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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 15.11.22

Coimbra: Calçadas da Cidade

O Arquivo Histórico Municipal de Coimbra prossegue no seu propósito de divulgar documentos mais relevantes sobre a história da cidade, daí o nosso conselho:

- Sejam visitantes assíduos da página de Facebook, https://www.facebook.com/arquivohistoricocoimbra.

Calçadas de Coimbra 1.jpg

Esta curiosa imagem e texto, servem para chamar a atenção para a seguinte síntese, da responsabilidade da Dr.ª Paula França.

 CALÇADAS DE COIMBRA

Vê onde pões os pés

Desde tempos antigos a comunicação entre localidades era um serviço essencial para as populações. A circulação de bens essenciais à subsistência coloca, desde cedo, o problema dos transportes, por via terrestre, fluvial e/ou marítima.

Torna-se assim necessário, ao longo do tempo, que os Municípios, como entidades que garantem o bem-estar das populações assegurem a existência e manutenção das vias de comunicação em boas condições: os caminhos, as estradas, as pontes, as calçadas.

Os documentos do AHMC que divulgamos apresentam-nos estas realidades para o século XVI.

No Livro de Registo da Correspondência antiga da Câmara de Coimbra encontramos esta curiosa carta:

1574, Março, 21, Coimbra. Petição de Gonçalo Fernandes, boieiro, dirigida à Câmara e Coimbra, pedindo autorização para poder levar os seus animais para os olivais da cidade de Coimbra, zona de pastagem para a qual era necessário ter permissão. Fazia este pedido invocando o serviço que prestava à comunidade com o transporte de mercadorias essenciais. Todavia admitia que esse trânsito também danificava o pavimento. Assim, como contrapartida, oferecia ”umas carradas de pedra” para conserto das ditas “calçadas” e comprometia-se a trazer o seu gado “acabramado e peado”, para não causar danos nos olivais. PT/AHMC/Registo, vol. 3, 1571-1577, fl. 334v-336.

Este pedido foi objeto de ponderação e decisão dos edis, conforme decorre da transcrição feita sobre o assunto e exarada no referido Livro.

Calçadas de Coimbra 4.jpg

Documento cuja transcrição está acessível em https://drive.google.com/.../1WC5CE9xO5oINL89bfrX.../view.

Transcrição

[fl. 334v] [...] Juiz, vereadores e procurador desta cidade de Coimbra. Fazemos saber aos que esta nosa certidam virem que he verdade [fl. 335] que estando nos em camara fazendo vereação, aos vimte dyas de março deste anno presente de setenta e quatro, por parte de Gonçallo Fernandez, boieiro morador nesta cidade nos foi apresentada hua petição, escrita dizendo nos que tinha dous bois seus com os quais ganhava a sua vida em carear por esta cidade e seus arabaldes, com os quais elle servia a dita cidade e moradores della por seu direito e que nam tynha que lhe dar a comer, por defemderem o pasto dos olivais, pedyndo nos licença pera en elles poder pastar, e visto per nos seu requerimento ser justo, lhe mandamos notefyquar, que por quanto os ditos seus bois com ho caro e servidão delle, que andava ferado das rodas, fazya muita perda e deneficavam as callsadas desta cidade, no conserto das quais a cidade guastava, diguo, tinha em cada hum anno, muitos gastos pera reformação dellas en restituição da perda que elle com seus caros fazião em ellas, por amdar contynuadamente no serviço do dito caro e bois per ellas guanhando sua vida, dese dez caradas de pedra, postas na dita cidade, dentro nella, pera ajuda do conserto das ditas callsadas, e isto onde quer que o procurador da cidade ordenar e lhe mandase, pera efeito da obra dellas, postas a sua custa, no lugar onde lhe for mandado, d’oje en diante, dentro neste verão presente deste anno, em qualquer tempo delle, que lhe for mandado, do que ho dito Gonçalo Fernandez foi contente e de sua propria e livre [fl. 335v] vomtade lhe aprouve de dar, postas dentro no dito tempo, as ditas dez caradas de pedra boas, e de receber, onde quer que lhe for mandado, pelo procurador della, sob pena de por cada carada que lhe faltar, paguar de pena duzentos rs, pera as obras das ditas callsadas, e isto pela boa obra que elle de nos recebia com lhe daremos licença pera seus bois pastarem nos olivais <devasos> desta cidade como adiante se fara mençam, e em satisfaçam da perda que a cidade niso reçebia com os caros delle soplicante andarem nas ditas callçadas e por nos constar, per fee do sprivão da camara, que esta sobsprevo, elle ter satisfeito com há obryguação de dar as ditas dez caradas de pedra como dito hee, do que se fez obryguação no livro das notas da camara como mais larguamente em elle se contem. Por esta damos lugar e licença ao dito soplicante pera que d’oje en diamte posa pastar com seus bois pelos olyvais devasos desta cidade, este presente anno, emquanto nelles não ouver novydade d’azeite, e isto naquelles em antes que nelles for afolhado pera o tall pasto, os quais pastarão e andarão nos ditos olyvais com as comdyçois seguintes: pastarão de dia e nam de noite; e o prygmeiro andarão peados e acabramados com cabramos de [fl. 336] cadeas de fero, os quais cabramos serão da gramdura e marqua do cabramo da cidade que esta na camara della e serão lamçados os ditos cabramos de fero ao caro sob pena de sendo achados os ditos bois conta a forma do sobredito paguar seus donos has penas das pusturas desta cidade e enquanto andarem da maneira que dito hee, nos ditos olivais, mandamos aos meirinhos allcaides rendeiros e jurados desta cidade e seus termos nam seyão coymados nem paguem por isso cousa allgua e registara com ho sprito da nota da camara, e por certeza desto lhe mandamos pasar a presente certidão per vos asinada.

Coimbra, aos vimte e hum de março de Ibc setenta e quatro annos.

 Autoria das Transcrições Paleográficas: Paula França.

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por Rodrigues Costa às 15:05

Terça-feira, 06.09.22

Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, um tesouro a descobrir

Como já temos referido, o Arquivo da Universidade de Coimbra integra exemplares que são verdadeiras preciosidades, as quais vai revelando, periodicamente, no seu site.

Hoje recuperamos esta magnifica encadernação mudéjar cuja história é a que se segue.

AUC. encadernacao_hires.jpeg

AUC-IV-1.ªE-7-5-13 [Séc. XVI?]

AUC. encadernacao_hires Pormenor 1.png

AUC-IV-1.ªE-7-5-13 [Séc. XVI?]. Pormenor 1

AUC. encadernacao_hires. Pormenor 2.png

AUC-IV-1.ªE-7-5-13 [Séc. XVI?]. Pormenor 2

Esta encadernação mudéjar, em pergaminho, foi adaptada ao Livro de Apresentação de Colegiaturas e familiaturas do Pontifício e Real Colégio de São Pedro (1623-1790).

Exemplar único no AUC é, certamente, uma tipologia de encadernação rara em outros arquivos do país. Terá sido adquirida, pelo referido Colégio, a comerciantes livreiros de Coimbra que a trouxeram, decerto, de Espanha, onde existem inúmeros exemplares destas encadernações.

Anteriormente, pertenceu a uma obra que tinha por título, que ainda pode ser lido, no interior da badana, Manual 1591. Também a dimensão do miolo do volume atual, ligeiramente superior à da encadernação, confirma que foi feito esse reaproveitamento.

As presilhas de fecho desta encadernação em envelope, com badana, estão completas, mas já são omissos os botões de fecho, geralmente feitos com uma tira de pergaminho enrolada, restando apenas o vestígio dos mesmos.

 AUC. O documento do mês. Acedido em https://www.uc.pt/anossauc/centrodoconhecimento/encadernacao/

 

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por Rodrigues Costa às 19:05

Quinta-feira, 01.09.22

Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, documento do mês de agosto de 2022

Prosseguindo na séria “Documento do mês” o Arquivo da Universidade de Coimbra, divulgou esta preciosidade

AUV. Documento mês de Agosto.png

Séc. XVI (?) – Letra capital iluminada de um fólio de pergaminho que foi recuperado para servir de encadernação. PT/AUC/DIO/CST – Colegiada de São Tiago (F); Escritura de obrigação de missas (DC) – III-1.ªD-8-5-23. Acedido em: documentodomesdeagosto2022 (uc.pt)

Estamos em presença do reaproveitamento de um fólio de pergaminho, de livro litúrgico com notação musical, para ser utilizado como capa de uma escritura de obrigação de missas.

A escritura de obrigação, datada de 15 de novembro de 1633, estabelece o cumprimento de um legado pio, de celebração anual de três missas rezadas, feita por Bernarda de Vargas, viúva do impressor Jorge Rodrigues. Para cumprimento desta disposição, deixa em legado, à Colegiada de São Tiago, umas casas “de sobrado”, na Rua do Corpo de Deus.

O documento foi redigido na Rua da Moeda, em Coimbra, pelo tabelião Lopo de Andrade, perante Bernarda de Vargas e a seu pedido. As missas seriam celebradas na igreja Colegiada de São Tiago, da seguinte forma: uma pelo Natal, outra pela Páscoa e outra pelo Espírito Santo, sendo a esmola por cada missa cinquenta réis.

Apesar de se poder ler “Obrigação das missas das cazas do P.e Domingos Fernandes”, este título não corresponde ao conteúdo da escritura, mas sim um outro título que se encontra no início do volume, na capa, no plano superior: “Cazas da Rua do Corpo de Deus tem três missas”.

O acervo desta Colegiada de São Tiago inclui documentação para o período cronológico de 1511 a 1854, tendo sido, neste último ano, suprimidas todas as colegiadas de Coimbra, por decisão do Bispo D. Manuel Bento Rodrigues. Abrange outra documentação relativa a disposições pias, mas o acervo é formado, sobretudo, por livros de escrituras de emprazamento, aforamento e venda, livros de receita de foros e rendas, tombos de medição e demarcação, livros de receitas e despesas, etc.

O fragmento de pergaminho com uma bela iluminura da letra capital A (dim. 200 mm alt. X 160m larg.) numa policromia de cores vermelha, azul e sépia, denota algum desgaste, por manuseamento e sujidade. No entanto, ainda é possível apreciar pormenores do filigranado da decoração, em motivos vegetalistas e pássaros, num trabalho de desenho muito meticuloso.

O pentagrama da notação musical, em linhas a vermelho, com notação quadrada, a sépia, permite atribuir ao fragmento e volume ao qual terá pertencido, a datação do séc. XVI, muito provavelmente. São ainda visíveis os atilhos da encadernação, em pele escura, dos quais apenas resta um completo. Não é de descartar a hipótese de o próprio livro em pergaminho, a que pertenceu o presente fragmento, ter sido um livro de cantochão da Colegiada que já estaria inutilizado e, por isso mesmo, foi reaproveitado.

Documento acedido em : documentodomesdeagost

 

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por Rodrigues Costa às 10:50

Terça-feira, 07.06.22

Coimbra: Universidade, capela de S. Miguel 2

O arco cruzeiro é de arco quebrado, largo caveto entre colunelos, rematando num Calvário de figuras posteriores. os tetos são os referidos do século XVII restaurados no fim do século XIX, de ornatos de enrolamentos acantiformes.

CSM. Vista da capela-mor pg. 55.jpg

Vista da capela-mor e do transepto da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 55

As paredes da capela-mor estão cobertas de azulejos de tapete, de folhagens azuis, protobarrocos, de fabrico de Lisboa, de Gabriel Ferreira, aplicados pelo azulejador Jorge Gonçalves, em 1613. O azulejo da nave pertence ao meado do mesmo século XVII, policromo, de Lisboa, mostrando duas figuras sobre o arco Cruzeiro, Adão e Eva, também protobarrocos.

O retábulo do altar-mor é do princípio do século XVII. 0 desenho foi pago, em 1605, a Bernardo Coelho, artista lisbonense que fez trabalhos em Coimbra e que parece nada a ter com os Coelho vindos de Portalegre. A obra foi dada a Simão da Mota, em 1611. A estrutura é um magnífico exemplo da estética maneirista. As pinturas são de Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão que as contrataram em 1612. Ladeando o vão central e formando o primeiro corpo há dois intercolúnios coríntios, com frontões de enrolamentos; o segundo é de pilastras mísuladas. As tábuas superiores representam o Nascimento e a Adoração dos Magos. As de baixo a Ressurreição e o Aparecimento à Virgem. Na parte central da predela há uma Ceia, e nas laterais dois bustos em talha de madeira de São Pedro e São Paulo. o vão foi alterado no século XVIII, como as talhas denunciam e os documentos comprovam. Trata-se de um dos maís importantes conjuntos da pintura maneirista portuguesa refletindo claramente a tendência italianizante que este estilo alcançava, no final do século XVI, e início do século XVII particularmente no círculo lisboeta.

Encostados às paredes vêem-se bancos corridos os «doutorais» e a cadeira do prelado universitário, de braços e alto espaldar com veludo, do século XVIII. Os doutorais foram executados por Francisco de Barros e Manuel de Morais que também fizeram o pequeno cadeiral do coro-alto, tudo em estilo D. Maria, isto é, uma forma peculiar do neoclássico nacional.

Aos lados do cruzeiro, encostam-se dois retábulos, do terceiro quarto do século XVIII, claramente barrocos da última fase, cuja traça se deve ao marceneiro Manuel Moreira. O do lado esquerdo mostra uma escultura grande de pedra, dos três últimos anos do século XVI, da Senhora com o Menino, e duas de madeira pequenas, do século XVIII e evocativas de Santo Agostinho e São José, da autoria do lisbonense Joaquim Bernardes que as esculpiu em 1781. O do lado direito, há uma grande imagem de Santa Catarina, e duas menores, uma representando Santo Inácio e outra São Francisco de Borja. A primeira saiu das mãos do escultor beneditino Frei Cipriano da Cruz, e as outras das do já citado Joaquim Bernardes.

No topo do |ado esquerdo do transepto está embutida a lápide do juramento da Imaculada Conceição, executada por Samuel Tibau. Na parede do |ado direito, salientam-se o púlpito e o órgão. O púlpito é uma obra corrente, idêntica a outras existentes na cidade (1648-49), sendo a parte de madeira de Manuel Ramos.

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Órgão barroco da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 67

A caixa do órgão foi construída de 1732 a 1733, e dourada e pintada, em 1737, por Gabriel Ferreira da Cunha, é uma boa composição do barroco da primeira metade do século XVIII.

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Pintura e talha decorativa da caixa do órgão barroco da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 68

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Pintura decorativa da caixa do órgão barroco da Capela de São Miguel. Op.cit., 69

A estrutura mecânica ficou a dever-se ao grande organeiro setecentista Manuel de São Bento Gomes, deve destacar-se a excecional decoração de "chinoiserie” tão em voga na época de D. João V, e a terminação superior, plenamente barroca, com anjos e tecidos fantasiados, alegoria à magnificência do Monarca, representado pelo Escudo Real.

O coro-alto assenta num corte feito à nave, em 1780, para se dar um acesso a várias repartições administrativas, obras dirigidas pelo mestre José Carvalho.

A coleção de pratas da capela, do tempo e estilo D. João V, constitui um bom agrupamento de peças. Além das espécies do século XVIII, como castiçais e lâmpadas dos altares laterais destaca-se a lâmpada da capela-mor, de 1597, maneirista de prata branca, executada pelo ourives Simão Rodrigues e composta de balaústres e largamente decorada. São excelentes as banquetas do altar-mor e dos dois altares laterais ao arco-cruzeiro, obras de prata executadas em Lisboa e que ostentam o Brasão Real de D. João V, monarca que as ofereceu à Universidade, são de um barroco evoluído e erudito, constituindo um dos melhores conjuntos portugueses do género.

É de salientar ainda o sacrário de bronze dourado, do século XVII, com uma composição de dois corpos e com colunas coríntias emparelhadas, separando nichos vazios de estilo maneirista e excelente nível de execução.

Dias, P. e Gonçalves, A.N. O Património Artístico da Universidade de Coimbra. 2.ª edição revista e aumentada. 2004. Coimbra, Gráfica de Coimbra, Ld.ª

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:26

Quinta-feira, 02.06.22

Coimbra: Universidade, capela de S. Miguel 1

Com esta entrada iniciamos uma exploração do que nos é revelado no livro O Património Artístico da Universidade de Coimbra.

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O Património Artístico da Universidade de Coimbra, capa

A Capela de São Miguel foi uma das extensões manuelinas dos paços antigos. Do oratório dos primeiros tempos existem alvarás de D. Afonso V que se referem a uma capela, capelães e encargos, etc. A obra atual é inteiramente manuelina, segundo o traçado de Marcos Pires, que faleceu no fim de 1521. Ficou incompleta, faltando o lajeamento, caiações, etc., e os tetos que, sendo de madeira, não eram da sua empreitada, mas pertenciam à de Pêro Anes.

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Vista da fachada da Capela de São Miguel. Op.cit., pg. 53

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Interior da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 54

As cornijas no transepto e capela-mor que são já renascença e devem-se a Diogo de Castilho. Talvez tenha sido projetada uma abóbada para a capela-mor que, por morte do mestre, abortaria, tanto mais que se deu acabamento sumário aos Paços. Em 1544, estavam ainda tantos entulhos na capela que subiram a 200 carradas. João de Ruão trabalhou também nestas obras de acabamento.

No tempo intermédio continuaram os atos religiosos das obrigações da capeia, mas não se sabe onde se realizavam. Em datas sucessivas, fizeram-se obras secundárias. De 1695 a 1697, foi renovado o teto bem como os telhados. A pintura do estuque é da autoria do pintor lisbonense Francisco Ferreira de Araújo (fal. 1701), e foi renovada, em 1859, por António José Gonçalves das Neves.

O plano é o costumado, dois retângulos, para a nave e capela-mor, tendo aquela duas leves saliências a servir de transepto que, em alçado, terminam abaixo do nível da linha das paredes, da nave, cobertas de pequenas abóbadas nervadas. Os ângulos externos da capela-mor são robustecidos de contrafortes cilíndricos terminados por torreões renascentistas de sabor serliano.

A porta de entrada é lateral, a meio da parede esquerda da nave, acompanhada de duas altas janelas, que se repetem ao lado fronteiro, rasgando-se outras, uma a cada banda, no transepto e na capela-mor, de traçado maís simples.

A porta é uma composição típica de Marcos Pires, num manuelino naturalista. Entre dois contrafortes, em forma de pilar torcido, recorta-se o arco decorativo, tricêntrico, cujos aros se entrelaçam e rematam em desenvolvida cruz. Ficam-lhe inferiores os dois vãos, de verga policêntrica e abatida que um pilar médio separa, pilar fruto duma restauração de 1895, em substituição duma coluna clássica. Fica sobre este o Escudo Real, acompanhado, nos extremos do espaço, da Cruz de Cristo e da Esfera Armilar. Três escudetes suplementares mostram símbolos da Paixão.

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Escultura barroca de São Miguel da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 62

No vértice da empena do topo da nave, ergue-se a cópia de uma escultura de pedra, manuelina evocativa de São Miguel, da autoria de Diogo Pires-o-Moço. O original está guardado.

Dias, P. e Gonçalves, A.N. O Património Artístico da Universidade de Coimbra. 2.ª edição revista e aumentada. 2004. Coimbra, Gráfica de Coimbra, Ld.ª

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:09

Terça-feira, 03.05.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 5

Acerca da Casa de Sub-ripas ainda há poucos anos alguns caturras teimavam a favor da lenda que pusera dentro das suas paredes a tragédia do D. Maria Telles — morta ás mãos do marido por intrigas da irmã rainha.

D._Leonor_Telles_de_Menezes.jpg

Rainha D. Leonor Teles, a origem da intriga. Imagem acedida em https://www.google.pt/search?q=leonor+teles 

assass├¡nio de D. Maria Teles, em Coimbra.jpgO resultado da intriga. Imagem acedida em http://invitaminerva45.blogspot.com/2017/07/estorias-curiosas-da-nossa-historia-2.html 

Isto, apesar de tal invenção estar claramente destruída desde 1871, com a publicação ou aproximação de certas datas históricas e documentos. Entre outros podem ver-se os artigos e cartas publicadas nos n.os 2526, 2527 e 2530 do Conimbricense daquele ano, por J. Martins de Carvalho, Miguel Osório, Senhor das Lágrimas, e Dr. Filipe Simões. Nem mesmo valeria a pena discutir o caso, se não estivéssemos num país onde quase toda a gente prefere seguir e repetir o que ouve a investigar e a refletir por conta própria.
Assim, sempre enfileiro aqui os argumentos que minaram a ingénua invenção.
Em primeiro lugar: da leitura da passagem de Fernão Lopes [Chronica de El-rei D. Fernando – Tomo IV da coleção de livros inéditos de história portuguesa.... pag. 350 a 354] invocada como fundamento da lenda — infere-se exatamente o contrário do que queriam aqueles caturras; pois o pai da nossa história muito positivamente indica como teatro da tragédia uma casa próxima á igreja de S. Bartolomeu — igreja situada no mesmo local onde existe a atual, constituída em 1756. Pertencia essa casa a um homem nobre, de nome Álvaro Fernandes de Carvalho.
— Depois: seguindo Fernão Lopes, também Frei Manuel dos Santos na «Monarchia Lusitana» refere o facto como passado na freguesia ou arrabalde de S. Bartolomeu.
— Há mais: porque é que António Coelho Gasco— escritor do século XVII, autor da Conquista, antiguidade e nobreza da mui insigne e Ínclita cidade de Coimbra —nada menciona do facto? Certamente por estarem já no seu tempo arrasadas ou irreconhecíveis as casas de Álvaro de Carvalho. Mas se a tragédia se tivesse dado na Casa de Sub-ripas ele aí tinha o teatro do crime — e não passaria em silêncio tão importante acontecimento.
— Ainda: nos pergaminhos e papéis do arquivo dos Perestrellos —proprietários históricos das casas de Sub-ripas até há poucos anos — nada apareceu, entre documentos referentes a estas casas, que desse o caso como acontecido nas suas moradas.
Não faço, nesta altura, pesar a circunstância de ver dado como acontecido numa casa quinhentista um facto pertencente ao século XIV; pois os defensores da lenda explicavam: que a casa existente fora levantada sobre as ruínas da casa ou torre do crime. Mas a isto responde-se: no século XVI, mercê de vida nacional mais pacífica e das novas condições da cidade, já podiam ser abandonadas partes da muralhas com as torres — como de resto o prova o documento da doação a João Vaz; enquanto que nos tempos precários — tão abrolhados de perigos o surpresas — do reinado de D. Fernando I não podia estar ainda desprezada a muralha de Coimbra, e convertidas as suas torres do vigia em aposentadorias de princesas.
Este argumento de boa razão fortalece os que nos fornecem os documentos.
Para mais — a lenda é de origem relativamente recente, e nenhum dos escritores que a adotaram o fez como historiador. Sorria-lhes á fantasia.
Mas não há remédio senão passar sem ela.
O interesse que nos merece a Casa de Sub-ripas em nada diminuirá, de resto, por termos afugentado dos seus desvãos e terraços o fantasma da linda e branca Maria Telles, imolada a golpes de bulhão, pelo filho da outra mísera e mesquinha numa madrugada de novembro de 1379.
Coimbra. 25 de março do 1906.
Manuel da Silva Gayo

Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série. Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:33

Quinta-feira, 28.04.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 4

Há, pois, além do corpo central, mais uns quatro.

E todo esse encon­trado jogo de cobertos e de faces, todos esses ângulos vivos e ares­tas livres de paredes aprumando fortes im­primem, na verdade, à velha morada, vista dessas bandas da barreira, uma feição ori­ginal, vigorosamente pitoresca, de casa acastelada — feição ainda acentuada pela grande altura a que, para este lado, o edifício inteiro se levanta.

O corpo principal, cujo centro corresponderá ao meio da fachada da rua, está erguido, assim como o terraço que se lhe segue a sudoeste, sobre a grossa alvenaria da primitiva muralha da cidade. É na face que, sobre a vertente, forma ângulo com a torre, e na que liga ao terraço, que se vêm as melhores janelas deste lado da casa. São emolduradas de cordões torcidos arqueando em conopial, a rematarem no fecho por cogulhos, estróbilos enfolhados e bustos.

Também assentou sobre a antiga muralha, no extremo norte, a manga de comunicação a que já me referi.

A torre, que a princípio me ocorreu identifi­car com a primitiva, deve estar edificada sobre os seus alicerces.

CSR. Torre vista do poente. Pg. 271.jpg

A casa de sub-Ripas – A torre vista do poente. Pg. 271

E quando avistada de poente, a dominar a escarpa, ela é que parece a parte cen­tral de todo o edifí­cio, o tronco de ondo bracejam, a um la­do o terraço livre, a outro a manga do norte. Vista deste lado, então, avança ainda, de aresta vi­va, a impor-se numa dureza altiva de quina de menagem, sob o elmo escuro do seu telhado amoriscado.

Construída toda de cantaria, ainda daí reforça aos nossos olhos a impressão de solidez maciça entre os outros cor­pos, em que. desta banda da escarpa, predominam a alve­naria argamassada e os panos de tijolo e cal.

A janela saliente, de beiral livre, suspensa sobre grossos cachorros golpeados, a lembrarem machicoulis medievais, acaba de dar-lhe, com a sua cor sombria, louro-broa, um ar brusco e caprichoso, de indivi­dualidade anacronicamente esquiva.

E sente-se que o seu aspeto, como o de todas estas facha­das da casa, quase briga com o tipo e corte das janelas la­vradas, já do sazão da nossa Renascença; pois aquelas massas, de fortaleza, ainda parecem resistir, tei­mar no passado, afirmar tradição de vida pré-quinhentista.

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Casa do Arco (a Sub ripas) – Muro brasonado do pátio de entrada. Pg. 268

Em mais de um ponto exterior da casa encontraremos detalhes sugestivos; aqui — um alegrete saliente, sustentado em cachorros de pedra; logo perto, um pilar de argamassa a dissimular um recanto baixo, e que dava pé a um vaso de craveiros; além, uma folha lavrada anima qualquer quebra de aresta; deste lado, um escudo de Cristo corta a linha monótona de um cunhal: tudo a revelar ainda a livre e tocante colaboração de artistas obscuros e a manter a graça própria. individualizante, de todas as construções das grandes épocas vivas!

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A casa de Sub-ripas, vista do norte – Torre e manga de comunicação com a “Torre do Prior do Ameal”. Pg. 269

Dentro — temos de o confessar — a casa não apresenta grande inte­resse. Excetuando o teto, certamente manuelino, da sala próxi­ma ao terraço aberto, e a passagem interior da manga do norte — nada aparece digno de maior nota.

A casa do arco, que comunicava por este com a do Sub-Ripas, devo ser um pouco mais moderna — talvez do tempo de D. João III. Interessante pelos painéis e aventais das janelas — Renascença manuelina — só tem de notável, afinal, o pe­queno pátio a que dá entrada um portão os­tentando o brasão dos Perestrellos, pedra evi­dentemente mais re­cente do que o resto. Esse pátio é, realmen­te, um dos mais curiosos cantos de Coimbra.

Entrando o portão, veremos à esquerda uma cis­terna de janela, coberta de alpendre avançado em arco, que logo nos prende os olhos, como tudo quanto representa uma adaptação feliz de utilidade e de arte.

E sem dúvida a cisterna o quo ali há de mais interessante.

Mas por quase todos os lados do pátio veremos medalhões embutidos nas paredes — prejudicadas, como a da fachada manuelina, pela obra recente de rebocos menos felizes.

A profusão desses medalhões, dentro e fora do pátio, por vários pontos sobretudo da casa do arco; a grande diversidade deles, tanto nos motivos como na execução — pois os há dos mais absurdos e dos mais toscos entre outros já do melhor corte e garbo —; finalmente, o próprio capricho e arbitrariedade da sua insignificativa distribuição e colocação — por muito tempo intrigaram os que atentavam nesse conjunto, tão curioso, das casas de Sub-ripas, entre si ligadas pelo arco — passadiço de João Vaz. E tentavam explicar.

No entanto, de todas as explicações e alvitres — é a hipótese apresentada pelo meu amigo António Augusto Gonçalves a que me parece admis­sível.

Ao tempo da construção de uma o da outra casa, era terreiro livre grande parte do chão onde mais tarde, em 1593, foi edificado o atual Colégio-Novo, o colégio da Sapiência — pertencente aos crúzios.

Nesse terreiro tinha o arquiteto João de Rouen, ou de Ruão, um telheiro de trabalho, onde se amestravam lavrantes e escultores — seus discípulos e seus ope­rários. À falta de lu­gar ondo expusessem e guardassem os seus ensaios e provas — os novos artistas vinham pregá-los nas paredes das casas em construção, dando assim a estas um aspeto viva­mente pitoresco no gos­to da época, embora esses detalhes decora­tivos não fossem coi­sas de real valor.

Serão as construções do Sub-ripas, e em especial a casa manuelina de jeito a po­derem sofrer compa­ração com vivendas senhoriais o com edi­ficações de puríssima arte tão numerosas lá fora, como na Itália e na França?

Certamente quo não. Simples vivendas par­ticulares, devidas ao caprichoso bom gosto de um licenciado rico ou do arquiteto por ele chamado, não excedem, em proporções e de­talhes, algumas outras moradas da época, mesmo em Portugal.

Contudo, a sua excecional situação, o relevo e carácter do seu conjunto, o desvelo de arte — hoje tão apagado, ou tão postiço — que nos revelam ainda, e a raridade do género neste país de ex­tremos — miserável ou sumptuoso — dão-lhe direito à nossa enternecida contemplação, e teriam jus­tificado amplamente a sua aquisição pelo Estado.

Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In: “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

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por Rodrigues Costa às 14:52

Terça-feira, 26.04.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 3

Na entrada, hoje bastante prejudicada pelo leito erguido da rua, teremos de considerar duas par­tes: a porta, propriamente, e o corpo que a en­cima.

CSR. Entrada,. Pg. 267.jpg

Entrada da casa de Sub-ripas: fachada da rua. Pg. 267.

Esta porta apresenta-nos, talvez, nas molduras e na verga, uma modificação do arco de sarapanel, fórmula adotada pelo estilo manuelino, assim como a volta inteira e tantas outras.

O corpo que coroa a porta, representa uma espécie de retábulo, cuja moldura apresenta a forma de um arco alteado.        

Do fundo deste retábulo ressalta em pleno relevo uma cruz de troncos, tão comida já, que se torna impossível decifrar-lhe qualquer intenção emblemática. Assenta o retábulo, propriamente, numa longa mísula lavrada de folhagens, de onde prende, para fixar-se também no alto da porta, um pequeno escudo, hoje quase gasto, que talvez tivesse representado as chagas, envolvidas em flores.

De toda a frontaria, é a entrada a peça mais importante. Liga-se pelo estilo com as janelas, como disse, aparentando especialmente com as do primeiro andar.

O próprio remate acogulhado do arco e do seu retábulo a relaciona lo­go com todas estas. Abrindo arcos conopiais, munidas de pai­nel, realçadas de cordões, ou guarnecidas de colunelos, de variada base e molde, vegetalizadas de cogulhos pelo extradorso o fecho das curvas, floridas de rosinhas ou relevadas de folhas e frutos ao lon­go dos intradorsos, gol­peadas de lavores torçalados ou trabalhadas de foliado nos sub-re­bordos dos parapeitos — as janelas da frente, umas por outras, revelam-nos, como a porta, nas linhas de corte, nas molduragens, nos moti­vos de decoração — al­guma coisa da capricho­sa liberdade desse estilo que, não sendo original de raiz, repre­sentando antes um com­promisso de formas tradicionais e de simbolizações recentes da época, prestando-se, por vezes, a manifestações de intemperante inven­tiva — representou, contudo, larga concessão à mais opulenta fantasia artística, ficando, além disto, a valer para nós como documento, como associado traço de consoladora evocação histórica. Mas toda a casa, além desta fachada da frente, o revela sob variadas formas nos seus vãos e rasgaduras: nas janelas dos corpos voltados para a escarpa—em­bora algumas o acusem somente na curva o no golpe das vergas, nos cortes do aparelhamento—; e ainda em portas antigas do interior, o nos mui­tos cachorros, florões, medalhões e escudos encon­trados por dentro e por fora do edifício.

Quem vir apenas a fachada unida sobre a rua, mal suspeitará que a Casa de Sub-ripas forma, no seu exterior mesmo, um conjunto curiosa­mente irregular, como se pôde reconhecer observando-a do poente, do norte, ou de algum ponto sobredominante da cidade, de onde então os múlti­plos telhados da casa, telhados de quatro águas, nos dão logo a ideia de corpos diversos ligados numa só construção.

É que, além da parte recuada junto ao cunhal da rua, outras se destacam do corpo principal.

Prolongando este, avança sobre a escarpa, entre sudoeste e poente, um corpo em forma de terraço — livre e aberto ao rés do primeiro pavimento, mas cobrindo uma curta galeria, fendida de janelas que medem para baixo uma altura de andar. Desta galeria devia ter havido qualquer descida interior para a faixa dos quintais—chão da anti­ga barbacã.

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A casa de Sub-ripas, vista de sudoeste – o terraço. Pg. 268

Fazendo ângulo com o mesmo corpo central, a olhar entre noroeste e norte, destaca-se outra massa em forma do torre, [Chamar lhe-hei sempre torre; para não haver confusões, de­signarei por Torre do Prior do Ameal a que fica situada distante, a norte da casa] cujo ressalto mede a sua menor extensão de curto retângulo. Mas com esta torre liga ain­da, para norte, por detrás de um pequeno ter­raço triangular, hoje desfigurado em cubículo, uma estreita manga de construção.

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A Casa de Sub-ripas – A torre, que, de certos pontos, parece a parte central do edifício. Pg. 268

Era esta — ao nível do pri­meiro pavimento, a passagem para a antiga cortina de comunicação com a Torre do Prior do Ameal — no pa­vimento superior — um miradouro coberto de telhado, a dominar, co­mo toda a casa, a bai­xa da cidade, antigo arrabalde, e o vale doce do Mondego.

Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

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por Rodrigues Costa às 10:33

Quinta-feira, 21.04.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 2

Não se pode indicar a data precisa da construção. Devia ter sido edificada no reinado de D. Manuel, entre 1514 e 1521 — pelo menos grande parte dela. Ignora-se o nome do arquiteto.

O corpo principal ocupa uma superfície trape­zoidal, duns cento e sessenta metros quadrados, aproximadamente, e cuja maior extensão corre quase na linha de nascente a poente, da rua para a escarpa da cidade. Sobre a rua, a casa apruma numa fachada unida, de dois andares, da qual apenas se desalinha, na extrema inferior, o pe­queno corpo que faz recanto com o cunhal. Deste cunhal até á extrema superior, junto ao arco que atravessa a rua — o passadiço de João Vaz — a fachada mede pouco mais de dez metros, de­vendo ter de altura a prumo uns onze metros.

CSR. Planta, pg. 272, pormenor.jpg

 Planta da casa de sub-Ripas, pg. 272.

Dá-nos uma impressão de solidez maciça, de densa resistência, mais do que de elegância no­bre ou de ousadia construtiva, embora a diferente composição da parede logo fizesse distinguir, antes de modernos revestimentos a deplorar, a fábrica dos seus dois andares.

Há nela um absoluto predomínio da parte cheia, como a acusar e a manter a reminiscência dos muros e defesas cerradas. Nada até parece haver que admirar de proporções combinadas ou de equilibradoras compensações nessa massa retangular—tanto ela, de plena e socada, se firma e assenta por si, como um bloco inteiriço. É esta, na verdade, a primeira impressão. E no entanto é casa bem curiosa, exatamente por nos oferecer um exemplar de construção que alia ao aspeto sólido da sua arquitetura, ainda no molde de tempos crus, a preocupação e desvelo duma arte já flexuosa, viva, liberta, derivada de outras formas e desviada de primitivos intuitos, mas apropriada agora á decoração de moradas aberta­mente hospitaleiras, alegradas de graça expansi­va, revelando corresponderem ao resfolego duma existência social tornada mais despreocupada e leve.

CSR. Passagem interior. Pg. 268.jpg

Casa de Sub-ripas - Passagem interior da manga norte. Pg. 269.

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Casa do Arco (a Sub-ripas) – A cisterna do pátio. Pg. 269.

Todas as aberturas ornamentadas revelam aqui a influência manuelina, com mais ou menos abun­dância.

CSR. Janela, 1.º andar. Pg. 266.jpg

Janela da fachada sobre a rua, 1.º andar. Pg. 266

CSR. Janela para de trás. Pg. 266.jpg

Janela para os lados de trás, sobre a vertente, junto ao terraço. Pg. 266

CSR. Janela de uma fachada. Pg. 266.jpg

Janela de uma fachada sobre a vertente da cidade. Pg. 266

Não é talvez do mais delgado e nervoso, nem do mais originalmente sugestivo, nem do mais elasticamente rico o desenho das guarnições e lavrados que as decoram, cortados na mesma pedra de Bordalo, empregada em quase toda a construção.

Mas a combinada acumulação e reforço de or­natos, como no portal, por exemplo, e a expres­são confiada dos cortes e relevos imprimem a tu­do um quê de simpatia comunicativa, de vi­gor cordial, com todo o carácter das coisas feitas quando as próprias fórmulas seguidas continham e exalavam ainda penetrante calor de vida.

 Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In: “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

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por Rodrigues Costa às 11:39

Terça-feira, 19.04.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 1

Agradecemos ao Professor Doutor Nelson Correia Borges a cedência do texto, profusamente ilustrado, da autoria de Manuel da Silva Gaio, e que se encontra publicado na Illustração Portugueza, referenciado a um dos edifícios mais emblemáticos da nossa Cidade, a casa Sobre-a-riba ou Sobre-a-ripa. É aí que, na atualidade, se encontra sediado o Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra.

CSR. Illustração Portugueza, p. 265..JPG

“Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265.

Ao abrir do século XVI vi­via em Coimbra um licen­ciado, de nome João Vaz, casado com Bertoleza Cabral (?) e possuidor de uns pardieiros na rua de Sub-Ripas — então de «Sobre-a-riba» ou «Sobre-a-ripa».

Esta rua — que sobe da de Quebra-Costas para o Colégio Novo, em linha sudeste-sul-norte é ladeada: á esquerda-poente, por uma fileira de casas pequenas; á direita, e a partir talvez do seu terço inferior, por um muro fechado. Quem a ve­nha seguindo de baixo irá dar com o cunhal de uma casa antiga, que faz recanto da esquerda, em frente do muro, quebrando este também nessa altura, para a direita, a dar à rua estreita a folga recuada de quase mais três metros. Chegados aqui, ao fundo do pequeno largo assim formado, tere­mos em frente, a norte, um arco sob o qual a rua continua enladeirando então para o Colégio Novo e, corrida por cima do arco, de poente a nascente, mas prolongada neste sentido, a facha­da de uma casa de dois andares. Fechando a di­reita do largo, perpendicularmente a esta casa, fica um muro onde abre o portão brasonado do seu pátio de entrada. Finalmente: a poente, em face do portão, veremos a verdadeira casa chamada de «Sub-Ripas», cujo cunhal avistámos primeiro.

CSR. Arco de passagem, p. 265, pormenor 1.jpg

Arco de passagem das casas de sub-Ripas, p. 265.

Os pardieiros de João Vaz deviam ter ocupado o local da atual casa do arco e do pátio cor­respondente; e comunicariam talvez, pela bar­reira, com outras casas ou dependências já da rua chamada hoje dos Coutinhos, na encosta a cavaleiro da rua de Sub-Ripas.

Por volta de 1514 o que havia em face desses par­dieiros era apenas um lan­ço de muralha e uma tor­re, que faziam parte da cintura da cidade deven­do a torre ser igual ou se­melhante àquela que ain­da existe para cima, a norte, conhecida na antiga tradição por torre do Prior do Ameal, e há poucos anos por Torre d'Anto, des­de que a habitou o poeta do Só.

CSR. Torre, p. 265, pormenor 2.jpg

«Torre do Prior do Ameal» ou «Torre d’Anto», p. 265.

A muralha e a torre de Sobre-a-ripa estariam em ruína; pelo menos es­tavam abandonadas como defesa do burgo, por cor­rerem tempos mais mimosos de remanso; nem tam­bém dariam já suficiente escudo à barreira da cida­de, com as novas armas de investida e cerco...

Querendo possuir as duas bandas da rua, e ten­tado de certo pela doce e amorável vista de casaria e campo alcançada de so­bre a escarpa, logrou João Vaz obter aquele lanço de muralha com a torre, não alargando a proprie­dade para sul e sudoeste, talvez porque desta extre­ma ela já fosse bater nas casas do sr. D. Filipe — personagem tão respeito­samente citado nos docu­mentos da época como misteriosamente sumido, para nós, na indicação va­ga desse nome próprio. Nem consegui ver vestígios das suas casas.

Que, do licenciado, tam­bém nada mais se sabe, até hoje, além das indicações dadas acima.

É daquele ano de 1514 o contracto de doa­ção pelo qual um sapateiro chamado Bastião Gonçal­ves, sua mulher Catarina Anes e sua mãe Catarina Fernandes cederam o direito do afo­ramento do lanço e a torre ao licenciado João Vaz. Consta d'um documento ou instrumento de pergaminho, [Pertence ao arquivo dos Perestrelos, cujo brasão coroa o portão à direita do largo] lavrado pelo tabelião Gregório Lourenço e apresentado na camara de Coimbra em 26 de julho desse ano, sendo escrivão da mesma camara o morador Inofre da Ponte. Re­quereu logo João Vaz a ratificação do contrato, e juntamente a licença necessária para construir um balcão ou passadiço que, atravessando a rua, pudesse ligar-lhe de um lado para outro os seus an­tigos pardieiros e a porção da muralha novamente adquirida.

Obteve a ratificação e a nova licença alguns dias depois — ficando assim, desde o verão de 1514, na posse do terreno onde foi levantada a morada conhecida hoje por «Casa de Sub-Ripas».

 Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In: “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série.  Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

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por Rodrigues Costa às 16:38


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