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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 26.01.21

Coimbra: Finanças da Câmara entre 1762-1820 1

José Luís dos Santos Barbosa, Doutorando em História Moderna na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra publicou na Revista Portuguesa de História um artigo sobre as receitas do município coimbrão, no período compreendido entre 1762 e 1820.

Trata-se de um estudo aprofundando, denso e rigoroso do tema tratado cuja leitura nem sempre é fácil. No entanto, são ali feitas referências esclarecedoras sobre o funcionamento da Câmara no final do Antigo Regime, quando o Rei estava dotado de poder absoluto.

Assim, optamos por respigar alguns parágrafos que julgamos de maior interesse e mais reveladores da vivência estudada.

- Página 108

Coimbra, uma das maiores e mais importantes cidades portuguesas no séc. XVIII e inícios do XIX, sede de provedoria e comarca e detentora de um alargado termo, com mais de 100 juradias (em 1754), com uma população que rondava os 15 000 habitantes, na viragem do século.

AHMC. Novo Regimento para o Concelho. 1740, fl. 1.

AHMC. Município de Coimbra. 1740. Novo Regimento para os Concelhos do Termo da Cidade de Coimbra. Coimbra, Oficina de Antonio Simoens Ferreyra

- Página 115

Composição da receita da Câmara Municipal de Coimbra, 1762-1820

Composição da receita da Câmara Municipal de Co

Fonte: AHMC, Livros de Receita e Despesa, 1762-1820.

As rendas eram receitas que as câmaras arrecadavam de forma indireta, por intermédio de rendeiros [contratadores das rendas]. Para o efeito, celebrava-se um contrato de arrendamento do qual se ajustava o montante e a forma de pagamento, a duração, as fianças e as cláusulas adicionais (conhecidas por ordinárias). O conceito de rendas integrava rendimentos de grande variedade e complexidade: podiam ter origem em condenações (decorrentes de transgressões às posturas municipais), tributos sobre o comércio e consumo, foros e alugueres de imóveis.

- Página 116

De acordo com os livros de receita, deram entrada, no período em análise, as seguintes rendas: guarda do campo, balanças e repeso, medidagem de Condeixa, aferidor das medidas e medidas de pau e barro, lojas de Almedina e Praça e almotaçaria.

Torre de Almedina. Casa da Câmara durante séculoTorre de Almedina. Casa da Câmara durante séculos. Acedido em www.cm-coimbra.pt

. Páginas 116-117

Guarda do campo

Nos sécs. XVI e XVII, esta renda consistia na cobrança de coimas provenientes de transgressões ao estabelecido nas posturas municipais sobre pastagens e no pagamento de uma medida de pão aos guardadores, por parte dos lavradores e seareiros do termo de Coimbra, pelo trabalho da vigia dos campos. Os guardadores eram nomeados aos pares, um pelos lavradores e outro pela Câmara, devendo assentar mensalmente as transgressões e entregar o dinheiro das coimas.

Pg. 119

Balanças e repeso

No desempenho da sua função de regulação económica, competia às câmaras proceder à aferição de pesos e medidas. Em Coimbra, esta fiscalização era realizada pelas rendas das balanças e do repeso. Apesar de representarem uma categoria única, nem sempre estiveram juntas. Sérgio Soares indica que a renda do repeso se trata da evolução do “ver do peso”, mas algumas fontes dos finais do século referem-na como “repeso do peixe”, estando presente nas fontes desde 1762, enquanto a renda das balanças surge apenas em 1797.

Pg. 120-121

Medidagem de Condeixa

Consistia numa “imposição” que incidia sobre os carros e bestas que se deslocavam para os mercados que se realizavam nessa localidade. A renda era destinada às Câmaras Municipais de Condeixa e Coimbra, entidades que tinham a seu cargo a manutenção das estradas por onde os mercadores circulavam e, por essa razão, o valor da arrematação era dividido pelos dois municípios.

Barbosa, J.L.S. As finanças da Câmara Municipal de Coimbra nos finais do Antigo Regime (1762-1820) [I]: as receitas. In: Revista Portuguesa de História – t. LI (2020), p. 107-149.

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por Rodrigues Costa às 11:26

Terça-feira, 19.01.21

Coimbra: Abastecimento de água à Cidade, nos finais do século XVIII 2

E passando a fazer exzame nos tanques dos chafarizes publicas se achou que o da Feira se acha totalmente imundo e aruinado sujeito a varias despejos, alias inmundos, e por isso as agoas podres e inpestadas de modo que as vertentes, quando sucede havellos para nada servem, e para nada prestão e no tempo do Bram e maior estyo nem essas podres vertentes as ha, para os servisos de amasar cal e munto menos para acudir a hum incindio, que de ordinario esta acontecendo; acentandoce que seria o milhar acerto saltem (sic) para evitar as podridoens o transportar e o inutil e antigo tanque chafarix para o meio do largo do Terreiro da Feira e o tanque do largo do chafarix da Sé Velha, pela rezão de roto desbaratada e munto pequeno se lhe devia dar huma nova forma mais anela e mais larga ficando assim capas das vertentes da sua bica poder acodir não so a mina de qualquer incendio, mas tambem a necessidade que cada hum do povo tiver das suas vertentes.

Fonte do Largo da Feira, ou dos Bicos.jpg

Fonte do Largo da Feira, ou dos Bicos

Chafarix da Sé Velha. 1862.jpg

Chafarix da Sé Velha

Fonte no Colégio dos Jesuítas, hoje Largo Marqu

Fonte no Colégio dos Jesuítas, hoje Largo Marquês de Pombal

 Os da Calssada e Prasa se podem conservar no estado em que se achão, porem inuteis ao povo, por que nenhuma agoa tem nem lancao nem ha nas maens de agoa pera a elles se lhes conduzir.

Fonte da Praça do Comércio.jpg

Fonte da Praça Velha, hoje do Comércio

E passando finalmente [fl. 135] ao descubrimento das novas agoas que são precizas de nececidade ao povo de Coimbra, pois que so assim se poderião evitar as sobreditas desordens e motins a que asestio o sobredito vedor declarou este:

 

Mapa das fontes. Livro II da Correa.JPG

Mapa das fontes e nascentes. In: AHMC. Livro da Correia, n° 2,1273-1754

 Que o monte que fica entre as duas estradas que correm do Sul para o norte, a saber, a que principia no Convento das Recolhidas de Santa Thereza e vai terminar ao Convento de Santo Antonio dos Olivais e a outra mais inferior que principia no Colegio da Ordem de Christo e vai terminar ao lugar de Sellas no cumprimento da qual exzistem os sobreditos nascentes e maens de agoa defechados dice, em suma, que este monte asim confrontado corria por de baixo delle hum ryo de agoa e que principiando o primeira sargento per sima da area, ou fonte chamada a de El Rey, com alguns passos mais asima da maen de agoa que descubrio a universidade, pora as suas ofecinas, levando a sobredita sorgenta pelo olival desta inferior estrada athe a caza terrea de hum cazal chamado o de Maria Madalena, atravesando o dito Monte do poente para o nascente chegando com a sobredita sorgenta, ou mina, couza de vinte palmos aredados da sobredita caza, terrea ficando esta ao lado esquerdo, se descubriria huma telha de agoa e aproximandoce a caza terrea se descobrirão duas telhas mais, e continuando a mesma mina, ou sorgenta, pelo olival daquella inferior estrada athe chegar ao cume do dito monte e estrada suprior do Convento de Santo Antonio para o de Santa Thereza, que serão mil e quinhentos palmos de comprido se descobrira tanta abundancia de agoa que, com facilidade, poderão andar azenhas e moer moinhos, porem [fl. 135v] porem que neste ambito se encontrarião algumas penhas bastantemente duras e escabrozas as quaes senão levadas a ferro e não a fogo, por que no fim dellas se sangrarião a quantidade de agoas que asima tem declarado e expressado.

E conceguindoce este fim se declarou mais que seria util e comum não so aos moradores da cidade, mas a todos os pasageiros, que por elle costumão tranzitar, ou fazerce, ou reidificarce de novo, hum chafarix no largo do Tereiro da Prasa onde se vendem os viveres para cidade, ficando em frente a rua publica de Santa Sufia do Real Mosteiro de Santa Crus e Tribunal de Santo Officio da mesma cidade, ja pela utilidade que rezulta aos individuos da cidade Baixa, que não bebem do Mondego, ja pela dos pasageiros, ja finalmente pelo trafico de sinco, ou seis estalajens e outros tantos colegios que exzistem na mesma rua de Santa Sufia.

 

Fonte na Fachada de Santa Cruz em Coimbra. J. Laur

Fonte na Fachada de Santa Cruz em Coimbra. J. Laurent, 1869

 E lembrando mais que suposto esta nova abertura, sorgenta, ou mina, proximamente fabricada onde a universidade descubrio alguns aneis de agoa para as suas ofecinas poderião estes demenuir com a nova rotura podia munto bem a cidade indamenizar a universidade com a sobredita abundancia que elle prometia segundo a rezão lhe dictava e a experiencia com a pratica e manobra asima espressada o podera depois mostrar e nesta forma houve elle procurador geral por findo este acto que assinou e co[m] mais e eu Domingos de Macedo, escritor o escrevi

Joaquim de Araújo Tavares e Souza, procurador geral he de Pedro da Fonseca, Mestre vedor, uma cruz Antonio Batista Freire.

Auto de vistoria. In: AHMC. Vistorias, tomo 3, 1766-1791, fl. 133v-135

 

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por Rodrigues Costa às 11:00

Terça-feira, 12.01.21

Coimbra: Abastecimento de água à Cidade, nos finais do século XVIII 1

Num dos livros de Vistorias, guardado no Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, está transcrito um interessante documento que nos permite conhecer o sistema de abastecimento de água à Cidade, nos finais do século XVIII.

Tendo optado por manter a grafia original, importa lembrar o que se segue, para que todos os leitores possam acompanhar o texto.

. A estrada publica que vai do Colégio da Ordem de Cristo para o Real Mosteiro de Celas corresponde hoje à R. Pedro Monteiro, parte da rua Lourenço Almeida Azevedo e Largo de Celas

. Penas e anneis de agoa, eram medidas usadas para descrever o caudal de uma fonte, sendo que um anel era constituído por 9,25 penas. Quanto a esta não conheço a que volume de água correspondia.

. São identificados os seguintes pontos de abastecimento: arca do chafarix da Feira, localizado junto do atual Largo da Feira dos Estudantes; chafariz da See Velha, que estava adoçado ao adro da antiga Sé; chafariz da Praça de S. Bertolameu, que estava localizado onde hoje existe um posto de transformação na Praça do Comércio; chafariz do Bispo Conde, localizado no atual Museu Nacional Machado de Castro; chafariz do Collegio Novo, hoje Faculdade de Psicologia; chafarix da Calssada, atual rua Ferreira Borges; offecinas do Real Hospital que estava instalado no antigo Colégio de Jesus ou dos Jesuítas.

Auto de vistoria a que mandou proceder o doutor procurador geral da cidade o lecenciado Joaquim de Araújo Tavares e Souza per vertude da Comissão que lhe foi deferida pelo Senado nas arcas ou fontes das águas públicas desta cidade citas na estrada pública que vai do Colégio da Ordem de Cristo pera o Real Mosteiro de Sellas, descubrimento de outras novas e estado em que se achão os antigos chafarizes e tanques publicos da mesma cidade.

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil e setecentos e noventa annos aos dous dias do mes de Outubro de mil e setecentos e noventa annos no sitio do Monte de Sellas onde eu escrivão da Camera vim com o doutor procurador geral e Comissario do Senado e as mais pessoas no fim deste auto asinados e com munta especialidade para o mesmo acto convocado Pedro da Fonsequa natural de Vilar Seco, concelho de Senhorim, Comarca de Vizeu, professor com notoria probidade de vedor de agoas e passando a fazer exzame com certa medicão, na fonte chamada a de El Rey que he a primeira arca vindo do lugar de Senas (sic) [deverá tratar-se de um erro do escrivão, que quereria escrever Sellas], se descubrio e achou lancar honze penas de agoa somente,

Fonte d'El-Rei ou de Celas, na atualidade.jpg

Fonte de El-Rei ou de Celas, na atualidade

e passando mais abaixo caminhando pera a cidade a fazer outro semilhante exzame na arca ou fonte chamada do Princepe, se vio e descubrio que o seo nascente lancava des penas de agoa e continuando mais abaixo the chegar a terceira arca, ou fonte chamada a da Raynha, exzaminandoce igualmente o seu nascente se descubrirão e medirão corenta e sinco aneis de agoa, que per todos fazem setenta e seis aneis, alias setenta e seis penas que fazem a soma de oito aneis e duas penas, e esta mesma quantidade se achou na arca do chafarix da Feira de donde se repartem para o chafarix da See Velha, para o da Praça de S. Bertolameu, para o do Excelentissimo Bispo Conde, para o Collegio Novo e chafarix da Calssada e, finalmente, huma das duas bicas que correm no chafarix publico da Feira, se tapa a noute e corre per toda ella the o dia, das seis ou sete horas da manham para as offecinas do Real Hospital que foi algum dia da extincta Sociedade.

E passando a exzaminar a fonte pequena, a do Loureiro, e a chamada do Inverno, estas nada botão e estão de todo secas e combinada a presente vistoria, com a lembrança que o lecenciado Joze de Souza Machado fez no anno de mil setecentos e quarenta e sinco no Livro intitulado da Correa, onde faz mencão de quinze aneis e meio de agoa, que naquelle tempo lancavão de os sobreditos mãens de agoa vem a ter os mesmos de remenuissão, sete aneis e duas [fl. 134v] e duas penas, de cuja falta, asas concideravel, e tambem por ter crecido em numero os moradores da cidade, se queixa o publico, havendo como ha entre o povo motins e continuadas desordens chegando ao ponto de quebrarem os cantaros huns aos outros e athe de se tomarem as mãos ferindo se e espancando se mutuamente.

Porta de cisterna, na rua Pedro Monteiro.jpg

Porta de cisterna, na rua Pedro Monteiro

Porta de cisterna, na rua Pedro Monteiro, pormenor

Porta de cisterna, na rua Pedro Monteiro, pormenor

Claraboia, na rua Pedro Monteiro.JPG

Claraboia, na rua Pedro Monteiro

Auto de vistoria. In: AHMC. Vistorias, tomo 3, 1766-1791, fl. 133v-135

 

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por Rodrigues Costa às 10:49

Quinta-feira, 07.01.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 1

Conforme prometi, retomo hoje a publicação regular, às 3.as e às 5.as feiras, das entradas que, em resultado das minhas leituras sobre Coimbra, vou divulgando neste blog, tendo como objetivo transmitir aos naturais da nossa Cidade ou aos que a amam um melhor conhecimento da sua história. De acordo com este propósito, inicio hoje uma série de 29 entradas extraídas de um trabalho da Senhora Professora Regina Anacleto, publicado no Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, com o título Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX.

Face ao interesse do trabalho, mas tendo em conta a sua extensão, publicá-lo sequencialmente tornar-se-ia fastidioso, o que me levou a optar por o divulgar semanalmente às 5.as feiras e por introduzir às 3.as feiras outras temáticas. Mais uma vez, obrigado pelas palavras de incentivo que tenho recebido, relacionadas com o trabalho que venho realizando.

 

A Cidade Oitocentista

Coimbra situa-se num morro sobranceiro ao rio, de pendentes bastante íngremes cuja vertente, a norte, desce quase a pique para o vale da Ribela, onde corria a Torrente dos Banhos Régios, como, ainda nos finais do século XII, era apelidado o curso de água que, descendo do alto da quinta do mesmo nome, atravessava a atual Avenida Sá da Bandeira e se escoava por entre a Rua Direita e a Rua da Moeda em direção ao Mondego; contudo, a poente, o descaimento, mais suave, processa-se como que em patamares.

Vista de Coimbra. Hoefnagel 04.JPG

Fig. 1 – Vista de Coimbra. [Georg Braun e Franz Hoefnagel. c. 1565].

 Cidade dualista, dividida em Alta e Baixa, com a primeira a ocupar a colina, delimitada parcialmente pelas duas couraças, a de Lisboa e a dos Apóstolos, bem como pela Porta de Almedina e a segunda a distender-se na plana zona ribeirinha, preenchida por um dédalo de ruas caprichosas e estreitíssimas. A população citadina estendia-se pelos dois espaços: no cume do cômoro desenvolvia-se a vida cultural e, simultaneamente, formavam-se mentalidades e espíritos; na parte baixa movimentavam-se assalariados, artífices e comerciantes.

A referida dualidade encontrava-se bem patente na toponímia. Enquanto que na zona da Alta nos deparamos com a Rua dos Estudos, a Rua dos Militares, a Rua de Entre-Colégios, a Rua dos Lóios ou o Largo da Feira dos Estudantes, na Baixa encontramos a Rua dos Sapateiros, a Rua das Padeiras, a Rua da Louça, a Rua das Azeiteiras ou o Largo das Olarias.

Largo da Feira dos Estudantes. [Passado ao Espelho

Largo da Feira dos Estudantes. [Passado ao Espelho, p. 58]

Rua dos Oleiros.jpg

Rua dos Oleiros

 Entre cerca de 1350 e 1600, grosso modo, pode dizer-se que o nível demográfico de Coimbra, embora com altos e baixos, se manteve mais ou menos estável, o que não significa que as gentes da cidade não vissem as suas necessidades de abastecimento regulamentadas por diversas e sucessivas cartas régias que determinavam quando e como podiam e deviam organizar-se os mercados e as feiras.

A população de Coimbra entre cerca de 1600 e de 1930 aumenta consideravelmente e de entre os fatores que ajudam a explicar o crescimento demográfico aeminiense, seja-me permitido destacar apenas dois: os progressos verificados no campo da medicina e, desde o reinado de D. João III, a permanência ininterrupta dos Estudos Gerais na cidade.

Os artífices e os comerciantes instalados na zona baixa, já fora de portas, labutavam na ânsia de conseguir a sua sobrevivência ou de, dentro do espírito economicista e capitalista da época, começar a enriquecer; mas convém não esquecer que, em Coimbra, o desenvolvimento industrial se apresentava “moderado e tardio”, até porque se tratava de uma terra quase provinciana, de parcos recursos económicos, onde muito pouco havia para investir. Comparando com o que se passou em outras zonas do país ou no estrangeiro fácil se torna concluir que a industrialização em Coimbra foi “desfasada quer por se ter verificado tardiamente quer pela sua fraca intensidade”.

Planas & C.ª. Lanifícios.jpg

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidade

 Para além das fábricas de fiação e tecelagem, de sabão, de lanifícios e de cerâmica, O Conimbricense referia ainda a presença das de massas, de moagem e de padarias. Penso não estar muito longe da verdade se afirmar que estas “fábricas” não passavam de pequenas unidades industriais.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 16:45

Quinta-feira, 08.10.20

Coimbra: Aqueduto de São Sebastião 2

O arco de honra, igualmente conhecido por Arco de São Sebastião, está disposto obliquamente devido à posição da artéria pública sobre a qual passa, diferenciando-se dos restantes pelo tratamento material e composição artística. Dispõe, pois, na verdade, de um conjunto de inscrições e esculturas, de cariz religioso, que em muito o enobrecem.

Aqueduto. Arco de S. Sebastião.JPGAqueduto. Arco de S. Sebastião

Assim, em cada uma das faces da cornija superior, logo acima do fecho do último arco do extremo sul, foram aplicados, em posição central, o escudo com armas reais portuguesas, ladeadas em posição inferior com as lápides referentes à construção do aqueduto com os textos encomiásticos divididos em duas tábuas, datados de 1570. Na face sul, orientada para a Alameda Doutor Júlio Henriques, a inscrição surge em latim, e na face norte, virada para a Praça Papa João Paulo II, a respetiva tradução em português.

NO . ANNO . DO SOR

DE . I . 5. 7. 0. O INVICT

IISSIMO REI . DOM

SEBASTIAÕ . O . I .

NO . 3 . ANNO DE SEV

GOVERNO . MÃDOV

REEDIFICAR DE NO

VO TODO . ESTE . AQ

VEDVCTO . MAIS . N

RA . FEITO . AVIA MTOS .

ANNOS . COMO CÕ

STA . PELO RASTO Q

LE . SE AC

HOV CVBERTO DE

 Resumindo o conteúdo dos testemunhos epigráficos, podemos salientar o cuidado do monarca em dotar de água potável a principal zona urbana frequentada pela comunidade escolar, que fora responsável pelo crescimento imediato do núcleo urbano conimbricense.

Aqueduto. Arco de S. Sebastião, templete.jpgAqueduto. Arco de S. Sebastião, templete

 A coroar o respetivo arco principal, sobre o canal adutor, ergue-se um pequeno templete, de planta trapezoidal, composto por colunas dóricas que suportam uma cúpula e lanternim superior. Em cada um dos flancos, cada um dotado com o respetivo nicho, encontra-se as esculturas dos oragos do aqueduto: a de São Sebastião disposta na face sul, e a de São Roque, na face norte.

Aqueduto. Arco de S. Sebastião, imagem de S. Roqu Aqueduto. Arco de S. Sebastião, imagem de S. Roque

Aqueduto. Arco de S. Sebastião, imagem de S. SebaAqueduto. Arco de S. Sebastião, imagem de S. Sebastião

 Desconhecemos, no entanto, o nome do arquiteto responsável pelo projeto, assim como o dos mestres-de-obras que conduziram os diversos trabalhos construtivos.

 Pacheco, M.P.D. Do aqueduto, das fontes e das pontes: a arquitetura da água em Coimbra de Quinhentos. Acedido em https://www.academia.edu/37539380/DO_AQUEDUTO_DAS_FONTES_E_DAS_PONTES_A_ARQUITETURA_DA_ÁGUA_NA_COIMBRA_DE_QUINHENTOS 

 

Se o leitor bem reparar, na imagem de S. Sebastião vêm-se dois orifícios no tronco, onde estavam inseridas duas setas que, quanto se dizia, eram de prata.

Um dia um estudante, disseram logo as más línguas de Coimbra, condoído com o “sofrimento” secular da imagem, arranjou maneira de subir até lá e “retirou” as setas, deixando um letreiro: Basta de tanto sofrer!

Plagiando os italianos esta história se é verdadeira, tem graça. Para além de reveladora de um certo espirito académico que, com os anos, tem vindo a desaparecer.

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por Rodrigues Costa às 11:42

Terça-feira, 06.10.20

Coimbra: Aqueduto de São Sebastião 1

Assumindo-se hoje como um dos marcos históricos mais emblemáticos da cidade, o mais antigo aqueduto de Coimbra, de duplo orago sebástico – pois foi reconstruído por ordem régia do monarca D. Sebastião e dedicado ao mártir romano São Sebastião –, tem as suas origens numa construção que remonta ao período da romanização do território que é hoje Portugal.

Arcos do Jardim. 1920 c. Coleção Regina AnacletoArcos do Jardim. 1920 c. Coleção Regina Anacleto

Esta estrutura de abastecimento de água potável à cidade, localizada entre a colina onde se erguia o desaparecido Colégio de Nossa Senhora da Conceição e o atual Convento de Santa Teresa e o Fontanário dos Bicos, no Largo da Feira dos Estudantes, em plena Alta Universitária, possui ainda um segundo orago, São Roque, santo que, com São Sebastião, assume o papel de especial protetor contra o flagelo da peste. A escolha destes dois santos patronos está intimamente ligada ao surto pestífero que grassou em Coimbra nos finais da década de 1560, período da construção do aqueduto. Contudo, vingou na história da cidade o patrono onomástico do monarca.

No decorrer da obra, D. Sebastião enviara, em 1568, o desembargador Heitor Borges com ordens diretas para proceder ao aprovisionamento da água necessária a distribuir à cidade e à comunidade monástica de Santa Cruz, detentora de grande parte das nascentes urbanas.

Contudo, os Cónegos Regrantes, reagindo ferozmente contra as decisões régias, acabaram mesmo por excomungar os oficiais envolvidos e entrar em esgotantes demandas judiciais com a Coroa, levando a sucessivos atrasos nas obras de construção, que, mais tarde, seriam assumidas por um outro desembargador mais enérgico, Martim Gonçalves da Câmara.

Igualmente excomungado, este oficial não só iria continuar a obra com a celeridade necessária, como iria enfrentar o potentado crúzio, aplicando-lhe pesadas multas pelos entraves causados à obra real, e, sobretudo, pela água usurpada ilegalmente ao município. No seguimento dos trabalhos construtivos, foram demolidos alguns setores do muro da cerca monástica e cortado o arvoredo envolvente junto dos pontos de captação de água para proceder à edificação de pequenas torres, em alvenaria, onde ficariam instaladas as arcas de armazenamento do precioso líquido. Além das expropriações e demolições efetuadas, o oficial régio mandara ainda arrasar o chafariz de São João do Largo de Sansão, que fora erguido em frente à igreja de Santa Cruz durante o priorado de D. Afonso Martim de 1392 a 1414.

AHNC. Livro II da Correa, Mapa. Com indicação daAHNC. Livro II da Correa, Mapa. Com indicação das fontes que abasteciam o aqueduto 

Rua Pedro Monteiro, claraboia onde se juntava a áRua Pedro Monteiro, claraboia onde se juntava a água que ia o aqueduto

Denominadas de fontes de el-Rei e da Rainha, as nascentes que iriam abastecer o centro da cidade com água potável estavam localizadas junto do quinhentista Colégio de Tomar, sobre o qual foi levantado o edifício da Penitenciária de Coimbra nos finais do século XIX, e, nas proximidades da estrada para Celas. Em local próximo encontrava-se ainda a denominada Fonte da Nogueira, atualmente no Jardim da Sereia que, por alvará régio lavrado em 4 de Abril de 1588 e mais tarde reconfirmado em 20 de Abril de 1736, deveria ser vistoriada anualmente pelos oficiais camarários.

Inicialmente com uma extensão de aproximadamente de um quilómetro, o aqueduto de São Sebastião, popularmente conhecido como Arcos do Jardim, é hoje constituído por apenas vinte e um arcos dispostos ao longo da Calçada Martim de Freitas e da Praça João Paulo II. Superando uma relativa depressão territorial, os arcos, uns semicirculares e outros abatidos, estão assentes em robustos pilares de faces externas dispostas em degrau que, por sua vez, suportam no topo o canal adutor. Este, coberto por abóbada de berço, só seria desativado no século XX, por volta do ano de 1942. Quanto ao aparelho construtivo podemos indicar a presença de alvenaria de pedra calcária, fixada com argamassa e reboco, recentemente beneficiado.

A partir do setor nascente do atual edifício do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, a estrutura aquífera continuaria o seu percurso subterraneamente até alcançar o Largo da Feira dos Estudantes, junto da concatedral.

 

Fontanário dos Bicos.jpgLargo da Feira dos Estudantes, Fontanário dos Bicos

Entretanto, nos finais da década de 1940, no seguimento da reorganização urbanística da Alta para a construção da Cidade Universitária de Coimbra, alguns dos arcos seriam destruídos para a abertura da atual rua do Arco da Traição, enquanto outros, junto ao Jardim Botânico, acabariam por ser desobstruídos do casario habitacional que havia sido edificado ao longo dos tempos. Quando a Academia Nacional de Belas Artes lançou, em 1947, o Inventário Artístico de Portugal, dedicado à cidade de Coimbra, denunciava-se que “o estado do aqueduto é de meio abandono; encontrando-se bastante prejudicado pelas infiltrações da água do cano”, ou seja, ainda se encontrava em funcionamento.

Pacheco, M.P.D. Do aqueduto, das fontes e das pontes: a arquitetura da água em Coimbra de Quinhentos. Acedido em https://www.academia.edu/37539380/DO_AQUEDUTO_DAS_FONTES_E_DAS_PONTES_A_ARQUITETURA_DA_ÁGUA_NA_COIMBRA_DE_QUINHENTO

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por Rodrigues Costa às 18:33

Quinta-feira, 09.04.20

Coimbra: Igreja de S. Martinho do Bispo

A reconquista de Coimbra por D. Fernando Magno, em 1064, foi a viragem decisiva para a região, doravante definitivamente em posse dos cristãos. À frente da cidade de Coimbra e de toda a região, D. Fernando colocou um moçárabe, o alvasil D. Sisnando para que a povoasse e defendesse dos mouros. O sábio governo de D. Sisnando resultou em grande progresso para a região: foram construídos castelos, edificadas casas, plantadas vinhas e arroteadas terras. É neste contexto que surge a figura do abade Pedro, vindo da região em poder da moirama. A 26 de Abril de 1080, D. Sisnando dou-lhe terras a sul do Mondego que ele diligentemente repovoou. O abade Pedro edificou aí, próximo à cidade, a igreja de S. Martinho, dando origem a uma das mais populosas freguesias rurais do país, mas hoje plenamente absorvida no perímetro urbano de Coimbra.
Em 24 de Fevereiro de 1094 o abade Pedro doou os seus domínios à Sé de Coimbra, onde avultava a igreja edificada à sua custa e dotada com as casas necessárias, vinhas e outras árvores e ainda uma torre de defesa. Os bispos continuaram a obra de repovoamento e de valorização da igreja. Em 1104 o bispo D. Maurício concedeu carta de povoação, espécie de foral, reformada por D. Bernardo, em 1141. Aqui mantiveram os bispos de Coimbra uma quinta de veraneio e também se refugiaram das cheias do Mondego, no século XVI, as freiras do convento de Santana, numa quinta doada pelo bispo D. João Soares.
Da igreja medieval, que sabemos ter sido protegida por muros e torres de defesa, praticamente nada resta. Foi renovada em tempos posteriores, com se vê pela porta principal, seiscentista, de frontão curvo interrompido, e pela torre dos sinos, datada de 1733 por um discreto relógio de sol. A torre encontra-se afastada do corpo da igreja e em quase alinhamento com a porta principal. Sabe-se que houve obras na igreja e residência paroquial contratadas pelo carpinteiro de Coimbra Xavier Gomes da Costa em 19 de julho de 1739.
A igreja atual começou a edificar-se em 1754. Em 18 de novembro desse ano a obra das paredes e frontispício foi contratada pelos pedreiros José Ribeiro Facaia e José Francisco Botas, por 780$000 réis. Logo a 20 foi feito contrato com os carpinteiros Custódio Gonçalves, Domingos Gonçalves e José Gonçalves para a obra de carpintaria, por 290$000 réis.

Igreja S. Martinho do Bispo, exterior.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, exterior. Foto Nelson Correia Borges

A fachada é de simples traçado, com dois corpos laterais vincados por pilastras unindo-se ao central mais alto por arco decorativo. No corpo central rasga-se um arco de volta perfeita, formando pequeno átrio abobadado. Aqui se encontra sepultado o padre António da Cunha Rebelo, certamente o mentor da renovação da igreja, como o epitáfio de 1780 humildemente deixa entender.
O corpo da igreja é amplo, de larga nave com cobertura lígnea em caixotões retangulares, aparentado com o de S. Bartolomeu de Coimbra, da mesma época.

Igreja S. Martinho do Bispo, capela mor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, capela mor. Foto Nelson Correia Borges

A capela mor profunda segue o mesmo tipo espacial.
O topo da igreja, acima do degrau, constitui um outro espaço, outrora separado por teia, como área mais sagrada. Aqui se encontra o revestimento azulejar, os altares laterais e colaterais e a capela-mor.
O retábulo principal é da primeira metade do século XVIII, com colunas torsas de grinalda no cavado, remate de anjos segurando festões de flores e mostrando as insígnias de S. Martinho. O trono e o camarim incluem elementos anteriores e posteriores.

Igreja S. Martinho do Bispo, altar lateral.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, altar lateral. Foto Nelson Correia Borges

Os retábulos colaterais e laterais são excelentes exemplares do estilo rococó coimbrão. Os colaterais, geminados, foram executados pelo notável entalhador Domingos Moreira, autor de vários outros trabalhos de igrejas de Coimbra e da região, morador em Santa Clara, com contrato lavrado em 28 de março de 1757. Custaram 215$000 réis. Mostram colunas de capitéis compósitos, concheados sóbrios e remate elaborado de volutas sobrepostas, com querubins e cabecitas aladas.
Os laterais, de idêntica estrutura, têm remates mais movimentados, com volutas em avanço e glórias solares. Todos os retábulos se encontram marmoreados de lápis-lazúli com dourados, o que aliado à azulejaria confere ao conjunto uma interessante nota cromática.

 

Igreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor. Foto Nelson Correia Borges

Os painéis de azulejo recortados são de fabrico coimbrão, provavelmente da oficina de Salvador de Sousa Carvalho. Na capela-mor representam S. Martinho celebrando e Aparição de Cristo a S. Martinho. No espaço dos retábulos, S. Domingos, Santo António e Última Ceia e Senhora da Conceição.
Entre as esculturas destaca-se a de S. Martinho, do século XVII e, da segunda metade do século XVIII, as de Senhora dos Remédios e Senhora da Conceição. Há ainda uma bandeira processional pintada por Pascoal Parente, em 1756 com Cristo crucificado e a Senhora do Rosário. A tela que preenchia o camarim do altar-mor, já de 1877, encontra-se agora no corpo da nave da igreja.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra, n.º 4781, de 2 de abril de 2020

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por Rodrigues Costa às 11:35

Terça-feira, 31.03.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 1

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aér

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aérea das instalações

A Fábrica de Lanifícios de Santa Clara apresenta-se como referência máxima do sector têxtil num polo citadino [de Coimbra) sem grandes tradições no referido do ramo, cujo período anterior à firma em evidência se pautou sobretudo, pelo amadorismo das confeções caseiras dos teares manuais e por tentativas de organização de módulos de produção de tecidos dos que não vingaram no tempo.

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidad

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidade

Neste último aspeto, atenda-se, como exemplo, à fábrica de tecidos da Rua de João Cabreira, fundada nos finais da centúria de Setecentos pelos empresários Manuel Fernandes e Guimarães, Manuel Fernandes da Costa e António Machado Pinto, ficando famosa pelos seus damascos «que se tornaram notáveis pelo gosto dos seus lavores e pelo ouro que entrava em muitos», segundo a apreciação do jornalista conimbricense Joaquim Martins de Carvalho.
Os mesmos negociantes fundaram, na cidade, outra unidade de produção de tecidos de algodão em vistosas instalações, uma vez que os relatos asseveram a existência na loja de materiais nobres como o bronze, o aço e madeiras do Brasil. O fornecimento da matéria-prima (fio de algodão) proveio de uma fábrica Tomar; de onde, igualmente, chegaram, para ocuparem um lugar no corpo de funcionários, Bernardo Ferreira de Brito, Paulo José da Silva Neves e Pedro Espingardeiro, epitetados de “habeis artistas”. Em termos de equipamento para produção, o citado espaço deteve 12 teares, cada um com 100 fusos, resultando num tecido de boa qualidade, «não obstante o motor ser de trabalho manual, e por isso sem a regularidade precisa; mas tudo venceu o machinista com a sua rara habilidade».
As causas subjacentes ao definhamentoe respetivo fecho dos dois espaços remetem-se para o roubo de uma porção significativa de fazenda por parte de um familiar dos sócios, bem como a instabilidade proveniente das invasões francesas e a abertura do mercado português aos produtos provindos da Inglaterra, numa consequência evidente do Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810.
Invoque-se, de igual modo, a importância da tentativa de implantação, já em 1875, da Fábrica de Fiação e Tecidos de Coimbra, uma vez que o objeto do presente estudo irá aproveitar as bases materiais deixadas por uma firma que não conseguiu estabelecer-se de modo definitivo e cujo projeto não deixou de espelhar um ímpeto de grandeza que trouxe em si o gérmen da própria derrocada. Se os primeiros tempos nos parecem auspiciosos, dada a grande procura na subscrição do capital social fixado em 150 000$000 réis – divididos em 1500 ações de 10$000 réis cada uma –, o conhecimento, por parte da opinião pública, dos detalhes da compra do convento de São Francisco da Ponte pela quantia, por muitos considerada exorbitante, de 30 000$000 réis, gerou a fuga do investimento inicial através da desistência de muitos dos subscritores.

Um «valente canudo».jpg

«valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade»

Apesar do citado revés, os membros da direção deram continuidade ao projeto, a partir da transformação do complexo conventual em unidade fabril, acrescentando ao edifício uma chaminé industrial, descrita pelo periódico A Voz do Artista como um «valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade».

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed.Pg. 27-29

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por Rodrigues Costa às 11:55

Terça-feira, 18.02.20

Coimbra: Festas de Nossa Senhora da Boa Morte, em 1897

Coimbra, a ridentíssima cidade, decantada pelos nossos mais egrégios poetas, que tantíssimas vezes se tem extasiado perante a beleza incomparável dos seus arredores, povoados de luxuriantes pomares, e a amenidade sempre constante das formosas margens do Mondego. O deleitoso rio sobre a qual se debruçam os rumorosos salgueiros, enamorados da prata das suas águas; Coimbra a vetusta cidade, onde os seus carcomidos e tisnados monumentos, iluminados pelos clarões das façanhas épicas dos nossos antepassados, nos fazem evocar os cultos legendários de outras eras e as tocantes e sentimentais legendas que brotaram da imaginação popular, é uma das terras portuguesas, em que se encontra mais intensamente radicado o sentimento da religiosidade, que se manifesta de uma maneira exuberante nas esplendorosas solenidades religiosas que se celebram nos seus templos e a que o povo conimbricense, de índole essencialmente bondosa e sincera, se associa espontaneamente como para agradecer a Deus os mil e um encantos de que revestiu a Atenas portuguesa, o foco vivíssimo das ciências, de onde irradiam as luzes para todo o país.
… Mas como estávamos dizendo, são na verdade sumptuosas as festividades que costumam realizar-se na Sé de Coimbra; há, porém, uma que eclipsa todas as outras, tal é o brilhantismo que costuma assumir, tal é a riqueza que se apresenta perante a nossa vista fascinada: a festividade de Nossa Senhora da Boa Morte, feita a expensas da irmandade que possui o mesmo nome e que, desde 1723, se encontra ereta na capela particular na Catedral de Coimbra.

Sé Nova. Imagem de NS Boa Morte.jpg

No tempo dos jesuítas e nos anos anteriores esta festa, que há anos passou a bienal a fim de lhe aumentar o esplendor, costumava fazer-se no segundo domingo de agosto, consoante as prescrições dos seus estatutos; como, porém, nesse tempo Coimbra se acha quase deserta em virtude da debandada de famílias que se retiram para as praias, e como todos se lastimassem que uma tão luzida procissão percorresse algumas ruas sem vivalma, a irmandade deliberou que este ano [1897] se celebrasse no dia 4 do corrente mês [de Julho], como se celebrou, com uma pompa extraordinária, tornando-se a útil instituição religiosa digna dos mais rasgados encómios.
Como o nosso intento é dar uma leve ideia dessa festividade, e como muitos dos nossos leitores podem ser interessados em saber os primórdios do culto pela Senhora da Boa Morte, principiaremos por apresentar uns ligeiros traços históricos relativamente a este assunto.

Foi em Roma que se instituiu a primeira irmandade sob o sugestivo titulo de Nossa Senhora da Boa Morte … os exercícios deviam realizar-se em todas as sextas-feiras do ano na Igreja da Casa professa da companhia de Jesus.
Em Lisboa estabeleceu-se a primeira irmandade no século XVII; outras cidades e povoações portuguesas seguiram o exemplo da capital, sendo somente instituída pelos jesuítas no Real Colégio de Coimbra no dia 15 de agosto de 1723.
…. Foi copioso o número de irmãos que se inscreveram logo depois da instituição da irmandade em Coimbra, concorrendo para isso as muitas graças e indulgências que por esse tempo foram concedidas em três breves particulares, pelo papa Inocêncio XIII.
A corrente de adesões redobrou quando o papa Benedito XIII expediu, a 23 de setembro de 1729, a bula especial que principia, «Redemptoris nostri Jesu Christi etc.» concedendo à congregação de Nossa Senhora da Boa Morte de Roma grande número de indulgências prerrogativas e isenções … Desejando a irmandade do colégio de Coimbra participar desses privilégios, resolveu agregar-se à de Roma, união que se efetuou a 8 de setembro de 1731.
… Este ano a festividade excedeu as dos anos anteriores, deixando deslumbrados os que tiveram a felicidade de a ver. Não falaremos da bonita ornamentação das ruas com festões e galhardetes e cuja iluminação produzia um belo efeito, nem do soberbo fogo que na véspera se queimou no Largo da Feira e em que os pirotécnicos de Coimbra mostraram mais uma vez os recursos de que dispõem, se bem que desejássemos extintas por completo essas velhas usanças de fogo preso, que podiam ser substituídas por um lauto bodo aos pobres, para nos ocuparmos exclusivamente do aspeto verdadeiramente majestoso que apresentava o amplo templo jesuítico que, como por encanto, perdeu a sua aparência pesada e fria, transformando-se numa mansão celestial…
A nossa paleta não possui tintas com que possa dar uma ideia do brilhantismo que imprimia a festividade o sumptuoso altar-mor, onde se ostentava descoberto o riquíssimo trono, chapeado de prata lavrada, e com o frontal e dossel do mesmo metal; os altares do transepto onde faiscavam riquíssimas pratas e que estavam ornamentados com discrição e bom gosto, e sobretudo a monumental eça, mandada fazer em Roma pelos jesuítas, que se elevava ao centro do cruzeiro, com uma profusão enorme de lumes e flores que lhe davam o aspeto de um formosíssimo jardim.

Sé Nova. Eça de NS Boa Morte.jpgNo centro da eça achava-se colocada a formosa imagem da Senhora da Boa Morte, mandada vir de Itália pelos jesuítas.

Sé Nova. Imagem de NS Boa Morte atual.jpg

Sé Nova, imagem de Nossa Senhora da Boa Morte

A imagem, que é de cera e de escultura muito regular, veste ricamente e está deitada numa graciosa naveta de talha dourada e revestida de uma prodigiosa quantidade de mimosas florinhas.

Sé Nova. Naveta de NS Boa Morte.jpg

De manhã a festividade teve a realçar a palavra inspirada no notável orador sagrado e talentoso lente de teologia sr. Dr. Porfírio da Silva, que produziu um discurso à altura dos créditos de que goza: de tarde saiu a formosa imagem em imponente procissão, que levava um grande número de anjinhos primorosamente vestidos.
Eis uma ligeira resenha, ao correr da pena, do que foi essa solene e esplendorosa, festa que pode ombrear com as que Coimbra dedica a Santa Isabel.

Sousa, A.J.V. A Festividade de Nossa Senhora da Boa Morte (Em Coimbra). In: Branco e Negro. Semanário Illustrado. 2.º ano. n.º 67, de 4 de Julho de 1897. Lisboa, Editora de António Maria Pereira.

 

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por Rodrigues Costa às 12:03

Quinta-feira, 17.10.19

Coimbra: Espada de D. Afonso Henriques levada do Mosteiro de Santa Cruz 1

O Museu Portuense ou Ateneu D. Pedro foi criado em 1833, por iniciativa de D. Pedro IV, e esteve na origem do que é hoje o Museu Nacional de Soares dos Reis.
Seria essa jovem instituição que, em junho de 1834, acolheria cerca de meia centena de pinturas e mais de cem volumes ilustrados provenientes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e aí escolhidos por Francisco Pedro de Oliveira e Sousa e Alexandre Herculano.
Os dois comissários nomeados para procederem à escolha dos bens dos conventos abandonados terão ainda selecionado, para seguirem junto da primeira remessa de pinturas e livros, a célebre espada de D. Afonso Henriques, um estojo contendo uma escrivaninha italiana de tartaruga marchetada a ouro e madrepérola e uma série de vinte e seis pequenas placas de esmalte pintado de Limoges.

xxx

A existência de uma espada, dita de D. Afonso Henriques, venerada entre outras relíquias em Santa Cruz de Coimbra está relativamente mal documentada.
A sua presença no Mosteiro não é mencionada quando, em meados de quinhentos, ao tempo de D. João III, se reúnem os fundamentos para a canonização de D. Afonso Henriques. No documento onde se organizam esses fundamentos, além da narrativa dos alegados milagres do monarca / santo, faz-se uma descrição das suas relíquias que até ai se haviam venerado no mosteiro, conta-se que D. Afonso se igualava aos monges quando assistia a missa no Mosteiro, rezando no coro e ofício divino como qualquer deles e que para o efeito quando entrava deixava na porta a espada e vestia uma sobrepeliz.

D. Afonso Henriques. Datada do final do século XI

D. Afonso Henriques. Datada do final do século XII ou início do século XIII, esta poderá ser a mais antiga representação do primeiro monarca português. Já coroado e de espada em punho, o rei enverga também o manto real. (Créditos: Museu Arqueológico do Carmo/ José Pessoa/ IMC). Acedida em https://nationalgeographic.sapo.pt/historia/grandes-reportagens/953-afonso-henriques

Em memória desse gesto, a porta por onde entrava ficou a designar-se de espada cinta, designação que manteve até à data da sua demolição em 1628. Todavia nenhuma espada propriamente dita é aí mencionada enquanto objeto de devoção.
… Parte do debate gerado em torno da genuinidade da espada que hoje conhecemos como de D. Afonso Henriques, é suscitado pela improbabilidade do regresso das armas de Alcácer Quibir depois da trágica derrota de D. Sebastião.
Em 1604, numa vida de San António de Padua da autoria de Mateo Aleman, fomos encontrar a mais remota referência a este episódio que até agora conhecemos, em que se justifica a não utilização das armas e o consequente regresso com facto de o exército de terra estar já vencido quando chegou a armada onde se transportava a recamara do Rei e onde viajavam estas armas e não por esquecimento como divulgaram outros ao longo do Século XVII.
Ainda na primeira metade do Século XVII, quer D. Vicente quer D. José de Cristo, memorialistas de Santa Cruz, voltam a referir-se a ela, este último para dizer que se perdeu num incêndio da Sacristia.
Em 1628, Faria e Sousa refere-as como «oyas inestimables» que são no Mosteiro, ainda nesses dias, a espada, o escudo e a sobrepeliz com que seguia o Coro.
D. Vicente e D. José de Cristo acrescentam às narrativas que trasladam observações de carácter prático que eventualmente decorreriam do seu contacto mais direto com os objetos em questão e com o cartório onde os registos dos acontecimentos que os envolviam se guardavam. Da espada regista D. Vicente:
«Assi com ElRei pedio nesta carta assi se fez,/ mandaramlhe a espada, e escudo, e pera ir/ mais venerado, lhe fizeram a caixa preta/ que agora tem, sobre a antiga, a espada também a alimparam, e lhe fizeram aquella/ bainha e cabos, e caixa, porque dantes disto/ nam tinha cabos, senão amaçam largo, e huã bainha antigo como de facas».
Na miscelânea de D. José de Cristo guarda-se uma descrição detalhada que, a nosso ver, vem avolumar as muitas dúvidas levantadas sobre a originalidade da arma que em 1834 chega ao Museu Portuense:
«Dej-/xounos também huã espada de cingir que tem sinco palmos / de comprido, a guarnição ao Antigo, de largura de tres dedos e / vaj se deminuindo ate a ponta em dous, a qual antiguamente / era maior e mais larga e Comprida, mas como he de tantos an-/ os o ferro vajse guastando de alimparem porque a conser-/vamos sem ferrugem e mui lustrada como tal reliquea me-/resse. Alem disto também lhe fizeram as guardas e punho / mais curto do que era quando El Rej D. Sebastião a quis levar / pera africa».

Espada dita de D.  Afonso Henriques.png

Espada dita de D. Afonso Henriques

A informação pode ser verdadeira e descrever a espada que efetivamente regressou do Norte de África e a sua posterior alteração, ou ser fantasiosa e descrever uma espada nova que se fez para substituir a relíquia perdida, justificando as diferenças entre a original e que então se descrevia com as alterações e a usura do tempo. Em qualquer dos casos a espada que hoje se conserva não apresenta vestígios de semelhante desgaste ou alterações.
Das relíquias de D. Afonso Henriques guardadas em Santa Cruz apenas a espada chegou até nós. Da sobrepeliz e do escudo, deixa, que saibamos, de haver notícia depois do século XVII.

Espada dita de D. Afonso Henriques, último quarte

Espada dita de D. Afonso Henriques, último quartel do Século XVI ?, Museu Nacional de Soares dos Reis/ em dep. No Museu Militar do Porto (fot. José Pessoa IMC/ MC)

[Em 1985] A espada de D. Afonso Henriques cuja posse tanta polémica suscitara, é solicitada para uma exposição comemorativa do 8.º centenário da morte do Fundador no Museu Militar do Porto sendo em seguida pedida para passar a integrar a exposição permanente desse museu. A facilidade com que o Museu Soares dos Reis acede ao pedido evidencia que a peça não estava já incluída no programa de exposição. No Museu Militar a espada ocupa hoje lugar de destaque em exposição permanente. Todos os anos é solenemente transportada a Coimbra, até junto do túmulo de D. Afonso Henriques, no contexto das comemorações do dia do Exército.

Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

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por Rodrigues Costa às 11:29


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