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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 13.07.21

Coimbra: O Púlpito de Santa Cruz 2

Apresenta-se com parapeito de quatro faces poligonais sobre base em forma de cone invertido. É revestido de finíssima decoração renascentista de candelabros, pequenos medalhões e outros motivos clássicos, tudo em delicado relevo à flor da pedra, mas os baldaquinos das figuras angulares são ainda de tradição gótica.

Pulpito de Santa Cruz 2.jpg

Púlpito de Santa Cruz

Nas quatro faces abrem-se elaborados nichos onde se sentam os quatro doutores da Igreja do Ocidente. São eles, começando do lado da entrada, Santo Ambrósio de Milão, mitrado, S. Jerónimo, com chapéu de cardeal e leão aos pés, S. Gregório Magno, com a tiara papal, todos ostentando um livro simbólico da sua sabedoria e dos seus escritos, e, por fim, Santo Agostinho segurando um templo nas mãos, como fundador da Ordem seguida em Santa Cruz.

S. Jerónimo, com chapéu de cardeal e leão aos pS. Jerónimo com chapéu de cardeal e leão aos pés

Nos ângulos dispõem-se dez figurinhas plenas de grande significado. Na linha inferior representam-se os quatro profetas maiores, Isaías, Joel, Ezequiel e Jeremias, tendo ao centro o rei David segurando a harpa. Nos pequenos nichos superiores aos profetas erguem-se cinco donairosas donzelas: as sibilas do mundo clássico que se cria, desde o concílio de Niceia em 325, terem prenunciado o nascimento, a paixão e morte e a ressurreição de Jesus. Foi tema dos humanistas renascentistas, no esforço de conciliar a sabedoria da Antiguidade com a doutrina cristã, tendo o seu exemplo máximo nas pinturas de Miguel Ângelo no teto da capela Sistina e, igualmente, a sua expressão neste púlpito. Identificamo-las como: Cumana ou Ciméria, Herófila ou Samiana, Pérsica ou Caldeia (a do centro, com a cruz), Délfica, e Helespôntica ou Troiana.

O cone invertido de sustentação do púlpito gera-se a partir da representação de um monstro alado fantástico, a hidra de Lerna, com suas sete cabeças de serpente que renasciam sempre que se lhe cortavam, mas morta por Hércules no seu segundo trabalho. Um pouco mais acima, cinco harpias, monstros imundos, raptoras de almas, com rosto de mulher, corpo de abutre e orelhas de urso. Esta zona agitada é o mundo do pecado, por demais simbolizado nas sete cabeças da hidra. A transição para a parte superior é feita por frisos de elementos clássicos, onde cinco querubins transmitem paz e tranquilidade.

o cone invertido de sustentação do púlpito.JPG

... o cone invertido de sustentação do púlpito

Nicolau Chanterene era, sem dúvida, homem culto e artista de génio, mas não poderia ter executado esta obra, de tão denso conteúdo iconográfico e teológico, onde o bem se sobrepõe ao mal, sem ter a aconselhá-lo os doutos cónegos crúzios. Infelizmente o tempo tem deixado as suas marcas bem notórias nesta obra prima da arte portuguesa e mesmo europeia.

Nelson Correia Borges

Borges, N.C. O Púlpito de Santa Cruz. In: Correio de Coimbra, n.º 4785, de 2020.05.07

 

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por Rodrigues Costa às 20:00

Terça-feira, 06.07.21

Coimbra: O Púlpito de Santa Cruz 1

Os púlpitos das nossas igrejas tornaram-se obsoletos com o advento da amplificação sonora e sobretudo depois do concílio Vaticano II, quando toda a ação litúrgica se centrou no altar da celebração. Foram substituídos pelo ambão, normalmente colocado à direita do altar, no lado outrora destinado ao Evangelho. Será difícil às novas gerações percecionar a função e utilidade que estava destinada a estas peças, sempre tratadas com muito esmero e muitas vezes expressão artística de alto merecimento. No pós-concílio, alguns púlpitos chegaram mesmo a ser retirados das igrejas, esquecendo que a sua presença de séculos é parte da história dos monumentos e das comunidades.

Púlpito de Santa Cruz de Coimbra.jpg

Púlpito de Santa Cruz

As origens dos púlpitos podem procurar-se na civilização romana, de que somos herdeiros. Estavam presentes nos edifícios públicos e no foro como um local elevado, onde se situavam os oradores. Nas primitivas basílicas cristãs havia já uma tribuna semelhante ao ambão dos dias de hoje. Na segunda metade do século XIII, a atividade oratória de franciscanos e dominicanos levou à criação do púlpito como uma tribuna elevada, no centro da nave e por vezes com um dossel ou quebra-voz, para melhoria das condições acústicas, geralmente posicionado do lado do Evangelho. A partir do século XVI o púlpito ganha grande protagonismo no espaço interior das igrejas. Ali se fazia lembrar o louvor a Deus e o proveito espiritual das almas para a salvação eterna, em sermões inspirados, por vezes exuberantes e teatrais para que a mensagem chegasse a todos, pois grande parte da população era iletrada.

Em Santa Cruz de Coimbra o púlpito situou-se junto à desaparecida grade que separava o espaço conventual do espaço dos fiéis.

o púlpito situou-se junto à desaparecida grade.j

o púlpito situou-se junto à desaparecida grade

 Ele é bem a expressão da sapiente cultura dos cónegos crúzios e da arte refinada de Nicolau Chanterene. O escultor francês Nicolau Chanterene fez uma passagem quase episódica por Coimbra. No mosteiro de Santa Cruz deixou o melhor da sua obra, na fachada, no claustro e no púlpito, executado em 1521, data descoberta pelo Pe. Nunes Pereira quando fazia desenhos de pormenores, publicados neste jornal em 1985.

1521, data descoberta pelo Pe. Nunes Pereira.jpg

1521, data descoberta pelo Pe. Nunes Pereira

Parte do púlpito onde em 1985 foi.jpg

Parte do púlpito onde em 1985 foi identificada a data da sua construção, ilegível passados 35 anos.

Borges, N.C. O Púlpito de Santa Cruz. In: Correio de Coimbra, n.º 4785, de 2020.05.07

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:21

Terça-feira, 22.06.21

Coimbra: “Elogio de Coimbra”

O Dr. Mário Araújo Torres juntou mais uma pedra, a sétima, ao monumento que, à sua custa, vem erguendo dedicado a obras relacionadas com Coimbra, todas elas deslembradas no tempo.

Agora coube a vez ao “Conimbricae Encomium” ou “Elogio de Coimbra”, publicado em 1554, da autoria de Inácio de Morais.

Elogio, capa corrigida.jpg

Capa do livro ora editado

O livro em causa, ora editado, não se remete a uma mera reprodução do texto inaciano, pois Mário Araújo Torres, após uma cuidada e vasta investigação, anexa um alargado conjunto de notas, passíveis de permitir não só enquadrar o escrito, mas também de facilitar ao leitor hodierno e sua compreensão. Além disso, insere a tradução do poema para português, feita por Alberto da Rocha Brito, e completa o volume com a apresentação de uma detalhada biografia e bibliografia relacionada com Inácio de Morais.

Na Nota Prévia, Araújo Torres, elucida-nos que Augusto Mendes Simões de Castro num artigo escrito para a revista “Instituto” havia referido ter adquirido “num leilão em Lisboa”…  “um livro muito interessante, que temos na conta dos de maior raridade, intitulado Conmbricae Encomium.

A convicção de que se trataria do único exemplar existente em Portugal, fundava-se em não ter achado tal obra nas Bibliotecas Nacional de Lisboa, da Universidade de Coimbra ou Municipal do Porto, nem nas boas livrarias de muito bibliógrafos que consultou, descobrindo apenas uma cópia manuscrita na Biblioteca Pública de Évora.

… O exemplar adquirido por Simões de Castro deve ser o que se encontra atualmente na Biblioteca Nacional de Portugal, único de que há registo nos catálogos disponíveis das bibliotecas portuguesas. 

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“Conimbricae Encomium”. 1544, rosto. Fl. 15

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“Conimbricae Encomium”. 1544, dedicatória. Fl. 16

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“Conimbricae Encomium”. 1544, página inicial. Fl. 17

Duas outras edições foram feitas do texto latino: a terceira, por Joaquim Alves de Sousa, em 1890; e a quarta por Mário Brandão, em 1938.

… “Encontram-se neste poema notícias curiosíssimas sobre a Coimbra do tempo de D. João III, quando este monarca transferiu para ali a Universidade então estabelecida em Lisboa. Referem-se vários usos e costumes da população académica, discente e docente, de alguns dos quais ainda hoje se conservam não poucos vestígios. Dá-se minuciosa informação das muitas casas religiosas de um e outro sexo ali existentes, de outros edifícios públicos notáveis e de alguns palácios de antigos fidalgos. Descreve-se a beleza dos horizontes, a salubridade dos ares, a fertilidade do solo, a amenidade dos arredores, a índole bondosa, pacífica e hospitaleira, e até a graça natural e folguedos populares dos habitantes da cidade ridente.

Da versão portuguesa apresentada no volume em apreço, de que Alberto da Rocha Brito é responsável, selecionamos um trecho que relata a lenda, mais uma, do brasão de Coimbra.

Elogio, rosto pormenor.jpg

Conimbricae Encomium. 1544, rosto, pormenor. Fl. 15

Em memória da sua Pirene ordenou aos conimbricenses que tivessem sempre na lembrança a sua história e um monumento da sua dor.

Por isso estão insculpidos nos muros urbanos as insígnias representando a urna, a coroa e o rosto da mutilada donzela, com a serpente de um lado e do outro o leão.  

Morais, I. Conimbricae Encomium. Elogio de Coimbra. Recolha dos textos e notas de Mário Araújo Torres. 2021. Lisboa, Edições Ex-Libris.

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por Rodrigues Costa às 20:35

Terça-feira, 15.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 3

As profissões ligadas à saúde, século XVI

. 1528, Agosto, 26, Coimbra. Registo da carta, passada a Catarina Fernandes, moradora em Coimbra, pelo físico-mor e cirurgião d’el rei, Doutor Mestre Gil, cavaleiro da Ordem de Cristo, para que ela possa “curar de boubas e chaguas per todos os reynos e señorios”, uma vez que a examinara e achara apta para o exercício dessa profissão, em 5 de Novembro de 1527.

Carta passada a Catarina Fernandes.png

AHMC/Registo, vol. 1, 1525-1538, fl. 38v-39

Transcrição

O doutor Mestre Gill, cavaleiro da Ordem de Christo e fisico d’ el Rey Nosso Señor e seu colorgião moor, faço saber aos que esta mynha carta virem e o quanto della pertencer, que eu dou lugar e licença a Caterina Fernandez, moradora na cidade de Coimbra, que ela posa curar de boubas e chaguas per todos os reynos e senorios do dito Señor, sem embarguo de quaesquer leix e hordenações que hy aja em comtrairo, porquanto eu a eixasameney e achey auta e sofeçiente pera poder usar e praticar das ditas enfermidades…

Traje e máscara para tratar doentes com peste.png

Traje e máscara para tratar doentes com peste. Séc. XVIII. http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/OBRAS/Ocidente/Ocidente_1889.htm

Notar a proteção dos olhos em cristal e o nariz coberto com um longo reservatório onde se colocavam perfumes. Grav. francesa da obra Traité de la Peste, de 1721, publicada O Occidente, Setembro, 1911.

. 1562, Agosto, 27, Lisboa. Registo da carta de cirurgião e sangrador, passada a Manuel Gonçalves, morador em Coimbra, pelo licenciado Gaspar da Costa, físico-mor e cirurgião d’el rei “para que elle possa sangrar e sarafar e tirar dentes, lançar ventosas, por todos estes reinos” uma vez que o examinara e achara apto para o exercício dessa profissão.

Anexo sem nome 00005.jpg

Carta de Cirurgião

 

Transcrição

[fl. 212] Carta de selorgiam a Manuel Gonçalvez

O licenciado Gaspar da Costa, fisico e selujião moor d’ell rey Nosso Señor, faço saber ha todollos señores juizes e justiças e outras quaesquer offiçialles a que esta mha carta for mostrada e o conto dela pertençer que eu dou lugar e liçença a Manuel Gonçalvez, morador na cidade de Coimbra, que elle possa sangrar e sarafar e tirar dentes lançar ventosas por todos estes reynos e cousas, por quanto examiney e achey auto e sofyçente pera usar do que dito he.

A sangria.png

La Saignée, Grav. de Abraham Bosse (1606-1676). https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8403217z.item 

A sangria era um dos tratamentos utilizados para doentes com peste bubónica.

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 21:45

Terça-feira, 08.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 2

A epidemia de 1598-99

Os anos de 1598-99, não são menos difíceis. A peste chega à cidade através do contágio de um oficial régio, que não aceita ser impedido de entrar na cidade. Esta situação, está descrita nas Crónicas Religiosas de Santa Cruz e na Crónica da Ordem dos Jesuítas.

Pelas Vereações sabemos que apelaram ao Bispo para servir de árbitro e ser Guarda-mor da Cidade. O oficial régio deve ser o Provedor Gonçalo Vaz Barigua mencionado no livro de Receita e Despesa da Câmara de 1597-98.

A Vereação tem que reunir fora do seu local habitual, a Torre de Almedina, pois há pessoas contaminadas nas casas em volta da torre, e isso levará a um conflito entre os vários elementos da vereação: os vereadores, que defendem reunir fora da torre, e assim o fazem e reúnem, e o procurador da cidade e os procuradores dos mesteres, apoiados pelo juiz de fora, que defendem que a reunião deverá ser realizada fora, enquanto se verificar a perigosidade, mas que depois deverá ser retomada, na cidade, na torre. Há também queixas contra o provedor da saúde, Brás Nunes de Mascarenhas, que reside fora da cidade, na sua quinta em Eiras, e que acusam de não vir à cidade resolver os problemas da população.

Livro dos Acordo e Vereações ... 1598-1599.png

Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1598 (Dezembro, 30) até 1599 (Novembro, 3)

Este livro, Livro dos Acordos e Vereações de Coimbra do ano 1598-1599 regista logo na primeira folha, “Livro do que se fez no anno do mal de peste, que Deus nos Livre” que escolhemos para título desta exposição e regista várias medidas que a cidade de Coimbra toma, para enfrentar uma grave epidemia, que obrigará à saída da Vereação, para fora da Torre de Almedina, “casas da Camara della”, reunindo na outra margem, no Convento de São Francisco, [fl. 53v-54] e noutros locais, que os assentos de reunião mencionam: São Marçal, junto ao Mosteiro de S. Jorge, e Paços de D. João Coutinho, em Pé de Cão.

AHMC/Vereações, n.º 37, 1598-159. Transcrição

[fl. 53v] Aos vimte e sinquo dias do mes de Abrill de noventa e nove annos nesta cidade de Coimbra e no Mosteiro de S. Francisco, que estaa situado no cabo da pomte della [...], aomde forão jumtos  Fernão Soares Paes e Francisco Rezemde, vereadores e Vicemte Caldeira de Brito, vreador do Corpo da Univercidade e Alvaro de Faria, procurador geral da cidade e Francisco Fernandez, procurador dos Vimte e quatro, […] o qual ajumtamento se fez na dita casa de S. Francisco por a cidade estar empedida do mal de peste, de que Deus nos livre, e asi a Tore da Vreação, por respeito de alguns dos [fl. 54] officiaes que assistião na dita camara estarem feridos na casa da saude e empedidos e serem mortas pesoas de suas casas e por quamto a cidade estaa tam apodorada deste mal em toda ella que parecia mais timiridade, que bom governo aver jumta e ouvir partes e despachar pittições, primcipalmente não avemdo ja gemte na cidade, que não seja empedida e pouquo em que prover, tirando guardas das portas da cidade e mantimentos, o que por ora estaa provido e ao diamte se provera milhor, pellos officiaes da dita camara, estamdo fora do que se pudera fazer assistindo a camara na cidade, pello que, comformando se com os custumes amtigos [fl. 54v] da cidade, asemtarão e acordarão que vistos os imconvinientes e estado do tempo, que cada ves vay crescendo em pior, se ajumtasem, em cada somana, quarta feira no lugar de Condeixa a nova, por ser lugar acomodado e mais nobre de todos os do termo da cidade e por nelle se fazer amtiguamente jaa, por outro tal tempo como este, camara no dito lugar, com declaração que a primeira jumta que se fizer no dito lugar de Condeixa sera a primeira quarta feira que vem em doze de Maio, por que neste tempo ja deve ser vimdo resposta e ordem de Sua Magestade, no provimento das justiças como convem ao governo da cidade e na forma em que temos avizado a Sua Magestade, […].

Assinaturas da Vereação, em exercício, em Abril de 1599

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 1.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 2.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 3.pn

Mosteiro de S. Fancisco da Ponte.png

Mosteiro de Sâo Francisco da ponte. Local onde a Câmara de Coimbra reúne durante o período de peste em 1599. Grav. Coimbra séc. XVIII, Estampas Coimbrãs, Coimbra, 1964, vol. 1, n.º 7

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Cerca de Santana. Fora da Porta do Castelo, local onde ficariam os pobres, para receberem as esmolas e o sustento que a cidade providenciaria durante a peste de 1599.Grav. Coimbra séc. XIX, Estampas Coimbrãs, Coimbra, 1964, vol. 1, n.º 24.

 

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 10:20

Terça-feira, 01.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 1

Numa longa cronologia que definimos do século XIV ao XIX, constatamos vários surtos epidémicos, de diferentes patologias. Ressaltam os mais violentos de peste bubónica e propagam-se de umas zonas para outras, através das rotas comerciais.

O surto mais violento, largamente documentado, chega à Europa em 1348, através de Itália e tem origem no Oriente. Afetará também, Portugal e Coimbra.

No século XV, em Portugal, as pestes estão associadas às guerras e conquistas no Norte de África, concretamente à conquista de Ceuta, em 1415.

No século XVI serão os contatos comerciais a trazer a peste a Lisboa, e Porto. Os séculos XVII, XVIII e XIX trarão outras epidemias: a febre amarela, a cólera, a varíola. O último surto de peste bubónica, atingirá Portugal, em1899.

Ao longo dos séculos constata-se também que estes surtos epidémicos aparecem associados a “alterações climáticas”, diríamos hoje: cheias, secas, tendo como consequência maus anos agrícolas, fomes, e grande mortalidade exigindo dos governantes várias medidas de recuperação económica, consubstanciadas em vária legislação de que é um exemplo a “Lei das Sesmarias”, em 1375, obrigando ao cultivo dos campos incultos e abandonados e tentando impedir a fuga do campesinato para as cidades, em busca de melhores condições de vida.

A epidemia de 1569

… O Dr. António de Oliveira, nosso professor de saudosa memória, a quem prestamos aqui a nossa sentida homenagem, na sua tese de doutoramento sobre Coimbra, no século XVI, apresenta a evolução da população, a partir da análise dos Registos de Baptismo e Óbito, nas várias paróquias de Coimbra, entre 1545 e 1640. É notório o pico de mortalidade devido às epidemias, em 1569 e 1599-1600 e a consequente baixa da natalidade.

Captura de ecrã 2021-05-27 202812.png

No reinado de D. Sebastião há um surto de peste em Lisboa, em Janeiro de 1569, que se vai espalhando por outros locais do reino.

Em Coimbra têm conhecimento da situação e vão tomar diversas medidas, a partir de Julho, para defender a cidade: nomeiam um guarda-mor, encerram as portas da cidade, estabelecem o isolamento “degredo”, para os que vêm de locais infectados na zona de Vila Franca.

AHMC. Livro dos Acordos e Vereções da Câmara de

Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1569. (Fevereiro, 12 até -Dezembro, 29).1569, Julho, 20, Vereação [fl. 90]

 […] - E logo na dita camara asemtarão que todalas pesoas que vyerem a guarda dos lugares empedidos e quiserem emtrar nesta cydade sendo lhe duvidada pello guarda moor se va por nos olivaeis de vila Framqua, ao longo do rio pasando pelo vao, a quinta d’ Ambrosyo de Saa, e não comunyquarão com pessoa algua da terra somente tomarão seu comer pelo regimento que lhe der o guarda moor, omde estarão em degredo os dias que lhe for manda[do] pelo guarda moor, que conheser de suas sertidões a soalhamdo seu fato e pessoas cada dia.

- E neste tempo que emtrarem em seu degredo o farão serto, digo, a saber a Gonçalo Afomso, morador na Copeira e asy quamdo hacabarem so pena de dous mil rs, e hum ano de degredo semdo achados que não cumpram estes mandados, a metade pera os tapumes desta cidade e a outra pera quem os acusar,

- E asy mais asemtarão que toda a pessoa que for achada pasar e sobyr pellos tapumes que estam pera guarda destes ares maos paguara mil rs, as pessoas que [fl. 90v] sem licença e os moços que amdarem sobymdo e destapando cem rs, a metade pera os tapumes da cidade e a outra pera quem os acusar,

… [fl. 93v] Aos trimta dias do mes de Julho de mil quinhentos e sesemta e nove em camara foy mandado a Bras Foreyro, que por constar vir de terras empedidas destes ares maoos de peste de que Noso Señor nos livre, que elle estevese em degredo, na sua quinta sem sair fora della a comunicar nem falar das suas janelas com pessoa nenhua, so pena de semdo achado fora a falar com nyngem so licença do guarda moor, pagar cem cruzados, hua parte pera a cidade e a outra pera os tapumes da dita cidade, e outra pera quem o acusar […]

… [fl. 149v] - Aos sete dias do mes de Dezembro de mil e quinhentos e sesemta e nove deu sua fee Pero Fernandez como apregoara pelos lugares pubricos que nenhua pessoa de qualquer calidade que seja joge a bola nos olivaeis e cemsiraeis d’alem da pomte,

Gravura do jogo de Calcio 2.png

Gravura do Jogo de Calcio, Florença séc. XVII. Pietro di Lorenzo Bini (ed.), Memorie del calcio fiorentino tratte da diverse scritture e dedicate all'altezze serenissime di Ferdinando Principe di Toscana e Violante Beatrice di Baviera, Firenze, Stamperia di S.A.S. alla Condotta [1688] https://pt.wikipedia.org/wiki/Calcio_Storico#/media/Ficheiro:Calcio_fiorentino_1688.jpg

nem va a pescar da Lapa dos Esteos ate o Almege, nem a jogar a bareyra soma de dous mil rs, a metade pera os tapumes desta cidade e a outra pera quem os acusar, e asy pelo dito modo que nenhua pesoa joge bola nem bareyra no Arnado, des a pomte ate a Fontoura nem pesque fora dos tapumes da cidade, sob a dita pena e asy pelo dyto modo das cousas segimtes, da porta do Castello ate Aregaça, sob a dita pena, como foy acordado em camara e asynou aquy o dito Pero Fernandez, porteyro. João Gonçalvez de Sequeira, o sprevi. […]

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 1.pn

 

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 2.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 3.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 4.pn

 

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 10:44

Terça-feira, 11.05.21

Coimbra: Comedia Sobre a Devisa da Cidade de Coimbra 5

GIL VICENTE E O SIMBOLISMO DAS ARMAS DE COIMBRA [Conclusão]

A existência da representação da serpe nas armas de Coimbra pode permitir que se teçam alguns comentários sobre outras possibilidades de enredo da peça que Gil Vicente não aproveitou na sua narração. Este móvel está documentada desde a Idade Média nas representações plásticas das armas daquela cidade e é ilustrado no frontispício da obra de Inácio de Morais - Conimbricae encomiu[m].

Figura 15 – Serpe, detalhe das armas de Coimbra.

Figura 15 – Serpe, detalhe das armas de Coimbra. Frontispício da obra de Inácio de Morais (Morais, 1554, frontispício)

... Para a ação da peça há uma personagem fulcral, o terrível Monderigón, que, de acordo com o argumento, motiva as armas, mas estranhamente, apesar da sua importância não surge representada nas mesmas. Curiosamente, trata-se de uma personagem que é descrita mais do que uma vez como um dragão. Logo no início da peça o Lavrador refere-se-lhe dizendo que "(...) Dios / (...) consentió que un dragón / me hiciese viudo della" e mais tarde Liberata evidencia-o dizendo: "Sois drago y habláis humano." Tratando-se de um dragão, bem que poderia ser representado por uma serpe alada, algo que, estranhamente, não foi aproveitado por Gil Vicente ao ficcionar estas armas e que poderia ser facilmente feito. A confusão entre estes dois animais fantásticos na Heráldica é, aliás, demonstrada na leitura simbólica das próprias armas nacionais, que a tal se prestam pelo seu timbre, descrito por uns como uma serpe e por outros como um dragão,

Figura 16 — Timbre do brasão-de-armas do rei de

Figura 16 — Timbre do brasão-de-armas do rei de Portugal. Detalhe de iluminura do armorial de António Godinho Livro da nobreza e perfeição das armas dos reis christãos e nobres linhagens dos reinos e senhorios de Portugal (Godinho, 1521-1541, f. 69

CONCLUSÃO

Relativamente à matéria heráldica, considera-se que, até ao presente, nenhuma das explicações para as armas de Coimbra é devidamente fundamentada e esclarecedora.

Perante o fantasioso texto vicentino pode-se concluir que o conhecimento do simbolismo das armas adotadas por Coimbra já se havia perdido no início do século XV.

Assim, o presente texto, parte ínfima de uma muito mais vasta pesquisa, limitou-se ao levantamento e evolução das armas de Coimbra e a fazer uma crítica à interpretação vicentina das mesmas. Considera-se que a leitura simbólica da heráldica da cidade de Coimbra deverá ser buscada na iconografia medieval. Assim, a pesquisa será continuada com o levantamento das outras explicações aduzidas para as armas da cidade e levará certamente a uma proposta de releitura simbólica das mesmas. Mas por agora, para terminar, sejam usadas as palavras com que mestre Gil encerra a Comédia da Devisa da Cidade de Coimbra: "E assi fenece esta comédia, saindo-se com sua música. / Laus Deo."

Fig. 18 – Final da comedia sobre a devisa.jpg

Fig. 18 – Final da comedia sobre a devisa da cidade de coimbra (Vicente, 1562, f. 113v.)

Alexandre, P.M. Uma patranha heráldico-genealógica de Gil Vicente: «A comedia sobre a devisa da cidade de coimbra» e o brasão-de-armas de Coimbra. In: Alicerces. Revista de Investigação, Ciência Tecnologia e Arte. Ano VI, n.º 6. 2016, julho. Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa. Pg. 65-88. Acedido em https://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/8644/1/revista_alicerces6_2016_pv.pdf.

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por Rodrigues Costa às 16:51

Terça-feira, 04.05.21

Coimbra: Comedia Sobre a Devisa da Cidade de Coimbra 4

GIL VICENTE E O SIMBOLISMO DAS ARMAS DE COIMBRA [Cont.]

O leão

O ataque do Leão a Monderigón é a justificação vicentina para o aparecimento deste importante animal heráldico no brasão da cidade de Coimbra3. Há várias possibilidades de leituras simbólicas para o leão em termos heráldicos e não só, normalmente bem diversas da proposta vicentina. Este pode representar simultaneamente o mal e a sua destruição, nomeadamente em toda a tradição cristã, onde é muitas vezes associado a Cristo, pelo Leão de Judá que venceu para abrir o livro e os sete selos. O marquês de Abrantes afirma que "O leão pode ser considerado o segundo mais importante elemento do bestiário heráldico medieval, logo depois da águia, tão vulgarmente ele nos surge dominando conjuntos heráldicos dessa época."  Pastoreau contrapõe e prova que este animal é o animal mais representado nos escudos de armas. Apesar de ser um móvel fundamental para a compreensão do brasão de Coimbra, o dramaturgo atribui-lhe um papel menoríssimo, uma figuração, certamente desempenhada por algum acetor que já tinha um outro papel, limitando-se este a ocorrer a Celipôncio quando este o chama para o ajudar na luta contra Monderigón, matando-o.

No fim fará parte do tableau vivant que dá a ver ao público o brasão da cidade.

Figura 9 - Detalhe das armas do Brasão de Coimbra

Figura 9 - Leão, detalhe das armas da cidade de Coimbra que figuram na sala dos reis no palácio da Regaleira, Sintra. Fotografia de Paulo Morais-Alexandre

A serpente que é uma serpe ou a serpe que é uma serpente

Os dicionários de português não estabelecem a diferença entre "serpe" e serpente" … Bluteau descreve da seguinte forma este animal do reino dos répteis: "SERPENTE. Animal sem pés, ou com eles muyto pequenos a modo de lagarticha. He comprido, roliço, anda de rasto, & se enrosca", nada referindo das suas características enquanto animal heráldico. Gil Vicente no texto em escrutínio usa quatro vezes o termo "serpe" e apenas uma o termo "serpente", podendo-se depreender que os usa como sinónimos. Em Heráldica trata-se de figuras completamente diversas, como o estabelece A. de Mattos no "Vocabulário Heráldico", pelo que se pode afirmar que mestre Gil faz confusão entre dois animais heráldicos bem diversos, um que faz parte do reino animal, um réptil, a serpente e uma figura fantástica que é a serpe, sendo a sua representação inconfundível. Não terá sido, no entanto, este dramaturgo o único a fazer esta confusão, tal sucede na Heráldica em geral e até na representação das armas de Coimbra em particular, algo que se espelha na sua própria evolução do brasão de armas desta cidade. Na forma que depois viria a ser consagrada, desde a representação medieval no arco do Almedina, até à ilustração do foral, é maioritariamente representada a serpe, embora existam, pelo menos, duas pedras-de-armas onde surge representada uma serpente.

Figura 10 — Pedra-de-armas com a heráldica de C

Figura 10 — Pedra-de-armas com a heráldica de Coimbra pertencente ao Arquivo Histórico Municipal / Torre de Almedina, Coimbra. Publicada por Mário Nunes (Nunes, 2003, p. 141)

Figura 11 — Detalhe de pedra-de-armas.jpg

Figura 11 — Detalhe de pedra-de-armas com a heráldica de Coimbra pertencente ao Museu Nacional Machado de Castro de Coimbra. Publicada por Málio Nunes (Nunes, 2003, p 57)

A razão das representações acima citadas pode ser justificada por ignorância do canteiro, embora haja antecedentes que o possam justificar, nomeadamente na sigilografia e na própria escultura. Duas das mais antigas representações relacionadas com as armas de Coimbra estão implantadas no arco de Almedina. Trata-se de duas pedras, a da esquerda com uma serpente ondulada em faixa voltada à sinistra, a da direita com um leão passante voltado à dextra.

Figura 12 - Pedra com escultura de Serpente.JPG

Figura 12 - Pedra com escultura de Serpente implantada no Arco de Almedina, Coimbra. Publicada por Sidónio Simões (Simões, 2012, p. 34)

Figura 13 - Pedra com escultura de Leão passante.

Figura 13 - Pedra com escultura de Leão passante implantada no Arco de Almedina, Coimbra. Publicada por Sidónio Simões (Simões, 2012, p. 34)

 Não estão datadas mas serão certamente anteriores aos já referidos escudos que estão na mesma parede. visibilidade, isto é, a sua transcrição para uma forma plástica.

A serpente aparece também na sigilografia medieval de Coimbra, nomeadamente em dois selos que o marquês de Abrantes publicou no seu importante estudo Sigilografia Medieval Portuguesa. É exatamente desta matriz que será gravado um terceiro selo, datado de cerca de um século depois, que entre outros, regista a aclamação de D. João I em Coimbra no ano de 1385 e que Ribeiro Christino reproduziu.

 

Figura 14 - Desenho de Christino da Silva reproduz

Figura 14 - Desenho de Christino da Silva reproduzindo um selo usado pelo concelho de Coimbra, datado de 1385. Publicado por Augusto Mendes Simões de Castro (A. S. Castro, 1895, p. 598)

Alexandre, P.M. Uma patranha heráldico-genealógica de Gil Vicente: «A comedia sobre a devisa da cidade de coimbra» e o brasão-de-armas de Coimbra. In: Alicerces. Revista de Investigação, Ciência Tecnologia e Arte. Ano VI, n.º 6. 2016, julho. Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa. Pg. 65-88. Acedido em https://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/8644/1/revista_alicerces6_2016_pv.pdf.

 

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por Rodrigues Costa às 16:22

Terça-feira, 27.04.21

Coimbra: Comedia Sobre a Devisa da Cidade de Coimbra 3

GIL VICENTE E O SIMBOLISMO DAS ARMAS DE COIMBRA [Cont.]

A proposta de leitura das armas

A acção serve para Gil Vicente avançar com uma proposta de significado do brasão de Coimbra sendo a recriação deste, verdadeiro tableau vivant, encenada no final da peça e indicada em didascália, ficando expressa da seguinte forma: "Entra Colimena e suas damas com seus irmãos com grande aparato de música, e a serpe e leão acompanhando a dita princesa."  Será então que o narrador, descrito como o “Peregrino do Argumento", se dirige a Colimena para lhe dar a deixa que permitirá a esta justificar o brasão de Coimbra, dizendo-lhe: "Venha a mui alta princesa serena / e diga contando sua anteguidade." Colimena dirá que é com base na sua história que tomou armas que depois foram as da cidade de Coimbra: "Eu assentei aqui esta cidade / e eu sou Coimbra e vem de Colimena. / Tomei por devisa aqueste leão/ e aquesta serpe por que fui livrada / o cales do meo é cousa errada / porque há de ser torre com ua prisão."  Relativamente ao brasão são pois avançadas explicações para a mulher saínte, para o cálice/fonte/torre, bem como para o leão e para a serpente, através de três personagens e um adereço.

A princesa Colimena

A explicação vicentina para a figura central das armas de Coimbra (fig. 6) deriva da história da personagem Colimena. É princesa por ser filha do rei Ceridón de Córdova e Andaluzia que surge em cena disfarçado de Ermitão. Foi feita cativa pelo gigante Monderigon e encerrada numa torre, em conjunto com seu irmão Melidónio, quatro donzelas e seus quatro irmãos passando graves tormentos na prisão. É descrita pelo pai como "doce serena". No cativeiro é obrigada a cantar continuamente pelo gigante e infeliz chora. Celipôncio que ao caçar se acerca do castelo onde está aprisionada vê pela primeira vez Colimena: "Ella sale a una ventana / yo mírola de un penar"  e de imediato se apaixona por ela, o que narra a sua irmã: "Sábete que amor me mata", ficando determinado em matar Monderigón que a tem cativa, o que é feito por intermédio de uma Serpe e de um Leão que o haviam atacado, mas que conquistou através da lisonja, de tal forma que se gaba que estes "(...) tomáronme amor tal / que no me pueden dexar." permitindo-se, pois, domar por Celipôncio. Serão estes dois animais que, convocados com o chamamento da sua buzina de caça, matarão Mondérigon salvando Colimena da tirania deste. Quer a Serpe, quer o Leão, são personagens sem fala que apenas surgem em duas cenas, sempre juntos, presumindo-se que seriam interpretados por actores/figurantes disfarçados de animais.

Figura 6 — Princesa saínte, detalhe das armas d

Figura 6 — Princesa saínte, detalhe das armas da cidade de Coimbra que figuram numa pedra-de-armas existente na fachada da Câmara Municipal de Coimbra, Coimbra. Publicada por Mário Nunes (Nunes, 2003, p. 87)

A torre que é um cálice ou uma fonte

No final da peça o autor, Gil Vicente, permite-se fazer uma alteração às armas da cidade ao substituir o Cálice que consta das mesmas por uma Torre. O texto vicentino não tem qualquer indicação se o que deverá surgir em palco será a heráldica que estavam em vigor, ou seja, as armas que constavam do foral atribuído poucos anos antes pelo rei D. Manuel I à cidade em 4 de Agosto de 1516, com uma mulher saínte de um cálice ou antes um brasão reformulado de acordo com a fala de Colimena, com esta saínte da Torre onde estivera aprisionada: "o cales do meo é cousa errada/ porque há de ser torre com ua prisão."

Figura 7 — Cálice ou fonte, detalhe da iluminur

Figura 7 — Cálice ou fonte, detalhe da iluminura das armas de Coimbra do Foral de Coimbra (1516)

Não se encontrou qualquer fundamento para esta alteração que não a fantasiosa justificação da história criada por Gil Vicente. Através da esfragística é possível comprovar que, mesmo em período anterior à definição da composição das armas a que Gil Vicente se refere e que é muito aproximada da actual, sempre foi representado um recipiente e não uma torre. Registe-se ainda que a afirmação que a mulher saínte o deveria ser de uma torre e não de um cálice viria também a ser aventada por frei Bernardo de Brito. De igual forma não ficou, neste particular, qualquer registo relativo à encenação do texto vicentino realizada perante D. João III e à referida recriação viva das armas da cidade, não sendo dada qualquer indicação da forma como este objeto foi cenografado. Pensa-se que este móvel heráldico, a torre, na encenação fosse um mero adereço cénico, não se crendo que fosse possível ser "vestida" por um ator, concordando-se com a proposta de reconstituição de Osório Mateus que refere a entrada na sala de "(...) um artefacto móvel que representa uma torre com uma janela (uma prisão)."

Alexandre, P.M. Uma patranha heráldico-genealógica de Gil Vicente: «A comedia sobre a devisa da cidade de coimbra» e o brasão-de-armas de Coimbra. In: Alicerces. Revista de Investigação, Ciência Tecnologia e Arte. Ano VI, n.º 6. 2016, julho. Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa. Pg. 65-88. Acedido em https://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/8644/1/revista_alicerces6_2016_pv.pdf.

 

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por Rodrigues Costa às 19:49

Terça-feira, 20.04.21

Coimbra: Comedia Sobre a Devisa da Cidade de Coimbra 2

I - DAS ARMAS DA CIDADE DE COIMBRA [Cont.]

As modificações posteriores seriam meramente ao nível cromático e dos ornatos exteriores do escudo, nomeadamente no que ao coronel e mais tarde à condecoração diz respeito, sendo estas as armas iluminadas pelo Rei de Armas Índia, F. Coelho no Thesouro da Nobreza e publicadas na obra de l. de V. Barbosa - As cidades e Villas da monarquia portugueza que têm brasão de armas, e vigorariam até à fixação das armas pela Portaria n.º 6959 de 14 de Novembro de 1930. Seria este diploma legal que produziria incompreensivelmente as maiores modificações nas armas desde a sua origem, ao introduzir dois escudetes de Portugal antigo em chefe e ao alterar a relação da figura feminina com o cálice, modificando ainda os esmaltes nomeadamente ao dotar a taça de ouro de um incompreensível e inexplicável realçado de púrpura.

Figura 3 - Armas da cidade de Coimbra.JPG

Figura 3 - Armas da cidade de Coimbra. Iluminura do armorial de Francisco Coelho (1675, f. 11)

Figura 4 — Armas da cidade de Coimbra.jpg

Figura 4 — Armas da cidade de Coimbra. Publicadas por Inácio de Vilhena Barbosa (1860, s.p.)

Figura 5 – Armas da Cidade de Coimbra.JPG

Figura 5 – Armas da Cidade de Coimbra de acordo com a Portaria n.º 6959 (1930, P. 2031)

GIL VICENTE E O SIMBOLISMO DAS ARMAS DE COIMBRA

Estado da questão

F. de S. A. de Azevedo na coluna que assinava no boletim do Instituto Português de Heráldica, titulada de "Meditações Heráldicas", dedica a décima sétima dessas meditações a esta peça num pequeno artigo que designou por "Gil Vicente heraldista, breves apontamentos", estudo este que seria posteriormente citado pelo marquês de Abrantes em "O Selo Medieval de Coimbra e o seu Simbolismo Esotérico". S. A. de Azevedo limita-se a deixar registado o que é avançado por Vicente, havendo a registar algo de muito relevante no artigo em apreço, quando o investigador chama a atenção para um aspeto que os diversos textos relativos à peça normalmente parecem omitir e que se reporta à questão da própria dramaturgia e encenação, quando refere que o final da comédia passa pela recriação em palco das armas da cidade de Coimbra, um momento protagonizado por atores com recurso à cenografia e adereços relativamente raro e muito interessante em termos heráldicos.

M. Nunes fez um levantamento de imagens das armas da cidade de Coimbra limitando-se a fazer uma síntese do argumento da peça e cita a fala de Colimena onde esta descreve o brasão.

A. Clemente que explora o parentesco entre a emblemática e a "mascarada cortesã" refere, quanto à questão heráldica, que Vicente foi instaurador ao ter-se adiantado relativamente ao que era feito em outros países já que criou textos teatrais a partir de armas.

… Mateus, que estudou aprofundadamente a peça, na obra Devisa refere justamente o que a peça é: "(...) uma história cavaleiresca inventada, mas que finge existir antes," sendo dos poucos que analisa e propõe uma reconstituição da encenação vicentina em Coimbra, nomeadamente da última cena em que é recriado o brasão-de-armas da cidade.

A. P. de Castro no texto sob o título de "A "Comédia sobre a divisa da cidade de Coimbra", relativamente à matéria heráldica, limita-se a fazer uma síntese de algumas das leituras simbólicas das armas de Coimbra. [Em nota de rodapé é acrescentado que relativamente a frei Bernardo de Brito que "(.. .) aduzindo documentos naturalmente fictícios, do cartário do Mosteiro de Alcobaça, conta na Monarquia Lusitana como Ataces, rei dos Suevos, ganhara Coimbra”].

Mais recentemente Sales Machado em “A Imagem do Teatro” aborda esta peça, mas, estranhamente, jamais analisa a relação do texto com a realização plástica da heráldica conimbricense. Sales Machado por um lado cita, mas posteriormente escamoteia uma muito importante ligação entre as artes visuais e a encenação vicentina ao não dar a importância devida à representação heráldica.

Por fim, P. M. M. Faria refere que "Quem une, portanto, os textos Divisa e Nau, é o móbil da sua criação intrínseco na sua função celebrativa, numa altura privilegiada para a corte exibir e consolidar o seu status mundi, perante si mesma e perante o mundo."

 

Alexandre, P.M. Uma patranha heráldico-genealógica de Gil Vicente: «A comedia sobre a devisa da cidade de coimbra» e o brasão-de-armas de Coimbra. In: Alicerces. Revista de Investigação, Ciência Tecnologia e Arte. Ano VI, n.º 6. 2016, julho. Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa. Pg. 65-88. Acedido em https://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/8644/1/revista_alicerces6_2016_pv.pdf.

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por Rodrigues Costa às 10:24


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