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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 10.12.19

Coimbra: Peças levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

Numa entrada publicada há algum tempo que teve por base uma comunicação da Senhora Dr.ª Ana Paula Machado, Conservadora no Museu Nacional de Soares dos Reis, do Porto, abordava a existência de uma série de 24 placas de esmalte pintado “subtraídas” ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Prometi, então, voltar a este tema.

Cena da Verónica.jpg

Cena da Verónica, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado

A razão dessa promessa decorreu de, na referida publicação, essa série de placas ser classificada como datando do 1.º terço do Século XVI e como sendo uma das séries sobreviventes mais completa pelo que constitui hoje uma referência incontornável entre as suas congéneres europeias; mais à frente, a autora refere que este conjunto não encontrou na última revisão de programas e percursos do Museu Soares dos Reis, enquadramento adequado, estando presentemente em reserva.
Quer isto dizer, traduzindo para uma linguagem entendível por não especialistas, que as referidas peças estão, há largos anos, devidamente acondicionadas e guardadas, longe dos olhares do público.
Confesso que, ao aperceber-me desta situação, senti uma grande revolta, tendo mesmo escrito uma petição, dirigida ao Ministério da Cultura, que teria d ser, obviamente, apoiada pelo Bispado e pela Câmara de Coimbra, no sentido de solicitar o regresso das referidas placas, ora acondicionadas num qualquer caixote, ao local de onde haviam sido retiradas, isto é, ao Santuário do Mosteiro de Santa Cruz.

Acabei por arquivar a petição, porque já não acredito na eficácia desta forma de participação cívica.
Sinceramente, por esta e por outras razões similares, estou cansado de lutar contra os moinhos de vento da ignirância, do imediatismo da política e do desinteresse dos decisores políticos – de todos os quadrantes – pela nossa história, pelo nosso património e pela nossa cultura.
Peço desculpa pelo meu desabafo.

Em ordem a este tema pretendo hoje chamar a atenção para um estudo – a que voltarei – de Rocha Madail, e no qual colhi as seguintes informações:

casa das reliquias de Santa Cruz.JPG

«Casa das reliquias» de Santa Cruz

Os esmaltes, que o próprio Diretor interino da Academia de Belas Artes do Porto em 1864 aceitava «terem estado na banqueta do Altar do mesmo Santuário» de Santa Cruz de Coimbra, são vinte e seis preciosíssimas laminas de cobre esmaltado com viva policromia e ouro, medindo 8x10 cm cada, agrupadas em políptico sobre tabuleiro de madeira, e representando cenas da vida de Cristo.
Trabalho das célebres oficinas de Limoges da primeira metade do século XVI, o seu finíssimo desenho segue muito de perto outros tantos passos da coleção conhecida por «pequena Paixão de Cristo», de Albrechr Durer.
Joaquim de Vasconcelos ocupou-se deles no fasciculo 9 da «Arte Religiosa em Portugal», e o Sr. Dr. Armando de Matos dedicou-lhe desenvolvido estudo de identificação em 1934 na revista «Museu»; por informação que então lhe fornecemos, extraída do presente inventário, já nessa data ficou incontroversamente regista a sua proveniência, que Joaquim de Vasconcelos suspeitava ser a «casa das reliquias» de Santa Cruz.

Igreja de Santa Cruz. Santuário 06.jpg

«Casa das reliquias» de Santa Cruz, pormenor 1

 

Igreja de Santa Cruz. Santuário 06 a.jpg

«Casa das reliquias» de Santa Cruz, pormenor 2

Fico com a esperança de que este meu lamento incentive outros, mais jovens e com mais força, a lutarem pela devolução das peças ao local de onde nunca deviam ter saído.

. Madail, A. G. R. 1938. Inventário do Mosteiro de Santa Cruz à data da sua extinção em 1834.
. Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

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por Rodrigues Costa às 10:39

Quarta-feira, 20.11.19

Coimbra: Igreja de S. Bartolomeu

É a igreja de S. Bartolomeu talvez a de mais antiga história na cidade. Já existia em 957, pois, em 2 de novembro desse ano, foi doada ao mosteiro de Lorvão pelo presbítero Samuel, por mando do presbítero Pedro, em risco de morrer. Antes tinha sido dedicada a S. Cristóvão. A doação incluía também a igreja de S. Cucufate, com todas as suas vinhas e hortas que se encontravam em redor. O grande chefe mouro Almançor conquistou e arrasou Coimbra em 987. A igreja de S. Bartolomeu não deve ter sido poupada, pois que a vemos novamente doada a Lorvão em 1109, o que indica reconstrução. A doação de 1 de janeiro de 1109 é feita pelo presbítero Aires e nela são citados os ornamentos, móveis e imóveis.
Estas primitivas igrejas, cujos vestígios arqueológicos se encontram sob o pavimento da atual, depois de escavações levadas a cabo em 1979 e 1980, mas nunca publicadas, tinham entrada para poente e não para o lado da praça. No século XVIII a igreja ameaçava ruir, pelo que em 5 de junho de 1755 se fez a trasladação do SS. e das imagens de Cristo e Nossa Senhora para o antigo Hospital Real, donde passaram para a Misericórdia, iniciando-se de imediato a demolição do velho edifício românico. A primeira pedra da igreja atual foi lançada em 16 de julho de 1756, sendo arquiteto Manuel Alves Macomboa.

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea

A planta do novo edifício é de grande simplicidade, articulando em retângulo a nave com a capela mor. Amplas janelas inundam e unificam o interior de uma luz homogénea, bem característica da época rococó em que se fez a reedificação.

Igreja de S. Bartolomeu. torre sineira.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, torre sineira

A fachada enobrece o topo da praça, com suas duas torres sineiras coroadas de fogaréus e cúpula bolbosa. No século XIX construíram a casa da esquina com a rua dos Esteireiros, que lhe rouba parte da monumentalidade. O portal é ladeado por colunas dóricas onde assenta uma varanda de balaústres em forma de vaso chinês, diferentes dos da balaustrada que une as duas torres.

Igreja S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos lateIgreja de S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos laterais

O interior é sóbrio apenas se destacando as cantarias dos púlpitos, portas, janelas e arcos das capelas. O arco da capela-mor é em asa de cesto, sobre entablamento peraltado, assentando em pilastras mais cuidadas. O retábulo-mor domina todo o espaço, captando a atenção. Foi executado pelo notável entalhador de Coimbra João Ferreira Quaresma, contratado em 20 de dezembro de 1760, com a obrigação de consultar o arquiteto Gaspar Ferreira, para que ficasse como o de Santa Cruz. A fortíssima impressão causada pelo retábulo de Santa Cruz fez dele o pai de imensa prole que se estendeu de Coimbra a todas as Beiras, originado o estilo do rococó coimbrão. O mesmo João Ferreira Quaresma executou as cadeiras do coro e os arcazes da sacristia. O retábulo tem dois pares de colunas por banda, sobre alto embasamento. O coroamento, em frontão interrompido, de elaboradas formas, abriga glória solar ladeada de anjos com palmas. Marmoreados e dourados dão realce a todo o conjunto e emolduram a boca da tribuna, preenchida com uma tela de Pascoal Parente, representado o martírio de S. Bartolomeu.

Igreja de S. Bartolomeu. capela lateral do SagradoIgreja de S. Bartolomeu, capela lateral

Os retábulos colaterais seguem o mesmo estilo, simplificado. Duas capelas laterais apresentam retábulos recuperados da igreja antiga. O do lado nascente é ainda maneirista, dos finais do século XVI, adaptado ao espaço. Conservou, além da estrutura, duas pequenas pinturas sobre tábua. A capela fronteira tem um retábulo de colunas salomónicas de finais do século XVII, época de D. Pedro II.
A igreja tem ainda no seu espólio belas sanefas de concheados, das melhores peças da cidade, feitas por Bento José Monteiro, mas certamente com desenho de Gaspar Ferreira. Salientam-se ainda outras pinturas de Pascoal Parente com Cristo crucificado e Anunciação.

Igreja de S. Bartolomeu. lustre  e órgão.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, lustre e órgão

O templo é indissociável da praça onde se insere, outrora chamada praça de S. Bartolomeu. Nesta praça se fez durante séculos, até 1867, o mercado. Aqui se correram touros. Aqui se situou o paço dos tabeliães. Aqui funcionou a junta dos vinte e quatro dos mesteres e o paço do concelho. S. Bartolomeu é o patrono dos açougueiros e magarefes, cujos talhos estavam na praça e ruas confinantes, isto é, junto da igreja do seu santo padroeiro: principal justificação para a sua edificação neste local.

Nelson Correia Borges

Publicado em Correio de Coimbra, n.º 4761, de 7 de novembro de 2019, p. 8.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quarta-feira, 06.11.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 6.ª feira, 15.11.2019, 18h00

Tendo surgido dúvidas confirma-se que a próxima Conversa Aberta, terá lugar na 6.ª feira, 15.11.2019, às 18h00 

Casa da escrita 1.jpg

Casa da escrita (Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590)

Tema: JOÃO DE RUÃO UM ESCULTOR DE COIMBRA
Palestrante: NELSON CORREIA BORGES 

ncb.jpg

Natural de Lorvão, concelho de Penacova, é professor aposentado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fez doutoramento em História da Arte, tendo apresentado a dissertação intitulada Arte Monástica em Lorvão. Sombras e Realidade.
É académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa e fundador de quatro associações de defesa do património: o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, a Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Folclórico de Coimbra e a Confraria dos Sabores de Coimbra. É membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra.
Coimbra, a arte monástica e conventual, o Barroco e o Rococó, designadamente a arquitetura e a talha, são os campos a que mais se tem dedicado, tendo apreciável número de trabalhos publicados sobre estas matérias, bem como nas áreas de Arqueologia e Antropologia Cultural, designadamente Etnografia e Folclore, que igualmente lhe têm servido de tema para palestras, conferências e participação em reuniões científicas.
De entre as monografias publicadas podem destacar-se:
João de Ruão, escultor da Renascença Coimbrã (1980)
A Arte nas festas do casamento de D. Pedro II (1983)
História da Arte em Portugal — Do Barroco ao Rococó (1987)
Coimbra e Região (1987)
Arquitectura monástica portuguesa na época moderna (1998)
Arte Monástica em Lorvão. Sombras e realidade. (2001)
Doçaria conventual de Lorvão. (2013, 2017)

Deposição, obra de João de Ruão.jpg

Deposição no tumulo, obra de João de Ruão

Virgem e o Menino, obra de João de Ruão.jpg

A Virgem e o Menino, obra de João de Ruão

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.
Tags: Coimbra séc. XVI, Casa da Escrita, João de Ruão, Renascença Coimbrã

 

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por Rodrigues Costa às 10:47

Sábado, 02.11.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 6.ª feira, 15.11.2019, 18h00

Casa da escrita, 15.11.2019, 6.ª feira, 18h00

Casa da Escrita 8a.JPG

Casa da escrita (Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590)

CONVERSA ABERTA, Tema: JOÃO DE RUÃO UM ESCULTOR DE COIMBRA

PALESTRANTE: NELSON CORREIA BORGES

ncb.jpg

Natural de Lorvão, concelho de Penacova, é professor aposentado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fez doutoramento em História da Arte, tendo apresentado a dissertação intitulada Arte Monástica em Lorvão. Sombras e Realidade.
É académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa e fundador de quatro associações de defesa do património: o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, a Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Folclórico de Coimbra e a Confraria dos Sabores de Coimbra. É membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra.
Coimbra, a arte monástica e conventual, o Barroco e o Rococó, designadamente a arquitetura e a talha, são os campos a que mais se tem dedicado, tendo apreciável número de trabalhos publicados sobre estas matérias, bem como nas áreas de Arqueologia e Antropologia Cultural, designadamente Etnografia e Folclore, que igualmente lhe têm servido de tema para palestras, conferências e participação em reuniões científicas.
De entre as monografias publicadas podem destacar-se:
João de Ruão, escultor da Renascença Coimbrã (1980)
A Arte nas festas do casamento de D. Pedro II (1983)
História da Arte em Portugal — Do Barroco ao Rococó (1987)
Coimbra e Região (1987)
Arquitectura monástica portuguesa na época moderna (1998)
Arte Monástica em Lorvão. Sombras e realidade. (2001)
Doçaria conventual de Lorvão. (2013, 2017)

S. Silvestre, obra de João de Ruão.JPGSanta Catarina de Dornes, obra de João de Ruão

Jardim de Mangua, obra de João de Ruão.jpgJardim da Manga, obra de João de Ruão

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 11:27

Quinta-feira, 31.10.19

Coimbra: Placas de esmalte com cenas da Paixão levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

A série de vinte e seis placas de esmalte pintado, com cenas da Paixão, diretamente inspiradas na série de gravuras da chamada Pequena Paixão de Dürer, é talvez o mais enigmático dos três itens a que aqui nos dedicamos, já que nada sabemos sequer sobre a sua entrada no Mosteiro de Santa Cruz.

Mestre da Paixão de Cristo; esmalte pintado sobre

Coroação de espinhos, último quartel do Século XVI, atelier do Mestre da Paixão de Cristo; esmalte pintado sobre cobre. Museu Nacional de Soares dos Reis (fot. José Pessoa IMC/ MC)

…. Outrora talvez organizadas num pequeno retábulo ou num frontal de altar as pequenas placas foram ao longo do tempo merecendo esporádica atenção por parte dos autores portugueses.

Igreja de Santa Cruz. Santuário 01.jpg

Mosteiro de Santa Cruz, altar da Casa das Relíquias, onde a série das placas de esmalte poderão ter estado aplicadas.

… Em 1914, Joaquim de Vasconcelos dedica-lhes três páginas ao longo das quais propõe a datação da primeira metade do século XVI e sugere a Casa das Relíquias do Mosteiro de Santa Cruz como local da sua instalação no Mosteiro.
A apresentação da série na Exposição de Arte Francesa em Lisboa, em 1934, dá-lhe visibilidade junto de especialistas nacionais e estrangeiros que nesse contexto a classificam como do 1.º terço do Século XVI. Dessa data em diante passará a ser referida na maioria dos estudos especializados neste tema publicados desde os anos 60 na Europa e nos Estados Unidos.
Por ser uma das séries sobreviventes mais completa e uma das raras com registo documental anterior ao Século XIX, constitui hoje uma referência incontornável entre as suas congéneres europeias, razão pela qual, em janeiro de 2008, o Museu Soares dos Reis, em colaboração com o Centre de Recherche Scientifique de la Reunions des musées de France (CRRMF) e o Musée des Arts Decoratifs de Paris (MAD), se candidatou ao programa Eu-Artech com o objectivo de a analisar e inscrever num mesmo banco de dados em que se encontravam já a série da Wallace Collection e peças do MAD. O processo permitiu a revisão da sua datação (agora atribuída aos meados do século XVI e o início do século) e autoria, um atelier ainda em estudo da esfera de Pierre Reymond.

Esmalte 03.jpg

Batismo no Rio Jordão, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

Esmalte 01.jpg

Cena da Verónica, Batismo no Rio Jordão, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

Esmalte 02.jpgCalvário, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

A série de esmaltes, como aliás parte da arte religiosa da coleção, não encontrou nessa última revisão de programas e percursos, enquadramento adequado, estando presentemente em reserva.

Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

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por Rodrigues Costa às 12:48

Sexta-feira, 25.10.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 6.ª feira, 15.11.2019, 18h00

Casa da Escrita 5a.JPG

Casa da escrita, Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590

Tema:
JOÃO DE RUÃO, MESTRE DA RENASCENÇA COIMBRÃ.
Palestrante: Nelson Correia Borges

ncb.jpg

Natural de Lorvão, concelho de Penacova, é professor aposentado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fez doutoramento em História da Arte, tendo apresentado a dissertação intitulada Arte Monástica em Lorvão. Sombras e Realidade.
É académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa e fundador de quatro associações de defesa do património: o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, a Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Folclórico de Coimbra e a Confraria dos Sabores de Coimbra. É membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra.
Coimbra, a arte monástica e conventual, o Barroco e o Rococó, designadamente a arquitetura e a talha, são os campos a que mais se tem dedicado, tendo apreciável número de trabalhos publicados sobre estas matérias, bem como nas áreas de Arqueologia e Antropologia Cultural, designadamente Etnografia e Folclore, que igualmente lhe têm servido de tema para palestras, conferências e participação em reuniões científicas.
De entre as monografias publicadas podem destacar-se:
João de Ruão, escultor da Renascença Coimbrã (1980)
A Arte nas festas do casamento de D. Pedro II (1983)
História da Arte em Portugal — Do Barroco ao Rococó (1987)
Coimbra e Região (1987)
Arquitectura monástica portuguesa na época moderna (1998)
Arte Monástica em Lorvão. Sombras e realidade. (2001)
Doçaria conventual de Lorvão. (2013, 2017)

D. Duarte, obra de João de Ruão.jpg

D.Duarte de Lemos, obra de João de Ruão

Sé Velha, capela, obra de João de Ruão.jpgSé Velha, capela, obra de João de Ruão

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 11:15

Quinta-feira, 24.10.19

Coimbra: Espada de D. Afonso Henriques levada do Mosteiro de Santa Cruz 3

A espada de Afonso Henriques, que hoje se guarda no Museu Militar do Porto, tem uma dimensão simbólica que ultrapassa largamente a sua dimensão física que, aliás, é surpreendentemente maneirinha, à luz das descrições daquele que a empunhava, que seria homem para medir nada menos do que 10 palmos, ou seja, muito mais do que dois metros.
…. Segundo a lenda, esta espada, juntamente com o escudo de Afonso Henriques, teria sido levada, como amuleto protetor, por D. Sebastião para a desastrosa incursão de Alcácer Quibir, mas teria ficado esquecida no barco que transportar o rei ao lugar que lhe serviria de sepultura.

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Desenho da espada de D. Afonso Henriques. In: Arquivo Pitoresco. 1861

A revista Arquivo Pitoresco publicou, em 1861, a gravura que encima esta nota, acompanhada por um texto onde se conta a história da misteriosa espada de Afonso Henriques. Aqui fica.

«Foi esta a espada que libertou Portugal da dependência de Castela; que conquistou aos moiros Lisboa, Santarém, Palmela, Leiria e outras terras; a que fundou em Ourique a monarquia portuguesa.
Até à extinção das ordens religiosas, a espada de D. Afonso Henriques conservou-se junta ao seu túmulo na capela-mor de Santa Cruz de Coimbra; depois foi transferida para o museu do Porto; onde se acha, e ali foi tirado o desenho que hoje apresentámos.
É sabido que el-rei D. Sebastião, quando partiu para a desastrosa jornada de África, levou a espada e o escudo de D. Afonso Henriques. Não tendo, porém, desembarcado estas armas, quando a armada regressou ao reino foram estes dois monumentos restituídos ao convento de Santa Cruz. É isto o que afirmam os nossos antigos cronistas.
… Do modo por que estas armas saíram de Santa Cruz, é que há documento e testemunhos autênticos. Eis o que diz D. Nicolau de Santa Maria na Crónica dos Cónegos Regrantes:
«Depois de ter assistido no dia 20 de Outubro de 1570 a um doutoramento na universidade, passou D. Sebastião a visitar as sepulturas de D. Afonso Henriques e D. Sancho. O prior-mor lhe mostrou a espada de D. Afonso Henriques, a qual tomou D. Sebastião, e com grande veneração a beijou, dizendo aos fidalgos da sua comitiva: «Bom tempo em que se pelejam com espadas tão curtas! Esta é a espada que libertou todo o Portugal do cruel jugo dos mouros, sempre vencedora, e por isso digna de se guardar com toda a veneração». E entregando-a ao prior geral de quem a recebera, lhe disse: — «Guardai, Padre, esta espada, porque ainda me hei-de valer dela contra os moiros de África».
Passados oito anos, lembrado el-rei destas palavras, a mandou pedir ao geral de Santa Cruz … Desse fac-simile é que é o traslado que vamos apresentar.

D. Sebastião 01.jpgD. Sebastião

«Padre geral e convento do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Eu el-rei vos envio muito saudar. Eu me tenho publicado em haver de fazer por mim com ajuda de Nosso Senhor uma empresa em África, por muitas e mui grandes razões, mui importantes ao bem de meus reinos, e de toda Espanha, de que também resulta benefício à cristandade, o que me pareceu escrever-vos assim para encomendardes ao Nosso Senhor o bom sucesso desta empresa, que por seu serviço faço, como para vos dizer que desejo levar nela a espada e escudo daquele grande e valoroso primeiro rei deste reino D. Afonso Henriques, cuja sepultura está nesse mosteiro, porque espero em Nosso Senhor que com estas armas me dê as vitórias que el-rei D. Afonso com elas teve. Pelo que vos encomendo muito que logo mas mandeis por dois religiosos desse convento que para isso elegereis. E como eu embora tornar, as tornarei a enviar a esse mosteiro, para as terdes na veneração e guarda que é devido a cujas foram, e por tudo. E por aqui entendereis que as não quero senão emprestadas para o efeito a que vou, e de quão grande contentamento isto é para mim. Escrita em Lisboa a 14 de Março de 1578. — Rei.”

Espada do glorioso rei D. Afonso … e uma caixa p

Espada dita de D. Afonso Henriques, último quartel do Século XVI ?; aço; 99,5 x 14,5 cm. Inv. N.º 1 Div Museu Nacional de Soares dos Reis/ em dep. No Museu Militar do Porto (fot. José Pessoa IMC/ MC)

… “Recebida esta carta, mandou logo o padre prior limpar a espada do glorioso rei D. Afonso, e fazer-lhe uma bainha de veludo, com sua ponteira de prata doirada, e uma caixa preta em que fosse metida com sua chave, e fechadura doirada; e outra caixa preta em que fosse o escudo do mesmo santo rei, para irem estas armas com mais resguardo e veneração, e as mandou … a el-rei, o qual as recebeu com grande gosto e contentamento, dizendo, que se Deus lhe dava a vitória que esperava, prometia de fazer canonizar o glorioso rei D. Afonso, como já o intentara fazer el-rei João III seu senhor e avô.”

Neves, A.A. 2016. A Espada de Afonso Henriques. Acedido em 2019-09.17, em https://araduca.blogspot.com/2016/05/a-espada-de-afonso-henriques.html

 

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por Rodrigues Costa às 21:40

Quarta-feira, 02.10.19

Conversas abertas, depois de amanhã, 6.ª feira, dia 4 de outubro, às 18h00

Casa da Escrita 6 a.jpg

Casa da escrita (Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590)

Tema:
HERDADE DE ENXOFÃES: SUA IMPORTÂNCIA PARA A SUBSISTÊNCIA DO HOSPITAR DE S. LÁZARO

Fig. 13 - Imagem de Santa Maria Madalena (fotograf

Capela de Enxofães. Imagem de Santa Maria Madalena. Foto Varela Pécurto)

Fig. 32 - Carta venditionis da hereditate in loco

ANTT. Carta venditionis da hereditate in loco Exofees

Palestrante: Rodrigues Costa

IMG_20190917_002927 a.jpg

Iniciou carreira profissional aos 16 anos, na Biblioteca Municipal de Coimbra, secretariando o historiador Dr. José Pinto Loureiro.
Desempenhou diversos cargos na Câmara Municipal de Coimbra, o último dos quais o de Diretor do Departamento de Cultura, Desporto e Turismo.
Deixou a função pública para exercer funções diretor de marketing numa cadeia hoteleira.
Consultor na área do planeamento turístico com diversas missões realizadas para a Organização Mundial de Turismo, nos PALOP.
Docente na área de Gestão Hoteleira na Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Estoril e nas Universidade Internacional e Lusófona. Neste âmbito publicou Introdução à Gestão Hoteleira (5.ª edição) e Gestão Comercial na Hotelaria.
Depois de aposentado voltou a dedicar-se à investigação histórica e é, atualmente, o responsável pelo blogue A’Cerca de Coimbra. Entretanto publicou a monografia Enxofães. Mais de mil anos de história e a investigação destinada a colocar em letra de forma Murtede. O concelho que foi, a freguesia que é encontra-se na fase final.
Esta “Conversa Aberta”, com base na investigação histórica já realizada, destina-se a problematizar vários aspetos relacionados com a Herdade de Enxofães: a sua importância para a subsistência do Hospital de S. Lázaro de Coimbra.

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.

Próxima Conversa Aberta
08.11.2019, 6.ª feira (a primeira 6.ª feira é feriado), 18h00
Palestrante: Nelson Correia Borges
Tema: João de Ruão um escultor de Coimbra 

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por Rodrigues Costa às 20:28

Sexta-feira, 20.09.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 4 de outubro. 6.ª feira, às 18h00 - HOSPITAL DE S. LÁZARO E A HERDADE DE ENXOFÃES

 

Casa da Escrita 12 a.jpg

Casa da escrita (Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590)

Tema: HOSPITAL DE S. LÁZARO E A HERDADE DE ENXOFÃES

Mapa do Hospital dos Lazaros (AUC).JPG

AUC. Mapa do Hospital dos Lazaros

Herdade de Encofães. Casa séx. XVIII.jpg

Herdade de Enxofães. Casa do final do século XVIII. Foto Mário Martins

Palestrante: Rodrigues Costa

IMG_20190917_002927 a.jpg

Iniciou carreira profissional aos 16 anos, na Biblioteca Municipal de Coimbra, secretariando o historiador Dr. José Pinto Loureiro.
Desempenhou diversos cargos na Câmara Municipal de Coimbra, o último dos quais o de Diretor do Departamento de Cultura, Desporto e Turismo.
Deixou a função pública para exercer funções diretor de marketing numa cadeia hoteleira.
Consultor na área do planeamento turístico com diversas missões realizadas para a Organização Mundial de Turismo, nos PALOP.
Docente na área de Gestão Hoteleira na Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Estoril e nas Universidade Internacional e Lusófona. Neste âmbito publicou Introdução à Gestão Hoteleira (5.ª edição) e Gestão Comercial na Hotelaria.
Depois de aposentado voltou a dedicar-se à investigação histórica e é, atualmente, o responsável pelo blogue A’Cerca de Coimbra. Entretanto publicou a monografia Enxofães. Mais de mil anos de história e a investigação destinada a colocar em letra de forma Murtede. O concelho que foi, a freguesia que é encontra-se na fase final.
Esta “Conversa Aberta”, com base na investigação histórica já realizada, destina-se a problematizar vários aspetos relacionados com a Herdade de Enxofães: a sua importância para a subsistência do Hospital de S. Lázaro de Coimbra.

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.

Próxima Conversa Aberta
08.11.2019, 6.ª feira (a primeira 6.ª feira é feriado), 18h00
Palestrante: Nelson Correia Borges
Tema: João de Ruão um escultor de Coimbra

 

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por Rodrigues Costa às 15:05

Terça-feira, 03.09.19

Coimbra: Jorge de Almeida bispo 2

No âmbito do estudo da simbologia heráldica de D. Jorge de Almeida consideramos relevante atentar no seguinte excerto de António de Vasconcelos a propósito do cortejo deste prelado à saída do paço episcopal para a Sé:

Armas de D. Jorge de Almeida a.JPG

Armas de D. Jorge de Almeida no retábulo da Sé Velha de Coimbra

“Era espectaculosa e digna de se ver (…) acompanhado de uma guarda militar, o alferes de D. Jorge, vestindo huma cota darmas forrada de setim roixo, com as armas do bispo sobre damasco branco e cremezim, aprumado no seu cavalo, hasteava o balsão – hum estandarte de damasco verde alionado branco e cremezim, com uma cruz douro e armas do bispo.(…) cercado dos seus familiares e creados e seguido da sua gente de armas, montado em formosa e nédia mula branca, quase inteiramente coberta pelas ephíppias e strágula pontifícias de cor violácea, e vistosa pelos belos arreios guarnecidos de seda aveludada, brochados e chapeados de prata, onde se divisavam finamente buriladas e muitas vezes repetidas as armas dos Almeidas e dos Silvas, encimadas de uma mitra ou pelo chapéu pontificial.
Trazia o bispo-conde sôbre a sotaina rôxa um comprido roquete de finíssimo linho, que lhe descia abaixo dos joelhos; aos ombros a capa-magna de cameloto violáceo com o capelo forrado de alvíssimas peles de arminhos, afagadas pela cabeleira do prelado; na cabeça o chapéu solene, de lã preta, com a parte inferior forrada de seda verde, e longos cordões da mesma côr a descerem dos lados do chapeu, caindo sôbre o peito, a cuja altura se bifurcavam uma, outra e outra vez, elaçando-se e enxadrezando-se, ornados de borlas ou frocos de seda verde em todos os pontos de união (…)”

Selo heráldico de D. Jorge de Almeida.jpg

Selo heráldico de D. Jorge de Almeida retirado de Abrantes, Marquês de. O estudo da sigilografia medieval Portuguesa

A partir deste excerto é evidente todo o aparato heráldico que rodeava este prelado, cuidadoso na composição, cor e simbologia de todas as peças que tanto ele como a sua comitiva ostentavam. Não poderia haver uma mensagem de poder mais manifesta e é interessante ver aqui a perpetuação da mitra enquanto símbolo episcopal. Conforme se mencionou, no caso português esta peça terá um protagonismo acentuado durante um maior período de tempo que noutros locais da Europa, sendo símbolo episcopal por excelência. Ainda assim, o chapéu eclesiástico tem já um papel preponderante, inclusive como elemento envergado pelo antístite no decorrer do cortejo. Uma vez mais confirmamos também, a propósito do gallerum, a utilização do negro forrado a verde, mais uma particularidade portuguesa, uma vez que já aqui se verificou ser unicamente o verde, a cor designada para representar os bispos. O efeito desta exibição de poder associado à imagem do prelado era avassalador para quem observava, algo patente na continuação do excerto acima transcrito:

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal mitra

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal chap

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal da Sé Velha de Coimbra onde se verifica, alternadamente, a utilização da mitra e do chapéu eclesiástico

… “À passagem do prelado toda a gente se ajoelhava, e ele de olhar meigo, de sorriso bondoso nos lábios, ergendo a dextra com o dedo indicador ornado de hum anel que tinha duas esmeraldas, quatro rubis e uma çafira, abençoava lentamente, com os dois dedos estendidos, os seus súbditos devota e humildemente prostrados numa quase adoração.”

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes

 

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por Rodrigues Costa às 17:54


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