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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 27.02.24

Coimbra: Ressurgimento da Cidade em 1537 3

O subúrbio sofreu considerável destruição em 1373, quando as tropas de Henrique II de Castela atacaram a cidade, no decurso das guerras que o rei castelhano sustentou contra D. Fernando. Os castelhanos não entraram na almedina (onde se encontrava D. Leonor Teles, que então deu à luz sua filha, D. Beatriz), mas roubaram e puseram fogo a casas no subúrbio.

…. O ataque castelhano levou D. Fernando a reforçar as muralhas da cidade e a construir uma barbacã. A Judiaria, que ficava fora das muralhas, mas muito perto delas, foi parcialmente abandonada e o rei reinstalou os Judeus numa «rua nova» que saía da rua Direita e ainda hoje conserva o nome.

JA Ressurg, pg. 170.jpgReconstituição do castelo de Coimbra. Op. cit., 170

O Infante D. Pedro recebeu de seu pai o ducado de Coimbra em 1415. Através da sua correspondência sabemos que se preocupou com obras em pontes e calçadas da região. Na cidade, talvez o projeto mais relevante do seu tempo tenha sido o de reforçar o abastecimento de água. A obra, todavia, não se concretizou devido à oposição do mosteiro de Santa Cruz.

…. Em 1443, D. Pedro instituiu em Coimbra um «Estudo Geral de todas as sciencias», mas esta nova Universidade foi um projeto gorado.

No tempo de D. Manuel (1495-1521) foram muitas as obras feitas na cidade por iniciativa régia. Reconstruiu-se a ponte, alteando-a. Renovaram-se os Paços da Alcáçova e o mosteiro de Santa Cruz. Quer nos Paços, quer em Santa Cruz, as obras prosseguiram no reinado de D. João III.

JA Ressurg, pg. 31.jpgReconstituição hipotética do rossio da Portagem no séc. XVI. Op. cit., pg. 31

Ainda no tempo de D. Manuel construíram-se, na Praça Velha, o Hospital Real e os açougues.

No mesmo reinado, mas pelo bispo D. Jorge de Almeida, fizeram-se obras na Sé e no Paço Episcopal. Foi sob a égide deste bispo, na década de 1520, que se ergueu a famosa Porta Especiosa da Sé.

JA. Porta especiosa.jpgSé Velha de Coimbra, Porta Especiosa. Acervo RA

A catedral foi forrada de azulejo hispano-árabes (dos quais hoje pouco resta) e enriquecida com o famoso retábulo flamengo da capela-mor.

JA. Sé Velha, retábulo.jpgSé Velha de Coimbra, retábulo da capela-mor. Acervo RA

Vários particulares ergueram grandes moradias: o Paço de Sobre-Ribas, a casa do Conde de Cantanhede, a dos Alpoins e a dos Cunhas de Pombeiro. Portas e janelas manuelinas visíveis em muitas casas da cidade provam que foi grande a construção ou reconstrução de prédios particulares no tempo de D. Manuel.

…. Em 1537, D. João III transferiu a Universidade de Lisboa para Coimbra.

…. Pensava o rei na construção de um edifício novo para os estudos universitários.

…. Numa carta dirigida pela Universidade a D. João III, datada de 9 de Maio de 1537, lê-se que «ja nas cassas de dom Graçia dAlmeida Rector saõ feitas cadeiras e bancos em ordenãça em que cada hu dos lentes tem lidas suas prymeiras lições».

Como seria Coimbra em 1537?

 A população da cidade talvez andasse entre 5000 e 5500 almas, vivendo intramuros pouco mais de um terço.

Para podermos imaginar a cidade de forma correta ou completa faltam-nos plantas, vistas panorâmicas, documentos escritos.

Plantas de edifícios e de arruamentos podem jazer, inéditas, nos arquivos. Recordaremos

… A vista panorâmica de Hoefnagel, desenhada em 1566 ou 1567, é de três décadas posterior à transferência da Universidade. Ainda assim, e apesar de ser algo fantasista a representação da cidade, não podemos ignorá-la.

Coimbra. Hoefnagel. 1598.jpg

Alarcão, J. Coimbra. O ressurgimento da cidade em 1537. Desenhos de José Luís Madeira. 2022. Coimbra. Imprensa da Universidade.

 

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por Rodrigues Costa às 11:05

Quinta-feira, 22.02.24

Coimbra: Ressurgimento da Cidade em 1537 2

….Fora da muralha, na área da rua do Corpo de Deus, ficava a Judiaria. Junto dela tinha-se aberto, no tempo de D. Afonso Henriques, a Porta Nova.

Finalmente, por uma cumeada, a muralha seguia até reencontrar o castelo.

Na parte baixa, fora da muralha e até ao rio, ficava o arrabalde ou subúrbio, onde se erguiam, no tempo de D. Afonso III, as igrejas de S. Bartolomeu e de Santiago, e os mosteiros de Santa Cruz, Santa Justa e S. Domingos. O arrabalde não ultrapassaria, nessa época, senão ligeiramente, uma linha de água conhecida pelo nome de «runa». Ia desaguar no Mondego, e na foz ficava um porto fluvial que ainda aparece representado nas plantas da cidade do séc. XIX, com o nome de porto dos Oleiros. Os conventos de São Domingos e de Santa Justa ficavam para além da «runa». Junto de Santa Justa haveria já no séc. XII um núcleo de casas.

…. O povoamento do arrabalde foi-se adensando ao longo dos séculos XIII e XIV.

Nestes séculos foram várias as medidas régias para contrariar o despovoamento da almedina, mas, aparentemente, sem grande sucesso.

Em 10 de Fevereiro de 1269, D. Afonso III isentou de hoste e anúduva os que quisessem vir morar dentro de muros e tabelou as aposentadorias. Procurava o rei evitar que fidalgos e clérigos, vindos de fora, se aposentassem abusivamente nas moradas de quem vivia m almedina sem pagarem o alojamento e a alimentação (ou sem pagarem o justo preço).

Poucos dias antes, em 25 de Janeiro, o rei havia obtido do alcaide Vasco Afonso e dos alvazis da cidade, Domingos Peres e Rui Viegas, autorização para que se instalassem as feiras, açougues, fangas e alfândegas na almedina. Isso seria fator de dinamização da área intramuros, mas facilitaria também a cobrança de taxas e impostos.

….Pode ter havido protestos da população local ou dos mercadores que vinham à cidade, porque em 7 de Maio de 1273 D. Afonso III, dirigindo-se ao alcaide e alvazis, mandou que a feira semanal se fizesse «onde vos aprouver». Provavelmente, havia na cidade vários lugares onde se faziam os mercados de levante semanais. Terá sido contra esta imposição de um lugar único que a população se terá insurgido. Pretenderia manter a pluralidade dos mercados. Ignoramos se um deles já se realizava no espaço entre as igrejas de S. Tiago e de S. Bartolomeu (atual Praça Velha ou do Comércio).

D. Dinis, que residiu demoradamente em Coimbra, transferiu para aqui a Universidade que havia fundado em Lisboa e instalou-a junto dos Paços da Alcáçova. Fez também obras nos Paços.

JA, Ressurg, pg. 240.jpg

Paços de Coimbra após as obras do séc. XVI. Planta ao nível dos telhados. Op. cit., pg. 240

JA Ressurg, pg. 23.jpg

Mosteiro de Santa Clara, com o paço e hospício isabelinos. Adaptação de desenho de António Vasconcelos. Op. cit., pg. 23

JA Ressurg, pg. 235.jpg

Reconstituição planimétrica da cerca muçulmana do alcácer … ainda … o que ter existido nos sécs. XI e XII e a área construída por D. Dinis. Op. cit., pg. 235.

D. Afonso IV, enquanto Infante e herdeiro, teve em «Coimbra sua molher assento de sua caza». Já rei, escreveu, em 1338, que queria «fazer morada gram parte do ano na cidade de Coimbra ... foi acordado per todos … de nom star mays o dicto studo que na dicta cidade de Lisboa».

A decisão de transferir a Universidade de Coimbra para Lisboa foi revertida poucos anos depois: em 1354, D. Afonso IV voltou a instalá-la em Coimbra.

Em 1358, D. Pedro confirmou aos moradores da almedina os privilégios que por determinações régias tinham desde os tempos de D. Sancho II e mandou que os mercadores que viessem de fora fossem vender ao bairro escolar. Este bairro, cuja localização exata desconhecemos, foi coutado por D. Pedro. O rei definiu também os poderes da justiça civil municipal e da justiça universitária relativamente aos estudantes.

A Universidade manteve-se em Coimbra até ao tempo de D. Fernando, que a deslocou de novo para Lisboa em 1377. Talvez o mal-estar que haveria na cidade devido aos privilégios dos universitários e às tropelias dos estudantes tenha sido o motivo da transferência

O Rei Formoso concedeu isenções e privilégios aos que moravam na almedina e em 1377 instituiu uma feira franca que devia realizar-se, de 15 de Setembro a 15 de Outubro, «dentro na cerca da dicta cidade no cur[r]al dos nossos paaços e arredor deles se dentro nom couberem».

…. Do que temos dito transparece, por um lado, a preocupação dos reis quanto ao despovoamento da área intramuros – despovoamento que pretendiam contrariar – mas, ao mesmo tempo, a inelutável tendência para a fixação de uma parte substancial da população no arrabalde ou subúrbio – e a pressão que os moradores da parte baixa da cidade exerciam não ficarem excluídos ou menosprezados. No subúrbio iam-se estabelecendo cada vez mais, os ofícios mecânicos e o comércio. As ruas iam tomando nomes segundo as profissões: dos Tanoeiros, dos Caldeireiros, dos Pintadores, dos Peliteiros, da Louça ou dos Oleiros, da Moeda...

Não devemos, porém, contrapor o arrabalde à almedina como se nesta não houvesse artesãos e comerciantes. O nome de rua da Ferraria dado no séc. XIV à atual de Fernandes Tomás, ou da Çapataria à área do Pátio do Castilho, é prova de que na almedina também havia artesanato e comércio; e mais: que aqui havia igualmente algum arruamento de mesteres.

 Alarcão, J. Coimbra. O ressurgimento da cidade em 1537. Desenhos de José Luís Madeira. 2022. Coimbra. Imprensa da Universidade.

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por Rodrigues Costa às 11:25

Terça-feira, 20.02.24

Coimbra: Ressurgimento da Cidade em 1537 1

O Professor Doutor Jorge de Alarcão publicou, em 2022, o livro O ressurgimento da cidade em 1537. Desenhos de José Luís Madeira.

JA Ressurg capa.jpgOp. cit., capa

Trata-se de um trabalho de síntese dos estudos realizados sobre este tema, onde é apresentada a sua visão da evolução da cidade de Coimbra.

O livro é profusamente ilustrado quer com fotografias, quer com desenhos muito elucidativos e bem conseguidos. Acresce que se trata de uma obra de grande qualidade estética que se encontra dividida por 10 capítulos que abarcam não só o espaço construído adentro da muralha, bem como as áreas do antigo arrabalde.

Se vamos tentar uma reconstituição de Coimbra tal como seria em 1537, quando D. João III transferiu para aqui a Universidade, parece-nos necessária uma história, posto que muito breve, de tempos anteriores, desde a década de 1130, isto é, desde o tempo em que D. Afonso Henriques fez da cidade a principal do reino. Será resumido e imperfeito o que diremos, ignorando acontecimentos memorandos, mas tentando dar rapidamente conta de como se foi organizando o espaço urbano, do séc. XII ao XVI. Se o nosso foco é a cidade de 1537, o que nessa data existia tinha um passado, mais longinco ou mais recente. Por mais recente entendemos o tempo de D. Manuel, em cujo reinado se fizeram notáveis obras.

A cidade de Coimbra teve uma época áurea desde essa década de 1130 até à de 1260, isto é, do reinado de D. Afonso Henriques ao de D. Afonso III.

Se pensarmos que nesse período de quase 150 anos se construíram todas as igrejas românicas da cidade (Sé, S. Pedro, S. João, S. Salvador, S. Cristóvão, S. Tiago, S. Bartolomeu), bem como os mosteiros de Santa Cruz, Santa Justa, Sant' Ana ou Celas da Ponte, S. Domingos e S. Francisco, teremos ideia de quão nobilitado se encontrava o burgo onde os primeiros reis residiram demoradamente. Ausentavam-se muito, é certo, porque a administração do território exigia itinerância e a guerra contra a moirama reclamava saídas, mas sempre os reis regressavam a Coimbra – e os Paços da Alcáçova foram sua principal residência.

Em 1270, D. Afonso III fixou-se em Lisboa e daí pouco saiu até 1279, ano da sua morte.

Nesta última data, já a almedina, isto é, a área intramuros, se ia despovoando, enquanto o arrabalde ou subúrbio, entre a muralha e o rio, crescia e se adensava.

São poucos os vestígios que hoje restam da muralha. Pode facilmente, porém, reconstituir-se-lhe o traçado.

JA Ressurg, pg. 12.jpgPlanta da cidade medieval nos meados do séc. XIII, com representação da muralha, dos principais arruamentos, das igrejas e dos mosteiros, da alcáçova, do paço episcopal e do castelo. Op. cit., pg. 12

Uma das portas principais, a do Sol, ficava junto do castelo, onde D. Afonso Henriques havia edificado a torre de menagem, e D. Sancho I construído, em 1198, uma torre pentagonal.

Da porta do Sol descia a muralha até à de Belcouce, ao fundo da atual couraça de Lisboa.  Nesse percurso ficava a porta da Traição ou de Genicoca. Abaixo desta, uma couraça (obra também, provavelmente, de D. Sancho I) arrancava da muralha direita ao rio e terminava numa porta que o desenho de Hoefnagel ainda representa. Quando, na década de 1980, se fizeram obras de saneamento na avenida Navarro, reconheceram-se vestígios dessa porta perto do restaurante D. Pedro (no número 58 da avenida).Coimbra. Hoefnagel. 1598.jpgGravura publicada em George BRAUN, «Civitatis orbis terrarum», vol. V, Colónia, 1598, a partir de desenho de Hoefnagel

Junto da porta de Belcouce ergueu D. Sancho I, em 1211, uma segunda torre pentagonal que ainda hoje se conserva.

Daqui, a muralha seguia à torre de Almedina e subia depois no sentido da rua do Corpo de Deus. No percurso entre a torre de D. Sancho e a de Almedina ainda se reconhecem hoje alguns torreões. A norte da torre de Almedina encontram-se duas torres: uma incorporada no paço de Sobre-Ribas e outra conhecida como torre d’Anto.

 Alarcão, J. Coimbra. O ressurgimento da cidade em 1537. Desenhos de José Luís Madeira. 2022. Coimbra. Imprensa da Universidade.

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por Rodrigues Costa às 11:32

Terça-feira, 12.09.23

Coimbra: Mantilha portuguesa.

O tema da “Mantilha Coimbrã”, já foi tratado no blogue “A’Cerca de Coimbra” em 21 e 23 de junho de 2022. Na altura, respigamos um artigo publicado no número 7 da Munda, revista do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro [GAAC], assinado pelo Professor Doutor Nelson Correia Borges.

Posteriormente, aquele conceituado Investigador, publicou no Boletim Informativo da Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego um texto mais pormenorizado que intitulou “A Mantilha Portuguesa. Glória e declínio de uma peça do trajar das nossas Avós”. Dele extraímos as informações que ora se divulgam.

Como é sabido, não existe em Portugal um trajo nacional, antes, pelo contrário, uma grande variedade devido à diversificação e características próprias das múltiplas regiões e sub-regiões etnográficas. No entanto, ao longo dos tempos, houve algumas formas de trajar e certas peças de vestuário que tiveram implantação praticamente em todo o país. Estão neste caso os resguardos exteriores do corpo, em que podemos incluir o gabão e a mantilha.

A mantilha é, sem dúvida a peça mais interessante e também a mais bem documentada, apresentando-se com inúmeras variantes no que toca à parte que envolvia a cabeça. Referimo-nos obviamente, à que as nossas avós usaram desde tempos ancestrais até meados do século XIX e não à mantilha de rendas de uso mais recente.

…A mantilha de rendas, geralmente de cor preta, de origem espanhola, foi introduzida em Portugal depois de 1900. divulgada de terra em terra por mão dos vendedores ambulantes galegos. Utilizou-se para cobrir a cabeça da mulher quando ia à igreja, até aos tempos do Concílio Vaticano 11 (1962-1965). Finda a sua utilidade, caiu em desuso. As mulheres das classes populares, porém, sempre preferiram usar para o efeito o lenço de seda ou o cachené.

… À velha mantilha feminina surgem as primeiras referências em finais do século XIV e um século depois já ela podia ser incluída entre as muitas “coisas de folgar e gentilezas”, reunidas por Garcia de Resende no seu «Cancioneiro Geral».

… No século XVI o uso da mantilha era, sem dúvida, generalizado e, como peça estimada, deixada em testamento. Encontrámos-lhe o rasto, ocasionalmente, em dois documentos tabeliónicos de 1577, da região de Coimbra, que a referem a par com outros elementos de vestuário. Os séculos XVIl e XVIIl fizeram da mantilha uma peça imprescindível à indumentária barroca, introduzindo-lhe variantes no formato da parte que resguarda a cabeça. adaptada aos elaborados toucados então em moda.

A mantilha era uma espécie de manto ou capa, com alguma roda, que descia até abaixo do joelho, ou mesmo até ao tornozelo. Em cima, abrigando a cabeça, ficava a coca, espécie de arco, amado em papelão e barbas de baleia, terminando ou não em bico. Na sua confeção utilizavam-se tecidos de diversas texturas e materiais: a baeta, o durante, o camelão, o lapim, o "pano fino", ou mesmo tafetá de seda. A cor preferida era o preto, solene, mas havia-as também roxas e cor de pinhão, como a mencionada no «Cancioneiro Geral». Normalmente era debruada com uma tarja de veludo, liso ou lavrado, da mesma cor do tecido, e não tinha colchetes nem botões: fechavam-na à frente com a mão.

Embuçada na mantilha, que lhe podia esconder todo o corpo e mesmo grande parte da face, a mulher tinha a possibilidade de sair tranquilamente à rua sem receio de ser reconhecida. As portuguesas amantilhadas constituíam, por certo, uma nota de pitoresco nas ruas das cidades, captando a admiração dos estrangeiros que passavam pelo nosso país. É o caso de dois embaixadores venezianos, vindos a Lisboa em 1580, que salientam no trajar feminino " o manto grande de lã ou de seda, segundo a qualidade da pessoa. Com ele cobrem o rosto e o corpo inteiro, e vão aonde querem, tão disfarçadas que nem os próprios maridos as conhecem: vantagem esta que lhes dá maior liberdade do que convém a mulheres bem-nascidas e bem morigeradas".

Esta circunstância não podia deixar de ser refreada, tanto mais que os abusos acabariam sempre por surgir. Assim, e em 1644 foi decretado que nenhuma mulher andasse embuçada nas ruas de Lisboa, com graves penas, mas esta resolução não chegou a ser extensiva ao resto do reino onde amantilha continuou q ser usada com honra de proveito da mulher portuguesa.

… “Este adorno está hoje completamente fora de moda, e apenas fazem dele uso algumas mulheres antigas e nobres, ou as beatas de algumas terras da província”. “Eduardo Faria, porém em 1857, afirma que a mantilha era particularmente usada em Coimbra” e não restam dúvidas de que assim acontecia.

Cidade de cunho predominantemente eclesiástico, na sua instituição universitária, onde os colégios monásticos e os conventos se topavam a cada esquina, não admira que a mantilha fosse um correspondente modo de trajar feminino algo freirático. A mulher de Coimbra introduziu-lhe uma coca em bico que faz lembrar certas toucas da Renascença, ampliadas.

Conhecemo-la de gravuras e da descrição de alguns detratores. A representação mais antiga é uma belíssima gravura a "pointillé", incluída na obra de Henry L'Evêque. (The Costume of Portugal, Londres, 1812.), com a legenda que está na imagem,

MP. 1.jpg

Op. cit., pg 12

 Nela se recorta uma esbelta figura feminina sobre paisagem da cidade, onde se reconhece a Sé Nova e o Mondego. Envolve-se na mantilha com graciosidade, deixando a descoberto parte da "camisa" e da saia preta. Calça sapato de cetim, meias finas e usa um colar de duas voltas. Em segundo plano segue, ao lado do homem, outra mulher também de mantilha. Parece-nos, todavia, que esta gravura não representa com fidelidade a parte envolvente da cabeça – a coca -, a qual. segundo outros testemunhos era de maior dimensão, e a forma, ainda que não se afastando das suas linhas gerais, aparece aqui mais comedida.

Assim a viu, por volta de1834, o oficial do exército britânico Carlos Van Zeller com a sua coca muito saliente, terminando num bico que, pelo que afirma, encurvava quase até ao nível do queixo. Não se poupa ao comentário depreciativo comum a quantos, nesta época,se referem a esta peça de vestuário.

… Van Zeller acompanhou as notas manuscritas de alguns esboços que se revelam preciosos para melhor conhecer esta parte da mantilha coimbrã.

Com efeito o que verdadeiramente aparta e define a mantilha de Coimbra é a coca, só encontrando rivais nas do Porto, Viseu e Braga, que não lhe ficam atrás na singularidade.

MP. 2.jpg

Op. cit., pg. 15

Outra representação da mantilha coimbrã é-nos dada pela muito divulgada água-tinta de George Vivian da obra Scenery of Porfugal & Spain, editada em Londres, em 1839.

MP 3.JPG

Op. cit., pg. 11

 Esta bela paisagem é um manancial de informações sobre o trajo popular em Coimbra, na época, já que junto à fonte de Santana se agrupam diversas figuras citadinas que vão desde os estudantes, à esquerda; às senhoras de mantilha, à direita. Ali as vemos conversando, uma de frente, outra de costas.

O desenho é em tudo coincidente com a descrição de Borges de Figueiredo. …. Creio que ainda nalgumas partes do nosso Portugal se veem as clássicas mantilhas.

MP. 4.jpg

Op. cit., pg. 26.

Mas a mantilha de Coimbra era muito diferente das outras, pelo menos não me consta que em outras partes se usassem do feito daquelas, Compunha-se de uma tira e papelão grossa arqueada e convenientemente coberta de fazenda preta; colocada sobre a cabeça  e segura sob o queixo por fitas, caía o pano preto exterior pelas costas e peito a modo de mantéu: até aqui nada de extraordinário; mas dos diversos pontos do papelão que cobria a cabeça partiam algumas barbas de baleia que a distância de dois palmos da testa se uniam formando vértice, tudo isto coberto de fazenda igual à restante.

…. Existe ainda um outro desenho, certamente de autor nacional, desconhecido, e que deverá datar do segundo quartel do século passado.

MP. 5.jpg

Op. cit., pg. 14

O traço é desagradável, mas elucidativo, confirmando os testemunhos na anteriores. Nele se vê uma cena matutina. O garotito e a manteigueira descalços, contrastam com a senhora de mantilha que se dirige, possivelmente para a igreja.

MP. 6.jpg

A mantilha de Coimbra, reconstituição. Imagem acedida en https://www.facebook.com/grupofolcloricodecoimbra/photos/pb.100047535110552.-2207520000./1279911812121393/?type=3

Acrescentamos uma imagem da reconstituição deste trajo, feita segundo a orientação do Professor Doutor Nelson Correia, que é utlizada nas apresentações do Grupo Folclórico de Coimbra.

Borges, N.C. A Mantilha Portuguesa. Glória e declínio de uma peça do trajar das nossas Avós. Separata do Boletim Informativo da Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego. Páginas 7 a 26. Sem data. Coimbra, AFERM.

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por Rodrigues Costa às 10:19

Sexta-feira, 19.05.23

Coimbra. Conversas Abertas. Castelo de Coimbra

É já na próxima 6.ª feira, dia 26 de maio, pelas 18:00, que irá decorrer no Arquivo da Universidade de Coimbra, na Sala D. João III, a penúltima das Conversas Abertas desta série, como sempre com entrada livre e aberta a participação de todos.

A palestrante será a Arquiteta Isabel Anjinho, que vem realizando uma notável obra da investigação sobre o passado da nossa Cidade e que, desta vez, falará sobre o CASTELO DE COIMBRA.

CartazA3_26.05.2023 a.jpg

Além da exposição oral, as imagens em 3D permitirão conhecer o que era o castelo e como o mesmo se inseria na malha urbana de então.

Apresentamos a folha de sala que estará à disposição de todos os participantes.

CA. 2023.05.26. Isabel Anjimho folha de sala 1 a.j

 

 

CA. 2023.05.26. Isabel Anjimho folha de sala 2 a.j

Folha de sala

Participe e ajude na divulgação deste evento.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 12:04

Quarta-feira, 29.03.23

Conversa Aberta: Terras do aro de Coimbra

É já depois de amanhã, 6.ª feira que a partir das 18h00, decorrerá mais uma Conversa Aberta que conforme o habitual terá lugar na Sala D. João III do Arquivo da Universidade de Coimbra (por baixo e nas traseiras da Biblioteca Geral), com entrada pela Rua de S. Pedro.

A entrada é livre e após a apresentação do tema segue-se o debate, no qual todos poderão colocar as suas questões e pedir esclarecimentos.

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Desta vez o tema a ser tratado será As Terras do Aro de Coimbra nos documentos e objetos do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra

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A palestrante. Dr.ª Paula França é a responsável pelo Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, profundamente conhecedora do mesmo e sempre pronta a ajudar aquele que ali fazem as suas investigações.

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Aliás o Arquivo Histórico Municipal de Coimbra merece uma visita. Quanto mais não seja, pelas pequenas exposições, periodicamente renovadas, que ali são apresentadas.

Participe no debate e ajude por favor na divulgação do evento.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:15

Sexta-feira, 17.03.23

Conversa Aberta: Terras do aro de Coimbra

De hoje a 15 dias vai realizar-se mais uma Conversa Aberta que conforme, o habitual, decorrerá na Sala D. João III, do Arquivo da Universidade de Coimbra (junto ao Instituto Justiça e Paz, antigo CADC), na última sexta-feira de cada mês, a partir das 18h00, com entrada livre.

CartazA3_31.03 a.jpg

Desta vez o tema a ser tratado será As Terras do Aro de Coimbra nos documentos e objetos do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra.

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A palestrante, Dr.ª Paula França que é a responsável pelo Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, profundamente conhecedora do mesmo e sempre pronta a ajudar aquele que ali fazem as suas investigações.

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Aliás, o Arquivo merece uma visita. Quanto mais não seja, pelas pequenas exposições, periodicamente renovadas, que ali estão patentes.

Participe no debate e ajude por favor na divulgação do evento.

Rodrigues Costa

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:17

Quinta-feira, 09.03.23

Coimbra. Arca-cartório da Universidade

O Arquivo da Universidade continua a divulgar quer o extensíssimo espólio documental ali existente guardado em cerca de 10 quilómetros de estantes, quer outras peças do património universitário que ali foram guardadas.

Assim, no passado dia 27 de outubro de 2022, foi dada a conhecer a arca-cartório da Universidade, num texto bem ilustrado e que conta a origem e a forma de utilização desta belíssima peça.

Arca cartório 1.jpg

Arca-Cartório da Universidade de Coimbra

Este primitivo Cartório da Universidade de Coimbra, que se encontra no AUC, é uma arca ou burra (designação antiga atribuída a estas arcas) feita em ferro, com acabamento de pintura, com motivos florais, nas cores rosa, verde e azul, denotando esmaecimento da tinta, no plano superior.

Arca cartório 3.jpg

Arca-Cartório da Universidade de Coimbra, pormenor das pinturas da parte superior

Apresenta uma decoração quadriculada, formada por chaparia recortada, com grandes pregos, distribuídos uniformemente, possuindo uma fechadura, cujo mecanismo de abertura é visível no interior, encontrando-se dissimulada a abertura superior.

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Arca-Cartório da Universidade de Coimbra, pormenor da chaparia

Tem ainda duas argolas, para fechadura com aloquetes, que já não existem. A sua deslocação era feita por suporte, através de duas grandes pegas, suspensas lateralmente!

No seu interior, encontra-se um pequeno cofre, adossado lateralmente, também ele com fechadura, utilizado, provavelmente, para guardar dinheiro ou peças valiosas.

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Arca-Cartório da Universidade de Coimbra, pormenor da cofre

Sendo Reitor da Universidade de Coimbra D. Agostinho Ribeiro, recebeu este uma Carta Régia de D. João III, datada de 27 de dezembro de 1540, pela qual lhe enviava, entre outros documentos, uma Bula de anexação de seis igrejas do Padroado Real ao Padroado da Universidade, ordenando que se fizesse uma arca, para guardar esses documentos, assim como todos os documentos régios enviados à Universidade, garantia de seus privilégios.

Essa arca, com três fechaduras, só seria aberta com três chaves, estando uma chave na posse do Reitor, outra na posse do lente de Prima de Cânones e outra na posse do bedel e escrivão do Conselho da Universidade.

Muito provavelmente, a presente arca-cartório foi executada na sequência desta ordem régia. (V. Registo das Provisões, antes da Nova Fundação da Universidade, vol. 1, fl. 87v-88 – cota AUC-IV-1.ªD-3-2-17)

Arquivo da Universidade de Coimbra. Arca-Cartório da Universidade. Acedido em https://www.facebook.com/search/top?q=arquivo%20da%20universidade%20de%20coimbra.

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por Rodrigues Costa às 10:46

Quinta-feira, 26.01.23

Coimbra: Cadeiral de Santa Cruz 5

Do Cadeiral SC, pg. 199a.jpg

 Op. cit., pg. 199

A figura aqui apresentada é uma daquelas que revelam um escultor de garra e bem experimentado na arte de entalhar a madeira. Faltando-lhe embora a mão esquerda e quase todo o antebraço, assim como quase todo o braço direito, mesmo assim o todo da estatueta é notável pela atitude e expressão, pelo lançamento do manto, pelo doseamento das pregas a distribuir luz e sombra num equilíbrio admirável.

Deve tratar-se de um fidalgo, a julgar pelo trajo e pela cadeia que lhe adorna o peito. A mão esquerda devia segurar qualquer objeto que se vinha apoiar na coxa do mesmo lado, onde restam vestígios. O braço encosta ao tronco, e o que resta do antebraço indica a posição de quem sustém algum bastão, espada, etc. Um prego espetado no coto mutilado é o que testemunha uma tentativa falhada de restauro infeliz. Do braço direito apenas ficou uma pequena parte a seguir ao ombro, e a mão. Sabe-se, porém, pela posição da mão com a palma voltada para fora, qual ela a posição do braço.

Do Cadeiral SC, pg. 205a.jpgOp. cit., pg. 205

A figura aqui representada é um baixo-relevo que se encontra na face interna de um painel que delimita uma série de cadeiras. Com a mão direita soergue a capa e com a esquerda segura um bastão terminado por quatro bolinhas.

Pelo seu tamanho, este bastão não é um bordão ou cajado, antes parece um cetro. Mas não é cetro, pois a figura não tem coroa nem aspeto de rei.

Consultando bibliografia, achei que, entre os cantores que nos cabidos das catedrais, mosteiros e colegiadas, entoavam os ofícios divinos, havia um que tinha por missão ensinar a cantar bem e dirigir o coro: era o chantre ou mestre de coro. Só aos chantres era reservado o uso de capas de seda e cetro (Solange Corbin, «Essai sur la Musique Religieuse au Moyen Age», Paris, 1952, pg. 202). A mesma autora, depois de dizer que esse uso está documentado em textos e iluminuras, tais como o Missal de Braga (de 1558) e o Saltério 114, da Biblioteca Pública Municipal do Porto, diz que uma iluminura deste último, que era certamente o de Santa Cruz, apresenta o chantre com o bastão de quatro bolas em cruz, que seria a insígnia da sua dignidade.

Não tive oportunidade de ver as iluminuras citadas, mas basta o testemunho e a opinião da ilustre e conscienciosa investigadora para poder interpretar a figura em causa como sendo o chantre do coro de Santa Cruz.

 Pereira, A. N. Do Cadeiral de Santa Cruz. 2.ª edição. Introdução de Nunes Pereira, Abertura de Anselmo Ramos Dias Gaspar e Prefácio à segunda edição de Marco Daniel Duarte. 2007. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 199-200 e 205-206.

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:47

Terça-feira, 24.01.23

Coimbra: Cadeiral de Santa Cruz 4

Do Cadeiral SC, pg. 163a.jpg

Op. cit., pg. 163

 A escravatura pode definir-se como a dependência absoluta e incondicional do ser humano com respeito à vontade de outrem.

A sua origem tem várias causas, entre as quais estas: a carência de mão-de-obra, e o direito de guerra (cf. Domingos Maurício, no artigo «Escravatura» na «Enciclopédia» VERBO).

A venda de José, filho de Jacob, a uns negociantes amalecitas que por sua vez o venderam no Egipto a Putifar, é uma das referências bíblicas à escravatura («Génesis», XXXVII). Escravos foram depois os israelitas no Egito, obrigados a trabalhar em condições desumanas m construção de cidades. Dessa escravidão os libertou Moisés.

No tempo em que foi feito o Cadeiral anda a escravatura era largamente praticada na Europa e na África. Não Admira, pois, que a figura do escravo apareça na ate daquele tempo. Por outro lado, as guerras com os mouros e outras faziam numerosos prisioneiros, que depois, em muitos casos, eram convertidos em escravos.

Para a abolição da escravatura contribuiu em grande parte o cristianismo com a doutrina da fraternidade humana.

A figura aqui representada parece mais um prisioneiro do que um escravo. Com efeito, as suas vestes são amplas e dornadas de uma espécie de franja em bicos, que nos parece indicar pessoa de certa posição social que por qualquer motivo foi metida em ferros. Preso à parede pela cintura, tem os pés amarrados. Dois anéis abraçam-lhe as pernas acima dos tornozelos, e um engenhoso sistema de argolas une e fecha os dois anéis. Faltam-lhe as mãos, a direita mutilada antes da atual douradura, e também o nariz está mutilado. Apesar disso, é uma bela estátua esta.

 

Do Cadeiral SC, pg. 195a.jpg

Op. cit., pg. 195

Esta figura é das mais notáveis do Cadeiral, pela nobreza do seu porte, pelo bem concebido da sua composição, pela justeza da sua atitude e pela admirável execução.

De farta cabeleira que cai sobre os ombros, cofia com a mão direita as longas barbas onduladas, enquanto na mão esquerda empunha um alfange, cuja bainha é sustida por uma cadeia de elos retangulares, dos quais, na frente, faltam alguns já anteriormente ao último douramento. Da cintura pende uma bolsa, com uma só borla das duas ou três que teria. Esta bolsa é semelhante a outra a que já me referi em artigo anterior, e indica pessoa de distinção.

Quanto ao alfange, não é muito vulgar a sua forma tão aparatosa. A bainha, em forma de como, vai alargando para o fundo, e é reforçada por três estrias salientes, que no original seriam metálicas. Num relevo da igreja de S. Sebaldo, em Nuremberg, de 1499, representando a prisão de Jesus, um soldado tem suspenso um alfange também curvo, mas a bainha não alarga para o fundo (reproduzido in Gerhard Ulrich, «SChatze deutscher Kunst», München, 1972, pág. 58). Nos primitivos portugueses, designadamente nas representações dos Mártires de Marrocos (de Francisco Henriques e do Mestre do Retábulo de Setúbal), aparecem alfanges brandidos por soldados mouros, o que leva a supor que também esta figura do Cadeiral representará um mouro.

Pereira, A. N. Do Cadeiral de Santa Cruz. 2.ª edição. Introdução de Nunes Pereira, Abertura de Anselmo Ramos Dias Gaspar e Prefácio à segunda edição de Marco Daniel Duarte. 2007. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 163-164 e 193-194.

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 20:03


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