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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 23.05.19

Coimbra: Mitra Episcopal de Coimbra 2

Originalmente não estava diferenciado o património do bispo e do cabido da Sé de Coimbra. Se inicialmente não existia uma distinção clara entre o que estava na posse da Mitra e o que era administrado pelo cabido, com o tempo esta destrinça formaliza-se, dando, inclusive, origem a conflitos entre ambas as partes, mas concretizando-se finalmente em 1210 numa divisão de rendas do bispado em 2/3 para a Mitra e 1/3 para o Cabido … Da parte atribuída à Mitra, retirava o bispo uma parte para sua sustentação e a outra era destinada a obras necessárias na Sé e para esmolas.
… A administração e a defesa jurisdicional do património episcopal eram feitas por um conjunto de funcionários que diretamente apoiavam o prelado diocesano, como o seu mordomo, procurador, prebendeiro, ecónomo, tabelião privativo, escrivão da receita e despesa e recebedores de rendas e era apoiado pelo escrivão da Câmara Eclesiástica.
A Mitra pagava vencimentos a ministros e oficiais do Juízo Eclesiástico (provisor, vigário geral, promotor, escrivão das armas, solicitador, porteiro, homens da vara, aljubeiro) e do Tribunal da Inquisição, e também a procuradores e agentes da Mitra em Coimbra, Porto e Lisboa, para resolverem questões administrativas e judiciais. Na Sé de Coimbra, pagava ao guarda da Sé, sineiro e guarda-livros e a todos os membros da capela de música (mestre da capela, subchantre, organista, mestre de oboé, charameleiros, etc.).
O bispo D. João de Melo fundou em 1690 um recolhimento para mulheres convertidas que veio a designar-se posteriormente «Recolhimento do Paço do Conde», quando em 1696 ficou instalado no antigo paço do conde de Cantanhede.

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D. João de Melo

Paço do Conde. Recolhimento.jpg

Recolhimento do Paço do Conde

… O bispo D. Miguel da Anunciação fundou o Seminário de Jesus, Maria, José, que teve estatutos confirmados por breve do papa Bento XIV de 18 de Dezembro de 1748.

D. Miguel da Anunciação. Pascoal Parente.jpg

D. Miguel da Anunciação

Esteve inicialmente localizado, em 1741, em casas da freguesia de S. João de Almedina e depois em casas na freguesia de S. Martinho do Bispo, ficando definitivamente instalado em edifício próprio construído entre 1748 e 1765.

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Seminário de Coimbra

O bispo de Coimbra tinha a sua residência no paço episcopal também designado Paço do Bispo, local onde estava instalado o cartório da Mitra. O edifício teve origem em casas compradas na freguesia de S. João de Almedina em 1164, por D. Miguel Salomão, e sofreu diversas alterações nos episcopados de D. Jorge de Almeida e de D. Afonso Castelo Branco, estando nele localizado, desde 1912, o Museu de Machado de Castro. … Possuiu também paço episcopal em Coja e em Arganil, e a quinta de recreio de S. Martinho do Bispo que também foi designada quinta da Mitra.
… Os bens da Mitra eram compostos de rendas dominiais (recolhidas em foros, pensões, rações e laudémios) e rendimentos eclesiásticos (dízimas e primícias). A administração destes bens não deixou de atravessar alguns períodos conturbados, em sede vacante, em que o bispado era administrado por um vigário capitular, sobretudo nos períodos das duas grandes vacaturas, entre 1646-1670 e 1717-1739.

Bandeira, A.M.L., Silva, A.M.D., Mendes, M.L.G. 2007. Mitra Episcopal de Coimbra: descrição arquivística e inventário do fundo documental. Acedido em 2019.04.29, em https://www.uc.pt/auc/fundos/ficheiros/DIO_MitraEpiscopalCoimbra  

 

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por Rodrigues Costa às 10:08

Quinta-feira, 16.05.19

Coimbra: Hospital Real 2

Quem, hoje, passar em Coimbra, pela Praça do Comércio, não vislumbra nada que denote o edifício do hospital.
Poucos saberão que o espaço que acolhe uma típica loja de comércio oriental revela, ainda, no seu interior, arcadas e colunas manuelinas.

Hospital real de Coimbra 02.jpg

Hospital Real de Coimbra, pormenor da abóbada da entrada na capela

Mas, pouco adiante, podem ver-se pedras que falam…

Reprodução fotográfica das iniciais HRC,.JPG

Reprodução fotográfica das iniciais HRC, a seguir às quais foi colocada, posteriormente, a identificação do sequente proprietário - V.DE – a Universidade de Coimbra, herdeira dos bens do Hospital, após a sua extinção, em 1772. (Foto gentilmente cedida pelo Prof. Doutor Henrique Carmona da Mota).

Sobre o umbral da porta de uma casa, na rua Direita da baixa coimbrã, que na verga tem o número 73, está [estava] o registo epigráfico com a sigla HRC, formada pelas iniciais do nome da instituição, com as quais se identificava a posse de seus bens, sendo usadas também nos marcos de demarcação de propriedades rústicas.

Sinete do Hospital Real de Coimbra.JPG

O sinete da instituição apresentava também as armas reais. Atente-se na marca do sinete
que se encontra aposto na capa do livro de entrada e saída de doentes
(1711-1713) (PT/AUC/HOSP/HRC/17/003).

O Hospital era administrado de acordo com o seu Regimento, sendo gerido por um provedor e um almoxarife, fazendo, ainda, parte do seu número de funcionários o recebedor dos enfermos, o hospitaleiro, o escrivão, o porteiro, o capelão, o solicitador, etc.
Dentro das suas instalações os espaços dividiam-se por duas enfermarias (de homens e de mulheres), capela, casa do despacho, hospedaria, refeitório, despensa, adega e cozinha, tendo recebido, inicialmente, apenas 17 doentes.
A botica hospitalar não existiu, logo, desde o início da sua fundação, sendo feito contrato com boticários da cidade para fornecimento do que fosse necessário. No entanto, pelo Alvará de 24 de junho de 1548, pelo qual se ordena ao físico que dê, da botica, todas as mezinhas necessárias para a cura dos colegiais da Ordem de São Jerónimo, fica-se a saber que ela existe a partir dessa data, pelo menos.
Havia, ainda, casas de hospedaria, para receber “pessoas de bem” que estivessem de passagem, assim religiosos, como “mulheres honradas” e alguns estrangeiros que de caminho passavam pela cidade.
Um outro espaço existente era o designado “hospital dos andantes” ou “casa dos pedintes andantes” destinado a acolher os peregrinos passantes pela cidade ou pessoas indigentes que não tinham onde se albergar.
Os pedintes andantes poderiam ali ficar um dia e uma noite, existindo para seu conforto, de acordo com inventários de 1523 e 1659, mantas velhas “com que se cobriam os andantes”, um candeeiro e candeias de azeite, uma caldeirinha de barro para água. As instruções dadas em Almeirim, em 4 de maio de 1508, referem já a existência da “casa dos andantes”, com leitos para os andantes pobres, tendo cada leito o seu enxergão de palha, um almadraque de lã, um cabeçal de lã, cabeceira e dois cobertores de burel. Também o mobiliário das enfermarias era muito simples e, de acordo com o Regimento, de 22 de outubro de 1508, cada cama tinha: um enxergão, um almadraque, um colchão, um par de lençóis, um cabeçal e uma manta ou um cobertor.
Informação adicional.

Nota
Deslocamo-nos ao local e fotografamos o espaço. Assinalando que alguns dos capiteis foram mutilados, deixo à consideração dos leitores as imagens que então recolhi.

IMG_8383.JPGHospital Real. Vista exterior na atualidade

IMG_8376.JPGHospital Real. Loja chinesa 1

IMG_8379.JPGHospital Real. Loja chinesa 2

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Hospital Real. Loja fechada

Bandeira, A.M.L. O Hospital Real de Coimbra: acervo documental de uma instituição assistencial (1504-1772). In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Volume XXVIII. 2015. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra. Acedido em 2019.01.29 em
https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/37775/1/O%20Hospital%20Real%20de%20Coimbra.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:39

Terça-feira, 14.05.19

Coimbra: Hospital Real 1

«… E vendo quão necessária coisa era, em a dita cidade, haver um bom hospital, segundo o requer a nobreza dela e a grande passagem que por ela fazem as gentes de todas as partes e, muito principalmente, nos tempos do Jubileu de Santiago e como os pobres e miseráveis não acham na dita cidade, nos hospitais que nela havia tal recolhimento…».
Através destas palavras, ficamos a conhecer a origem do Hospital Real de Coimbra, instituição assistencial hoje quase ignorada na cidade, mas que foi o porto de abrigo de tantos peregrinos, pobres e doentes. A sua fundação surge integrada num processo de revitalização da assistência médica, levada a cabo por D. Manuel.

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D. Manuel I

Atendendo à dispersão de pequenas unidades hospitalares que funcionavam, mais como asilos para pobres, do que para assistência aos doentes, o rei entendeu por bem fazer a sua reunião e anexação em um só hospital.
Foi, isso mesmo, que se passou também em Lisboa, com a extinção de dezenas de albergarias e a sua anexação ao Hospital de Todos os Santos que recebeu Regimento em 1504, apesar de as medidas de unificação já terem sido encetadas por D. João II. Em Coimbra, foi também em 1504 que se iniciou a construção do novo Hospital, tendo-lhe sido anexados, em 1508, os antigos hospitais e albergarias da cidade. Por sua vez, em Évora, a reunificação de doze pequenos hospitais ocorreu em 1515.

Hospital Real de Coimbra. Foto mais antiga.JPG

Hospital Real de Coimbra

O ritmo de vida da instituição era marcado pelo som da sua campa, que era tangida para dar início à visitação dos professores da Faculdade de Medicina (das cadeiras de Prima, Tertia e Avicena) e seus alunos, logo pelas seis horas e meia da manhã (no verão) e pelas sete horas e meia (no inverno).
Enquanto a Universidade não teve o seu próprio hospital, o que só viria a acontecer depois da Reforma Pombalina, em 1772, a prática médica era exercida no hospital da cidade.
A visita diária aos doentes, nas enfermarias, demorava três quartos de hora, sendo obrigatória para todos os alunos da Faculdade de Medicina. Tinha lugar na presença do administrador do hospital e de seus enfermeiros, decorrendo desta visita a observação dos doentes, aos quais os médicos prescreviam as receitas necessárias, que eram escritas pelos enfermeiros, em tábuas engessadas de branco.
Depois desta primeira visita, seguia-se uma outra, numa sala à parte das enfermarias, para receber todos os enfermos da cidade que ali acudissem, em busca de lenitivo para os seus males. Se se verificasse que havia necessidade de internamento de algum destes doentes pobres, o professor determinaria esse internamento, mas se houvesse oposição do médico da instituição “o lente se conformará sempre com o regimento do próprio hospital”.

Desenho inserido no Regimento manuelino.JPG

Desenho inserido no Regimento manuelino do Hospital Real de Coimbra (1508),
apresentando as armas reais, testemunhando a fundação régia da instituição. (PT/AUC/HOSP/HRC/02/001).

Data de 1704, o livro mais antigo de registo de entrada de doentes que hoje existe. Estes livros são testemunhos da maior relevância para o conhecimento de quem eram estes doentes e de onde vinham. Seguramente, terão existido para datas muito anteriores, sendo de lamentar que não tenham sobrevivido.
Os professores visitavam ainda, diariamente, os designados doentes de cirurgia, observando todos “os feridos e chagados” e dependia também da opinião dos professores a manutenção do boticário e do sangrador do Hospital, se estes não cumprissem as suas obrigações. O mesmo se diga quanto aos boticários da cidade que forneciam “as mezinhas” necessárias ao curativo dos doentes.
Assim se revela a estreita relação entre o Hospital Real de Coimbra e a Universidade, unindo-se na assistência e na boa formação dos futuros médicos.

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Folha de rosto do Livro de receituário médico (cirurgia) de 1622 (PT/AUC/HOSP/HRC/13/133)

… Foi neste hospital que se iniciou, em Coimbra, a prática da anatomia, em casa apropriada para esse fim, assistindo os alunos da Faculdade de Medicina a duas “anatomias universais”, anualmente, de acordo com o que ficou estabelecido em Estatutos da Universidade, de 1559. Alonso Rodrigues de Guevara foi o primeiro professor de Anatomia, na Universidade de Coimbra, a partir de 1556, tendo sido convidado por D. João III. Pouco tempo residiu em Coimbra, tendo-se ausentando, por descontentamento, segundo se tem afirmado, por ainda não serem permitidas as anatomias em corpos humanos, o que de facto só mais tarde veio a acontecer.

Bandeira, A.M.L. O Hospital Real de Coimbra: acervo documental de uma instituição assistencial (1504-1772). In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Volume XXVIII. 2015. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra. Acedido em 2019.01.29 em
https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/37775/1/O%20Hospital%20Real%20de%20Coimbra.pdf 

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por Rodrigues Costa às 10:55

Quinta-feira, 21.03.19

Coimbra: Universidade de Coimbra e a Devassa de 1619-1624

Na Biblioteca Nacional de Lisboa… encontra-se um Manuscrito … resultado de uma «sindicância» ou «devassa» feita à Universidade de Coimbra, de 1619 a 1624, por D. Francisco de Meneses, na qualidade de reformador da Universidade.
…. Durante os longos cinco anos por que se prolongou aquela «reformação» (ou como hoje se diria, aquela «inspeção, sindicância ou devassa…») [foram inquiridas] cerca de 300 pessoas, entre lentes, opositores, doutores, clérigos, estudantes, oficiais da Universidade e civis, chegando à conclusão de que a Universidade padecia de «muitos e prejudiciais vícios», os quais nos dão uma ideia geral do estado de decadência em que, nos começos do século XVII, se encontrava a Universidade Portuguesa, situação, aliás, partilhada, naquela época, pela maioria das Universidades estrangeiras.
[Salientamos alguns exemplos] desses aspetos negativos da vida da Universidade:

- Os ornamentos e paramentos da Capela da Universidade nem sempre eram bem tratados e, por vezes, eram mesmo emprestados e até alugados.
- Alguns capelães da Capela da Universidade não estudavam ou até nem sequer se matriculavam.
- Nem o Reitor nem o Vice-Reitor haviam mandado pôr éditos na porta das Escolas a lembrar aos estudantes a obrigação que tinham de se confessar.
- O Secretário da Universidade … levava 1 vintém aos estudantes pela matricula.
- O mesmo Secretário aceitava dinheiro, presentes, peitas ou dádivas para «dar» a alguns estudantes «tempo» que lhes faltava para se poderem reformar ou para poderem «provar cursos»,
- O Vice Conservador da Universidade … era grosseiro, caloteiro, venal, devasso e, em geral, não cumpria os seus deveres.
- Os três Bedéis da Universidade, mas, de modo mais notório, o de Cânones e Leis e o de Medicina, eram «corruptos», não marcando as faltas dos estudantes, aceitando dinheiro e outros presentes aos estudantes e graduados que trocassem as «sortes» para os atos de conclusão, ou para marcarem a data dos atos.
- Alguns estudantes tinham pistoletas, espingardas, terçados, facalhões e outras armas.
- Alguns funcionários e estudantes viviam em mancebia.
- Alguns religiosos e eclesiásticos, alguns estudantes entregavam-se a práticas de homossexualidade e sodomia ou, como se dizia na linguagem da época eram «fanchonos».
- Havia lentes, bedéis e estudantes que se entregavam ao vinho em excesso.
- Alguns estudantes e até funcionários da Universidade falsificavam documentos, nomeadamente «certidões» de cursos.
- O encarregado da Livraria da Universidade …. retirou dela alguns livros e até algumas das cadeias que os prendiam.
- Alguns estudantes de Medicina exerciam a profissão médica sem haverem completado os seus cursos.
- Alguns funcionários e sobretudo professores … praticavam o suborno por ocasião das oposições às cadeiras.
. Na eleição dos Reitores e Vice-Reitores se praticavam subornos.

Eis alguns dos «muitos e prejudiciais vícios» de que, segundo a Devassa de 1619-1624, enfrentava a Universidade de Coimbra. Esses «vícios» não enlamearam, porém toda população universitária quer do corpo docente quer do corpo discente.

Francisco Suarez o «Doctor eximius» (1548-1617).

Francisco Suarez o «Doctor eximius» (1548-1617). Acedido em
https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=1y2Mq1iW&id=F3F749EA4929C27039780A7AED5A554B7F898ECC&thid=OIP.

Frei Amador Arrais. Dialogos.jpg

Frei Amador Arrais. Dialogos. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt/html/10316.2/8655/item1_index.html

Pedro Mariz. Dialogos de varia historia.jpgPedro Mariz. Dialogos de varia historia. Acedido em http://purl.pt/22932 

Efetivamente, durante o primeiro vinténio do século XVII, professaram em todas as Faculdades da Universidade de Coimbra alguns Mestres de excecional valor. Bastaria lembrar … Francisco Suarez, o «Doctor eximius» … Cristóvão Gil … Frei Amador Arrais, Gabriel Pereira de Castro e Pedro Mariz.

Gomes, J.R. 1987. Alguns vícios da Universidade de Coimbra no século XVII, segundo a Devassa de 1619-1624. Lisboa, Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa.

 

 

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por Rodrigues Costa às 09:58

Terça-feira, 19.03.19

Coimbra: Misericórdia breve história

Dentro de alguns anos [1998] passa o meio milénio da Misericórdia coimbrã … Entre vária documentação notável, merece referência o conjunto de 25 grossos volumes, denominados «Documentos antigos», que agrupam manuscritos que vêm da fundação da Casa até meados do seculo XVIII, e o precioso «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra».


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Folha de abertura do «Memorial» de João Baptista

…. Abrindo com uma folha branca, está a folha seguinte toda ocupada por um desenho nas cores sépia, preto e vermelho … Na oval, em chefe, está a figura de Nossa Senhora da Misericórdia lateralizada por dois anjos apoiados nos brasões nacional e dos Almeidas, decerto em lembrança do benemérito bispo Dom Jorge de Almeida, que na sua Sé acolheu a Misericórdia quando da sua instituição.
…. [Do «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra»] Se respigam alguns capítulos concernentes à história da Santa Casa até ao ano [1645] em que ele a escreveu:
- Teve sua origem em princípio de 1498.
- No ano de 1500 se ordenou essa Confraria na cidade de Coimbra, como parece, por uma carta do … Rei de 12 de Setembro de 1500 escrita aos Vereadores desta cidade em que os louva e aprova quererem instituir a dita confraria e lhe concede os privilégios todos que haviam concedido à Misericórdia de Lisboa por um alvará feito no mesmo dia.
- É tradição que primeiro se assentou esta Confraria da Santa Misericórdia na Sé, daí se passou para a Igreja de Santiago, na casa que serve de celeiro, na quina da praça onde se diziam as missas e se chamava Capela da Misericórdia.
- No mesmo sítio esteve até o ano de 1546 em que se ordenou fazer-se nova casa sobre a Igreja de Santiago como está edificada, como se vê do contrato celebrado pelo provedor e mais irmãos dela… e o prior … e mais beneficiados da dita Igreja [de Santiago].

Relevo da frontaria da Misericórdia de Coimbra 02

Relevo da frontaria da Misericórdia e Coimbra (In: Borges, N.C. 1960. João de Ruão. Escultor da Renascença Coimbrã)

- Os retábulos e mais obras desta casa parece fazer aquele grande mestre João de Ruão como se vê de uma quitação sua.
- Depois, em diversos tempos, se tratou de mudar a casa da Misericórdia para vários sítios, escolhendo a praça desta cidade no canto do hospital de S. Bartolomeu até o Romal e para isso compraram as moradas de casas que estão feitas na praça nas costas da mesma Igreja do hospital que ao depois se tornaram a vender. E depois se quis edificar na entrada da Rua do Corpo de Deus, onde se começou nova casa em o ano de 1589 a 29 de Maio, cujas obras se suspenderam depois da obra estar aberta, havendo-se nela despendido já cópia de dinheiro.

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A Misericórdia ocupava os dois pisos superiores ao portal de Santiago, e ali se encontravam somente a administração e a capela, de que se nota a Torre sineira

- Finalmente no ano de 1605, em 6 de Março se tomou o último assento que a casa da Misericórdia se não mudasse e se fizesse as casas, convém a saber, do despacho, sacristia, e da cera, e mais obras novas na forma e que hoje estão.

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Miseri

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Misericórdia, pormenor c.1773

…. Perante os insucessos a Irmandade vai-se mantendo na sua exótica Igreja e sede -porque, caso único, estava construída sobre outra igreja – até que tendo o Cabido da Sé sido mudado da velha Sé para a Igreja dos Jesuítas, logo a Irmandade da Misericórdia, em Março de 1772, voltou à casa onde havia nascido quase três séculos antes.

- As grandes dificuldades de alojamento só viriam a ser resolvidas pela Carta de Lei de 15.XI.1841 quando concedeu à Misericórdia a ocupação do Colégio Novo (onde num pequeno espaço funcionava o Tribunal, e em resultado da cedência teve que vir instalar-se na Torre de Almedina).


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O «Colégio Novo» restaurado após o incêndio. À direita a «Torre de Anto» e o moderno colégio onde se encontram os alunos

- A vida da Misericórdia continuou com altos e baixos até que na noite de 1 de Janeiro de 1967 um violento incêndio destrói grande parte do edifício

Nota:
O trabalho citado integra uma transcrição do Inventário dos «Moveis desta S. Caza…» realizado em 1645.

Silva, A. C. 1985. Um Inventário seiscentista da Misericórdia de Coimbra. Separata de Munda.

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por Rodrigues Costa às 21:32

Quinta-feira, 14.03.19

Coimbra: Igreja de Santiago 2

Quando este Inventário [dos Ornamentos e Joias da Igreja de Sant’Iago de Coimbra, em 1697] foi feito, acabavam de ter lugar as transformações do edifício, se é que não decorriam ainda as obras finais.

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Igreja de Santiago, capela gótica

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Igreja de S. Tiago, capitel da abside

Ao tempo era a paróquia de Sant’Iago uma das mais prósperas da cidade, em franca ascensão demográfica e económica. De 1528 a 1640 os batismos não cessam ali de apresentar um «crescimento de pendor acentuado», o que bem exemplifica o seu aumento populacional. É a freguesia de Coimbra que maior número de contribuintes apresenta.

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Igreja de Santiago, interior

…. Seria portanto, talvez a mais rica igreja paroquial da cidade, participando no fervilhar de vida que se desenrolava em torno da velha praça, o que necessariamente se refletiria no número e qualidade de alfaias litúrgicas e outros objetos ou peças próprias do mobiliário de um templo sede de freguesia.
É isso o que parece depreender-se deste inventário de 1607, que se pode considerar exaustivo e merecedor de inteira fé. Porém, uma análise atenta do documento em breve levará à conclusão de que a riqueza se fica mais pela quantidade do que pela qualidade. Com efeito, apesar da quantidade de panos, algumas pratas e outros pertences aqui arrolados, que riqueza era a de uma igreja onde apenas havia duas caldeirinhas, sendo uma de latão e outra de barro, uma cruz processional, uma naveta …? E se assim era numa das paróquias mais abastadas de Coimbra, como seria nas mais pobres, nas paróquias rurais?
…. Aliás, e como é natural, as peças mais utilizadas nas funções de culto são aquelas que se encontram representadas em maior quantidade. Tal é o caso dos sete cálices que deveriam ser todos lisos, à exceção de um «com flores no pé» e outro porventura o mais interessante, com «o vaso a modo de pinha, obra antiga» … tinha quatro [custódias], das quais uma era do tipo de custódia-cálice. Também as coroas de imagens, fechadas ou abertas, são motivo para delicado trabalho … Em maior número são, porém, os relicários. Estes podiam assumir os mais diversos formatos e composições.
…. Extensa é a informação fornecida pelo inventário no que toca a tecidos, abarcando todo um acervo de fatos de imagens, toalhas, paramentos e outras peças de uso litúrgico …. Abundam cortinas, véus de altar e outros panos … O tecido mais utilizado nestas peças é, sem dúvida, o tafetá e o damasco, logo seguido pelo veludo. Mas havia também muitos outros desde a estopa e estopinha ao chamalote, à bombazina, damascos e damasquilhos, brocados, brocatéis e brocadilhos. Não faltam os panos da Índia – sedas, damasquilhos, brocadilhos, tafetás – nem alguns com nomes pitorescos, como o bertangil, o bocaxim e a primavera.
…. Um dos aspetos mais interessantes do inventário é o que diz respeito às variadas peças e móveis da guarnição da igreja. Por ele sabemos que existia um órgão de cinco registos, no coro alto … Não faltam as campainhas, estantes de altar, sacras, alâmpadas e galhetas, nem os castiçais, tocheiros e candeeiro das Trevas.


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Arco de Santiago

O Arco de Santiago, mostrado no desenho de Jorge da Cruz Jorge, foi erguido no final do séc. XVIII e demolido nos últimos meses de 1858, por ocasião do alargamento e retificação da antiga rua do Coruche, hoje rua Visconde da Luz. Ligava o edifício da Misericórdia, construído sobre a Igreja de Santiago, aos antigos “açougues da Praça”, incendiados pelas tropas francesas aquando da terceira Invasão. A reconstrução do arco aconteceu pouco antes do seu arrasamento.

Para eventuais interessados: o trabalho aqui citado termina com a transcrição do Livro do Tombo, no qual são enumerados e descritos todas as propriedades e bens da Igreja de S. Tiago, no final do século XVI.


Borges, N.C. 1980. O Inventario dos Ornamentos e Joias da Igreja de Sant’Iago de Coimbra, em 1697. Coimbra, Instituto de História da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 15:36

Terça-feira, 12.03.19

Coimbra: Igreja de Santiago 1

Determinaram as «Constituições Sinodais do Bispado de Coimbra», em 1591 … que em todas as igrejas houvesse um livro de Tombo, autêntico, donde constassem todas as suas propriedades e bens … Assim surge o «Inventário da prata e ouro, ornamentos e roupa do serviço da igreja de Nossa Senhora e dos Sanctos e de todas as cousas de que se serve a Igreja de S. Tiago que mandou fazer o prior».

…. O aspeto que esta igreja citadina de um dos topos da Praça Velha, depois de restaurada, nos oferece, poderá não ser, porventura, o mesmo da sua primitiva fábrica. Todavia, temos de reconhecer que a reconstituição feita foi, na ocasião, a única e a melhor possível.

A igreja de Sant’Iago antes das obras de restaur

A igreja de Sant’Iago antes das obras de restauro

A Igreja  de Sant'Iago durante as obras de restaur

A Igreja de Sant'Iago durante as obras de restauro

A Igreja  de Sant'Iago depois das obras de restaur

A igreja de Sant’Iago depois as obras de restauro

Está a sua fundação envolta em lendas que se relacionam com a tomada da cidade, em 1064, por Fernando Magno. De concreto apenas se sabe que antes da reconstrução dos finais do século XII e inícios do XIII – a nova igreja foi sagrada em 28 de Agosto de 1206 – já no local existia outro templo de que há referências documentais no século XII.
[A origem lendária da fundação da Igreja de Sant’Iago foi contestada, nomeadamente, por António de Vasconcelos … e F.A. Martins de Carvalho… Para estes historiadores o documento mais antigo respeitante a Sant’Iago apenas remontava a 1183. Foi A. Nogueira Gonçalves quem revelou e chamou a tenção para notícias anteriores àquela data].
No século XVI, a fisionomia do monumento foi grandemente alterada,
Com efeito, em 3 de Junho de 1546 lavrou-se contrato entre a Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia e a Colegiada de Sant’Iago para a construção da casa e igreja da Misericórdia sobre o velho templo românico.

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Entrada para a Misericórdia antes das obras de restauro da Igreja de Sant’Iago

O novo edifício ficou edificado sobre a nave da «capela de S. Simão, onde ora está o Santíssimo Sacramento e sobre a capela de Vasco de Freitas», com entrada pela rua de Coruche, na parte posterior, o que era possível graças ao grande desnível do terreno. O patim de acesso foi feito sobre a «sacristia e capela de S. Simão».
Para segurança de ambos os templos se estipulavam a construção de «arcos», «na dita nave de S. Simão», bem como diversas medidas a tomar quanto ao encaminhamento das águas pluviais.

…. Que capelas ou altares haveria então na Igreja de Sant’Iago?
Também a este respeito o inventário fornece indiretamente algumas informações. O número não iria além de sete: três na cabeceira e quatro do corpo da igreja, sendo uma à Epístola e três do lado do Evangelho.
Na capela-mor se encontrava a imagem do orago, Sant’Iago, e o sacrário com o Santíssimo Sacramento que mais tarde esteve também na capela do Bom Jesus. Nas colaterais destacavam-se os altares de Nossa Senhora da Conceição, à Epístola. O primeiro era da administração da Colegiada. O segundo pertencia à respetiva confraria, constituída por nobres, no dizer do escrivão do inventário, e «muito rica», segundo as palavras do prior.
…. No corpo da igreja, do lado direito, entre a porta travessa e a escada que subia para o coro, situava-se a capela gótica primitivamente dedicada a S. Pedro e depois a Santa Escolástica, ao Bom Jesus, e, por fim, ao Sacramento. Nas obras de restauro foi transferida para o tramo fronteiro, indo ocupar o espaço da capela de Santo Ildefonso.
Do lado esquerdo estavam as capelas de Santo Elói e Santo Ildefonso, a que mais tarde se juntaria a do Espírito Santo, instituída em 1653 por Úrsula Luís, viúva do mercador Manuel Roiz-
…. A capela de Santo Ildefonso era da família dos Alpoins.
.… A capela de Santo Elói «que edificaram e fabricaram os ourives desta freguesia …» era a primeira, ao entrar no portão principal.
…. Resta ainda a capela de S. Simão e a de Vasco de Freitas… A primeira é a da Senhora da Conceção, ou seja, a colateral direita da cabeceira da igreja. A última deverá talvez corresponder à do Bom Jesus, primitivamente de S. Pedro.
Quanto a Santo André, que aparece com certo destaque no inventário, com suas vestes próprias e um possível altar, onde «servia» uma estampa e um frontal de rede, a ter existido na verdade este altar, seria bastante singelo. O mais lógico é que se tratasse de uma imagem integrada num dos outros altares.
…. Além das confrarias de Nossa Senhora da Conceição, dos nobres, e de Santo Elói, dos ourives, o inventário fala ainda das de S. Simão, Santo André, Sant’Iago, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Piedade e Espírito Santo. Todas possuíam a sua arca, destinada a arrecadar a cera que cada confrade deveria pagar anualmente e de que se faziam as tochas que eram levadas na procissão do Corpo de Deus.

Borges, N.C. 1980. O Inventario dos Ornamentos e Joias da Igreja de Sant’Iago de Coimbra, em 1697. Coimbra, Instituto de História da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 09:31

Quinta-feira, 07.03.19

Coimbra: Catarina Rainha de Inglaterra passa pela Cidade

D. Catarina Henriqueta de Bragança era filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão. Nasceu no Paço ducal de Vila Viçosa a 25 de novembro de 1638 e casou-se, em 1662, com Carlos II de Inglaterra; por ser católica, jamais foi coroada rainha. Não teve descendência.

Cortejo de despedida e embarque de Dona Catarina dCortejo de despedida e embarque de Dona Catarina de Bragança para Inglaterra. Acedido em http://www.museudelamego.gov.pt/um-ano-um-tema-traz-em-abril-gravura-de-d-catarina-de-braganca/

Carlos II e Catarina de Bragança.jpg

Carlos II e Catarina de Bragança. Acedido em
https://www.vortexmag.net/a-rainha-portuguesa-que-mudou-a-inglaterra-e-lhe-deu-um-imperio/

Catarina Rainha da Inglaterra. Acedido.jpg

Catarina Rainha da Inglaterra. Acedido em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d4/Catherine_of_Braganza_-_Lely_1663-65.jpg

Enviuvou a 16 de fevereiro de 1685, mas continuou a viver em Inglaterra durante o reinado de Jaime II, seu cunhado.
Embarcou para Lisboa a 29 de março de 1692 e entrou em Lisboa a 20 de janeiro do ano seguinte. No caminho passou, como se pode constatar lendo a entrada abaixo publicada, por Coimbra.
Morreu na capital, no Palácio da Bemposta que mandara construir para sua residência, a 31 de janeiro de 1705.
O costume de beber chá, embora de forma embrionária, já existiria em Inglaterra, mas D. Catarina institucionalizou-o no tão “britânico” hábito do five o'clock tea.

Dona Catarina enviúva e resolve voltar à pátria, e nova epistolografia se troca entre o novo rei [D. Pedro II] e a Câmara [de Coimbra] … com a carta régia de 28 do mesmo mês [Outubro de 1682] pede à cidade que recebesse sua Irmã com demonstrações de alegria como se do próprio se tratasse.
…. Recebida esta carta [expedida da Mealhada em 8 de Janeiro de 1693] se leo na camera …Logo se prepararaõ p.ª caminharem ao lugar dos Fornos destinado p.ª a espera, e se ordenou o congreço na praça da Câmara na forma seguinte:
Procediaõ dous trombetas a cavallo vestidos de vistosos catalufas e mais guarniçoens q a camera lhe deu, nas trombetas suas bandeiras com as armas reaes de huá parte, da outra as da Cidade, dous ternos de charamelas, os meirinhos e officiaes da Justiça; seguiace a bandeira da Cidade … se pedio a levasse … um dos principais sidadaõs desta Cidade … montado em hum fremozo cavallo tomou a bandeira e fazendo paço o seguia o senado com suas varas, e toda a nobreza e cidadoens a quem se havia avizado todos a cavallo e foraõ caminhando ao lugar destinado.
Chegados a elle com pouca demora chegou logo o Marques Conductor … e logo chegando a carroça real dando alguns paços, mandou parar o Marques e chegando à estribeira deu parte … como ali estava a camera e nobreza da Cidade … lhe beijaraõ a maõ.


Catarina Rainha de Inglaterra 2.jpg

Catarina Rainha de Inglaterra. Acedido em https://www.bing.com/images/search?q=catarina+rainha+da+inglaterra&id=D73B6E84EF6502AB8725C63E9751A98EBE629801&FORM=IQFRBA

…. Chegados à porta [Porta da Cidade, ou Porta de S. Margarida como é referida na planta de 1845 realizada por Izidoro Emílio Baptista, uma vez que a Porta da Figueira Velha, segundo José Pinto Loureiro, já não existia no reinado de D. João III] estava já nella o Bisconde e o procurador da Cidade q lhe entregou as chaves … Nesta porta estava hum Fremozo arco dos Tendeiros feito de duas faces como todos os demais, vestido de sedas passamane e volantes.
…. Davaõ principio ao acompanhamento os Atabales, Trombetas e charamelas, seguiãoce varias danças de homens e de mulheres, e duas pellas cubertas de ouro … na entrada na rua de St. ª Sofia era tal a confuzaõ das musicas danças e tom dos repiques dos sinos de toda a Cidade q naõ havia quem de alegria naõ derramasse lagrimas … naõ cabia a gente nas ruas a cada passo se parava, tomouce a rua de Coruche na entrada da qual estava o segundo arco feito pellos ourives de fabrica de madeira pintado; deste se entrou na rua da Calçada no meyo da qual estava o terceiro arco dos mercadores de grosso tracto, obra sumptuoza de madeiras com pedrarias fingidas de Italia sobre colunas retorcidas, no alto delle estava ao norte o retrato Dell Rey D. Joaõ o 4.º … da parte do sul estava o retrato de El Rey D. Pedro Nosso Senhor com outras duas figuras do Mondego e Tejo … sahioce a Portagem onde estava o 4.º Arco feito pellos roupavilheiros de armaçoens vistozas e ricas pinturas, subioce a Couraça e no arco de St.º António estava o quinto arco dos livreiros e serieiros feito, com boa traça e vistosa armaçaõ, deste se tomou a rua de são christovaõ no meyo da qual para cubrir hum paçadiço q nella ha fizeraõ o sexto e ultimo arco os Armadores; em que mostravaõ o primor da sua arte … daqui se subio ao Palacio Pontifical, aonde ao apear assistio a Camera; e foi acompanhando a Sr.ª Rainha athe a antecâmera em q entrou pelas 4 oras da tarde.
Na noute deste dia e nas duas seguintes se puzeraõ luminarias em toda a cidade … Aos seroens desta noutes cortejevaõ o palácio na praça delle a mayor parte dos Académicos.
…. Ao segundo dia fizeraõ os estudantes da Provincia do Alentejo huã fortaleza de fogo no terreiro da feira [hoje Largo da Feira dos Estudantes] … Ao terceiro dia se correram por ordem da Camera na praça da Cidade Touros de cavallo … e matou seis touros.

Silva, A.C. Dona Catarina Rainha de Inglaterra e a sua passagem por Coimbra no regresso a Portugal. Separa de Munda. 1986.

 

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por Rodrigues Costa às 19:56

Quinta-feira, 28.02.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 2

Ao longo do texto de Carneiro da Silva As Estalagens Coimbrãs e do seu termo, para além das três estalagens mencionadas na entrada anterior, são ainda referidas:

- Estalagem de Santa Clara, primeira
… nas reuniões da Câmara de 22 de julho de 1642 e na de julho de 1644, se discutiram os problemas que o estalajadeiro … criava na sua «Estalagem de Santa Clara» … por estar notificado não usasse de venda nem de agasalho pessoa alguma em sua casa, de «mau viver», e ele fazia o contrário.

- Estalagem de Santa Clara, segunda

Panorâmica do Bairro de Santa Clara aa.JPG

Panorâmica do bairro de Santa Clara. Notar a estrada para Lisboa, e no extremo esquerdo da gravura [não identificada] o que foi segunda estalagem de Santa Clara

Em 1674, Cosme Francisco Guimarães, morador em Sansão, pagava o foro de 200 reis de explorar aquela estalagem no Rossio de Santa Clara [a qual fora construída] «para substituir outras que se tinham arruinado com as cheias perto da ponte.»

- Estalagem na Rua da Sofia
Na passagem do século XVI existiu na Rua da Sofia, na vizinhança da entrada da Rua Nova [uma estalagem que] Diogo Marmeleiro de Noronha … fizera … para agasalho dos passageiros e caminhantes com muito gasalhos e camaras fechadas para fidalgos e pessoas graves.

- Estalagem da Quinta da Portela
Em 16 de Dezembro de 1624 «Diogo Marmeleiro de Noronha me enviou dizer por sua petição que ele queria fazer junto à sua Quinta e lugar da Portela uma estalagem que seria de grande comodidade dos passageiros que caminhavam por aquela estrada que era das mais seguidas da dita cidade por ser a de Madrid e por naquela paragem passar uma barca o rio Mondego, que quando no inverno com alguma cheia não podia passar a dita barca, e os que então caminhavam ficavam dormindo pelos pés das árvores sem terem nenhum agasalho pelo que me pedia lhe fizesse mercê de lhe privilegiar a dita estalagem e mandar passar seu privilégio».

Para além destas surgem, ainda, as seguintes outras referências a estalagens:

- Estalagem das Cardosas
No Paço do Conde … onde hoje está [esteve] uma casa de brinquedos, e onde serviu uma Mariana que há muito deve atender os viandantes do céu.

- Estalagem do Lopes ou Hospedaria do Caes Novo
Situava-se nas imediações do atual Banco de Portugal, visto que tinha outra entrada pela Rua do Sargento-Mor, e ter particularidade de ser pouso de estudantes endinheirados, acabados de chegar, até se mudarem para o seu território da Alta.

Na parte final do texto o Autor refere ainda que Camilo esteve hospedado na «Marquinhas do Leite Morno», na Rua Larga … e que pelos séculos XVII, XVIII e XIX existiram no burgo as estalagens «do Galego» … do «Fernando» mais conhecida pela «Estalagem do Inferno» a do «Raimundo da Teodora» … a do «Francisco Lopes de Carvalho», próximo da ponte, e a hospedaria do «João de Aveiro» que um incêndio destruiu em 1902.
Aqui e ali, muitas vezes nas proximidades das estalagens, existiam também as «albergarias».

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

 

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por Rodrigues Costa às 11:38

Terça-feira, 26.02.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 1

O problema da instituição e administração das estalagens ou «estaos», era antigo e frequentemente levantado pela administração municipal junto do poder régio. É assim que D. Duarte numa sua carta de 1436, «mandamos que taes pessoas pousem nos Estaos que há pelo caminho, ou da dita cidade [de Coimbra] e não nas aldeias e casais que estão fora das estradas».

Estalagem de caminho px de Cª.jpg

Estalagem de caminho. De salientar os diferentes tipos de meios de transporte


Estalagem de caminho em Espanha.jpg

Estalagem de caminho em Espanha

Nas Cortes de Lisboa de 1440 pediu-se o «estabelecimento de estaos para pousadas nas cidades, vilas e aldeias e a taxa dos mantimentos, camas e mais serviços presentes neles».
…. Há notícia da existência na cidade, nos princípios do século XVI de três estalagens, da sua localização e nomes dos proprietários:

- Estalagem Nova

Capela do Senhor do Arnado 01.jpg

Capela do Senhor do Arnado que se situava cerca do local onde hoje se encontra o monumento a Cindazunda

Situar-se-ia na entrada da cidade para quem viesse do norte, próximo da «goleta» [Então o «porto dos oleiros», teria algum pequeno canal que ligava ao rio, e assim o topónimo «goleta»], próximo do local onde existia um crucifixo em pedra, a céu aberto, que levou à edificação da Capela do Arnado no meado do século passado [século XIX]
Aquela zona era desde a Idade Média domínio dos oleiros, até que no século XVIII se mudaram para a zona do Terreiro de Santa Justa e foram ali substituídos pelos cordeeiros vindos da sirgaria de Santa Clara, destinada a outros fins.

- Estalagem do Pintor

Estalagem da Donata.jpgA quinhentista estalagem do Pintor, que no século XIX era estalagem da Donata

[Situava-se] na, na Rua de Tinge-Rodilhas, depois Rua da Louça … que muito anos depois seria conhecida pela «estalagem da Donata», alojada em edifício ainda hoje existente, muito degradado, e que merecia recuperação para fins turísticos.

Nota 1
Quando era muito jovem, as camponesas que vinham vender à praça – ao Mercado D. Pedro V – guardavam neste edifício os burros onde transportavam os legumes, as galinhas, os ovos e a fruta destinados a serem ali comercializados. Atualmente, e depois de obras de recuperação, com entradas pela Rua da Moeda e pela da Louça, funciona no edifício um estabelecimento que vende, entre outras vitualhas, leguminosas, batatas e rações para animais.

Nota 2
De assinalar que esta estalagem na parte inicial do texto é designada por «Pintor» e na parte final do mesmo texto por «Prior».

- Estalagem do Paço do Conde

No centro do casario quinhentista, o gravador [Hoe

No centro do casario quinhentista, o gravador [Hoefnagel] fez ressaltar o Paço do Conde de Cantanhede com seu claustro, depois Estalagem do Paço do Conde.

Em 1662 estabeleceu-se uma das melhores estalagens do país no que fora o rico paço do Conde de Cantanhede, D. Pedro de Menezes, no centro mais vivo da cidade, próximo da praça, da Câmara, dos açougues, da «casa-do-ver-do-peso», ponto de reunião obrigatório a mercadores e vendeiros, por ali chegarem e estacionarem os carros e azémolas que vinham do sul, do norte e das Beiras com a maior parte dos géneros de que se alimentava a cidade. Era o terminal dos grandes carroções, já que eles, por disposição camarária não podiam ir até à Praça.
O edifício magnífico, fora construído nos anos do meado do século XVI …. Parece que a ocupação do edifício por tão nobre família não chegou a efetivar-se … nos primeiros meses do ano de 1622, escreveu a Filipe III … «que fizera uma estalagem para agasalhar os passageiros e caminhantes e almocreves com muitos aguazalhados [quartos] e camaras fechadas para fidalgos e pessoas graves que fica sendo dos melhores deste reino por estar na melhor passagem da cidade e junto da praça dela…».

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

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por Rodrigues Costa às 11:13


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