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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 12.04.18

Coimbra: Café Santa Cruz, um café com muita história 1

No ângulo resultante da junção do Largo de Sanção com a rua das Figueirinhas, paralelamente à fachada da igreja do complexo monástico de Santa Cruz, foi erguida, por volta de 1530 a igreja de S. João de Santa Cruz.

Os monges agostinhos mandaram construir este templo, porque a capela do já não ativo Convento das Donas, situado no lado esquerdo da igreja de Santa Cruz, ou seja, dentro do perímetro espacial atualmente ocupado pelo edifício da Câmara Municipal de Coimbra, além de ser demasiado pequena para servir a paróquia do isento, encontrava-se mal-enquadrada, pois erguia-se entre dois edifícios de maiores dimensões.

Café de Santa Cruz. Antes x.jpgIgreja de S. João de Santa Cruz a ser utilizada para fins comerciais

Os frades encarregaram a sua feitura, como o estilo indica, a mestre Diogo de Castilho, bem seu conhecido por ter sido um dos responsáveis pela maior parte das alterações arquitetónicas do conjunto monástico levadas a cabo na época de D. João III.

Depois da publicação do decreto que suprimia as ordens religiosas, as conhecidas Leis da Desamortização, a paróquia passou a ocupar a igreja monacal, isto é, a igreja de Santa Cruz, e o templo onde se encontrava sediada a paróquia de São Joanina deixou de servir o fim para que fora construído.

A partir desse momento e até ter sido adaptado a café o espaço foi utilizado para várias finalidades e passou por esquadra de polícia, por estação de bombeiros, por estabelecimento de canalizações, por agência funerária, por casa de mobílias, por tasca e, até, por casa de habitação.

Reconvertido em Café-Restaurante entre os anos de 1921 e de 1923, o lugar manteve as suas principais características estruturais, nomeadamente a configuração da planta.

Café de Santa Cruz. Planta 02 x.jpgPlanta da Igreja de S. João de Santa Cruz

O plano apresenta a forma longitudinal, com nave retangular e capela-mor quadrangular. A primeira área mostra, a cobri-la, uma abóbada repartida por dois tramos com arcos cruzados e terceletes curvos, desenhando um quadrifólio.

Café Santa Cruz. Nave. Abóbada 02 x.jpgNave do edifício e abóbada da cobertura

 Remata a capela-mor uma abóbada estrelada, com nervura anelar que une os rosetões de ligação dos terceletes com as cadenas.

Café Santa Cruz. Capela-mor 01a x.jpg

Abóbada da capela-mor

 Nota – Nas três entradas que iremos publicar sobe este tema seguiu-se, em parte, o texto abaixo referido. No entanto, é de sublinhar que o mesmo foi enriquecido por outras fontes e diversas sugestões que nos foram feitas.

 

Alemão, G.C. 2004. Uma polémica acesa – o nascimento do Café de Santa Cruz. Trabalho apresentado no Seminário da Licenciatura em História da Arte, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (policopiado)

Academia (A), 12, Coimbra, 1923.05.20.

Despertar (O), 460; 469; 631 e 743, Coimbra, 1921.09.03; 1921.10.05; 1923.05.16 e 1924.06.21.

Gazeta de Coimbra, 1204; 1235; 1384; 1390 e 1445, Coimbra, 1921.09.13; 1921.11.26; 1922.11.30; 1922.12.14 e 1923.05.08.

Noticia (A), 79; 97; 98; 101 e 168, Coimbra, 1921.10.05; 1921.12.10; 1921.12.14; 1921.12.24 e 1923.05.24.

Restauração, 4; 23; 27; 30 e 34, Coimbra, 1921.07.07; 1921.11.22; 1921.12.24; 1922.01.19 e 1922.02.18.

 

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por Rodrigues Costa às 10:20

Terça-feira, 02.01.18

Coimbra: Retábulo-mor da igreja da Graça

Colégio de Nossa Senhora da Graça, de Eremitas Calçados de Santo Agostinho, mais conhecidos por gracianos. Fundado e dotado por D. João III, em 1543, já a igreja se encontrava pronta de arquitetura em 1555. Os frades gracianos foram os introdutores em Portugal do culto e das procissões dos Senhor dos Passos. Também em Coimbra se realizou esta procissão durante séculos, percorrendo as ruas da Baixa. Dela resta o passo da Verónica junto à igreja de S. Bartolomeu. Após a extinção das ordens religiosas foi a igreja entregue à Irmandade do Senhor dos Passos e a parte colegial ao Exército.

Na fachada da igreja sobressai o portal de linhas clássicas, encimado por um nicho com a escultura de Nossa Senhora do Pópulo, feita por Diogo Jacques, em 1543. O espaço interior ordena-se numa única nave abobadada e capelas nos flancos que comunicam entre si. Nestas se encontram interessantes retábulos da época rococó, mas é o retábulo-mor que imediatamente se impõe, preenchendo por completo a cabeceira da igreja. 

Nelson C Borges Ig. Graça.JPGIgreja da Graça, retábulo-mor

 Assenta num soco de cantaria, onde se podem ver alguns símbolos marianos, acompanhados de inscrições. Apresenta uma estrutura predominantemente arquitetónica com colunas emparelhadas que se sucedem em três andares, numa conceção ainda inteiramente maneirista. Porém a escultura começa a adquirir aqui o protagonismo que irá ter mais tarde na época barroca, no terço inferior das colunas, no remate retabular e na predela, onde figuram religiosos e religiosas da ordem. 

N.S.Graça.JPG

 Imagem de Nossa Senhora da Graça

Também no primeiro andar se abrigam em nichos esculturas de Nossa Senhora da Graça e de Santo Agostinho vestido de eremita, de boa proporção e execução. No centro deste primeiro corpo do retábulo vê-se ainda uma tela do século XIX, representando o encontro de Cristo com a Virgem no caminho do calvário. Oculta ou ocultou o trono eucarístico, ainda sem a monumentalidade que viria a adquirir em tempos posteriores. Toda esta alentada obra de talha e marcenaria deve datar dos anos imediatamente anteriores a 1644. O seu executor deverá ter sido o marceneiro francês Samuel Tibau.

            O segundo e terceiro corpo do retábulo servem de moldura a seis telas com a data de 1644, executas por Baltazar Gomes Figueira, constituindo o núcleo mais importante da sua obra conhecida e podem ser consideradas uma obra-prima. Baltazar Gomes Figueira fez a sua aprendizagem essencial em Sevilha, onde absorveu a linguagem naturalista que se observa nestas suas telas. Ao tempo deveriam ter sido novidade e motivo de admiração numa cidade ainda presa ao formalismo maneirista. Transmitiu também o gosto pela pintura a sua filha Josefa de Óbidos que, em fama, acabaria por ultrapassar o pai.

            No segundo corpo do retábulo podemos admirar a “Imaculada Conceição”, o tema central da “Anunciação” e o “Nascimento da Virgem”; no terceiro, a “Visitação”, a “Coroação” e o “Repouso na fuga para o Egipto”. São cenas encantadoras, de desenho seguro e tonalidades diversificadas, infelizmente escurecidas pelo tempo. Os gracianos quiseram aqui prestar culto e homenagem à sua padroeira e conseguiram-no de uma forma superior.

O retábulo da Graça é o mais mariano e um dos mais monumentais de Coimbra e deve continuar a suscitar admiração e veneração.

Borges, N.C. 2017. O retábulo-mor da igreja da Graça, em Coimbra. In Correio de Coimbra, n.º 4672, 14.12.2017.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quinta-feira, 14.12.17

Coimbra: Claustro de Celas

É tão surpreendente a igreja de planta redonda do mosteiro cisterciense de Celas que quase ofusca a beleza do claustro e a originalidade da sua fonte central, cavada e escondida.

Celas claustro.jpg

 Convento de Celas, claustro

Mas neste quadrado ao ar livre, pouco estudado e ainda menos visitado, surge-nos, na fonte, o fascínio renascentista pela geometrização dos espaços. A disposição em planta do claustro, que se liga à igreja redonda, é o resultado criativo deste esforço de arrumação dos elementos construídos, deixados pela Idade Média neste ermo distanciado de Coimbra, conhecido por Vimarães.

Uma vez dentro do próprio claustro votamos a ter novo atrativo que desvia a atenção da fonte central: são os extraordinários capitéis, minuciosamente esculpidos e pintados com as cenas da vida de Cristo, cuja datação dos séculos XIII a XIV é insegura, mas que vieram do Paço Real da Coimbra, oferecidos por volta de 1533, por D. João III.

Celas Claustro fonte.jpg

 

Convento de Celas, fonte do claustro

 ... A originalidade da fonte reside no facto de ela estar afundada e mal se ver, apesar de respeitar a quadripartição por eixos e se encontrar no centro exato do claustro. De facto, a fonte redonda está abaixo  do plano do claustro e a ela se acede por escadas que descem cerca de 1,5 metros «Ao centro do jardim cava-se um tanque circular para onde se desce por quatro escadas de sete degraus dispostas segundo os eixos do claustro. Uma inscrição esclarece: ESTE . CHAFERIS . MANDOU / REIDIFECAR . A ILMª . SNRª . D / THEREZA . LUIZA . RANGEL . / SENDO . SGDª . VES . ABBADESA / DESTE MOSTRº . NO ANNO / DE 1761».

O espaço criado forma um cilindro e isola-se visualmente de quem está no claustro, oferece bancos redondos de pedra em circunferência assim criada, que escondem ainda mais quem neles se senta. A taça de água redonda com cerca de 40 centímetros de altura é cilíndrica e, do seu centro, a que corresponde também o centro geométrico do claustro, sai um repuxo. O conjunto não tem um único ornamento. Esta invenção pode ser uma simples resposta ao nível da água que se encontra, de facto, a 1,5 metro abaixo da cota do claustro com uma mina visível numa das paredes em arco deste cilindro vazio.  

Esta simplicidade revelou-se esteticamente genial: o desenho afundado, num claustro tão pequeno, aduziu-lhe a terceira dimensão, mas em negativo; conseguiu dar o efeito de espaço redobrado e, sem qualquer ornamento, consegue animar as paredes e as formas com efeitos de sombra projetadas nos degraus e nas paredes concavas. Interrogamo-nos, então, se este jogo de geometria a três dimensões e a total ausência de ornamento chegarão para confirmar o traço de um bom artista do Renascimento?

... Resta-nos assim apresentar – reconhece-se que um pouco a medo – a hipótese de poder ter sido João de Ruão o imaginário da fonte do claustro de Celas. 

Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 175- 177

 

 

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por Rodrigues Costa às 08:55

Quinta-feira, 07.12.17

Coimbra; Mosteiro de Santa Cruz, os claustros que haviam

D. Manuel I mandou reconstruir o Claustro do Silêncio, já na altura com quatrocentos anos. Durante cinco anos (de 1517 a 1522) o arquiteto Marcos Pires refez os arcos e o deambulatório, reservando para um canto uma fonte triangular, cuja taça mais parece medieval por tão simples e sólida.

Santa Cruz claustro.jpgClaustro do silêncio

Todo o espaço do claustro se submete a uma geometria simples de cinco arcos em cada lado, mas os motivos vegetais e as cordas estilizadas, que na Idade Média se concentravam nos capitéis, revestem agora por completo as três colunas de cada arco, sobem ao fecho das abóbadas do deambulatório e desdobravam-se em frisos à volta da fonte triangular que ocupa o canto sudoeste.

Não admira que ao entrar no Claustro do Silêncio se reconheçam, em espaço menor, as mesmas formas, penumbras e ambiente do claustro dos Jerónimos; as plantas, frutas, cordas e ramos talhados em pedra vieram trazer o manuelino ao mais antigo monumento de Coimbra... A fonte central ... pertence já a um período distante do manuelino: foi encomendada ... ainda durante o domínio espanhol, sendo, no entanto, encimada por uma estátua que segura o escudo nacional.

 

Claustro da Manga.jpg

 Claustro da Enfermaria ou da Manga

 A D. Manuel I se deve, também, a decisão do aumento do convento em redor de um novo claustro: o claustro da Enfermaria, ou da Manga, que hoje não conhecemos como claustro, mas onde uma fonte de traça tão arriscada quanto bela marcou – esse sim – o seu centro; peça inigualável da nossa arte paisagística do Renascimento, nela convergem a inovadora pureza de traços e o uso da água em grande espelho, sobre o qual se eleva um pavilhão abobadado. Um repuxo ao nível do chão marca o centro geométrico de toda a construção, e cai sobre uma taça circular encastrada no pavimento. Para chegar a este pavilhão-ilha, quatro pontes nos eixos do claustro conduzem a quatro degraus que elevam a construção central e reforçam a terceira dimensão do claustro.

A data da feitura desta obra é conhecida: entre 1553 e 1534 foram feitos pagamentos a Jerónimo Afonso, o empreiteiro, e a João de Ruão, o “imaginário”. Em 1589,o castelhano Frei Jerónimo Logroño, percorreu o país, fazendo-lhe referência: (...) o pátio deste claustro não é de lajes ou jardim, mas sim de água, embora não faltem pedra e verdura para a perfeição da obra / O centro está ocupado por uma fonte, de tão raro gosto que quase nem sei descrevê-la, isolada entre quatro pomares, separados por canais que enchem tudo de frescura / Quatro escadas de pedra, ricamente lavrada, cada qual de sete degraus, acompanhada de bestiães esculpidos. Conduzem a um soco oitavado muito perfeito e galante, sobre o qual se levanta uma fonte de grande artifício, porque a água que cai dela sobre os tanques, recolhe-se por canos secretos e assim corre a água continuadamente, sem que se saiba de onde vem, nem para onde vai / Em volta, sobre a água, erguem-se quatro capelas redondas, abobadadas, lavradas primorosamente, de mui formosa pedra, a que chamam as Ermidas, aonde os religiosos vão orar quando querem; e para a sua tranquilidade, o que se recolhe levanta uma ponte levadça que há para entrar, a qual serve ao mesmo tempo de porta, e ali se conserva o tempo quen lhe parece.

Claustro da Manga (2).jpg

 Claustro da Enfermaria ou da Manga na atualidade

... Por altura do restauro efetuado em 1957 ... quando se abriu a rua a norte, reduziram-lhe a dimensão total e a dos lagos, ficando só a notável escultura de João de Ruão, apertada entre os edifícios e amputada do seu espelho de água.

 Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 171-173

 

O terceiro claustro – o Claustro das Limeiras – estava localizado junto à portaria do convento e foi destruído aquando da construção dos Paços do Concelho, na área hoje ocupada, grosso modo, pelo átrio de entrada.

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:30

Terça-feira, 28.11.17

Coimbra: Rua da Sofia, ou o porquê do surgimento desta rua 2

A primeira referência à intenção de abertura da Rua da Sofia surge numa carta régia, de 17 de Abril de 1535 ... Nela ficou clara a intenção e o partido topográfico-urbanístico da iniciativa. De 20 de Março de 1538 é o primeiro documento onde surge a sua designada extensa: «Rua de Santa Sofia». Trata-se de um dos contratos com que nesse mês e no seguinte se fizeram as cedências para construções de casa na sua frente poente ... Nesses contratos ficam expressos não só a obrigação de construir num curto espaço de tempo uma «arquitetura de programa» desenvolvida em três pisos, mas também outras normas com vista a assegurar a sua regularidade formal - «a formuzura».

A construção de casas foi lenta, tendo sido frequente a reversão dos lotes e a sua revenda.

... Tanto quanto até hoje foi possível apurar, o plano inicial para a nova rua era bem simples e regular. O seu traçado conjugou as condicionantes impostas pela topografia com um alinhamento sobre a frente colegial do Mosteiro de Santa Cruz, escamoteando a igreja.

... Um dos lados da Rua da sofia, o nascente arrimado a Montarroio, foi destinando à instalação de colégios... O outro lado da Sofia destinava-se à construção de casas, prioritariamente para professores, mas também para estudantes e funcionários, regra depois completamente ultrapassada.

Rua da Sofia esquema programático.jpg

Rua da Sofia, diagrama do esquema compositivo e programático (executado por Sandra Pinto)

 ... Interessante e disciplinarmente relevante é o rigor geométrico-compositivo com que, tudo o leva a crer, o conjunto foi planeado. Ainda que na execução se não tenha caprichado tanto e algumas preexistências tenham imposto ajustamentos. Para tal terá sido usado um módulo quadrado com 6 braças (13,2 metros) de lado. Para cada colégio, num total previsto de cinco, foram deixados cinco módulos de frente e quatro de fundo, o que, com o módulo para a largura da rua, perfaz quadrados de 5x5 módulos.

... No fundo, o sistema previra 5+1 propriedades de 5x4 módulos de base 6 braças, tendo ainda mais quatro módulos de fundo.

... As igrejas eram o interface com o público de três dos quatro colégios ... o mais inovador e coerente espaço dos colégios universitários da Rua da Sofia reside nos seus claustros de dois pisos. Nele podemos encontrar a evolução portuguesa para o apuramento de um tipo que já não é o do «horto conclusus» medieval, mas sim o elemento central de composição e de distribuição da arquitetura e da vida comunitária.

Rua da Sofia excerto da gravura Hoefnagel.jpg

 Rua da Sofia, excerto da gravura de Coimbra de Georg Hoefnagel, c. 1567

 Um dos aspetos que tem sido menos valorizado no processo e realidade da Rua da Sofia é o facto de a sua abertura ter consistido numa ação urbanística verdadeiramente revolucionária para o urbanismo da cidade, em especial por ter ocorrido no momento em que a lenta, mas inexorável, subida do leito do Mondego ditava uma cada vez mais frequente e perniciosa invasão das suas margens... Quando as águas invadiam o Arnado, a já de si apertada e única saída norte da cidade, a Rua Direita, ficava intransitável.

A abertura e nivelamento da Rua da Sofia, implicaram a remoção de um considerável volume de aterro, o reacerto dos acesos a Montarroio ... A «rua nova» desde logo se constituiu coimo novo aceso norte da cidade, vendo erguida no seu extremo torre e porta com funções aduaneiras e de instauração de quarentenas, a Porta de Santa Margarida. 

Rossa, W. A Sofia. Primeiro episódio da reinstalação moderna da Universidade portuguesa. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg.19-22

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por Rodrigues Costa às 11:58

Quinta-feira, 23.11.17

Coimbra: Rua da Sofia, ou o porquê do surgimento desta rua 1

A pedra de toque da reforma do ensino empreendida por D. João III, nas décadas de 1530 e 1540, foi a criação de um nível propedêutico à universidade para o ensino das Artes.

... Numa fase prévia ... assistimos à consubstanciação planeada das novas instalações universitárias na Baixa de Coimbra dentro e a partir do Mosteiro de Santa Cruz. Depois, já no curso assumido da reforma, esse processo deu lugar ao estabelecimento da universidade em ensanche segundo uma «rua nova», a de Sofia, mas também à súbita necessidade de se ocuparem estruturas preexistentes na alta e de para ali se planear a ocupação de terrenos vagos, designadamente em todo o setor nordeste. Em Outubro de 1537, meio ano após a transferência de Lisboa para Coimbra, o rei decidiu que, afinal, a Universidade propriamente dita – os «estudos« ou os «gerais» - ficavam na Alta e que na «rua nova» da Baixa se fixariam colégios de religiosos e habitações.

No lugar inicialmente previstos para os «estudos», à cabeça dessa «rua nova», acabariam por se erguer os colégios crúzios de S. Miguel e de Todos os Santos, que, em 1544, sofreriam, por sua vez, uma profunda reforma com vista a albergarem a instituição propedêutica laica, o Colégio das Artes... O desenvolvimento e a consolidação do «campus» («avant-la-lettre») na Alta, a necessidade de instalações maiores para o Colégio das Artes ... acabaram por determinar a mudança do Colégio das Artes da Sofia, primeiro (1566) para o Colégio da Companhia de Jesus, depois para o edifício próprio iniciado em 1568.

... Pouco mais de três décadas depois de ter sido concebida como expoente urbano, urbanístico e até ideológico da reforma e concomitante instalação da Universidade em Coimbra e após ter sido reformada em sede dos estudos propedêuticos, a Rua da Sofia acabou relegada para um desempenho urbano distante do conceito e programa de «campus» universitário que a determinara.

Rua da Sofia ortofotomapa.jpg

 Rua da Sofia, ortofotomapa com a localização dos colégios

 ... Em rigor, a universidade nunca chegou a estar na Rua da Sofia, ainda que para tal tenha a rua sido aberta. Isso faz com que para um qualquer processo de avaliação patrimonial ou de valoração nos domínios da teoria e história urbanísticas, o seu programa original e a sua expressão material atual primeiro se devam isolar para então se lerem em conjugação. A Rua da Sofia vale mais pela sua materialidade arquitetónica e urbanística, pelo seu papel de ensanche de uma cidade atrofiada, pelo seu longo e rico processo de transformação sedimentada, do que pelo frustre plano funcional e ideológico que determinou a sua conformação, mas acabou longe de concretização plena.

Rossa, W. A Sofia. Primeiro episódio da reinstalação moderna da Universidade portuguesa. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 16-19

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por Rodrigues Costa às 08:11

Quinta-feira, 16.11.17

Coimbra: Colégio dos Grilos ou de S. Rita

Era dos «Eremitas descalços de St.º Agostinho», que fundaram este seu Colégio universitário em 1755, dando-lhe, como titular da pequena igreja, S.ª Rita de Cássia.

Construíram um bom e amplo edifício, ao cimo do sítio denominado Palácios Confusos, na escarpa ocidental do monte onde assenta a Universidade, e muito próximo desta; local magnífico, com belas e dilatadas vistas para Ocidente, estendendo-se pelos campos e colinas dos arredores de Coimbra.

Colégio de S. Rita ou dos Grilos porta.jpg

 Colégio de S. Rita ou dos Grilos, portal e fachada meridional

 Em 1785 ainda não haviam sido dadas como conclusas as obras de construção, embora já de há muito ali vivessem os colegiais. A 3 de setembro deste ano... adquiriram e consolidaram o seu domínio direto com o útil, das três moradas de casas, cuja compra haviam ajustado ... para a construção da sua igreja.

Colégio de S. Rita ou dos Grilos fachada.jpg

 Colégio de S. Rita ou dos Grilos, fachada ocidental

O povo denominava os eremitas descalços - «Grilos»... Aquele apelido, um pouco extravagante, vinha do nome da quinta, perto de Lisboa, onde tinham a sua sede.

... Primavam os «grilos» pelo seu carater modesto, pacifico, bondoso, que os tornava muito simpáticos ao povo, e no meio universitário, sem contudo deslustrar ou prejudicar os seus merecimentos e reputação de muito eruditos e sábios, e de pedagogos distintos. Apesar de ser curta a história deste Colégio, pois não chegou a ter oitenta anos de existência apontam-se com veneração e elogio os nomes de alguns dos seus frades.

...Pela extinção dos Colégios em 1834, e expulsão dos seus colegiais, não ficou o edifício abandonado, como sucedeu a quase todos. Instalou-se logo ali a autoridade administrativa distrital, que veio depois a chamar-se Governador Civil, com as repartições respetivas.

Mas não foi prolongada essa aplicação... Transferiu-se para lá em breve a Administração geral do distrito, e o edifício foi entregue à Universidade... 27 de outubro de 1836. Passou a ser arrendado a uma república de estudantes ... Decorridos anos, o Governo mandou-o vender, avaliado em 5.600$000 reis, base de licitação. Realizou-se a praça a 27 de Abril de 1844.

Posteriormente, neste Colégio funcionou até à construção da sua nova sede, a Associação Académica de Coimbra.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 280, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 11:44

Sexta-feira, 10.11.17

Coimbra: Colégio de S. Boaventura (2.º) ou dos Pimentas

Quando os franciscanos da regular Observância da província de Portugal («Venturas«) abandonaram, em 1616, o seu Colégio de S. Boaventura, na rua da Sofia... nele permaneceram instalados os religiosos de outro ramo da mesma Ordem, os «Franciscanos da Província dos Algarves», que já ali viviam, havia trinta anos, em companhia daqueles.

Colégio de S. Boaventura.JPG

 

 Colégio de S. Boaventura 2, adaptado a residências e estabelecimentos comerciais

Desde a referida data de 1616 em diante, é que este começaram a o Colégio de S. Boaventura, da rua da Sofia, como privativamente seu; desde então é que se pode contar, em o número dos Colégios universitários, o 2.º Colégio de S. Boaventura, pertencente aos «Pimentas», nome por que eram designados os religiosos desta província, distinguindo-se assim dos «Venturas». Os hábitos, que trajavam, também eram distintos dos destes, não no corte ou feitio, mas na cor. Usava-nos os «Venturas» de cor acastanhada, e cingiam-se com cordão de linho cru; os Pimentas tinham hábitos pretos e cordões amarelos.

Colégio de S. Boaventura 2 planta meados séc. XI

 Colégio de S. Boaventura 2, planta de meados do séc. XIX

 

Em 1715... foi reconstruído o velho edifício colegial, que se encontrava muito arruinado, ficando então na forma que manteve até 1834.

A igreja era pequena, como ainda hoje se pode verificar-se, mas elegante e muito asseada, e tinha três altares.

... Foi o edifício colegial abandonado em 1834, como os restantes... vendido em hasta pública... pela quantia de 1.201$000 reis, no dia 14 de maio de 1859.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 269-270, do Vol. I

 

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por Rodrigues Costa às 21:58

Terça-feira, 24.10.17

Coimbra: Colégio de S. Agostinho 3

O estuque como arte decorativa tem vindo a ser utilizado ao longo dos séculos nas ornamentações de palácios e igrejas de todo o Portugal, não só como simples base de pintura mas também como elemento principal, adaptando-se à diversidade das linguagens e de critérios decorativos que coexistem nos vários polos artísticos.

... Ao nível decorativo destacam-se (no Colégio da Sapiência) os revestimentos azulejares seiscentistas e setecentistas e as decorações seiscentistas em estuque relevado.

Colégio de S. Agostinho claustro ornamentação 2

Colégio de S. Agostinho claustro ornamentação

 A zona do claustro, como espaço orientador da construção, terá sido a primeira parte a ficar construída (1596 é a data inscrita numa cartela do claustro); no entanto a decoração em estuque relevado das abóbadas da galeria terá sido executada mais tarde, por volta de 1630, aquando da ornamentação da igreja.

A decoração em estuque realça o jogo de cheios/vazios da galeria, reforçando o ritmo da arquitetura, marcado pelos arcos da cantaria e pela alternância de dois tipos de abóbada.

... O jogo cromático utlizado – vermelho, ocre e pedra – reforça também o esquema decorativo.

Colégio de S. Agostinho igreja estuques 1.jpgColégio de S. Agostinho igreja estuques 1

Em relação à igreja encontramos uma decoração muito complexa. Embora os primeiros professores e clérigos tenham entrado em 1604, só por volta de 1630 é que foram terminados os dormitórios altos, que se encontravam por cima da igreja, e foi efetuada a decoração desta (a igreja foi sagrada em 5 de Maio de 1637).

Colégio de S. Agostinho igreja estuques 2.jpgColégio de S. Agostinho igreja estuques 2

 ... A decoração da abóbada é composta por ornatos de grandes dimensões, muito salientes em relação à linha média da abóbada, cruzando-se em dois níveis diferenciados. No nível principal, que marca os eixos da capela, salienta-se o relevo de Santos Agostinho e, em seu redor, simbologia agostinha; num segundo nível de ornatos, florões e pontas de diamante.

... Face à qualidade de execução dos ornatos deste teto, principalmente das cartelas e dos baixos-relevos, quem aqui trabalhou foi alguém já com experiência neste género de trabalho, conhecimentos sólidos de tratadística e grande domínio da arte escultórica.

Silva, H. Estuques maneiristas do Colégio de Santo Agostinho ou da Sapiência. Apontamentos para o seu estudo. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 76-85
 

 

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por Rodrigues Costa às 20:46

Quinta-feira, 19.10.17

Coimbra: Colégio de S. Agostinho 2

Foi longo o processo de maturação que, no Mosteiro de Santa Cruz, haveria de conduzir à construção do Colégio de Santo Agostinho que sobrevive... Num ambiente de contenção financeira sempre denunciada pelos cronistas, apenas do Capitulo Geral de 1569 «se comessou a tratar da mudança do nosso Collegio apartado do Convento de S. Cruz» a despeito de todos os obstáculos movidos pelo bispo de Coimbra, contra a eventualidade de que o «Collegio se apartasse do Convento de S. Cruz e se edificasse nas cazas de João de Ruão, que he o mesmo sitio onde depois de muitos annos o fundou» ... no local encostado à muralha, onde, aliás, já anos antes o mosteiro se tinha preocupado em alargar através de compras e trocas de terrenos.

... Tradicionalmente... o edifício do Colégio de Santo Agostinho anda atribuído a Filipe Terzi, mas, intencionalmente ou não, os cronistas nem sempre têm acertado nas atribuições que fazem ... a presença frequente de Jerónimo Francisco em Santa Cruz indicia uma ligação que parece apontar para a hipótese de uma fortíssima contribuição no problema construtivo que, nesta data, mais afetaria os crúzios: o colégio novo.

Colégio de S. Agostinho pulpito.jpgColégio de S. Agostinho igreja púlpito

A estrutura colegial, que sobrevive às transformações posteriores e ao violento incêndio de 1967, ajusta-se à especificidade do terreno ocupado, com a linha da fachada poente assentando os alicerces no antigo pano da muralha da Almedina.

A igreja e o claustro dinamizam o espaço onde se encontraram a estabilidade e o equilíbrio para fornecer aos colegiais um percurso ordenado e inteligível. Tanto quanto é possível apurar pelas plantas do edifício, e depois das reformas do século XIX para albergar o Colégio dos Órfãos, a Misericórdia e, recentemente, a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, a nota mais dissonante à normal constituição dos espaços colegiais é dada pela presença do corredor que estabelece a ligação entre o portal (aberto em 1859) e o claustro (desembocando no ângulo sudoeste), protegendo a entrada principal da igreja e provocando a formação de uma ala com diversas dependências, onde se instala, agora, a Misericórdia.

Colégio de S. Agostinho claustro.jpgColégio de S. Agostinho claustro

... Inteiramente nova na cidade é a conceção plástica que envolve o claustro retangular datado de 1596.

Craveiro, M.L. O Colégio da Sapiência, ou de Santa Agostinho, na Alta de Coimbra. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 68-71

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por Rodrigues Costa às 22:19


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