Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 07.06.22

Coimbra: Universidade, capela de S. Miguel 2

O arco cruzeiro é de arco quebrado, largo caveto entre colunelos, rematando num Calvário de figuras posteriores. os tetos são os referidos do século XVII restaurados no fim do século XIX, de ornatos de enrolamentos acantiformes.

CSM. Vista da capela-mor pg. 55.jpg

Vista da capela-mor e do transepto da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 55

As paredes da capela-mor estão cobertas de azulejos de tapete, de folhagens azuis, protobarrocos, de fabrico de Lisboa, de Gabriel Ferreira, aplicados pelo azulejador Jorge Gonçalves, em 1613. O azulejo da nave pertence ao meado do mesmo século XVII, policromo, de Lisboa, mostrando duas figuras sobre o arco Cruzeiro, Adão e Eva, também protobarrocos.

O retábulo do altar-mor é do princípio do século XVII. 0 desenho foi pago, em 1605, a Bernardo Coelho, artista lisbonense que fez trabalhos em Coimbra e que parece nada a ter com os Coelho vindos de Portalegre. A obra foi dada a Simão da Mota, em 1611. A estrutura é um magnífico exemplo da estética maneirista. As pinturas são de Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão que as contrataram em 1612. Ladeando o vão central e formando o primeiro corpo há dois intercolúnios coríntios, com frontões de enrolamentos; o segundo é de pilastras mísuladas. As tábuas superiores representam o Nascimento e a Adoração dos Magos. As de baixo a Ressurreição e o Aparecimento à Virgem. Na parte central da predela há uma Ceia, e nas laterais dois bustos em talha de madeira de São Pedro e São Paulo. o vão foi alterado no século XVIII, como as talhas denunciam e os documentos comprovam. Trata-se de um dos maís importantes conjuntos da pintura maneirista portuguesa refletindo claramente a tendência italianizante que este estilo alcançava, no final do século XVI, e início do século XVII particularmente no círculo lisboeta.

Encostados às paredes vêem-se bancos corridos os «doutorais» e a cadeira do prelado universitário, de braços e alto espaldar com veludo, do século XVIII. Os doutorais foram executados por Francisco de Barros e Manuel de Morais que também fizeram o pequeno cadeiral do coro-alto, tudo em estilo D. Maria, isto é, uma forma peculiar do neoclássico nacional.

Aos lados do cruzeiro, encostam-se dois retábulos, do terceiro quarto do século XVIII, claramente barrocos da última fase, cuja traça se deve ao marceneiro Manuel Moreira. O do lado esquerdo mostra uma escultura grande de pedra, dos três últimos anos do século XVI, da Senhora com o Menino, e duas de madeira pequenas, do século XVIII e evocativas de Santo Agostinho e São José, da autoria do lisbonense Joaquim Bernardes que as esculpiu em 1781. O do lado direito, há uma grande imagem de Santa Catarina, e duas menores, uma representando Santo Inácio e outra São Francisco de Borja. A primeira saiu das mãos do escultor beneditino Frei Cipriano da Cruz, e as outras das do já citado Joaquim Bernardes.

No topo do |ado esquerdo do transepto está embutida a lápide do juramento da Imaculada Conceição, executada por Samuel Tibau. Na parede do |ado direito, salientam-se o púlpito e o órgão. O púlpito é uma obra corrente, idêntica a outras existentes na cidade (1648-49), sendo a parte de madeira de Manuel Ramos.

CSM,  pg. 67.jpg

Órgão barroco da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 67

A caixa do órgão foi construída de 1732 a 1733, e dourada e pintada, em 1737, por Gabriel Ferreira da Cunha, é uma boa composição do barroco da primeira metade do século XVIII.

CSM, pg. 68.jpg

Pintura e talha decorativa da caixa do órgão barroco da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 68

CSM., pg. 69.jpg

Pintura decorativa da caixa do órgão barroco da Capela de São Miguel. Op.cit., 69

A estrutura mecânica ficou a dever-se ao grande organeiro setecentista Manuel de São Bento Gomes, deve destacar-se a excecional decoração de "chinoiserie” tão em voga na época de D. João V, e a terminação superior, plenamente barroca, com anjos e tecidos fantasiados, alegoria à magnificência do Monarca, representado pelo Escudo Real.

O coro-alto assenta num corte feito à nave, em 1780, para se dar um acesso a várias repartições administrativas, obras dirigidas pelo mestre José Carvalho.

A coleção de pratas da capela, do tempo e estilo D. João V, constitui um bom agrupamento de peças. Além das espécies do século XVIII, como castiçais e lâmpadas dos altares laterais destaca-se a lâmpada da capela-mor, de 1597, maneirista de prata branca, executada pelo ourives Simão Rodrigues e composta de balaústres e largamente decorada. São excelentes as banquetas do altar-mor e dos dois altares laterais ao arco-cruzeiro, obras de prata executadas em Lisboa e que ostentam o Brasão Real de D. João V, monarca que as ofereceu à Universidade, são de um barroco evoluído e erudito, constituindo um dos melhores conjuntos portugueses do género.

É de salientar ainda o sacrário de bronze dourado, do século XVII, com uma composição de dois corpos e com colunas coríntias emparelhadas, separando nichos vazios de estilo maneirista e excelente nível de execução.

Dias, P. e Gonçalves, A.N. O Património Artístico da Universidade de Coimbra. 2.ª edição revista e aumentada. 2004. Coimbra, Gráfica de Coimbra, Ld.ª

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:26

Quinta-feira, 02.06.22

Coimbra: Universidade, capela de S. Miguel 1

Com esta entrada iniciamos uma exploração do que nos é revelado no livro O Património Artístico da Universidade de Coimbra.

img20220430_19270416.jpg

O Património Artístico da Universidade de Coimbra, capa

A Capela de São Miguel foi uma das extensões manuelinas dos paços antigos. Do oratório dos primeiros tempos existem alvarás de D. Afonso V que se referem a uma capela, capelães e encargos, etc. A obra atual é inteiramente manuelina, segundo o traçado de Marcos Pires, que faleceu no fim de 1521. Ficou incompleta, faltando o lajeamento, caiações, etc., e os tetos que, sendo de madeira, não eram da sua empreitada, mas pertenciam à de Pêro Anes.

CSM. pg. 53.jpg

Vista da fachada da Capela de São Miguel. Op.cit., pg. 53

CSM. pg. 54.jpg

Interior da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 54

As cornijas no transepto e capela-mor que são já renascença e devem-se a Diogo de Castilho. Talvez tenha sido projetada uma abóbada para a capela-mor que, por morte do mestre, abortaria, tanto mais que se deu acabamento sumário aos Paços. Em 1544, estavam ainda tantos entulhos na capela que subiram a 200 carradas. João de Ruão trabalhou também nestas obras de acabamento.

No tempo intermédio continuaram os atos religiosos das obrigações da capeia, mas não se sabe onde se realizavam. Em datas sucessivas, fizeram-se obras secundárias. De 1695 a 1697, foi renovado o teto bem como os telhados. A pintura do estuque é da autoria do pintor lisbonense Francisco Ferreira de Araújo (fal. 1701), e foi renovada, em 1859, por António José Gonçalves das Neves.

O plano é o costumado, dois retângulos, para a nave e capela-mor, tendo aquela duas leves saliências a servir de transepto que, em alçado, terminam abaixo do nível da linha das paredes, da nave, cobertas de pequenas abóbadas nervadas. Os ângulos externos da capela-mor são robustecidos de contrafortes cilíndricos terminados por torreões renascentistas de sabor serliano.

A porta de entrada é lateral, a meio da parede esquerda da nave, acompanhada de duas altas janelas, que se repetem ao lado fronteiro, rasgando-se outras, uma a cada banda, no transepto e na capela-mor, de traçado maís simples.

A porta é uma composição típica de Marcos Pires, num manuelino naturalista. Entre dois contrafortes, em forma de pilar torcido, recorta-se o arco decorativo, tricêntrico, cujos aros se entrelaçam e rematam em desenvolvida cruz. Ficam-lhe inferiores os dois vãos, de verga policêntrica e abatida que um pilar médio separa, pilar fruto duma restauração de 1895, em substituição duma coluna clássica. Fica sobre este o Escudo Real, acompanhado, nos extremos do espaço, da Cruz de Cristo e da Esfera Armilar. Três escudetes suplementares mostram símbolos da Paixão.

CSM. pg. 62.jpg

Escultura barroca de São Miguel da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 62

No vértice da empena do topo da nave, ergue-se a cópia de uma escultura de pedra, manuelina evocativa de São Miguel, da autoria de Diogo Pires-o-Moço. O original está guardado.

Dias, P. e Gonçalves, A.N. O Património Artístico da Universidade de Coimbra. 2.ª edição revista e aumentada. 2004. Coimbra, Gráfica de Coimbra, Ld.ª

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:09

Terça-feira, 03.05.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 5

Acerca da Casa de Sub-ripas ainda há poucos anos alguns caturras teimavam a favor da lenda que pusera dentro das suas paredes a tragédia do D. Maria Telles — morta ás mãos do marido por intrigas da irmã rainha.

D._Leonor_Telles_de_Menezes.jpg

Rainha D. Leonor Teles, a origem da intriga. Imagem acedida em https://www.google.pt/search?q=leonor+teles 

assass├¡nio de D. Maria Teles, em Coimbra.jpgO resultado da intriga. Imagem acedida em http://invitaminerva45.blogspot.com/2017/07/estorias-curiosas-da-nossa-historia-2.html 

Isto, apesar de tal invenção estar claramente destruída desde 1871, com a publicação ou aproximação de certas datas históricas e documentos. Entre outros podem ver-se os artigos e cartas publicadas nos n.os 2526, 2527 e 2530 do Conimbricense daquele ano, por J. Martins de Carvalho, Miguel Osório, Senhor das Lágrimas, e Dr. Filipe Simões. Nem mesmo valeria a pena discutir o caso, se não estivéssemos num país onde quase toda a gente prefere seguir e repetir o que ouve a investigar e a refletir por conta própria.
Assim, sempre enfileiro aqui os argumentos que minaram a ingénua invenção.
Em primeiro lugar: da leitura da passagem de Fernão Lopes [Chronica de El-rei D. Fernando – Tomo IV da coleção de livros inéditos de história portuguesa.... pag. 350 a 354] invocada como fundamento da lenda — infere-se exatamente o contrário do que queriam aqueles caturras; pois o pai da nossa história muito positivamente indica como teatro da tragédia uma casa próxima á igreja de S. Bartolomeu — igreja situada no mesmo local onde existe a atual, constituída em 1756. Pertencia essa casa a um homem nobre, de nome Álvaro Fernandes de Carvalho.
— Depois: seguindo Fernão Lopes, também Frei Manuel dos Santos na «Monarchia Lusitana» refere o facto como passado na freguesia ou arrabalde de S. Bartolomeu.
— Há mais: porque é que António Coelho Gasco— escritor do século XVII, autor da Conquista, antiguidade e nobreza da mui insigne e Ínclita cidade de Coimbra —nada menciona do facto? Certamente por estarem já no seu tempo arrasadas ou irreconhecíveis as casas de Álvaro de Carvalho. Mas se a tragédia se tivesse dado na Casa de Sub-ripas ele aí tinha o teatro do crime — e não passaria em silêncio tão importante acontecimento.
— Ainda: nos pergaminhos e papéis do arquivo dos Perestrellos —proprietários históricos das casas de Sub-ripas até há poucos anos — nada apareceu, entre documentos referentes a estas casas, que desse o caso como acontecido nas suas moradas.
Não faço, nesta altura, pesar a circunstância de ver dado como acontecido numa casa quinhentista um facto pertencente ao século XIV; pois os defensores da lenda explicavam: que a casa existente fora levantada sobre as ruínas da casa ou torre do crime. Mas a isto responde-se: no século XVI, mercê de vida nacional mais pacífica e das novas condições da cidade, já podiam ser abandonadas partes da muralhas com as torres — como de resto o prova o documento da doação a João Vaz; enquanto que nos tempos precários — tão abrolhados de perigos o surpresas — do reinado de D. Fernando I não podia estar ainda desprezada a muralha de Coimbra, e convertidas as suas torres do vigia em aposentadorias de princesas.
Este argumento de boa razão fortalece os que nos fornecem os documentos.
Para mais — a lenda é de origem relativamente recente, e nenhum dos escritores que a adotaram o fez como historiador. Sorria-lhes á fantasia.
Mas não há remédio senão passar sem ela.
O interesse que nos merece a Casa de Sub-ripas em nada diminuirá, de resto, por termos afugentado dos seus desvãos e terraços o fantasma da linda e branca Maria Telles, imolada a golpes de bulhão, pelo filho da outra mísera e mesquinha numa madrugada de novembro de 1379.
Coimbra. 25 de março do 1906.
Manuel da Silva Gayo

Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série. Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 21:33

Quinta-feira, 28.04.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 4

Há, pois, além do corpo central, mais uns quatro.

E todo esse encon­trado jogo de cobertos e de faces, todos esses ângulos vivos e ares­tas livres de paredes aprumando fortes im­primem, na verdade, à velha morada, vista dessas bandas da barreira, uma feição ori­ginal, vigorosamente pitoresca, de casa acastelada — feição ainda acentuada pela grande altura a que, para este lado, o edifício inteiro se levanta.

O corpo principal, cujo centro corresponderá ao meio da fachada da rua, está erguido, assim como o terraço que se lhe segue a sudoeste, sobre a grossa alvenaria da primitiva muralha da cidade. É na face que, sobre a vertente, forma ângulo com a torre, e na que liga ao terraço, que se vêm as melhores janelas deste lado da casa. São emolduradas de cordões torcidos arqueando em conopial, a rematarem no fecho por cogulhos, estróbilos enfolhados e bustos.

Também assentou sobre a antiga muralha, no extremo norte, a manga de comunicação a que já me referi.

A torre, que a princípio me ocorreu identifi­car com a primitiva, deve estar edificada sobre os seus alicerces.

CSR. Torre vista do poente. Pg. 271.jpg

A casa de sub-Ripas – A torre vista do poente. Pg. 271

E quando avistada de poente, a dominar a escarpa, ela é que parece a parte cen­tral de todo o edifí­cio, o tronco de ondo bracejam, a um la­do o terraço livre, a outro a manga do norte. Vista deste lado, então, avança ainda, de aresta vi­va, a impor-se numa dureza altiva de quina de menagem, sob o elmo escuro do seu telhado amoriscado.

Construída toda de cantaria, ainda daí reforça aos nossos olhos a impressão de solidez maciça entre os outros cor­pos, em que. desta banda da escarpa, predominam a alve­naria argamassada e os panos de tijolo e cal.

A janela saliente, de beiral livre, suspensa sobre grossos cachorros golpeados, a lembrarem machicoulis medievais, acaba de dar-lhe, com a sua cor sombria, louro-broa, um ar brusco e caprichoso, de indivi­dualidade anacronicamente esquiva.

E sente-se que o seu aspeto, como o de todas estas facha­das da casa, quase briga com o tipo e corte das janelas la­vradas, já do sazão da nossa Renascença; pois aquelas massas, de fortaleza, ainda parecem resistir, tei­mar no passado, afirmar tradição de vida pré-quinhentista.

CSR. Muro brazonado. Pg. 268.jpg

Casa do Arco (a Sub ripas) – Muro brasonado do pátio de entrada. Pg. 268

Em mais de um ponto exterior da casa encontraremos detalhes sugestivos; aqui — um alegrete saliente, sustentado em cachorros de pedra; logo perto, um pilar de argamassa a dissimular um recanto baixo, e que dava pé a um vaso de craveiros; além, uma folha lavrada anima qualquer quebra de aresta; deste lado, um escudo de Cristo corta a linha monótona de um cunhal: tudo a revelar ainda a livre e tocante colaboração de artistas obscuros e a manter a graça própria. individualizante, de todas as construções das grandes épocas vivas!

CSR. Torre e manga de comunicação. Pg. 269.jpg

A casa de Sub-ripas, vista do norte – Torre e manga de comunicação com a “Torre do Prior do Ameal”. Pg. 269

Dentro — temos de o confessar — a casa não apresenta grande inte­resse. Excetuando o teto, certamente manuelino, da sala próxi­ma ao terraço aberto, e a passagem interior da manga do norte — nada aparece digno de maior nota.

A casa do arco, que comunicava por este com a do Sub-Ripas, devo ser um pouco mais moderna — talvez do tempo de D. João III. Interessante pelos painéis e aventais das janelas — Renascença manuelina — só tem de notável, afinal, o pe­queno pátio a que dá entrada um portão os­tentando o brasão dos Perestrellos, pedra evi­dentemente mais re­cente do que o resto. Esse pátio é, realmen­te, um dos mais curiosos cantos de Coimbra.

Entrando o portão, veremos à esquerda uma cis­terna de janela, coberta de alpendre avançado em arco, que logo nos prende os olhos, como tudo quanto representa uma adaptação feliz de utilidade e de arte.

E sem dúvida a cisterna o quo ali há de mais interessante.

Mas por quase todos os lados do pátio veremos medalhões embutidos nas paredes — prejudicadas, como a da fachada manuelina, pela obra recente de rebocos menos felizes.

A profusão desses medalhões, dentro e fora do pátio, por vários pontos sobretudo da casa do arco; a grande diversidade deles, tanto nos motivos como na execução — pois os há dos mais absurdos e dos mais toscos entre outros já do melhor corte e garbo —; finalmente, o próprio capricho e arbitrariedade da sua insignificativa distribuição e colocação — por muito tempo intrigaram os que atentavam nesse conjunto, tão curioso, das casas de Sub-ripas, entre si ligadas pelo arco — passadiço de João Vaz. E tentavam explicar.

No entanto, de todas as explicações e alvitres — é a hipótese apresentada pelo meu amigo António Augusto Gonçalves a que me parece admis­sível.

Ao tempo da construção de uma o da outra casa, era terreiro livre grande parte do chão onde mais tarde, em 1593, foi edificado o atual Colégio-Novo, o colégio da Sapiência — pertencente aos crúzios.

Nesse terreiro tinha o arquiteto João de Rouen, ou de Ruão, um telheiro de trabalho, onde se amestravam lavrantes e escultores — seus discípulos e seus ope­rários. À falta de lu­gar ondo expusessem e guardassem os seus ensaios e provas — os novos artistas vinham pregá-los nas paredes das casas em construção, dando assim a estas um aspeto viva­mente pitoresco no gos­to da época, embora esses detalhes decora­tivos não fossem coi­sas de real valor.

Serão as construções do Sub-ripas, e em especial a casa manuelina de jeito a po­derem sofrer compa­ração com vivendas senhoriais o com edi­ficações de puríssima arte tão numerosas lá fora, como na Itália e na França?

Certamente quo não. Simples vivendas par­ticulares, devidas ao caprichoso bom gosto de um licenciado rico ou do arquiteto por ele chamado, não excedem, em proporções e de­talhes, algumas outras moradas da época, mesmo em Portugal.

Contudo, a sua excecional situação, o relevo e carácter do seu conjunto, o desvelo de arte — hoje tão apagado, ou tão postiço — que nos revelam ainda, e a raridade do género neste país de ex­tremos — miserável ou sumptuoso — dão-lhe direito à nossa enternecida contemplação, e teriam jus­tificado amplamente a sua aquisição pelo Estado.

Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In: “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 14:52

Terça-feira, 26.04.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 3

Na entrada, hoje bastante prejudicada pelo leito erguido da rua, teremos de considerar duas par­tes: a porta, propriamente, e o corpo que a en­cima.

CSR. Entrada,. Pg. 267.jpg

Entrada da casa de Sub-ripas: fachada da rua. Pg. 267.

Esta porta apresenta-nos, talvez, nas molduras e na verga, uma modificação do arco de sarapanel, fórmula adotada pelo estilo manuelino, assim como a volta inteira e tantas outras.

O corpo que coroa a porta, representa uma espécie de retábulo, cuja moldura apresenta a forma de um arco alteado.        

Do fundo deste retábulo ressalta em pleno relevo uma cruz de troncos, tão comida já, que se torna impossível decifrar-lhe qualquer intenção emblemática. Assenta o retábulo, propriamente, numa longa mísula lavrada de folhagens, de onde prende, para fixar-se também no alto da porta, um pequeno escudo, hoje quase gasto, que talvez tivesse representado as chagas, envolvidas em flores.

De toda a frontaria, é a entrada a peça mais importante. Liga-se pelo estilo com as janelas, como disse, aparentando especialmente com as do primeiro andar.

O próprio remate acogulhado do arco e do seu retábulo a relaciona lo­go com todas estas. Abrindo arcos conopiais, munidas de pai­nel, realçadas de cordões, ou guarnecidas de colunelos, de variada base e molde, vegetalizadas de cogulhos pelo extradorso o fecho das curvas, floridas de rosinhas ou relevadas de folhas e frutos ao lon­go dos intradorsos, gol­peadas de lavores torçalados ou trabalhadas de foliado nos sub-re­bordos dos parapeitos — as janelas da frente, umas por outras, revelam-nos, como a porta, nas linhas de corte, nas molduragens, nos moti­vos de decoração — al­guma coisa da capricho­sa liberdade desse estilo que, não sendo original de raiz, repre­sentando antes um com­promisso de formas tradicionais e de simbolizações recentes da época, prestando-se, por vezes, a manifestações de intemperante inven­tiva — representou, contudo, larga concessão à mais opulenta fantasia artística, ficando, além disto, a valer para nós como documento, como associado traço de consoladora evocação histórica. Mas toda a casa, além desta fachada da frente, o revela sob variadas formas nos seus vãos e rasgaduras: nas janelas dos corpos voltados para a escarpa—em­bora algumas o acusem somente na curva o no golpe das vergas, nos cortes do aparelhamento—; e ainda em portas antigas do interior, o nos mui­tos cachorros, florões, medalhões e escudos encon­trados por dentro e por fora do edifício.

Quem vir apenas a fachada unida sobre a rua, mal suspeitará que a Casa de Sub-ripas forma, no seu exterior mesmo, um conjunto curiosa­mente irregular, como se pôde reconhecer observando-a do poente, do norte, ou de algum ponto sobredominante da cidade, de onde então os múlti­plos telhados da casa, telhados de quatro águas, nos dão logo a ideia de corpos diversos ligados numa só construção.

É que, além da parte recuada junto ao cunhal da rua, outras se destacam do corpo principal.

Prolongando este, avança sobre a escarpa, entre sudoeste e poente, um corpo em forma de terraço — livre e aberto ao rés do primeiro pavimento, mas cobrindo uma curta galeria, fendida de janelas que medem para baixo uma altura de andar. Desta galeria devia ter havido qualquer descida interior para a faixa dos quintais—chão da anti­ga barbacã.

CSR. Vista sudoeste. Pg. 268.jpg

A casa de Sub-ripas, vista de sudoeste – o terraço. Pg. 268

Fazendo ângulo com o mesmo corpo central, a olhar entre noroeste e norte, destaca-se outra massa em forma do torre, [Chamar lhe-hei sempre torre; para não haver confusões, de­signarei por Torre do Prior do Ameal a que fica situada distante, a norte da casa] cujo ressalto mede a sua menor extensão de curto retângulo. Mas com esta torre liga ain­da, para norte, por detrás de um pequeno ter­raço triangular, hoje desfigurado em cubículo, uma estreita manga de construção.

CSB. A torre. Pg. 268.jpg

A Casa de Sub-ripas – A torre, que, de certos pontos, parece a parte central do edifício. Pg. 268

Era esta — ao nível do pri­meiro pavimento, a passagem para a antiga cortina de comunicação com a Torre do Prior do Ameal — no pa­vimento superior — um miradouro coberto de telhado, a dominar, co­mo toda a casa, a bai­xa da cidade, antigo arrabalde, e o vale doce do Mondego.

Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:33

Quinta-feira, 21.04.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 2

Não se pode indicar a data precisa da construção. Devia ter sido edificada no reinado de D. Manuel, entre 1514 e 1521 — pelo menos grande parte dela. Ignora-se o nome do arquiteto.

O corpo principal ocupa uma superfície trape­zoidal, duns cento e sessenta metros quadrados, aproximadamente, e cuja maior extensão corre quase na linha de nascente a poente, da rua para a escarpa da cidade. Sobre a rua, a casa apruma numa fachada unida, de dois andares, da qual apenas se desalinha, na extrema inferior, o pe­queno corpo que faz recanto com o cunhal. Deste cunhal até á extrema superior, junto ao arco que atravessa a rua — o passadiço de João Vaz — a fachada mede pouco mais de dez metros, de­vendo ter de altura a prumo uns onze metros.

CSR. Planta, pg. 272, pormenor.jpg

 Planta da casa de sub-Ripas, pg. 272.

Dá-nos uma impressão de solidez maciça, de densa resistência, mais do que de elegância no­bre ou de ousadia construtiva, embora a diferente composição da parede logo fizesse distinguir, antes de modernos revestimentos a deplorar, a fábrica dos seus dois andares.

Há nela um absoluto predomínio da parte cheia, como a acusar e a manter a reminiscência dos muros e defesas cerradas. Nada até parece haver que admirar de proporções combinadas ou de equilibradoras compensações nessa massa retangular—tanto ela, de plena e socada, se firma e assenta por si, como um bloco inteiriço. É esta, na verdade, a primeira impressão. E no entanto é casa bem curiosa, exatamente por nos oferecer um exemplar de construção que alia ao aspeto sólido da sua arquitetura, ainda no molde de tempos crus, a preocupação e desvelo duma arte já flexuosa, viva, liberta, derivada de outras formas e desviada de primitivos intuitos, mas apropriada agora á decoração de moradas aberta­mente hospitaleiras, alegradas de graça expansi­va, revelando corresponderem ao resfolego duma existência social tornada mais despreocupada e leve.

CSR. Passagem interior. Pg. 268.jpg

Casa de Sub-ripas - Passagem interior da manga norte. Pg. 269.

CSR. cisterna, pg. 269.jpg

Casa do Arco (a Sub-ripas) – A cisterna do pátio. Pg. 269.

Todas as aberturas ornamentadas revelam aqui a influência manuelina, com mais ou menos abun­dância.

CSR. Janela, 1.º andar. Pg. 266.jpg

Janela da fachada sobre a rua, 1.º andar. Pg. 266

CSR. Janela para de trás. Pg. 266.jpg

Janela para os lados de trás, sobre a vertente, junto ao terraço. Pg. 266

CSR. Janela de uma fachada. Pg. 266.jpg

Janela de uma fachada sobre a vertente da cidade. Pg. 266

Não é talvez do mais delgado e nervoso, nem do mais originalmente sugestivo, nem do mais elasticamente rico o desenho das guarnições e lavrados que as decoram, cortados na mesma pedra de Bordalo, empregada em quase toda a construção.

Mas a combinada acumulação e reforço de or­natos, como no portal, por exemplo, e a expres­são confiada dos cortes e relevos imprimem a tu­do um quê de simpatia comunicativa, de vi­gor cordial, com todo o carácter das coisas feitas quando as próprias fórmulas seguidas continham e exalavam ainda penetrante calor de vida.

 Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In: “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:39

Terça-feira, 19.04.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 1

Agradecemos ao Professor Doutor Nelson Correia Borges a cedência do texto, profusamente ilustrado, da autoria de Manuel da Silva Gaio, e que se encontra publicado na Illustração Portugueza, referenciado a um dos edifícios mais emblemáticos da nossa Cidade, a casa Sobre-a-riba ou Sobre-a-ripa. É aí que, na atualidade, se encontra sediado o Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra.

CSR. Illustração Portugueza, p. 265..JPG

“Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265.

Ao abrir do século XVI vi­via em Coimbra um licen­ciado, de nome João Vaz, casado com Bertoleza Cabral (?) e possuidor de uns pardieiros na rua de Sub-Ripas — então de «Sobre-a-riba» ou «Sobre-a-ripa».

Esta rua — que sobe da de Quebra-Costas para o Colégio Novo, em linha sudeste-sul-norte é ladeada: á esquerda-poente, por uma fileira de casas pequenas; á direita, e a partir talvez do seu terço inferior, por um muro fechado. Quem a ve­nha seguindo de baixo irá dar com o cunhal de uma casa antiga, que faz recanto da esquerda, em frente do muro, quebrando este também nessa altura, para a direita, a dar à rua estreita a folga recuada de quase mais três metros. Chegados aqui, ao fundo do pequeno largo assim formado, tere­mos em frente, a norte, um arco sob o qual a rua continua enladeirando então para o Colégio Novo e, corrida por cima do arco, de poente a nascente, mas prolongada neste sentido, a facha­da de uma casa de dois andares. Fechando a di­reita do largo, perpendicularmente a esta casa, fica um muro onde abre o portão brasonado do seu pátio de entrada. Finalmente: a poente, em face do portão, veremos a verdadeira casa chamada de «Sub-Ripas», cujo cunhal avistámos primeiro.

CSR. Arco de passagem, p. 265, pormenor 1.jpg

Arco de passagem das casas de sub-Ripas, p. 265.

Os pardieiros de João Vaz deviam ter ocupado o local da atual casa do arco e do pátio cor­respondente; e comunicariam talvez, pela bar­reira, com outras casas ou dependências já da rua chamada hoje dos Coutinhos, na encosta a cavaleiro da rua de Sub-Ripas.

Por volta de 1514 o que havia em face desses par­dieiros era apenas um lan­ço de muralha e uma tor­re, que faziam parte da cintura da cidade deven­do a torre ser igual ou se­melhante àquela que ain­da existe para cima, a norte, conhecida na antiga tradição por torre do Prior do Ameal, e há poucos anos por Torre d'Anto, des­de que a habitou o poeta do Só.

CSR. Torre, p. 265, pormenor 2.jpg

«Torre do Prior do Ameal» ou «Torre d’Anto», p. 265.

A muralha e a torre de Sobre-a-ripa estariam em ruína; pelo menos es­tavam abandonadas como defesa do burgo, por cor­rerem tempos mais mimosos de remanso; nem tam­bém dariam já suficiente escudo à barreira da cida­de, com as novas armas de investida e cerco...

Querendo possuir as duas bandas da rua, e ten­tado de certo pela doce e amorável vista de casaria e campo alcançada de so­bre a escarpa, logrou João Vaz obter aquele lanço de muralha com a torre, não alargando a proprie­dade para sul e sudoeste, talvez porque desta extre­ma ela já fosse bater nas casas do sr. D. Filipe — personagem tão respeito­samente citado nos docu­mentos da época como misteriosamente sumido, para nós, na indicação va­ga desse nome próprio. Nem consegui ver vestígios das suas casas.

Que, do licenciado, tam­bém nada mais se sabe, até hoje, além das indicações dadas acima.

É daquele ano de 1514 o contracto de doa­ção pelo qual um sapateiro chamado Bastião Gonçal­ves, sua mulher Catarina Anes e sua mãe Catarina Fernandes cederam o direito do afo­ramento do lanço e a torre ao licenciado João Vaz. Consta d'um documento ou instrumento de pergaminho, [Pertence ao arquivo dos Perestrelos, cujo brasão coroa o portão à direita do largo] lavrado pelo tabelião Gregório Lourenço e apresentado na camara de Coimbra em 26 de julho desse ano, sendo escrivão da mesma camara o morador Inofre da Ponte. Re­quereu logo João Vaz a ratificação do contrato, e juntamente a licença necessária para construir um balcão ou passadiço que, atravessando a rua, pudesse ligar-lhe de um lado para outro os seus an­tigos pardieiros e a porção da muralha novamente adquirida.

Obteve a ratificação e a nova licença alguns dias depois — ficando assim, desde o verão de 1514, na posse do terreno onde foi levantada a morada conhecida hoje por «Casa de Sub-Ripas».

 Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In: “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 16:38

Terça-feira, 08.03.22

Coimbra: Baixa na época medieval 9

Um destes afortunados comerciantes foi Estevão Domingues. Morador na Rua dos Francos e freguês de Santiago, encontramo-lo em 1347, juntamente com sua esposa Florença Fagundes, a negociar com esta igreja a sepultura de ambos, sendo noticiado, também, que a mãe desta, Joana Fernandes, já ali estava enterrada. Não deverá ter sido este, porém, o destino último deste mercador. Ao que tudo indica, foi enterrado no mosteiro de Santa Clara, já que a filha de ambos, Clara Esteves, ali terá ingressado, razão pela qual o mosteiro reclamou um terço das posses de Estevão Domingues após a sua morte. Quando este faleceu, já era casado em segundas núpcias com Iria Esteves que, como ficamos sabendo por instrumento de 1362, terá feito o inventário dos seus bens, a fim de que a subsequente partição fosse efetuada.

Rua Ferreira Borges (Calçada) 02 Inicio do séc. Fotografia da hoje designada rua Visconde da Luz, nos inicios do séc. XX

É com base neste inventário que temos uma noção da riqueza de um mercador coimbrão de fins de trezentos. Estevão Domingues era um negociante por excelência, já que mercava panos importados, sobretudo de lã, oriundos de Flandres e da Inglaterra. Juntamente com estes, vendia também enfeites para a confecção de vestes, como fitas, fios e botões de diversos materiais. Do seu património pessoal, destaca-se um relativo conforto e abundância de artigos de cama e mesa, incluindo-se aí almofadas, colchões, cobertores, mantas, tapetes, toalhas, vasos, taças, colheres, panelas, entre muitos outros utensílios. Também nos aparece arrolado o mobiliário da casa, constituído – entre outros objetos – por cadeiras, mesas, armários, tabuleiros e uma escrivaninha, além de diversos tipos de roupas, pertencentes tanto a Estevão Domingues como a Iria Esteves. Por fim, ficamos sabendo de suas propriedades, que se resumiam, aparentemente, a casas na Rua dos Francos e uma outra na Rua dos Tintureiros.

Não era só de mercadores, no entanto, que a Rua de Coruche e a Rua dos Francos – antecessora da Calçada – eram constituídas. Desde a centúria de duzentos até meados do século XV, encontramos na documentação, além dos sempre presentes alfaiates e sapateiros, também ourives, tendeiros, cónegos, tosadores, um cutileiro, um boticário, um pintor, um barqueiro e um “homem braceiro”. Dentre os funcionários públicos e régios, ali encontramos os tabeliães Afonso Vicente, Miguel Lourenço, João Afonso e Pedro Afonso; o almoxarife Pedro Juliães. vedor da portagem Vasco Eanes e o escrivão régio Domingos Anes, o escrivão da câmara, Álvaro Gonçalves e Gonçalo Vasques, “esprivam (sic) que foy dos horphaãos”. Dentre a pequena nobreza, destacamos os escudeiros João e João Lourenço, além da própria Coroa que, como sabemos através das chancelarias e tombos, detinha algumas propriedades na área.

Finalmente, descendo até o final desta mesma via, atingir-se-ia a Portagem, ponto de partida de nossa caminhada pelas freguesias de São Bartolomeu e Santiago de finais da Idade Média.

Conclusão

 Como pudemos verificar, quem se embrenhasse pelas ruas, adros e terreiros de tais freguesias no período medieval, teria contato direto com elementos de todos os extratos sociais, e testemunharia a existência de um número relativamente diversificado de mesteres e estabelecimentos de produção.

Dentre estes, merecem especial destaque os alfaiates, sapateiros e carpinteiros, presentes em toda a área, assim como os peliteiros e os tanoeiros, únicas categorias de mesteres geograficamente concentradas, instalados nas ruas que levam suas designações, na freguesia de Santiago. A freguesia de S. Bartolomeu, por sua vez, tinha como atividade predominante a produção de azeite – como nos evidencia a alta concentração de lagares na zona próxima ao rio –, e contava, também, com a presença de alguns estabelecimentos mecânicos relacionados à curtição de peles.

Dissertação, fig. 22.png

Dissertação. Imagem nº 22: A Praça do Comércio nos inícios do séc. XX, em vista tomada em direção a igreja de Santiago, pg. 107.

Dissertação, fig. 23.png

Dissertação. Imagem nº 23: A Rua do Poço, ao centro, ladeada pela Rua das Rãs, a Rua das Solas (atual Adelino Veiga) e a Rua das Azeiteiras. Seu trecho oriental, após o Beco de Santa Maria, hoje é designado por Travessa das Canivetas. Planta Topográfica de Coimbra executada pelos Irmãos Goullard, 1873-74, pg. 117.

Por fim, no eixo formado pela Rua de Coruche e a Calçada – antes denominada Rua dos Francos –, pela sua importância e grande extensão, encontravamse instalados profissionais de diversas categorias e grupos sociais, dentre os quais destacava-se a burguesia mercantil, que ali formava o seu reduto.

Concluindo, resta-nos reafirmar que será na Baixa que se conduzirá o desenvolvimento e se refletirá o progresso de Coimbra pelos restantes séculos do período medieval. Serão seus habitantes, homens e mulheres, mercadores e mesteres, que incrementarão o comércio e a produção, e garantirão o relevante papel da urbe no contexto do reino. Destes habitantes, tentámos obter retratos do seu cotidiano e detalhes acerca de sua identidade, revelando um pouco mais acerca destes agentes da história que, em seu conjunto, formam parte essencial do contexto socioeconómico coimbrão, no período de transição de antiga sede da corte à moderna cidade estudantil.

Augusto, O.C.G.S. A Baixa de Coimbra em finais da Idade Média: Sociedade e cotidiano nas freguesias de S. Bartolomeu e Santiago. In: Revista de História da Sociedade e da Cultura, 13 (2013). Acedido em https://www.studocu.com/pt/document/universidade-de-coimbra/historia-da-cidade-de-coimbra/apontamentos/a-baixa-de-coimbra-em-finais-da-idade-me-dia/8576144/view

 

Tags: Coimbra séc. XIV, Coimbra séc. XV, Coimbra séc. XVI, Baixa, Rua dos Francos ver Rua Ferreira Borges, Rua dos Tintureiros, Rua de Coruche ver Rua Visconde da Luz, Calçada,

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:33

Quinta-feira, 03.03.22

Coimbra: Baixa na época medieval 8

Em dias comuns, o movimento na Praça não seria muito diferente do resto dos arruamentos. Transeuntes, tendas, algumas vendedeiras, carros de bois, crianças correndo ou pombas ciscando – alimentando-se, talvez, do que havia sido deixado da última feira semanal – seriam visões comuns. Esta relativa tranquilidade, porém, não devia equiparar-se ao bulício que a Praça experienciava em tempos de feira franca.

Durante os reinados de D. Fernando e D. João I, esta ocorria de 15 de Setembro a 15 de Outubro. Coincidia com o S. Miguel de Setembro, época de colheitas e de pagamento de rendas, e a ela acorria gente de todo o termo, para comprar e para vender, constituindo-se no verdadeiro encontro entre o campo e a cidade.

Tais características faziam da feira, portanto, um vivo e colorido retrato da sociedade medieval. Era ali que o abastado burguês citadino exibia suas roupas adornadas e sua bolsa cheia de moedas, procurando pelo melhor sapato, o melhor tecido ou, talvez, alguma joia. Impressionava, com toda a certeza, o lavrador que, vindo de uma localidade recôndita nos confins do termo coimbrão, aproveitara as isenções fiscais próprias do evento para montar uma banca e vender o produto de suas colheitas a fim de obter algum lucro, que talvez fosse gasto por ali mesmo, em um novo utensílio doméstico ou peça de roupa para sua família. À sua banca, acorria, entre muitos outros, o mesteiral local, com o intuito de abastecer-se do que era necessário para as suas atividades e, no processo, surpreender-se ao passar por estrangeiros a balbuciarem uma língua estranha, vendendo panos exóticos ou outros produtos vindos de fora do reino. Tudo isto, claro, vigiado pelos oficiais do concelho, dispostos a manter a ordem e que tinham no pelourinho, situado bem ao centro da praça, tanto um instrumento de punição como um elemento representativo do poder municipal.

Reconstituição do pelourinho.jpg

Reconstituição do pelourinho, na sua presumível localização quando instalado na Praça

Por fim, em frente a porta da igreja Santiago, alguns cónegos reúnem-se no alto de sua escadaria, juntamente com um casal. A meio deles, sentava-se um tabelião, rabiscando um grande livro. Era algum emprazamento a tomar forma. Foi este o caso, por exemplo, de Diogo Lourenço e Catarina Anes que, em 5 de Outubro de 1437, em plena feira, receberam de emprazamento, do Mosteiro de São Jorge, um casal e herdade em Santa Luzia, termo de Coimbra, tendo o contrato sido celebrado “ante a porta prinçipal da egreja de San Tiago”.

Dissertação, fig. 8 e 9 v2.jpg

Dissertação. Imagem nº 8 e 9: A igreja de Santiago após a reconstrução, retratada atualmente / A capela Norte, construída no séc. XV em estilo gótico, pg. 41.

A ocasião, porém, não seria só para negócios. Era, também, a oportunidade de rever os amigos, quem sabe fazer outros novos, atualizar-se acerca das novidades e comentar os assuntos do reino, da cidade, da família, e, até mesmo, da vida alheia. Do que falavam exatamente? Não sabemos, mas podemos supor. Muito provavelmente, um assunto corrente na feira de 1395 seria, por exemplo, o do divórcio entre Afonso Fernandes e Catarina Martins. Ele, dito da Cordeirã, fora escrivão do almoxarifado, e ela, filha de Martim Lourenço, conhecido por Malha e que sabemos ter sido almoxarife de Coimbra entre 1361 e 1367. Foram casados por dez anos e eram, certamente, conhecidos dos moradores da zona da Praça, pois tinham uma casa na Rua dos Peliteiros e um cortinhal em Poço Redondo, localidade próxima.

Não sabemos o que terá causado o divórcio e, muito menos, de quem teria partido a iniciativa, se de um dos cônjuges ou se, em uma hipótese menos provável, da Igreja. Teria o ex-escrivão abandonado a esposa? Era um dos motivos que levariam a tal fim. Se assim o fosse, dar-nos-ia razões para interpretar as quinhentas libras que uma tal Catarina Beata “avia de dar ao dicto Affonso Fernandez do corregimento de pallavras que dissera do dicto Affonso Fernandez” – referidas no instrumento de partilha de bens do casal – como o possível resultado de uma pouco respeitosa observação em relação ao caso. De qualquer modo, a situação era rara e, tratando-se de personagens de alguma visibilidade, certamente terá gerado comentários.

Nesta mesma época, outro tópico que deveria estar entre os discutidos pelos habitantes da cidade seria o da insegurança durante a noite. O povo, este, já apontava culpados: os homens responsáveis pela guarda noturna. Aparentemente, o alcaide-mor, ao invés de utilizar, para este fim, funcionários conhecidos, “escriptos nos livros”, valia-se do serviço de “homees vaadios e nom conheçudos”, não sendo incomum o aparecimento, ao raiar do sol, de pessoas maltratadas e até mesmo mortas, dentre outros malefícios. Por vezes, após a descoberta destes crimes, os ditos homens abandonavam a cidade misteriosamente, sendo “de presumir que som culpados nos dictos mallafiçios ou em parte deles”. Foi este o conteúdo de uma reclamação ao rei, por ocasião das cortes de Santarém, em 1396, tendo o monarca mandado que fossem cumpridos os costumes da cidade de utilizar, para este fim, pessoas conhecidas da população.

Imediatamente acima da Praça, ao cimo das escadas que, já no séc. XIV estariam situadas imediatamente em frente ao arco da Barbacã, estava o eixo formado pela Calçada – antes Rua dos Francos – e a Rua de Coruche, um dos mais importantes da cidade. Tais artérias serviram, durante o período medieval, como reduto de mercadores, fama confirmada por fontes contemporâneas, como é o caso de um decreto fernandino, datado de 1367, que garantia privilégios, especificamente, aos “mercadores moradores na Rua de Coruche e na Rua de Francos”.

Fotografia da hoje designada rua Visconde da Luz.j

Fotografia antiga da hoje designada rua Visconde da Luz 1

Encontramo-los nas fontes desde as primeiras menções a ambas as ruas, em inícios do século XIII, tendo sido muitos deles, ao longo da Idade Média, sepultados no cercano templo de Santiago, como nos provam as diversas citações a mercadores presentes no Livro de Aniversários desta colegiada.

Augusto, O.C.G.S. A Baixa de Coimbra em finais da Idade Média: Sociedade e cotidiano nas freguesias de S. Bartolomeu e Santiago. In: Revista de História da Sociedade e da Cultura, 13 (2013). Acedido em https://www.studocu.com/pt/document/universidade-de-coimbra/historia-da-cidade-de-coimbra/apontamentos/a-baixa-de-coimbra-em-finais-da-idade-me-dia/8576144/view

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 16:41

Terça-feira, 01.03.22

Coimbra: Baixa na época medieval 7

À época em que se redigiu o testamento, Constança Esteves vivia na companhia de uma tal Senhorinha, a quem acabou por deixar um olival “alem da ponte na Varzea e quatro geiras de terra no campo de Mondego”, estipulando que, à morte desta, tais propriedades fossem transferidas para a Albergaria de Santa Maria de São Bartolomeu, cuja sede se situava na freguesia de Santiago. Ao lado do edifício onde estava instalada a albergaria, encontravam-se as casas que, no séc. XVI, seriam reformadas para servir de Paços do Conde de Cantanhede, e que correspondem, por certo, às doadas por D. João I, em 1390, ao prior do Hospital e Marechal do Rei, Álvaro Gonçalves Camelo.

Junto da casa que pertenceu a esta personagem, na Idade Média, corriam três ruas: a Rua dos Tanoeiros, atual Adelino Veiga; a Rua Olho do Lobo, atual Rua das Rãs e, provavelmente, a Rua dos Peliteiros, sendo as três paralelas e culminando no Arnado. Como os próprios topónimos nos indicam, por ali estariam concentrados, em finais da Idade Média, os tanoeiros, fabricantes de tonéis – destinados ao armazenamento de diversos produtos, dentre os quais, certamente, o azeite produzido na freguesia vizinha – e os peliteiros, curtidores de peles, especializados na obtenção da pelica, couro fino, de uso nobre.

Desta forma, não é surpreendente o fato de termos encontrado nas fontes testemunhos abundantes à presença destes profissionais na área, acompanhados de mercadores e, sobretudo, de sapateiros – que certamente se utilizavam do couro ali produzido – e carpinteiros, que poderiam estar envolvidos no fabrico dos tonéis. Para a Rua dos Tanoeiros, convém destacar também que, na primeira metade do séc. XV, era ali proprietário – dentre tanoeiros, sapateiros e carniceiros – o tabelião João Rodrigues, que fora criado do infante Dom Pedro, tendo sido por pedido deste ao concelho que acedera ao tabelionato, por volta de 1429.

A Rua dos Peliteiros, sobretudo, havia de ser uma artéria importante. O seu período áureo parece ter sido o século XIII e inícios do século XIV, centúria em que encontramos algumas referências a personalidades ilustres que nela, e em suas cercanias, detinham propriedades. Enumerando-as, citemos Vasco Gil, cónego de Santiago e tabelião público, que ali morou; D. Pascásio Godins, que foi deão de Viseu e de Coimbra; o chantre de Viseu e cónego de Coimbra Lourenço Esteves de Formoselha; Gonçalo Esteves, que havia sido escudeiro de D. Astrigo, raçoeiro da Sé, e Aldonça Anes de Molnes, monja de Lorvão. Próximo das casas habitadas por esta última, estariam outras, pertencentes ao seu irmão, o fidalgo Paio Anes de Molnes. Convém mencionar aqui, também, o alvazil Tomás Martins, que habitou em uma platea, na freguesia de Santiago, que poderá corresponder à Rua dos Peliteiros.

Rumando pela Rua dos Tanoeiros em direção à igreja de Santiago, atingir-se-ia, em inícios do séc. XV, a Praça. Devia parecer, nesta época, um grande terreiro de formato ainda um tanto irregular, sendo provável que não se estendesse até ao adro de S. Bartolomeu, como nos dias atuais. A meio desta, em frente a uma pequena escada encrustada no casario, já lá estava o pelourinho e, próximo dali, imediatamente ao lado da igreja de Santiago, os açougues. Em segundo plano, imponente, a muralha e suas torres.

Nos quarteirões à volta da Praça estariam em curso, provavelmente, demolições e novas edificações, no âmbito do processo de reorganização do espaço que lhe deu a configuração atual. Das que já ali estavam, algumas seriam dotadas de alpendres, como ao que renunciou, em 1455, Afonso Martins, que fora criado do infante D. Pedro, alegando ser “homem prove (sic) e meesteirosso”. Tal alpendre confrontava com casas do barbeiro Álvaro Fernandes e outras que haviam pertencido a Martim Afonso, também barbeiro e, à época, já falecido.

Dissertação, fig. 16.png

Dissertação. Imagem nº 16: Em azul, o traçado presumido da sota, desde a Rua de Quebra Costas até o Mondego, pg. 60

Dissertação, fig. 17 e 18.png

Dissertação. Imagens nº 17 e 18: O arco quinhentista / Detalhe do arco, pg. 93

 A pequena concentração destes profissionais no local é entendível. Afinal, a Praça, em meados de quatrocentos, já seria um lugar relativamente central. Ademais, lembremos que os barbeiros, além de apararem a barba e o cabelo, tinham outras atribuições, dentre as quais pequenas intervenções médicas, como era o caso das sangrias. Seu local de trabalho afigurava-se, também, como um espaço de convívio masculino. No século XIV, o severo clérigo castelhano Martín Perez, por exemplo, via grande perigo no ajuntamento de homens no barbeiro, assim como, em contraponto, na concentração de mulheres nas casas de fiandeiras.

Augusto, O.C.G.S. A Baixa de Coimbra em finais da Idade Média: Sociedade e cotidiano nas freguesias de S. Bartolomeu e Santiago. In: Revista de História da Sociedade e da Cultura, 13 (2013). Acedido em https://www.studocu.com/pt/document/universidade-de-coimbra/historia-da-cidade-de-coimbra/apontamentos/a-baixa-de-coimbra-em-finais-da-idade-me-dia/8576144/view

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:37


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Junho 2022

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930