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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 30.03.21

Coimbra: Evolução do Brasão do Concelho 3

No parecer sobre as armas de Coimbra, que formulei em setembro de 1930, transcrevi umas referendas feitas pelo Sr. Dr. Simões de Castro num trabalho intitulado «O Brasão de Coimbra» e publicado em 1895 na revista «O Instituto».

Os dois últimos selos de Coimbra.jpg

Os dois últimos selos de Coimbra: à esquerda, o que se usou até 1930: à direita o atual.

Era o seguinte

No «Catalogo dos bispos de Coimbra» de Pedro AIvares Nogueira (manuscrito existente no cartório da Sé d'esta cidade, hoje publicado nas «Instituições Christãs» por diligencia do sr. Cónego Prudêncio Quintino Garcia) havíamos lido a pág. 7: As armas de que usava esta cidade não eram as que agora vemos comummente pintadas; mas era somente um rosto de uma mulher com uma touca grande, e as pontas da touca lhe chegavam até ao ombro de cada parte e com uma coroa de rainha na cabeça … Depois. disto usaram de outras armas, que eram um vaso no qual aparecia uma mulher dos peitos para riba com uma coroa na cabeça. E ao pé do vaso estava uma cobra que parece que andava… Depois se mudaram estas armas da maneira por que vemos, porque puseram neste vaso de uma parte uma serpente, da outra um leão; a razão destas mudanças e das armas deixamos aos curiosos.

primeiro dos treze selos citados por Pedro Alvares Nogueira, consistia apenas n'um busto de uma «Mulher com uma touca grande, as pontas da touca lhe chegavam até ao ombro de cada parte e com uma coroa de rainha na cabeça.» [Este selo foi casualmente encontrado pelo] Sr. Dr. Rui de Azevedo, quando procedia a buscas de assuntos diferentes, no Arquivo da Torre do Tombo, Caixa 25 da Coleção Especial, 2.ª parte.

Dos documentos assim selados, segundo a amável leitura do Sr. Dr. Laranjo Coelho, consta o seguinte:

Carta de venda de urna vinha, no sitio denominado Algeara, termo de Coimbra, que fazem Egídio Salvador e sua mulher D. Maria, a Domingos Fernandes, clérigo, datada do mês de novembro da era de 1278. Tem pendente um sêlo de cera vermelha com a inscrição que parece dizer – Sigillum Concilie Colimbrie – Maço 3. Caixa 25, Parte II da Coleção Especial.

Carta de venda de uma casa com sobrado que fazem Pedro Gonçalves Chasco e sua mulher, a João Fernandes, clérigo, de Coimbra, datada do mês de julho da era de 1283 (1245). Tem pendente um selo de cera vermelha no qual parece ler-se a inscrição Sigillum Concilie Colimbrie – Maço 3. Caixa 25, Parte II da Coleção Especial.

Sigillum Concilie Colimbrie.jpg

Sigillum Concilie Colimbrie

 Por aqui se demonstra que até 1245 era usado este selo.

O Dr. Simões de Castro, mais adiante, no seu trabalho citado, refere-se a um escrito de 1265 que já descreve o selo com a cobra e a taça, ou seja, o selo que aparece no documento da aclamação de D. João I em 1385. Esta referência é tirada de um manuscrito de D. José de Cristo, existente na Biblioteca Pública Municipal do Porto.

Este elemento será verídico? De facto, em 1265 já teria aparecido este selo? Por enquanto, o único documento conhecido com tal é de 1365, e assim atribuir poderíamos atribuir os acrescentamentos feitos às armas de Coimbra, ou a factos da vida do Rei D. Dinis e de sua mulher a Rainha Santa Isabel, ou à vida de D. Inês de Castro.

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© DGPC| Arquivo do MNMC. 6344, E594

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© DGPC| Arquivo do MNMC. 6347, E597

É este outro ponto que falta esclarecer: saber a data exata em que foi acrescentado o selo de Coimbra com a cobra, a taça, as flores e os escudetes das quinas acompanhando o busto que já vinha do selo anterior.

Dornelas, A. Os Selos da Cidade de Coimbra. In: O Instituto, Vol. 88.º. 1935. Pg. 5-16. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt

 

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por Rodrigues Costa às 20:05

Terça-feira, 23.03.21

Coimbra: Evolução do Brasão do Concelho 2

Eu concordo que muitos autores, copiando-se, tenham repetido que a dama sai da taça, mas no selo que existe no célebre documento das Côrtes de Coimbra em que D. João é feito Rei de Portugal, é que nem por sombras a representação da taça tem tal atribuição e, além disso, antes deste selo, houve outro (como abaixo demonstrarei) em que a taça nem aparece.

Os dois mais antigos selos de Coimbra.jpg

Os dois mais antigos selos de Coimbra: à esquerda, o primitivo; à direita o que autentica o acto de aclamação de D. João I.

 A minha opinião é que, na desarrumação que fizeram depois de D. João I ao mesmo selo, procuraram arranjar melhor simetria, colocando a taça ao centro e, então, o busto que estava em chefe, passou a figurar sainte da taça, sendo isto um erro facílimo de suceder.

Quando um dia se encontrar um documento ou uma referência ao acrescentamento que fizeram às armas de Coimbra, então se verá qual foi a intenção do ordenador dessas armas e talvez se demonstre que nunca houve a intenção de meter o busto da mulher dentro da taça.

O que é possível é que houvesse a ideia de fazer desaparecer a taça, passando a representar-se o busto com o respetivo pedestal.

Enfim, é uma investigação que ainda não está terminada, sendo provável que só termine quando aparecer o tal documento ou referência que nos diga quando entrou o leão nas armas de Coimbra, portanto, quando lhe deram essa arrumação pondo a taça ao centro. Infelizmente, no Museu de Machado de Castro, só aparecem esculturas posteriores a D. João I; portanto, todas têm já o leão.

Também foi transformada outra peça das mesmas armas; a primitiva cobra, que aparece no selo que está no documento da aclamação do Rei D. João I, passou depois a ser uma serpe alada.

Nas esculturas do Museu de Machado de Castro, reproduzidas nos estudos referidos dos srs. António Gonçalves e Simões de Castro, só aparece a cobra em duas das esculturas; nas outras, já esta figuração é fantástica, com asas e cabeça de formas esquisitas, e até com braços e garras.

MNMC710; E589 a.jpg

© DGPC| Arquivo do MNMC. 710; E589

MNMC6345, E595 (em madeira) a.jpg

© DGPC| Arquivo do MNMC. 6345, E595 (em madeira)

Dornelas, A. Os Selos da Cidade de Coimbra. In: O Instituto, Vol. 88.º. 1935. Pg. 5-16. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt

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por Rodrigues Costa às 19:02

Terça-feira, 16.03.21

Coimbra: Evolução do Brasão do Concelho 1

Formulado o parecer sobre a evolução porque tem passado as armas da cidade de Coimbra e sobre a forma de as ordenar presentemente, colhendo do estudo feito os dados que mais salientam o brilho histórico e sentimental de tão notável cidade, apresentei-o à Secção de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, que o aprovou em setembro de 1930, sendo imediatamente enviado à Câmara Municipal daquela cidade, que também concordou com o mesmo parecer, conseguindo do Governo a seguinte confirmação:

«Portaria n.º 6956 - Manda o Governo da Repüblíca Portuguesa, pelo Ministro do Interior, que a constituição heráldica das armas daquele município seja a seguinte: De vermelho com uma taça de ouro realçada de púrpura, acompanhada de uma serpe alada e um leão batalhantes, ambos de ouro, armados e lampassados de púrpura. Em chefe, um busto de mulher coroado de ouro, vestido de púrpura e com manto de prata, acompanhado por doís escudetes antigos das quinas, Colar da Torre e Espada.

Brasão de Coimbra.png

Brasão de Coimbra. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Coimbra#/media/Ficheiro:CBR.png

Bandeira com um metro quadrado, quarteado de amarelo e de púrpura. Listel branco com letras pretas, Cordões e borlas de ouro e púrpura. Lança e haste de ouro

Bandeira de Coimbra.gif

Bandeira de Coimba. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Coimbra#/media/Ficheiro:CBR.png

Regulado o assunto por esta forma e baseado nos elementos que constitulrarn o referido parecer, posso hoje confirmar que um dos principais argumentos que fortalecem o critério da representação do busto de mulher nas mesmas armas, nada tem com a taça que em certa altura começou a aparecer na composição do selo de Coimbra.

No n.º 3 do ano 1.º da Revista do Conselho de Arte e Arqueologia, vêm incluídos dois interessantes artigos, a que me vou referir:

O primeiro intitula-se «O brasão da cidade apôsto em casas foreiras» e é da autoria do ilustríssimo arqueólogo Antonio Augusto Gonçalves, tão notável por variados méritos.

Começando por relatar o facto criminoso de no primeiro terço do século XIX ter sido permitido pela Câmara Municipal de Coimbra que um sonhador de tesouros escondidos escavacasse uma escultura existente no arco de Almedina, que representava o busto de mulher coroada que sempre apareceu nas armas de Coimbra, por supor ali escondido um rico tesouro,

Torre de Almedina, sendo perceptíval a mutilaçã

Torre de Almedina, sendo perceptíval a mutilação do brasão. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Porta_e_Torre_de_Almedina.

passa a citar o facto interessante de já vigorar em 1503 a obrigação dos enfiteutas colocarem frontaria dos prédios Ioreiros à cidade.

A propósito deste facto, refere-se aos 12 exemplares destas esculturas existentes actualmente no Museu de Machado de Castro, dos quais reproduz 10, tendo todos o busto de mulher sainte duma taça.

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Pedra colocada sobre a porta de uma foreira da Câmara. © DGPC| Arquivo do MNMC. 708, E587

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Pedra colocada sobre a porta de uma foreira da Câmara. © DGPC| Arquivo do MNMC. 6348, E598.

Estas referências são da maior importância para o estudo das armas de Coimbra, pois que estando determinado que os enfiteutas colocassem uma lápide com as armas da cidade na frontaria do prédio foreiro, ficamos sabendo que essas armas eram esculpidas por qualquer artista medíocre, que trabalhasse mais barato, e então, desde que um pôs o busto de mulher sainte duma taça, é natural que, inconscientemente, todos o copiassem, e, por tal forma este processo foi repetido, que o costume quási passou a ser lei.

O Senhor Antônio Augusto Gonçalves, referindo-se aos autores dessas esculturas, diz:

Pertencem à produção desses grupos de artifices desalumiados, a que se atribuem as obras destituídas de intenção e de carácter, sem rumo e sem norte, à mercê das sugestões do momento. Por isso a classificação cronológica não é fácil, visto que lhe faltam lndtcíos definidos e acentuados. Com raras excepções, só hipotetícamente se poderão descobrir lnflüências de estilo.

… Vendo as reproduções das ingénuas esculturas citadas, e não se sabendo que houve tempo em que nas armas de Coimbra apareceu uma taça, qualquer pessoa dirá que se trata apenas de um busto com seu pedestal e não de uma taça tendo um busto de mulher sainte.

A ligação do peito da mulher à taça, foi feita inconscientemente, e naturalmente os diferentes artistas estavam convencidos de que se tratava efectivamente de um busto com o respectivo pedestal para se colocar sôbre um móvel.

Vejamos agora o segundo artigo publicado no citado número da revista intltulada «Arte e Arqueologia»: «Brasões de Coirnbra no Museu Machado de Castro pelo erudito escritor Augusto Mendes Simões de Castro, que tantos trabalhos já tem sôbre o selo e armas da histórica cidade de Coimbra.

Começo por transcrever o 3.° período deste interessantíssimo artigo:

No «Indice Chronologíco dos Pergaminhos e Foraes existentes no archivo da Camara Municipal de Coimbra» por João Correia Ayres de Campos, 2.ª edição (1875), pags. 57 e 58, vem citada uma sentença datada de 29 de Maio de 1503, [onde é referido] «dentro de dous meses da Ieitura d'este em diamte poer na parede sobre ho portall da dita casa hua pedra de dous palmos de lomguo e dous de larguo q sera assy emlleuada ê que sse ponhã as armas da dita cidade E teera letras q dlguã esta casa he da cydade de Coimbra …»

O Sr. Dr. Sirnões de Castro transcrevendo esta interessantíssima referência sôbre a utilidade da heráldica de domínio, trata, no seu artigo, das esculturas existentes no Museu de Machado de Castro, e referentes à sinalização dos prédios foreiros à cidade de Coimbra, dando a entender que, nas armas de Coimbra, a taça não tem outra representação que não seja a de servir para dela sair o busto da mulher.

Dornelas, A. Os Selos da Cidade de Coimbra. In: O Instituto, Vol. 88.º. 1935. Pg. 5-16. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt

Em ordem às imagens das pedras estavam colocadas sobre as portas das casas foreiras da Câmara de Coimbra e hoje estão guardadas no Museu Nacional de Machado de Castro, agradecemos aos Técnicos daquele Museu, Drs. Pedro Ferrão e Jorge Venceslau, a ajuda na sua localização.

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por Rodrigues Costa às 11:22

Quinta-feira, 08.10.20

Coimbra: Aqueduto de São Sebastião 2

O arco de honra, igualmente conhecido por Arco de São Sebastião, está disposto obliquamente devido à posição da artéria pública sobre a qual passa, diferenciando-se dos restantes pelo tratamento material e composição artística. Dispõe, pois, na verdade, de um conjunto de inscrições e esculturas, de cariz religioso, que em muito o enobrecem.

Aqueduto. Arco de S. Sebastião.JPGAqueduto. Arco de S. Sebastião

Assim, em cada uma das faces da cornija superior, logo acima do fecho do último arco do extremo sul, foram aplicados, em posição central, o escudo com armas reais portuguesas, ladeadas em posição inferior com as lápides referentes à construção do aqueduto com os textos encomiásticos divididos em duas tábuas, datados de 1570. Na face sul, orientada para a Alameda Doutor Júlio Henriques, a inscrição surge em latim, e na face norte, virada para a Praça Papa João Paulo II, a respetiva tradução em português.

NO . ANNO . DO SOR

DE . I . 5. 7. 0. O INVICT

IISSIMO REI . DOM

SEBASTIAÕ . O . I .

NO . 3 . ANNO DE SEV

GOVERNO . MÃDOV

REEDIFICAR DE NO

VO TODO . ESTE . AQ

VEDVCTO . MAIS . N

RA . FEITO . AVIA MTOS .

ANNOS . COMO CÕ

STA . PELO RASTO Q

LE . SE AC

HOV CVBERTO DE

 Resumindo o conteúdo dos testemunhos epigráficos, podemos salientar o cuidado do monarca em dotar de água potável a principal zona urbana frequentada pela comunidade escolar, que fora responsável pelo crescimento imediato do núcleo urbano conimbricense.

Aqueduto. Arco de S. Sebastião, templete.jpgAqueduto. Arco de S. Sebastião, templete

 A coroar o respetivo arco principal, sobre o canal adutor, ergue-se um pequeno templete, de planta trapezoidal, composto por colunas dóricas que suportam uma cúpula e lanternim superior. Em cada um dos flancos, cada um dotado com o respetivo nicho, encontra-se as esculturas dos oragos do aqueduto: a de São Sebastião disposta na face sul, e a de São Roque, na face norte.

Aqueduto. Arco de S. Sebastião, imagem de S. Roqu Aqueduto. Arco de S. Sebastião, imagem de S. Roque

Aqueduto. Arco de S. Sebastião, imagem de S. SebaAqueduto. Arco de S. Sebastião, imagem de S. Sebastião

 Desconhecemos, no entanto, o nome do arquiteto responsável pelo projeto, assim como o dos mestres-de-obras que conduziram os diversos trabalhos construtivos.

 Pacheco, M.P.D. Do aqueduto, das fontes e das pontes: a arquitetura da água em Coimbra de Quinhentos. Acedido em https://www.academia.edu/37539380/DO_AQUEDUTO_DAS_FONTES_E_DAS_PONTES_A_ARQUITETURA_DA_ÁGUA_NA_COIMBRA_DE_QUINHENTOS 

 

Se o leitor bem reparar, na imagem de S. Sebastião vêm-se dois orifícios no tronco, onde estavam inseridas duas setas que, quanto se dizia, eram de prata.

Um dia um estudante, disseram logo as más línguas de Coimbra, condoído com o “sofrimento” secular da imagem, arranjou maneira de subir até lá e “retirou” as setas, deixando um letreiro: Basta de tanto sofrer!

Plagiando os italianos esta história se é verdadeira, tem graça. Para além de reveladora de um certo espirito académico que, com os anos, tem vindo a desaparecer.

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por Rodrigues Costa às 11:42

Terça-feira, 06.10.20

Coimbra: Aqueduto de São Sebastião 1

Assumindo-se hoje como um dos marcos históricos mais emblemáticos da cidade, o mais antigo aqueduto de Coimbra, de duplo orago sebástico – pois foi reconstruído por ordem régia do monarca D. Sebastião e dedicado ao mártir romano São Sebastião –, tem as suas origens numa construção que remonta ao período da romanização do território que é hoje Portugal.

Arcos do Jardim. 1920 c. Coleção Regina AnacletoArcos do Jardim. 1920 c. Coleção Regina Anacleto

Esta estrutura de abastecimento de água potável à cidade, localizada entre a colina onde se erguia o desaparecido Colégio de Nossa Senhora da Conceição e o atual Convento de Santa Teresa e o Fontanário dos Bicos, no Largo da Feira dos Estudantes, em plena Alta Universitária, possui ainda um segundo orago, São Roque, santo que, com São Sebastião, assume o papel de especial protetor contra o flagelo da peste. A escolha destes dois santos patronos está intimamente ligada ao surto pestífero que grassou em Coimbra nos finais da década de 1560, período da construção do aqueduto. Contudo, vingou na história da cidade o patrono onomástico do monarca.

No decorrer da obra, D. Sebastião enviara, em 1568, o desembargador Heitor Borges com ordens diretas para proceder ao aprovisionamento da água necessária a distribuir à cidade e à comunidade monástica de Santa Cruz, detentora de grande parte das nascentes urbanas.

Contudo, os Cónegos Regrantes, reagindo ferozmente contra as decisões régias, acabaram mesmo por excomungar os oficiais envolvidos e entrar em esgotantes demandas judiciais com a Coroa, levando a sucessivos atrasos nas obras de construção, que, mais tarde, seriam assumidas por um outro desembargador mais enérgico, Martim Gonçalves da Câmara.

Igualmente excomungado, este oficial não só iria continuar a obra com a celeridade necessária, como iria enfrentar o potentado crúzio, aplicando-lhe pesadas multas pelos entraves causados à obra real, e, sobretudo, pela água usurpada ilegalmente ao município. No seguimento dos trabalhos construtivos, foram demolidos alguns setores do muro da cerca monástica e cortado o arvoredo envolvente junto dos pontos de captação de água para proceder à edificação de pequenas torres, em alvenaria, onde ficariam instaladas as arcas de armazenamento do precioso líquido. Além das expropriações e demolições efetuadas, o oficial régio mandara ainda arrasar o chafariz de São João do Largo de Sansão, que fora erguido em frente à igreja de Santa Cruz durante o priorado de D. Afonso Martim de 1392 a 1414.

AHNC. Livro II da Correa, Mapa. Com indicação daAHNC. Livro II da Correa, Mapa. Com indicação das fontes que abasteciam o aqueduto 

Rua Pedro Monteiro, claraboia onde se juntava a áRua Pedro Monteiro, claraboia onde se juntava a água que ia o aqueduto

Denominadas de fontes de el-Rei e da Rainha, as nascentes que iriam abastecer o centro da cidade com água potável estavam localizadas junto do quinhentista Colégio de Tomar, sobre o qual foi levantado o edifício da Penitenciária de Coimbra nos finais do século XIX, e, nas proximidades da estrada para Celas. Em local próximo encontrava-se ainda a denominada Fonte da Nogueira, atualmente no Jardim da Sereia que, por alvará régio lavrado em 4 de Abril de 1588 e mais tarde reconfirmado em 20 de Abril de 1736, deveria ser vistoriada anualmente pelos oficiais camarários.

Inicialmente com uma extensão de aproximadamente de um quilómetro, o aqueduto de São Sebastião, popularmente conhecido como Arcos do Jardim, é hoje constituído por apenas vinte e um arcos dispostos ao longo da Calçada Martim de Freitas e da Praça João Paulo II. Superando uma relativa depressão territorial, os arcos, uns semicirculares e outros abatidos, estão assentes em robustos pilares de faces externas dispostas em degrau que, por sua vez, suportam no topo o canal adutor. Este, coberto por abóbada de berço, só seria desativado no século XX, por volta do ano de 1942. Quanto ao aparelho construtivo podemos indicar a presença de alvenaria de pedra calcária, fixada com argamassa e reboco, recentemente beneficiado.

A partir do setor nascente do atual edifício do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, a estrutura aquífera continuaria o seu percurso subterraneamente até alcançar o Largo da Feira dos Estudantes, junto da concatedral.

 

Fontanário dos Bicos.jpgLargo da Feira dos Estudantes, Fontanário dos Bicos

Entretanto, nos finais da década de 1940, no seguimento da reorganização urbanística da Alta para a construção da Cidade Universitária de Coimbra, alguns dos arcos seriam destruídos para a abertura da atual rua do Arco da Traição, enquanto outros, junto ao Jardim Botânico, acabariam por ser desobstruídos do casario habitacional que havia sido edificado ao longo dos tempos. Quando a Academia Nacional de Belas Artes lançou, em 1947, o Inventário Artístico de Portugal, dedicado à cidade de Coimbra, denunciava-se que “o estado do aqueduto é de meio abandono; encontrando-se bastante prejudicado pelas infiltrações da água do cano”, ou seja, ainda se encontrava em funcionamento.

Pacheco, M.P.D. Do aqueduto, das fontes e das pontes: a arquitetura da água em Coimbra de Quinhentos. Acedido em https://www.academia.edu/37539380/DO_AQUEDUTO_DAS_FONTES_E_DAS_PONTES_A_ARQUITETURA_DA_ÁGUA_NA_COIMBRA_DE_QUINHENTO

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por Rodrigues Costa às 18:33

Quinta-feira, 12.03.20

Coimbra: Convento de Santa Ana

O local onde foi construído o primeiro Convento de Santa Ana de Coimbra das Eremitas Descalças, situava-se na margem esquerda do rio Mondego, arredores de Coimbra.

Vista de Coimbra. Georg Braun e Franz Hoefnagel (cRuínas das “Celas da Ponte”. Vista de Coimbra. Georg Braun e Franz Hoefnagel (c. 1565). Pormenor

Conhecido por “Celas da Ponte” dá-se como data da sua fundação o ano de 1174, segundo D. Nicolau de Santa Maria, cónego regrante da Congregação de Santa Cruz de Coimbra.
Concluída a obra em 1184, teve como primeira prioresa Dona Joana Pais, que veio do Convento de S. João das Donas, como mestra de noviças D. Maria Martins, e como porteira e vigaria D. Maria Lopes.
Mudanças significativas observam-se no local da sua fundação, pois as cheias do rio Mondego, no Inverno, causavam-lhe grandes inundações e o depósito de areias que as mesmas arrastavam, tornam o local inadequado para viverem.
(…). Em 1561 recolhem-se as freiras numa quinta em São Martinho (Coimbra), que lhes doou o bispo D. João Soares, enquanto não construíam outro Convento. Embora esta quinta tivesse poucas condições, mantiveram-se nela até que o bispo conde D. Afonso de Castelo Branco lhes mandou construir um novo edifício.

Convento de Santana Antiga fachada norte do convenConvento de Santa Ana, planta da fachada norte. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 65

A 23 de Junho de 1600 o Senhor Bispo dá início ao novo edifício, lançando a primeira pedra do novo Convento.

Planta do piso térreo. Lado norte. Pormenor da igPlanta do piso térreo. Lado norte. Pormenor da igreja. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 67

Situado na “Eira das Patas”, junto à cerca de S. Bento (Jardim Botânico), o seu domínio estendia-se até ao atual Penedo da Saudade.

Convento de Sant'Ana aoo longe.jpgConvento de Santa Ana e Colégio de Tomar
Imagoteca Municipal de Coimbra. Cota: BMC_A033

Consta que a construção demorou nove anos e meio e as freiras entraram no novo Convento em Fevereiro de 1610, e começaram a usar o hábito das Eremitas de Santo Agostinho.

Capa das Constituições de Santo Agostinho.jpg

Capa das Constituições das religiosas da ordem dos eremitas de S. Agostinho. Edição de 1734. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 29

A primeira prioresa deste novo Convento foi Dona Hieronyma, freira professa do Convento de Santa Mónica de Lisboa.

Convento Santa Ana selo de chapa.JPGAUC. Livro de Cartas de Aforamentos, Compras… de que é senhoria o Convento de Santa Ana de Coimbra, pormenor de um selo de chapa

Diapositivo3.JPGTrabalho de recorte de papel encontrado dentro de um livro do Convento de Santa Ana

Mas o decreto da extinção das Ordens religiosas de 30 de Maio de 1834, e a lei de 4 de Abril de 1864, que desamortizou os bens das freiras e das igrejas, põe um ponto final neste Convento.
A última freira deste Convento, D. Maria José Carvalho, foi transferida a 6 de Junho de 1885 para o colégio das Ursulinas e sabemos que em 29 de Novembro de 1891 já havia falecido.
A 6 de Julho de 1885, o edifício do Convento passou para a posse da Fazenda Nacional. Por solicitação do Ministério da Guerra foi-lhe dada a posse do edifício do antigo Convento das freiras de Santa Ana de Coimbra, com exclusão da Igreja e da Cerca, para estabelecimento do Regimento de Infantaria nº 23, a 13 de Agosto de 1885, onde ainda hoje se encontra.

Capelo, L. C. 2006. Convento de Santa Ana de Coimbra. Inventário. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 11:50

Terça-feira, 10.03.20

Coimbra: O Senhor dos Passos da Graça

Situamo-nos em Coimbra, na rua da Sofia. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, com decreto redigido por Joaquim António de Aguiar, alcunhado de “Mata Frades”, teve o edifício colegial de Nossa Senhora da Graça, dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, diversas utilizações.

Igreja da Graça_Coimbra_IMG_9159.jpgIgreja da Graça, exterior.
In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_da_Gra%C3%A7a_(Coimbra)

A igreja foi, porém, entregue à Irmandade do Senhor dos Passos, ali existente e gozando de prestígio na cidade, graças ao culto prestado à imagem do Senhor dos Passos, “muito gabada por sua beleza”, no dizer de Simões de Castro, em 1867.

Igreja da Graça.jpgIgreja da Graça, interior.
In:https://www.facebook.com/baixadecoimbra/photos/pcb.1063879910297440/1063879780297453/?type=3&theater

Este culto, com a procissão representando os passos da Via Sacra, foi estabelecido em Coimbra pelos frades gracianos, à semelhança do que tinha acontecido em Lisboa em finais do século XVI. Três nomes andam associados à introdução deste ato litúrgico em Portugal. Fr. Manuel da Conceição presenciara a procissão no convento de Santo Agostinho em Sevilha, estabelecida havia pouco tempo, e foi portador da ideia para Portugal. Para aquela cidade andaluza se dirigiu, pouco depois, Fr. Domingos de Azevedo, para se inteirar e documentar. De lá trouxe todos os pormenores, até a medida dos Passos, tudo autenticado por notário. Mas o grande entusiasta foi o pintor de estandartes, bandeiras e diversas imagens, Luís Álvares de Andrade, mais gabado pelas virtudes granjeadoras do título de “pintor santo” que pela sua arte. Foi o fundador da Irmandade ou Confraria da Santa e Vera Cruz, sediada numa capela do convento da Graça, em Lisboa, em 1586. Esta associação, que hoje existe com o nome de Real Irmandade da Santa Cruz e Passos da Graça, em breve se transformou na preferida de todo o povo da capital, dos nobres, e dos próprios soberanos.
Rapidamente a devoção chegou a Coimbra e se espalhou por todo o país, proliferando as confrarias, algumas delas instituídas em mosteiros e conventos. Na igreja da Graça, tratava da devoção a Irmandade de S. Nicolau e das Almas, extinta em 1721, para dar lugar à Irmandade do Senhor dos Passos.

Igreja da Graça P1100566.JPG

Igreja da Graça. Altar do Senhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

O culto na igreja da Graça deve ter começado ainda no século XVI, como a mesa do altar parece indicar: esculpida em pedra de Ançã, apresenta quatro pilastras decoradas com losangos, dividindo panos ornamentados com os símbolos da Paixão e pinturas de que hoje restam vestígios.
Sobre esta mesa de altar ergueram, em finais do século XVII o retábulo de talhas douradas com camarim profundo, onde se abriga a imagem do Senhor dos Passos. Tem quatro colunas espiraladas sobre mísulas de exuberante decoração, formando intercolúnios laterais, onde se encontram as imagens de Santo Ildefonso e S. Tomás de Vila Nova. A decoração das colunas é a habitual desta época, constituída por parras, cachos de uva com gavinhas e aves debicando. As colunas centrais prolongam-se em arquivolta superior e as laterais em grandes volutas em que se sentam anjos mostrando um medalhão central com as insígnias da Paixão. São conhecidos os nomes dos entalhadores e douradores, provavelmente do Porto: Manuel de Almeida, João de Sousa e Domingos de Almeida (o documento não refere datas nem outros dados).

Igreja da Graça. Sr.dos Passos. Fotografia NelsonSenhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

A imagem atual deverá também ser contemporânea do retábulo. Apresenta apenas o rosto, as mãos e os pés esculpidos, sendo o corpo revestido por tecido. Este tipo de imagens, genericamente designadas por “de roca”, foi um traço comum da época barroca e é uma representação quase exclusiva do mundo de cultura ibérica. São raras as que ostentam as vestimentas originais, envergando muitas vezes tecidos de pouco merecimento, o que altera a sua leitura como obra de arte e devocional. São resultado de uma época, na sequência do Concílio de Trento, em que se procurava o máximo de realismo, para mostrar que os santos eram pessoas comuns e que, portanto, todos podiam ser santos. Eram fáceis de transportar em procissões, onde o realismo era acentuado pelo movimento que os tecidos adquiriam.

Procissão.JPGProcissão do Senhor dos Passos. 2019. Fotografia Nelson Correia Borges

Há que valorizar esta forma de expressão artística tão digna de ser considerada escultura, como certas correntes da escultura contemporânea.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra n: º 4777, de 5 de março de 2020.

 

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por Rodrigues Costa às 10:05

Terça-feira, 10.12.19

Coimbra: Peças levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

Numa entrada publicada há algum tempo que teve por base uma comunicação da Senhora Dr.ª Ana Paula Machado, Conservadora no Museu Nacional de Soares dos Reis, do Porto, abordava a existência de uma série de 24 placas de esmalte pintado “subtraídas” ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Prometi, então, voltar a este tema.

Cena da Verónica.jpg

Cena da Verónica, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado

A razão dessa promessa decorreu de, na referida publicação, essa série de placas ser classificada como datando do 1.º terço do Século XVI e como sendo uma das séries sobreviventes mais completa pelo que constitui hoje uma referência incontornável entre as suas congéneres europeias; mais à frente, a autora refere que este conjunto não encontrou na última revisão de programas e percursos do Museu Soares dos Reis, enquadramento adequado, estando presentemente em reserva.
Quer isto dizer, traduzindo para uma linguagem entendível por não especialistas, que as referidas peças estão, há largos anos, devidamente acondicionadas e guardadas, longe dos olhares do público.
Confesso que, ao aperceber-me desta situação, senti uma grande revolta, tendo mesmo escrito uma petição, dirigida ao Ministério da Cultura, que teria d ser, obviamente, apoiada pelo Bispado e pela Câmara de Coimbra, no sentido de solicitar o regresso das referidas placas, ora acondicionadas num qualquer caixote, ao local de onde haviam sido retiradas, isto é, ao Santuário do Mosteiro de Santa Cruz.

Acabei por arquivar a petição, porque já não acredito na eficácia desta forma de participação cívica.
Sinceramente, por esta e por outras razões similares, estou cansado de lutar contra os moinhos de vento da ignirância, do imediatismo da política e do desinteresse dos decisores políticos – de todos os quadrantes – pela nossa história, pelo nosso património e pela nossa cultura.
Peço desculpa pelo meu desabafo.

Em ordem a este tema pretendo hoje chamar a atenção para um estudo – a que voltarei – de Rocha Madail, e no qual colhi as seguintes informações:

casa das reliquias de Santa Cruz.JPG

«Casa das reliquias» de Santa Cruz

Os esmaltes, que o próprio Diretor interino da Academia de Belas Artes do Porto em 1864 aceitava «terem estado na banqueta do Altar do mesmo Santuário» de Santa Cruz de Coimbra, são vinte e seis preciosíssimas laminas de cobre esmaltado com viva policromia e ouro, medindo 8x10 cm cada, agrupadas em políptico sobre tabuleiro de madeira, e representando cenas da vida de Cristo.
Trabalho das célebres oficinas de Limoges da primeira metade do século XVI, o seu finíssimo desenho segue muito de perto outros tantos passos da coleção conhecida por «pequena Paixão de Cristo», de Albrechr Durer.
Joaquim de Vasconcelos ocupou-se deles no fasciculo 9 da «Arte Religiosa em Portugal», e o Sr. Dr. Armando de Matos dedicou-lhe desenvolvido estudo de identificação em 1934 na revista «Museu»; por informação que então lhe fornecemos, extraída do presente inventário, já nessa data ficou incontroversamente regista a sua proveniência, que Joaquim de Vasconcelos suspeitava ser a «casa das reliquias» de Santa Cruz.

Igreja de Santa Cruz. Santuário 06.jpg

«Casa das reliquias» de Santa Cruz, pormenor 1

 

Igreja de Santa Cruz. Santuário 06 a.jpg

«Casa das reliquias» de Santa Cruz, pormenor 2

Fico com a esperança de que este meu lamento incentive outros, mais jovens e com mais força, a lutarem pela devolução das peças ao local de onde nunca deviam ter saído.

. Madail, A. G. R. 1938. Inventário do Mosteiro de Santa Cruz à data da sua extinção em 1834.
. Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

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por Rodrigues Costa às 10:39

Quarta-feira, 20.11.19

Coimbra: Igreja de S. Bartolomeu

É a igreja de S. Bartolomeu talvez a de mais antiga história na cidade. Já existia em 957, pois, em 2 de novembro desse ano, foi doada ao mosteiro de Lorvão pelo presbítero Samuel, por mando do presbítero Pedro, em risco de morrer. Antes tinha sido dedicada a S. Cristóvão. A doação incluía também a igreja de S. Cucufate, com todas as suas vinhas e hortas que se encontravam em redor. O grande chefe mouro Almançor conquistou e arrasou Coimbra em 987. A igreja de S. Bartolomeu não deve ter sido poupada, pois que a vemos novamente doada a Lorvão em 1109, o que indica reconstrução. A doação de 1 de janeiro de 1109 é feita pelo presbítero Aires e nela são citados os ornamentos, móveis e imóveis.
Estas primitivas igrejas, cujos vestígios arqueológicos se encontram sob o pavimento da atual, depois de escavações levadas a cabo em 1979 e 1980, mas nunca publicadas, tinham entrada para poente e não para o lado da praça. No século XVIII a igreja ameaçava ruir, pelo que em 5 de junho de 1755 se fez a trasladação do SS. e das imagens de Cristo e Nossa Senhora para o antigo Hospital Real, donde passaram para a Misericórdia, iniciando-se de imediato a demolição do velho edifício românico. A primeira pedra da igreja atual foi lançada em 16 de julho de 1756, sendo arquiteto Manuel Alves Macomboa.

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea

A planta do novo edifício é de grande simplicidade, articulando em retângulo a nave com a capela mor. Amplas janelas inundam e unificam o interior de uma luz homogénea, bem característica da época rococó em que se fez a reedificação.

Igreja de S. Bartolomeu. torre sineira.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, torre sineira

A fachada enobrece o topo da praça, com suas duas torres sineiras coroadas de fogaréus e cúpula bolbosa. No século XIX construíram a casa da esquina com a rua dos Esteireiros, que lhe rouba parte da monumentalidade. O portal é ladeado por colunas dóricas onde assenta uma varanda de balaústres em forma de vaso chinês, diferentes dos da balaustrada que une as duas torres.

Igreja S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos lateIgreja de S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos laterais

O interior é sóbrio apenas se destacando as cantarias dos púlpitos, portas, janelas e arcos das capelas. O arco da capela-mor é em asa de cesto, sobre entablamento peraltado, assentando em pilastras mais cuidadas. O retábulo-mor domina todo o espaço, captando a atenção. Foi executado pelo notável entalhador de Coimbra João Ferreira Quaresma, contratado em 20 de dezembro de 1760, com a obrigação de consultar o arquiteto Gaspar Ferreira, para que ficasse como o de Santa Cruz. A fortíssima impressão causada pelo retábulo de Santa Cruz fez dele o pai de imensa prole que se estendeu de Coimbra a todas as Beiras, originado o estilo do rococó coimbrão. O mesmo João Ferreira Quaresma executou as cadeiras do coro e os arcazes da sacristia. O retábulo tem dois pares de colunas por banda, sobre alto embasamento. O coroamento, em frontão interrompido, de elaboradas formas, abriga glória solar ladeada de anjos com palmas. Marmoreados e dourados dão realce a todo o conjunto e emolduram a boca da tribuna, preenchida com uma tela de Pascoal Parente, representado o martírio de S. Bartolomeu.

Igreja de S. Bartolomeu. capela lateral do SagradoIgreja de S. Bartolomeu, capela lateral

Os retábulos colaterais seguem o mesmo estilo, simplificado. Duas capelas laterais apresentam retábulos recuperados da igreja antiga. O do lado nascente é ainda maneirista, dos finais do século XVI, adaptado ao espaço. Conservou, além da estrutura, duas pequenas pinturas sobre tábua. A capela fronteira tem um retábulo de colunas salomónicas de finais do século XVII, época de D. Pedro II.
A igreja tem ainda no seu espólio belas sanefas de concheados, das melhores peças da cidade, feitas por Bento José Monteiro, mas certamente com desenho de Gaspar Ferreira. Salientam-se ainda outras pinturas de Pascoal Parente com Cristo crucificado e Anunciação.

Igreja de S. Bartolomeu. lustre  e órgão.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, lustre e órgão

O templo é indissociável da praça onde se insere, outrora chamada praça de S. Bartolomeu. Nesta praça se fez durante séculos, até 1867, o mercado. Aqui se correram touros. Aqui se situou o paço dos tabeliães. Aqui funcionou a junta dos vinte e quatro dos mesteres e o paço do concelho. S. Bartolomeu é o patrono dos açougueiros e magarefes, cujos talhos estavam na praça e ruas confinantes, isto é, junto da igreja do seu santo padroeiro: principal justificação para a sua edificação neste local.

Nelson Correia Borges

Publicado em Correio de Coimbra, n.º 4761, de 7 de novembro de 2019, p. 8.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quarta-feira, 06.11.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 6.ª feira, 15.11.2019, 18h00

Tendo surgido dúvidas confirma-se que a próxima Conversa Aberta, terá lugar na 6.ª feira, 15.11.2019, às 18h00 

Casa da escrita 1.jpg

Casa da escrita (Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590)

Tema: JOÃO DE RUÃO UM ESCULTOR DE COIMBRA
Palestrante: NELSON CORREIA BORGES 

ncb.jpg

Natural de Lorvão, concelho de Penacova, é professor aposentado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fez doutoramento em História da Arte, tendo apresentado a dissertação intitulada Arte Monástica em Lorvão. Sombras e Realidade.
É académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa e fundador de quatro associações de defesa do património: o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, a Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Folclórico de Coimbra e a Confraria dos Sabores de Coimbra. É membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra.
Coimbra, a arte monástica e conventual, o Barroco e o Rococó, designadamente a arquitetura e a talha, são os campos a que mais se tem dedicado, tendo apreciável número de trabalhos publicados sobre estas matérias, bem como nas áreas de Arqueologia e Antropologia Cultural, designadamente Etnografia e Folclore, que igualmente lhe têm servido de tema para palestras, conferências e participação em reuniões científicas.
De entre as monografias publicadas podem destacar-se:
João de Ruão, escultor da Renascença Coimbrã (1980)
A Arte nas festas do casamento de D. Pedro II (1983)
História da Arte em Portugal — Do Barroco ao Rococó (1987)
Coimbra e Região (1987)
Arquitectura monástica portuguesa na época moderna (1998)
Arte Monástica em Lorvão. Sombras e realidade. (2001)
Doçaria conventual de Lorvão. (2013, 2017)

Deposição, obra de João de Ruão.jpg

Deposição no tumulo, obra de João de Ruão

Virgem e o Menino, obra de João de Ruão.jpg

A Virgem e o Menino, obra de João de Ruão

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.
Tags: Coimbra séc. XVI, Casa da Escrita, João de Ruão, Renascença Coimbrã

 

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por Rodrigues Costa às 10:47


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