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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 28.02.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 2

Ao longo do texto de Carneiro da Silva As Estalagens Coimbrãs e do seu termo, para além das três estalagens mencionadas na entrada anterior, são ainda referidas:

- Estalagem de Santa Clara, primeira
… nas reuniões da Câmara de 22 de julho de 1642 e na de julho de 1644, se discutiram os problemas que o estalajadeiro … criava na sua «Estalagem de Santa Clara» … por estar notificado não usasse de venda nem de agasalho pessoa alguma em sua casa, de «mau viver», e ele fazia o contrário.

- Estalagem de Santa Clara, segunda

Panorâmica do Bairro de Santa Clara aa.JPG

Panorâmica do bairro de Santa Clara. Notar a estrada para Lisboa, e no extremo esquerdo da gravura [não identificada] o que foi segunda estalagem de Santa Clara

Em 1674, Cosme Francisco Guimarães, morador em Sansão, pagava o foro de 200 reis de explorar aquela estalagem no Rossio de Santa Clara [a qual fora construída] «para substituir outras que se tinham arruinado com as cheias perto da ponte.»

- Estalagem na Rua da Sofia
Na passagem do século XVI existiu na Rua da Sofia, na vizinhança da entrada da Rua Nova [uma estalagem que] Diogo Marmeleiro de Noronha … fizera … para agasalho dos passageiros e caminhantes com muito gasalhos e camaras fechadas para fidalgos e pessoas graves.

- Estalagem da Quinta da Portela
Em 16 de Dezembro de 1624 «Diogo Marmeleiro de Noronha me enviou dizer por sua petição que ele queria fazer junto à sua Quinta e lugar da Portela uma estalagem que seria de grande comodidade dos passageiros que caminhavam por aquela estrada que era das mais seguidas da dita cidade por ser a de Madrid e por naquela paragem passar uma barca o rio Mondego, que quando no inverno com alguma cheia não podia passar a dita barca, e os que então caminhavam ficavam dormindo pelos pés das árvores sem terem nenhum agasalho pelo que me pedia lhe fizesse mercê de lhe privilegiar a dita estalagem e mandar passar seu privilégio».

Para além destas surgem, ainda, as seguintes outras referências a estalagens:

- Estalagem das Cardosas
No Paço do Conde … onde hoje está [esteve] uma casa de brinquedos, e onde serviu uma Mariana que há muito deve atender os viandantes do céu.

- Estalagem do Lopes ou Hospedaria do Caes Novo
Situava-se nas imediações do atual Banco de Portugal, visto que tinha outra entrada pela Rua do Sargento-Mor, e ter particularidade de ser pouso de estudantes endinheirados, acabados de chegar, até se mudarem para o seu território da Alta.

Na parte final do texto o Autor refere ainda que Camilo esteve hospedado na «Marquinhas do Leite Morno», na Rua Larga … e que pelos séculos XVII, XVIII e XIX existiram no burgo as estalagens «do Galego» … do «Fernando» mais conhecida pela «Estalagem do Inferno» a do «Raimundo da Teodora» … a do «Francisco Lopes de Carvalho», próximo da ponte, e a hospedaria do «João de Aveiro» que um incêndio destruiu em 1902.
Aqui e ali, muitas vezes nas proximidades das estalagens, existiam também as «albergarias».

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

 

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por Rodrigues Costa às 11:38

Quinta-feira, 21.02.19

Coimbra: Convento do Louriçal, um convento a conhecer 2

A IGREJA DO CONVENTO DO LOURIÇAL

Só a proteção régia de D. Pedro II e sobretudo de D. João V teria permitido a edificação de uma igreja e dependências adjacentes do convento do Louriçal com o esplendor que ali se pode observar. D. Pedro II mandou ao Louriçal o arquiteto João Antunes para traçar a planta da primeira edificação, sendo encarregado das obras Francisco de Lousada Ribadaneira. A igreja era de pequena dimensão, pelo que D. João V decidiu ampliá-la, encarregando Carlos Mardel do novo projeto e António Andrade do Amaral de dirigir os trabalhos. Mardel terá seguido o projeto de João Antunes com as necessárias adaptações às novas dimensões da igreja. Em 27 de Outubro de 1739 estavam as obras concluídas e procedeu-se à inauguração.
O corpo da igreja encontra-se deslocado em relação ao núcleo das dependências conventuais. O acesso faz-se por uma porta lateral, como é habitual nos conventos femininos, encimada por um medalhão com a adoração do Santíssimo Sacramento.

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Igreja do Convento do Louriçal
O interior, de nave única retangular, com os ângulos da cabeceira cortados, coberta de abóbada de berço, é um exemplar notável da arquitetura da época de D. João V. A capela-mor, separa-se da nave por arco cruzeiro com as armas reais, encostando em vigorosa cornija, que percorre todo o espaço da nave, e tendo na parte superior um nicho de volutas ao estilo de João Antunes, com uma imagem de S. Miguel. Uma abóbada de caixotões em meia laranja cobre a luminosa capela-mor. Aqui se encontra o túmulo de madre Maria do Lado. A abóbada do corpo da igreja é decorada com pinturas já ao gosto rococó, onde se mostra a adoração do Santíssimo Sacramento e o êxtase de S. Francisco e Santa Clara.
O corpo da igreja tem dois altares laterais e dois colaterais. Todos têm retábulos de mármores polícromos, lavrados e esculpidos por João António Bellini de Pádua, estatuário italiano que ao tempo trabalhava em Portugal. Compõem-se de colunas laterais com anjos nos remates.


Igreja do Convento do Louriçal, altar-mor.JPG

Igreja do Convento do Louriçal, altar-mor

O altar-mor destaca-se pelo trono e baldaquino onde permanentemente se expõe a custódia eucarística.
No topo da igreja, junto à porta de entrada, situam-se os coros, alto e baixo, defendidos por grades de pontas. O coro alto, de teto abobadado, é revestido de azulejos com cenas bíblicas. O coro baixo, acessível aos visitantes, também se encontra revestido de azulejos, com cenas da vida de Santo António.
Toda a igreja é azulejada, desde o solo até à cornija, numa sucessão de quadros e motivos decorativos verdadeiramente invulgar. Valentim de Almeida será o seu autor. O pintor azulejista mostra aqui um nível superior, de traço perfeito e perfeito domínio da técnica da aguada. Os quadros apresentam ciclos sequenciais. Na nave, ao nível inferior, o ciclo da vida de S. Francisco de Assis, com oito quadros; ao nível superior, separado por leve cornija, o ciclo da Paixão da Cristo, formado por dez painéis. Na capela-mor, preenchendo os tímpanos das paredes norte sul, situa-se o ciclo da vida da Virgem, com quatro painéis, e, nos restantes espaços, o ciclo da vida de Santa Clara, com doze painéis.

Igreja do Convento do Louriçal.JPG

Igreja do Convento do Louriçal, imagem

O coro baixo, também completamente azulejado, apresenta grandes cenas enquadradas por motivos arquitetónicos e decorativos, formando outro ciclo, agora dedicado a Santo António. Nesta sala se encontra, deitada na sua naveta, uma formosa imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, oferecida ao convento pelo rei D. José.
A igreja do convento do Louriçal ilustra bem o conceito de arte total, tão caro do barroco. A arquitetura, a pintura, a escultura, os relevos, a azulejaria cristológica, mariana e de exaltação da Ordem Franciscana, formam um conjunto plástico coerente, em que o tema unificador é o Santíssimo Sacramento.
Entrámos ali num fim de tarde, quando as freiras entoavam no coro o ofício de vésperas, com o Santíssimo Sacramento exposto no trono. Apanhados entre os dois fortíssimos focos espirituais, sentimos quão grande é a diferença entre uma casa religiosa em pleno uso das suas funções e tantas outras dispersas por este país fora, abandonadas, degradadas, vazias ou adaptadas sabe Deus a que fins!NELSON CORREIA BORGES

In: Correio de Coimbra, n.º 4727, de 14 de Fevereiro de 2019.

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por Rodrigues Costa às 21:23

Terça-feira, 19.02.19

Coimbra: Convento do Louriçal, um convento a conhecer 1

Breve explicação: o Convento do Louriçal, embora já esteja para lá do distrito de Coimbra, sempre esteve muito ligado à nossa Cidade e integra a sua diocese, razões pelas quais aqui publicamos este belo texto que traça a sua história.

O CONVENTO DO LOURIÇAL
O desejo do ser humano de se retirar da sociedade para se dedicar a um ideal de perfeição divina é transversal a todas a grandes religiões. No cristianismo as primeiras manifestações deste ideal datam da segunda metade do século III e surgem com características bastante semelhantes em diferentes partes do mundo cristão. Conheceram várias experiências importantes: o movimento anacorético e o cenobitismo egípcio, os protótipos sírios e orientais, o monaquismo com feição própria da Gália, da Irlanda e da Península Ibérica. Foi o monaquismo beneditino que trouxe a racionalização e humanização das primitivas estruturas, criando um tipo de complexo monástico que os cistercienses aperfeiçoaram e as restantes ordens religiosas adaptaram às suas características. Mesmo as ordens mais voltadas para a intervenção na sociedade organizaram as casas de forma a propiciar aos seus membros um constante estado de intimidade com os mistérios divinos, quer sob a forma individual e privada, quer litúrgica ou coletiva.

Convento Louriçal vista exterior.JPG

Convento do Louriçal, vista exterior e portaria

O convento do Louriçal é um exemplo disso, mas fruto de condições específicas que estão na origem do seu aparecimento nesta vila do concelho de Pombal e outrora ela própria sede de um concelho, extinto em 1855.
A sua história está intimamente relacionada com a da fundadora, a madre Maria do Lado. Maria de Brito, que na religião adotou o nome de Maria do Lado, nasceu no Louriçal em 1605, numa família da pequena nobreza local. De educação profundamente religiosa, aderiu à Ordem Terceira Franciscana em 1626 e ficou muito impressionada com a profanação e vandalização do sacrário da igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, em 1630. A necessidade sentida de desagravar este desacato levou-a a instituir as Religiosas Escravas do Santíssimo Sacramento fundando no Louriçal o Recolhimento de Terceiras em 1631. Maria de Brito faleceu em 1632. Recebeu o nome de Maria do Lado já no seu leito de morte, por devoção à chaga lateral que Cristo recebeu na cruz. A sua vida, povoada de visões místicas, provocou a veneração popular, pelo que, logo em 1633, se iniciou o processo de beatificação que teve interrupções várias e atualmente se encontra reaberto e em curso.
A comunidade sofreu vários contratempos com as invasões francesas e a extinção das ordens religiosas em 1834. Na implantação da República o edifício foi ocupado por forças militares e as freiras expulsas. Em 1927, cinco antigas religiosas, ainda vivas, decidiram comprar o convento e regressar, restaurando assim a comunidade.
Inicialmente o Recolhimento funcionava na casa de Maria do Lado, o que condicionou toda a organização espacial.

Convento do Louriçal, porta da Igreja.JPG

Convento do Louriçal, porta da Igreja

A construção da igreja iniciou-se em 1640. Não seria mais que uma simples capela. Só em 1688 se pensa e aprova transformar o Recolhimento em Convento. D. Pedro II dá o apoio régio, mandando ao Louriçal o arquiteto João Antunes para desenhar o projeto dos edifícios, cuja primeira pedra se lança em 9 de março de 1690. Foi, porém, D. João V, por um voto feito em 1700, quem ordenou a edificação do que existe. Sob a sua proteção integrou a comunidade na Regra de Santa Clara, dando assim origem às Clarissas do Desagravo.
Para quem esteja habituado a observar em planta a orgânica de mosteiros e conventos, com o claustro como motivo ordenador, em cujos lados se erguem a igreja, o dormitório, o refeitório e outras dependências, a solução adotada no Louriçal é irregular. O claustro, do tipo de arcadas sequentes sobre pilares, tem um só piso e ao centro do espaço reticulado, a fonte de traçado curvilíneo fortemente escultórico. Bordejam-no várias dependências utilitárias, designadamente o refeitório, abobadado em arco abatido. Todo este conjunto de edifícios se encosta em diagonal à zona da capela-mor da igreja. A torre campanário situa-se ao lado dos coros. Para além deste núcleo estende-se a cerca, onde se encontra uma capela de meditação.

A portaria, com portal de bom desenho, rematado por volutas envolventes das armas reais, ergue-se próximo da cerca o que acentua o caracter diferenciado da planta do convento.
Voltaremos ao Louriçal, para a obra de arte total que é a igreja.

NELSON CORREIA BORGES

In: Correio de Coimbra, n.º 4723, de 17 de Janeiro de 2019.

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por Rodrigues Costa às 09:22

Quinta-feira, 17.01.19

Coimbra: Quinta da Portela 2

Fachada principal do Palácio.jpg

Fachada principal do Palácio

A fachada principal, que é a única inteiramente nova … [e] nela se resume com maior evidência a introdução dos cânones neoclássicos, muito embora esta tentativa de racionalização seja interrompida pelo eixo do portal.

Ângulo esquerdo do Palácio.jpg

Ângulo esquerdo do Palácio

É uma fachada delimitada por fortes cunhais de cantaria lisa encimados por urnas com fogaréus barrocos, e composta por dois pisos demarcados por uma barra horizontal de cantaria, sendo o inferior rasgado apenas por duas janelas de verga lisa que ladeiam o portal … No piso superior, seis janelas de sacada com grade de fero e avental recortado.

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Zona central da fachada do palácio

…. Estruturalmente, o portal desenvolve-se a partir de um vão retangular ladeado por duas pilastras encimadas por duplas mísulas volutiformes. Coroadas por plintos de perfil bojudo.

Passagem, através do portal principal, ao pátio

Passagem, através do portal principal, ao pátio interior

Acesso ao pátio interior com a porta de entrada d

Acesso ao pátio interior com a porta de entrada da capela ao fundo

O portal estabelece a ligação com o pátio interior, ao qual se acede através de um largo e comprido túnel com cobertura em madeira … sustentada no outro extremo num possante arco abatido e tendo como pano de fundo o portal da capela.


Pavimento do pátio interior.jpg

Pavimento do pátio interior

O túnel … é pavimentado com uma calçada bicolor feita com pedras do rio, solução que é retomada no pavimento do pátio, onde está desenhada uma admirável rosa-dos-ventos.

Nota: Após a realização deste excelente trabalho de investigação, a área da Quinta da Portela foi urbanizada e o palácio – que se mantem na posse da Família – embora mantendo a traça original, sofreu obras de reabilitação.

Mora, L.M.C.F.O. 2001. A Quinta da Portela. História e Arte. Seminário de História da Arte. Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vol. I e II. dactilografados.

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por Rodrigues Costa às 09:30

Terça-feira, 15.01.19

Coimbra: Quinta da Portela 1

A mais antiga referência ao lugar da Portela … encontra-se provavelmente num documento de 1171 sob a designação de Portela do Lunado, em cuja direção partia a estrada que de Coimbra passava pelo Calhabé (“Villa Mendica”).

A Quinta da  Portela.jpg

A Quinta da Portela

Quanto à quinta [da Portela] propriamente dita, se bem que estejamos convencidos de que se lhe refere um documento da segunda metade de Trezentos … apenas podemos garantir que passado um século era seu proprietário o cabido da Sé de Coimbra … O negócio celebrado em 1364 entre o Morgado de Carvalho [Álvaro Fernandes] e o cabido da Sé está registado num pergaminho que foi levado para a Torre do Tombo [e nele é referido que] … deu “duas vinhas com seus olyvaaes e com seu lagar e paaço … no logo hu chamam a Portella.
… O termo “paaço” corresponde à forma portuguesa mais antiga do latino «palatium», utilizada a partir do século XIII … é possível que a residência recebida pelo cabido da Sé de Coimbra obedecesse aos parâmetros do “paaço” medieval português.
… A 17 de Fevereiro [de 1617], o cabido da Sé de Coimbra dera licença “ao Senhor Lucas da Fonsequa … para que elle posa vender a sua quinta da Portella … a qual he factuisim desta nossa Sé Cathedral.
[A venda da quinta foi feita a] Diogo Marmeleiro de Noronha … onde há pelo menos sete anos residia e realizara importantes melhoramentos, isto apesar de possuir casas nobres na cidade de Coimbra.
…. Entre 21 de Outubro de 1741 e 3 de Novembro de 1745, a quinta da Portela foi arrematada em hasta pública por D. João Luís de Meneses, da cidade de Lisboa [mas] … não seria, em todo o caso, por muito tempo que … iria deter o domínio útil da quinta da Portela.
De facto, ainda não tinha decorrido um mês quando, no primeiro de Dezembro seguinte [ocorreu a] “venda da quinta da Portella com suas pertensas (…) ao Reverendo Deam da See de Coimbra, o Sr. Manoell de Britto Barreto da Costa e Castro…” o influente Morgado de Pomares.
… a sucessão da casa e de todos os vínculos à mesma associados recaiu … [sobre] Francisco Xavier de Brito Barreto da Costa e Castro.
… Será em vida deste morgado que terão início as obras de reconstrução das casas da quinta da Portela onde, … ocorrera “hum fogo [que] as destruiu e devorou totalmente.

Foz do rio Ceira vista do Palácio.jpg

Foz do rio Ceira vista do Palácio

Segundo os autores do «Inventário Artístico de Portugal» … o palácio dos Marqueses de Pomares “parece tratar-se duma reedificação, no fim do séc. XVIII ou princípio do séc. XIX, duma casa anterior”.

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Ramal acesso [hoje desaparecido]

…. Ultrapassada a entrada [da quinta de Portela] … uma longa fila de castanheiros que ladeia o caminho de terra batida que após uma série de curvas e contracurvas, desembola numa extensa superfície plana, flanqueada por uma longa fila de casas térreas destinadas às atividades agrícolas,

Vista parcial das instalações agrícolas e camin

Vista parcial das instalações agrícolas e caminho para Vila Franca

com destaque para o enorme lagar de azeite que, nos seus tempos áureos, moia a maior parte da azeitona de Coimbra e arredores.

O Palácio visto do jardim.jpg

O Palácio visto do jardim

Ao fundo ergue-se o “majestoso palácio à frente do qual se desenvolve um jardim de inspiração francesa, fechado por imponente gradeamento e portão”.

Mora, L.M.C.F.O. 2001. A Quinta da Portela. História e Arte. Seminário de História da Arte. Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. .Vol. I e II. dactilografados

 

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por Rodrigues Costa às 09:34

Quinta-feira, 27.12.18

Coimbra: Senhora da Alegria de Almalaguês

Quase ignorado santuário de montanha, dedicado à Virgem Maria, é este.

Capela da Senhora da Alegria exterior.JPG

Capela da Senhora da Alegria exterior

Poucos autores se lhe referem, com exceção do Pe. Luiz Cardoso no seu Dicionário Geográfico de 1747. E, no entanto, a sua antiguidade é incontestável. Situa-se no cimo de um cômoro, donde se vislumbra e sente uma infinidade de aldeias em redor, circundado pela ribeira afluente do Dueça e agora pela autoestrada 13. O acesso é ao presente facilitado por esta via e por caminhos alcatroados, outrora veredas rurais percorridas a pé por romeiros devotos.
O monte tem o sugestivo nome de Crasto ou Castro, a remeter-nos para eras de um passado remoto, com habitações pré-históricas ou fortificação de defesa na época da reconquista cristã, como aconteceu nesta região de Bera, designadamente na vizinha Torre de Bera. Fica-lhe de fronte a aldeia de Almalaguês, a cerca de um quilómetro. Por aqui ainda se pode ouvir o bater de um ou outro tear, mas esta atividade que outrora foi importante e fez de Almalaguês o maior centro de tecelagem artesanal da Europa encontra-se hoje decadente. Houvesse em Coimbra uma edilidade consciente dos valores culturais do seu território e teria protegido convenientemente a tecelagem de Almalaguês e o que resta da torre de Bera.

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Capela da Senhora da Alegria interior

À falta de fontes escritas é a própria capela que ditará a sua história. O edifício é modesto, com uma só nave, de apreciável tamanho para uma ermida, capela-mor e sacristia adossada a norte. Sensivelmente a meio da nave encontra-se um púlpito de forma cilíndrica sobre coluna dórica, lavrado em pedra calcária, com caneluras e dois frisos de cabecitas aladas de anjos. Tem aposta uma inscrição onde se lê que a capela foi mandada construir em 1634 pelo pároco Teodósio Abreu. Na fachada abre-se um portal do século XVIII, atestando outra intervenção. Esta tem certa nobreza na sua austeridade: porta encimada por frontão triangular e decorada com brincos laterais, na tradição da época de D. João V, cunhais vincados de cantarias e discreto campanariozinho.
No topo da nave erguem-se dois altares colaterais em popular e tardio neoclassicismo. O arco cruzeiro, de cantarias, abre-se para a capela-mor onde avulta o retábulo com a imagem da titular. Tem duas colunas espiraladas por banda, recobertas por folhagens, cachos de uva e aves debicando os bagos. O remate é uma composição de elementos diversos coroados por um medalhão com as iniciais AM. Pena é que tudo isto se encontre repintado de branco e purpurinas, apenas restando alguma policromia antiga em certas cabeças de anjo.
Cobria o teto da capela-mor um revestimento de madeira com vinte caixotões, do qual apenas existe atualmente uma pequena parte envolvendo o retábulo. Os caixotões, da reforma do século XVIII, ostentavam pinturas e dísticos de alegorias à piedade, mansidão, prudência, justiça, fortaleza, temperança, caridade, humildade e pureza. Os que restam, colocados em volta do retábulo ilustram algumas litanias da Virgem Maria.

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Capela da Senhora da Alegria capela-mor

Reveste as paredes da capela-mor um encantador alizar de azulejos recortados da segunda metade do século XVIII, da oficina coimbrã de Salvador de Sousa e Carvalho. As cenas representadas são: a Adoração dos Magos, Adoração dos Pastores, e Nossa Senhora da Conceição; Nascimento da Virgem, Anunciação e Visitação.
A Senhora da Alegria, bem como uma santa mutilada, do século XV, num retábulo colateral, atestam a antiguidade deste lugar sagrado. A imagem da Senhora, de madeira, é de uma época difícil de definir, talvez século XIV ou mesmo XIII. Só um exame científico poderá ajudar. Ampara o Menino no antebraço esquerdo e com a mão direita faz um gesto de bênção. Apresenta uma ligeira curvatura à direita, que pode ter sido um aproveitamento do tronco em que foi esculpida.
Outro motivo de interesse deste santuário são os ex-votos, dos séculos XVIII e XIX.
Já aqui não mora o ermitão de que nos fala Luiz Cardoso, mas a Senhora da Alegria continua a receber devotos, nos dias da sua festa, que é segunda feira da Pascoela, e sempre, como pudemos testemunhar. Permanece o mesmo encanto espiritual que tanto atraiu as gentes dos séculos passados.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra,  n.º 4718, de 2018.12.06

 

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por Rodrigues Costa às 12:25

Terça-feira, 11.12.18

Coimbra: Sé Nova, o quadro de S. Tomás de Vila Nova

AINDA S. TOMÁS DE VILA NOVA NA SÉ DE COIMBRA
Na sacristia da Sé Nova pode ver-se um quadro de pintura que facilmente se relaciona com a mudança de titular na capela da nave da igreja, de S. Francisco Xavier para S. Tomás de Vila Nova. Representa o santo bispo de Valência e está datado de 1676, ano em que o seu culto já devia ser bem conhecido dos cónegos da Sé e das gentes de Coimbra.

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Sé Nova, quadro de S. Tomás de Vila Nova

Tomás de Vila Nova é uma das figuras gradas da igreja espanhola do século XVI, a par com outros místicos. É designado como o “S. Bernardo espanhol” pela sua teologia sobre a Virgem Maria, o amor divino e a pastoral. Nasceu em Fuenllana em 1486, mas a sua juventude decorre em Vila Nova dos Infantes, donde adotou o nome quando ingressou na congregação dos agostinianos. Desde a meninice deu provas de comovente caridade, privando-se de tudo pelos pobres. Em 1518 foi eleito superior dos agostinianos e em 1545 bispo de Valência, cargos que aceitou com relutância. Organizou várias formas de assistência a donzelas pobres e sem dote, doentes e crianças abandonadas. Para estas criou um orfanato dando-lhes o abrigo, cuidados e carinho. Chegou ao ponto de dar a sua própria cama, pois não tinha, de momento, outra coisa que dar. Mas não se limitava a dar esmolas: procurava combater a pobreza de uma forma ativa, dando trabalho aos desprotegidos. Dono de uma formação cultural fortíssima, é autor de belos sermões e obras místicas, como o Sermão do Amor de Deus e o Comentário ao Cântico dos Cânticos.

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Sé Nova, quadro de S. Tomás de Vila Nova, pormenor

Gaspar de la Huerta, um dos mestres do Século de Ouro espanhol. Nasceu em 1645 e morreu em 1714. A sua vida decorre sobretudo em Valência, onde desenvolveu atividade e foi muito apreciado. Lamentavelmente grande parte das pinturas que executou para igrejas e conventos já não existe, pelo que a tela da Sé alcança um valor reforçado.

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S. Tomás de Vilanova 1

As excelentes relações entre os cabidos das sés de Coimbra e Valência poderão justificar a existência do quadro de 1676 e do culto ao santo valenciano. Aproveitando essa maré, o cabido de Coimbra pediu ao de Valência uma relíquia do santo. Este não só ofereceu a relíquia como a própria imagem, também de cunho realista. Uma e outra chegaram a Coimbra em 18 de janeiro de 1687, sendo conduzidas em solene procissão, presidida pelo bispo D. João de Melo, desde S. Francisco da Ponte até à Sé. Nesse mesmo ano de 1687 se erigiu na Sé a Irmandade do Glorioso Santo Tomás de Vila Nova. A imagem encontra-se no altar da Sé Nova, com vimos, e o relicário foi parar ao Museu Machado de Castro.

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S. Tomás de Vilanova 2

Quando se fez a mudança da Sé Velha para a igreja dos jesuítas, o forte culto a S. Tomás de Vila Nova impôs a nova entronização da sua imA pintura que se guarda na sacristia da Sé, não obstante se encontrar em mau estado de conservação, é um documento expressivo da vida e obra deste santo. Num primeiro plano é representado Tomás de Vila Nova, sentado, paramentado de pluvial e mitra episcopal, como homem de idade madura e de face bem vincada, exprimindo afeto. Estende as mãos para dar esmola a uma criança que a recebe de olhar ansioso. A seu lado e um pouco mais à frente vê-se um velho pedinte, arrimado a um bordão e de joelhos em terra. Completam a cena cinco outros pobres de aspeto sofredor. Por detrás do santo, eleva-se um clérigo ancião, de cruz alçada. Todas as figuras são de notável vigor e realismo nas feições e atitudes, autênticos retratos, exprimindo expectativa, sofrimento, compaixão. Por fim o cenário cria o ambiente com formas arquitetónicas austeras, donde emergem ainda dois outros vultos humanos.
Trata-se de uma composição notável de um grande artista. Infelizmente o estado de conservação da tela não deixa perceber todos os pormenores, designadamente a tão importante expressão da cor. O pintor encontra-se identificado, pois o quadro está assinado: agem. O quadro integrou a sacristia, onde convive bem com as cenas das vidas de Santo Inácio e S. Francisco Xavier. Possa esta chamada de atenção para a pintura de Gaspar de la Huerta permitir que se encare como obra prioritária o seu restauro.

Nelson Correia Borges
In: Correio de Coimbra, n.º 4714, de 8 de Novembro de 2018

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por Rodrigues Costa às 09:24

Terça-feira, 09.10.18

Coimbra: A Capela de S. Tomás de Vila Nova na Sé de Coimbra

Quando os primeiros jesuítas, chefiados por Simão Rodrigues vieram para a cidade do Mondego, em 1542, com o objetivo de fundar o colégio donde sairiam tantos missionários para terras do Brasil e do Oriente, estariam bem longe de supor que a igreja construída com tanto desvelo e rigor acabaria por ser a Sé Catedral de Coimbra.

A construção da igreja, que havia de servir não só para o colégio, mas para envolver e catequizar o povo de Coimbra, iniciou-se em 1548, inaugurando-se a nave em 1 de janeiro de 1640, sendo dedicada ao Santíssimo Nome de Jesus. Teve como arquiteto Baltazar Álvares que executou outros projetos para a Companhia de Jesus e seguiu de perto a planta da igreja do Gesù, de Roma, concebida por Vignola, segundo modelo anterior. A planta é a que melhor servia aos propósitos da Companhia: ampla nave central, bem iluminada, com capelas nos flancos, obscurecidas. A atenção da assembleia podia centrar-se toda no grande espaço e no altar-mor no topo, bem como nos púlpitos que, em local estratégico da nave, possibilitavam uma boa audição da palavra inspirada dos pregadores. Ao contrário de outras igrejas da Companhia, em Coimbra as capelas laterais têm a mesma altura da nave, o que confere ao conjunto arquitetónico impressionante rigor e monumentalidade. Entre estas destaca-se a do meio, do lado nascente – fugindo à tradição de orientar as igrejas, isto é, voltar as fachadas a poente e as cabeceiras a oriente, os jesuítas preferiram erguer a fachada para sul, o que lhes possibilitava ter mais luz na nave central, ainda mais potenciada pela cúpula, no transepto.

Esta capela foi dedicada a S. Francisco Xavier e patrocinada por Francisco da Fonseca, lente de Leis na Universidade de Coimbra, nela tendo ficado sepultado em 1631, bem como sua mulher, em 1661. Deixou os seus bens para dotação e ornamento da mesma, trabalho que somente se concluiu em 1688.

Não foram fáceis os tempos para os jesuítas na Europa, acabando por expulsos de vários países, e vendo por fim ser extinta a Companhia de Jesus pelo papa Clemente XIV, em 1773. Em Portugal, o campeão do antijesuitismo foi o Marquês de Pombal que determinou a prisão e expulsão dos seus membros em 1759. O colégio de Coimbra foi encerrado e a igreja ficou abandonada. Só em 1772, estando o Marquês de Pombal a reformar a universidade, passou uma provisão, cedendo a igreja ao cabido catedralício para sé, com anexos da sacristia e claustro.

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 Sé Nova capela de S. Tomás de Vila Nova

 Algumas alterações foram operadas no edifício para a nova função. A capela de S. Francisco Xavier viu o seu titular ceder o lugar a S. Tomás de Vila Nova, santo levantino muito da devoção dos cónegos, a que havemos de voltar. No nicho central do retábulo colocaram a sua imagem, vinda da Sé Velha, paramentado de pluvial, mitra e báculo. 

Sé Nova, imagem de S. Tomás de Vila Nova.JPG

 Sé Nova, imagem de S. Tomás de Vila Nova

 A capela é totalmente revestida de talha dourada, solução muito característica do barroco português, ao jeito das igrejas todas de ouro que enchiam de espanto os estrangeiros que nos visitavam. A obra foi contratada pelo entalhador de Lisboa Matias Rodrigues de Carvalho, em 10 de agosto de 1682 e é de excecional qualidade, mesmo a melhor de quantos retábulos desta época há na cidade.

Sé Nova capela de S. Tomás de Vila Nova colunas.

 Sé Nova, capela de S. Tomás de Vila Nova colunas

Sé Nova, capela de S. Tomás de Vila Nova colunas

 Sé Nova, capela de S. Tomás de Vila Nova colunas, pormenor

 O retábulo segue o tipo nacional ou D. Pedro II, com colunas espiraladas, prolongando-se na parte superior em arquivoltas e deixando amplo nicho central. As colunas são revestidas de parras, gavinhas, cachos de uva e aves debicando, de talhe fortemente naturalista. 

Sé Nova, capela de S. Tomás de Vila Nova tecto.J

 Sé Nova, capela de S. Tomás de Vila Nova tecto

 O tecto é totalmente revestido de caixotões, tendo ao centro um tondo com anjos exibindo uma coroa.

A talha alastra para as paredes laterais, onde se abrem dois nichos afrontados, conservando as imagens de S. Estanislau Kostka e S. Luís Gonzaga, de grande qualidade – obras primas dentro de uma obra prima.

Resumindo: a atual capela de S. Tomás de Vila Nova na Sé de Coimbra é uma destacável obra de arte, uma obra prima que muito enriquece o património artístico da cidade e da diocese.

Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra, de 2018.10.06

 

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por Rodrigues Costa às 08:56

Terça-feira, 19.06.18

Coimbra: A igreja de Santiago de Eiras

Às portas da cidade de Coimbra e da Bairrada se situa a antiga vila de Eiras.

Foi concelho extinto em 1836, com sua câmara, vereadores, juiz, escrivães, meirinhos e todas as usuais burocracias. Nos últimos tempos Eiras cresceu quase sem medida, encontrando-se praticamente ligada a Coimbra. Mas o seu centro histórico mantém carácter aprazível, detendo ainda um apreciável número de casas antigas, por vezes nem sempre bem intervencionadas, com trechos sugestivos e encantadores.

O largo principal é de fazer inveja a algumas cidades.

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Igreja de Santiago de Eiras

 Para ele voltam a fachada a igreja matriz, a fonte e a capela do Espírito Santo. Merece especial destaque o chafariz, ao lado da igreja, composição de grande efeito, mandado fazer por D. João V, em 1743. Lá se podem ver as armas do reino e o selo da vila, envolvidos no corpo central, rematado por pirâmides.

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 Fonte de Eiras

A igreja paroquial domina o largo, com a sua fachada monumental de duas torres, tendo, do lado oposto, a não menos interessante capela do Sacramento ou do Espírito Santo. É dedicada ao apóstolo Sant’Iago. Sobre a porta principal, entre o frontão curvo interrompido, vêem-se as armas reais, tendo, no escudete das quinas, gravada a legenda Vivat Rex Ioseph, que elucida a época da construção.

Trata-se de um edifício edificado na segunda metade do século XVIII para substituir a antiga igreja que, em 1721, ainda se encontrava fora da povoação e em estado de avançada degradação, no sítio hoje chamado Passal. O antigo templo remontava aos alvores da nacionalidade, pois fora mandado edificar por D. Afonso Henriques, sendo bispo de Coimbra D. Vermudo. Em 1306 D. Dinis concedeu ao mosteiro de Celas a vila de Eiras, por troca com a terça parte da vila de Aveiro, que as monjas detinham por doação da sua fundadora, Santa Sancha. Assim ficaram as monjas de Celas como donatárias da igreja e do território, cabendo-lhes a jurisdição cível e a apresentação do pároco.

Em dezembro de 1728 o cabido autorizou a demolição da velha igreja e construção da atual. Porém, o processo arrastou-se durante muitos anos, com incidentes vários que se podem ver na excelente monografia de João Pinho. Só por meados do século se teria iniciado a construção, com planta delineada por Gaspar Ferreira, virtuoso arquiteto e entalhador, com muitas obras espalhadas pela região e Beiras. A obra de pedraria foi arrematada por Manuel Francisco, de lugar de Sá (Esgueira). Em 13 de abril de 1758 foi benzida a parte da igreja que já estava capaz. O edifício deveria estar pronto no essencial em 1767, pois, em 19 de outubro desse ano, o carpinteiro Manuel Gonçalves contratou fazer toda a obra interior: retábulo da capela-mor, dois retábulos colaterais, dois retábulos no corpo da igreja, conforme planta e risco, com muita probabilidade também de Gaspar Ferreira, e ainda cinco portas, um púlpito e grades da comunhão.

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 Igreja de Santiago de Eiras interior

 Manuel Gonçalves não era um banal carpinteiro, pois sabemos da sua intervenção na feitura de outros retábulos, com riscos de Gaspar Ferreira e Domingos Moreira para as igrejas de Taveiro, S. Pedro de Coimbra e mosteiro de Lorvão. Era natural de Adães (Barcelos) e morador na rua da Trindade, em Coimbra.

No vasto espaço da nave única e luminosa desta igreja impressiona o conjunto dos retábulos marmoreados, numa unidade estilística deveras invulgar. De quatro colunas o principal e duas os restantes, todas de fuste liso e belos capitéis compósitos. Os remates, de movimentados frontões interrompidos, contrastam com as linhas calmas e clássicas dos corpos inferiores. Decoram-se com glórias solares, mas, no retábulo-mor, esta zona é obviamente enriquecida com figuras de anjos sentados, segurando palmas, e outros elementos. Rasga-se nele a boca da tribuna, outrora preenchida por uma tela com o martírio de Sant’Iago e agora exibindo o trono eucarístico de cinco degraus curvos.

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 Igreja de Santiago de Eiras imagem de S. Tiago

 Ainda se conservam algumas imagens, vindas da igreja antiga. De salientar é o Sant’Iago, no altar colateral esquerdo, boa e expressiva obra da renascença coimbrã.

O estilo retabular do rococó coimbrão, gerado a partir do retábulo de Santa Cruz, tem em Eiras um cunho deveras interessante, a merecer cuidados na sua preservação, porque expressão estética de uma época em que os artistas de Coimbra deixaram a sua marca em todo o centro do país.

Nelson Correia Borges

 

In: Correio de Coimbra, n.º 4695, de 07 Junho 2018, p. 8.

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por Rodrigues Costa às 10:12

Terça-feira, 29.05.18

Coimbra: O trajo académico

É um hábito comprido de panno preto, sem mangas, atado atraz com cordões e guarnecido na frente com duas ordens de pequenos botões bem juntos, que começam no pescoço e descem até aos pés; eis a primeira parte do vestido. 

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Estudante da Universidade de Coimbra, séc. XVIII

 Por cima d’este se usa um outro preto e comprido, com mangas largas, precisamente como o dos pastores protestantes. Cada um traz na mão um pequeno saco de panno preto, onde, à falta de algibeiras, se acham o lenço, a caixa de rapé e outros objectos semelhantes. Os estudantes vão sempre com a cabeça descoberta, mesmo durante os maiores calores de verão:- Eis porque as ruas estão sempre cheias de homens que oferecem um aspecto triste e monacal”.

Desta forma descrevia Link o estudante universitário de Coimbra, retratando-o pelas impressões que lhe deixou a estada na cidade de Coimbra, e que relata na obra «Voyage en Portugal depuis 1797 jusqu’en 1799».

Era este o trajo académico do séc. XVIII, bem diferente do modelo utilizado no século anterior.

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 Trajo académico, painéis de João Abel Manta, 1958

 A disciplina académica impunha ao estudante regras de comportamento e decoro no trajar, vedando-lhe o uso de certos adereços e cores, procurando uma uniformidade do vestuário usado que evitasse revelar as distinções classistas e um dispêndio desnecessário.

... As referências à indumentária são mais pormenorizadas nos Estatutos manuelinos (ca. 1503) onde, no parágrafo ”Da honestidade dos vestidos” se proíbem os pelotes, capuzes, barretes, gibões de cor vermelha ou “verdegaio” e os cintos lavrados a ouro.

Provavelmente estas diretrizes eram por vezes infringidas e daí a emissão de certos diplomas régios, repondo ou especificando melhor as recomendações sobre o trajo académico, de que é exemplo a Carta de 14 de janeiro de 1539 de D. João III. Nela se enumeram os adereços proibidos: barras e debruns, pano frisado, golpes e entretalhos nas calças, lavor branco ou de cores diversas em camisas, lenços, etc. O comprimento de pelotes e aljubetas seria abaixo do joelho e sobre todo o vestuário apenas se podiam usar lobas ou mantéus sem capelo.

... Em 1863 pensava-se já na alteração deste vestuário... “Acerca de acabar-se com as batinas, fácil seria fazelo, se fora substituil-as. Ja se lhes fez uã modificação, e há tempo p.ª meditar até ao fim do anno lectivo”.

...em Edital de 21 de Setembro de 1907, em que apenas se consente o uso de gravata preta “não podendo ostentar coletes d’outra côr nem barrete algum além do gorro”.

Em Março desse ano era proposta... em Conselho de Decanos, a sua completa abolição pois o mesmo não era sequer usado a rigor.

... Só em 1910 o seu uso se tornará facultativo, por Decreto de 24 de Outubro.

 

Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 147-149

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:17


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