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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 30.11.21

Coimbra: Feira dos Estudantes

A existência de uma Feira dos Estudantes está documentada desde os primórdios da instalação da Universidade em Coimbra. Os Estatutos da Universidade, de 1597, referem-se a uma “feira franca que se faz na praça dos estudantes”. O lugar que adquiriu o seu próprio nome – Feira dos Estudantes – no séc. XVI, ainda hoje existe, no largo frente à Sé Nova de Coimbra.

Sé Nova e feira dos estudantes.jpg

Fig. 3 – Foto da Feira dos Estudantes datada de década de 70, do séc. XIX (col. Alexandre Ramires).In: Passado ao Espelho. Máquinas e imagens das vésperas e primórdios da Photographia.

Felizmente, sobreviveu no tempo um volume dos almotacés da feira, com o preço dos géneros ali vendidos (1796-1809). Os almotacés eram sempre doutores ou graduados na Universidade, que eram eleitos para o cargo, para taxarem os preços dos produtos vendidos e verificarem a qualidade dos mesmos.

É esse volume que podemos consultar, para conhecer o que a Natureza produzia ao longo das diversas estações do ano e que géneros alimentares existiam na feira, sejam os legumes, as frutas ou mesmo o peixe.

Assim, em maio e junho de 1804 (Fig. 1) podemos ver o registo dos preços das ervilhas (tortas e direitas), as favas, o feijão verde, mas também o ruivo, a pescada, o cação, a tainha, a raia, a sardinha, o robalo, as enguias, etc. Entre maio e julho, surge sempre o registo das cerejas, cuja produção, na estação própria, certamente trazia à feira o fruto tão saboroso, havendo também a designação de “cereja preta”.

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Fig. 1 - Registo dos produtos almotaçados na feira dos Estudantes, de 23 de maio a 19 de junho de 1804

 Os adágios populares espelham bem esse devir do tempo e a passagem dos meses e estações do ano, como o que escolhemos para introduzir um exemplo dos alimentos nos meses de final de ano: em novembro, prova o vinho e semeia o cebolinho.

Feira dos Estudantes IV-1-¬E-8-4-53_fl_96v_97.jpg

Fig. 2 – Registo dos produtos almotaçados na feira dos Estudantes, de 29 de novembro a 13 de dezembro de 1803

A informação sobre a venda, em 29 de novembro de 1804, de “penduras de uvas brancas” também identificadas como “uvas de dependura”, diz respeito às uvas que, fora da estação própria, depois da vindima, se podiam conservar, dependuradas, para se consumirem nos meses de setembro a dezembro. Assim como se referem as “uvas secas” ou passas de uvas. Quanto a outra fruta, saboreavam-se as “maçãs doces da Beira” e a “fruta doce da Beira” (v. dias 29 de novembro e 13 de dezembro de 1803). Também a castanha, fora da sua estação, se poderia consumir seca. E aí está, a designação “castanha longal seca”, tal como a castanha rebordã e a castanha longal, vendidas em abril ou em junho, certamente com outras formas de conservação.

Os testemunhos dos hábitos alimentares da população estudantil, e de todos os docentes e funcionários da Universidade que poderiam abastecer-se na feira, são um interessante tema de estudo, existindo, felizmente, estas fontes documentais que atestam a diversidade de produtos, em cada estação.

Os queijo e paios do Alentejo, esses não respeitam qualquer estação e, pela sua qualidade, estão presentes ao longo do ano, com registos de preços, desde 1796, sem tirarem o lugar aos “queijos do Sabugueiro”, pela forma como, repetidamente, surgem registados.

Bandeira, A. M. Estações. Maio pardo e ventoso faz o ano farto e formoso. Acedido em Acedido em https://www.uc.pt/cultura/estacoes/maiopardo/

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por Rodrigues Costa às 10:02

Quinta-feira, 25.11.21

Coimbra: Aclamação de D. António como rei de Portugal 2

Logo que chegou a Coimbra a notícia da aclamação de D. António em Santarém, [segundo alguns autores em 19 de junho de 1580] a cidade anotinou-se, procurando proclamar o novo rei. O movimento não foi avante, por oposição do capitão-geral nomeado pelos governadores do reino, de nome Pero Guedes.

… A noticia da adesão de Setúbal, ou a própria ordem para a cidade o aclamar, chegou a Coimbra no dia 30 de junho, pelas ave-marias. De imediato, o povo manifestou-se na rua, obrigando a câmara municipal a decidir-se. Com efeito, a novidade foi anunciada à cidade pelo festivo repicar dos sinos, seguindo-se a convocatória dos populares dentro de um simbolismo de cerimónia de aclamação régia através da materialização possível. Um meirinho do corregedor, montado a cavalo e hasteando a bandeira do ofício dos oleiros, que um vizinho lhe havia cedido, começou a percorrer a cidade, dando vivas, em altas vozes, a D, António, rei de Portugal.

Seguiram-no grande parte da gente miúda, incluíndo mulheres. O alvoroço dirigiu-se para os Paços do Bispo, onde se encontrava o capitão-geral de Coimbra e comarcas, estando ao tempo presente o corregedor, certamente a ponderarem a nova situação. Contra as portas que entretanto foram fechadas, «atirararam os rapazes e mulheres tantas pedras que depois encheram duas carradas». Os homens, por sua vez, mobilizaram-se e, em número de 500, «bem armados de escopetas, bestas e outras armas» rondaram a cidade toda a noite. No dia seguinte, não obstante as ordens dadas pelo capitão-geral ao capitão da freguesia de Santiago, espaço populoso de mesteirais, para prender, com os seus homens, o cabeça do tumulto da vespera, os soldados convocados, que também eram povo, encaminharam-se para acâmara municipal, sendo eleito novo corregedor, dado o anterior ser partidário de Castela. A escolha acabou por recair no cidadão Acúrsio de Mascarenhas, «homem idiota e não letrado», na qualificação da narrativa que estamos a seguir. Corregedor que se teria depois dirigido a casa do conservador da Universidade para o prender, não obstante a intenção inicial de ser ele o novo corregedor, acabando o povo por atacar novamente as casas do capitão-geral, atuando «de noite, repicando os sinos e apelidando povo com muitos homens armados», obrigando-o a fugir da cidade e a recolher-se à proteção dos governadores do reino, estantes em Castro Marim.

D. António, rei de Portugal 2.jpg

D. António, rei de Portugal. Imagem acedida em: http://velhariasdoluis.blogspot.com/2019/01/d-antonio-prior-do-crato.html

A ação popular, que havia chamado a si o poder da justiça, elegendo  em nome do rei o corregedor, foi legitimada por uma reunião camarária datada de um de julho [de 1580], à qual estiveram presentes «cidadãos, mesteres e povo», seguida de uma assembleia que procedeu à aclamação formal de D. António

Reall, Real, por el Rei Nosso Señor Dom Antonio de Portugal

Decidimos acrescentar ao texto citado a transcrição – da responsablidade da Dr.ª Paula França – da parte essencial da ata da sessão de Câmara atrás referida.

Auto de aclamação de D. António, pregão.JPG

Pormenor de onde consta o pregão de aclamação Reall, Real, por el Rei Nosso Señor Dom Antonio de Portugal In: AHMC/Vereações nº 23, 1579-1585, fl. 127-131

Auto de aclamação de D. António, assinaturas 3-

Páginas com parte das asinaturas dos participantes na aclamação. In: AHMC/Vereações nº 23, 1579-1585, fl. 127-131

 [fl. 127v] Ao primeiro de Julho de oytenta anos em esta cidade de Coimbra e camara della onde estavão juntos os cidadãos e mesteres e povo juntos todos ao adiante asinados ha hi foi levado Francisco Cardoso conservador nesta Universidade ao quall por o licenciado Pero do Sovera l que servia de coregedor ser sospeito a este povo e lyberdade deste reyno de Portugal e se dizer [fl. 128] que favoresia as cousas de Castella em perjuizo de Portugal e fazer cousas com que estrovava nam querer dar ordem com que se enlegese o Señor Dom Antonio Rey de Portugal que estava aceytado e enleito em Lyxboa cabeça deste reyno e em Santarem e outras partes e este povo por desejar enleger rey e señor pera nos defender por quanto estava este Reino[fl. 128v] cerquado de inimigos, dygo de contrairos e muitos lugares e cidades deste reino ja tomadas dycerão que expedirão ao dito coregedor em nome de Sua Alteza e bem deste reino do dito carrego e asentarão que se lhes não obedeca, enlegerão logo em nome do dito señor Rey ao dyto conservador <Acursio Mascarenas> por Coregedor desta comarqua e lhe entregaram a vara do dito carrego de coregedor que lhe [fl. 129] meterão nas mãos que elle aceytou em nome de Sua Alteza e jurou aos Santos Evangelhos em que <elle > poos sua mao e disse ser obediente e de o reconhecer por Rei e Señor e por boom e leal vasalo e asi disse mais o povo que ontem a noite alevantarão e reconhecerão ao dito señor Rei alevantando ho por <Rei > o povo oje tornarão a Camara e alevantarão ao dito señor por Rei [fl. 129v] dizendo Reall, Real, por el Rei Nosso Señor Dom Antonio de Portugal, de que todo mandarão fazer este auto que asinaram e eu sprivão da camara jurei outrosi de obedecer  o dito señor e de reconhecer por Rei e señor e asi o jurou o povo e jurarão de lhe ser obedientes ao dito señor Rei, co [fl. 130] mo leales vasalos que tambem o jurarão aos Santos Evangelhos, digo eu enlegerão por coregedor o doutor Acursio Masquarenhas, e risquei onde dizia conservador, e o dito licenciado Francisco Cardoso aceitou a vara da mão do povo, em nome de Sua Alteza de seu officyo de conservador, que tambem asinou e isto [fl. 130v] dise ao povo que fazia por o capitão <Pero Gedes> ser contra a liberdade do povo.

AHMC/Vereações, n.º23, 1579-1585.

Oliveira, A. Movimentos Militares em Coimbra no Tempo da Realeza de D. António. (1580-1595). In: Pedaços de História Local. Vol. I. 2010. Coimbra, Palimagem, pg. 333-348

 

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por Rodrigues Costa às 09:48

Terça-feira, 23.11.21

Coimbra: Aclamação de D. António como rei de Portugal 1

«Las mas ciudades del Reyno obedecian à don Antonio, y à donde mas se celebrava su nombre era en Coimbra» (Cinco libros de Antonio de Herrera de la Historia de Portugal  […] Madrid. En casa Pedro Madrigal, 1591, fl. 01 v.)

António, filho ilegítimo do infante D. Luís, irmão de D. João III e filho segundo de D. Manuel, foi eleito rei de Portugal em Santarém no dia 19 de Junho de 1580, em circunstâncias bem conhecidas. Era então Prior do Crato, dignidade que pouco depois perdeu em favor do primeiro vice-rei de Portugal, e por ela ficou conhecido na historiografia portuguesa por lhe sido confiscada, tanto pelos reis filipinos como pela dinastia de Bragança, a imagem da sua realeza, pela qual lutou até à morte no exílio, ocorrida em 1595, e mesmo para além da morte, através da sucessão.

Como é sabido, D. António encabeçou a resistência do país à união de Castela, colocando-se à frente da força militar que procurou opor-se à conquista de Portugal por Filipe II … [este] foi forçado a movimentar o exército e a marinha … Sem este recurso às armas, como tem sido reconhecido, Filipe II, muito provavelmente não teria unido Portugal e Castela.

… Uma das cidades onde D. António tinha adeptos fervorosos, «onde mais se celebrou o seu nome», era Coimbra. Aqui, no Mosteiro de Santa Cruz, havia obtido os graus de bacharel, mestre e licenciado em Artes e recebido as ordens de subdíacono.

… Não admira, assim, que o Prior do Crato, lugar em que sucedeu à morte de seu pai, ocorrida em 27 de novembro de 1555, tivesse criado simpatias em Coimbra ao tempo do seu levantamento como rei, as quais se não manifestaram apenas dentro do Mosteiro de Santa Cruz, o qual, por sinal, lhe havia passado, em 2 de junho de 1558, carta de irmandade. Com efeito, uma boa maioria de professores  e estudantes da Universidade, para além de populares, estiveram a seu lado quando foi eleito rei. Já antes, em 1579, ao tempo dos conflitos de D. António com o cardeal e rei D. Henrique, seu tio, que em novembro deste ano o desnaturalizou e o mandou sair do reino, se havia refugiado em Coimbra, no Mosteiro de Santa Cruz.

D. António, rei de Portugal.jpgD. António, rei de Portugal. Imagem acedida em: https://www.google.com/search?q=d.+ant%C3%B3nio+prior+do+crato

 É perfeitamente credível que também por esta altura se tivessem prefigurado apoios, pelo menos à sua candidatura ao trono, havendo D. António procurado a simpatia dos estudantes.

Oliveira, A. Movimentos Militares em Coimbra no Tempo da Realeza de D. António. (1580-1595). In: Pedaços de História Local. Vol. I. 2010. Coimbra, Palimagem, pg. 333-348

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por Rodrigues Costa às 12:37

Terça-feira, 26.10.21

Coimbra: Descripcam e dubuxo do Moesteyro de Sancta Cruz de Coimbra

Prosseguindo na sua cruzada – porque é isso mesmo, uma cruzada em prol de Coimbra e da sua história – o Dr. Mário Araújo Torres acaba de editar com recolha de textos e notas suas, mais um volume do conjunto de livros esquecidos ou raros que ajudam à compreensão da nossa Cidade, no passado e no presente.

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Capa do livro

Na contracapa podemos ler.

Santa Cruz. Imagem de parte da contracapa.jpg

Imagem de parte da contracapa

 Na presente edição reproduz-se o único exemplar conhecido da «Descripcam e debuxo do Moesteyro de Sancta Cruz de Coimbra», impressa em 1541 nas oficinas tipográficas do próprio Mosteiro, atualmente conservado na «Greenlee Collection» da «Newberry Library» de Chicago, e procede-se à transcrição integral do opúsculo, com atualização da grafia.

Santa Cruz. Imagem da pg. 29.jpg

Imagem da pg. 29

Mas a obra ora publicada não se fica pela transcrição desta raridade bibliográfica, pois é enriquecida com os seguintes trabalhos em anexos.

Reproduzem-se os capítulos da «Crónica da Ordem dos Cónegos Regrantes do Patriarca Santo Agostinho» (1668), onde D. Nicolau de Santa Maria alegadamente reproduziu a «Descrição» de D. Francisco de Mendanha, com aditamentos sobre alterações entretanto ocorridas;

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Imagem da pg. 85

O estudo de Sousa Viterbo (1890) sobre a descoberta do opúsculo, com anexos documentais dos reinados de D. Manuel I e de D. João III; e extratos de manuscritos de Jerónimo Roman (1588), de D. José de Cristo (1622) e do Cartorário D. Vicente, sobre as novas obras no Mosteiro posteriores a 1540.

 Concluindo. O estudioso de Coimbra ou o simples amante das coisas com ela relacionadas, encontra reunido num só volume tudo o que foi escrito relacionado com a descrição do que era o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, nos séculos XVI e XVII.

Pelo meu lado, mais uma vez, o meu obrigado ao Dr. Mário Araújo Torres, pelo muito que está a fazer em prol da divulgação da história da nossa Cidade.

Rodrigues Costa

Mendanha, F. Descripcam e dubuxo do Moesteyro de Sancta Cruz de Coimbra. Reedição com recolha de textos e notas de Mário Araújo Torres. 2021. Lisboa. Edições Ex-Libris.

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por Rodrigues Costa às 10:18

Terça-feira, 13.07.21

Coimbra: O Púlpito de Santa Cruz 2

Apresenta-se com parapeito de quatro faces poligonais sobre base em forma de cone invertido. É revestido de finíssima decoração renascentista de candelabros, pequenos medalhões e outros motivos clássicos, tudo em delicado relevo à flor da pedra, mas os baldaquinos das figuras angulares são ainda de tradição gótica.

Pulpito de Santa Cruz 2.jpg

Púlpito de Santa Cruz

Nas quatro faces abrem-se elaborados nichos onde se sentam os quatro doutores da Igreja do Ocidente. São eles, começando do lado da entrada, Santo Ambrósio de Milão, mitrado, S. Jerónimo, com chapéu de cardeal e leão aos pés, S. Gregório Magno, com a tiara papal, todos ostentando um livro simbólico da sua sabedoria e dos seus escritos, e, por fim, Santo Agostinho segurando um templo nas mãos, como fundador da Ordem seguida em Santa Cruz.

S. Jerónimo, com chapéu de cardeal e leão aos pS. Jerónimo com chapéu de cardeal e leão aos pés

Nos ângulos dispõem-se dez figurinhas plenas de grande significado. Na linha inferior representam-se os quatro profetas maiores, Isaías, Joel, Ezequiel e Jeremias, tendo ao centro o rei David segurando a harpa. Nos pequenos nichos superiores aos profetas erguem-se cinco donairosas donzelas: as sibilas do mundo clássico que se cria, desde o concílio de Niceia em 325, terem prenunciado o nascimento, a paixão e morte e a ressurreição de Jesus. Foi tema dos humanistas renascentistas, no esforço de conciliar a sabedoria da Antiguidade com a doutrina cristã, tendo o seu exemplo máximo nas pinturas de Miguel Ângelo no teto da capela Sistina e, igualmente, a sua expressão neste púlpito. Identificamo-las como: Cumana ou Ciméria, Herófila ou Samiana, Pérsica ou Caldeia (a do centro, com a cruz), Délfica, e Helespôntica ou Troiana.

O cone invertido de sustentação do púlpito gera-se a partir da representação de um monstro alado fantástico, a hidra de Lerna, com suas sete cabeças de serpente que renasciam sempre que se lhe cortavam, mas morta por Hércules no seu segundo trabalho. Um pouco mais acima, cinco harpias, monstros imundos, raptoras de almas, com rosto de mulher, corpo de abutre e orelhas de urso. Esta zona agitada é o mundo do pecado, por demais simbolizado nas sete cabeças da hidra. A transição para a parte superior é feita por frisos de elementos clássicos, onde cinco querubins transmitem paz e tranquilidade.

o cone invertido de sustentação do púlpito.JPG

... o cone invertido de sustentação do púlpito

Nicolau Chanterene era, sem dúvida, homem culto e artista de génio, mas não poderia ter executado esta obra, de tão denso conteúdo iconográfico e teológico, onde o bem se sobrepõe ao mal, sem ter a aconselhá-lo os doutos cónegos crúzios. Infelizmente o tempo tem deixado as suas marcas bem notórias nesta obra prima da arte portuguesa e mesmo europeia.

Nelson Correia Borges

Borges, N.C. O Púlpito de Santa Cruz. In: Correio de Coimbra, n.º 4785, de 2020.05.07

 

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por Rodrigues Costa às 20:00

Terça-feira, 06.07.21

Coimbra: O Púlpito de Santa Cruz 1

Os púlpitos das nossas igrejas tornaram-se obsoletos com o advento da amplificação sonora e sobretudo depois do concílio Vaticano II, quando toda a ação litúrgica se centrou no altar da celebração. Foram substituídos pelo ambão, normalmente colocado à direita do altar, no lado outrora destinado ao Evangelho. Será difícil às novas gerações percecionar a função e utilidade que estava destinada a estas peças, sempre tratadas com muito esmero e muitas vezes expressão artística de alto merecimento. No pós-concílio, alguns púlpitos chegaram mesmo a ser retirados das igrejas, esquecendo que a sua presença de séculos é parte da história dos monumentos e das comunidades.

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Púlpito de Santa Cruz

As origens dos púlpitos podem procurar-se na civilização romana, de que somos herdeiros. Estavam presentes nos edifícios públicos e no foro como um local elevado, onde se situavam os oradores. Nas primitivas basílicas cristãs havia já uma tribuna semelhante ao ambão dos dias de hoje. Na segunda metade do século XIII, a atividade oratória de franciscanos e dominicanos levou à criação do púlpito como uma tribuna elevada, no centro da nave e por vezes com um dossel ou quebra-voz, para melhoria das condições acústicas, geralmente posicionado do lado do Evangelho. A partir do século XVI o púlpito ganha grande protagonismo no espaço interior das igrejas. Ali se fazia lembrar o louvor a Deus e o proveito espiritual das almas para a salvação eterna, em sermões inspirados, por vezes exuberantes e teatrais para que a mensagem chegasse a todos, pois grande parte da população era iletrada.

Em Santa Cruz de Coimbra o púlpito situou-se junto à desaparecida grade que separava o espaço conventual do espaço dos fiéis.

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o púlpito situou-se junto à desaparecida grade

 Ele é bem a expressão da sapiente cultura dos cónegos crúzios e da arte refinada de Nicolau Chanterene. O escultor francês Nicolau Chanterene fez uma passagem quase episódica por Coimbra. No mosteiro de Santa Cruz deixou o melhor da sua obra, na fachada, no claustro e no púlpito, executado em 1521, data descoberta pelo Pe. Nunes Pereira quando fazia desenhos de pormenores, publicados neste jornal em 1985.

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1521, data descoberta pelo Pe. Nunes Pereira

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Parte do púlpito onde em 1985 foi identificada a data da sua construção, ilegível passados 35 anos.

Borges, N.C. O Púlpito de Santa Cruz. In: Correio de Coimbra, n.º 4785, de 2020.05.07

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:21

Terça-feira, 22.06.21

Coimbra: “Elogio de Coimbra”

O Dr. Mário Araújo Torres juntou mais uma pedra, a sétima, ao monumento que, à sua custa, vem erguendo dedicado a obras relacionadas com Coimbra, todas elas deslembradas no tempo.

Agora coube a vez ao “Conimbricae Encomium” ou “Elogio de Coimbra”, publicado em 1554, da autoria de Inácio de Morais.

Elogio, capa corrigida.jpg

Capa do livro ora editado

O livro em causa, ora editado, não se remete a uma mera reprodução do texto inaciano, pois Mário Araújo Torres, após uma cuidada e vasta investigação, anexa um alargado conjunto de notas, passíveis de permitir não só enquadrar o escrito, mas também de facilitar ao leitor hodierno e sua compreensão. Além disso, insere a tradução do poema para português, feita por Alberto da Rocha Brito, e completa o volume com a apresentação de uma detalhada biografia e bibliografia relacionada com Inácio de Morais.

Na Nota Prévia, Araújo Torres, elucida-nos que Augusto Mendes Simões de Castro num artigo escrito para a revista “Instituto” havia referido ter adquirido “num leilão em Lisboa”…  “um livro muito interessante, que temos na conta dos de maior raridade, intitulado Conmbricae Encomium.

A convicção de que se trataria do único exemplar existente em Portugal, fundava-se em não ter achado tal obra nas Bibliotecas Nacional de Lisboa, da Universidade de Coimbra ou Municipal do Porto, nem nas boas livrarias de muito bibliógrafos que consultou, descobrindo apenas uma cópia manuscrita na Biblioteca Pública de Évora.

… O exemplar adquirido por Simões de Castro deve ser o que se encontra atualmente na Biblioteca Nacional de Portugal, único de que há registo nos catálogos disponíveis das bibliotecas portuguesas. 

Elogio, rosto.jpg

“Conimbricae Encomium”. 1544, rosto. Fl. 15

Elogio, dedicatória.jpg

“Conimbricae Encomium”. 1544, dedicatória. Fl. 16

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“Conimbricae Encomium”. 1544, página inicial. Fl. 17

Duas outras edições foram feitas do texto latino: a terceira, por Joaquim Alves de Sousa, em 1890; e a quarta por Mário Brandão, em 1938.

… “Encontram-se neste poema notícias curiosíssimas sobre a Coimbra do tempo de D. João III, quando este monarca transferiu para ali a Universidade então estabelecida em Lisboa. Referem-se vários usos e costumes da população académica, discente e docente, de alguns dos quais ainda hoje se conservam não poucos vestígios. Dá-se minuciosa informação das muitas casas religiosas de um e outro sexo ali existentes, de outros edifícios públicos notáveis e de alguns palácios de antigos fidalgos. Descreve-se a beleza dos horizontes, a salubridade dos ares, a fertilidade do solo, a amenidade dos arredores, a índole bondosa, pacífica e hospitaleira, e até a graça natural e folguedos populares dos habitantes da cidade ridente.

Da versão portuguesa apresentada no volume em apreço, de que Alberto da Rocha Brito é responsável, selecionamos um trecho que relata a lenda, mais uma, do brasão de Coimbra.

Elogio, rosto pormenor.jpg

Conimbricae Encomium. 1544, rosto, pormenor. Fl. 15

Em memória da sua Pirene ordenou aos conimbricenses que tivessem sempre na lembrança a sua história e um monumento da sua dor.

Por isso estão insculpidos nos muros urbanos as insígnias representando a urna, a coroa e o rosto da mutilada donzela, com a serpente de um lado e do outro o leão.  

Morais, I. Conimbricae Encomium. Elogio de Coimbra. Recolha dos textos e notas de Mário Araújo Torres. 2021. Lisboa, Edições Ex-Libris.

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por Rodrigues Costa às 20:35

Terça-feira, 15.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 3

As profissões ligadas à saúde, século XVI

. 1528, Agosto, 26, Coimbra. Registo da carta, passada a Catarina Fernandes, moradora em Coimbra, pelo físico-mor e cirurgião d’el rei, Doutor Mestre Gil, cavaleiro da Ordem de Cristo, para que ela possa “curar de boubas e chaguas per todos os reynos e señorios”, uma vez que a examinara e achara apta para o exercício dessa profissão, em 5 de Novembro de 1527.

Carta passada a Catarina Fernandes.png

AHMC/Registo, vol. 1, 1525-1538, fl. 38v-39

Transcrição

O doutor Mestre Gill, cavaleiro da Ordem de Christo e fisico d’ el Rey Nosso Señor e seu colorgião moor, faço saber aos que esta mynha carta virem e o quanto della pertencer, que eu dou lugar e licença a Caterina Fernandez, moradora na cidade de Coimbra, que ela posa curar de boubas e chaguas per todos os reynos e senorios do dito Señor, sem embarguo de quaesquer leix e hordenações que hy aja em comtrairo, porquanto eu a eixasameney e achey auta e sofeçiente pera poder usar e praticar das ditas enfermidades…

Traje e máscara para tratar doentes com peste.png

Traje e máscara para tratar doentes com peste. Séc. XVIII. http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/OBRAS/Ocidente/Ocidente_1889.htm

Notar a proteção dos olhos em cristal e o nariz coberto com um longo reservatório onde se colocavam perfumes. Grav. francesa da obra Traité de la Peste, de 1721, publicada O Occidente, Setembro, 1911.

. 1562, Agosto, 27, Lisboa. Registo da carta de cirurgião e sangrador, passada a Manuel Gonçalves, morador em Coimbra, pelo licenciado Gaspar da Costa, físico-mor e cirurgião d’el rei “para que elle possa sangrar e sarafar e tirar dentes, lançar ventosas, por todos estes reinos” uma vez que o examinara e achara apto para o exercício dessa profissão.

Anexo sem nome 00005.jpg

Carta de Cirurgião

 

Transcrição

[fl. 212] Carta de selorgiam a Manuel Gonçalvez

O licenciado Gaspar da Costa, fisico e selujião moor d’ell rey Nosso Señor, faço saber ha todollos señores juizes e justiças e outras quaesquer offiçialles a que esta mha carta for mostrada e o conto dela pertençer que eu dou lugar e liçença a Manuel Gonçalvez, morador na cidade de Coimbra, que elle possa sangrar e sarafar e tirar dentes lançar ventosas por todos estes reynos e cousas, por quanto examiney e achey auto e sofyçente pera usar do que dito he.

A sangria.png

La Saignée, Grav. de Abraham Bosse (1606-1676). https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8403217z.item 

A sangria era um dos tratamentos utilizados para doentes com peste bubónica.

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 21:45

Terça-feira, 08.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 2

A epidemia de 1598-99

Os anos de 1598-99, não são menos difíceis. A peste chega à cidade através do contágio de um oficial régio, que não aceita ser impedido de entrar na cidade. Esta situação, está descrita nas Crónicas Religiosas de Santa Cruz e na Crónica da Ordem dos Jesuítas.

Pelas Vereações sabemos que apelaram ao Bispo para servir de árbitro e ser Guarda-mor da Cidade. O oficial régio deve ser o Provedor Gonçalo Vaz Barigua mencionado no livro de Receita e Despesa da Câmara de 1597-98.

A Vereação tem que reunir fora do seu local habitual, a Torre de Almedina, pois há pessoas contaminadas nas casas em volta da torre, e isso levará a um conflito entre os vários elementos da vereação: os vereadores, que defendem reunir fora da torre, e assim o fazem e reúnem, e o procurador da cidade e os procuradores dos mesteres, apoiados pelo juiz de fora, que defendem que a reunião deverá ser realizada fora, enquanto se verificar a perigosidade, mas que depois deverá ser retomada, na cidade, na torre. Há também queixas contra o provedor da saúde, Brás Nunes de Mascarenhas, que reside fora da cidade, na sua quinta em Eiras, e que acusam de não vir à cidade resolver os problemas da população.

Livro dos Acordo e Vereações ... 1598-1599.png

Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1598 (Dezembro, 30) até 1599 (Novembro, 3)

Este livro, Livro dos Acordos e Vereações de Coimbra do ano 1598-1599 regista logo na primeira folha, “Livro do que se fez no anno do mal de peste, que Deus nos Livre” que escolhemos para título desta exposição e regista várias medidas que a cidade de Coimbra toma, para enfrentar uma grave epidemia, que obrigará à saída da Vereação, para fora da Torre de Almedina, “casas da Camara della”, reunindo na outra margem, no Convento de São Francisco, [fl. 53v-54] e noutros locais, que os assentos de reunião mencionam: São Marçal, junto ao Mosteiro de S. Jorge, e Paços de D. João Coutinho, em Pé de Cão.

AHMC/Vereações, n.º 37, 1598-159. Transcrição

[fl. 53v] Aos vimte e sinquo dias do mes de Abrill de noventa e nove annos nesta cidade de Coimbra e no Mosteiro de S. Francisco, que estaa situado no cabo da pomte della [...], aomde forão jumtos  Fernão Soares Paes e Francisco Rezemde, vereadores e Vicemte Caldeira de Brito, vreador do Corpo da Univercidade e Alvaro de Faria, procurador geral da cidade e Francisco Fernandez, procurador dos Vimte e quatro, […] o qual ajumtamento se fez na dita casa de S. Francisco por a cidade estar empedida do mal de peste, de que Deus nos livre, e asi a Tore da Vreação, por respeito de alguns dos [fl. 54] officiaes que assistião na dita camara estarem feridos na casa da saude e empedidos e serem mortas pesoas de suas casas e por quamto a cidade estaa tam apodorada deste mal em toda ella que parecia mais timiridade, que bom governo aver jumta e ouvir partes e despachar pittições, primcipalmente não avemdo ja gemte na cidade, que não seja empedida e pouquo em que prover, tirando guardas das portas da cidade e mantimentos, o que por ora estaa provido e ao diamte se provera milhor, pellos officiaes da dita camara, estamdo fora do que se pudera fazer assistindo a camara na cidade, pello que, comformando se com os custumes amtigos [fl. 54v] da cidade, asemtarão e acordarão que vistos os imconvinientes e estado do tempo, que cada ves vay crescendo em pior, se ajumtasem, em cada somana, quarta feira no lugar de Condeixa a nova, por ser lugar acomodado e mais nobre de todos os do termo da cidade e por nelle se fazer amtiguamente jaa, por outro tal tempo como este, camara no dito lugar, com declaração que a primeira jumta que se fizer no dito lugar de Condeixa sera a primeira quarta feira que vem em doze de Maio, por que neste tempo ja deve ser vimdo resposta e ordem de Sua Magestade, no provimento das justiças como convem ao governo da cidade e na forma em que temos avizado a Sua Magestade, […].

Assinaturas da Vereação, em exercício, em Abril de 1599

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 1.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 2.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 3.pn

Mosteiro de S. Fancisco da Ponte.png

Mosteiro de Sâo Francisco da ponte. Local onde a Câmara de Coimbra reúne durante o período de peste em 1599. Grav. Coimbra séc. XVIII, Estampas Coimbrãs, Coimbra, 1964, vol. 1, n.º 7

Cerca de Santana.png

Cerca de Santana. Fora da Porta do Castelo, local onde ficariam os pobres, para receberem as esmolas e o sustento que a cidade providenciaria durante a peste de 1599.Grav. Coimbra séc. XIX, Estampas Coimbrãs, Coimbra, 1964, vol. 1, n.º 24.

 

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 10:20

Terça-feira, 01.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 1

Numa longa cronologia que definimos do século XIV ao XIX, constatamos vários surtos epidémicos, de diferentes patologias. Ressaltam os mais violentos de peste bubónica e propagam-se de umas zonas para outras, através das rotas comerciais.

O surto mais violento, largamente documentado, chega à Europa em 1348, através de Itália e tem origem no Oriente. Afetará também, Portugal e Coimbra.

No século XV, em Portugal, as pestes estão associadas às guerras e conquistas no Norte de África, concretamente à conquista de Ceuta, em 1415.

No século XVI serão os contatos comerciais a trazer a peste a Lisboa, e Porto. Os séculos XVII, XVIII e XIX trarão outras epidemias: a febre amarela, a cólera, a varíola. O último surto de peste bubónica, atingirá Portugal, em1899.

Ao longo dos séculos constata-se também que estes surtos epidémicos aparecem associados a “alterações climáticas”, diríamos hoje: cheias, secas, tendo como consequência maus anos agrícolas, fomes, e grande mortalidade exigindo dos governantes várias medidas de recuperação económica, consubstanciadas em vária legislação de que é um exemplo a “Lei das Sesmarias”, em 1375, obrigando ao cultivo dos campos incultos e abandonados e tentando impedir a fuga do campesinato para as cidades, em busca de melhores condições de vida.

A epidemia de 1569

… O Dr. António de Oliveira, nosso professor de saudosa memória, a quem prestamos aqui a nossa sentida homenagem, na sua tese de doutoramento sobre Coimbra, no século XVI, apresenta a evolução da população, a partir da análise dos Registos de Baptismo e Óbito, nas várias paróquias de Coimbra, entre 1545 e 1640. É notório o pico de mortalidade devido às epidemias, em 1569 e 1599-1600 e a consequente baixa da natalidade.

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No reinado de D. Sebastião há um surto de peste em Lisboa, em Janeiro de 1569, que se vai espalhando por outros locais do reino.

Em Coimbra têm conhecimento da situação e vão tomar diversas medidas, a partir de Julho, para defender a cidade: nomeiam um guarda-mor, encerram as portas da cidade, estabelecem o isolamento “degredo”, para os que vêm de locais infectados na zona de Vila Franca.

AHMC. Livro dos Acordos e Vereções da Câmara de

Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1569. (Fevereiro, 12 até -Dezembro, 29).1569, Julho, 20, Vereação [fl. 90]

 […] - E logo na dita camara asemtarão que todalas pesoas que vyerem a guarda dos lugares empedidos e quiserem emtrar nesta cydade sendo lhe duvidada pello guarda moor se va por nos olivaeis de vila Framqua, ao longo do rio pasando pelo vao, a quinta d’ Ambrosyo de Saa, e não comunyquarão com pessoa algua da terra somente tomarão seu comer pelo regimento que lhe der o guarda moor, omde estarão em degredo os dias que lhe for manda[do] pelo guarda moor, que conheser de suas sertidões a soalhamdo seu fato e pessoas cada dia.

- E neste tempo que emtrarem em seu degredo o farão serto, digo, a saber a Gonçalo Afomso, morador na Copeira e asy quamdo hacabarem so pena de dous mil rs, e hum ano de degredo semdo achados que não cumpram estes mandados, a metade pera os tapumes desta cidade e a outra pera quem os acusar,

- E asy mais asemtarão que toda a pessoa que for achada pasar e sobyr pellos tapumes que estam pera guarda destes ares maos paguara mil rs, as pessoas que [fl. 90v] sem licença e os moços que amdarem sobymdo e destapando cem rs, a metade pera os tapumes da cidade e a outra pera quem os acusar,

… [fl. 93v] Aos trimta dias do mes de Julho de mil quinhentos e sesemta e nove em camara foy mandado a Bras Foreyro, que por constar vir de terras empedidas destes ares maoos de peste de que Noso Señor nos livre, que elle estevese em degredo, na sua quinta sem sair fora della a comunicar nem falar das suas janelas com pessoa nenhua, so pena de semdo achado fora a falar com nyngem so licença do guarda moor, pagar cem cruzados, hua parte pera a cidade e a outra pera os tapumes da dita cidade, e outra pera quem o acusar […]

… [fl. 149v] - Aos sete dias do mes de Dezembro de mil e quinhentos e sesemta e nove deu sua fee Pero Fernandez como apregoara pelos lugares pubricos que nenhua pessoa de qualquer calidade que seja joge a bola nos olivaeis e cemsiraeis d’alem da pomte,

Gravura do jogo de Calcio 2.png

Gravura do Jogo de Calcio, Florença séc. XVII. Pietro di Lorenzo Bini (ed.), Memorie del calcio fiorentino tratte da diverse scritture e dedicate all'altezze serenissime di Ferdinando Principe di Toscana e Violante Beatrice di Baviera, Firenze, Stamperia di S.A.S. alla Condotta [1688] https://pt.wikipedia.org/wiki/Calcio_Storico#/media/Ficheiro:Calcio_fiorentino_1688.jpg

nem va a pescar da Lapa dos Esteos ate o Almege, nem a jogar a bareyra soma de dous mil rs, a metade pera os tapumes desta cidade e a outra pera quem os acusar, e asy pelo dito modo que nenhua pesoa joge bola nem bareyra no Arnado, des a pomte ate a Fontoura nem pesque fora dos tapumes da cidade, sob a dita pena e asy pelo dyto modo das cousas segimtes, da porta do Castello ate Aregaça, sob a dita pena, como foy acordado em camara e asynou aquy o dito Pero Fernandez, porteyro. João Gonçalvez de Sequeira, o sprevi. […]

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 1.pn

 

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 2.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 3.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 4.pn

 

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 10:44


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