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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 24.11.20

Coimbra: Retábulo da Estigmatização de S. Francisco 2

Entre os séculos XV e XVIII Portugal foi-se cobrindo de um manto intenso de luz no interior das suas igrejas.

Convento Santa Clara-a- Nova. Interior da igreja.j

Convento Santa Clara-a-Nova. Interior da igreja

Ao longo desses séculos, os emotivos retábulos aquecidos a ouro foram ganhando as preferências nacionais, deixando-se para trás as mais frias (de pudor tratadístico) estruturas italianizantes trabalhadas em pedra.

Interior da igreja do mosteiro.png

Fig. 3 - Interior da igreja do mosteiro de Santa Clara-a-Nova em Coimbra. 2014. (Fotografia cedida por Anabela Carvalho)

 … No caso privilegiado de Santa Clara, a reformulação de um novo mosteiro ocasionou a execução de retabulária totalmente nova e especialmente encomendada para esse efeito, seguindo, em conformidade, o sentido estabelecido …

Convento Santa Clara-a- Nova. Retábulos.jpg

Convento Santa Clara-a-Nova. Retábulos

 Os 14 retábulos seguem todos a mesma composição dada por Mateus do Couto … Os retábulos que compõem a nave distribuem-se ao longo da mesma: 9 laterais, encaixando-se entre as pilastras da igreja; 2 colaterais; 2 sem altar (paralelamente aos colaterais); e 1 painel da mesma composição sobre a porta de entrada. Os baixos-relevos apresentam um grande sentido de movimento, através de corpos ondulantes, diagonais e panejamentos flutuantes e são pintados sobre folha de ouro, em cores suaves. Os seus imaginários e entalhadores, António Gomes e Domingos Nunes, assinaram contrato em 28 de Outubro de 1692 … É provável que, posteriormente, tenham sido encomendados os 3 painéis que faltam e que não estão no contrato, visto que os processos de decoração da igreja se prolongaram até ao século XIX.

Painel do retábulo da estigmatização.png

Fig. 4 - Painel do retábulo da estigmatização de S. Francisco, 1692, António Gomes e Domingos Nunes. 2014 (Fotografia cedida por Anabela Carvalho)

Gravura da folha de rosto da obra Missae ....png

Fig. 5 - Gravura da folha de rosto da obra Missae propriae festorum ordinis fratrum minorum ...1675. Officina Roderica de Carvalho Coutinho.

 O primeiro retábulo lateral do lado da epístola corresponde à estigmatização do santo fundador, como estipulado em contracto, localizado hierarquicamente no conjunto dos retábulos laterais do lado da epístola e iniciando a leitura global da retabulária. O painel é composto pela figura do santo, de frei Leão e de um serafim. Frei Leão encontra-se sentado no canto inferior esquerdo absorvido pela leitura de um livro e ignorando a acção que se desenrola à sua volta. S. Francisco, posicionado no lado direito, estica-se em direcção à aparição do serafim envolto em nuvens, que se encontra no canto superior esquerdo, conferindo marcante diagonal na composição. A cena é rodeada de rochas e árvores e, como fundo, apresenta uma paisagem com a representação de casario. Ambas as figuras vestem hábito franciscano e o serafim é representado cruxificado.

A cena do relevo congela a passagem da vida de S. Francisco em que este recebe os estigmas. Segundo S. Boaventura, a quando do seu retiro de Quaresma em honra de São Miguel para o monte Alverne, o santo contempla a aparição de um “(…) serafim de seis asas flamejantes (…)” crucificado em que “(…) Duas asas elevavam-se por cima de sua cabeça, duas outras estavam abertas para o vôo, e as duas últimas cobriam-lhe o corpo (…)”. Durante esse êxtase, S. Francisco sente “(…) uma alegria transbordante ao contemplar a Cristo que se lhe manifestava de uma maneira tão milagrosa e familiar, mas ao mesmo tempo uma dor imensa, pois a visão da cruz traspassava sua alma com uma espada de dor e de compaixão (…)”. Após a aparição, surgem-lhe marcas nas mãos e nos pés e na lateral direita do tronco, correspondendo à localização das 5 chagas de Cristo. S. Francisco assemelhava-se assim a Cristo, não apenas pela sua forma de estar na vida, mas também de forma tão visível como os estigmas, executando, a partir dai, diversos milagres.

… No caso do relevo dos estigmas em Santa Clara-a-Nova, S. Francisco de Assis apresenta-se numa posição de movimento ascensional, acompanhado de frei Leão e envolto em natureza.

Os entalhadores do painel da estigmatização de S. Francisco na nova igreja de Santa Clara de Coimbra revelam influências de gravuras que circulavam na época … o «Missae propriae festorum ordinis fratrum minorum ...», de 1675, que apresenta S. Francisco de mãos cruzadas.

Contudo, é essa que mais se assemelha ao relevo do retábulo da estigmatização da igreja do mosteiro de Santa Clara-a-Nova, pela sua organização compositiva, a mesma diagonal, a presença de frei Leão no canto inferior esquerdo, o mesmo desenho de árvore e a envolvência pela natureza.

.... No retábulo dos estigmas a importância da liberdade do artista na execução da obra, sem se cingir a uma gravura única, permitiu a oportunidade de mostrar a desenvoltura expressa na qualidade técnica.

… A maior liberdade na execução duma temática recorrente resultou numa abordagem única conferida pela forte aposta em diagonais marcadas e de maior movimento, demonstrando a qualidade técnica dos seus autores. A obrigatoriedade do tema do fundador, a par com o resto do conjunto, foi desenvolvida na simbiose entre o gosto régio e a técnica da talha portuense, resultando num singular dispositivo de retabulária nunca antes executada em Portugal.

Carvalho, A. R. O Retábulo da Estigmatização de S. Francisco na igreja de Santa Clara-a-Nova em Coimbra. In: O Retábulo no Espaço Ibero-Americano. Forma, função e iconografia. Coordenação de Ana Celeste Glória. Volume 2. 2016. Lisboa, Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / NOVA. Pg. 27-29

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por Rodrigues Costa às 11:38

Quinta-feira, 19.11.20

Coimbra: Retábulo da Estigmatização de S. Francisco 1

Santa Clara-a-Nova como estratégia régia

 O mosteiro de Santa Clara de Coimbra foi construído na margem esquerda da cidade por iniciativa de Dona Mor Dias no século XIII. Com a participação directa da Rainha D. Isabel de Aragão na construção, o mosteiro ganhou uma projecção que seria também alimentada pela salvaguarda do sepulcro régio. A ligação do mosteiro com a cidade e a concentração franciscana naquela área geraram uma relevância tal que até o próprio rio quis abraçar o solo consagrado.

Este território ocupado por duas grandes construções dedicadas à Ordem de S. Francisco e ligadas à cidade através da ponte, estabelece, assim, o protagonismo franciscano. O flagelo das cheias do Mondego obrigou as freiras a uma atenção constante ao seu património e a alterações sistemáticas nos circuitos de circulação interna.

Não obstante as condições agrestes ao longo de séculos, as clarissas insistiram na ocupação do espaço, resistindo mesmo à possibilidade de mudança oferecida pelo rei D. Manuel I. Em carta enviada a D. João IV, a abadessa mor da instituição pedia-lhe que fizesse mudar a localização do mosteiro, longe do risco de inundação. Este pedido interessou particularmente o monarca, que via nele uma oportunidade de glorificação do reinado, face ao anterior, de Filipe III. O monarca espanhol teria sido o responsável pelo processo de canonização da Rainha D. Isabel, que se prolongou entre 1611 a 1625, nomeando-a protectora do reino. Por conseguinte, D. João IV vê no pedido de construção do novo mosteiro uma motivação para extinguir as réstias lembranças filipinas, legitimando a nova dinastia e albergando sob sua protecção a nova santa e padroeira do Reino de Portugal, monumentalizando a grandeza e consagração do seu reinado pelo reforço da linhagem real e nacional da santa rainha.

Convento Santa Clara-a- Nova. Entrada.jpgConvento Santa Clara-a-Nova. Entrada

O monarca manda erguer o novo mosteiro numa cota mais elevada em confronto directo com a Universidade, lugar esse onde o poder régio é reforçado pela presença sistemática do brasão real, tal como acontece em Santa Clara-a-Nova, demarcando o patrocínio do rei na edificação. O impacto e a monumentalidade do mosteiro na malha urbana de Santa Clara confere à paisagem um equilíbrio de complementaridade com a Alta de Coimbra, sendo, desde logo, um elemento

iconográfico categórico na representação da cidade e actuando como uma espécie de polo de ligação entre as duas colinas, separadas pelo rio mas unidas pela mesma tutela.

O projecto resultou magnânimo e ambicioso, indo contra os anseios do rei em economizar na obra. A grandiosa panorâmica do mosteiro acarreta um grande impacto cénico através, principalmente, da colossal estrutura correspondente ao dormitório que impõe sobre a cidade a imagem poderosa do Rei através do carácter real que os dois torreões conferem. Era a dinastia portuguesa que agora velava pelo corpo sagrado de linhagem régia nacional e que imite essa afirmação através de uma estrutura de arquitectura civil, apelando à tipologia de um palácio régio.

- Margem esquerda da cidade vista da Universidade

Fig. 1 - Margem esquerda da cidade vista da Universidade de Coimbra. 2014. (Fotografia da autora)

O portal da igreja, a uma escala visível da cidade, difundia da mesma forma a independência da nova dinastia. O discurso político afixado no portal actual como estrutura comemorativa da Restauração de 1640 tal como já acontecia na tipologia do portal da igreja de S. João Baptista de Angra (datado de 1642) e como vai acontecer no portal da igreja da Piedade de Santarém (1664-1677). O monarca assinalava no novo panteão criado a legitimação definitiva e exclusivamente portuguesa da guarda e posse do túmulo da Rainha Santa Isabel, servindo igualmente para a afirmação da nova dinastia em contraposição à antiga.

O portal da igreja (1649-1696) é composto, num primeiro registo, por um vão rectangular, enquadrado por pilastras dóricas com entablamento de tríglifos e, num registo superior de maior movimento, dado por elementos decorativos como as volutas, apresentando um grande espaço quadrangular central preenchido pelo brasão real e dois anjos custódios (que apoiam as armas régias, glorificando o poder do rei credibilizado pela protecção divina que legitimiza a afirmação política no mosteiro de Santa Clara-a-Nova), emoldurado por pilastras jónicas e entablamento estriado, rematado por frontão interrompido por duas volutas e cruz ao centro.

Fachada da igreja do mosteiro.png Fig. 2 - Fachada da igreja do mosteiro de Santa Clara-a-Nova em Coimbra. 2015. (Fotografia da autora)

Como lhe chamou António Filipe Pimentel, o novo mosteiro de Santa Clara é igualmente um mosteiro-panteão e um mosteiro-palácio, erguido para afirmação da restaurada dinastia na cidade que acolheu o corpo do primeiro Rei da nação portuguesa.

Carvalho, A. R. O Retábulo da Estigmatização de S. Francisco na igreja de Santa Clara-a-Nova em Coimbra. In: O Retábulo no Espaço Ibero-Americano. Forma, função e iconografia. Coordenação de Ana Celeste Glória. Volume 2. 2016. Lisboa, Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / NOVA. Pg. 27-29

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por Rodrigues Costa às 10:51

Quinta-feira, 09.04.20

Coimbra: Igreja de S. Martinho do Bispo

A reconquista de Coimbra por D. Fernando Magno, em 1064, foi a viragem decisiva para a região, doravante definitivamente em posse dos cristãos. À frente da cidade de Coimbra e de toda a região, D. Fernando colocou um moçárabe, o alvasil D. Sisnando para que a povoasse e defendesse dos mouros. O sábio governo de D. Sisnando resultou em grande progresso para a região: foram construídos castelos, edificadas casas, plantadas vinhas e arroteadas terras. É neste contexto que surge a figura do abade Pedro, vindo da região em poder da moirama. A 26 de Abril de 1080, D. Sisnando dou-lhe terras a sul do Mondego que ele diligentemente repovoou. O abade Pedro edificou aí, próximo à cidade, a igreja de S. Martinho, dando origem a uma das mais populosas freguesias rurais do país, mas hoje plenamente absorvida no perímetro urbano de Coimbra.
Em 24 de Fevereiro de 1094 o abade Pedro doou os seus domínios à Sé de Coimbra, onde avultava a igreja edificada à sua custa e dotada com as casas necessárias, vinhas e outras árvores e ainda uma torre de defesa. Os bispos continuaram a obra de repovoamento e de valorização da igreja. Em 1104 o bispo D. Maurício concedeu carta de povoação, espécie de foral, reformada por D. Bernardo, em 1141. Aqui mantiveram os bispos de Coimbra uma quinta de veraneio e também se refugiaram das cheias do Mondego, no século XVI, as freiras do convento de Santana, numa quinta doada pelo bispo D. João Soares.
Da igreja medieval, que sabemos ter sido protegida por muros e torres de defesa, praticamente nada resta. Foi renovada em tempos posteriores, com se vê pela porta principal, seiscentista, de frontão curvo interrompido, e pela torre dos sinos, datada de 1733 por um discreto relógio de sol. A torre encontra-se afastada do corpo da igreja e em quase alinhamento com a porta principal. Sabe-se que houve obras na igreja e residência paroquial contratadas pelo carpinteiro de Coimbra Xavier Gomes da Costa em 19 de julho de 1739.
A igreja atual começou a edificar-se em 1754. Em 18 de novembro desse ano a obra das paredes e frontispício foi contratada pelos pedreiros José Ribeiro Facaia e José Francisco Botas, por 780$000 réis. Logo a 20 foi feito contrato com os carpinteiros Custódio Gonçalves, Domingos Gonçalves e José Gonçalves para a obra de carpintaria, por 290$000 réis.

Igreja S. Martinho do Bispo, exterior.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, exterior. Foto Nelson Correia Borges

A fachada é de simples traçado, com dois corpos laterais vincados por pilastras unindo-se ao central mais alto por arco decorativo. No corpo central rasga-se um arco de volta perfeita, formando pequeno átrio abobadado. Aqui se encontra sepultado o padre António da Cunha Rebelo, certamente o mentor da renovação da igreja, como o epitáfio de 1780 humildemente deixa entender.
O corpo da igreja é amplo, de larga nave com cobertura lígnea em caixotões retangulares, aparentado com o de S. Bartolomeu de Coimbra, da mesma época.

Igreja S. Martinho do Bispo, capela mor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, capela mor. Foto Nelson Correia Borges

A capela mor profunda segue o mesmo tipo espacial.
O topo da igreja, acima do degrau, constitui um outro espaço, outrora separado por teia, como área mais sagrada. Aqui se encontra o revestimento azulejar, os altares laterais e colaterais e a capela-mor.
O retábulo principal é da primeira metade do século XVIII, com colunas torsas de grinalda no cavado, remate de anjos segurando festões de flores e mostrando as insígnias de S. Martinho. O trono e o camarim incluem elementos anteriores e posteriores.

Igreja S. Martinho do Bispo, altar lateral.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, altar lateral. Foto Nelson Correia Borges

Os retábulos colaterais e laterais são excelentes exemplares do estilo rococó coimbrão. Os colaterais, geminados, foram executados pelo notável entalhador Domingos Moreira, autor de vários outros trabalhos de igrejas de Coimbra e da região, morador em Santa Clara, com contrato lavrado em 28 de março de 1757. Custaram 215$000 réis. Mostram colunas de capitéis compósitos, concheados sóbrios e remate elaborado de volutas sobrepostas, com querubins e cabecitas aladas.
Os laterais, de idêntica estrutura, têm remates mais movimentados, com volutas em avanço e glórias solares. Todos os retábulos se encontram marmoreados de lápis-lazúli com dourados, o que aliado à azulejaria confere ao conjunto uma interessante nota cromática.

 

Igreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor. Foto Nelson Correia Borges

Os painéis de azulejo recortados são de fabrico coimbrão, provavelmente da oficina de Salvador de Sousa Carvalho. Na capela-mor representam S. Martinho celebrando e Aparição de Cristo a S. Martinho. No espaço dos retábulos, S. Domingos, Santo António e Última Ceia e Senhora da Conceição.
Entre as esculturas destaca-se a de S. Martinho, do século XVII e, da segunda metade do século XVIII, as de Senhora dos Remédios e Senhora da Conceição. Há ainda uma bandeira processional pintada por Pascoal Parente, em 1756 com Cristo crucificado e a Senhora do Rosário. A tela que preenchia o camarim do altar-mor, já de 1877, encontra-se agora no corpo da nave da igreja.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra, n.º 4781, de 2 de abril de 2020

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por Rodrigues Costa às 11:35

Quinta-feira, 12.03.20

Coimbra: Convento de Santa Ana

O local onde foi construído o primeiro Convento de Santa Ana de Coimbra das Eremitas Descalças, situava-se na margem esquerda do rio Mondego, arredores de Coimbra.

Vista de Coimbra. Georg Braun e Franz Hoefnagel (cRuínas das “Celas da Ponte”. Vista de Coimbra. Georg Braun e Franz Hoefnagel (c. 1565). Pormenor

Conhecido por “Celas da Ponte” dá-se como data da sua fundação o ano de 1174, segundo D. Nicolau de Santa Maria, cónego regrante da Congregação de Santa Cruz de Coimbra.
Concluída a obra em 1184, teve como primeira prioresa Dona Joana Pais, que veio do Convento de S. João das Donas, como mestra de noviças D. Maria Martins, e como porteira e vigaria D. Maria Lopes.
Mudanças significativas observam-se no local da sua fundação, pois as cheias do rio Mondego, no Inverno, causavam-lhe grandes inundações e o depósito de areias que as mesmas arrastavam, tornam o local inadequado para viverem.
(…). Em 1561 recolhem-se as freiras numa quinta em São Martinho (Coimbra), que lhes doou o bispo D. João Soares, enquanto não construíam outro Convento. Embora esta quinta tivesse poucas condições, mantiveram-se nela até que o bispo conde D. Afonso de Castelo Branco lhes mandou construir um novo edifício.

Convento de Santana Antiga fachada norte do convenConvento de Santa Ana, planta da fachada norte. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 65

A 23 de Junho de 1600 o Senhor Bispo dá início ao novo edifício, lançando a primeira pedra do novo Convento.

Planta do piso térreo. Lado norte. Pormenor da igPlanta do piso térreo. Lado norte. Pormenor da igreja. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 67

Situado na “Eira das Patas”, junto à cerca de S. Bento (Jardim Botânico), o seu domínio estendia-se até ao atual Penedo da Saudade.

Convento de Sant'Ana aoo longe.jpgConvento de Santa Ana e Colégio de Tomar
Imagoteca Municipal de Coimbra. Cota: BMC_A033

Consta que a construção demorou nove anos e meio e as freiras entraram no novo Convento em Fevereiro de 1610, e começaram a usar o hábito das Eremitas de Santo Agostinho.

Capa das Constituições de Santo Agostinho.jpg

Capa das Constituições das religiosas da ordem dos eremitas de S. Agostinho. Edição de 1734. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 29

A primeira prioresa deste novo Convento foi Dona Hieronyma, freira professa do Convento de Santa Mónica de Lisboa.

Convento Santa Ana selo de chapa.JPGAUC. Livro de Cartas de Aforamentos, Compras… de que é senhoria o Convento de Santa Ana de Coimbra, pormenor de um selo de chapa

Diapositivo3.JPGTrabalho de recorte de papel encontrado dentro de um livro do Convento de Santa Ana

Mas o decreto da extinção das Ordens religiosas de 30 de Maio de 1834, e a lei de 4 de Abril de 1864, que desamortizou os bens das freiras e das igrejas, põe um ponto final neste Convento.
A última freira deste Convento, D. Maria José Carvalho, foi transferida a 6 de Junho de 1885 para o colégio das Ursulinas e sabemos que em 29 de Novembro de 1891 já havia falecido.
A 6 de Julho de 1885, o edifício do Convento passou para a posse da Fazenda Nacional. Por solicitação do Ministério da Guerra foi-lhe dada a posse do edifício do antigo Convento das freiras de Santa Ana de Coimbra, com exclusão da Igreja e da Cerca, para estabelecimento do Regimento de Infantaria nº 23, a 13 de Agosto de 1885, onde ainda hoje se encontra.

Capelo, L. C. 2006. Convento de Santa Ana de Coimbra. Inventário. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 11:50

Terça-feira, 10.03.20

Coimbra: O Senhor dos Passos da Graça

Situamo-nos em Coimbra, na rua da Sofia. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, com decreto redigido por Joaquim António de Aguiar, alcunhado de “Mata Frades”, teve o edifício colegial de Nossa Senhora da Graça, dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, diversas utilizações.

Igreja da Graça_Coimbra_IMG_9159.jpgIgreja da Graça, exterior.
In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_da_Gra%C3%A7a_(Coimbra)

A igreja foi, porém, entregue à Irmandade do Senhor dos Passos, ali existente e gozando de prestígio na cidade, graças ao culto prestado à imagem do Senhor dos Passos, “muito gabada por sua beleza”, no dizer de Simões de Castro, em 1867.

Igreja da Graça.jpgIgreja da Graça, interior.
In:https://www.facebook.com/baixadecoimbra/photos/pcb.1063879910297440/1063879780297453/?type=3&theater

Este culto, com a procissão representando os passos da Via Sacra, foi estabelecido em Coimbra pelos frades gracianos, à semelhança do que tinha acontecido em Lisboa em finais do século XVI. Três nomes andam associados à introdução deste ato litúrgico em Portugal. Fr. Manuel da Conceição presenciara a procissão no convento de Santo Agostinho em Sevilha, estabelecida havia pouco tempo, e foi portador da ideia para Portugal. Para aquela cidade andaluza se dirigiu, pouco depois, Fr. Domingos de Azevedo, para se inteirar e documentar. De lá trouxe todos os pormenores, até a medida dos Passos, tudo autenticado por notário. Mas o grande entusiasta foi o pintor de estandartes, bandeiras e diversas imagens, Luís Álvares de Andrade, mais gabado pelas virtudes granjeadoras do título de “pintor santo” que pela sua arte. Foi o fundador da Irmandade ou Confraria da Santa e Vera Cruz, sediada numa capela do convento da Graça, em Lisboa, em 1586. Esta associação, que hoje existe com o nome de Real Irmandade da Santa Cruz e Passos da Graça, em breve se transformou na preferida de todo o povo da capital, dos nobres, e dos próprios soberanos.
Rapidamente a devoção chegou a Coimbra e se espalhou por todo o país, proliferando as confrarias, algumas delas instituídas em mosteiros e conventos. Na igreja da Graça, tratava da devoção a Irmandade de S. Nicolau e das Almas, extinta em 1721, para dar lugar à Irmandade do Senhor dos Passos.

Igreja da Graça P1100566.JPG

Igreja da Graça. Altar do Senhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

O culto na igreja da Graça deve ter começado ainda no século XVI, como a mesa do altar parece indicar: esculpida em pedra de Ançã, apresenta quatro pilastras decoradas com losangos, dividindo panos ornamentados com os símbolos da Paixão e pinturas de que hoje restam vestígios.
Sobre esta mesa de altar ergueram, em finais do século XVII o retábulo de talhas douradas com camarim profundo, onde se abriga a imagem do Senhor dos Passos. Tem quatro colunas espiraladas sobre mísulas de exuberante decoração, formando intercolúnios laterais, onde se encontram as imagens de Santo Ildefonso e S. Tomás de Vila Nova. A decoração das colunas é a habitual desta época, constituída por parras, cachos de uva com gavinhas e aves debicando. As colunas centrais prolongam-se em arquivolta superior e as laterais em grandes volutas em que se sentam anjos mostrando um medalhão central com as insígnias da Paixão. São conhecidos os nomes dos entalhadores e douradores, provavelmente do Porto: Manuel de Almeida, João de Sousa e Domingos de Almeida (o documento não refere datas nem outros dados).

Igreja da Graça. Sr.dos Passos. Fotografia NelsonSenhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

A imagem atual deverá também ser contemporânea do retábulo. Apresenta apenas o rosto, as mãos e os pés esculpidos, sendo o corpo revestido por tecido. Este tipo de imagens, genericamente designadas por “de roca”, foi um traço comum da época barroca e é uma representação quase exclusiva do mundo de cultura ibérica. São raras as que ostentam as vestimentas originais, envergando muitas vezes tecidos de pouco merecimento, o que altera a sua leitura como obra de arte e devocional. São resultado de uma época, na sequência do Concílio de Trento, em que se procurava o máximo de realismo, para mostrar que os santos eram pessoas comuns e que, portanto, todos podiam ser santos. Eram fáceis de transportar em procissões, onde o realismo era acentuado pelo movimento que os tecidos adquiriam.

Procissão.JPGProcissão do Senhor dos Passos. 2019. Fotografia Nelson Correia Borges

Há que valorizar esta forma de expressão artística tão digna de ser considerada escultura, como certas correntes da escultura contemporânea.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra n: º 4777, de 5 de março de 2020.

 

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por Rodrigues Costa às 10:05

Quarta-feira, 20.11.19

Coimbra: Igreja de S. Bartolomeu

É a igreja de S. Bartolomeu talvez a de mais antiga história na cidade. Já existia em 957, pois, em 2 de novembro desse ano, foi doada ao mosteiro de Lorvão pelo presbítero Samuel, por mando do presbítero Pedro, em risco de morrer. Antes tinha sido dedicada a S. Cristóvão. A doação incluía também a igreja de S. Cucufate, com todas as suas vinhas e hortas que se encontravam em redor. O grande chefe mouro Almançor conquistou e arrasou Coimbra em 987. A igreja de S. Bartolomeu não deve ter sido poupada, pois que a vemos novamente doada a Lorvão em 1109, o que indica reconstrução. A doação de 1 de janeiro de 1109 é feita pelo presbítero Aires e nela são citados os ornamentos, móveis e imóveis.
Estas primitivas igrejas, cujos vestígios arqueológicos se encontram sob o pavimento da atual, depois de escavações levadas a cabo em 1979 e 1980, mas nunca publicadas, tinham entrada para poente e não para o lado da praça. No século XVIII a igreja ameaçava ruir, pelo que em 5 de junho de 1755 se fez a trasladação do SS. e das imagens de Cristo e Nossa Senhora para o antigo Hospital Real, donde passaram para a Misericórdia, iniciando-se de imediato a demolição do velho edifício românico. A primeira pedra da igreja atual foi lançada em 16 de julho de 1756, sendo arquiteto Manuel Alves Macomboa.

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea

A planta do novo edifício é de grande simplicidade, articulando em retângulo a nave com a capela mor. Amplas janelas inundam e unificam o interior de uma luz homogénea, bem característica da época rococó em que se fez a reedificação.

Igreja de S. Bartolomeu. torre sineira.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, torre sineira

A fachada enobrece o topo da praça, com suas duas torres sineiras coroadas de fogaréus e cúpula bolbosa. No século XIX construíram a casa da esquina com a rua dos Esteireiros, que lhe rouba parte da monumentalidade. O portal é ladeado por colunas dóricas onde assenta uma varanda de balaústres em forma de vaso chinês, diferentes dos da balaustrada que une as duas torres.

Igreja S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos lateIgreja de S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos laterais

O interior é sóbrio apenas se destacando as cantarias dos púlpitos, portas, janelas e arcos das capelas. O arco da capela-mor é em asa de cesto, sobre entablamento peraltado, assentando em pilastras mais cuidadas. O retábulo-mor domina todo o espaço, captando a atenção. Foi executado pelo notável entalhador de Coimbra João Ferreira Quaresma, contratado em 20 de dezembro de 1760, com a obrigação de consultar o arquiteto Gaspar Ferreira, para que ficasse como o de Santa Cruz. A fortíssima impressão causada pelo retábulo de Santa Cruz fez dele o pai de imensa prole que se estendeu de Coimbra a todas as Beiras, originado o estilo do rococó coimbrão. O mesmo João Ferreira Quaresma executou as cadeiras do coro e os arcazes da sacristia. O retábulo tem dois pares de colunas por banda, sobre alto embasamento. O coroamento, em frontão interrompido, de elaboradas formas, abriga glória solar ladeada de anjos com palmas. Marmoreados e dourados dão realce a todo o conjunto e emolduram a boca da tribuna, preenchida com uma tela de Pascoal Parente, representado o martírio de S. Bartolomeu.

Igreja de S. Bartolomeu. capela lateral do SagradoIgreja de S. Bartolomeu, capela lateral

Os retábulos colaterais seguem o mesmo estilo, simplificado. Duas capelas laterais apresentam retábulos recuperados da igreja antiga. O do lado nascente é ainda maneirista, dos finais do século XVI, adaptado ao espaço. Conservou, além da estrutura, duas pequenas pinturas sobre tábua. A capela fronteira tem um retábulo de colunas salomónicas de finais do século XVII, época de D. Pedro II.
A igreja tem ainda no seu espólio belas sanefas de concheados, das melhores peças da cidade, feitas por Bento José Monteiro, mas certamente com desenho de Gaspar Ferreira. Salientam-se ainda outras pinturas de Pascoal Parente com Cristo crucificado e Anunciação.

Igreja de S. Bartolomeu. lustre  e órgão.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, lustre e órgão

O templo é indissociável da praça onde se insere, outrora chamada praça de S. Bartolomeu. Nesta praça se fez durante séculos, até 1867, o mercado. Aqui se correram touros. Aqui se situou o paço dos tabeliães. Aqui funcionou a junta dos vinte e quatro dos mesteres e o paço do concelho. S. Bartolomeu é o patrono dos açougueiros e magarefes, cujos talhos estavam na praça e ruas confinantes, isto é, junto da igreja do seu santo padroeiro: principal justificação para a sua edificação neste local.

Nelson Correia Borges

Publicado em Correio de Coimbra, n.º 4761, de 7 de novembro de 2019, p. 8.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quinta-feira, 05.09.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 3

Coleção Pergaminhos da Inquisição de Coimbra

É constituída por um conjunto de Cartas de Familiar do Santo Ofício, 1676-1793.
Estas Cartas eram os exemplares originais, que findo o processo de inquirição de testemunhas, era atribuído ao titular, como prova da sua honorabilidade e limpeza de sangue. São por isso documentos particulares.
Terão sido doados ao AHMC.

Edificio da Inquisição frente pátio 1.JPG

Edifício da Inquisição em Coimbra, na atualidadeEdificio da Inquisição claustro.jpgEdifício da Inquisição em Coimbra, claustro

No Arquivo Nacional, Torre do Tombo é possível encontrar os processos de atribuição das cartas de familiar a estas pessoas.
Na inventariação recente deste conjunto realizamos essa pesquisa on line. Essa consulta fornece muitos mais elementos sobre os titulares das cartas desta coleção.

Pergaminhos da Inquisição, n.º 1.jpg

Pergaminhos da Inquisição, n.º 1, 1676. AHMC

1676, Dezembro, 22, Lisboa.
Carta de Familiar do Santo Ofício, concedida pela Inquisição, a João Baptista, do lugar de Vilela (conc. de Coimbra), casado com Catarina da Costa.
Contém anotações no verso sobre a família do titular do documento, (antepassados de José de Seabra da Silva).

Pergaminhos da Inquisição, n.º 4.jpg

Pergaminhos da Inquisição, n.º 4, 1728. AHMC

1728, Maio, 25, Lisboa.
Carta de Familiar do Santo Ofício, concedida pela Inquisição ao Doutor António de Andrade do Amaral, opositor às cadeiras de Leis, na Universidade de Coimbra, solteiro, filho de João de Lima, natural e morador na cidade de Viseu.

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf 

 

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por Rodrigues Costa às 20:19

Terça-feira, 27.08.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 2

Um Tombo de propriedades de 1759, depositado no Arquivo Municipal de Coimbra em Maio de 1759 por indicação do proprietário “para que não haja dúvida nos registos”.

Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Capa.jpg

AHMC/ Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Manuscrito, papel, 1453 folhas, encadernação de couro com fivela.

Aqui ficou desde essa altura e é o primeiro exemplar que vos apresentamos. Associam-se geralmente os tombos, registo de propriedades pertencentes a um senhorio, à documentação reportada como de origem privada e pertencente a arquivos de famílias e que, às vezes, nas heranças e sucessões, é vendida a alfarrabistas.

Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Fl .1.jpg

AHMC/ Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Fl .1

Este tombo foi elaborado em 1688, por instância de D. Manuel Coutinho, possuidor da Quinta de São Silvestre, em Coimbra.
Todavia, ao longo do tempo o tombo danificou-se e em 1759 D. Francisco Manuel Cabral de Moura e Horta de Vilhena manda reformulá-lo e deposita-o à guarda do Juiz de Fora da cidade.

Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Fl .17.jp

AHMC/ Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Fl .17

Que informação nos pode dar este conjunto documental?

O tombo descreve todas as propriedades pertencentes a este senhorio, identificando-as confrontando-as, indicando os nomes dos seus foreiros, as culturas que aí praticam, os pagamentos que recaem sobre todas as parcelas, as datas de cobrança e as obrigações para com o senhor.
São valiosos repositórios de informação para a história das localidades, das famílias, das comunidades rurais.

Nota:
Segundo as informações recolhidas tratar-se-á da propriedade que tinha como cabeça a casa apalaçada – tem sobre o portão uma pedra de armas – provavelmente do séc. XVIII, localizada perto da igreja de S. Silvestre onde, hoje, funciona um hotel.

Palacio São Silvestre-Boutique Hotel.jpg

Palácio São Silvestre – Boutique Hotel

Palacio São Silvestre-Boutique Hotel 2.jpg

Palácio São Silvestre – Boutique Hotel pormenor

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf 

 

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por Rodrigues Costa às 17:33

Quinta-feira, 04.07.19

Coimbra: Cernache, o concelho que foi a freguesia que é

A comunidade rural de Cernache … [é] desde 1836 mais uma das freguesias do concelho de Coimbra. Todavia, durante mais de quatro séculos gozou da prerrogativa de vila – sede de um concelho sem termo, que detinha a jurisdição cível e crime.

Livro onde está guardado o Foral de Cernache. AHM

Livro onde está guardado o Foral de Cernache. AHMC

Cernache foral manuelino 2 c.jpg

Livro do Foral de Cernache, fl.1 AHMC

Foral de Cernache.jpg

Foral de Cernache. AHMC

… A paisagem é marcada por largos vales de fundos aplanados, com vertentes muitas vezes em escadaria, onde facilmente se detecta a fertilidade dos solos, a abundância de água e a riqueza do espaço agrícola.
… A região envolvente de Cernache divide-se em duas partes distintas, contrastantes mas complementares. A ocidental é baixa, com largos fundos aluviais, onde as ribeiras entalham os seus leitos, sendo aqui que a acção humana mais se evidencia.
… Opondo-se a este pequeno mundo onde a água reina e o verde impera, surge-nos a serra, mais dura, agreste e seca.

Cernache Moinho das Lapas 1 a.JPG

Museu Moinho das Lapas

… Em setecentos, o elemento que dominava a paisagem era, sem dúvida, a água. As ribeiras que ainda hoje vão tomando o nome das povoações que nasceram nas suas margens (Ribeira de Cernache, Ribeira de Casconha, Ribeira de Pão Quente) e as múltiplas linhas de água que atravessam os campos até atingirem o Munda, actuaram não só como elementos definidores da paisagem agrária, ao permitirem as culturas de regadio e de estruturas transformadoras, mas também como elementos delimitadores do território dos poderes que aí eram exercidos.
… A origem e evolução medieva do regime senhorial neste “ilhéu” da periferia da cidade de Coimbra foi traçada por António de Oliveira num texto que passamos a citar dado o seu relevante conteúdo:
“Cernache pertencia a um dos muitos donatários que dividiam entre si o termo coimbrão – Fernão Vasques Pimentel - o primeiro que aparece como senhorio da vila”.
… Em 14 de Junho deste mesmo ano [1375], Coimbra toma posse da jurisdição cível de Cernache, aldeia do seu termo.
… Em 1417, pelo menos, Cernache com outros lugares, é dado a D. Pedro, duque de Coimbra, separado do termo desta cidade.
… D. Manuel I concedeu foral à vila, em 15 de Setembro de 1514.

Cernache. Monumento a Alvaro Anes a.JPG

Monumento a Álvaro Anes de Cernache

… Álvaro Anes de Cernache, antes de partir para a batalha de Aljubarrota, fundou no seu solar, nesta vila, um hospital, que dotou com bens que seus pais ali deixaram, entregando a sua administração, bem como a dos respectivos rendimentos, à cidade de Coimbra. Por mercê régia, a “administração” e o “rendimento” do hospital, que estava na vila de Cernache, pertenciam à cidade e Câmara de Coimbra, recebendo o juiz de fora, vereador mais velho e escrivão municipal uma “ordinaria” pelas visitas anuais ao mesmo hospital. … O hospital e albergaria funcionaram até que, por força do decreto de 25 de Abril de 1821, este o fez voltar à coroa.

Cernache igreja torre sineira a.JPG

Igreja Matriz de Cernache. Torre sineira

… O prior … que faz a abertura do livro de casamentos em 1738, já que aí deixa exarado:
“He hey ser costume nesta freguezia darem os noyvos de offerta quando se recebem huã guallinha e huã quarta de trigo; ou dizem que quatro bollos grandes de trigo, isto alem da offerta que lançarem elles e padrinhos quando se lhe der a beyjar o Senhor depois das bênçãos de que fiz esta lembrança”.

Já quando o pároco realizava o baptizado, que representa a entrada do neófito na comunidade cristã, regista no início do livro de baptismos:
“He estillo nesta fregesia dar de offerta de cada Baptizado huã quarta de trigo e huã guallinha e huã vella de cera branca, ou seis vintens per ella dando ao pároco, e isto alem da offerta que o padrinho quizer dar, ao qual pertence dar a vella, e a quarta de trigo e guallinha dam os pais do baptizado. E por verdade fis esta lembrança informado de pessoas antigas e por expriencia digo tenho recebido the hoje de Junho 7 de 1751”.

Figueira, A.S. A comunidade de Cernache. A governança municipal (1787-1834). Dissertação de Mestrado em História Moderna. 2009. Acedido em 2019.01.25, em https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/13483/1/Tese_mestrado_António%20Figueira.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 16:57

Terça-feira, 02.07.19

Coimbra: Retábulo da Vida da Virgem, na Sé Nova

Os retábulos dos altares da Sé Nova formam um conjunto notável e raro que demonstra a evolução da talha desde os fins do séc. XVI até ao princípio do XVIII. Já aqui nos referimos ao retábulo barroco da capela de S. Tomás de Vila Nova. Quedamo-nos agora no que representa a Vida da Virgem, na segunda capela do lado direito, a seguir à porta da entrada.

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Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem

Datará ele de cerca de 1676 e apresenta uma estética ainda claramente maneirista.
É uma bela composição arquitetónica, fazendo apelo a elementos clássicos. Divide-se em três panos verticais e três zonas em altura. Pares de colunas laterais, com entablamentos em avanços e recuos definem espaços preenchidos por relevos. São totalmente revestidas com motivos vegetalistas. O topo, em meia lua, para se adaptar à abóbada da capela, é preenchido por motivos decorativos envolvendo um medalhão oval com simples pintura alegórica, outrora um Pentecostes, de Josefa de Óbidos, que agora se encontra no museu Machado de Castro.

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor. c

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da predela

A predela do retábulo é ilustrada com três relevos baseados em gravuras do renascimento italiano. O Nascimento da Virgem é o mais pitoresco, com a parturiente numa cama de dossel, uma serva aquecendo a roupa e outras três dando banho à menina, enquanto S. Joaquim dorme recostado numa cadeira. Segue-se a Apresentação de Maria no templo e os Esponsais da Virgem com S. José, acompanhados, respetivamente de três figuras femininas e outras tantas masculinas.

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da Coroação da Virgem

Mesmo um olhar menos experimentado notará que os relevos do andar superior não têm o mesmo nível de execução dos do inferior. O tema central do andar inferior é a Coroação da Virgem, de figuras delicadas e suaves, tanto da Virgem como da Trindade, como dos inúmeros anjitos envolventes, que formam uma auréola oval por sobre a Virgem. Nos intercolúnios laterais vêem-se a Assunção e a Anunciação. A Virgem da Assunção é criatura de graça recatada e pura, panejamentos naturais, bem talhados. O estreito espaço disponível obrigou o escultor a colocar o anjo da Anunciação quase na vertical, parecendo descer com sua mensagem sobre a Virgem recetiva, resultando numa cena de gracioso encanto.
A parte superior destes relevos laterais denota, porém, já mão de outro artista menos hábil. Será o mesmo dos relevos da parte superior, de figuras mais rígidas e tipificadas. O quadro central é dominado pela Senhora da Conceição e os laterais mostram a Sagrada Família e a Visitação a Santa Isabel.
O retábulo da capela fronteira, dedicado à Senhora do Pópulo ou Santo António é, sem dúvida, do mesmo escultor dos relevos da parte inferior da Vida da Virgem. Apresenta uma linguagem já protobarroca e tem como principal valor artístico a Assunção, plena de serena graciosidade.
Quem terá sido o escultor destas figuras vagamente aparentadas com a escultura castelhana contemporânea?
Não existe prova documental para este retábulo, mas outros indícios indicam o nome de Manuel da Rocha. Manuel da Rocha era original da região do Porto e veio estabelecer-se em Coimbra, cidade onde o trabalho não faltava para dotação dos colégios universitários que então ainda se erigiam. Casou em 1647 com uma filha de Manuel Tibau, outro escultor radicado em Coimbra. Em 1654 contratou fazer o retábulo da Senhora das Neves, antecessor do que agora se encontra na Sé. Faleceu em 30 de janeiro de 1676, sendo sepultado na igreja de S. João de Santa Cruz (hoje o Café), onde repousam também outros artistas de Coimbra, designadamente João de Ruão. A morte impediu-o de terminar o retábulo da Vida da Virgem, continuado talvez por um seu colaborador, donde a diversidade de execução que ficou saliente.
A capela apresenta um revestimento lateral de mármores polícromos almofadados que deixam livre espaço superior outrora ocupado por pinturas que agora se encontram noutro lugar da Sé. A sua linguagem encontra-se, por isso incompleta, mas as figuras de Manuel da Rocha continuam a encantar com o seu ar de repouso, de ventura íntima e serena tocada de ternura que, porque não?, continuam a encaminhar-nos à devoção.

Nelson Correia Borges. Correio de Coimbra, n.º 4744, de 20.06.2019

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por Rodrigues Costa às 10:34


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