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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 12.06.18

Coimbra: Batalhões Académicos

O primeiro batalhão académico a ser formado na Universidade organiza-se em 1644... Invocava-se a defesa do País, após os acontecimentos que culminaram na Restauração da Independência e na aclamação de D. João IV, em 1640.

A lealdade da Academia à causa pátria e a sua participação no esforço de conservação da autonomia de Portugal veio posteriormente a encontrar novas oportunidades de se ver confirmada.

No final de 1807, com efeito, os exércitos napoleónicos, comandados por Junot, invadem o território português.

Batalhões académicos.jpg

 Imagem comemorativa da conquista do forte da Figueira da Foz

 A proximidade do teatro de guerra relativamente á cidade de Coimbra, leva a que a Universidade encerre as suas portas em 27 de Julho de 1808. Alguns estudantes universitários aderem prontamente à iniciativa de libertar o forte da Figueira da Foz, ocupado por militares franceses... retomam de facto o forte de S-ta Catarina, na Foz do Mondego, em 26 de Junho de 1808, sob o comando do 1.º sargento de artilharia e aluno da Universidade, Bernardo António Zagalo.

A escassez de munições necessárias à defesa da cidade de Coimbra é colmatada pelo fabrico artesanal de projeteis no Laboratório Químico da Universidade... Organiza-se então na Universidade um Corpo Militar constituído por lentes, opositores, doutores e professores e um outro de Voluntários Académicos, que adotaram como legenda, ostentada no emblema, “Vencer ou Morrer por D. João VI”.

 

Batalhões Académicos medalhas.jpg

 

Medalha comemorativa dos Voluntários Académicos de 1808

 

Como reconhecimento do nobre desempenho da sua missão, o Corpo de Voluntários Académicos foi autorizado ... 22 de Julho de 1808, a usar a insígnia representando os símbolos da Universidade aureolados pela legenda “Pro Fide, Pro Patria, Pro Rege”.

Cumpridas as missões realizadas em Leiria, Tomar e Lisboa, regressaram os bravos combatentes, vitoriosamente, a Coimbra, onde, no final de Setembro, a cidade e a Universidade os festejaram e cumularam de louvores.

Expulsas as tropas francesas do país, logo no ano seguinte, perante a eminência d segunda invasão... é ordenado novo alistamento de lentes e estudantes, pela Carta Régia de 2 de Janeiro de 1809... o encerramento da Universidade que havia reaberto as suas portas a 1 de Novembro de 1808. Em Setembro do ano seguinte, retomam-se as aulas... é concedido “perdão de ato” aos estudantes que se alistaram.

... Ao terminar o ano de 1810, a terceira invasão francesa... vem justificar nova mobilização armada de universitários que, pouco tempo volvido, após a retirada das tropas invasoras, perde razão de ser, sendo o Corpo Militar dissolvido, por Aviso de 15 de Abril de 1811.

... A revolta liberal do Porto em 16 de Maio de 1828, motivou o alistamento de um corpo de voluntários académicos cuja atuação não foi bem sucedida, acabando por provocar o abandono da Universidade e mesmo a emigração de elementos seus. Do mesmo modo a revolução liberal de 1834 veio a afastar aquele que haviam aderido à causa de D. Miguel.

Foi um momento conturbado este, em que a Universidade se viu transformada em teatro de lutas intestinas, dividindo professores e alunos. Em 1846-47, organizou-se novamente o Batalhão Académico que incluiu também alunos do Liceu.

... Numa última formação, interveio o Batalhão Académico nos episódios de confrontação armada, em 1919, aquando da tentativa de restauração do regime monárquico, conhecida por “Monarquia do Norte”.

 Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 305-307

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:32

Terça-feira, 13.03.18

Coimbra: O Santo Cristo do Arnado

O Professor Doutor Nelson Correia Borges acaba de divulgar este excelente texto sobre o Santo Cristo do Arnado. Consideramos que as informações nele contidas, dada a sua importância, merecem uma mais ampla difusão e não devem ficar confinadas ao círculo restrito dos leitores do jornal onde foi publicado.

Santo Cristo do Arnado.JPG

 Senhor Santo do Arnado. Claustro da Sé-Velha de Coimbra

 

Era um cruzeiro de caminhos, como tantos outros que assinalam a entrada das localidades. Situava-se na antiga entrada de Coimbra, para quem vinha do Norte.

A velha estrada do Porto correspondia à atual rua da Figueira da Foz. Passava à Gafaria de S. Lázaro, fundada e dotada pelo rei D. Sancho I e, antes de chegar à rua da Sofia, aberta por Fr. Brás de Braga para a construção dos colégios universitários, derivava para o lado do rio em terreno de areais que deram o nome ao sítio: Arnado. Foi nos campos do Arnado que o mesmo rei D. Sancho I, ainda infante, fez o seu alardo em 1181, isto é, reuniu os homens de Coimbra que com ele partiram para combater vitoriosamente no Alentejo um rei mouro de Sevilha. O largo ainda hoje mantém aproximadamente o mesmo espaço de outrora. Dele partia uma viela para o porto de Santa Justa, no Mondego, a que corresponde a atual rua do Arnado; uma outra azinhaga, mais a sul, conduzia ao porto dos Cordoeiros. Daqui se entrava na cidade pela rua Direita, uma das mais importantes de Coimbra, onde se estabeleceram violeiros e cordoeiros.

Bem no meio do largo, no século XVI, os frades do convento de S. Domingos, que ficava próximo, erigiram o cruzeiro, cobrindo-o com uma cúpula sobre quatro colunas. Esta solução construtiva ainda hoje se pode ver em Arazede, Assafarge, Pocariça, Ventosa do Bairro, Vila Nova de Anços e em outras povoações da região.

Em 1652, um devoto, de seu nome Gaspar Mendes ou Gaspar dos Reis, decidiu fazer-lhe algumas benfeitorias: ergueu mais o cruzeiro por causa do assoreamento, ou levantando os degraus antigos ou construindo novos degraus; fechou o espaço entre colunas por três lados, colocando no da frente uma grade. Em 12 de Julho de 1655 os padres de Santa Justa-a-Antiga fizeram uma procissão com o Santo Cristo do Arnado até à sua agora capelinha, sinal de que as obras se prolongaram até esta data, tendo sido durante elas a imagem guardada na igreja de que agora só restam vestígios no Terreiro da Erva.

A imagem rapidamente ganhou fama de prodigiosa. Constou-se mesmo que em 1 de agosto de 1722 suara sangue e água, o que gerou grande afluência de devotos. Logo se tratou de ampliar o espaço reduzido que continha o cruzeiro, transformando-o em capela de uma nave com capela-mor, circundada de sacristia e arrumos. As obras começaram em 1723 e terminaram em 1729, sendo, entretanto, benzida em 1727.

A capela do Santo Cristo do Arnado foi demolida pela Câmara nos primeiros decénios do século XX, para obras de urbanização. Há anos atrás, quando se abriram rasgos para colocar o coletor grande da cidade, pudemos ver os seus restos destroçados e recolher um azulejo de fabrico local, para recordação. As lápides com inscrição relatando a história da capela foram recolhidas ao Museu Machado de Castro e o cruzeiro antigo levado para o claustro da Sé Velha, onde se encontra.

O conjunto escultórico, talhado em pedra de Ançã, é impressionante.  A cruz eleva-se sobre uma coluna de fuste liso com capitel coríntio renascentista, tendo no ábaco a cruz de Cristo. Lateralmente colocaram o brasão de armas da Ordem de S. Domingos e na frente as armas reais com uma píxide sobre a coroa. A cruz é de secção retangular e ergue-se sobre uma base de rocha com uma caveira e tíbias cruzadas. A escultura mostra um corpo emaciado, com os sofrimentos da Paixão patentes, o rosto desfalecido e sereno. Não poderia deixar de ter produzido grande impressão e fervor religioso quando se encontrava na sua casa. Se pensarmos que no século XVIII deve ter havido alguma intervenção na imagem, fácil nos é relacioná-la com o Cristo dos Olivais, de autoria comprovada de João de Ruão. Trata-se de uma obra que seguramente teria saído das oficinas do mestre escultor francês.

Recentemente procedeu-se ao arranjo urbanístico do Largo do Arnado. Foi pena não se ter aproveitado o ensejo para ali colocar uma qualquer memória de um culto que foi marcante no passado da cidade e que marcou muitas gerações de conimbricenses. A lendária Cindazunda já tem lugar de maior honra no brasão de Coimbra.

Nelson Correia Borges

 

Correio de Coimbra, n.º 4.683, de 2018.03.08

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por Rodrigues Costa às 09:01

Quinta-feira, 01.02.18

Coimbra: Arco Romano e Torre de Belcouce

Há uma bela vista de Coimbra, desenhada pelo artista florentino Pieri Maria Baldi, que visitou Portugal vindo na comitiva do príncipe Cosme, herdeiro do soberano Gran-Duque da Toscana... demorando-se em Coimbra três dias, no mês de Fevereiro de 1669. Foi nestes dias que fez o desenho. 

Pier Maria Baldi 1669 02.jpg

 Gravura de Baldi

 Nele se sê a verdadeira feição do afamado arco romano de Belcouce, que é, pura e simplesmente, a porta principal do «oppidum» Emínio; as casas que lhe ficam por trás e ao lado, ocupando precisamente o local do velho palácio (que em 1537 pertencia ao Reitor Garcia de Almeida que mandou dar as lições das Faculdades jurídicas e médica em salas do seu próprio palácio, onde residia, sito à Estrela, próximo da torre e do arco romano «de Belcouce»), são casas vulgares apenas.

[Aquando da construção do Colégio de S. António da Estrela], das antigas edificações, que aqui havia, foi poupado o arco romano, que permaneceu a Sul do novo edifício, e a parte inferior, que restava, da célebre torre quinária de Belcouce, ficando mais de metade do seu corpo embebida na alvenaria da fachada ocidental, de modo que se conservou à vista, a salientar-se, o ângulo ocidental; aproveitou-se habilmente para mirante o terraço triangular que sobre ela ficou descoberto. Também pouparam a interessante inscrição comemorativa da construção da torre, que se edificou por ordem de D. Sancho I. Para datar esta construção, esculpiram-se na lápide comemorativa três elementos cronológicos, que não se adaptam bem entre si, embora a discrepância não seja grande: o início do reinado de D. Sancho I, a tomada de Coimbra aos mouros por Fernando Magno de Leão, e a era hispânica de 1249. Oscilam entre os anos de 1209 e 1211. Parece que aquela primeira data se reporta ao começo da obra, e esta ao assentamento da inscrição, quando se havia concluído a torre, na era de 1249 a.D. 1211. Muito se discreteou sobre a concordância destes três dados cronológicos.

Arco romano trabalho de Isabel Anjinho.jpg

 Arco romano, apresentação de Isabel Anjinho

 ... A 10 de Junho de 1778, mandou a Câmara demolir o arco romano da Estrela! Assim desapareceu estupidamente o monumento histórico mais precioso e interessante no seu género que Coimbra possuía; mas, em compensação, exultou a vereação por ter aumentado com esta desastrada medida a receita municipal deste ano, entrando em cofre a quantia de 30$000 reis, que pagou Miguel Carlos pela compra da pedra da demolição!

Hoefnagel arco romano.JPGPormenor da gravura de Hoefnagel, apresentação de Isabel Anjinho

 É possível marcar-se aproximadamente o local onde se erguia o arco, tendo em consideração que esse local foi depois da demolição aproveitado pelos frades para ali construírem uma casa suplementar ao Colégio, na extremidade sul deste, a qual se vê em estampas que ilustram este capítulo. Ainda existe, no jardim... um marco de referência precioso: um cubelo de suporte da muralha, que se encontra à mão esquerda, quando da Couraça se transpõe a porta de entrada do jardim. Este cubelo se vê nas respetivas estampas, marcando o vértice do ângulo S-O da dita casa.

Colégio de S. António da Estrela.jpg

 Colégio de S. António da Estrela

 As fachadas ocidental e meridional estende-se nesta estampa quase lado-a-lado, no 1.º plano, desde a parte posterior da igreja, à nossa esquerda (onde se salienta a pequena capela-mor, e ao lado a pequeníssima sacristia com as suas 2 janelas), até ao topo S, quase completamente escondido detrás duma casa com três filas de 5 janelas em cada um dos seus 2 andares, e por baixo destas mais outra fila de janelas simuladas. Esta casa foi construída, no último quartel do século XVIII, a ocupar o local onde se erguia o afamado arco romano ou de Belcouce; ficou quase encostada ao topo meridional do Colégio, construindo- entre um e outro edifício a porta larga e a passagem de entrada para o grande pátio do Colégio, e para esta nova casa. Um cubelo, que se vê no ângulo deste pequeno prédio, ainda hoje existe, e serve de marco para fixarmos o lugar da casa, e consequentemente do arco de Belcouce.

O Colégio era composto de 2 corpos contíguos, um com a orientação S-N, o outro E-O, formando assim um ângulo reto. No topo ocidental deste último corpo, divisa-se a parte restante da torre de Belcouce.

Esta fotografia foi tirada do areal do rio, a montante da ponte, alguns anos depois do incêndio que devorou o edifício em a noite de domingo, 27 de janeiro de 1895, deixando ficar somente as paredes.

 Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 274-276, 404 do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 10:07

Quinta-feira, 11.01.18

Coimbra: Quinta das Lágrimas

Depois de um muro antigo, entra-se, por um portão do século XIX, na Quinta das Lágrimas, avança-se uma estrada sobrelevada que domina, de cada lado, os campos verdes que outrora foram de milho e hoje são relvados de golfe. 

Quinta das Lágrimas.jpgQuinta das Lágrimas, arco neogótico junto da Fonte dos Amores

 Ao entrar neste lugar, do portão até ao sopé da encosta, donde saem, silenciosas, as águas da Fonte dos Amores, sente-se uma indefinível paz ligada ao desaparecimento do tempo; como num sonho, vamos pisando os lugares onde estiveram personagens, cuja história tantas vezes ouvimos e lemos. Inês e Pedro são os mais imediatos, mas, antes deles, também a rainha Santa Isabel ali terá estado. Terá sido com D. Dinis? Luís de Camões deu o nome à fonte e da nascente imaginou as Lágrimas em «Os Lusíadas», seguramente junto a ela se sentou a ver passar a água limpa sobre os musgos vermelhos que a lenda dizia ser do sangue de Inês.

A quinta era formada por uma encosta abrupta, que ladeava 20 hectares de terra fértil enriquecida pelas cheias do Mondego. A geologia calcária da encosta garantiu-lhe uma situação única: a abundância de nascentes no sopé da encosta que brotam em três pontos diferentes: duas nascentes concorrem para a Fonte dos Amores e uma sai da rocha nua formando a Fonte das Lágrimas.

... Com tantos atributos não é de admirar que o lugar fosse usado desde muito cedo... são os monges, neste caso os do Mosteiro de Santa Cruz,  os conhecedores das melhores qualidades  da paisagem, que a exploram e transformam na Quinta do Pombal. A mesma a que a Rainha Santa faz referência quando, por escritura datada de Junho de 1326, obtém para o Convento de Santa Clara o direito de condução da água das duas nascentes que brotavam na «costeira acima do pombal». 

Quinta das Lágrimas cano.jpg

  Quinta das Lágrimas, cano dos amores

 Inicia-se, então, uma obra régia que conduz as águas através de um cano, que é, de facto, um aqueduto com cerca de 500 metros de longo, e ao qual se dará o nome, em documentos do século XIV, de “Cano dos Amores.

... Para além da Fonte dos Amores, é feita referência, na escritura de 1326, a «outras fontes que son mais chegadas contra o meio dia e chegadas à dita costa, as quaes ficão ao dito Mosteiro de Sta. Cruz».

... De uma outra intervenção há notícia na quinta das Lágrimas... a 27 de Maio de 1690... as freiras de Santa Clara ´, dando-lhe estas licenças para vedar inteiramente a sua Quinta do Pombal, mas ressalvando e acautelando o direito de propriedade, que as ditas freiras tinham sobre «hum cano de agua que vinha para a sua serqua».

... por volta de 1600... se refere a construção dos muros, reservatórios e canais formando um sistema hidráulico notável que servia um grande lagar de azeite e todo o sistema de rega por gravidade. Muitos melhoramentos foram feitos e toda a quinta foi cercada por muros e uma casa nobre foi construída com capela, lagar de pedra para o azeite».

... No século XIX, o romantismo latente em toda a quinta tomou forma nos lagos, nas lápides, nas ruínas neogóticas que se construíram para celebrar, do período medieval, o sublime encanto de todo o drama de Pedro e Inês.

 Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 182-184

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por Rodrigues Costa às 10:50

Terça-feira, 02.01.18

Coimbra: Retábulo-mor da igreja da Graça

Colégio de Nossa Senhora da Graça, de Eremitas Calçados de Santo Agostinho, mais conhecidos por gracianos. Fundado e dotado por D. João III, em 1543, já a igreja se encontrava pronta de arquitetura em 1555. Os frades gracianos foram os introdutores em Portugal do culto e das procissões dos Senhor dos Passos. Também em Coimbra se realizou esta procissão durante séculos, percorrendo as ruas da Baixa. Dela resta o passo da Verónica junto à igreja de S. Bartolomeu. Após a extinção das ordens religiosas foi a igreja entregue à Irmandade do Senhor dos Passos e a parte colegial ao Exército.

Na fachada da igreja sobressai o portal de linhas clássicas, encimado por um nicho com a escultura de Nossa Senhora do Pópulo, feita por Diogo Jacques, em 1543. O espaço interior ordena-se numa única nave abobadada e capelas nos flancos que comunicam entre si. Nestas se encontram interessantes retábulos da época rococó, mas é o retábulo-mor que imediatamente se impõe, preenchendo por completo a cabeceira da igreja. 

Nelson C Borges Ig. Graça.JPGIgreja da Graça, retábulo-mor

 Assenta num soco de cantaria, onde se podem ver alguns símbolos marianos, acompanhados de inscrições. Apresenta uma estrutura predominantemente arquitetónica com colunas emparelhadas que se sucedem em três andares, numa conceção ainda inteiramente maneirista. Porém a escultura começa a adquirir aqui o protagonismo que irá ter mais tarde na época barroca, no terço inferior das colunas, no remate retabular e na predela, onde figuram religiosos e religiosas da ordem. 

N.S.Graça.JPG

 Imagem de Nossa Senhora da Graça

Também no primeiro andar se abrigam em nichos esculturas de Nossa Senhora da Graça e de Santo Agostinho vestido de eremita, de boa proporção e execução. No centro deste primeiro corpo do retábulo vê-se ainda uma tela do século XIX, representando o encontro de Cristo com a Virgem no caminho do calvário. Oculta ou ocultou o trono eucarístico, ainda sem a monumentalidade que viria a adquirir em tempos posteriores. Toda esta alentada obra de talha e marcenaria deve datar dos anos imediatamente anteriores a 1644. O seu executor deverá ter sido o marceneiro francês Samuel Tibau.

            O segundo e terceiro corpo do retábulo servem de moldura a seis telas com a data de 1644, executas por Baltazar Gomes Figueira, constituindo o núcleo mais importante da sua obra conhecida e podem ser consideradas uma obra-prima. Baltazar Gomes Figueira fez a sua aprendizagem essencial em Sevilha, onde absorveu a linguagem naturalista que se observa nestas suas telas. Ao tempo deveriam ter sido novidade e motivo de admiração numa cidade ainda presa ao formalismo maneirista. Transmitiu também o gosto pela pintura a sua filha Josefa de Óbidos que, em fama, acabaria por ultrapassar o pai.

            No segundo corpo do retábulo podemos admirar a “Imaculada Conceição”, o tema central da “Anunciação” e o “Nascimento da Virgem”; no terceiro, a “Visitação”, a “Coroação” e o “Repouso na fuga para o Egipto”. São cenas encantadoras, de desenho seguro e tonalidades diversificadas, infelizmente escurecidas pelo tempo. Os gracianos quiseram aqui prestar culto e homenagem à sua padroeira e conseguiram-no de uma forma superior.

O retábulo da Graça é o mais mariano e um dos mais monumentais de Coimbra e deve continuar a suscitar admiração e veneração.

Borges, N.C. 2017. O retábulo-mor da igreja da Graça, em Coimbra. In Correio de Coimbra, n.º 4672, 14.12.2017.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quinta-feira, 14.12.17

Coimbra: Claustro de Celas

É tão surpreendente a igreja de planta redonda do mosteiro cisterciense de Celas que quase ofusca a beleza do claustro e a originalidade da sua fonte central, cavada e escondida.

Celas claustro.jpg

 Convento de Celas, claustro

Mas neste quadrado ao ar livre, pouco estudado e ainda menos visitado, surge-nos, na fonte, o fascínio renascentista pela geometrização dos espaços. A disposição em planta do claustro, que se liga à igreja redonda, é o resultado criativo deste esforço de arrumação dos elementos construídos, deixados pela Idade Média neste ermo distanciado de Coimbra, conhecido por Vimarães.

Uma vez dentro do próprio claustro votamos a ter novo atrativo que desvia a atenção da fonte central: são os extraordinários capitéis, minuciosamente esculpidos e pintados com as cenas da vida de Cristo, cuja datação dos séculos XIII a XIV é insegura, mas que vieram do Paço Real da Coimbra, oferecidos por volta de 1533, por D. João III.

Celas Claustro fonte.jpg

 

Convento de Celas, fonte do claustro

 ... A originalidade da fonte reside no facto de ela estar afundada e mal se ver, apesar de respeitar a quadripartição por eixos e se encontrar no centro exato do claustro. De facto, a fonte redonda está abaixo  do plano do claustro e a ela se acede por escadas que descem cerca de 1,5 metros «Ao centro do jardim cava-se um tanque circular para onde se desce por quatro escadas de sete degraus dispostas segundo os eixos do claustro. Uma inscrição esclarece: ESTE . CHAFERIS . MANDOU / REIDIFECAR . A ILMª . SNRª . D / THEREZA . LUIZA . RANGEL . / SENDO . SGDª . VES . ABBADESA / DESTE MOSTRº . NO ANNO / DE 1761».

O espaço criado forma um cilindro e isola-se visualmente de quem está no claustro, oferece bancos redondos de pedra em circunferência assim criada, que escondem ainda mais quem neles se senta. A taça de água redonda com cerca de 40 centímetros de altura é cilíndrica e, do seu centro, a que corresponde também o centro geométrico do claustro, sai um repuxo. O conjunto não tem um único ornamento. Esta invenção pode ser uma simples resposta ao nível da água que se encontra, de facto, a 1,5 metro abaixo da cota do claustro com uma mina visível numa das paredes em arco deste cilindro vazio.  

Esta simplicidade revelou-se esteticamente genial: o desenho afundado, num claustro tão pequeno, aduziu-lhe a terceira dimensão, mas em negativo; conseguiu dar o efeito de espaço redobrado e, sem qualquer ornamento, consegue animar as paredes e as formas com efeitos de sombra projetadas nos degraus e nas paredes concavas. Interrogamo-nos, então, se este jogo de geometria a três dimensões e a total ausência de ornamento chegarão para confirmar o traço de um bom artista do Renascimento?

... Resta-nos assim apresentar – reconhece-se que um pouco a medo – a hipótese de poder ter sido João de Ruão o imaginário da fonte do claustro de Celas. 

Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 175- 177

 

 

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por Rodrigues Costa às 08:55

Quarta-feira, 08.11.17

Coimbra: Colégio dos Militares

Era destinado aos «Freires das duas Ordens militares – de S. Tiago da Espada, com sede em Palmela e de S. Bento de Avis».

Para assento do edifício colegial escolheu-se um terreno que havia a Sul do Castelo, vindo por isso a denominar-se rua dos Militares a rua que, em continuação da Couraça de Lisboa, sobe do Arco da Traição e corre em frente da fachada ocidental deste Colégio, e beco dos Militares a viela que, partindo desta rua, ladeia por sul o mesmo edifício. Anteriormente aquela «rua» chamava-se de Alvaiázere.

O Colégio ficou com uma pequena cerca fora da barbacã, sobre a qual abriam as portas e janelas da fachada oriental. Um caminho estreito, que vinha do arco da Traição, separava a cerca dos Militares, da do Colégio de S. Bento. Tudo isto pode ainda hoje (em 1938) verificar-se.

Colégio dos Militares planta finais séc. XVIII.j

 Colégio dos Militares planta finais do séc. XVIII

 

Benzeu-se e assentou-se a primeira pedra no dia 25 de julho de 1615

... Este Colégio, ficava de modo particular sob a proteção real. Para que os freires conventuais de qualquer das duas Ordens pudessem ser admitidos ao Colégio, era necessário que já contassem, pelo menos, dois anos completos de religião, não tivessem mais de vinte e cinco, de idade, e não fossem de baixa estirpe. A lotação era de doze colegiais, sendo seis de cada Ordem.

Hospital dos Lázaros. Aqueduto 02.TIF

 Colégio dos Militares

 

... Extinto o Colégio em 1834, foi... mandado entregar à Universidade... 27 de Outubro de 1853, os lázaros, que havia dois anos estavam hospitalizados no edifício do Colégio de S. Jerónimo, passaram para o dos Militares.

Hospital dos Lázaros antigo.TIF

 Aqui se conservam até à atualidade (em1938)... integrando nas vastas instalações dos Hospitais da Universidade, deixando de ser hospital dos Lázaros.

Nota: O edifício foi, posteriormente, totalmente demolido para dar lugar à Praça de D. Dinis e ao Departamento de Matemática.

 

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 267, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 22:15

Quinta-feira, 02.11.17

Coimbra: Colégio de S. José dos Marianos, ou dos Carmelitas Descalços

Chegou o dia em que os «Carmelitas Descalços» também tiveram em Coimbra o seu Colégio universitário, conhecido pela denominação de S. José dos Marianos.

Instalou-se provisoriamente, no dia 18 de julho de 1603... junto da porta de Belcouce.

... Trataram porém logo de projetar e construir um edifício próprio a sul do Colégio de S. Bento, no monte fronteiro, ficando a sua cerca contígua à deste Colégio. A primeira pedra do novo edifício foi benzida e colocada... a 11 de Outubro de 1606.

Colégio de S. José dos Marianos igreja.jpg

Colégio de S. José dos Marianos, fachada da igreja

 Apesar de pertencer a uma Ordem humilde e pobre, a casa ficou ampla e alegre; a sua situação é simplesmente admirável. Perpendicular à fachada do Ocidente, na extremidade setentrional, há uma grande varanda, resguardada de Norte e exposta a Sul, cuja vista sobre o Mondego e ínsuas marginais, é formosíssima. A igreja, como todo o edifício, era modesta, desprovida de primores arquitetónicos, entretanto alegre e devota.

Colégio de S. José dos Marianos adaptado a hospi

 Colégio de S. José dos Marianos, fachada ocidental

 Em 1834, a onda vandálica e rapinante invadiu também este edifício, e nele causou bastantes estragos.

Depois instalou-se nele o hospital dos Lázaros, e o decreto de 21 de novembro de 1848 ... confirmou esta aplicação.

Em breve porém é-lhe dado outro destino.

Havia sido fundado no meado do séc. XVIII, na vila de Pereira, não longe de Coimbra, um Colégio para educação de meninas... com a denominação oficial de Real Colégio das Chagas... o decreto de 21 de Junho de 1851, concedendo... o edifício de S. José dos Marianos, para nele se instalar aquele Colégio... e o Real Colégio Ursulino das Chagas havia-se instalado muito bem naquele edifício, onde se manteve com grande prestígio e progressivos aperfeiçoamentos até outubro de 1910.

Hoje está neste edifício o hospital militar.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 264-267, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 08:49

Quinta-feira, 26.10.17

Coimbra: Colégio de S. António da Pedreira

Era muito simpático este Colégio na sua humildade e pobreza franciscanas, exteriorizadas na singeleza das suas linhas arquitetónicas.

Pertencia aos «Religiosos da Província de Santo António de Portugal, dos Franciscanos reformados ou Capuchos». Em calão académico eram denominados os «Pedreiras», por haver sido construído o seu edifício no local chamado «a pedreira», ao cimo da rua que veio a chamar-se dos Grilos.

Ficava muito próximo da Universidade. Os seus colegiais, saindo a portaria do Colégio e atravessando a rua dos Grilos, estavam nas escadas de Minerva, portanto dentro dos domínios da Universidade.

Foi este Colégio fundado em 1602... Era geralmente reconhecido e apreciado o espirito de pobreza e bondade desses simpáticos religiosos, aliado à alegria e paz que sempre os acompanhava.

Colégio de S. António da Pedreira portal.jpgColégio de S.to António da Pedreira, portal e fachada lateral

O próprio edifício, com a sua portaria modestíssima e devota, com o seu claustrim minúsculo, com a sua capelinha pobre, mas acolhedora e asseada; com as suas celas pequeninas e humildes, era alegre, amplamente banhado do sol, e segregado do convívio ruidoso e importuno da cidade, e tendo ante si, para o Sul, o panorama belo, esplêndido, incomparável, do rio Mondego, com as suas sinuosidades encantadoras, ostentando as quintas e ínsuas feracíssimas, onde se engastavam belas hortas e laranjais, e para lá de tudo isto, os montes formosos, povoados de olivais, vinhas e arvoredos, e mais ao longe, a fecharem a linha do horizonte, as serranias irregulares, cor de safira, dando ao panorama um aspeto cenográfico de maravilha.

Colégio de S. António da Pedreira claustro.jpgColégio de S.to António da Pedreira, claustrim

Suprimido, como todos os outros Colégios universitários, em 1834, foi abandonado dos seus habitantes. Seguiu-se a indispensável pilhagem; mas, diga-se a verdade, nesta casa pouco havia para rapinar.

... o edifício havia sido ocupado, um pouco sub-repticiamente, é certo, mas com conhecimento das autoridades coimbrãs, pelo «Asilo da Infância Desvalida», associação de iniciativa particular, que a 9 de julho de 1835 se constituíra ... Somente por carta de lei de 25 de julho de 1852 é que foi legalizada a concessão do edifício à associação do Asilo da Infância.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 262-264, do Vol. I

 

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por Rodrigues Costa às 12:28

Terça-feira, 24.10.17

Coimbra: Colégio de S. Agostinho 3

O estuque como arte decorativa tem vindo a ser utilizado ao longo dos séculos nas ornamentações de palácios e igrejas de todo o Portugal, não só como simples base de pintura mas também como elemento principal, adaptando-se à diversidade das linguagens e de critérios decorativos que coexistem nos vários polos artísticos.

... Ao nível decorativo destacam-se (no Colégio da Sapiência) os revestimentos azulejares seiscentistas e setecentistas e as decorações seiscentistas em estuque relevado.

Colégio de S. Agostinho claustro ornamentação 2

Colégio de S. Agostinho claustro ornamentação

 A zona do claustro, como espaço orientador da construção, terá sido a primeira parte a ficar construída (1596 é a data inscrita numa cartela do claustro); no entanto a decoração em estuque relevado das abóbadas da galeria terá sido executada mais tarde, por volta de 1630, aquando da ornamentação da igreja.

A decoração em estuque realça o jogo de cheios/vazios da galeria, reforçando o ritmo da arquitetura, marcado pelos arcos da cantaria e pela alternância de dois tipos de abóbada.

... O jogo cromático utlizado – vermelho, ocre e pedra – reforça também o esquema decorativo.

Colégio de S. Agostinho igreja estuques 1.jpgColégio de S. Agostinho igreja estuques 1

Em relação à igreja encontramos uma decoração muito complexa. Embora os primeiros professores e clérigos tenham entrado em 1604, só por volta de 1630 é que foram terminados os dormitórios altos, que se encontravam por cima da igreja, e foi efetuada a decoração desta (a igreja foi sagrada em 5 de Maio de 1637).

Colégio de S. Agostinho igreja estuques 2.jpgColégio de S. Agostinho igreja estuques 2

 ... A decoração da abóbada é composta por ornatos de grandes dimensões, muito salientes em relação à linha média da abóbada, cruzando-se em dois níveis diferenciados. No nível principal, que marca os eixos da capela, salienta-se o relevo de Santos Agostinho e, em seu redor, simbologia agostinha; num segundo nível de ornatos, florões e pontas de diamante.

... Face à qualidade de execução dos ornatos deste teto, principalmente das cartelas e dos baixos-relevos, quem aqui trabalhou foi alguém já com experiência neste género de trabalho, conhecimentos sólidos de tratadística e grande domínio da arte escultórica.

Silva, H. Estuques maneiristas do Colégio de Santo Agostinho ou da Sapiência. Apontamentos para o seu estudo. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 76-85
 

 

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por Rodrigues Costa às 20:46


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