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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 24.05.22

Coimbra: Santa Cruz de Coimbra, uma floresta iluminada 2

O livro traz fotografias de agora, mas também postais-ilustrados e fotos simples ou coloridas a aguarela de inícios do século passado (por exemplo, pp. 44, 114) que demonstram quanto este Jardim se tornou um espaço público da cidade. Depois de ser privativo de monges e clérigos, lá foram vistos e fotografados estudantes de batina negra e tricanas aguadeiras, de bilha à cabeça, pois as águas do parque eram boas e abundantes.

A água é o elemento por excelência em Santa Cruz, nos seus diferentes planos topográficos e significados teológicos ou outros. “A festa da água que acontecia dentro dos seus jardins — afirma Marco Daniel Duarte — era entendida pelos religiosos crúzios como uma página de Teologia” (p. 54; itálico meu).

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Cascata do jarim de Santa Cruz fixada numa fotografia da década de 20 do século XX por Adriano Tinoco. Op.cit., pg. 46

A Cascata, que tem adiante um repuxo, foi construída à maneira dos retábulos de capela-mor, com duas parelhas de Evangelistas (São Marcos e São Mateus, São Lucas e São João) organizadas em torno de dois medalhões de azulejo cobalto e branco onde pinturas representam passagens bíblicas consagradas à importância da água como liberalidade divina, e ao centro, num plano mais elevado, coroando o “retábulo”, surge Nossa Senhora da Conceição numa eclipse vazada.

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Na elipse vazada da grande Cascata, a escultura da Virgem Maria, ali figurada como Nossa Senhora da Conceição. Foto Rui Gonçalves Moreno. Op. cit., pg. 53

Rochas secreções calcárias típicas de gruta ou nascente de água, cuja fictícia entrada uma grande mancha verde de avencas oculta. Pelos lados, em diagonal, sobem degraus de duas curtas escadarias, apoiando a verticalidade do conjunto, entre arvoredo de grande porte.

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Patamar de descanso concebido em volta de uma fonte. Op.cit., pg, 59

A ascensão íngreme rumo à fonte de água pura tem conhecido significado religioso e divino, e a crescente intensificação do elemento líquido nos patamares superiores do jardim de Santa Cruz atingirá no topo da colina “uma omnipresença absoluta”. Patamares de descanso, lance de degraus e balaustradas formam uma sucessão de planos dinâmicos, ilustrados por painéis azulejares com cenas piscatórias e venatórias em que a água é o motivo recorrente, além de outros, com enormes fontenários setecentistas — um trabalho de pincel em oficinais da região Centro, que todavia não se distinguiu pela qualidade, no parecer autorizadíssimo de José Meco. Sombra, verde de folha, azul e branco cerâmicos e o líquido primordial espelhado em fontes e pequenos tanques criam ambientes aprazíveis, pontuados por pirâmides-pináculo que reforçam o caminho para o alto, físico e espiritual.

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Fonte do Lago que toma o lugar onde, segundo as fontes mais antigas, existiria uma ilha com laranjeira. Foto Rui Gonçalves Moreno. Op. cit., pg. 85.

“Uma outra cena”, na opinião de Louis-François de Tollenare, o viajante francês já citado, é o grande largo circular rodeado de altas paredes de cedro, que fica num nível intermédio, porém marginal da ascensão vertical. Uma “ambiência rústica” (p. 91) em contraponto ao resto do parque, porém nobre pelas suas árvores seculares, que H. F. Link elogiou no seu livro de viagem a Portugal, em especial os loureiros de extrema velhice e altura prodigiosa da Alameda de Santo Agostinho — cenário perfeitamente romântico, aliás, muito próprio da época, para túmulo dum jovem militar inglês afogado no Mondego e dum outro homem que viveu à margem das convenções. Uma vocação tardia dos crúzios coimbrões, que o M. D. Duarte apenas sugere, mas admite poder “levar a importantes conclusões acerca do papel dos crúzios na sociedade conimbricense do século XIX, […] para com os que habitavam fora do mundo católico” (p. 96).

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Fonte da Nogueira, pormenor do estado de conservação do Tritão em 1993. Op.cit., pg. 69.

No entanto, o principal caminho não é esse. “A meta do escadório é uma fonte” (p. 67), a Fonte da Nogueira, ou da Sereia (na verdade, do Tritão…, alegoria da criação do mundo), numa das extremidades da cerca do Parque — uma das mais importantes de Coimbra, exclusiva do Mosteiro, como reconhecido num alvará régio de 1588, e objeto de secular contenda por parte do Município. Pela sua simbologia teológica como pela sua importância conventual, esta fonte no patamar mais elevado do escadório, de menor dimensão que a do piso inferior, mais intimista também, recebeu um programa decorativo que começa no desdobrar de frases sapienciais do Antigo Testamento em legendas de cenas azulejares alusivas, umas e outras atualmente muito maltratadas pela erosão natural e pela barbárie humana — como sucede com os rostos picados no painel da comunidade monástica reunida em torno duma fonte de que recebem água (p. 75) ou a brutal decapitação do Tritão fontenário (p. 71).

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Representação da comunidade monástica dos Cónegos Regrantes de S. Agostinho em redor da fonte da qual recebem a água. Op. cit. Pg. 75

Muitos desses painéis representam diferentes gerações de crentes junto de fontes de água, mas num deles observa-se “um elevado chafariz que termina num coração de Maria donde saem jatos de água; em volta crúzios sentados, tendo corações nas mãos, e dois deles recebem nos seus a água” da sabedoria, como relataram os historiadores da arte Vergílio Correia e Nogueira Gonçalves. Sendo qualquer fonte de grande caudal um símbolo de Cristo, o autor acredita que a Fonte da Nogueira constitui verdadeiramente “o coração de todo o Parque” de Santa Cruz e “um dos mais importantes lugares consagrados à veneração do mistério da Encarnação do Verbo” (p. 79).

Rosa, V. Santa Cruz de Coimbra: uma floresta iluminada. In: Observador, edição de 4 de abril de 2018.

 

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por Rodrigues Costa às 12:31

Quinta-feira, 19.05.22

Coimbra: Santa Cruz de Coimbra, uma floresta iluminada 1

No “Observador” de 4 de abril de 2018 o jornalista Vasco Rosa escreveu um artigo sobre o livro do Doutor Marco Daniel Duarte, com o título: “Contemplar o Paraíso. O Jardim de Santa Cruz de Coimbra (do século XVII ao século XXI)”, que intitulou “Santa Cruz de Coimbra: uma floresta iluminada”.

Desse texto levamos até leitores o que seguir fica.

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Jardim de Santa Cruz, cascata. Imagem inserida no artigo

 "Contemplar o Paraíso" é um guia, mas também é um livro sobre a história de um dos espaços mais emblemáticos de Coimbra. Vasco Rosa escreve sobre a obra e sobre o jardim.

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Contemplar o Paraíso, capa. Imagem inserida no artigo

 O recentemente concluído e notável restauro da Estufa Grande do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra chamou-nos a atenção para este álbum também recente, dedicado a outro “espaço verde” daquela cidade, o Jardim de Santa Cruz, que em 2004 recebeu sete esculturas de Rui Chafes, algumas delas colossais, incorporando no frondoso cenário arbóreo a solenidade artística e a “severidade litúrgica” (a expressão parece-me certeira; p. 139) que lhe são tão peculiares.

Se esta intervenção contemporânea, por si só, justifica plenamente uma visita, que dizer do restante parque, construído em 1723-52 na cerca do Mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, que então dominava a cidade, e também ele erguido de acordo com o que de melhor se fazia à época, de Versailles a São Petersburgo?

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Entrada do jardim de Santa Cruz, ainda sem o murete que o século XX lhe viria a adicionar. Op. cit., pg. 17.

Inicialmente o Pórtico, isolado, tinha uma dignidade simbólica e uma graça volumétrica que muretes nas laterais (1913) vieram perturbar, mas é a partir daí, naturalmente, que o autor nos conduz num passeio pela antiga Quinta de Santa Cruz. Basta entrar nos dois exíguos torreões para nos apercebermos da qualidade investida no programa estético deste empreendimento, com as paredes pintadas a fresco de cima a baixo, em trompe l’œil: uma cenografia de arquitetura rococó que sobe vertiginosamente até a tetos como abóbadas celestes com alegorias.

 

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Pórtico do jardim de Santa Cruz. Foto Rui Gonçalves Moreno. Op.cit., pg.19.

 Medalhões, templetes e frisos evocam cenas monásticas e mitológicas, como a entrega da Regra por Santo Agostinho aos crúzios coimbrãos e o Milagre de Ourique, ou exibem símbolos religiosos, militares e artísticos.

Sob as estátuas da Fé, da Caridade e da Esperança no triplo arco da entrada avança-se para a “utilidade profilática” (p. 37) do parque enquanto lugar de recreio e desporto.

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Registo do terreiro do jogo da Pela através de um postal ilustrado dos finais do século XIX. Op.cit., pg.39

O recinto apropriado ao Jogo da Pela — o jeu de paume gaúlico —, “grandioso terreiro” ou “fermossíssima praça” (p. 41), tem a Cascata como cenário de fundo, ou “extremidade de honra” nas palavras dum viajante francês em 1816, e aos lados canapés corridos em faiança pintada, hoje um tanto danificados, por sinal.

Rosa, V. Santa Cruz de Coimbra: uma floresta iluminada. In: Observador, edição de 4 de abril de 2018.

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por Rodrigues Costa às 15:07

Terça-feira, 29.03.22

Coimbra: Eiras nos Finais do Século XVIII

O estudo agora apresentado resultou na sua essência da dissertação de mestrado que defendemos em julho de 2003. No entanto, investigações desenvolvidas posteriormente permitiram-nos abordar alguns temas que não teriam cabimento num trabalho com objetivos estritamente académicos.

A comunidade que será objeto deste estudo situa-se em plena região centro, sendo desde 1836 uma das freguesias do concelho de Coimbra. Contudo, durante muitos séculos a sua identidade estruturou-se em moldes bem diferentes – vila e sede de um concelho que integrava o termo de Coimbra (que detinha a jurisdição crime), mas possuindo autonomia no cível (que pertencia ao donatário de Eiras, o Mosteiro de Celas de Coimbra).

Eiras situa-se a cerca de 5 km de Coimbra. Uma légua a ser percorrida por todos aqueles que deixavam a cidade da margem do Mondego em direção a Norte, a uma pequena vila, de cerca de 100 fogos. A paisagem é marcada pela sua posição na fronteira entre as terras do campo e as terras do monte, entre as férteis planícies do Bolão e as serranias que se desenham no horizonte, como a de Luzouro, Espinhaço do Cão ou a da Aveleira.

… No século XVIII, o elemento que dominava a paisagem era, sem dúvida, a água.

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Fonte de Eiras

 … A importância da água para a rega, para acionar as inúmeras azenhas que permitem moer o cereal ou fazer o azeite levaram as senhoras de Eiras, as freiras do mosteiro de Celas, a defender de forma inequívoca as linhas de águas que atravessavam o seu domínio territorial e jurisdicional. O seu interesse pela água, especialmente pela preservação dos caudais, prendia-se com o facto das monjas de Celas deterem o monopólio da utilização dos lagares. A água era essencial, não só para acionar as estruturas de moagem como para o próprio processo de elaboração do azeite.

… O primeiro desses poderes estruturantes é o senhorial. Eiras pertencia a um dos muitos donatários que dividiam entre si o termo coimbrão – o mosteiro de Celas. O Mosteiro há muito implantado no burgo de Celas estabeleceu ligação com o lugar de Eiras em 14 de abril de 1306 quando o rei D. Dinis escambou com as freiras de Celas a terça parte da vila de Aveiro pela aldeia de Eiras e padroado da sua igreja. – “[…] a qual aldeia [Eiras] eu a vos dou e outorgo em escambo com entradas e saidas e com montes e com valles rotos e por romper pastos, e com matos e com todollas outras couzas que a dita aldea pertencem asi commo eu milhor ouvo, e com todos os direitos que eu hi ey e de direito devo aver e com o padroado da Igreja deste lugar d’ Eiras […]”. Este escambo e a consequente posse de Eiras acabaram por ser sucessivamente confirmados por outros monarcas portugueses.

… Assim, enquanto donatárias, e decorrente dos seus direitos jurisdicionais e de padroado, as freiras de Santa Maria de Celas recolhiam em Eiras e seu limite um vasto conjunto de direitos senhoriais, consagrados em foral e transcritos, através do testemunho das gentes de Eiras, no tombo de 1740. … O foral de Eiras terá tido a sua origem no reinado de D. João I.

 …  Os limites de uma paróquia de Antigo Regime eram construídos sobre um mapa cujas fronteiras não se materializavam em marcos ou divisórias como acontecia com os limites senhoriais ou concelhios.

O seu centro era a igreja (edifício de culto e local de enterramento dos mortos), os seus limites eram os da obrigação dos sacramentos que uniam um conjunto mais ou menos vasto de pessoas e o seu mapa os róis de confessados que o pároco redigia a cada Quaresma.

Eiras. Igreja Matriz de Eiras.jpgIgreja Matriz de Eiras. Imagem acedida em https://www.allaboutportugal.pt/pt/coimbra/monumentos/igreja-matriz-de-eiras-3

A paróquia de Santiago de Eiras era vigararia da apresentação do Mosteiro de Celas. Tinha uma área de cerca de 9 Km que incluía a vila, onde se situava a igreja matriz, os lugares de Casais de Eiras, Vilarinho, Murtal, Escravote, Carvalho e Redonda – lugares que pertenciam ao domínio senhorial de Celas, mas também a outros senhorios como é o caso do Murtal ou dos de Casais de Eiras.

O lugar de Vilarinho dividia-se pelas freguesias de Eiras e Brasfemes, sendo os dízimos aí recolhidos divididos pelas duas paróquias.

… Um outro poder que se materializava no espaço era o municipal. A vila de Eiras era um concelho constituído por uma câmara Municipal, com um juiz ordinário, um juiz do crime, dois vereadores, um procurador do concelho, dois almotacés e um escrivão da câmara proprietário do ofício. O juiz ordinário, os vereadores e o procurador da câmara eram eleitos anualmente através de um processo que as atas da câmara de Eiras descrevem com clareza – “[…] sendo presente o dito cofre fixado com tres chaves e sendo aberto […] se achou huma saca dobrada e cozida com bolinhas brancas e lacradas com lacre preto e sendo assim achada a dita saca ou bolsa de pelouros e aberta dentro della se acharam tres pelouros ou bolas de sera e sendo tirada hum dos ditos tres pelouros se achava dentro delle um bilhete embrochado o qual sendo aberto nelle se achavam nomeados os oficiais que serviriam […]”. No que toca ao juiz do crime o processo de eleição era diferente, uma vez que a jurisdição crime pertencia a Coimbra. Assim, o concelho de Eiras apenas poderia indicar três nomes que seriam enviados à câmara de Coimbra que, por sua vez, nomearia o juiz que exerceria o mandato no ano seguinte.

Para além destes cargos e ofícios, detetámos ainda a presença de Almotacés. Estes oficiais exerciam a sua atividade de fiscalização económica em pares que eram eleitos de dois em dois meses a partir de uma pauta estabelecida no início do mandato das justiças desse ano.

Ribeiro, A. I. S. 2005. A Comunidade de Eiras nos Finais do Século XVIII. Estruturas, Redes e Dinâmicas Sociais. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 21:44

Terça-feira, 04.01.22

Coimbra: Carlos Seixas, um músico conimbricense

Na continuação da divulgação do seu valiosíssimo espólio o Arquivo da Universidade divulgou mais um documento, este dedicado ao organista conimbricense Carlos Seixas.

Carlos Seixas, um organista prodigioso de Coimbra

Carlos Seixas 4.png

Imagem acedida em: https://www.bing.com/images

Ensinado por seu pai, na aprendizagem musical do órgão, Francisco Vaz, também ele organista da Sé de Coimbra, era um jovem prodigioso, quase uma criança prodígio, uma vez que foi nomeado organista da Sé de Coimbra, com 14 anos apenas, em 9 de fevereiro de 1718, após o falecimento de seu pai.

Infelizmente, não existe já o livro paroquial onde estaria o seu assento de batismo, por razões desconhecidas extraviado ou perdido, como tantos outros documentos. Mas, por um acaso fortuito, foi localizado, há alguns anos, o seu processo de casamento, inserido no acervo da Câmara Eclesiástica de Coimbra.

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Fig. 1 - 1731, setembro, 16 – Publicação de “banhos corridos” na igreja paroquial e Colegiada de Santa Justa, por petição de José António Carlos de Seixas (1704-1742), morador em Lisboa, na freguesia de São Nicolau. Não sendo conhecida a data da petição, o documento fica datado pelo registo do Prior da Colegiada, Manuel dos Reis Leitão.

 

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Pormenor da figura 1

Em 1731, quando residia na freguesia de São Nicolau, em Lisboa, solicitou à Câmara Eclesiástica de Coimbra uma certidão de “banhos corridos”, para poder casar, em Lisboa, com Maria Josefa Tomásia da Silva. Nesse processo figura uma certidão de batismo, extraída do livro paroquial que, então ainda existia, podendo saber-se que foi batizado em 10 de julho de 1704, na igreja de São Cristóvão, com o nome de José, filho de Francisco Vaz, organista da Sé e de Marcelina Nunes que foram moradores na Rua da Ilha.

Originalmente, utilizou o nome de José António, tal como surge no registo de nomeação para organista, pelo Cabido da Sé de Coimbra. Desconhece-se a razão da utilização posterior do nome de José António Carlos de Seixas.

Terá ido para Lisboa no início de 1720, uma vez que neste ano foi já nomeado organista da Sé Patriarcal de Lisboa.

Foi também mestre organista da Capela Real. Diogo Barbosa Machado, um dos seus primeiros biógrafos, dirá da sua arte que: “A mesma suavidade e destreza exercitava tocando órgão, fazendo com um impulso dos dedos vocal o seu instrumento e mudos os ouvintes”, não podendo encontrar-se elogio mais absoluto para a arte que praticava e o som que fazia extrair do órgão.

Cultivou também a música, através da escrita e revelou-se como um dotado compositor e autor de obras orquestrais e música sacra. Refiram-se as Tocatas de cravo (segundo José Mazza terão sido 700 tocatas), Motetes para vozes e instrumentos, Sonatas, Minuetes, etc., imprimindo às suas composições uma expressão musical e um som próprio e particular que o identifica, desde logo, como ímpar e como seu.

Os manuscritos musicais, em cópias da sua obra, podem encontrar-se nos acervos da BGUC, da Biblioteca Nacional e da Biblioteca da Ajuda, além de outras instituições.

Ana Maria Bandeira

 Acedido em:

https://www.uc.pt/cultura/som/organista_auc/?fbclid=IwAR121n1MJSF4ckZbTxDkhAlCBzQL7gtsXf56uo0UxQUpUdGo8CTF0A481Yg

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por Rodrigues Costa às 12:52

Quinta-feira, 16.12.21

Coimbra: Presépio da igreja de S. António dos Olivais

No terreiro que está detrás da igreja de S. António dos Olivais, um pouco escondida, está uma pequena capela.

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Capela do presépio, no terreiro posterior da igreja de S. António dos Olivais

Dentro dessa capela encontra-se, na sua singeleza de figuras de barro, um presépio que julgamos ser conhecido de não muitos conimbricenses. 

Presépio que foi assim descrito em meados do século passado:

Encostada ao muro do mesmo terreiro, para o lado da estrada dos Tovins, fica a capelita do Presépio, de elementos arquitetónicos do século XVII, abrigando um presépio popular, de algumas dezenas de figuras que devem datar te fins do século XVIII ou já do XIX. Segundo uma lápide foi restaurado em 1929. No seu caráter popular é digno de consideração. O pobre artista inspirou-se de diversos pontos, encontrando-se figuras vestidas à maneira quinhentista, etc.

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(Correia, V., Gonçalves, N. Inventário Artístico de Portugal. Cidade de Coimbra. 1947. Lisboa, Academia Nacional de Belas Artes, p. 95.)

Mais chegado aos nossos dias numa conferência a que iremos voltar, o presépio é assim descrito:

“Presépio” popular, de algumas dezenas de figuras, e que devem datar já dos finais do século XVIII ou até mesmo dos primórdios do XIX. Apesar do seu carácter popular, é digno de consideração.

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(Anacleto, R. Conferência. Santo António dos Olivais: de ermitério a freguesia, Comemoração dos 151 anos de elevação a freguesia civil de Santo António dos Olivais.  2005.11.20. Coimbra, Casa Municipal da Cultura.)

Embora se possa visualizar no local, o blogue “Pingo de Luz”, permite aceder em https://umpigodeluz.blogspot.com/2012/12/presepio-da-igreja-de-santo-antonio-dos.html,  a um conjunto muito interessante de fotografias do presépio.

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Esta lembrança fez-me voltar à minha meninice.

Meu Pai era um Homem que sabia fazer quase tudo. Uns dias antes do Natal, num canto da nossa casa, com algumas pequenas tábuas montava a estrutura de uma pequena montanha que tinha no sopé uma gruta à qual todos os caminhos iam dar.

Depois, o meu Pai pintava, com cores escuras, procurando imitar a terra e as pedras, papel de sacos de cimento ou outro qualquer papel grosso e com esse material dissimulava a estrutura de madeira.

Concluída esta fase era tempo de ir, pela sua mão, buscar um saco de serradura, a uma serração que existia ao fundo da rua Direita. Serradura que servia para se representarem os caminhos.

Existia ainda uma outra tarefa de que muito gostava. Depois de descer até à Portagem e atravessar a ponte, subíamos ao monte sobranceiro ao miradouro do Vale do Inferno. Ali havia um belo musgo verde com tons de amarelo das folhas caídas e também um musgo seco branco que parecia a neve.

Esse musgo era colocado com carinho e arte no presépio.

Na véspera do Natal, durante a tarde dispunham-se as figuras todas a caminho da gruta. Figuras compradas, primeiro na romaria do Espírito Santo e, depois, numa loja da Rua da Sofia que ainda existe. O Menino Jesus só era colocado na manjedoura depois da ceia de Natal e os Reis Magos só chegavam em janeiro.

Era a alegria de uma criança feliz de outros tempos. Eu.

Rodrigues Costa

A todos e a cada um, a quem gosta da nossa Coimbra e em particular aos que seguem este blogue desejo um Feliz Natal e um Bom Ano Novo. Até ao início de 2022.

Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 09:54

Terça-feira, 07.12.21

Coimbra: Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra 2

Este papel na vida religiosa da região veio a ser reconhecido e reforçado em 1879 quando, a pedido de D. Manuel de Bastos Pina, bispo de Coimbra – e após várias vicissitudes, tentativas falhadas e persegui­ções – passou a funcionar no convento de Santa Teresa a Congregação Mariana de Maria Imaculada, destinada a leigos, sobretudo estudantes da Universidade.

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Convento de Santa Teresa, vista aérea

“Em 1897, as religiosas foram mesmo autorizadas, a título excecional, a permanecer no convento, depois do falecimento da última conventual. Para que a vida canónica regular pudesse prosseguir, vieram de Espanha três religiosas e em 1898 professaram mais sete noviças”.

A situação muda inteiramente em 1910, no contexto da revolução republicana. No dia 9 de outubro, “a comunidade de S. Teresa encontrou‑se rodeada pelos soldados e completamente isoladas de qualquer tipo de comunicação com os de fora; nem sequer podiam comunicar‑se com o capelão, P. Dr. António Antunes, mais tarde Bispo de Coimbra.” As reli­giosas são expulsas do convento e dispersas por várias comunidades, em Espanha. O edifício é entregue ao Estado e ocupado por serviços do Ministério da Guerra, mais concretamente o Hospital Militar.

Em 16 de dezembro de 1933, tendo mudado inteiramente o contexto político – em Portugal com a instauração do Estado Novo e em Espanha com a proclamação da República – dá‑se o restabelecimento do Carmelo em Coimbra: três das irmãs que haviam sido expulsas 23 anos antes e que ainda sobreviviam em Valência, no mosteiro de Corpus Christi – Glória do Coração de Jesus, Maria Luz de S. Teresa e Maria Isabel de Santa Ana – regressam, trazendo consigo outras três espanholas. Inicialmente alojadas em casa de familiar de uma delas, novamente na Arregaça, fixam‑se depois numa casa alugada, no Calhabé.

Em 26 de junho de 1934, chegam mais três do mosteiro madrileno de Loeches, entre as quais a nova prioresa, irmã Maria do Carmo do Santíssimo Sacramento, sendo esta data considerada, oficialmente, a da restauração do Carmelo, agora em casa da Ladeira do Seminário. Pouco depois (7/3/1937), a diocese cede‑lhes uma casa na Quinta do Cidral, aos Lóios, onde perma­necerão 10 anos.

Em 7 de março de 1946, após longas negociações, é reconhecido o direi­to de as freiras reocuparem o seu antigo convento, incluindo a cerca, a igreja e a casa do capelão, sendo o respetivo auto de entrega assinado em 14 de junho de 1946. Simbolicamente, as chaves são depositadas nas mãos da religiosa de quem tinham sido arrebatadas, em 10/10/1910, irmã Maria de Jesus.

Após as necessárias obras de reparação e limpeza, no dia 12 de janei­ro de 1947, as carmelitas saem da Quinta de Santo António, aos Lóios, e regressam solenemente ao seu convento. E para a irmã Maria Isabel de SantaAna foi efetivamente um regresso: tendo professado em 1905, foi expulsa em 1910, esteve exilada 23 anos, regressou a Coimbra em 1922, reentrou no seu convento em 1947, onde veio a falecer em 1959. O seu capelão nessa data, cónego Manuel dos Santos Rocha, será elevado ao bispado de Coimbra em 1948.

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Carmelita em oração

Desde então a comunidade tem florescido e daqui saíram algumas professas para fundar outras comunidades: em 1970 saíram 4 irmãs para fundarem um novo Carmelo em Braga e em 1994 saiu outro grupo de 7 irmãs para abrir um novo Carmelo na Guarda (e já em 1780 haviam saído 5 irmãs para a fundação do Carmelo de Viana do Castelo).

Em 1948, o Carmelo de Santa Teresa recebeu a sua irmã mais famosa deste século: a irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, ou irmã Lúcia, vidente de Fátima, que aí permaneceu até ao seu falecimento, em 2005.

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Estátua da Irmã Lúcia, inaugurada em 2013

No muro da frontaria do convento, voltado a norte, foi instalado um grande painel de azulejos comemorativo do centenário do seu nascimento;

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Recriação de uma cela

e junto ao muro do lado nascente foi construído um memorial, aberto em 2007, que permite ao público ver objetos que usou ou relacionados com a sua vida, bem assim como imaginar o dia‑a‑dia “na modéstia, na simplici­dade e despojamento”, próprio daquela comunidade.

Guedes, G.M.F. O Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra: inventário do acervo documental. In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. 26 (2013). Pg. 65 a 80.

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por Rodrigues Costa às 17:17

Quinta-feira, 02.12.21

Coimbra: Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra 1

O convento de Santa Teresa de Jesus, em Coimbra, pertence ao ramo das Carmelitas Descalças e remonta à 1ª metade do século XVIII. A fun­dação deste Carmelo parece ter correspondido à vontade e ao fervor religioso de vários sectores da sociedade e das autoridades religiosas da cidade. Citem‑se, entre outros, a determinação e os esforços de frei Luís de Santa Teresa, nascido Luís Salgado, mais tarde bispo de Olinda, que, após ter frequentado o Colégio das Artes e as Faculdades de Cânones e Leis, onde atingiu o grau de Doutor e onde foi, igualmente, professor – além de juiz corregedor da comarca – abandonou a promissora carreira das leis e, em 1723, com 30 anos de idade, ingressou nos Carmelitas, no Convento de Nossa Senhora dos Remédios, de Lisboa … Na década de 30 regressou a Coimbra “animado pela ideia de aí fundar um convento de Carmelitas Descalças, para o que pedia esmolas de porta em porta, fazen­do os mais servis trabalhos”.

Em 6 de junho de 1737, a Câmara concede licença para a fundação de um convento de Carmelitas Descalças na cidade, por proposta de um grupo de cidadãos encabeçado pelo Doutor Manuel Francisco, professor jubilado da Faculdade de Medicina, que tomam a seu cargo a busca de um local apro­priado, o qual vêm a encontrar no denominado Casal do Chantre, então situado nos arrabaldes. Em 20 de janeiro de 1739, o rei Magnânimo promul­ga a provisão que autoriza a fundação do convento e na tarde do dia 14 de fevereiro chegam as 11 religiosas que o Provincial, Frei Manuel de Jesus Maria e José, nomeara para o efeito, oriundas de vários outros conventos da ordem, em Portugal. Hospedam‑se no vizinho Convento de Sant’Ana, das religiosas de Santo Agostinho. No dia seguinte, são recebidas na igreja do Colégio dos Carmelitas Descalços – Colégio de S. José dos Marianos, atualmente Hospital Militar – com um solene Te Deum. Daí seguem para a quinta de Simão Pereira Homem, sita na Arregaça, onde permanecerão por quatro anos.

No dia de Nossa Senhora das Dores, 9 de abril, de 1740 é lançada a 1ª pedra do convento, num terreno doado pelo cónegochantre da Sé, Manuel Moreira Rebelo. O projeto – muito simples e austero, como fica bem a uma congregação com estas características – é da autoria do arquiteto carmelita Frei Pedro da Encarnação e estaria elaborado desde 1714. O conjunto “é artisticamente modesto, valendo unicamente pelos portais de entrada da igreja onde se crava o milésimo de 1744, e pelo retábulo barroco da capelamor.

A planta do templo privativo é simples, de uma só nave de forma retangular, com um coro alto, uma abóbada de tijolo, uma capela única de cabeceira e uma cúpula no cruzeiro.

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Convento de Santa Teresa, interior

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Convento de Santa Teresa, capela-mor

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Convento de Santa Teresa, portal

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Convento de Santa Teresa, pormenor do portal

” Nesta igreja será sepultado, com grande solenidade, o pintor italiano Pasquale Parenti ou Pascoal Parente, que deixou notabilíssima obra espalhada por todo o país e especialmente por Coimbra e pela região centro, na 2ª metade do século XVIII. À volta do claustro, de cinco arcos de cada lado, dispõemse as dependências monacais, sendo os dormitórios no andar superior.

A 23 de junho de 1744, as religiosas Carmelitas deixam as instalações precárias, embora adaptadas, na Arregaça, e fazem a sua entrada no convento construído expressamente para elas e para as características da sua vida contemplativa e de clausura – tendo o sermão da trasladação sido proferido por Estanislau Manso, Sociedade de Jesus.

Aí permanecem sem grandes percalços, durante quase um século, acrescentando o número de professas e granjeando a simpatia da cidade.

Porém, a revolução liberal e as guerras que se lhe seguiram como, antes, as invasões francesas, trouxeram incertezas e perturbações a que nenhuma comunidade ou instituição ficou alheia.

…O Carmelo de S. Teresa viu serem‑lhe subtraídos os poucos bens que possuía e a iminência da extinção pesar‑lhe sobre a cabeça, uma vez que fora proibida a admissão de noviças.

Porém, em breve “a tempestade passou”; poucos anos depois, a igreja de Santa Teresa era, mesmo, um centro de vida espiritual altamente marcante na cidade”. Enquanto a vida religiosa em Coimbra “definhava” e “nos conventos de Santa Clara, Celas e Sant’Ana morriam as últimas frei­ras” (…) o convento de Santa Teresa era “o maior, para não dizer o único centro de piedade” que “contrastava, à evidência, com o ambiente de indiferença religiosa que era comum dos habitantes da cidade. Ali concorriam as famílias da nobreza e aristocracia coimbrã, que haviam conservado as velhas tradições portuguesas, sem se deixar contaminar pelo liberalismo e pelo formalismo externo (…) Ali concorria também muita gente devota, muita gente pobre e humilde… Neste convento, havia bas­tantes religiosas ainda válidas e algumas novas, todas piedosíssimas, passando a vida em penitências austeras e edificantes.

Elas tinham sabido renovar o seu pessoal professo. Como? Deus o sabe e elas também o sabiam. Era na Igreja das Teresinhas, e só ali, que todos os dias se viam fiéis”.

Guedes, G.M.F. O Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra: inventário do acervo documental. In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. 26 (2013). Pg. 65 a 80.

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por Rodrigues Costa às 09:40

Terça-feira, 02.11.21

Coimbra: O Seminário Maior de Coimbra 3

No ano de 1751 chega a Coimbra, vindo de Lisboa, o bolonhês Guiseppe Antonio Landi que ali se fixou de junho a novembro de 1751, altura em que foram retomadas a grande velocidade as obras do Seminário (existindo registos semanais para esses meses). Fontes divulgadas por Rui Lobo e Giuseppina Raggi sustentam a teoria de que este arquiteto italiano tenha “ganhado muito dinheiro com a revisão e remodelação do projeto da fábrica do seminário e a sua subsequente construção”. Landi terá sido apresentado a Nicola Giliberti por Giovanni Angelo Brunelli, um cónego que possivelmente terá conhecido Giliberti ainda em Itália. Numa carta de 20 de junho de 1751 Brunelli escreve: “Ho mandato al Landi a Coimbra, dove è andato per una visita di una fabrica, la lettera che mi inviate per lui”. Assim podemos afirmar que Landi terá vindo para Coimbra a convite de Brunelli e que terá participado numa obra “per una mia reccomandazione”. Outra carta que faz sustentar a tese que Landi tenha trabalhado para Giliberti é a forma de como o arquiteto saúda o reitor do seminário numa carta datada de 12 de novembro de 1776: “questo suo antico servitore (…) Suo umilissimo e obbligat. Servitore Antonio Giuseppe Landi”.

A presença bolonhesa no edifício faz-se sentir especialmente na da Igreja da Sagrada Família uma vez que a planta da Igreja do Seminário apresenta algumas semelhanças à da Igreja de Santa Maria della Vita, precisamente, em Bolonha.

Fig. 11. Retábulo da capela-mor da Igreja da Sagr

Fig. 11. Retábulo da capela-mor da Igreja da Sagrada Família

 Guiseppe Landi parte para o Brasil no dia 2 de junho de 1753, mas antes pode ter sido o próprio a ter sugerido a Giliberti a contratação do mestre-de-obras João Francisco Tamossi, pessoa de confiança pessoal de Landi, para a execução do seu projeto para o Seminário Maior de Coimbra. A verdade é que Tamossi pode não ter acrescentado em muito no traçado do edifício uma vez que teve um final trágico ao cair de uma das torres acabando por falecer no local no dia 6 de outubro de 1755.

Fig. 4. Escadas em caracol.png

Fig. 4. Escadas em caracol

Fig. 9. Lavatório ao lado da porta da Biblioteca

Fig. 9. Lavatório ao lado da porta da Biblioteca Velha

Fig. 12. Cúpula do Seminário.png

Fig. 12. Cúpula do Seminário

Fig. 13. Órgão da Igreja da Sagrada Família.png

Fig. 13. Órgão da Igreja da Sagrada Família

 Após a morte funesta de Tamossi foi designado Giacomo Azollini para terminar a construção do Seminário. A Azollini é atribuída “(…) a conclusão das escadas em espiral, (…) a Capela de São Miguel (…); desenhou e fez o portal da igreja (…)”. Rui Lobo e Giuseppina Raggi atribuem também a Azzolini o lavabo junto à Biblioteca Velha e o «trompe-l’oeil» ao fundo do corpo oeste.

Claudino, L.M.G. Seminário Maior de Coimbra. História, património e museologia. Relatório de Estágio do Mestrado em Património Cultural e Museologia no ramo de Gestão e Programação. 2018. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 20:37

Quinta-feira, 28.10.21

Coimbra: O Seminário Maior de Coimbra 2

Os custos da construção do Seminário começaram de acordo com o «Processo de Isenção do Seminário», com o «aere próprio» do Bispo fundador D. Miguel da Anunciação, mas também contribuíram para esta obra os cofres da Mitra e as esmolas dos fiéis. Na Pastoral de 25 de abril de 1749 o Bispo exortava aos párocos para que:

«(…) no tempo do recolhimento dos frutos, e ainda nos dias santos e domingos do ano,  hajam de pedir esmolas e, quando houverem de remeter os seus róis de confessados, farão conta, com individualização, da importância delas, tanto das que tiraram pelas suas freguesias, como daquelas com que concorreram as Confrarias, as Irmandades e as que voluntariamente quiser dar cada um dos mesmos párocos».

Fig. 6. Vista para o claustro da Capela de S. Migu

Fig. 6. Vista para o claustro da Capela de S. Miguel 

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Fig. 7. Aposentos episcopais

Fig. 8. Biblioteca velha do Seminario Maior de Coi

Fig. 8. Biblioteca velha do Seminário Maior de Coimbra

 Para o incentivo à esmola, o Bispo requereu à Nunciatura que deferisse indulgências a quem auxiliasse na construção do Seminário. Do mesmo modo D. Miguel da Anunciação pede a isenção da Diocese de Coimbra do pagamento da terceira parte das suas rendas à Patriarcal. Também a coroa patroneou a obra oferecendo madeiras do Pinhal de Leiria e do Brasil.

 

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Fig. 10. Sala dos azulejos

Pela cronologia apresentada pelos vários estudiosos da história do Seminário podemos afirmar que o primeiro encarregado das obras da Casa Velha terá sido Frei João da Soledade. O primeiro reitor, Nicola Giliberti, assinou um contrato com esse arquiteto franciscano e com o mestre-de-obras Manuel Rodrigues, a 11 de junho de 1748, com o intuito de construir o Seminário. Um mês após esse contrato, no dia 16 de julho de 1748, por ocasião da solenidade de Nossa Senhora do Carmo, foi lançada a primeira pedra da igreja do Seminário.

Essa celebração foi presidida pelo Bispo Conde D. Miguel da Anunciação e terão comparecido nela todo o restante cabido da Sé, seminaristas e vários nobres da cidade. João da Soledade terá sido o responsável até 1750 altura em que o plano das obras entrou em crise forçando porventura a paragem das mesmas.

Claudino, L.M.G. Seminário Maior de Coimbra. História, património e museologia. Relatório de Estágio do Mestrado em Património Cultural e Museologia no ramo de Gestão e Programação. 2018. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 19:44

Sexta-feira, 22.10.21

Coimbra: O Seminário Maior de Coimbra 1

As primeiras intenções da construção de um seminário diocesano começaram em 1743 quando D. Miguel da Anunciação procurava um terreno onde se pudesse construir um colégio com regime de internato fora dos limites da cidade, e onde o ambiente fosse mais propicio ao estudo.

Fig. 2. Retrato de D. Miguel da Anunciação.png

Fig. 2. Retrato de D. Miguel da Anunciação

Na cidade de Coimbra existiam algumas casas de aluguer que albergavam seminaristas. Porém, ao ver o crescente número de candidatos ao sacerdócio, D. Miguel da Anunciação sentiu a necessidade de se construir uma casa “ampla, onde pudessem estar á vontade Mestres, Ordinandos e Porcionistas”. A construção de um seminário reforçava o poder do Bispado relativamente à Universidade no que diz respeito à formação da teologia, competindo assim à Diocese a formação do seu clero secular.

A razão pela qual não se construiu um seminário na cidade de Coimbra após a decisão do Concilio de Trento é nos justificada numa carta do Bispo D. Frei Álvaro de São Boaventura datada de junho de 1675, onde podemos ler que nesta “Diocese não fizeram os Bispos Seminário por haver nella uma tão insigne Universidade onde se ensinam todas as ciências; mas ainda assim teem os Bispos duas cadeiras de Theologia Moral que pagam das suas rendas e leem os Padres da Companhia de Jesus no seu Colégio das Escolas Menores; e na claustra da Sé, uma cadeira de Gramática que paga o Mestre escola para aprenderem os moços do Coro…”.

A 14 de agosto de 1744, pedia o rei D. João V que se “visse e consultasse” no Tribunal da Mesa da Consciência e Ordem “a petição do Bispo Coimbrão em que se referia que o Antístite intentava erigir um Seminário que provesse às necessidades da Diocese. A Mesa deu parecer favorável a 6 de novembro de 1749”.

Os motivos pelas quais D. Miguel da Anunciação pretendia a criação de um seminário são explanados pelo próprio na Pastoral de 23 de maio de 1744:

«Considerando Nós a grande utilidade espiritual e temporal, que há-de resultar a este Bispado de nele se erigir um seminário, ou colégio para a educação dos meninos pobres e de pouca idade, que sendo a ele recolhidos possam ser bem instruidos em virtudes e  letras, donde saindo nelas consumados e perfeitos nos possam ajudar na cultura da vinha…».

Miguel da Anunciação volta a defender a construção do Seminário de Jesus, Maria e José numa Carta Pastoral de 3 de janeiro de 1763 onde o Bispo escreve que:

 «A ereção do nosso Seminário, para que educando-se nele os nossos súbditos destinados ao sacerdócio se nutrissem com as palavras da Fé, crescessem na sciencia de Deus, se instruissem nas máximas do Evangelho, e se enchessem dos frutos da justiça e da verdade; de modo que fossem, idóneos ministros do Novo Testamento, providos cooperadores da nossa ordem, na mencionada empreza da celebração do nosso sínodo diocesano, e capazes de os aplicarmos aos diferentes ministérios, que pedisse a sua execução, e a sua observancia, para maior honra, e glória de Deus, que é o Sagrado Centro, ao qual se devem dirigir todas as linhas que são as acções, que procedem do circulo da nossa vida, e do nosso governo».

Fig. 1. Vista geral para a Casa Velha do Seminári

Fig. 1. Vista geral para a Casa Velha do Seminário

 

O Seminário foi construído fora dos limites da cidade perto do Convento de Santana (atual Quartel Militar), e do Colégio de São José dos Marianos (atual Hospital Militar). Na área onde se instalou o Seminário eram, até aos finais da primeira metade do século XVIII, oito parcelas de olivais distribuídas por diferentes proprietários, sendo duas delas doadas por causa pia.

 Claudino, L.M.G. Seminário Maior de Coimbra. História, património e museologia. Relatório de Estágio do Mestrado em Património Cultural e Museologia no ramo de Gestão e Programação. 2018. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

 

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por Rodrigues Costa às 12:42


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