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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 04.07.19

Coimbra: Cernache, o concelho que foi a freguesia que é

A comunidade rural de Cernache … [é] desde 1836 mais uma das freguesias do concelho de Coimbra. Todavia, durante mais de quatro séculos gozou da prerrogativa de vila – sede de um concelho sem termo, que detinha a jurisdição cível e crime.

Livro onde está guardado o Foral de Cernache. AHM

Livro onde está guardado o Foral de Cernache. AHMC

Cernache foral manuelino 2 c.jpg

Livro do Foral de Cernache, fl.1 AHMC

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Foral de Cernache. AHMC

… A paisagem é marcada por largos vales de fundos aplanados, com vertentes muitas vezes em escadaria, onde facilmente se detecta a fertilidade dos solos, a abundância de água e a riqueza do espaço agrícola.
… A região envolvente de Cernache divide-se em duas partes distintas, contrastantes mas complementares. A ocidental é baixa, com largos fundos aluviais, onde as ribeiras entalham os seus leitos, sendo aqui que a acção humana mais se evidencia.
… Opondo-se a este pequeno mundo onde a água reina e o verde impera, surge-nos a serra, mais dura, agreste e seca.

Cernache Moinho das Lapas 1 a.JPG

Museu Moinho das Lapas

… Em setecentos, o elemento que dominava a paisagem era, sem dúvida, a água. As ribeiras que ainda hoje vão tomando o nome das povoações que nasceram nas suas margens (Ribeira de Cernache, Ribeira de Casconha, Ribeira de Pão Quente) e as múltiplas linhas de água que atravessam os campos até atingirem o Munda, actuaram não só como elementos definidores da paisagem agrária, ao permitirem as culturas de regadio e de estruturas transformadoras, mas também como elementos delimitadores do território dos poderes que aí eram exercidos.
… A origem e evolução medieva do regime senhorial neste “ilhéu” da periferia da cidade de Coimbra foi traçada por António de Oliveira num texto que passamos a citar dado o seu relevante conteúdo:
“Cernache pertencia a um dos muitos donatários que dividiam entre si o termo coimbrão – Fernão Vasques Pimentel - o primeiro que aparece como senhorio da vila”.
… Em 14 de Junho deste mesmo ano [1375], Coimbra toma posse da jurisdição cível de Cernache, aldeia do seu termo.
… Em 1417, pelo menos, Cernache com outros lugares, é dado a D. Pedro, duque de Coimbra, separado do termo desta cidade.
… D. Manuel I concedeu foral à vila, em 15 de Setembro de 1514.

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Monumento a Álvaro Anes de Cernache

… Álvaro Anes de Cernache, antes de partir para a batalha de Aljubarrota, fundou no seu solar, nesta vila, um hospital, que dotou com bens que seus pais ali deixaram, entregando a sua administração, bem como a dos respectivos rendimentos, à cidade de Coimbra. Por mercê régia, a “administração” e o “rendimento” do hospital, que estava na vila de Cernache, pertenciam à cidade e Câmara de Coimbra, recebendo o juiz de fora, vereador mais velho e escrivão municipal uma “ordinaria” pelas visitas anuais ao mesmo hospital. … O hospital e albergaria funcionaram até que, por força do decreto de 25 de Abril de 1821, este o fez voltar à coroa.

Cernache igreja torre sineira a.JPG

Igreja Matriz de Cernache. Torre sineira

… O prior … que faz a abertura do livro de casamentos em 1738, já que aí deixa exarado:
“He hey ser costume nesta freguezia darem os noyvos de offerta quando se recebem huã guallinha e huã quarta de trigo; ou dizem que quatro bollos grandes de trigo, isto alem da offerta que lançarem elles e padrinhos quando se lhe der a beyjar o Senhor depois das bênçãos de que fiz esta lembrança”.

Já quando o pároco realizava o baptizado, que representa a entrada do neófito na comunidade cristã, regista no início do livro de baptismos:
“He estillo nesta fregesia dar de offerta de cada Baptizado huã quarta de trigo e huã guallinha e huã vella de cera branca, ou seis vintens per ella dando ao pároco, e isto alem da offerta que o padrinho quizer dar, ao qual pertence dar a vella, e a quarta de trigo e guallinha dam os pais do baptizado. E por verdade fis esta lembrança informado de pessoas antigas e por expriencia digo tenho recebido the hoje de Junho 7 de 1751”.

Figueira, A.S. A comunidade de Cernache. A governança municipal (1787-1834). Dissertação de Mestrado em História Moderna. 2009. Acedido em 2019.01.25, em https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/13483/1/Tese_mestrado_António%20Figueira.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 16:57

Terça-feira, 25.06.19

Coimbra: Oficinas de Coimbra nos séc. XV e XVI 3

É curioso notar a existência da mesma fonte nos túmulos reais de Santa Cruz de Coimbra, começados por Diogo de Castilho, irmão do mestre-de-obras dos Jerónimos [João de Castilho] e responsável pelo belo portal da igreja do mosteiro crúzio; o artista, chegado à cidade mondeguina no início de 1518, esteve à frente de uma companha que incluía também os portugueses Diogo Francisco, Pêro Anes e João Fernandes, aos quais se juntou, mais tarde, Juan de la Faya.

Mosteiro de Santa Cruz. Túmulo de D. Afonso HenriMosteiro de Santa Cruz. Túmulo de D. Afonso Henriques [https://www.postais-antigos.com/coimbra-tumulo-d-afonso-henriques-coimbra3.html]

Parece que se podem estabelecer provas da atividade, nestas obras, de um estatuário alemão ou flamengo, que era auxiliar de João de Castilho, normalmente designado por Mestre dos Profetas. Embora não sendo possível considerá-lo artista de gabarito, apresentava certo mérito e as suas esculturas situam-se na tradição do final do século XV, apresentando-se muito vincadas, com fortes requebros, pregueado das vestes violento, rostos estereotipados com maçãs salientes e cabelo ondulado com largas madeixas a cair sobre os ombros.
… Nos arredores de Coimbra, em São Marcos (1522), o mesmo Diogo de Castilho é o responsável pela capela e pela abóbada do mosteiro dos frades Jerónimos, mas os túmulos de Aires da Silva e de João da Silva, saíram do cinzel do já referido Diogo Pires-o-Moço, possivelmente discípulo de Nicolau Chanterene e deste mestre arquiteto.

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de João da Silva.J

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de João da Silva

A oficina coimbrã do artista conseguiu clientela e prestígio, mas a sua imaginária apresentava aspetos flamengos, numa síntese notável da tradição e das novidades tardo-góticas. As obras saídas do seu cinzel documentam a passagem do gótico para a renascença, embora exibam uma assimilação não muito clara. Além de sofrer influência da Flandres, patente nos anjos tenentes dos escudos heráldicos, nos cabelos ondulados das virgens e santos, no gosto pelos detalhes, depois de 1521 passou a incluir grutescos e medalhões nos frisos e entablamentos de romano, como acontece nos túmulos de S. Marcos.
Também lhe são atribuídos três túmulos parietais ediculares, em que os aspetos arquitetónicos goticistas se mesclam com a decoração manuelina: trata-se do de frei João Coelho, na igreja dos Hospitalários de Leça do Balio (1515), do de D. Diogo de Azambuja (c. 1518) que se conserva intacto na igreja do convento de Nossa Senhora dos Anjos, em Montemor-o-Velho, e do de D. Luís Pessoa (c. 1525) que se pode ver na mesma vila.

Convento de Nossa Senhora dos Anjos. Túmulo de Di

Convento de Nossa Senhora dos Anjos. Túmulo de Diogo da Azambuja

Da sua oficina saíram ainda, entre outras obras, a lápide brasonada outrora aposta na ponte de pedra de Coimbra, assinada e datada de 1513; as pias batismais de Leça do Balio (1514-1515) e a da igreja de S. João de Almedina (atualmente na Sé Velha de Coimbra); bem como os dois anjos heráldicos que apresentam o escudo de D. Manuel e a esfera armilar e se destinavam a guarnecer a guirlanda da igreja do mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra.

Anjo Heráldico.jpgAnjo Heráldico

Anacleto, R. El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla. Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499.

 

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por Rodrigues Costa às 09:05

Quinta-feira, 20.06.19

Coimbra: Oficinas de Coimbra nos séc. XV e XVI 2

Mas no interior do país começam a desenvolver-se oficinas de reconhecido mérito e que mais à frente iremos analisar de forma um pouco mais profunda. Em Coimbra (1498), o pintor Vicente Gil, que em 1491 fora nomeado por D. João II pintor régio e privilegiado por um alvará que lhe permitia usar armas na cidade de Lisboa, encontra-se ativo pelo menos até 1525.

Mestre do Sardoal. Políptico.jpg

Mestre do Sardoal. Políptico

Parece que este Vicente Gil, conjuntamente com seu filho Manuel Vicente são os rostos visíveis dos pintores conhecidos pelo nome de “Mestre do Sardoal”.
… A partir de 1938 foi sendo reunido um numeroso acervo pictórico saído de uma produtiva oficina sediada em Coimbra, todo ele muito homogéneo, mas a apresentar características ‘periféricas’ e pouco eruditas; como os sete painéis provenientes da igreja matriz do Sardoal integram o conjunto, por comodidade, dado que o nome do pintor(es) permanecia omisso, passou a designar-se o responsável do estaleiro por “mestre do Sardoal”.
Vergílio Correia identifica o autor como sendo o pintor régio Vicente Gil (já anteriormente referido), ativo entre 1491 e 1518 e senhor de elevado estatuto social, documentado não só pelos privilégios concedidos por D. João II, como pelas relações que manteve com o mosteiro de Celas e com o círculo de D. Leonor, pelos seus avultados bens e pela sua inserção na vida da cidade.

Mosteiro de Celas. Adoração dos Reis Magos. Pol

Mosteiro de Celas. Adoração dos Reis Magos. Políptico

O filho, Manuel Vicente, também pintor, ativo em Coimbra entre 1521 e 1530, deve ter integrado a oficina paterna, a par com outros artistas, todos eles a trabalhar em regime de parcerias; certamente porque conheciam das obras uns dos outros evoluíram dentro de um marcado tradicionalismo e influenciaram-se mutuamente.
… Para a compreensão do evoluir da pintura portuguesa na charneira de Quatrocentos-Quinhentos não pode deixar de se ter em conta o importância desta oficina, dita do Sardoal e sediada na cidade mondeguina, porque a sua qualidade plástica, embora ainda ligada a esquemas ideologicamente medievalescos e onde o cosmopolitismo lisboeta não se faz sentir, “permite reivindicar para a cidade de Coimbra, seja ou não Vicente Gil o mestre pintor mais influente do ciclo Sardoal, um papel deveras representativo no desenrolar da arte portuguesa do manuelino”.

Centro de Apoio Social de Runa. S. Bento e Santo ACentro de Apoio Social de Runa. S. Bento e Santo Ambrósio

Anacleto, R. El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla, Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499

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por Rodrigues Costa às 09:18

Terça-feira, 18.06.19

Coimbra: Oficinas de Coimbra nos séc. XV e XVI 1

Na segunda metade do século XV e nos primeiros trinta anos do XVI assiste-se a um impressionante surto construtivo, passível de permitir afirmar que entre 1490 e 1530 foram levantados no território português mais edifícios do que nos dois séculos anteriores.
O facto pode explicar-se através de fatores de ordem económica concatenados com o enriquecimento da burguesia; com o acesso da nobreza aos rendimentos da expansão; com o aumento demográfico; com aspetos socioculturais relacionados com a laicização da sociedade; com o aparecimento de uma certa prosápia cívica das comunidades urbanas; e com a afirmação individual, embora simbólica, do peso relativo dos senhorios que se materializa especialmente através da arquitetura.

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de Fernão Teles deMosteiro de S. Marcos. Túmulo de Fernão Teles de Meneses

… Diogo Pires-o-Velho e Diogo Pires-o-Moço trabalhavam em Coimbra e, das suas oficinas, saíram algumas obras notáveis.
O primeiro esculpiu, prenunciando já, na decoração, a estética manuelina, o túmulo parietal edicular de Fernão Teles de Meneses (c. 1490) que se encontra na igreja do mosteiro de S. Marcos, próximo de Coimbra; o arcossólio apresenta uma solução incomum em Portugal, pois do interior da ogiva, pendem, saídos de um dossel, panejamentos apanhados lateralmente por ‘homens selvagens’ que, se repetem no friso inferior da arca, ladeando, a par de ramos e folhas, a máscara de um negro com guizos ao pescoço.
… Ao seu cinzel é também devida a arca funerária de D. Afonso, 3.º conde de Ourém (1485-1487), que ostenta uma notável decoração naturalista, bem como a imagem policromada, esculpida em calcário de Coimbra, da Virgem com o Menino, que D. Afonso V, antes de morrer (1481) ofereceu à igreja matriz de Leça da Palmeira e que revela grande naturalismo no tratamento da cabeça, de onde saem cabelos lisos a cobrir os ombros.

Leça da Palmeira. Nossa Senhora da Conceição.jpLeça da Palmeira. Nossa Senhora da Conceição

Das estátuas de Diogo Pires-o-Velho pode destacar-se a maneira como trata os panejamentos, o surgimento de um certo naturalismo e a utilização de um convencionalismo mais atenuado.
Será ainda possível, num primeiro momento, enquadrar Diogo Pires-o-Moço numa estética medieval, onde o gosto tardo-gótico se faz sentir, mas o artista acaba por evoluir para uma linguagem que se vai aproximar da utilizada pelo renascimento transalpino.

Túmulo de Mateus da Cunha.jpg

Pombeiro da Beira. Túmulo de Mateus da Cunha

Está-lhe atribuída a arca feral de Mateus da Cunha, 7.º senhor de Pombeiro da Beira (antes de 1500), em cuja igreja se encontra o monumento.

Anacleto, R. El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla. Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499.

 

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por Rodrigues Costa às 08:46

Quinta-feira, 13.06.19

Coimbra: Grades da igreja de Santa Cruz

Dignas de rivalizar com alguns dos trabalhos artísticos, de que se ufanam as catedrais espanholas, seriam porventura as grades monumentais, que, no venerando templo de Santa Cruz, separavam o cruzeiro do restante da igreja e as que vedavam os túmulos dos reis.

Igreja de Santa Cruz. Interior antigo 01.jpg

Igreja de Santa Cruz, ainda com grades

Hoje já não as podemos contemplar, mas sabemos da sua existência por alguns documentos e referências históricas, que mais ou menos diretamente lhes dizem respeito. Citaremos em primeiro lugar o trecho de uma carta de 19 de março de 1522, em que Gregório Lourenço dá consta a D. João III do estado em que se achavam as obras que o seu antecessor, D. Manuel, mandara fazer no templo de Santa Cruz. Um dos itens da carta é do seguinte teor:
«Item Senhor, mandou que fezessem huua grade de ferro grande que atravessa o corpo da egreja de XXV palmos d’alto com seu coroamento, e ao rredor das sepulturas dos rreix a cada hua sua grade de ferro, segundo forma dhum contrato e mostra que pera ysso se fez. Estam estas grades feitas e assentadas, e pago tudo o que se montou na obra dos pillares e barras das ditas grades porque disto avia daver pagamento a rrazom de dous mil reis por quintal asy como fosse entregando há obra. E do coroamento das ditas grades que lhe ade ser pago per avaliação nom tem rrecebidos mais de cinquoenta mil reis, que ouve dante mão quando começou a obra, que lhe am de ser descontados no fim de toda hobra segundo mais compridamente vay em huua certidão que antonio fernandes mestre da dita obra disso levou pera amostrar a V.A. E nom se pode saber o que d’esta obra he devido atee o dito coroamento destas grades ser avaliado.»
O trecho da carta de Gregório Lourenço é parcamente descritivo, mas apesar disso, muito agradecido lhe devemos ficar por ter salvado, ainda que involuntariamente, o nome do artista que fabricou a obra, António Fernandes.
Como se sabe, D. Francisco de Mendanha, prior do mosteiro de S. Vicente de Lisboa (1540), escreveu uma descrição em italiano do templo de Santa Cruz, a qual D. João II ordenou se traduzisse em português, sendo impressa nos prelos deste último convento. De tão curioso opusculo cremos que não se conhece hoje nenhum exemplar, mas D. Nicolau de Santa Maria perpetuou-o, incluindo-o na sua «Chronica», prestando assim um serviço, literário e artístico, bastante apreciável. Mendanha não se esquece de falar das grades e dedica-lhe as seguintes linhas:
«Alem deste púlpito espaço de 20 palmos contra a Capela mor está a grande e vetusta grade de ferro, que atravessa toda a igreja, ficando dentro o Cruzeiro, e tem de alto trinta palmos.»
O epíteto vetusta sintetiza, para assim dizer, em toda a sua singeleza, a formosura da grade. Entre Mendanha e Gregório Loureço há, todavia, uma discrepância no que respeita às dimensões; Mendanha dá a grade 5 palmos mais alta. Outra diferença notamos ainda. O prior de S. Vicente dis que as grades dos túmulos eram de «cinco palmos de alto, todas de pau preto e bronzeadas com ouro»: Gregório Lourenço claramente especifica que eram de ferro.
Coelho Gasco (In: Conquista, Antiguidade e Nobresa da mui insigne e ínclita cidade de Coimbra, pg. 83) classifica de sumptuosas as grades do cruzeiro e acrescenta que nelas havia um epitáfio, ou antes letreiro, latino, em letras de ouro, que rezava da seguinte forma:
«Hoc templum ab Alphonso Portugaliae primo rege instrutum ac tempore pene collapsum, Regno succesore & actore Emmanuele restauraverit. Anno Natalis Domini MDXX».
Esta data 1520 refere-se por certo à época em que foi assentada a grade e colocado o respetivo letreiro. A igreja já estava reconstruída, como, além de outros documentos, o demonstra o epitáfio do bispo D. Pedro, falecido a 13 de agosto de 1516.
No priorado de D. Acúrsio de Santo Agostinho (eleito em princípio de maio de 1590) as grades foram pintadas e douradas de novo.
Diz o cronista «… e porque as grades de ferro do cruzeiro e capelas da mesma igreja estavam pouco lustrosas, as mandou limpar, pintar e dourar em partes e particularmente mandou dourar as armas reais e folhagens, em que as ditas grades se rematam e tem as do Cruzeiro trinta palmos de alto e as das capelas quinze também de alto, e ficaram depois de pintadas e douradas mui aprazíveis à vista…».

Túmulo de D. Afonso Henriques já sem grades.jpg

Tumulo de D. Afonso Henriques já sem grades

Túmulo de D. Sancho.jpg

Tumulo de D. Sancho I já sem grades

Não sabemos até que época durassem as grades de Santa Cruz. Das que circundavam os sepulcros temos informação de 1620. Ou haviam chegado a extrema ruína ou foram substituídas ineptamente por outras. Referindo-se ao governo de D. Miguel de S. Agostinho, que foi eleito pela segunda vezem 30 de abril de 1618, escreve o cronista da ordem: «Nos últimos meses do seu triénio ornou o P. Prior geral, as sepulturas dos primeiros Reys deste Reino, que estão na capela-mor de S. Cruz grades de pau santo, marchetadas de bronze dourado.»

Viterbo, F.M.S. As grades de Santa-Cruz de Coimbra. In: Revista Archeologica. Estudos e Notas. Volume II. 1888. Direção de A.C. Borges de Figueiredo, Pg. 58-60

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 11.06.19

Coimbra: Capela de Nossa Senhora do Loreto

Já conhecia, de passagem, a capela de Nossa Senhora do Loreto, mas a necessidade de a fotografar, a fim de poder ilustrar uma entrada, levou-me até lá e, se por um lado fiquei desiludido, porque, como o templo se encontrava Coimbra: Capela de Nossa Senhora do Loreto e Quinta
fechado, não consegui ver o seu interior, por outro tive uma surpresa, pois deparei-me com a, para mim desconhecida, Quinta do Loreto, conforme se pode ler num letreiro de azulejo que ali foi colocado.
Quando pensamos que tudo conhecemos, Coimbra tem sempre algo escondido para nos surpreender e encantar.

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CAPELA DE NOSSA SENHORA DO LORETO — no sítio do Loreto.

Por escritura de 18 de maio de 1548, D. Leonor Cabral, viúva, moradora em Coimbra, doou a Fr. Ma¬nuel certo terreno para construir uma capela.
Este eremitão está sepultado na capela-mor. Por sua morte tomou posse o cabido, na pessoa de Brás Pereira, correndo o ano de 1564.
O grande reformador da capela, como diz o his¬toriador António Brandão e os letreiros confirmam, foi o cónego Manuel Teles; a capela em 1596, a casa do eremitão em 1617, vindo a falecer em 1625 e sendo igualmente sepultado na capela.
O elegante conjunto da capela, cruzeiro e casa, vendidos os terrenos, está perdido. A capela ameaça ruína.
Capela do fim do séc. XVII, composta de alpendre, corpo e santuário

Capela do Loreto 4.JPGCapela do Loreto fachada principal

Alpendre de três vãos de frente, divididos por pilares, de capi¬téis jónicos, com o cheio das volutas para fora. Dá-lhe acesso escada de dez degraus. Na modesta sineira lê-se a data de 1596, além de restos de letreiros.

Capela do Loreto alpendre.jpg

Capela do Loreto alpendre

Três retábulos de pedra do fim do séc. XVI, secundários. Os dois laterais de três nichos, diversificados em pormenores. Da ermida an¬tiga deve ser a Virgem que foi recolhida no Museu. As esculturas são secundárias e da¬quela época: Santo Amaro e uma santa; S. Brás, S. Roque e Santa Luzia; acima do arco cruzeiro um Crucifixo.
Numa lisonja do santuário lê-se: S(EPVLTVR)A / DO PA/DRE FREI / MANOEL.IRMI / TÃO.Q.FOI DESTA CA / ZA.DI-ZEM Q(VE) FOI / O INSTITVII / DOR DE / LLA.

A campa do corpo diz: S(EPVLTVR)A. DE M(ANV)EL TELLEZ. CONE / GO.Q(VE).FOI.DA SEE.DE / COIMBRA.REFORMA / DOR.DESTA.IRMIDA / E FALLEÇEO A DE MAIO / 1625.

Capela do Loreto vista geral.jpg

Capela do Loreto vista geral

A capela, posta em terreno declivoso, completa-se de um cruzeiro, sobre coluna, a meio da parede que segura uma dupla rampa;

Capela do Loreto templete.JPG

Capela do Loreto templete

na estrada, que lhe passa inferiormente, há um templete com grande nicho de Almas. Na base do cruzeiro lê-se: M(ANO)EL TELLEZ O FEZ.
A casa do eremitão, um pouco afastada e desnaturada, com alpendre de duas colunas, tem na porta: EMANVEL.TELLES. / ME FECIT.1617.ANO


CASA ANTIGA — no Loreto.
Pertence ao séc. XVII. Mostra para a estrada quatro saca¬das com cornija e ferros recortados, do tem¬po, e mais uma janela que corresponde à va¬randa. Esta de cinco vãos inferiormente, formados de arcos sobre colunas dóricas, e de seis no andar de cima, divididos por colu¬nas (um de serviço da escada), com friso de pedra. Fica em frente da arcada, separado por um pátio, um vasto celeiro do séc. XVIII, de elegante sacada, vendo-se no topo posterior um brasão.

Quinta do Loreto casa antiga.jpg

Quinta do Loreto casa antiga

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Quinta do Loreto celeiro

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Quinta do Loreto brasão

Três esclarecimentos:
- A capela foi restaurada tendo as suas paredes exteriores sido totalmente rebocadas;
- Da casa do eremitão não encontramos vestígios;
- O termo lisonga só foi encontrado no Dicionário Ilustrado de Belas Artes, de Luís Manuel Teixeira, significando no contexto, peça heráldica diminuta com a forma de losango.

Gonçalves, A. N. e Correia, V. Inventário Artístico de Portugal. Distrito de Coimbra, vol. IV. 1953. Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, p. 56.

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por Rodrigues Costa às 08:45

Quinta-feira, 30.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 2

 

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Divus Pelagius Conimbricensis. Porta principal do Colégio de S. Tomás. Coimbra
Foto: Bernardino F. C. Marques

Portal. Museu 02.jpg

Pormenor da porta principal do Colégio de S. Tomás, Coimbra. Estilo renascentista, 1545. Museu Machado de Castro, Largo de S. Salvador, Coimbra
Foto: Bernardino F. C. Marques

Frei Paio de Coimbra ou ‘Frater Pelagius Parvus’ nasceu em Coimbra, provavelmente entre 1195 e 1200, vindo a falecer por volta de 1249. Foi sepultado no primitivo convento dominicano desta cidade.
Pouco conhecemos da sua vida, mas as informações que os seus biógrafos nos transmitiram dão-nos o perfil de um frade culto, humilde e milagreiro após a sua morte.
O primeiro cronista da Ordem dos Pregadores, Gerardo de Frachet, que deve ter conhecido Frei Paio quando visitou os conventos da parte ocidental da Hispânia, refere que «depois de este ter trabalhado fielmente durante muito tempo, com fervor e humildade no desempenho do cargo de pregador e de ouvir confissões, por fim, presentes os frades e orando por eles, descansou no Senhor no convento de Coimbra, reino de Portugal».
Relata em seguida «os prodígios que realizou Frei Pelágio, para honra e glória de Jesus Cristo», em favor daqueles que devotamente acorriam ao seu sepulcro, ou dele tomavam a terra.

Frei S. Paio.jpgS. Paio de Coimbra

O prodígio mais emblemático foi o ‘milagre da fundição do sino, que assim é narrado: «… encontrando que por um certo erro do fundidor, faltava muito cobre, levantou-se de orar um frade e tomando terra do sepulcro de Frei Pelágio, lançou-o ao forno e converteu-se imediatamente em cobre…».
Os próprios infiéis beneficiaram, por seu intermédio, das graças de Deus: «E o que foi mais admirável – diz o cronista -, dois sarracenos de Coimbra que padeciam de violentas febres, tomaram terra da sepultura de Frei Pelágio e, nesse instante, por misericórdia divina, ficaram plenamente curados».
A eficácia da sua pregação permanecia, pois, mesmo depois da sua morte.
Teria Frei Paio frequentado a escola episcopal de Coimbra ou a do mosteiro de Santa Cruz. Foi recebido na Ordem dos Pregadores, sendo já adulto, por Frei Sueiro Gomes, companheiro de S. Domingos e primeiro provincial da Hispânia. O historiador dominicano Frei António do Rosário lança a pergunta: - Donde provieram (est)as vocações (adultas)»? E responde com presteza: «O caso de Santo António, cónego regular que se fez mendicante franciscano, não ficaria único. Dos Mosteiros, das Colegiadas e da Cleresia proveio, sem dúvida, o melhor e o mais avultado contingente das primeiras vocações em Portugal, aliás como nas outras partes da Europa».

Primeira Parte da História de S. Domingos 01.jpg

Santo frei Payo. Frontispício da Primeira Parte da História de S. Domingos, de Frei Luís Cácegas e Frei Luís de Sousa – 1623. Museu de Aveiro, inv. nº 9/L. In Frei António José de Almeida, O.P.,
Disponível na WWW, <portugaldominicano.blogspot.com/>

«Era Frei Paio, quando veio à religião - diz Frei Luís de Sousa -, entrado já em dias, e conhecido por letras, e virtude. E como tal foi o primeiro Prior do Convento, e ficando em Coimbra morador contínuo». Foi este o primitivo Convento Dominicano construído no lugar da Figueira Velha, ao Arnado, em 1227, sob o mecenato de duas filhas de D. Sancho I, a princesa D. Teresa, que fora casada com D. Afonso, rei de León, a qual comprou os terrenos necessários, e a princesa D. Branca, que financiou a construção.
Afirma Frei Luís de Sousa que o ‘Santo frei Payo’ «faleceo, segundo a conta dos mais dos autores, que d’elle escrevem polos annos do Senhor de 1257, pouco mais ou menos». Mas logo refere que, numa inscrição tardia da lápide tumular na capela-mor da igreja do Colégio, estava registava a data de 1240: «Primus huius Conventus Prior morum sanctitate ac miraculorum gloria insignis Pelagius hic situs est. Obiit circa annum 1240».
No entanto, quem mandou gravar tal data foi induzido em erro, pois no registo da abertura do testamento de D. Sancho II, em 1248, consta a presença de Frei Pelágio Abril, nome pelo qual era também conhecido, à data prior do convento da cidade do Porto: «Pelagius Aprilis Portugalensis et frater Fernandus Petri».

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full 

 

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por Rodrigues Costa às 11:08

Terça-feira, 28.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 1

No passado mês de abril publiquei uma entrada sobre o primitivo Convento de S. Domingos.
Entretanto chegou ao meu conhecimento uma imagem das escavações realizadas e a que ali me referi a qual, a dado o seu interesse, ora reproduzo.

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Descoberta das estruturas do Convento medieval (primitivo) de São Domingos (1227) no Centro Histórico de Coimbra
LUSA - Agência de Notícias de Portugal, 23 de Fevereiro de 2009

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No texto publicado era feita uma referência a Frei, ou, Dom, ou São Paio de Coimbra.
Pouco ou nada sabendo sobre esta figura da nossa terra foi, entretanto, possível recolher as informações que agora se divulgam.

Há trinta anos, pelo menos, quando nos pusemos a estudar um por um, todos os códices alcobacenses da Biblioteca Nacional de Lisboa, respeitantes à Idade Média … vieram ao nosso encontro estes sermões [o Sermonário de Frei Paio de Coimbra, o Cód. Alc. 5/cxxx], ou melhor, esquemas de sermões, escritos em pergaminho, em letra de transição do séc. XIII, com iniciais a vermelho e azul, filigranadas … Só desejamos acentuar que todo o códice (e não unicamente os sermões de Frei Paio) se destinava a pregadores mais ou menos incipientes. Era um manual teórico e prático de oratória cristã.

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Frontispício do Sermonário. Cod. Alc. 5/cxxx Fotocópia de microfilme: Hill Monastic Manuscript Library, 1980

Tornando aos sermões, foi seu autor o dominicano Frei Paio de Coimbra ou Pelagius Parvus. E conforme a nota final, da mesma letra, foi copista deles o monge alcobacense Frei Domingos Pires ou Peres (Dominicus Petri), no ano de 1250, a pedido de Dom Pedro Eanes, abade do Mosteiro de Tarouca.
Frei Luís de Sousa [refere] a data duvidosa da morte de Frei Paio de Coimbra, [citando uma lápide que dizia] «Aqui jaz Frei Paio, primeiro prior deste convento [de S. Domingos-o-Velho de Coimbra] e notável pela santidade de costumes e pela glória dos seus milagres».
Morreu à volta de 1240. E acrescenta Frei Luís de Sousa: «foi sua vida e morte surda e sem rumor». Talvez isto explique a ignorância do ano exato em que morreu um dos maiores pregadores do séc. XIII.
… Outros autores apontam o ano de 1257 (e não o de 1240), o que faz supor a inexistência de lápide antiga com ano certo. De contrário, talvez a levassem quando trasladaram o túmulo ou as ossadas.
O cónego coimbrão Pedro Álvares Nogueira (f 1598) fala-nos também de Frei Paio, assim como do «mosteiro de sam Domingos o velho». Nele esteve muitos anos a sepultura do grande pregador, até que «os frades levarão tudo pera o mosteiro novo e não deixarão mais que hum sino, em lembrança do milagre» que, na fundição do mesmo sino, realizou «o bemaventurado sam Payo».

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São Frei Paio. Capela do Espírito Santo, Carapinheira, Montemor-o-Novo. Testemunho do culto popular
Foto: Bernardino F. C. Marques

… Que nos dizem de Frei Paio os informadores (diretos ou indiretos) de Frei Gerardo? Pois bem, dizem que ele confessou e pregou durante largo tempo e partiu deste mundo no convento de Coimbra, rodeado pelos outros frades postos de joelhos e a rezar.
Passado algum tempo (notemos a frase) morreu outro frade e enterraram-no junto do seu coval... Ora, tanto o coveiro como os frades sentirem evolar-se dele um perfume maravilhoso e uma espécie de névoa. E estando bastante doente a filha do coveiro e sem poder levantar-se, de regresso a casa ofertou-a a Frei Paio… isto é, fez por ela uma promessa. Logo se levantou a moça, pegou no cântaro e foi buscar água ao rio, sem doença nenhuma.
... A fama de santidade, julgamos nós, espalhou-se mais a partir do povo … Segue o famoso milagre da fundição do sino; mais outro duma mulher com dores no estômago; um escudeiro dos arredores de Coimbra e um frade dominicano do convento, ambos eles curados da febre; a confissão dum pecador empedernido; a cura dum cego que dantes se confessava a Frei Paio; cinco endemoninhados salvos da sua aflição … enfim, duas mulheres sarracenas, dos arredores de Coimbra, atacadas de febre e livres da doença, por tomarem terra do sepulcro de Frei Paio … Milagre deveras notável… por se tratar de muçulmanas, gente doutra religião.
… Ora bem, este frade, cuja morte foi «surda e sem rumor», deixou-nos uma coleção de sermões que podemos colocar, sem vergonha ao lado dos que escreveu Santo António de Lisboa, seu contemporâneo. Nada menos de quatrocentos e sete sermões, quase todos panegíricos de santos. Entre eles, dois sermões em louvor de Santo António, o que faz de Frei Paio um dos panegiristas antonianos mais antigos — e muito desejaríamos nós que fossem estes os mais recuados sermões ainda existentes, em honra do grande santo de Lisboa.
…Que os sermões de Frei Paio sejam de importância para a história da eloquência medieval, salta aos olhos, sobretudo para o caso português. E não só.
…Já provámos ter Frei Paio estado em Santarém. E decerto em muitas mais terras portuguesas, pois os pregadores … Que pregou em português não oferece dúvidas … entre os sermões de Frei Paio, existam nada menos de nove panegíricos de S. Tomás de Cantuária… significaria ter Frei Paio estado em Cantuária.
… Quanto à presença de Frei Paio em Bolonha (e por conseguinte noutros lugares da Itália) nenhuma dúvida possível. Foi Bolonha o lugar preferido para alguns dos primeiros capítulos gerais dos frades pregadores.

Martins, M. 1973. O Sermonário de Frei Paio de Coimbra do Cód. Ale. 5 / CXXX. In: Didaskalia. III (1973). Pg. 337-362. Acedido em 2919.01.03, em
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/11993/1/V00302-337-361.pdf 

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full

 

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por Rodrigues Costa às 09:47

Terça-feira, 21.05.19

Coimbra: Mitra Episcopal 1

A Mitra Episcopal de Coimbra representa essencialmente o conjunto de bens patrimoniais que estavam destinados ao sustento e provisão do bispo de Coimbra.
A diocese de Coimbra teve sede, primitivamente, em Conímbriga, no período de romanização da Península Ibérica, depois em Emínio (Aeminium), durante o domínio dos Suevos, tendo sido nestes períodos sufragânea de Mérida e depois de Braga, e por fim ficou sedeada na cidade de Coimbra, enquanto diocese isenta.
Os limites geográficos do bispado ficaram definidos em 1253, pela bula Provisionis nostrae de Inocêncio IV, de 12 de Setembro, tendo sido retirados a Coimbra os territórios entre o rio Douro e Antuã que foram anexados ao bispado do Porto.

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Inocêncio IV

A área geográfica do bispado de Coimbra sofreu alterações com a criação do bispado de Leiria, pela bula Pro excellenti apostolicae sedis de Paulo III, de 22 de Maio de 1545, no reinado de D. João III, que ditou a saída de seis paróquias (Caranguejeira, Colmeias, Espite, S. Simão de Litém, Souto da Carpalhosa e Vermoil) da diocese de Coimbra que passaram a pertencer ao novo bispado.

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Paulo III

Idêntica situação ocorreu aquando da criação da diocese de Aveiro, desmembrando localidades diversas do bispado de Coimbra, por breve de Clemente XIV de 12 de Abril de 1774.

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Clemente XIV

Com a nova circunscrição diocesana ditada pela bula Gravissimum Christi de 30 de Setembro de 1881, na diocese de Coimbra foi integrada parte dos bispados de Leiria e Aveiro, que só voltaram a ser restaurados pelo papa Bento XV em 1918 (Leiria) e 1938 (Aveiro).

As doações patrimoniais à Sé de Coimbra são anteriores à fundação da nacionalidade. A necessidade de sustentação dos bispos, cónegos e mais prelados esteve na origem de várias doações, nomeadamente, a importante doação do Mosteiro da Vacariça, em 1094, por D. Raimundo e D. Urraca, e do mosteiro do Lorvão, em 1109, que apenas por sete anos esteve na posse da Mitra.

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D. Raimundo

No entanto, as propriedades de Santa Comba Dão, Couto do Mosteiro, Midões, Vila Cova e parte da Pedrulha, que eram do dito mosteiro do Lorvão, mantiveram-se na sua posse.
Em 1082, o conde D. Henrique e D. Teresa doam à Sé de Coimbra os castelos de Coja e Arganil, altura em que os bispos de Coimbra passam a designar-se Senhores de Coja.


D. Henrique e D. Teresa. Iluminura da Genealogia d

D. Henrique e D. Teresa

A partir do reinado de D. Afonso V, o bispo de Coimbra passa a acumular o título de conde de Arganil, na sequência do reconhecimento da participação do bispo D. João Galvão nas campanhas do Norte de África (conquista de Tânger e Arzila), em 1471… concedeu também a este prelado, por provisão régia de 18 de Agosto de 1472, a vedoria mor das obras e alcaidaria-mor das comarcas da Beira e Ribacôa, razão pela qual se intitulava alcaide-mor de Avô.

Bandeira, A.M.L., Silva, A.M.D., Mendes, M.L.G. 2007. Mitra Episcopal de Coimbra: descrição arquivística e inventário do fundo documental. Acedido em 2019.04.29, em
https://www.uc.pt/auc/fundos/ficheiros/DIO_MitraEpiscopalCoimbra 

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por Rodrigues Costa às 09:02

Quinta-feira, 16.05.19

Coimbra: Hospital Real 2

Quem, hoje, passar em Coimbra, pela Praça do Comércio, não vislumbra nada que denote o edifício do hospital.
Poucos saberão que o espaço que acolhe uma típica loja de comércio oriental revela, ainda, no seu interior, arcadas e colunas manuelinas.

Hospital real de Coimbra 02.jpg

Hospital Real de Coimbra, pormenor da abóbada da entrada na capela

Mas, pouco adiante, podem ver-se pedras que falam…

Reprodução fotográfica das iniciais HRC,.JPG

Reprodução fotográfica das iniciais HRC, a seguir às quais foi colocada, posteriormente, a identificação do sequente proprietário - V.DE – a Universidade de Coimbra, herdeira dos bens do Hospital, após a sua extinção, em 1772. (Foto gentilmente cedida pelo Prof. Doutor Henrique Carmona da Mota).

Sobre o umbral da porta de uma casa, na rua Direita da baixa coimbrã, que na verga tem o número 73, está [estava] o registo epigráfico com a sigla HRC, formada pelas iniciais do nome da instituição, com as quais se identificava a posse de seus bens, sendo usadas também nos marcos de demarcação de propriedades rústicas.

Sinete do Hospital Real de Coimbra.JPG

O sinete da instituição apresentava também as armas reais. Atente-se na marca do sinete
que se encontra aposto na capa do livro de entrada e saída de doentes
(1711-1713) (PT/AUC/HOSP/HRC/17/003).

O Hospital era administrado de acordo com o seu Regimento, sendo gerido por um provedor e um almoxarife, fazendo, ainda, parte do seu número de funcionários o recebedor dos enfermos, o hospitaleiro, o escrivão, o porteiro, o capelão, o solicitador, etc.
Dentro das suas instalações os espaços dividiam-se por duas enfermarias (de homens e de mulheres), capela, casa do despacho, hospedaria, refeitório, despensa, adega e cozinha, tendo recebido, inicialmente, apenas 17 doentes.
A botica hospitalar não existiu, logo, desde o início da sua fundação, sendo feito contrato com boticários da cidade para fornecimento do que fosse necessário. No entanto, pelo Alvará de 24 de junho de 1548, pelo qual se ordena ao físico que dê, da botica, todas as mezinhas necessárias para a cura dos colegiais da Ordem de São Jerónimo, fica-se a saber que ela existe a partir dessa data, pelo menos.
Havia, ainda, casas de hospedaria, para receber “pessoas de bem” que estivessem de passagem, assim religiosos, como “mulheres honradas” e alguns estrangeiros que de caminho passavam pela cidade.
Um outro espaço existente era o designado “hospital dos andantes” ou “casa dos pedintes andantes” destinado a acolher os peregrinos passantes pela cidade ou pessoas indigentes que não tinham onde se albergar.
Os pedintes andantes poderiam ali ficar um dia e uma noite, existindo para seu conforto, de acordo com inventários de 1523 e 1659, mantas velhas “com que se cobriam os andantes”, um candeeiro e candeias de azeite, uma caldeirinha de barro para água. As instruções dadas em Almeirim, em 4 de maio de 1508, referem já a existência da “casa dos andantes”, com leitos para os andantes pobres, tendo cada leito o seu enxergão de palha, um almadraque de lã, um cabeçal de lã, cabeceira e dois cobertores de burel. Também o mobiliário das enfermarias era muito simples e, de acordo com o Regimento, de 22 de outubro de 1508, cada cama tinha: um enxergão, um almadraque, um colchão, um par de lençóis, um cabeçal e uma manta ou um cobertor.
Informação adicional.

Nota
Deslocamo-nos ao local e fotografamos o espaço. Assinalando que alguns dos capiteis foram mutilados, deixo à consideração dos leitores as imagens que então recolhi.

IMG_8383.JPGHospital Real. Vista exterior na atualidade

IMG_8376.JPGHospital Real. Loja chinesa 1

IMG_8379.JPGHospital Real. Loja chinesa 2

IMG_0735.JPG

Hospital Real. Loja fechada

Bandeira, A.M.L. O Hospital Real de Coimbra: acervo documental de uma instituição assistencial (1504-1772). In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Volume XXVIII. 2015. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra. Acedido em 2019.01.29 em
https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/37775/1/O%20Hospital%20Real%20de%20Coimbra.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:39


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