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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 05.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 1

O Concelho de Coimbra com 31 freguesias e uma área aproximada de 317 km2, teve uma evolução populacional apreciável, entre os anos sessenta do século XIX e os anos sessenta do século XX. Os censos de 1864 … indicavam uma população de 40.681 habitantes; cerca de cem anos depois, a estatística de 1960, apresenta uma população concelhia de 106.404 habitantes…. Atualmente, [2001], a população do concelho atingiu os 148.443 habitantes.

Mapa topográfico da cidade com a divisão das freMappa topográfico do Bispado de Coimbra com todas as vilas, parochias e Lugares. José Carlos Magne 1797

…. No que respeita apenas à Cidade, existem elementos cartográficos desde 1845.
… A malha urbana da cidade encontrava-se espartilhada por duas cintas: a primeira, a conventual, e a segunda formada por um enorme conjunto de quintas. No século XIX, deram-se grandes alterações na estrutura produtiva da maioria dessas grandes quintas que rodeavam a cidade de Coimbra, com as suas casas solarengas, das quais algumas ainda resistem como, por exemplo, a do Regalo, Espertina, Portela e das Lágrimas, algumas absorvidas pelo crescimento urbano, outras ainda em ruínas expectantes.
A cintura de mosteiros, mais junto da cidade, tornou difícil o desenvolvimento urbano de Coimbra durante muitos séculos: mosteiros como os de S. Domingos, de Celas, de Santa Cruz, Santa Ana, Santa Clara, S. Francisco e Santa Teresa, impediram diretamente a expansão da cidade.

A Cidade de Coimbra. Evolução do espaço urbano.

A Cidade de Coimbra. Evolução do espaço urbano

Relativamente à cidade é mais fácil determinar com rigor o seu crescimento, quer pela existência de elementos edificados datáveis, quer pela existência de cartografia [feita] com rigor, desde 1873. A área urbana cresceu 10 vezes entre 1873 e 1940, e passou de 1.106 ha (1940) para 3.000 ha (Plano Diretor Municipal – 1944).
…. Nos finais deste século [séc. XX], a cidade conheceu um crescimento importante da sua população (40% em 30 anos), sem que se assistisse ao crescimento da sua área urbana, que nas primeiras décadas do século XX aumentou consideravelmente.
Se nos finais do século XVI, a Rua da Sofia é o suporte do desenvolvimento urbano, nos finais do século XIX é a Avenida Sá da Bandeira que serve de eixo de desenvolvimento: arruamento desanexado à Quinta de Santa Cruz aonde, a partir de 1880, são postos à venda lotes de terreno.
…. Entre 1900 e 1930, a área urbana da cidade duplicou. Com este crescimento aumentou também o número de indústrias na parte baixa da cidade e posteriormente ao longo da via férrea e da Estrada Nacional n.º 1. A zona da «Baixinha» ressentiu-se com esta deslocação de atividades e desde então começou-se a sentir a necessidade de algum planeamento. São desta época os primeiros planos para a sua reestruturação.

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Plan d’Aménagement et d’extension – Rapport génerale. Étienne de Groër. 1940

…. Um certo imobilismo das administrações local e central levou a que somente em 1839, se adjudicasse um primeiro plano, de carácter geral, ao Arq. Étienne de Groër.
…. Em termos futuros, a atenção de todos nós, deverá concentrar-se nestas áreas suburbanas em termos de requalificação. Embora o Centro Histórico necessite de urgente reabilitação, a sua concretização está mais dependente da resolução de problemas financeiros e de vontade política, do que de grandes estudos teóricos, dado que as metodologias de intervenção são já aceites há muito por todos.

Faria, J.S. Evolução do Espaço Físico de Coimbra. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 9-16.

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por Rodrigues Costa às 18:57

Quinta-feira, 10.01.19

Coimbra: Pesca Artesanal no Rio Mondego

A carne era o complemento alimentar básico da população [da população da região de Coimbra, no século XVI], mas como era escassa, o peixe do rio, ou vindo dos portos da costa mais próximos, como Buarcos e Aveiro, supria as necessidades maiores em anos de fome.
… O ano de 1526 foi terrífico, tendo a Câmara deliberado em 28 de fevereiro, que todo o peixe pescado no rio, fosse nas «bugigangas» [rede de malha apertada, com cerca de 20 metros, que com embarcações em cada extremo formavam um círculo em que o peixe ficava aprisionado] ou noutro qualquer artifício, teria de ser levado à praça, salvo aquele que os pescadores necessitassem para sua alimentação.
… conhecem-se notícias que vêm de muito longe, sobre a comercialização na cidade [de Coimbra] do peixe do rio e do mar, uma das quais se pode ler no «Livro das Kalendas» … [respeitante a] uma tenda … no local das «Tendas» que se estendia da Almedina à Sé, pela então Rua dos Fiveleiros, e hoje de Quebra-Costas. Essa tenda, identificava-se como a «casa da pedra do peixe» que, em data imprecisa, se mudou para a Rua das Fangas da Farinha. O peixe era então cortado e vendido à posta, e aquela «pedra» não tinha outra finalidade que não fosse a de servir de mesa para o seu corte. Era obrigatório reunir nesse local todo o peixe destinado à venda, para ser taxado pelos oficiais da Câmara, e escolhido, antes da venda pública, pelos privilegiados. Parece que o peixe seria mais volumoso do que é hoje e as condições económicas da maioria não seriam propícias à compra de peixes inteiros, tanto mais que a sua conservação se resumia à salga.
Nas «Posturas Municipais», publicadas em 1554, determinavam-se as obrigações relativas aos pescadores, à almotaçaria e aos locais de venda. Aquele peixe que viesse do mar seria vendido pelo próprio pescador que o trouxesse, e na barca ou azémola em que viesse, depois de ter sido taxado. O peixe do rio podia ser vendido pelas portas, assim como os mariscos.

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Dois caneiros no rio levantados com estacaria, redes, ou entrançado de vimes ou ramos de choupo. Desenho não identificado

… A legislação do tempo sobre a pesca é extensa, e aparece com frequência nas «Posturas, Cartas Régias, Alvarás, Forais» e outro tipo de legislação. Os primeiros documentos régios que se conhecem sobre o colocar no rio os «caneiros» … remontam a uma autorização de D. Afonso I concedida no ano de 1139, aos crúzios, para colocarem no rio, em seu benefício, aquele tipo de apanha do peixe que subia ou descia o rio.

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Barco de pesca do baixo Mondego. Desenho não identificado

… O Mosteiro era também autorizado a ter uma barca de pesca, no rio ou no mar, isenta de qualquer tributo.
… [no] regresso da tomada de Ceuta, são dados ao Infante D. Pedro junto com o título de 1.º Duque de Coimbra, inúmeros benefícios materiais, e, entre eles, o direito, expressamente mencionado, de ter um «caneiro» no rio. [Este caneiro] após Alfarrobeira, passou a ser referido por «caneiro real»
…. Conhece-se documentação que dá notícia de nas tendas do mercado da Almedina, aí pelos anos 40 do século XIV, haver tendas em que o peixe era vendido frito ou cozido.

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Um pescador coimbrão, setecentista, com rede ao ombro e cesta de peixe na mão. O fundo da gravura é o Mosteiro de S. Cruz, com a cruz de uma «estação», e a porta para a zona de Santa Margarida. Desenho não identificado

Os pescadores que livremente queriam pescar no rio, tinham que previamente se inscrever em livro próprio da Câmara … e pressionados pela mira do lucro ou por carências alimentares, não guardavam as distâncias entre os «caneiros», em que era proibido pescar, ou a eles iam, de noite, apanhar o peixe. Isso se depreende de queixas que a Cidade fez ao rei.

Livro das posturas dos piscadores, pormenor do in

Livro das posturas dos «piscadores», pormenor do início

…. No «Livro dos Regimentos e Posturas da Câmara» mais conhecido por «Livro I da Correia» … no capítulo que tocava às «pescadeiras» … eram obrigadas a vender todo o peixe, a peso, fresco ou seco, na praça ou no açougue do peixe – a tal «casa da pedra do peixe» – salvo os linguados, lampreias e azevias que se venderiam por contado, e finalmente os mariscos, que não tinham preço fixado e, portanto, variável.

Nota:
No Livro das posturas dos «piscadores» pode observar-se um pormenor deveras interessante. O mester Fernão da Serra à frente do seu nome colocou, desenhada, uma serra; contudo, pensamos que a assinatura terá sido caligrafada pelo escrivão e o mester, devendo ser analfabeto, em vez de colocar a costumeira cruz utilizava a figuração do seu apelido.

Livro das posturas dos piscadores, pormenor das as

Livro das posturas dos «piscadores», pormenor das assinaturas

Silva, A.C. A pesca artesanal no Rio Mondego como factor económico na vida Coimbrã. Separata do Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. X. 1988.

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por Rodrigues Costa às 11:46

Terça-feira, 08.01.19

Coimbra: História dos Paços Municipais

Na página web do Município está à disposição de todos nós um excelente texto do Dr. Carlos Santarém Andrade intitulado Paços do Concelho - História dos Paços Municipais.
Desse texto que bem merece ser divulgado, publicamos a parte inicial e as gravuras que o ilustram. O texto restante, cuja leitura se recomenda, pode ser consultado em:

https://www.cm-coimbra.pt/index.php/municipio/municipio/historia-dos-pacos-do-concelho 

Brasão de Coimbra b.jpg

Brasão de Coimbra

Os Paços Municipais da Cidade de Coimbra estão situados na Praça 8 de Maio, data que evoca a entrada das tropas liberais em Coimbra, no ano de 1834.
A sede da Edilidade Coimbrã conheceu vários locais desde a Idade Média, nomeadamente num edifício muito próximo da fachada poente da Sé Velha, instalando-se pelo menos desde o século XIV na Torre de Almedina, cuja feição atual resulta de beneficiações que, por duas vezes, nela foram efetuadas no decorrer do século XVI. Nela poderemos observar, ainda hoje, no piso superior, um brasão antigo da cidade, bem como a palavra “Senado”, e a data de 1541. No piso inferior funcionava o Tribunal da Relação, pelo que o monumento aparece designado em diversos documentos por “Torre da Vereaçom” ou “Torre da Rellaçom”.
No século XVIII mudou-se para casas junto à Igreja de Santiago, com frente para a Praça de São Bartolomeu e para a Calçada, tendo regressado à velha torre, por algum tempo, após o terramoto de 1755, e de novo em 1810, depois de aquelas instalações terem sido incendiadas, durante as invasões francesas, pelas tropas gaulesas.
Extinta a Inquisição em 1821, a Vereação transferiu-se no ano seguinte para parte dos seus edifícios, concretamente para a chamada Casa da Bica, com entrada pela Rua da Sofia, onde por pouco tempo se mantém, dado ter sido vendida pelo Estado, regressando à centenária torre em 1826.
Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834, um novo capítulo se iria abrir. Assim, a vereação dirigiu aos Deputados da Nação Portuguesa, em janeiro de 1835, uma petição em que solicitava para a Câmara “uma parte do extinto Mosteiro de Santa Cruz, no qual há todas as convenientes disposições para Jurados, da Câmara, da secretaria e competente arquivo”. Várias vezes insistiu no pedido, sem resultado, até que, em resposta a mais um requerimento da edilidade, em junho de 1836, o Governador Civil interino consentiu que a Câmara ocupasse a parte pedida, desde que se obrigasse “a largar mão dela quando, por qualquer circunstância, o Governo a destinasse para outros fins”.

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Mosteiro de Santa Cruz, parte onde se construíram os Paços do Concelho

A parte do mosteiro cedida à Câmara tinha a frontaria voltada para o então denominado Terreiro de Sansão, topónimo que ainda hoje a memória citadina conserva, derivado do facto de ter aí existido um chafariz encimado por uma estátua daquela figura bíblica. Essa frontaria era constituída por três corpos. Um, imediatamente a seguir à Igreja de Santa Cruz, alinhado com esta. Outro, mais recuado, onde se encontrava a designada Porta Fidalga, principal acesso ao mosteiro, bem como um cruzeiro e uma capela do Senhor dos Passos, uma das várias que existiam espalhadas pela cidade, e de que se conserva ainda hoje uma, à ilharga da igreja de São Bartolomeu. Mais a norte, também saliente em relação à fachada central, um outro corpo encimado por um dormitório, chamado de São Francisco, que se prolongava ao longo do mosteiro, até à denominada horta, junto ao atual edifício dos Correios.
A parte do mosteiro cedida estava edificada à volta de um claustro, em cujo centro de situava um lago, com quatro leões de pedra de cujas bocas jorrava água, tendo aos cantos umas limeiras, que davam o nome ao claustro, também referido como Claustro da Porta Fidalga. Tinha ainda algumas capelas, numa das quais, chamada do Espírito Santo, se encontrava o célebre quadro representando o Pentecostes, da autoria de Grão Vasco, e que hoje se encontra na sacristia da Igreja de Santa Cruz.
Tendo-lhe sido cedida, embora a título precário, essa parcela do mosteiro, a Câmara efetuou os consertos necessários para efetuar a mudança e instalar-se naquele espaço. Finalmente, por portaria do Ministério dos Negócios da Fazenda, de 17 de novembro de 1836, foram concedidos à Câmara todos os edifícios que haviam pertencido ao mosteiro, com a condição de neles serem estabelecidas as várias repartições públicas estatais. E, durante décadas, a Câmara Municipal ocupou as velhas acomodações monásticas, que foram sofrendo sucessivas alterações para se adaptarem às exigências de uma instituição que, com o decorrer dos tempos, tinha a seu cargo cada vez mais obrigações e finalidades.

Câmara Municipal de Coimbra.jpg

Os Paços do Concelho nos meados do século passado

Andrade, C.S. Paços do Concelho - História dos Paços Municipais. Acedido em 2018.11.23, em
https://www.cm-coimbra.pt/index.php/municipio/municipio/historia-dos-pacos-do-concelho 

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por Rodrigues Costa às 11:22

Quinta-feira, 13.12.18

Coimbra: Regimento de Lagar de Azeite

No âmbito do trabalho que venho realizando no Arquivo Histórico Municipal de Coimbra deparei-me com um documento muito interessante.
Trata-se do Regimento de Lagar de Azeite que toda a pessoa, que tem Lagar he obrigado a ter na maõ do mestre que nelle estiver, documento impresso que integra uma pasta com o título Lagares de Azeite. 1515 e 1551. São 11 páginas devidamente numeradas que, na última, mostra, para além da data em que foi lavrado, o nome do “tabalião” que o escreveu ou que o mandou escrever: António Fernandes Tabalião … fiz escrever hoje a vinte hum de Mayo de mil quinhentos e cincoenta e hum annos.
Os problemas relacionados com esta atividade laboral, tanto quanto se sabe, começaram a ser debatidos pela vereação municipal em janeiro de 1515, data em que a Câmara reúne, a fim de resolver a questão da maquia a aplicar nos lagares de azeite e isto porque, face a uma determinação régia, devia voltar a ser cobrado um alqueire de azeite em cada 16, e não um por cada 10, como os donos pretendiam, ameaçando mesmo encerrá-los caso a sua proposta fosse preterida.
A edilidade decidiu fazer cumprir a decisão da coroa, mas a deliberação não foi pacificamente aceite, acabando por, no início do mês seguinte, ser eleita uma comissão que integrava representantes dos proprietários e do povo destinada a analisar e a responder às questões levantadas pela fixação da maquia a cobrar. No final desse mesmo mês de fevereiro as partes chegaram a acordo, comprometendo-se os senhorios dos lagares a não fazer convocamento e enduzimento [apropriação] sobre o maquiar dos azeites e aceitando-se a maquia de dez um, que havia sido inicialmente proposta.
No século XVI, Inofre da Ponte, a exercer então o cargo de tabelião municipal, reuniu as posturas, acordos e regulamentos camarários produzidos na muito nobre, e sempre leal Cidade de Coimbra, e seu termo, ao longo daquela centúria, no chamado Livro I da Correia.
No século XVIII o Regimento de Lagar de Azeite, que integrava aquele manuscrito, foi impresso, quiçá para mais facilmente poder ser distribuído pelos donos e mestres dos lagares. É este espécime que integra a já atrás mencionada pasta.
Na primeira metade do século XX Branquinho de Carvalho leu e fez publicar em letra de forma o quinhentista Livro I da Correia. Deve ter sido nessa altura que foi aposta, à margem, no frontispício do Regimento impresso em Setecentos uma nota manuscrita – penso reconhecer a letra daquele investigador conimbricense – a informar que se tratava de um Trasladado do Livro I da Coreia, fls. 2.

Regimento de Lagar de Azeite, fl. 1.JPG

Regimento de Lagar de Azeite, frontispício

No Regimento de Lagar de Azeite, impresso, como se referiu, no século XVIII, observam-se dois espaços em branco.
O primeiro surge no frontispício, após uma linha onde, em carateres impressos, se pode ler Passado na fórma delle e que devia ser completada com o nome do mestre do lagar, este manuscrito.

Regimento de Largar de Azeite, página 11.jpg

Regimento de Lagar de Azeite, página 11

O segundo espaço em branco, aparece na última página, após referir que o Escrivão da Câmara desta Cidade, e seu Termo (…) mandamos ao senhorio, ou qualquer outra pessoa, que tiver Lagar de azeite, ou o traga arrendado, ou por sua conta corra a administração dele, não mande lançar a moer o dito Lagar, sem que primeiro o mestre, que nele há de meter vir perante o Escrivão da Câmara (…) tomar juramento do dito ofício de mestre de Lagar, e mostrar sua carta de examinação do mesmo ofício, e juntamente ter este Regimento em seu poder (…) e para de todo constar vai a presente [cópia] por nós assinada, e selada com o selo da Câmara desta Cidade de Coimbra, que ante nós serve, e dado em ella aos [espaço em branco] de mil setecentos [espaço em branco] anos.
Pagou-se de assinatura deste vinte reis, e do selo des reis, e do feitio delle ao todo na fôrma do Regimento [espaço em branco] e eu
Ao selo [várias linhas em branco, a fim de o selo poder ser colado]

No corpo do Regimento encontram-se minuciosamente descritos todos os processos que deviam ser tidos em conta na feitura do azeite, os procedimentos a ser observados na produção e guarda do mesmo, bem como as ferramentas que o lagar devia possuir; não eram ainda esquecidas as coimas a aplicar no caso de incumprimento das normas enunciadas no texto.

Regimento de Lagar de Azeite relação dos lagares

Relação dos Lagares do termo, pormenor

No final, antes de o documento terminar, encontra-se, manuscrita e não impressa, uma relação dos Lagares do termo [de Coimbra], muito provavelmente ali inserida à data da publicação do Regimento.
A importância deste documento é mais do que evidente e não pode ser desprezado por todos aqueles que se mostram interesse pela história de Coimbra.

AHMC. Lagares de Azeite. 1515 e 1551

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por Rodrigues Costa às 19:25

Terça-feira, 13.11.18

Coimbra: O edifício número 70 da Rua da Sofia

Um leitor deste blogue – que não se identificou – colocou-me a seguinte questão: Um meu tio-avô, enquanto esteve a estudar na UC em 1890-91, viveu na R. da Sofia, n.º 70. Sabe-me dizer se se tratava de algum antigo colégio?
A resposta que lhe posso dar – muito atrasada no tempo, por lapso meu – passa pela afirmativa.

Com efeito, tratava-se do Colégio de S. Miguel que pertencia ao Mosteiro de Santa Cruz e se situava na Rua da Sofia. Ainda sem se encontrar terminado, em 1547, D. João III requisitou o edifício para ali poder instalar o recém-criado Colégio das Artes até que o edifício próprio, em fase de construção na Alta da Cidade, estivesse concluído.
Este imóvel, embora modificado, ainda existe na atualidade e nele, bem como no Colégio de S. Jerónimo que lhe ficava contíguo, funcionou, até 1986, ano em que se transferiu para as novas instalações erguidas lá para as bandas de Celas, o Hospital da Universidade de Coimbra.

O edifício do Colégio de S. Miguel, bem como o vizinho edifício do Colégio de Todos os Santos, no ano de 1566 foram entregues à Inquisição que, para os adaptar aos lamentáveis objetivos da instituição, os transfigurou, levando a cabo obras vultuosas. Mas disso falaremos na próxima entrada.
Para obter mais esclarecimentos sugiro a leitura das entradas aqui publicadas com os títulos:
- Coimbra: A Inquisição e as suas instalações 1 e 2;
- Coimbra: Rua da Sofia e os seus colégios 4

Não posso deixar de se referir um pormenor curioso.
No último andar do edifício número 70 da Rua da Sofia

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Edifício da Inquisição frente Sofia

existe esta varanda:

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Gradeamento da varanda

No Pátio da Inquisição está o seguinte edifício

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Edifício da Inquisição frente pátio

E nele existe esta varanda

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Gradeamento da varanda

Como se pode constatar as guardas das varandas são em tudo similares. Pertenciam ao edifício principal da Inquisição que tinha a frente voltada para o chamado Pátio da Inquisição e as traseiras para a Rua da Sofia.

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por Rodrigues Costa às 18:37

Quinta-feira, 20.09.18

Coimbra: Sé Velha, o retábulo-mor 3

O retábulo da Sé Velha de Coimbra, pelas suas dimensões, não apresenta a possibilidade de ser fechado, através de volantes, como era comum nos retábulos do Norte da Europa, o que contribuía para preservar as figuras principais do pó e do fumo, dado que estes se encontravam geralmente fechados, e só eram abertos em ocasiões solenes. A movimentação dos volantes tornou necessário elevar os retábulos acima da mesa do altar, tendo-lhe sido, por isso acrescentada uma predela, na parte inferior

… A predela do retábulo da Sé Velha é constituída por seis divisórias encimadas por baldaquinos finamente lavrados. Uma no prolongamento do pano central deste políptico, que se subdivide para albergar dois temas e quatro no prolongamento de cada uma folhas laterais, onde se dispõem os Evangelistas.

No lado direito, na divisória do meio, o Evangelista S. Lucas, em relevo de meia figura, tem a seus pés o boi, seu atributo, que combina, neste retábulo dedicado à Virgem, com outro dos seus atributos, o de retratista da Virgem. A pintura que se vê a executar está colocada num cavalete e voltada para os espectadores a quem é mostrada. Completa esta cena o seu auxiliar, que prepara as tintas, e que é curiosamente um negro. A inclusão deste elemento iconográfico que julgo única, neste tipo de retábulos, deve atribuir-se ao contacto que os artistas devem ter tido, entre nós, com escravos negros trazidos das costas africanas. A representação iconográfica de S. Lucas como retratista da Virgem foi utilizada com frequência pelos artistas flamengos, que assim contribuíram para a sua divulgação. 



Sé Velha «Evangelista S. Mateus», predela do re

 «Evangelista S. Mateus», predela do retábulo da Sé Velha de Coimbra

 A divisória que se situa no prolongamento da folha exterior do lado direito, é ocupada pelo Evangelista S. Mateus, que quase de costas no ato da escrita, molha a pena no tinteiro, que um anjo, seu atributo, à sua frente, lhe segura. Na folha central, do lado esquerdo, S. João, patrono dos escritores e dos teólogos, sentado numa cadeira ornada com motivos escultóricos, dedica-se à tarefa da escrita numa escrivaninha que lhe é apontada pelo bico da águia, que o simboliza, que está elegantemente colocada com as asas abertas e as patas assentes em livros.

Por último, o Evangelista S. Marcos, a escrever o Evangelho com o leão alado, o seu atributo, aos pés. Completam a predela, nas duas divisórias, que prolongam o pano central, o Presépio que, enquanto glorificação da Virgem, é subsidiário do tema central e que alude também à infância de Cristo. Neste caso, contrapõe-se à cena seguinte a Ressurreição de Cristo, símbolo de transcendência e de um poder sobre a Vida que só a Deus pertence, que é o tema principal do retábulo e que volta a repetir-se na estrutura de coroamento. A Ressurreição reflete a estética flamenga, quer na posição de Cristo com uma perna fora do sepulcro, quer na posição de terror dos soldados e nas suas armaduras.

A estrutura do coroamento é composta de duas partes, uma onde numa estrutura de marcenaria menos trabalhada se destaca a crucificação que aliás é comum encimar este tipo de retábulos. Ao centro, em posição mais elevada Cristo Crucificado, com um semblante de sofrimento e o tórax torneado a mostrar as costelas salientes e o ventre reentrante … Aos lados da cruz, em pé, à direita, a Virgem, e, à esquerda, S. João, a Mãe e o discípulo favorito. Completam este tema os dois companheiros do drama, o bom e o mau ladrão. 

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 «O Mau ladrão», retábulo da Sé Velha de Coimbra

À direita, o bom ladrão ergue o olhar para Cristo, à esquerda o mau ladrão com a cabeça pendente torce-se nas cordas. Seguindo a tradição do Norte da Europa não estão pregados na cruz, mas com os braços atados a esta... A estrutura de coroamento é ainda, neste retábulo, composta por outra parte que se liga directamente à estrutura arquitectónica do edifício românico. A da semi-cúpula absidal que foi, de uma forma bastante original, inteiramente coberta com uma estrutura de marcenaria semelhante a uma abóbada estrelada, prefiguração do espaço celeste, onde se representa o Juízo Final. Na chave central da abóbada o busto nu de Cristo Juiz, envolto em nuvens, com as mãos erguidas para deixar veras chagas e mostrar-se tal como morreu na cruz. Em cada um dos fechos da abóbada anjos tenentes seguram com as mãos veladas os instrumentos da Paixão que assumem o carácter de brasões de Cristo. Completa o coroamento, abaixo de Cristo Juiz, S. Miguel Arcanjo, o chefe da milícia celeste, que tem aqui como símbolos a lança e o estandarte.

Macedo, F.P. 1988. O Retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra. Separata das Atas do IV Simpósio Luso-Espanhol de História da Arte. Portugal e Espanha entre a Europa e Além Mar. Coimbra. Instituto de História da Arte. Universidade de Coimbra

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por Rodrigues Costa às 09:23

Quinta-feira, 13.09.18

Coimbra: Sé Velha, o retábulo-mor 2

Abaixo sob um baldaquino filigranado, dispõe-se a narrativa central de todo o retábulo – a Assunção da Virgem. Esta cena central constitui um conjunto muito característico da escultura do Norte da Europa. A Virgem está envolta numa auréola luminosa, espécie de nimbo de todo o corpo e mbolo de beatitude eterna. Apresenta-se em posição frontal, de pé sobre uma lua crescente, em atitude de oração. É uma figura de face gorda, cabelos frisados a cair pelos ombros e vestes de duras angulosidades, que está rodeada de anjos que a conduzem ao Paraíso. Aos pés da Virgem os Apóstolos, que vieram testemunhar a sua morte, dispõem-se num relevo em elevação e profundidade, aglomerados, cobrindo-se uns aos outros, gesticulantes, envoltos em roupagens de múltiplas pregas. elevando-se de um lado e do outro numa posição de equilíbrio. 

Sé Velha de Coimbra, retábulo-mor. Assunção da

 Sé Velha de Coimbra, retábulo-mor. Assunção da Virgem, pormenor

 … A Assunção da Virgem ocupa o pano central do políptico, que é duas vezes maior que os laterais, dois de cada lado, separados por contrafortes onde se abrem nichos, de diversos tamanhos, destinados a albergar esculturas de vulto, dentro de um espírito de horror ao vazio. Em cada um dos panos laterais, seguindo uma linha quebrada, dispõem-se sob baldaquinos, figuras de santos de vulto redondo. Os baldaquinos da folha seguinte à central que terminam num triangulo rendilhado albergam, o da direita S. Pedro de cabelos encaracolados, barba espessa e curta e vestes de pregas onduladas e com o manto levantado deixando ver os atributos, as chaves e o livro. O baldaquino da esquerda S. Paulo de fronte calva e barba longa e cujo manto é decorado com imitação de pedras incrustadas. Santos Universais que sustentaram os mesmos combates, que terão caminhado abraçados para a morte e que a Igreja festeja no mesmo dia. Nos panos seguintes, sob baldaquinos que terminam como se fossem uma coroa, os Santos Cosme e Damião, irmãos gémeos, que os hagiógrafos tornaram médicos e mártires. Santos milagrosos invocados pelos doentes de certas enfermidades e patronos dos médicos e farmacêuticos. Representados com barretes doutorais e com os seus atributos, o pote de unguento e o vaso das urinas.


«S. Jerónimo» - Museu Nacional Machado de Castr

 «S. Jerónimo» - Museu Nacional Machado de Castro – Coimbra


«S. Gregório» - Museu Nacional Machado de Castr

 «S. Gregório» - Museu Nacional Machado de Castro – Coimbra

 … Além destes Santos, outros deveriam ocupar nichos hoje vazios. No Museu Machado de Castro conservam-se três imagens de S. Jerónimo, S. Gregório e Santa Catarina que, muito provavelmente, pertencem a este retábulo. Pelas suas dimensões deveriam ocupar três dos seis nichos, situados nos contrafortes que delimitam os panos do políptico. Os outros três nichos deveriam ser ocupados pelos restantes doutores da Igreja, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e, hipoteticamente, por Santa Catarina que é muitas vezes associada a Santa Bárbara.

 Macedo, F.P. 1988. O Retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra. Separata das Atas do IV Simpósio Luso-Espanhol de História da Arte. Portugal e Espanha entre a Europa e Além Mar. Coimbra. Instituto de História da Arte. Universidade de Coimbra.

 

 

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por Rodrigues Costa às 09:48

Terça-feira, 11.09.18

Coimbra: Sé Velha, o retábulo-mor 1

O interior da Sé Velha de Coimbra revela a quem transpõe o seu portal. um contraste entre as pedras nuas e frias da construção do séc. XII e o brilho dourado do retábulo-mor que, como peça de ourivesaria, refulge no ponto para onde, invariavelmente, converge o olhar.

… O primitivo retábulo da capela-mor da Sé Velha de Coimbra, dedicado à Virgem, foi mandado executar … nos finais do séc. XII, e era composto por uma alma de madeira revestida a prata dourada.

Três séculos depois. o bispo-conde D. Jorge de Almeida não considerou este retábulo digno de uma Sé, com a ascentralidade e a importância da de Coimbra… [pelo que veio a propor] ao Cabido, em 1498, a construção de um novo retábulo para a capela-mor… sabe-se que o bispo contribuiu, de imediato, com uma determinada quantia e que o Cabido se lhe associou com vinte mil reis.

… Para o retábulo-mor da Sé Velha, optou … pelo gótico flamejante que a época considerava «moderno», por oposição ao novo estilo que se estava a introduzir que se denominava de «antigo» ou «romano».

… a Oliver de Gand e a outro artista, também flamengo, Jean d'Ypres, vai ficar a dever-se o sumptuoso retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra, hoje único entre nós, cuja data de início se desconhece, mas que deve ter sido concluído entre 1502 e 1508.

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 Sé Velha, retábulo-mor

 A individualização do trabalho e do estilo de cada um dos artistas que realizaram o retábulo da Sé Velha apresenta, também grandes dificuldades

Sé Velha retábulo da capela mor.jpg

 Sé Velha. retábulo-mor. Assunção da Virgem

 Conserva-se, felizmente, de Oliver de Gand e de Jean d'Ypres, o monumental retábulo de madeira dourada e policromada, nas formas exuberantes do gótico flamejante, que reveste completamente o fundo da abside da Sé Velha de Coimbra. Nele podemos individualizar um «Corpus», que constitui o centro narrativo e que ocupa a parte central da estrutura. O «Corpus» termina num dossel trilobado e abobadado com nervuras e um remate de cogulhos, cujo centro é ocupado por dois anjos que sustentam o brasão do bispo, encabeçado pela mitra.

 

Macedo, F.P. 1988. O Retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra. Separata das Atas do IV Simpósio Luso-Espanhol de História da Arte. Portugal e Espanha entre a Europa e Além Mar. Coimbra. Instituto de História da Arte. Universidade de Coimbra

 

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por Rodrigues Costa às 09:42

Quinta-feira, 26.07.18

Coimbra: O Pelourinho e as suas peregrinações pela cidade 2

Orgulhoso e altaneiro, bem cioso dos direitos que representa, o pelourinho não desvenda com facilidade a sua origem, mas verificamos que a sua existência se estendeu a toda a Europa ocidental, cronologicamente até à implantação das ideias liberais e que, nalguns países, ultrapassou mesmo esta época. Sabemos também que atravessou os mares e se implantou no Novo Mundo por influência de portugueses, espanhóis e ingleses.

Herculano pretende ver a sua origem associada ao direito itálico (jus italicum) que consignava uma total organização municipal e permitia levantar no forum a estátua de Marsyas ou de Sileno com a mão erguida, símbolo da liberdade burguesa.

Pinho Leal, filia a origem destes monumentos na columna moenia, colocada pelo cônsul romano Moenio na praça, isto é, no forum que se estendia frente à sua casa, onde se realizavam os julgamentos feitos pelos magistrados (triumviros), se aplicavam os castigos públicos e se faziam as festas populares.

Teófilo Braga vê no pelourinho a representação do Genius Loci romano, patrono da independência municipal.

Luís Chaves filia o aparecimento do pelourinho na antiga imagem do poste pessoal ou coletivo de um clã, de um povoamento ou de um agrupamento religioso.

Mas a sua origem, provavelmente, tem de se ir buscar em tempos ainda mais recuados.

Todas as picotas, mais ou menos esbeltas, mais ou menos ricas na sua decoração, têm um elemento comum: a coluna.

… Monsenhor Nunes Pereira, nos idos de Quarenta, escrevia que os pelourinhos “testemunham a autonomia (jurisdicional, digo eu) que a terra goza ou gozou noutros tempos. Devem ser estimados, conservados e reconstituídos onde isso possa fazer-se”.

*

 O pelourinho de Coimbra transferiu-se do adro da Sé Velha, onde se encontrava junto à Casa do "Vodo" (casa da audiência da Câmara que se erguia frente à igreja da Sé [Velha] para a praça do Comércio nos finais do século XV (1498).

Retirado deste lugar, deslocou-se para o Largo da Portagem (1611), tendo então sido adaptado a fontanário. Aí permaneceu até 1836, ano em que o desmontaram e armazenaram até 1894. 

Grimpa do pelourinho de Coimbra, original.jpg

Grimpa do pelourinho de Coimbra, original

 Do original resta apenas a grimpa, conservada no acervo do Museu Nacional de Machado de Castro.

*

Da sua reconstrução, ocorrida nos anos oitenta do século passado, posso dar testemunho.

Eu era, ao tempo, Chefe de Serviços de Turismo aos quais estava adstrito o Gabinete de Salvaguarda do Património, de que era responsável o arquiteto António José Monteiro.

Tendo sido determinado pelo então Presidente da Câmara, Dr. Mendes Silva, a recuperação da Praça do Comércio, na altura mais conhecida por Praça Velha, entendeu-se reinstalar ali uma reconstituição do Pelourinho, até porque ele, outrora, já estivera erguido naquele local.


Pelourinho de Coimbra na Portagem.jpg

 Pelourinho de Coimbra na Portagem

 

Baseado em desenhos que se pensam ser fidedignos, o arquiteto António José Monteiro riscou uma proposta reconstrutiva e o saudoso Mestre Pompeu Aroso bateu as partes metálicas, copiando-as do original, existente no Museu Machado de Castro. 

 

Pelourinho de Coimbra c.JPG

 Pelourinho de Coimbra reconstituição

 

Praça Velha com reconsituição do pelourinho.jpg

 

Praça Velha com reconstituição do pelourinho

 

 

Bibliografia

. Anacleto, R. 2008. Para que servem os pelourinhos? Conferência proferida nas I Jornadas de História local, Pampilhosa da Serra. Auditório Municipal, 2008.04.10 e 2008.04.11.

. Malafaia, E.B.A. 1997. Pelourinhos portugueses. Tentâmen de inventário geral. Col. Presenças de Imagens. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda.

. https://pt.wikipedia.org/wiki/Pelourinho_de_Coimbra. Acedido em 2018.07.17

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por Rodrigues Costa às 19:03

Terça-feira, 24.07.18

Coimbra: O Pelourinho e as suas peregrinações pela cidade 1

Oh, Pelourinho da Praça.

Travesseiro de quem ama.

Quantas vezes o meu amor

Lá terá feito a sua cama. (Quadra popular)

 

Os pelourinhos ou picotas, monumentos modestos e simultaneamente altivos, enxameiam Portugal de Norte a Sul e, desde sempre, atraíram sobre si as atenções de inúmeros estudiosos que, afora alguma pequena divergência, têm assumido uma enorme consonância quanto ao seu significado.

… Nas nossas aldeias, que se espalham a esmo por esse Portugal “quase incógnito”, frequentemente, são estas pedras velhas e enegrecidas de séculos o único elo que liga o presente com o passado; e se outras razões não houvesse, esta já nos permitiria chamar a atenção para a necessidade de preservar esses monumentos que se erguiam outrora, preferencialmente, frente à Casa da Câmara, ao palácio do Senhor, à Sé ou ao Mosteiro.

… “Ces poteaux [qui] auraient un charme trés grand” como afirma o Conde de Raczynski, não se podem considerar “padrões ou symbolos da liberdade municipal”, mas funcionavam como o sinal da jurisdição, da administração autónoma da justiça, face à autoridade central. …Os habitantes do aglomerado populacional deviam viver uns com os outros observando a ordem jurídica estabelecida e se algum, de entre eles, violava as normas, logo a assembleia municipal ou os seus magistrados … aplicavam justiça e faziam executar as penas em locais públicos, a fim de, pelo terror, impedir a repetição de atos criminosos.

… a de Coimbra [a Câmara] não lhe fica atrás: no titolo das coimas e das vynhas que se encontra no Livro da Correia e que foi coordenado em 1554, determinava-se que, quando o condenado não pudesse pagar a pena pecuniária esta fosse substituída por huma ora ao pee do pelourjnho, e desde as novas atee as dez horas com a fruyta com que foj tomado ao pescoço. A mesma Câmara, em novas posturas promulgadas em meados de seiscentos voltou a insistir na pena de exposição no pelourinho.

As Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas não se eximem de legislar no sentido da utilização do pelourinho como local do cumprimento de penas.

Folha do rosto das Ordenações afonsinas.jpg

 Folha do rosto das Ordenações Afonsinas

… Na opinião de Paulo Pereira, o pelourinho, lugar onde se aplicava a justiça, a partir do século XV, pode ter deixado de estar associado à execução judicial, porque passou a ser o local do costume, onde se fixavam alvarás e éditos, defendendo mesmo aquele autor que a picota vai perdendo o cariz prático e utilitário que lhe esteve na origem para, no reinado de D. Manuel, conhecer uma revitalização capaz de lhe permitir adquirir um carácter prioritariamente simbólico e artístico.

Na realidade, a análise da documentação existente permite constatar que as notícias de aplicação de penas nos pelourinhos foram escasseando paulatinamente. No entanto, no século XVIII, ainda encontramos referências à aplicação de açoites naquele local.

…Os pelourinhos são, na realidade, o símbolo da administração autónoma da justiça local ou da jurisdição feudal e o ponto onde os criminosos, expostos à vergonha pública, sofriam os castigos.

Instrumentos de tortura 1.jpg

 Instrumento de tortura 1

Instrumentos de tortura 2.jpg

Instrumento de tortura 2

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 Instrumentos de tortura 3

… A voz do povo também vem corroborar a nossa suspeição de que as picotas são verdadeiros postes de justiça. Não é verdade que frequentemente se ouve dizer: que venha a este pelourinho, ou então, hei-de levá-lo ao pelourinho?

… Pensa-se, por vezes, que o pelourinho desempenhava a dupla função de forca e de poste de castigo, mas, se assim fosse, não se compreenderia que os documentos aludissem de forma individual a estas duas estruturas e que permanecesse na toponímia a referência ao local onde a primeira se situava, sempre fora do centro populacional.

Em Coimbra, por exemplo, sabemos que o pelourinho, segundo uns, se encontrava na Portagem mesmo frente à cadeia e, se nos guiarmos por outras indicações, no largo da Sé Velha, mas a forca, essa estava implantada na zona da Conchada, onde ainda hoje existe a Ladeira da Forca.

… O pelourinho não servia apenas para nele se castigarem os delinquentes, mas também o pregoeiro aí dava publicidade a certos atos do concelho, o porteiro executava decisões de jurisdição civil ordenadas pelo alcaide e pelos outros magistrados, afixavam-se éditos, faziam-se até leilões; e, lá nos confins deste nosso Portugal, era ainda junto do pelourinho que o vizinho, quando recém-chegado da cidade ou de longínquas paragens para onde emigrara, contava as novas e punha a população em contacto com as realidades de um outro mundo em que eles viviam, mas do qual não faziam parte.

Bibliografia: . Anacleto, R. 2008. Para que servem os pelourinhos? Conferência proferida nas I Jornadas de História local, Pampilhosa da Serra. Auditório Municipal, 2008.04.10 e 2008.04.11. 

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por Rodrigues Costa às 09:29


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