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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 04.07.19

Coimbra: Cernache, o concelho que foi a freguesia que é

A comunidade rural de Cernache … [é] desde 1836 mais uma das freguesias do concelho de Coimbra. Todavia, durante mais de quatro séculos gozou da prerrogativa de vila – sede de um concelho sem termo, que detinha a jurisdição cível e crime.

Livro onde está guardado o Foral de Cernache. AHM

Livro onde está guardado o Foral de Cernache. AHMC

Cernache foral manuelino 2 c.jpg

Livro do Foral de Cernache, fl.1 AHMC

Foral de Cernache.jpg

Foral de Cernache. AHMC

… A paisagem é marcada por largos vales de fundos aplanados, com vertentes muitas vezes em escadaria, onde facilmente se detecta a fertilidade dos solos, a abundância de água e a riqueza do espaço agrícola.
… A região envolvente de Cernache divide-se em duas partes distintas, contrastantes mas complementares. A ocidental é baixa, com largos fundos aluviais, onde as ribeiras entalham os seus leitos, sendo aqui que a acção humana mais se evidencia.
… Opondo-se a este pequeno mundo onde a água reina e o verde impera, surge-nos a serra, mais dura, agreste e seca.

Cernache Moinho das Lapas 1 a.JPG

Museu Moinho das Lapas

… Em setecentos, o elemento que dominava a paisagem era, sem dúvida, a água. As ribeiras que ainda hoje vão tomando o nome das povoações que nasceram nas suas margens (Ribeira de Cernache, Ribeira de Casconha, Ribeira de Pão Quente) e as múltiplas linhas de água que atravessam os campos até atingirem o Munda, actuaram não só como elementos definidores da paisagem agrária, ao permitirem as culturas de regadio e de estruturas transformadoras, mas também como elementos delimitadores do território dos poderes que aí eram exercidos.
… A origem e evolução medieva do regime senhorial neste “ilhéu” da periferia da cidade de Coimbra foi traçada por António de Oliveira num texto que passamos a citar dado o seu relevante conteúdo:
“Cernache pertencia a um dos muitos donatários que dividiam entre si o termo coimbrão – Fernão Vasques Pimentel - o primeiro que aparece como senhorio da vila”.
… Em 14 de Junho deste mesmo ano [1375], Coimbra toma posse da jurisdição cível de Cernache, aldeia do seu termo.
… Em 1417, pelo menos, Cernache com outros lugares, é dado a D. Pedro, duque de Coimbra, separado do termo desta cidade.
… D. Manuel I concedeu foral à vila, em 15 de Setembro de 1514.

Cernache. Monumento a Alvaro Anes a.JPG

Monumento a Álvaro Anes de Cernache

… Álvaro Anes de Cernache, antes de partir para a batalha de Aljubarrota, fundou no seu solar, nesta vila, um hospital, que dotou com bens que seus pais ali deixaram, entregando a sua administração, bem como a dos respectivos rendimentos, à cidade de Coimbra. Por mercê régia, a “administração” e o “rendimento” do hospital, que estava na vila de Cernache, pertenciam à cidade e Câmara de Coimbra, recebendo o juiz de fora, vereador mais velho e escrivão municipal uma “ordinaria” pelas visitas anuais ao mesmo hospital. … O hospital e albergaria funcionaram até que, por força do decreto de 25 de Abril de 1821, este o fez voltar à coroa.

Cernache igreja torre sineira a.JPG

Igreja Matriz de Cernache. Torre sineira

… O prior … que faz a abertura do livro de casamentos em 1738, já que aí deixa exarado:
“He hey ser costume nesta freguezia darem os noyvos de offerta quando se recebem huã guallinha e huã quarta de trigo; ou dizem que quatro bollos grandes de trigo, isto alem da offerta que lançarem elles e padrinhos quando se lhe der a beyjar o Senhor depois das bênçãos de que fiz esta lembrança”.

Já quando o pároco realizava o baptizado, que representa a entrada do neófito na comunidade cristã, regista no início do livro de baptismos:
“He estillo nesta fregesia dar de offerta de cada Baptizado huã quarta de trigo e huã guallinha e huã vella de cera branca, ou seis vintens per ella dando ao pároco, e isto alem da offerta que o padrinho quizer dar, ao qual pertence dar a vella, e a quarta de trigo e guallinha dam os pais do baptizado. E por verdade fis esta lembrança informado de pessoas antigas e por expriencia digo tenho recebido the hoje de Junho 7 de 1751”.

Figueira, A.S. A comunidade de Cernache. A governança municipal (1787-1834). Dissertação de Mestrado em História Moderna. 2009. Acedido em 2019.01.25, em https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/13483/1/Tese_mestrado_António%20Figueira.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 16:57

Terça-feira, 25.06.19

Coimbra: Oficinas de Coimbra nos séc. XV e XVI 3

É curioso notar a existência da mesma fonte nos túmulos reais de Santa Cruz de Coimbra, começados por Diogo de Castilho, irmão do mestre-de-obras dos Jerónimos [João de Castilho] e responsável pelo belo portal da igreja do mosteiro crúzio; o artista, chegado à cidade mondeguina no início de 1518, esteve à frente de uma companha que incluía também os portugueses Diogo Francisco, Pêro Anes e João Fernandes, aos quais se juntou, mais tarde, Juan de la Faya.

Mosteiro de Santa Cruz. Túmulo de D. Afonso HenriMosteiro de Santa Cruz. Túmulo de D. Afonso Henriques [https://www.postais-antigos.com/coimbra-tumulo-d-afonso-henriques-coimbra3.html]

Parece que se podem estabelecer provas da atividade, nestas obras, de um estatuário alemão ou flamengo, que era auxiliar de João de Castilho, normalmente designado por Mestre dos Profetas. Embora não sendo possível considerá-lo artista de gabarito, apresentava certo mérito e as suas esculturas situam-se na tradição do final do século XV, apresentando-se muito vincadas, com fortes requebros, pregueado das vestes violento, rostos estereotipados com maçãs salientes e cabelo ondulado com largas madeixas a cair sobre os ombros.
… Nos arredores de Coimbra, em São Marcos (1522), o mesmo Diogo de Castilho é o responsável pela capela e pela abóbada do mosteiro dos frades Jerónimos, mas os túmulos de Aires da Silva e de João da Silva, saíram do cinzel do já referido Diogo Pires-o-Moço, possivelmente discípulo de Nicolau Chanterene e deste mestre arquiteto.

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de João da Silva.J

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de João da Silva

A oficina coimbrã do artista conseguiu clientela e prestígio, mas a sua imaginária apresentava aspetos flamengos, numa síntese notável da tradição e das novidades tardo-góticas. As obras saídas do seu cinzel documentam a passagem do gótico para a renascença, embora exibam uma assimilação não muito clara. Além de sofrer influência da Flandres, patente nos anjos tenentes dos escudos heráldicos, nos cabelos ondulados das virgens e santos, no gosto pelos detalhes, depois de 1521 passou a incluir grutescos e medalhões nos frisos e entablamentos de romano, como acontece nos túmulos de S. Marcos.
Também lhe são atribuídos três túmulos parietais ediculares, em que os aspetos arquitetónicos goticistas se mesclam com a decoração manuelina: trata-se do de frei João Coelho, na igreja dos Hospitalários de Leça do Balio (1515), do de D. Diogo de Azambuja (c. 1518) que se conserva intacto na igreja do convento de Nossa Senhora dos Anjos, em Montemor-o-Velho, e do de D. Luís Pessoa (c. 1525) que se pode ver na mesma vila.

Convento de Nossa Senhora dos Anjos. Túmulo de Di

Convento de Nossa Senhora dos Anjos. Túmulo de Diogo da Azambuja

Da sua oficina saíram ainda, entre outras obras, a lápide brasonada outrora aposta na ponte de pedra de Coimbra, assinada e datada de 1513; as pias batismais de Leça do Balio (1514-1515) e a da igreja de S. João de Almedina (atualmente na Sé Velha de Coimbra); bem como os dois anjos heráldicos que apresentam o escudo de D. Manuel e a esfera armilar e se destinavam a guarnecer a guirlanda da igreja do mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra.

Anjo Heráldico.jpgAnjo Heráldico

Anacleto, R. El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla. Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499.

 

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por Rodrigues Costa às 09:05

Terça-feira, 18.06.19

Coimbra: Oficinas de Coimbra nos séc. XV e XVI 1

Na segunda metade do século XV e nos primeiros trinta anos do XVI assiste-se a um impressionante surto construtivo, passível de permitir afirmar que entre 1490 e 1530 foram levantados no território português mais edifícios do que nos dois séculos anteriores.
O facto pode explicar-se através de fatores de ordem económica concatenados com o enriquecimento da burguesia; com o acesso da nobreza aos rendimentos da expansão; com o aumento demográfico; com aspetos socioculturais relacionados com a laicização da sociedade; com o aparecimento de uma certa prosápia cívica das comunidades urbanas; e com a afirmação individual, embora simbólica, do peso relativo dos senhorios que se materializa especialmente através da arquitetura.

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de Fernão Teles deMosteiro de S. Marcos. Túmulo de Fernão Teles de Meneses

… Diogo Pires-o-Velho e Diogo Pires-o-Moço trabalhavam em Coimbra e, das suas oficinas, saíram algumas obras notáveis.
O primeiro esculpiu, prenunciando já, na decoração, a estética manuelina, o túmulo parietal edicular de Fernão Teles de Meneses (c. 1490) que se encontra na igreja do mosteiro de S. Marcos, próximo de Coimbra; o arcossólio apresenta uma solução incomum em Portugal, pois do interior da ogiva, pendem, saídos de um dossel, panejamentos apanhados lateralmente por ‘homens selvagens’ que, se repetem no friso inferior da arca, ladeando, a par de ramos e folhas, a máscara de um negro com guizos ao pescoço.
… Ao seu cinzel é também devida a arca funerária de D. Afonso, 3.º conde de Ourém (1485-1487), que ostenta uma notável decoração naturalista, bem como a imagem policromada, esculpida em calcário de Coimbra, da Virgem com o Menino, que D. Afonso V, antes de morrer (1481) ofereceu à igreja matriz de Leça da Palmeira e que revela grande naturalismo no tratamento da cabeça, de onde saem cabelos lisos a cobrir os ombros.

Leça da Palmeira. Nossa Senhora da Conceição.jpLeça da Palmeira. Nossa Senhora da Conceição

Das estátuas de Diogo Pires-o-Velho pode destacar-se a maneira como trata os panejamentos, o surgimento de um certo naturalismo e a utilização de um convencionalismo mais atenuado.
Será ainda possível, num primeiro momento, enquadrar Diogo Pires-o-Moço numa estética medieval, onde o gosto tardo-gótico se faz sentir, mas o artista acaba por evoluir para uma linguagem que se vai aproximar da utilizada pelo renascimento transalpino.

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Pombeiro da Beira. Túmulo de Mateus da Cunha

Está-lhe atribuída a arca feral de Mateus da Cunha, 7.º senhor de Pombeiro da Beira (antes de 1500), em cuja igreja se encontra o monumento.

Anacleto, R. El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla. Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499.

 

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por Rodrigues Costa às 08:46

Quinta-feira, 30.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 2

 

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Divus Pelagius Conimbricensis. Porta principal do Colégio de S. Tomás. Coimbra
Foto: Bernardino F. C. Marques

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Pormenor da porta principal do Colégio de S. Tomás, Coimbra. Estilo renascentista, 1545. Museu Machado de Castro, Largo de S. Salvador, Coimbra
Foto: Bernardino F. C. Marques

Frei Paio de Coimbra ou ‘Frater Pelagius Parvus’ nasceu em Coimbra, provavelmente entre 1195 e 1200, vindo a falecer por volta de 1249. Foi sepultado no primitivo convento dominicano desta cidade.
Pouco conhecemos da sua vida, mas as informações que os seus biógrafos nos transmitiram dão-nos o perfil de um frade culto, humilde e milagreiro após a sua morte.
O primeiro cronista da Ordem dos Pregadores, Gerardo de Frachet, que deve ter conhecido Frei Paio quando visitou os conventos da parte ocidental da Hispânia, refere que «depois de este ter trabalhado fielmente durante muito tempo, com fervor e humildade no desempenho do cargo de pregador e de ouvir confissões, por fim, presentes os frades e orando por eles, descansou no Senhor no convento de Coimbra, reino de Portugal».
Relata em seguida «os prodígios que realizou Frei Pelágio, para honra e glória de Jesus Cristo», em favor daqueles que devotamente acorriam ao seu sepulcro, ou dele tomavam a terra.

Frei S. Paio.jpgS. Paio de Coimbra

O prodígio mais emblemático foi o ‘milagre da fundição do sino, que assim é narrado: «… encontrando que por um certo erro do fundidor, faltava muito cobre, levantou-se de orar um frade e tomando terra do sepulcro de Frei Pelágio, lançou-o ao forno e converteu-se imediatamente em cobre…».
Os próprios infiéis beneficiaram, por seu intermédio, das graças de Deus: «E o que foi mais admirável – diz o cronista -, dois sarracenos de Coimbra que padeciam de violentas febres, tomaram terra da sepultura de Frei Pelágio e, nesse instante, por misericórdia divina, ficaram plenamente curados».
A eficácia da sua pregação permanecia, pois, mesmo depois da sua morte.
Teria Frei Paio frequentado a escola episcopal de Coimbra ou a do mosteiro de Santa Cruz. Foi recebido na Ordem dos Pregadores, sendo já adulto, por Frei Sueiro Gomes, companheiro de S. Domingos e primeiro provincial da Hispânia. O historiador dominicano Frei António do Rosário lança a pergunta: - Donde provieram (est)as vocações (adultas)»? E responde com presteza: «O caso de Santo António, cónego regular que se fez mendicante franciscano, não ficaria único. Dos Mosteiros, das Colegiadas e da Cleresia proveio, sem dúvida, o melhor e o mais avultado contingente das primeiras vocações em Portugal, aliás como nas outras partes da Europa».

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Santo frei Payo. Frontispício da Primeira Parte da História de S. Domingos, de Frei Luís Cácegas e Frei Luís de Sousa – 1623. Museu de Aveiro, inv. nº 9/L. In Frei António José de Almeida, O.P.,
Disponível na WWW, <portugaldominicano.blogspot.com/>

«Era Frei Paio, quando veio à religião - diz Frei Luís de Sousa -, entrado já em dias, e conhecido por letras, e virtude. E como tal foi o primeiro Prior do Convento, e ficando em Coimbra morador contínuo». Foi este o primitivo Convento Dominicano construído no lugar da Figueira Velha, ao Arnado, em 1227, sob o mecenato de duas filhas de D. Sancho I, a princesa D. Teresa, que fora casada com D. Afonso, rei de León, a qual comprou os terrenos necessários, e a princesa D. Branca, que financiou a construção.
Afirma Frei Luís de Sousa que o ‘Santo frei Payo’ «faleceo, segundo a conta dos mais dos autores, que d’elle escrevem polos annos do Senhor de 1257, pouco mais ou menos». Mas logo refere que, numa inscrição tardia da lápide tumular na capela-mor da igreja do Colégio, estava registava a data de 1240: «Primus huius Conventus Prior morum sanctitate ac miraculorum gloria insignis Pelagius hic situs est. Obiit circa annum 1240».
No entanto, quem mandou gravar tal data foi induzido em erro, pois no registo da abertura do testamento de D. Sancho II, em 1248, consta a presença de Frei Pelágio Abril, nome pelo qual era também conhecido, à data prior do convento da cidade do Porto: «Pelagius Aprilis Portugalensis et frater Fernandus Petri».

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full 

 

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por Rodrigues Costa às 11:08

Terça-feira, 28.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 1

No passado mês de abril publiquei uma entrada sobre o primitivo Convento de S. Domingos.
Entretanto chegou ao meu conhecimento uma imagem das escavações realizadas e a que ali me referi a qual, a dado o seu interesse, ora reproduzo.

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Descoberta das estruturas do Convento medieval (primitivo) de São Domingos (1227) no Centro Histórico de Coimbra
LUSA - Agência de Notícias de Portugal, 23 de Fevereiro de 2009

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No texto publicado era feita uma referência a Frei, ou, Dom, ou São Paio de Coimbra.
Pouco ou nada sabendo sobre esta figura da nossa terra foi, entretanto, possível recolher as informações que agora se divulgam.

Há trinta anos, pelo menos, quando nos pusemos a estudar um por um, todos os códices alcobacenses da Biblioteca Nacional de Lisboa, respeitantes à Idade Média … vieram ao nosso encontro estes sermões [o Sermonário de Frei Paio de Coimbra, o Cód. Alc. 5/cxxx], ou melhor, esquemas de sermões, escritos em pergaminho, em letra de transição do séc. XIII, com iniciais a vermelho e azul, filigranadas … Só desejamos acentuar que todo o códice (e não unicamente os sermões de Frei Paio) se destinava a pregadores mais ou menos incipientes. Era um manual teórico e prático de oratória cristã.

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Frontispício do Sermonário. Cod. Alc. 5/cxxx Fotocópia de microfilme: Hill Monastic Manuscript Library, 1980

Tornando aos sermões, foi seu autor o dominicano Frei Paio de Coimbra ou Pelagius Parvus. E conforme a nota final, da mesma letra, foi copista deles o monge alcobacense Frei Domingos Pires ou Peres (Dominicus Petri), no ano de 1250, a pedido de Dom Pedro Eanes, abade do Mosteiro de Tarouca.
Frei Luís de Sousa [refere] a data duvidosa da morte de Frei Paio de Coimbra, [citando uma lápide que dizia] «Aqui jaz Frei Paio, primeiro prior deste convento [de S. Domingos-o-Velho de Coimbra] e notável pela santidade de costumes e pela glória dos seus milagres».
Morreu à volta de 1240. E acrescenta Frei Luís de Sousa: «foi sua vida e morte surda e sem rumor». Talvez isto explique a ignorância do ano exato em que morreu um dos maiores pregadores do séc. XIII.
… Outros autores apontam o ano de 1257 (e não o de 1240), o que faz supor a inexistência de lápide antiga com ano certo. De contrário, talvez a levassem quando trasladaram o túmulo ou as ossadas.
O cónego coimbrão Pedro Álvares Nogueira (f 1598) fala-nos também de Frei Paio, assim como do «mosteiro de sam Domingos o velho». Nele esteve muitos anos a sepultura do grande pregador, até que «os frades levarão tudo pera o mosteiro novo e não deixarão mais que hum sino, em lembrança do milagre» que, na fundição do mesmo sino, realizou «o bemaventurado sam Payo».

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São Frei Paio. Capela do Espírito Santo, Carapinheira, Montemor-o-Novo. Testemunho do culto popular
Foto: Bernardino F. C. Marques

… Que nos dizem de Frei Paio os informadores (diretos ou indiretos) de Frei Gerardo? Pois bem, dizem que ele confessou e pregou durante largo tempo e partiu deste mundo no convento de Coimbra, rodeado pelos outros frades postos de joelhos e a rezar.
Passado algum tempo (notemos a frase) morreu outro frade e enterraram-no junto do seu coval... Ora, tanto o coveiro como os frades sentirem evolar-se dele um perfume maravilhoso e uma espécie de névoa. E estando bastante doente a filha do coveiro e sem poder levantar-se, de regresso a casa ofertou-a a Frei Paio… isto é, fez por ela uma promessa. Logo se levantou a moça, pegou no cântaro e foi buscar água ao rio, sem doença nenhuma.
... A fama de santidade, julgamos nós, espalhou-se mais a partir do povo … Segue o famoso milagre da fundição do sino; mais outro duma mulher com dores no estômago; um escudeiro dos arredores de Coimbra e um frade dominicano do convento, ambos eles curados da febre; a confissão dum pecador empedernido; a cura dum cego que dantes se confessava a Frei Paio; cinco endemoninhados salvos da sua aflição … enfim, duas mulheres sarracenas, dos arredores de Coimbra, atacadas de febre e livres da doença, por tomarem terra do sepulcro de Frei Paio … Milagre deveras notável… por se tratar de muçulmanas, gente doutra religião.
… Ora bem, este frade, cuja morte foi «surda e sem rumor», deixou-nos uma coleção de sermões que podemos colocar, sem vergonha ao lado dos que escreveu Santo António de Lisboa, seu contemporâneo. Nada menos de quatrocentos e sete sermões, quase todos panegíricos de santos. Entre eles, dois sermões em louvor de Santo António, o que faz de Frei Paio um dos panegiristas antonianos mais antigos — e muito desejaríamos nós que fossem estes os mais recuados sermões ainda existentes, em honra do grande santo de Lisboa.
…Que os sermões de Frei Paio sejam de importância para a história da eloquência medieval, salta aos olhos, sobretudo para o caso português. E não só.
…Já provámos ter Frei Paio estado em Santarém. E decerto em muitas mais terras portuguesas, pois os pregadores … Que pregou em português não oferece dúvidas … entre os sermões de Frei Paio, existam nada menos de nove panegíricos de S. Tomás de Cantuária… significaria ter Frei Paio estado em Cantuária.
… Quanto à presença de Frei Paio em Bolonha (e por conseguinte noutros lugares da Itália) nenhuma dúvida possível. Foi Bolonha o lugar preferido para alguns dos primeiros capítulos gerais dos frades pregadores.

Martins, M. 1973. O Sermonário de Frei Paio de Coimbra do Cód. Ale. 5 / CXXX. In: Didaskalia. III (1973). Pg. 337-362. Acedido em 2919.01.03, em
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/11993/1/V00302-337-361.pdf 

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full

 

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por Rodrigues Costa às 09:47

Terça-feira, 21.05.19

Coimbra: Mitra Episcopal 1

A Mitra Episcopal de Coimbra representa essencialmente o conjunto de bens patrimoniais que estavam destinados ao sustento e provisão do bispo de Coimbra.
A diocese de Coimbra teve sede, primitivamente, em Conímbriga, no período de romanização da Península Ibérica, depois em Emínio (Aeminium), durante o domínio dos Suevos, tendo sido nestes períodos sufragânea de Mérida e depois de Braga, e por fim ficou sedeada na cidade de Coimbra, enquanto diocese isenta.
Os limites geográficos do bispado ficaram definidos em 1253, pela bula Provisionis nostrae de Inocêncio IV, de 12 de Setembro, tendo sido retirados a Coimbra os territórios entre o rio Douro e Antuã que foram anexados ao bispado do Porto.

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Inocêncio IV

A área geográfica do bispado de Coimbra sofreu alterações com a criação do bispado de Leiria, pela bula Pro excellenti apostolicae sedis de Paulo III, de 22 de Maio de 1545, no reinado de D. João III, que ditou a saída de seis paróquias (Caranguejeira, Colmeias, Espite, S. Simão de Litém, Souto da Carpalhosa e Vermoil) da diocese de Coimbra que passaram a pertencer ao novo bispado.

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Paulo III

Idêntica situação ocorreu aquando da criação da diocese de Aveiro, desmembrando localidades diversas do bispado de Coimbra, por breve de Clemente XIV de 12 de Abril de 1774.

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Clemente XIV

Com a nova circunscrição diocesana ditada pela bula Gravissimum Christi de 30 de Setembro de 1881, na diocese de Coimbra foi integrada parte dos bispados de Leiria e Aveiro, que só voltaram a ser restaurados pelo papa Bento XV em 1918 (Leiria) e 1938 (Aveiro).

As doações patrimoniais à Sé de Coimbra são anteriores à fundação da nacionalidade. A necessidade de sustentação dos bispos, cónegos e mais prelados esteve na origem de várias doações, nomeadamente, a importante doação do Mosteiro da Vacariça, em 1094, por D. Raimundo e D. Urraca, e do mosteiro do Lorvão, em 1109, que apenas por sete anos esteve na posse da Mitra.

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D. Raimundo

No entanto, as propriedades de Santa Comba Dão, Couto do Mosteiro, Midões, Vila Cova e parte da Pedrulha, que eram do dito mosteiro do Lorvão, mantiveram-se na sua posse.
Em 1082, o conde D. Henrique e D. Teresa doam à Sé de Coimbra os castelos de Coja e Arganil, altura em que os bispos de Coimbra passam a designar-se Senhores de Coja.


D. Henrique e D. Teresa. Iluminura da Genealogia d

D. Henrique e D. Teresa

A partir do reinado de D. Afonso V, o bispo de Coimbra passa a acumular o título de conde de Arganil, na sequência do reconhecimento da participação do bispo D. João Galvão nas campanhas do Norte de África (conquista de Tânger e Arzila), em 1471… concedeu também a este prelado, por provisão régia de 18 de Agosto de 1472, a vedoria mor das obras e alcaidaria-mor das comarcas da Beira e Ribacôa, razão pela qual se intitulava alcaide-mor de Avô.

Bandeira, A.M.L., Silva, A.M.D., Mendes, M.L.G. 2007. Mitra Episcopal de Coimbra: descrição arquivística e inventário do fundo documental. Acedido em 2019.04.29, em
https://www.uc.pt/auc/fundos/ficheiros/DIO_MitraEpiscopalCoimbra 

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por Rodrigues Costa às 09:02

Quinta-feira, 02.05.19

Coimbra: História de uma arca de pedra

Uma explicação breve, mas necessária. Escolhemos este texto pelo seu fino recorte literário, mas também por tratar um tema muito pouco conhecido.
Ao ser lido deve ter-se em consideração que quer o Museu Machado de Castro, quer o Convento de Santa Clara-a-Nova, atualmente não apresentam a configuração que o Autor descreve.

Há no Museu Machado de Castro uma sala em que ando sempre receosos, de vagar, o ouvido à escuta, como nos palácios maravilhosos dos meus contos de menino, comovido sem saber porquê, sempre à espera de ver começar a história de uma empresa grande.
Tudo ali tem para mim o ar de qualquer coisa que talvez tenha sonhado, confuso, misterioso, como o reflexo de um espelho mágico.
Nunca vi, senão uma vez, na primeira rosa de Alexandria que me mostraram, vermelho como o do tapete persa que ali se encostam as velhas esculturas de madeira que o tempo roeu, dando-lhe a leveza das rendas e da espuma, e do nevoeiro frio e dourado em que se embrulha às vezes o sol para morrer com ele.
Aquele tapete enche o ar de perfuma das rosas, que se não vêm, e cuja respiração cansada parece ter parado ali num espasmo de amor, como os reflexos de outo e púrpura do sol poente que a água fria dos lagos prende no brilho triunfante de um esmalte.
De fundo a um calvário de madeira, há ali um tapete de Arraiolos, precioso como um complicado esmalte verde sobre ouro, pálido como um sorriso que se desfaz.
Porque será que aquele velho e gasto tapete me comove, como as joias pequeninas e preciosas de outros tempos que irresistivelmente evocam em mim as cores delicadas de carne que nunca vi senão na adoração dos corpos delicados das flores?...
Aquele tapete foi dependurado com carinho por António Augusto Gonçalves para não se perderem as marcas dos pés pequeninos de mulher, que por ali passaram nus, mais levemente do que as pétalas das rosas que o perfume quente do incenso faz cair mortas das jarras dos altares num último gesto triunfante de beleza.
Sala de encantamento…
Um dia, encontrei ali, numa redoma simples de vidro, uma madeixa de cabelos loiros, com a indicação que fora de D. Isabel, mulher do infante D. Pedro, o duque de Coimbra que morreu em Alfarrobeira.
Dizia mais o letreiro haver sido encontrado num túmulo de pedra que para o mosteiro novo viera do mosteiro velho de Santa Clara.

Custa a subir esta ladeira de Santa Clara!

Santa Clara-a-Nova. Bilhete Postal.jpgMas, quando se chega ao cimo, é de encantar olhar para Coimbra, branca, como nela tivessem pousado todas as pombas de Vénus.

Vista de Coimbra. 1907.jpgCoimbra, vista geral em 1907

A igreja é fresca e alegre.
Ao fundo, lá está o tumulo de pedra a que serve de decoração. Um brasão em que se leem as armas de Portugal com a cruz de Avis, o banco de pinchar e as barras de Aragão.

01bb.jpgArca tumular de D. Catarina, filha de D. Pedro e de D. Isabel, duques de Coimbra

… Fr. Manuel da Esperança, que a princípio supôs, como era natural, pudesse ser esta a sepultura de D. Isabel, filha dos condes de Urgel e mulher de D. Pedro, o de Alfarrobeira … [depois considerou que] este tumulo seria o de D. Maria. filha de D. Pedro, o cru, e de D. Constança … O Sr. Dr. Ribeiro de Vasconcelos … discorda … e atribui a sepultura à mulher de D. Pedro, o de Alfarrobeira.
…. Ora a arca de pedra é de pequenas dimensões próprias para sepultura de uma criança …. É pequenina a arca … Dentro do túmulo encontrou-se o esqueleto de uma criança, de lindos cabelos loiros que o tempo conservara.
Quem seria?
As barras de Aragão, o banco de pinchar, a cruz de Avos, os carateres da escultura circunscrevem as investigações à família de D. Isabel, duquesa de Coimbra, e mulher do infante D. Pedro.
A princesinha conservada na arca de pedra do mosteiro de Santa Clara de Coimbra não pode ser senão D. Catarina, filha de D. Pedro, o de Alfarrobeira e da duquesa, sua mulher.
… A 16 de Dezembro de 1466 devia ter morrido já porque … tem essa data o testamento da mãe, a duquesa de Coimbra que não se refere a ela … É a morte de D. Catarina que explica ainda a saída da duquesa, sua mãe, de Coimbra e a sua ida para as partes de Lisboa, aonde foi enterrar-se viva, na frase … de Fr. Manel da Esperança.

Nota: o banco de pinchar é uma figura da heráldica utilizada para diferenciar os brasões dos filhos de pessoas brasonadas ao utilizarem o brasão dos pais.

Carvalho, J.M.T. História de uma arca de pedra e de uma madeixa de cabelos loiros. In Atlantida. Mensário Artístico Literario e Social para Portugal e Brazil. Ano II, n.º 18, 15 de Abril de 1917.

 

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por Rodrigues Costa às 09:53

Terça-feira, 23.04.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal, um lugar a visitar

Frequento com alguma assiduidade do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra e tenho para mim que se trata de um local que não pode ser ignorado por todos aqueles que se interessam pela história da cidade.
Alicerço a minha convicção em virtude do vasto e valioso acervo que ali se encontra depositado, constituído, em boa parte, pelos documentos fundacionais da nossa cidade. Além disso, pode sempre visualizar-se uma exposição temporária de médio ou longo prazo que mostra documentação original e contextualizada, na medida em que se encontra especialmente vocacionada para centrar, num discurso claro e integrado, uma mensagem relacionada com a cidade.

Também se pode observar a imagem de S. Jorge, montado num cavalo, a fim de participar na procissão do Corpus Christi, a festa maior que, durante muitos séculos, acontecia em Coimbra.

S_Jorge.pngImagem de S. Jorge

Não posso, nem quero, deixar de chamar a atenção para a grande competência, disponibilidade e simpatia das Técnicas responsáveis pelo aquivo e que atendem personalizadamente (o que é muito importante para quem investiga) todos quantos ali se deslocam.
Podemos ainda observar as varas que os vereadores outrora levavam nas mãos quando participavam em atos oficiais, bem como peças de vestuário que então utilizavam

obj20.JPGVaras dos vereadores da Câmara de Coimbra

A exposição temporária de médio ou longo prazo é periodicamente renovada e nela podem ser observados, quando integram a mostra, alguns destes documentos:

- Carta de Sentença
1297, Julho, 8, Coimbra. Carta de Sentença do Ouvidor da Corte, Estêvão Peres, ordenando ao alcaide de Coimbra, João Arrais, que restituísse a dízima, indevidamente cobrada ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, “atendendo ao Costume de Coimbra, sobre que foram perguntados os alvazis e homens bons”.
É o documento original mais antigo que se encontra no AHMC.

Carta de Sentença.png

 

- Carta partida por ABC
1299, Maio, 20, Coimbra. Instrumento de composição amigável feito entre o concelho de Coimbra, representado pelos seus procuradores Domingues Esteves e Martim Anes, mercadores, e o concelho de Penela, pelo procurador António Anes, sobre a jurisdição e direitos a cobrar nos lugares de Pousafoles-o-Velho, Pousafoles-o-Novo (conc. Miranda do Corvo); Pereiro (conc. de Penela); Cabeça de Boi e Lavarrabos (actual Rabarrabos, conc. de Penela).
O acordo alcançado referia que os moradores dos lugares pagariam “irmãmente a metade” de todos os serviços e tributos que aí fossem lançados quer pelo concelho de Coimbra, quer pelo de Penela.

Carta partida por ABC.jpg

Nota: Uma carta partida por ABC, era um pergaminho no qual era escrito um original e uma cópia fiel do mesmo, ambos devidamente assinadas. O pergaminho era cortado na forma que se vê na imagem, sendo cada uma das metades entregue às partes subscritoras. Se fosse necessário confirmar a veracidade de uma das partes, juntavam as duas e verificavam se o corte coincidia.

Lei das Sesmarias
1375, Junho, 1, Coimbra. “Exórdio da ordenação da lavoura”, conjunto de medidas decretadas por D. Fernando e posteriormente conhecidas por “Lei das Sesmarias”, para que “haja maior abundância no reino”, tentando recuperar a produção agrícola, após uma época de grave crise económica, provocada pela epidemia da “peste negra”. É um dos poucos originais do texto fernandino que hoje se conhece.

Lei das Sesmarias.jpg

Acordãos e Vereações
1491, 23 de Março a 31 de Dezembro, Coimbra. “Livro dos Acordos e Verações do ano de mil iiijc LRj”em que foram oficiais: João de Barros, cavaleiro e João Pessoa, juízes; Pedro Brandão, cavaleiro, Aires Alvelo e Álvaro Vasques, vereadores; Garcia Rodrigues Pacheco, procurador da cidade. É o mais antigo livro de registo das reuniões da vereação que se preservou até à actualidade.

Acordãos e Vereações.png

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra ali na Rua Pedro Monteiro, no edifício da Casa da Cultura, ao cimo da Sereia. Vá por lá que vai gostar.

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Catálogo da Exposição. 2018

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por Rodrigues Costa às 09:46

Terça-feira, 02.04.19

Coimbra: Convento velho de S. Domingos

Segundo o cronista da Ordem [em Coimbra], o convento de São Domingos estava já formado em 1227 sendo seu prior Frei João e a iniciativa da fundação ter-se-ia ficado a dever a D. Branca, filha de D. Sancho I [a quem] atribui … todo o mérito da elevação do convento que … seria um dos mais antigos do reino, fundado antes de vinte anos decorridos sobre a confirmação da Ordem.

S. Domingos Jacques Callot.jpg

S. Domingos. Gravura de Jacques Callot

… Frei Luís de Sousa … anota que D. Teresa, sabendo do propósito da irmã, como que dele se apropria e concede o lugar de Figueira Velha, para a instituição do mesmo, acrescentando, contudo, que a cargo de D. Branca teria ficado a construção, em si, do edifício.
Mas é possível que o convento de S. Domingos de Coimbra já fosse uma realidade em 1226, data em que um chantre da Sé … lega aos pregadores 10 morabitinos. Sem dúvida, no ano de 1229 aí se sepultava [um] cidadão de Coimbra.
… o arcebispo de Braga D. Silvestre (1229-1244), passando pelo convento de São Domingos, concedeu, a todos os homens que fossem ajudar nas obras, 40 dias de indulgência.
…. Logo desde o início da sua existência os Pregadores de Coimbra atraíram vocações …. Adquirem a credibilidade e estima dos vizinhos da cidade e arredores que lhes legam bens móveis e imóveis e escolhem o convento como sepultura.

Frei Greardo de Frachet, Vitae Fratrum.jpg

Frei Gerardo de Frachet, na sua obra Vitae Fratrum Orditiis Praedicatorum, dedicou aos sermões e aos milagres de Frei Paio de Coimbra várias páginas

… E o mosteiro de São Domingos de Coimbra teve a felicidade de contar, logo no início, entre os seus frades, com um pregador da envergadura de D. Paio de Coimbra. Os seus 407 sermões são o maior acervo de sermonaria medieval que possuímos, alguns dos quais poderão ombrear com os de Santo António de Lisboa. A sua palavra calaria fundo no coração do povo e a sua fama de santidade depressa se espalhou, chegando célere a Gérard Frachet que inclui a sua vida e milagres na «Vitae Fratrum», posta a correr em 1259.

Localização do convento velho de S. Domingos.jpg

Localização do convento velho de S. Domingos na carta da cidade levantada em 1845 por Isidoro Emílio Baptista

…. Breves são estas notas históricas sobre o convento velho de S. Domingos, como breve foi também a duração do primitivo edifício e do seu arquivo, arrasado pelas cheias do Mondego… Segundo Nogueira Gonçalves situar-se-ia este primitivo convento ao fundo da Rua Direita, já na confluência com a atual Rua de Fernão de Magalhães, mas desconhece-se, completamente, pormenores sobre o seu traçado. Sabemos apenas que o claustro tinha dois pisos, abrindo-se para o superior a porta da sala do cabido, e o interior da igreja seria ornamentado com vários altares, entre eles o de S. Frei Gil, Santa Iria, Santa Catarina e, no final do século XV, o de Nossa Senhora do Rosário.
Os efeitos das águas já se faziam sentir em pleno século XIV … as obras do convento novo começaram em 1543.

Localização atual do convento velho de S. Doming

Localização do convento velho de S. Domingos, na atualidade. Imagem Google

Nota:
Há alguns anos, no início do atual milénio realizaram-se obras nos terrenos situados nas traseiras do antigo Hotel Almedina, atual Stay Hotel.
Face às estruturas e aos materiais encontrados no decurso desses trabalhos tornou-se necessário levar a cabo estudos arqueológicos – cujo relatório, julgamos, não se encontra ainda divulgado – que possibilitaram localizar o velho convento de S. Domingos naquele local. Já Nogueira Gonçalves, em artigos outrora publicados e relacionados com o assunto, apontara para aquela zona, embora com um pequeno desvio de cerca de 100 metros.

Coelho, M.H.C. e Matos, J.J.C. 1986. O Convento velho de S. Domingos de Coimbra. Contributo para a sua história. Separata do Arquivo Histórico Dominicano Português. Vol. III/2

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por Rodrigues Costa às 09:47

Terça-feira, 19.03.19

Coimbra: Misericórdia breve história

Dentro de alguns anos [1998] passa o meio milénio da Misericórdia coimbrã … Entre vária documentação notável, merece referência o conjunto de 25 grossos volumes, denominados «Documentos antigos», que agrupam manuscritos que vêm da fundação da Casa até meados do seculo XVIII, e o precioso «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra».


Folha de abertura do Memorial de João Baptista.jp

Folha de abertura do «Memorial» de João Baptista

…. Abrindo com uma folha branca, está a folha seguinte toda ocupada por um desenho nas cores sépia, preto e vermelho … Na oval, em chefe, está a figura de Nossa Senhora da Misericórdia lateralizada por dois anjos apoiados nos brasões nacional e dos Almeidas, decerto em lembrança do benemérito bispo Dom Jorge de Almeida, que na sua Sé acolheu a Misericórdia quando da sua instituição.
…. [Do «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra»] Se respigam alguns capítulos concernentes à história da Santa Casa até ao ano [1645] em que ele a escreveu:
- Teve sua origem em princípio de 1498.
- No ano de 1500 se ordenou essa Confraria na cidade de Coimbra, como parece, por uma carta do … Rei de 12 de Setembro de 1500 escrita aos Vereadores desta cidade em que os louva e aprova quererem instituir a dita confraria e lhe concede os privilégios todos que haviam concedido à Misericórdia de Lisboa por um alvará feito no mesmo dia.
- É tradição que primeiro se assentou esta Confraria da Santa Misericórdia na Sé, daí se passou para a Igreja de Santiago, na casa que serve de celeiro, na quina da praça onde se diziam as missas e se chamava Capela da Misericórdia.
- No mesmo sítio esteve até o ano de 1546 em que se ordenou fazer-se nova casa sobre a Igreja de Santiago como está edificada, como se vê do contrato celebrado pelo provedor e mais irmãos dela… e o prior … e mais beneficiados da dita Igreja [de Santiago].

Relevo da frontaria da Misericórdia de Coimbra 02

Relevo da frontaria da Misericórdia e Coimbra (In: Borges, N.C. 1960. João de Ruão. Escultor da Renascença Coimbrã)

- Os retábulos e mais obras desta casa parece fazer aquele grande mestre João de Ruão como se vê de uma quitação sua.
- Depois, em diversos tempos, se tratou de mudar a casa da Misericórdia para vários sítios, escolhendo a praça desta cidade no canto do hospital de S. Bartolomeu até o Romal e para isso compraram as moradas de casas que estão feitas na praça nas costas da mesma Igreja do hospital que ao depois se tornaram a vender. E depois se quis edificar na entrada da Rua do Corpo de Deus, onde se começou nova casa em o ano de 1589 a 29 de Maio, cujas obras se suspenderam depois da obra estar aberta, havendo-se nela despendido já cópia de dinheiro.

A Misericórdia ocupava os dois pisos superiores.j

A Misericórdia ocupava os dois pisos superiores ao portal de Santiago, e ali se encontravam somente a administração e a capela, de que se nota a Torre sineira

- Finalmente no ano de 1605, em 6 de Março se tomou o último assento que a casa da Misericórdia se não mudasse e se fizesse as casas, convém a saber, do despacho, sacristia, e da cera, e mais obras novas na forma e que hoje estão.

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Miseri

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Misericórdia, pormenor c.1773

…. Perante os insucessos a Irmandade vai-se mantendo na sua exótica Igreja e sede -porque, caso único, estava construída sobre outra igreja – até que tendo o Cabido da Sé sido mudado da velha Sé para a Igreja dos Jesuítas, logo a Irmandade da Misericórdia, em Março de 1772, voltou à casa onde havia nascido quase três séculos antes.

- As grandes dificuldades de alojamento só viriam a ser resolvidas pela Carta de Lei de 15.XI.1841 quando concedeu à Misericórdia a ocupação do Colégio Novo (onde num pequeno espaço funcionava o Tribunal, e em resultado da cedência teve que vir instalar-se na Torre de Almedina).


Colégio Novo restaurado após o incêndio.jpg

O «Colégio Novo» restaurado após o incêndio. À direita a «Torre de Anto» e o moderno colégio onde se encontram os alunos

- A vida da Misericórdia continuou com altos e baixos até que na noite de 1 de Janeiro de 1967 um violento incêndio destrói grande parte do edifício

Nota:
O trabalho citado integra uma transcrição do Inventário dos «Moveis desta S. Caza…» realizado em 1645.

Silva, A. C. 1985. Um Inventário seiscentista da Misericórdia de Coimbra. Separata de Munda.

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por Rodrigues Costa às 21:32


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