e sobre a madrugada foi tão forte e continuada a chuva, que não cabendo pella runa a copia das muitas agoas que corrião da parte de Cellas e de toda a sua Quinta da Ribella saltando estas fora pela orta correrão a Portaria do Carro e achando a fechada inundarão todo o Terreiro que fica entre a mesma Torre dos Sinos, em mais altura do que he a de hum homem, e continuava dahy pera sima de sorte que lhe entrou por todas as officinas, cozinhas, dispensas e refeitorio em que com outras partes lhes deu bastante perda, e muito mais nos celleiros do milho e cevada a qual lhe apanhou dizem que dezasete moyos, que andavão a tona de agoa e se forão embora juntamente com hua caza de livros e venda, que tinhão junto a Porta do Carro, de Ordenaçoes do Reyno e outros varios lyvros que ahy se vendião que todos ficarão inunudados com agoa e lodo e de todo estragados em que tudo experimentarão excesivo prejuizo, e com o impeto da muita agoa e embate que fazia por todas as partes tremião as hospe [fl. 135v] darias e alguns dormitorios do convento, o que tudo cauzou a estes malditos Jacobeus de Santa Cruz hum terrivel susto e quasi perdidos sem poderem acodir a um mal tão eminente, repicarão o sino a fogo vivo e rijamente e vierão as janellas a gritar em altas vozes a implorar a favor do povo e dos vizinhos que lhes acodissem e cobrassem as portas com machados, e que ainda que ao toque do sino ninguem acodio, por não dar lugar a grande copia de agoa que cahio, com tudo as vozes e gritos que os frades davão das janellas acodirão alguns vezinhos que com machados lhes quebrarão a Porta do Carro, com que a agoa começou a sahir pera o Terreiro de Sansão que todo inundou, e começarão os Jacobeus a ficar mais aliviados do susto, e tãobem o Bispo que nessa noite tinha dormido em Santa Cruz, e os frades que começarão a tratar de reparar os estragos da inundação que não forão poucos, nem tãobem foi piqueno o rigozijo que cauzou a noticia que logo se divulgou pela cidade, tanto que aclarou o dia folgando todos com o susto dos malditos, que apesar da sua soberba se virão obrigados a implorar o favor do povo, e dos vizinhos porque reconheção que tãobem necesitam delles.

Mosteiro de Santa Cruz, portaria do carro.jpeg

Mosteiro de Santa Cruz, portaria do carro

Mosteiro de Santa Cruz, terreiro que fica entre a

Mosteiro de Santa Cruz, terreiro que fica entre a mesma Torre dos Sinos. Pormenor da planta de Magne

Mosteiro de Santa Cruz, refeitório.jpg

Mosteiro de Santa Cruz. Refeitório, hoje Sala da Cidade

 

AHMC. Catálogo da Exposição. Documentos sobre o Mosteiro Santa Cruz de Coimbra no AHMC. 2019. Coimbra, Município de Coimbra.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:17

Quinta-feira, 26.09.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 6

Terramoto de 1755 em Coimbra
Informações dos párocos das diversas regiões do país relativas às consequências do terramoto de 1755 [guardados em PT/Torre do Tombo/Ministério do Reino /Negócios Eclesiásticos).
As respostas apresentam informações relativas a localidades e freguesias das regiões de Aveiro, Bragança, Coimbra, Évora, Guarda, Leiria, Portalegre, Santarém, Vila Real e Viseu, em resposta a interrogatórios ordenados pelo rei, solicitados aos bispos que por sua vez os solicitam aos párocos.
Dão conta do que foi sentido antes, durante e após o terramoto, a duração do mesmo, as consequências nas pessoas, e em todo o tipo de construções.
No relato de Coimbra referem-se os danos ocorridos na cidade, nomeadamente
no Mosteiro de Santa Cruz, na Torre dos Sinos.

Sinal utilizado para referir o Mosteiro de Santa CSinal utilizado para referir o Mosteiro de Santa Cruz em textos escritos do século XVI

Transcrição paleográfica (parcial)

PT-TT-MR-NE-02-638 imag 0167.jpgPT-TT-MR-NE-02-638 imag 0167

Ex mo. Reverendissimo Senhor,

Vossa Excelencia, me manda responder a huns interrogatorios sobre os terremotos que tem tam fortemente opprimido a nossa cidade […]
Em muitas casas Collegios e conventos se vem varios speques, porem não deixa tambem de conhecer se que se em alguas os fez por o perigo, em outras tam somente a cautella. Abriram bastantes paredes, e nem por isso fizeram retirar os moradores ainda antes de specadas, donde julgo que mais e mayores que os effeitos são os signaes das ruinas.
As mais notaveis forão no Mosteiro de Santa Cruz, em cuja torre senão dobram sinos e se fas hua obra de grande despeza, pera evitar o perigo que ameaça, e de cujo frontizpicio cahio hua das grandes estatuas que a ornam, e ficou tam perigoza outra, de S. Agostinho, que estava no alto deste, em hum nicho tambem de pedra, que logo no seguinte dia se fez apiar.
No Collegio da Sapiencia dos mesmos Conegos Regullares, aonde cahio hua bola das duas piramides que guarnecião as suas frontarias e se fes nos tectos e pavimentos de alguas cellas bastante estrago, ficando tam abaladas as ditas piramides que tambem se apiaram. No mesmo Collegio deram algua couza de si as paredes, que pera mayor segurança se tem travado com linhas de ferro.
O Collegio dos Carmelitas Calçados teve bastante perda na Livraria, e Refeitorio que esta por baixo della, acham se por ora apontadas e pera o Verão mandam os Architectos fazer de novo estas duas grandes cazas. Na Igreja quiz o demarcado temor descobrir tambem perigo em alguas pequenas rachas que abrio a abobeda athe que os mesmos architectos desvanecerão - [?]oeis fundamentos deste nimio susto.

PT-TT-MR-NE-02-638 imag 0171.jpgPT-TT-MR-NE-02-638 imag 0171

Ainda que ao principio se reputou por bem livrado o Collegio de S. Thomas, ao depois se advertio, na parte superior da Igreja, o perigo que bastou pera remover o Corpo da Universidade de entrar nella com o seo costumado prestito. Inclinarão para fora as paredes, principalmente de huua parte e foi necezario prevenir, com pontaletes, a sua mayor inclinação, pera evitar o ultimo estrago do tecto e abobeda.
No Convento dos Dominicos passou este a mais; porque chegou a cahir por terra parte da abobeda e do Arco da Igreja, fazendo se no restante deste edificio mayores aberturas; porem ha muito tempo que em todo elle, e principalmente na Igreja, se receava muito mayor perigo pelo mizeravel estado a que esta reduzida. Fez o terremoto o que sem admiração podera fazer qualquer vento e sempre o damno que agora experimentou foi menos que a destruição que ha muito ameaçava.
Nos dous collegios de S. Jeronimo, e S. Bento tiveram as igrejas seu prejuizo: naquella cahio o fecho da abobeda e neste se separou muito das outras hua parede da Cappela mor; porem como ficaram firmes as dos lados em que o tecto se sustenta, não he de concideração a ruina: mayor e muito mayor aperssuadem nos dormitorios destes 2 Collegios os muitos speques com que estão apontados, e com tudo no de S. Jeronimo foi demaziado o receio que reprezentou tam grande aquella necessidade, e no de S. Bento ficou esta, se mais acautellada e conhecida, pouco mayor do que antes era […].
AHMC. Catálogo da Exposição. Documentos sobre o Mosteiro Santa Cruz de Coimbra no AHMC. 2019. Coimbra, Município de Coimbra

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 19:05

Terça-feira, 24.09.19

Coimbra: Francisco Lemos de Faria Pereira Coutinho, bispo

O percurso deste antístite é indissociável das atribulações que envolveram D. Miguel da Anunciação, analisadas anteriormente. Não obstante, o seu carácter único e imprescindível para a história da Mitra e da Universidade de Coimbra, é absolutamente indiscutível.

Retrato de D. Francisco de Lemos b.jpg

Retrato de D. Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho com a sua representação heráldica

Representação da heráldica de D. Francisco de LRepresentação da heráldica de D. Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho existente no retrato

Foi, portanto, o décimo sétimo conde de Arganil e quinquagésimo segundo bispo de Coimbra, D. Francisco Lemos de Faria Pereira Coutinho, natural de Santo António de Jacotinga (Rio de Janeiro). Filho de Manuel Pereira Ramos de Lemos de Faria, capitão-mor e Senhor do Engenho de Marapicu, e de D. Helena de Andrade Sottomayor Coutinho, nasceu a 5 de Abril de 1735, vindo com a tenra idade de onze anos para Portugal.

Salva com as armas de D. Francisco de Lemos.JPG

Salva em prata branca, com as armas de D. Francisco de Lemos ao centro. MNMC

Sob a tutela do seu irmão mais velho Dr. João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho, o prelado seguiu Humanidades na Universidade de Coimbra, doutorando-se em Cânones em 1754 com apenas 19 anos de idade, prenunciando a carreira brilhante que iria construir nesta Instituição. Enquanto frei professo na Ordem de Avis, recolheu ao colégio dos Militares, aguardando vaga no magistério universitário. Entretanto, ao vagar o deado da Sé do Rio de Janeiro, terá pedido a nomeação para este cargo, recusada peremptoriamente por Sebastião José de Carvalho e Melo, que terá respondido: “Não lhe convém tal emprego. Não limite tanto as suas vistas”. Com efeito, viria a ser nomeado sucessivamente Juiz Geral das Três Ordens Militares, desembargador dos Agravos na Casa da Suplicação, deputado da Mesa Censória e do Tribunal do Santo Ofício. De facto, como veremos, o Marquês terá insistido para que D. Francisco Lemos fosse eleito vigário capitular, aquando da condenação a que D. Miguel da Anunciação foi severamente sujeito, pela mão de Pombal.
Nomeado Reitor da Universidade em 8 de Maio de 1770, com 35 anos foi, juntamente com o seu irmão João Pereira Coutinho e Frei Manuel do Cenáculo, um dos principais elementos da comissão da Junta da Providência Literária, que reformou a Universidade.
… Foi o responsável pela reforma de 1772, acumulando as pensões de reformador e reitor, sendo um ano depois apresentado como coadjutor e futuro sucessor do bispo de Coimbra, D. Miguel da Anunciação, confirmado a 13 de Abril de 1774 por Clemente XVI com o título de bispo de Zenópolis.
… Falecido o anterior prelado, o bispo de Zenópolis ter-se-á dirigido a D. Maria I pedindo providências quando à mitra de Coimbra, recebendo como resposta uma carta ríspida com palavras de admoestação, aconselhando-o a seguir “as modelares virtudes do seu antecessor”.

Selo de Chapa com as Armas de D. Francisco.JPG

Selo de Chapa com as Armas de D. Francisco de Lemos…Tombo do Couto de Casal Comba, Convento de Sant’Ana. A.U.C.

… Os últimos anos da sua vida foram um mapa de atribulações das quais se ressalvam as invasões francesas, tendo sido um dos membros da missão enviada a Baiona, aquando da invasão de Junot … D. Francisco de Lemos terá regressado em Novembro de 1810, data em que conseguiu licença para recolher à sua diocese mas, num processo em que foi acusado de traidor, foi retido até 1814 enquanto as autoridades apuravam responsabilidades, só depois podendo regressar à Universidade.
Acusado de ter divergido dos outros membros da comitiva, de ter viajado com um salvo-conduto do ministro da Guerra francês e de ter acompanhado as tropas francesas que caminhavam pelo norte de Espanha, só regressou a Coimbra já em idade avançada, “alquebrado de desgostos e trabalhos”, resultado de um processo que se arrastou sem as conclusões devidas.
… Veio a falecer em Coimbra, a 16 de Abril de 1822.

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:46

Terça-feira, 17.09.19

Coimbra: Miguel da Anunciação, bispo

Miguel Carlos da Cunha, nascido em Lisboa a 28 de Fevereiro de 1703, viria a ser o décimo sexto conde de Arganil e o quinquagésimo primeiro bispo de Coimbra, sob o nome de Miguel da Anunciação.

Pedra-de-armas de D. Miguel da Anunciação.jpgPedra-de-armas de D. Miguel da Anunciação conservada no Seminário Maior de Coimbra

…. Filho de Tristão da Cunha e Ataíde, primeiro conde de Polvolide, e de D. Arcângela de Távora, filha do segundo conde de São Vicente e sobrinho do Inquisidor-geral D. Nuno da Cunha de Ataíde, que o baptizou, é evidente que estamos, uma vez mais, diante de um prelado de linhagem ilustre.
Tendo ingressado como porcionista no real colégio de S. Paulo, em Coimbra, em
1719, já em 1724 o vemos receber o grau de bacharel em Cânones. Dois anos volvidos, foi nomeado em concurso, condutário da Faculdade de Cânones.
O seu percurso religioso ficou marcado pela entrada no Mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, nesta mesma cidade, tendo recebido o hábito em 1728 e onde foi eleito geral da congregação logo em 1737. A sua convivência com frei Gaspar do Casal, que empreendeu importantes reformas neste mesmo mosteiro, foi decisiva para moldar o seu carácter, vindo a ser um dos mais acérrimos adeptos do movimento da jacobeia. Ascendeu pouco depois à mitra conimbricense por nomeação de D. João V, recebendo a sagração dois anos mais tarde, em Abril de 1741.
A sua erudição e literacia estão patentes durante o percurso enquanto bispo desta cidade, quando apetrechou o Seminário Maior de Coimbra com muitas e valiosas obras, algumas das quais adquiridas directamente em França.

Pia de água benta em calcário.JPG

Pia de água benta em calcário, formada por dois corpos. Na parte superior encontram-se as armas de D. Miguel da Anunciação. MNMC

A fase conturbada da sua vida começa no momento em que se opôs à divulgação de obras de autores franceses do século XVIII, considerados perniciosos e contendo doutrinas contrárias aos ensinamentos da Igreja, através de uma pastoral de 1768 (posteriormente declarada falsa, infame e sediciosa, sendo queimada em público em 24 de Dezembro sob a presidência de Pina Manique). José Paiva discursa acerca desta problemática adiantando que “(…) Em Portugal, numa altura em que o regalismo Pombalino atingia a sua máxima expressão, D. Miguel da Anunciação foi, provavelmente, o único bispo que ousou seguir esta direcção”.

Salva de prata com armas de D. Miguel da Anunciaç

Salva de prata branca com brasão de armas de D. Miguel da Anunciação. MNMC

A partir do momento em que D. Miguel tornou pública a sua opinião, censurando obras entre as quais se incluía a Enciclopédia, o Dicionário Filosófico e autores como Rousseau e Voltaire, toda uma rede de intrigas e acusações recaiu sobre o infeliz prelado, acusado de pactuar com os jesuítas, de questionar a autoridade do rei e de se imiscuir nas decisões da Real Mesa Censória.
Na sequência destes eventos, foi preso à ordem do Conde de Oeiras sob um aparato de oitenta soldados de cavalaria que cercaram o paço episcopal. Naquele dia 8 de Dezembro de 1768, D. Miguel, assim como a sua Família e Fr. Luís de Nossa Senhora da Porta foram detidos e o antístite conduzido para Lisboa tendo ficado mais de oito anos encarcerado em condições miseráveis no forte de Pedrouços, enquanto os restantes ficaram o mesmo tempo na cadeia de Coimbra. Em todo este processo outros cónegos regrantes foram presos, em consequência de D. Miguel ser prior-mor de Santa Cruz, e todos os papéis foram daqui confiscados. O sino foi dobrado, por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo, que ordenou ao Cabido que considerasse o antístite morto civilmente e o bispado foi considerado vacante.
… Depois da alteração do panorama político com a Rainha D. Maria I, e a decadência do Marquês de Pombal e do seu afastamento forçado da capital, sabemos que D. Miguel reencontrou Sebastião José de Carvalho e Melo, aquando das suas visitas pastorais, ainda no fim desse mesmo ano. O Marquês tomou publicamente a bênção do antístite.
… Após um período de 29 meses onde ainda manteve actividade prelatícia, após a absolvição régia, morreu no convento de Semide em Agosto de 1779, tendo sido o seu corpo posteriormente transladado para Coimbra e sepultado na igreja de Santa Cruz.

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:30

Quinta-feira, 05.09.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 3

Coleção Pergaminhos da Inquisição de Coimbra

É constituída por um conjunto de Cartas de Familiar do Santo Ofício, 1676-1793.
Estas Cartas eram os exemplares originais, que findo o processo de inquirição de testemunhas, era atribuído ao titular, como prova da sua honorabilidade e limpeza de sangue. São por isso documentos particulares.
Terão sido doados ao AHMC.

Edificio da Inquisição frente pátio 1.JPG

Edifício da Inquisição em Coimbra, na atualidadeEdificio da Inquisição claustro.jpgEdifício da Inquisição em Coimbra, claustro

No Arquivo Nacional, Torre do Tombo é possível encontrar os processos de atribuição das cartas de familiar a estas pessoas.
Na inventariação recente deste conjunto realizamos essa pesquisa on line. Essa consulta fornece muitos mais elementos sobre os titulares das cartas desta coleção.

Pergaminhos da Inquisição, n.º 1.jpg

Pergaminhos da Inquisição, n.º 1, 1676. AHMC

1676, Dezembro, 22, Lisboa.
Carta de Familiar do Santo Ofício, concedida pela Inquisição, a João Baptista, do lugar de Vilela (conc. de Coimbra), casado com Catarina da Costa.
Contém anotações no verso sobre a família do titular do documento, (antepassados de José de Seabra da Silva).

Pergaminhos da Inquisição, n.º 4.jpg

Pergaminhos da Inquisição, n.º 4, 1728. AHMC

1728, Maio, 25, Lisboa.
Carta de Familiar do Santo Ofício, concedida pela Inquisição ao Doutor António de Andrade do Amaral, opositor às cadeiras de Leis, na Universidade de Coimbra, solteiro, filho de João de Lima, natural e morador na cidade de Viseu.

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:19

Quarta-feira, 04.09.19

Casa da Escrita: Conversa Aberta com a Professora Doutora Regina Anacleto, depois de manhã, 6.ª feira, às 18h00

Tema:
UNIVERSIDADE DE COIMBRA. REFORMA ARQUITETÓNICA POMBALINA

Museu de História Natural. Frontão.jpg

Museu de História Natural. Frontão

Museu de História Natural. Sacada. Pormenor.jpg

Museu de História Natural. Sacada. Pormenor

Laboratório Chimico. Alçado.jpg

Laboratório Chimico. Alçado

No reinado de D. José, e após as modificações políticas, económicas, sociais e mentais operadas no país sob a batuta do marquês de Pombal, a reforma da Universidade de Coimbra torna-se uma necessidade imperiosa.
O primeiro ministro josefino chega à cidade a 22 de setembro de 1772, a fim de proceder à “refundação” da velha Universidade; começou por fazer «a entrega apparatosa ao Reitor dos novos Estatutos dentro de um saco de veludo» na «sala grande da Universidade».
Os Estatutos Novos que modificavam tanto a estrutura curricular, como a organização administrativa, a vida económica e até mesmo os ritos e as cerimónias, desde logo levantaram uma surda contestação ao estabelecimento do programa proposto, vinda sobretudo dos seguidores do escolasticismo medieval que, com todo o zelo religioso, se mostravam hostis às «doutrinas novas, peregrinas e perigosas», doravante ministradas neste estabelecimento de ensino.
A par com a reforma curricular tornava-se necessário encontrar espaços adequados à lecionação das novas matérias e é em torno deste assunto que vamos desenvolver a nossa “Conversa aberta”.

Palestrante: Regina Anacleto
• Professora jubilada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
• Académica Correspondente da Academia Nacional de Belas-Artes (Lisboa).
• Académica Correspondente da Real Academia de Bellas Artes de San Fernando (Madrid).
Publicações mais relevantes:
• Neoclassicismo e romantismo, em História da Arte em Portugal, vol. 10, Lisboa, Edições Alfa, 1987.
• Colaboração na História de Portugal (Direção de José Mattoso), Vol. V [O Liberalismo (1807-1890], Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, p. 668-683.
• Arquitectura neomedieval portuguesa, 2 vols., Colecção Textos Universitários, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/JNICT, 1997.
• El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla, Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499.
• Reforma pombalina. Primeiros projectos arquitectónicos, “Rua Larga. Revista da Reitoria da Universidade de Coimbra”, [Caderno temático: O Paço das Escolas revisitado], 1, Coimbra, 2003, p. 8-13.
• Coimbra entre os séculos XIX e XX: ruptura urbana e inovação arquitectónica, em Caminhos e identidades da modernidade: 1910, o Edifício Chiado em Coimbra, Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Museu Municipal. 2010, p. 151-176.
• O Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018 (2.ª edição).

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.

Próximas Conversas Abertas
04.10.2019, 6.ª feira, 18h00
Palestrante: Rodrigues Costa
Tema: Herdade de Enxofães: a sua importância para a subsistência do Hospital de S. Lázaro de Coimbra

08.11.2019, 6.ª feira (a primeira 6.ª feira é feriado), 18h00
Palestrante: Nelson Correia Borges
Tema: João de Ruão um escultor de Coimbra

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:33


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Junho 2020

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930