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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 01.03.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 3

Passada a Sofia, a primeira coisa notável que se encontra é o velho mosteiro de Santa Cruz, fundação do nosso D. Afonso Henriques. Da primitiva obra nada ou mui pouco resta. – Consta que o antigo mosteiro era um edifício cercado e torreado, como um castelo: o templo tinha três naves; os claustros eram três, as celas oitenta e quatro. Hoje é mui diverso o estado das cousas. Porventura as celas são mais numerosas, os corredores mais elegantes, as oficinas mais acomodadas, os claustros mais magníficos; mas a igreja pareceu-nos acanhada, mesquinha, mal traçada, e de mau gosto, porque a vimos depois de ter lido pomposas descrições dela. O que ainda se conhece que realmente foi bom, é o portal lavrado de laçarias, e vultos, e mil invenções curiosas. Cremos que infelizmente entalharam esta obra em pedra de Ançã, em lugar de pedra canto; e por isso está tudo estragado e carcomido.

Planta de Magne pormenor.jpg

 Mosteiro de Santa Cruz, pormenor da planta de Magne

 No corpo da igreja há muitas sepulturas de venerável antiguidade, e inscrições mortuárias que falam de nomes gloriosos: mas os mais notáveis sepulcros são os dos dois primeiros reis portugueses, D. Afonso e D. Sancho, colocados aos lados da capela-mor. Estes monumentos preciosos foram mandados fazer por el-rei D. Manuel, e aí se conservaram até o ano de 1832, em que D. Miguel os mandou arrombar, para ver o que continham: ainda no ano seguinte vimos as pedras quebradas, e os mal apagados sinais deste ato de barbárie.

As duas coisas mais importantes que havia no convento eram a livraria e o santuário: as preciosidades de um e de outro foram levadas para a cidade do Porto. Entre os quadros que adornavam o santuário dizem que estava uma «transfiguração» de Rafael, e a «adoração dos reis» de Rubens. Aí se mostrava uma espada, que se dizia ter sido de D. Afonso Henriques, e que se acha reunida á do moderno Afonso, o duque de Bragança, no museu do Porto, para onde também foi levada a escrivaninha e a pena com que assignaram os decretos do concilio tridentino, monumentos curiosos doados a Santa Cruz por D. Fr. Bartolomeu dos Mártires.

A quinta ou cerca de Santa Cruz é uma das mais extensas e maravilhosas de Portugal. Descrevê-la fora impossível na brevidade do nosso quadro. O lago é obra magnifica: mas as árvores que a rodeiam, cortadas em colunas e obeliscos, são apenas um dos mil exemplos de mau gosto dos antigos jardins. 

Sé Velha antes do arranjo.jpg

 Sé Velha, antes do arranjo

 A paroquia de S. Cristóvão, ou Sé Velha, é o monumento de Coimbra mais digno de atenção, porque é porventura o único que resta em Portugal do tempo dos godos. A sua arquitetura não se parece, portanto, com a de outro algum edifício conhecido. As suas paredes, vistas exteriormente, assemelham-se às de um castelo; é talvez o que resta da primitiva, e um escritor moderno se enganou inteiramente, supondo os lavores da porta lateral do templo obra de arquitetos godos, quando basta vê-los para conhecer que foram lavrados no 13.º ou 14.º século. Posterior ainda a esta época é o interior da igreja.

No alto da cidade, onde estão os fundamentos do observatório novo, começado pelo marquês de Pombal, e nunca levado a cabo, jazia o antigo castelo, que foi demolido, e de que restam apenas alguns fragmentos. Este castelo era célebre pela ação heroica do leal Martim de Freitas,

A universidade está onde antigamente eram os paços reais, chamados das alcáçovas; neste edifício ainda existem muitos vestígios da sua origem remota. Nada diremos aqui acerca desse estabelecimento literário, que tantos homens ilustres tem dado a Portugal, porque o guardamos para um artigo especial.

A Sé Nova era a igreja dos jesuítas: ampla, e ao primeiro aspeto majestosa, um exame mais miúdo faz descobrir nela o ferrete de todos os edifícios daquela ordem – mau gosto de arquitetura.

Muitos outros monumentos notáveis se encontram na antiga capital dos portugueses, mas a brevidade necessária nos veda falar deles. Entretanto há aí uma cousa curiosa, de que ninguém tratou ainda, e que vale a pena de se mencionar. É esta a inquisição. Ela ainda está em pé com os seus corredores escuros, os seus carceres medonhos, as suas «espreitadeiras». Ainda aí se vê a casa dos tratos, com as paredes cheias de arranhaduras, e de manchas escuras, que porventura são de sangue!  - E não se deveria conservar este monumento de fanatismo para os vindouros, a quem parecerão impossíveis os horrores que se contam acerca da inquisição!

Nos arredores de Coimbra, pode-se dizer que cada pedra, cada campo, cada bosquezinho é um monumento histórico. – A fonte do Cidral e o Penedo da Saudade, quem os não conhece? – Atravessando a ponte para o lado de Lisboa, encontram-se à esquerda umas ruínas, e atrás delas um campo coberto de arvoredos e de hortas. Aqui houve um mosteiro ilustre: este foi o de Santa Clara, fundado por S. Isabel, e que o rio fez desaparecer. D. João 4.º edificou o novo no monte ao ocidente de onde em perspetiva se descobre a cidade.

Naquela margem do Mondego está também a Quinta das Lágrimas, e a Fonte dos Amores. No palácio pertencente à quinta sucedeu, segundo dizem alguns, o trágico sucesso da morte de D. Inês de Castro. A Fonte dos Amores, rica de recordações e pobre de adornos, lá corre ainda caudal para um tanque meio entulhado. Descrita por poetas, viajantes, e historiadores, calará acerca dela a nossa mal aparada pena, e só faremos um voto para que a mão do homem não derrube os últimos cedros que a assombram, e que são testemunhas das memórias de muitos séculos.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 122-123

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por Rodrigues Costa às 22:15

Quarta-feira, 21.06.17

Coimbra: S. António dos Olivais, de ermitério a freguesia 5

O átrio, retangular, corresponde ao coro alto e, relativamente à frontaria anterior aos frades, resulta num avanço. De cada lado podem observar-se portas retangulares, fechadas por grades, saídas da forja de Daniel Rodrigues, em 1941.

Ig. Santo António. Porta 01. D Rodrig 02 a.tif

Pormenor de uma das grades existentes no átrio da igreja de Santo António dos Olivais. Daniel Rodrigues

A da direita (a de Nossa Senhora da Conceição), dá para uma capela de plano octogonal, a funcionar atualmente como sacristia, e mostra a última cena do escadório, isto é, a la­mentação de “Cristo deposto da Cruz” ...O portão da esquerda cerrava a capela do Senhor dos Passos, com a sua imagem. Atualmente alberga apenas um Crucifixo.

As paredes do átrio encontram-se envolvidas por um alizar de azulejos, de motivos independentes, mas de qualidade superior aos do escadório e, no teto, pode ver-se um escudo com as armas franciscanas.

Acede-se à nave da igreja através de uma porta da segunda metade do século XV, ainda com impostas, mas já sem capitéis.

 

Igreja de Santo António dos Olivais. Interior.jpg

 Igreja de Santo António dos Olivais. Interior

Sobre o átrio fica o coro, mostrando um insignificante cadeiral do século XVIII.

O interior da igreja é muito simples e cobre a nave uma abóbada de tijolo, de traçado rebaixado e de lunetos.

Os retábulos são de talha dourada, do primeiro terço do século XVIII, tendo o da capela-mor colunas torcidas e os colaterais ao arco cruzeiro, hermes femininos. As mesas de altar são posteriores.

No altar-mor encontra-se uma grande tela representando a Senhora da Conceição. Está assinada: PASCVAL PARENTE PINXIT. 1779.

No mesmo altar podem ver-se duas esculturas em madeira, uma, de S. Francisco, da época do retábulo e a outra, de S. João Baptista e do mesmo século; num nicho da parede encontra-se um Cristo Flagelado. Estas esculturas são obras secundárias. Os retábulos laterais apresentam Santo António no lado do evangelho e S. José no da epístola. Estamos perante obras agradáveis mas inferiores.

O interesse da igreja reside nos azulejos que revestem a maior parte da parede. Os da capela-mor, que a forram inteiramente, são do fim do século XVII, só a azul, em dois motivos, um de composição de folhas acantiformes e outro de entrelaces quadrifoliados com rosetas centrais.

Os azulejos do corpo da igreja pertencem à primeira metade do século XVIII, tendo muito interesse pelo grande desenvolvimento de composição dos enquadramentos; são, no entanto, fracos nas figuras. Representam cenas da vida de Santo António, com a seguinte distribuição: do lado do evangelho, começando a partir da porta: cura de um frade possesso, o santo livra o pai da forca, uma tomada de hábito e milagre da mula; do lado da epístola: pregação aos peixes, milagre do pé cortado, aparecimento de S. Francisco no capítulo de Arles e morte do santo. A reparar umas falhas azulejares, principalmente junto ao chão, foram colocadas peças cerâmicas de diver­sas épocas, com realce para alguns, sevilhanos de aresta, datáveis do século XVI.

No corredor de acesso à sacristia existem algumas telas dos séculos XVII ao XIX, mas sem interesse. Existe, num pequeno altar improvisado, uma escultura de S. Brás, de pedra e de tamanho pequeno, do fim do século XV e um santo franciscano, de barro, pintado a preto, datado do século XVII, a que chamam S. Benedito.

Devido ao avanço do altar ficou na parte traseira da capela-mor um espaço que se pode considerar um estreito corredor a ligar com a sacristia. Encontra-se aí, suspensa, uma caixa relicário, do século XVII, em acharoado e madrepérola, que tem dentro uma caveira. Trata-se de um exemplar interessante, embora esteja em mau estado.

A sacristia imita muito uma pequena igreja, com capela-mor e brevíssima sacristia. A arquitetura é da primeira metade do século XVIII e a decoração foi completada na segunda metade.

Sacristia da igreja de Santo António dos Olivais.

Sacristia da igreja de Santo António dos Olivais. Interior

 Os azulejos das duas quadras datam da primeira metade desse século; são do mesmo tipo dos da igreja e apresentam também cenas antoninas. A pintura do teto consiste em enrolamentos de acanto, vendo-se ao centro um brasão eclesiástico, pouco legível. São da segunda metade o arco e os espaldares de talha lavrada e dourada, com seis telas da vida antonina, possivelmente de Pascoal Parente. Há três esculturas de barro, do século XVIII, sendo a que representa Santo Antão de certo mérito. As­sentam nas mísulas da abóbada doze meios corpos de santos relicários, da segunda metade do século XVIII.

A quadra que faz de capela-mor tem altar da mesma época e uma tela representando Santo António a tomar o hábito franciscano. Está assinada: PASCOAL PARENTE/O PINTO NO ANO DE/1796. A abóbada é a fresco, com motivos arquitetónicos perspetivados e deve ser do mesmo artista. Sobre a porta da sacristia encontra-se um espelho com regular moldura, também da segunda metade do século XVIII.

 Anacleto, R. 2005. Santo António dos Olivais: De Ermitério a Freguesia. Conferência na cerimónia comemorativa do aniversário da criação da freguesia.

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por Rodrigues Costa às 12:31

Segunda-feira, 22.05.17

Coimbra: Ermida de Santa Comba e a fonte da mesma Santa

Nas múltiplas colinas e vales que formam a orografia secundária da região citadina, nota-se entre a linha de cimos da Cumeada e o largo vale de Coselhas, para o norte de Celas, um modesto vale, o Valmeão, com pequeno morro a reparti-lo, aonde assentam os restos da capelita, que se apresenta, por isso, como capela devocional de altura.

A sua origem repousa na tradição de ter sido aqui martirizada, em época indeterminada, Santa Comba, santa que se representa crucificada, ou antes, ligada a uma árvore em forma crucial.

Há já referência à capela no ano de 1458. Sendo do padroado da Câmara passou, em 1491, para o do cabido catedralício. A capela renovou-se no séc. XVII (pellos annos de 1612). Foi vendida pela Fazenda Pública, cerca de 1925.

Está a desaparecer, tendo findado oito séculos de culto no local; podendo todavia acontecer que o da santa tivesse sucedido a um pré-histórico, de consagração de altos e grutas.

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Capela de Santa Comba

 Pelo que resta, vê-se que a obra era a da reforma do princípio do séc. XVII.

Era pequena: um corpo retangular tendo a meio da parede da epístola uma breve saliência, que só interiormente se pode ver para que servia. Precedia-a um alpendre, ao qual se subia por quatro degraus. Conserva-se o parapeito mas já desapareceram os dois pilares quadrados dos ângulos da frente, as duas colunas dóricas que ficavam entre eles e ainda a coluna que a cada lado dividia a meio o espaço; só restam as duas meias colunas, encostadas às paredes, do arranque do alpendre.

A fachada era de breves dimensões. A porta, de arco semicircular, sem impostas, de arestas vivas, mostra em duas aduelas laterais: «... VIRGINIS ET MARTI». Ao lado direito da empena está o campanariozinho de duas sineiras, reforma do séc. XVIII, tendo-se-lhe englobado o primitivo, a servir duma ventaria.

Não conseguimos entrar, mas desafeta e arrancados os azulejos, pouco interesse pode ter. Nada podemos dizer por isso da pequena gruta para a qual se descia da sacristia.

 

Já fora do pequeno morro da capela, mais abaixo no Valemeão, dentro duma quinta e na encosta do lado da cidade, ainda existe a fonte de Santa Comba.

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 Fonte de S. Comba

In: Lemos, J.M.O. 2004. Fontes e Chafarizes de Coimbra, pg.76

 Espaço retangular cortado na vertente, tendo o fundo com restos de decoração: uma gárgula com figura humana em meio de largo rótulo, pia em forma de concha circular, nicho singelo a dominar a abertura de mina ou gruta. Inserido neste nicho está um pequeno baixo-relevo, de segunda categoria, com a santa crucificada e vestida, acompanhada de dois soldados a cada lado e vê-se, numa cunha de segurança da cruz, o começo da data: «16...». A estes elementos do princípio do séc. XVII, juntou-se, no XVIII, uma decoração em argamassa de que existem apenas restos. A gente do local ainda presta certo culto, acendendo uma lâmpada junto ao nicho no dia 20 de Julho.

Correia, V., Gonçalves, A.N.1947. Inventário artístico de Portugal. Cidade de Coimbra, Lisboa, ANBA, p. 192-193.

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por Rodrigues Costa às 09:21

Sexta-feira, 03.02.17

Coimbra: a Igreja de S. Tiago, localização

 Razões topográficas exigiram a construção das igrejas medievais nos lugares em que se encontram.

O morro da primitiva cidade de Coimbra despega-se das outras colinas pelo colo dos Arcos do Jardim, donde partem os dois vales que o delimitam: o de Santa Cruz e o do Jardim Botânico. Saia um córrego médio do Marco da Feira, corria pela rua que depois tomou o nome de Rêgo-de-Água, depois, já mais volumoso e veloz na Rua das Covas, desfazia-se em espuma nas rochas do Quebra-Costas, e avançava já torrente pelo sítio onde será depois a Porta de Almedina, espraiando-se e depositando os materiais carregados na parte baixa da cidade, juntando-se aos aluviais do Mondego, que iam formando os diversos “arnados” que são o substrato do arrabalde antigo.

Planta da Cidade 1845 2.jpg

Planta da Cidade 1845

De facto, esta topografia é tão intrínseca que, nas grandes tempestades, a Natureza às vezes repõe o que o homem alterou. E assim aconteceu em 14 de Junho de 1411, em que foi tal a quantidade de água e o volume dos materiais transportados, que arrancou as portas chapeadas de ferro da cidade.

Temos assim uma linha de córrego que separa em duas partes, a antiga Almedina. Seguia, este córrego, um traçado que se aproximava bastante de uma reta e que agora está cortada pelo ângulo sudoeste do embasamento romano do Museu Machado de Castro e depois esquina noroeste da Sé.

Do outro lado, o vale de Santa Cruz contorna a colina, com grande bacia de receção pluvial. O vale tinha uma corrente contínua de águas, riacho que antes do seu encanamento pelas obras de Santa Cruz, tinha pelo menos um pontão e cuja corrente movia moinhos em várias épocas. 

Delimitava pois, esse ribeiro, do lado norte, o arrabalde com forma de triângulo, e com duas igrejas: São Bartolomeu e São Tiago.

Ora, quais as razões topográficas da existência de duas freguesias em tão pequeno arrabalde?

O córrego médio da parte alta da cidade, cavado, não pela ação de águas contínuas, mas sim das de género torrencial, tinha à porta de Almedina como que o seu canal de transporte. O cone de depósitos devia ocupar, na sua maior estreiteza o espaço sensivelmente entre a R. das Solas e a das Azeiteiras.

Assim, quando o homem começou a construir no arrabalde, essas águas torrenciais obrigaram a repartir o povoado em dois grupos populacionais, com duas igrejas que até eram de padroado diferente. Sabe-se da existência de São Bartolomeu no séc. X, na primeira reconquista, apesar dos restos mais antigos, até hoje encontrados, serem do séc. XII, do período afonsino. O edifício atual data do séc. XVIII.

Planta da Cidade 1845 1.jpg Planta da Cidade 1845 Pormenor

Quanto à Igreja de São Tiago é do fim do XII, princípio do XIII, do reinado de D. Sancho. Sabe-se, no entanto, que houve uma construção anterior de que nada se conhece, sendo bastante provável que remonte à primeira reconquista.

Anjinho, I.M.M. 2006. Da legitimidade da correção do restauro efetuado na Igreja de S. Tiago em Coimbra. Acedido em 17.01.2017, em

https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31091/1/Da%20legitimidade%20da%20corre%c3%a7%c3%a3o%20do%20restauro%20efetuado%20na%20Igreja%20de%20S.%20Tiago%20em%20Coimbra.pdf

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por Rodrigues Costa às 09:09

Terça-feira, 20.12.16

Coimbra: as casas da Câmara

A Casa da Câmara não foi sempre no mesmo sítio, e à Casa do Concelho medieval não se lhe conhece local exato, avançando alguns autores várias hipóteses, junto da alcáçova, ou da Sé Velha.

Desde o século XIV está seguramente documentado que a Vereação reunia na Torre de Almedina, também designada por Torre da Relação. Aí se manterá até ao século XIX.

Todavia, teve outros locais esporádicos, nomeadamente durante as épocas de peste, quando a cidade ficava impedida. Os vereadores reuniam fora de portas, no Convento de São Francisco da Ponte, em Condeixa, ou nas casas e quintas dos membros da vereação.

A Casa da Cidade, na Praça de São Bartolomeu, durante o final do século XVII e XVIII, foi um espaço muito apreciado, pois permitia também assistir, das suas varandas, às festas e touradas, que se desenrolavam na Praça Velha, (atual Praça do Comércio). As Invasões Francesas incendeiam e destroem este espaço em 1810. E a Vereação retorna à velha Torre. 

A extinção do Tribunal da Inquisição, no espaço da cidade que ainda hoje mantém a designação de Pátio da Inquisição, fornecer-lhe-á um novo local para reuniões. Mas não é o adequado.

Em 1834, surge uma nova oportunidade: com a extinção das ordens religiosas, a Câmara solicita parte do Mosteiro de Santa Cruz, que lhe será concedido. Durante vários anos decorreram obras de adaptação do espaço conventual a Paço do Concelho, endividando-se o município por causa dessa obra. 

O edifício será finalmente inaugurado em 13 de Agosto de 1879. Além deste espaço físico, sede do poder e cartório do município, existe toda a vasta região envolvente, o chamado “arrabalde” que mais tarde é designado por “termo da cidade de Coimbra”, composto por muitos concelhos e povoações que estavam submetidos à jurisdição da cidade.  

Em tempos mais recuados, a cidade assegurava a todas essas populações a defesa e proteção das suas muralhas, recebendo em troca a prestação de serviços e tributos diversos. Este espaço envolvente foi-se modificando e reduzindo ao longo do tempo, fruto de variadas reformas administrativas e fiscais, estando hoje limitado às 31 freguesias do atual concelho de Coimbra.

França, P. 2011. O Poder, o Local e a Memória, 1111-2011. Catálogo da Exposição. Coimbra, Arquivo Histórico Municipal de Coimbra/ Câmara Municipal de Coimbra . Pg. 7-8

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por Rodrigues Costa às 18:26

Sexta-feira, 16.12.16

Coimbra: a evolução da forma de designar os autarcas

Mas como eram escolhidos os governantes da cidade?   

Pelo Foral de 1111 ficamos a saber, dever ser a escolha régia determinada pela naturalidade.

As Ordenações do Reino (Afonsinas, Manuelinas e Filipinas) registam e regulamentam todo este procedimento.

Curiosamente não sofre grandes alterações durante centenas de anos.

Na coleção de Cartas Originais dos Infantes do AHMC, conjunto de missivas em papel do século XV, enviadas à Câmara de Coimbra, entre 1418-1485, deparamo-nos com um singular documento do Duque Dom Pedro. É dirigido “aos juízes e vereadores e homens bons da nobre e leal cidade de Coimbra” mostra que nem sempre o processo era isento, sendo necessária a intervenção superior. Os cargos não deviam ser sempre exercidos pelas mesmas pessoas, alertando o Duque para a necessidade de renovação, e para que se cumprisse o regimento, na feitura dos pelouros.

Julgamos que a eleição sumária, realizada no verso da própria missiva do duque, nos demonstra a tentativa de resolver de imediato um desses conflitos. Os representantes da comunidade local eram escolhidos pelos seus pares, num processo eleitoral algo diferente do que hoje estamos habituados. Os nomes dos elegíveis eram previamente selecionados e registados num pedaço de papel, que era depois encerrado numa bola de cera: o pelouro. Na altura da “eleição” uma criança, ou uma outra pessoa designada pela assembleia, extraía do saco, da arca, ou do cofre, os pelouros à sorte.

Na cidade de Coimbra, o cofre dos pelouros era um objeto rico, com chaves de prata, oferecido por um dos vereadores.

Os nomes assim obtidos eram os eleitos para esse mandato. Era então enviada essa lista para sanção superior ao rei, ou no caso específico de Coimbra, ao duque Dom Pedro, a quem fora confiada essa incumbência para a cidade. Depois de aprovada a pauta, eram notificados os eleitos para virem exercer o cargo, indo-lhes levar a vara da vereação a casa, o porteiro da Câmara.

A grande alteração no processo eleitoral surge apenas com o Liberalismo. As Vereações eram, até aí, constituídas por três Vereadores, escolhidos entre os cidadãos e pelo Procurador do Concelho, também ele cidadão.     

Passam a integrar também dois elementos dos mesteres, os Procuradores da Casa dos 24, eleitos entre os profissionais embandeirados dos ofícios mecânicos existentes na localidade, privilégio concedido por D. João I em retribuição do apoio prestado à sua causa. D. João IV conceder-lhes-á também o privilégio de uso de vara, insígnia reservada aos Vereadores e Juízes.

A partir de 1537, ano em que a Universidade é instalada definitivamente em Coimbra, por ordem régia, passa a integrar a Vereação municipal da cidade mais um vereador, o Vereador do Corpo da Universidade, escolhido diretamente pela sua Corporação. 

Presidia às sessões da Vereação, o Juiz de Fora, magistrado de nomeação régia e, como o próprio nome indica, externo à localidade, ou o Corregedor da Comarca. Ao Juiz competia o poder moderador e fiscalizador. O seu voto é um voto de qualidade, apenas utilizado para desempate, competindo a gestão corrente exclusivamente aos Vereadores.

Os eleitos ficavam com o cargo de gerir a vida da localidade e da sua população, provendo o seu bem-estar e sustento, aplicando e fazendo cumprir, os regimentos e posturas, que elaboravam, e votavam em assembleia, seguindo os princípios da Lei geral do Reino consignados nas Ordenações. Realizavam reuniões periódicas deixando-nos disso imensos registos na série das Actas de Vereação, conjunto extenso cujo primeiro exemplar data de 1491.  

... Como se disse, a nova orgânica Municipal será instituída em 1834, com as amplas reformas administrativas. A Vereação passa a ser constituída apenas pelos Vereadores, assumindo um deles o cargo de Presidente da Câmara.    

O primeiro Presidente da Câmara Municipal de Coimbra é Agostinho José da Silva. Cessa a representação dos Procuradores da Casa dos 24, entretanto extinta, e o privilégio da representação do Vereador do Corpo da Universidade. 

França, P. 2011. O Poder, o Local e a Memória, 1111-2011. Catálogo da Exposição. Coimbra, Arquivo Histórico Municipal de Coimbra/ Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 4 a 7

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por Rodrigues Costa às 09:18

Terça-feira, 08.11.16

Coimbra: Os Salatinas e a Música Tradicional de Coimbra 1

No âmbito da sua música regional e local, Coimbra sempre foi um «caldeirão de culturas», fruto do cruzamento de diversas práticas musicais oriundas de diferentes regiões do País e do Estrangeiro que, uma vez na cidade, conviviam com duas culturas musicais autóctones mas reciprocamente influenciáveis: a «popular», não só proveniente do mundo rural que de Coimbra estava próximo, mas, igualmente, do próprio povo da cidade; e a «erudita», proveniente de outros grupos sociais que habitavam o velho casco urbano, tais como a «burguesia» e alguma «nobreza».

Estas danças e cantares estão na génese de uma música, assimilada e recriada pelo povo de Coimbra que, no fundo, transmitia algo de si e assim a divulgava, qual marca própria, local, daqueles que a cultivavam – a «Música Tradicional de Coimbra» – constituída por um repertório de «canções de trabalho, cânticos de embalar, cantigas de amor, baladas, trovas, noturnos, descantes, romances», canções relacionadas com o «Sagrado», o «Religioso» e o «Natal», etc., divulgadas pela cidade em festas e romarias e nas «fogueiras do S. João» – uma manifestação etno-musical que em Coimbra remonta, pelo menos, ao século XV – onde as «tricanas» (mulheres do povo de Coimbra e dos arredores) e os «futricas» (habitantes da cidade não-académicos) cantavam e dançavam e onde os estudantes (os “sacos de carvão” na gíria popular) marcavam presença, nem sempre muito pacífica nas suas relações com os populares.

As danças das fogueiras chamavam-se «modas», dançadas em roda – as «danças de roda» – com mandador e com uma coreografia muito simples à volta de um mastro central onde se situavam os tocadores, os cantadores e as cantadeiras. A partir da década de 70 do século XIX, surgiram fogueiras com um estrado – «pavilhão» – onde, numa salutar rivalidade musical, atuavam ranchos de diversos bairros da cidade que previamente ensaiavam e bailavam um repertório criado para esse tempo de folguedos com base em «cantigas, marchas, barcarolas» e “alguns fados para as fogueiras” – os «fados coreográficos» – que, como estrutura e modelo de dança, mais não eram do que músicas populares locais cantadas e dançadas de roda, em ambiente de grande ruralidade – que Coimbra sempre foi – e ligadas a primitivas formas de cança que estão na base do «Folclores de Coimbra».

A Música Tradicional de Coimbra tinha como instrumentos tradicionais do seu toque, o «machinho» (espécie de cavaquinho), o «bandolim», a «guitarra», o «violão» (que na gíria popular da cidade dava pelo nome de “bacalhau”), o «cavaquinho», o «violino», a «rabeca», a «flauta» e a «viola toeira» (principal instrumento popular de Coimbra no século XIX), entre outros.

A partir dos anos 20/30 de Oitocentos, Coimbra, cidade de fortes tradições musicais, viu, incluído no seu repertório, vários géneros musicais oriundos da Europa e da América do Sul, como sejam a «valsa», a «sonata», o «tango», a «polca», a «mazurca», o «lundum», o «lied», etc., dos quais absorveu o suficiente para a criação de novas sonoridades, mas sempre matricialmente identificáveis com a toada regional e local da cidade.

Cravo, J. 2012. Os Salatinas e a Música Tradicional de Coimbra. In: Músicos Salatinas. 1880-1947. Exposição Fotográfica e Documental. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 17

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por Rodrigues Costa às 15:25

Quinta-feira, 25.08.16

Coimbra: Chafarizes e fontes que desapareceram 1

No terreiro ou largo de Sansão teriam existido três chafarizes. Os dois primeiros estavam colocados nos extremos norte e sul, “como mostra a vista panorâmica da cidade de Coimbra, de Jorge Braunio, impressa em 1572”.

... Estes chafarizes chamados de Sansão e de S. João foram mandados construir no ano de 1400, por D. Afonso Martim, 19.º prior mor do mosteiro de Santa Cruz ... mandou alargar o terreiro de Sansão, para se realizarem as festas a cavalo, aproveitando a colocação dos chafarizes, como balizas, para se jogarem “canas” e “alcanzias”, antigos jogos portugueses.

O jogo das canas consistia em os cavaleiros se acometerem com canas, espécie de torneio brincalhão. E as alcanzias eram bolas de barro cheias de cinza, pó, flores, etc. que os cavaleiros lançavam. Esta brincadeira simulava as granadas ou panelas cheias de matérias acesas ou inflamáveis, com que na guerra arremessavam ao inimigo.

O chafariz de S. João era de água doce e “maravilha de se contemplar o engenho enganoso com que lançava nove tornos de água, não sendo os tornos verdadeiros mais de três”.

Apesar desta maravilha, o chafariz de S. João foi demolido quando el-rei D. Sebastião, ao mandar construir o aqueduto de S. Sebastião, precisou desta e doutras águas que estavam na posse do mosteiro de Santa Cruz, mandando-as retirar, para as encaminhar para o referido aqueduto ...

No centro do chafariz de Sansão foi colocada, em 1592, num pedestal quadrangular, a estátua de Sansão imaginada pelo mestre Manuel Fernandes. As mulheres cobiçavam muito a água que, “por ser um bocado salôbra”, era muito aproveitada para amassar o pão e para lavar o rosto, dizendo-se que o tornava mais alvo.

A estátua de Sansão, hercúleo juiz dos hebreus, foi derrubada e feita em pedaços, pelo embate de umas traves transportadas por um carro, no mês de Setembro ou Outubro de 1819. Parece que o destino desse chafariz estava marcado, porque o deixaram deteriorar e, como tal, a Câmara mandou-o demolir em 1838.

Dessa demolição beneficiou o terceiro chafariz, na medida em que a água do demolido mais a água do Claustro do Silêncio deram para as duas bicas desse novo chafariz sem nome, construído em 1839, na frontaria do antigo mosteiro de Santa Cruz.

... Em 1870, quando foram construídos os novos paços municipais, o chafariz acabou por ser demolido.

 

Lemos, J.M.O. 2004. Fontes e Chafarizes de Coimbra. Direção de Arte de Fernando Correia e Nuno Farinha. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 159 a 161

 

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por Rodrigues Costa às 09:32

Quarta-feira, 27.07.16

Coimbra: a Fonte Nova

A primeira referência à Fonte Nova de que há conhecimento, é de 1137 como Fonte dos Judeus (fons judeorum). Esta denominação ter-se-ia ficado a dever à localização na extremidade do bairro judaico e começo do seu almocávar (cemitério).

Consta que esta fonte, destinada ao abastecimento público, era a mais antiga nascida junto à cidade de Coimbra pois, já em Junho de 1137, a ela se faz referência na demarcação da paróquia de Santa Cruz.

... conforme refere F.A. Martins de Carvalho, a Fonte dos Judeus só no ano de 1725 tenha passado a ser designada por Fonte Nova, aquando a reforma que lhe foi feita, à qual se refere uma inscrição em romano maiúsculo e abreviado ... Esta inscrição pela sua extensão ser desproporcionada para o limitado espaço do rótulo, tornou-se uma tarefa verdadeiramente difícil para o canteiro a quem foi incumbida a gravação. Por tal motivo, tê-la-ia apertado até que a última linha acabou por ficar indecifrável. Nessa inscrição vê-se que “No Anno Aureo da Lei da Graça de MDCCXXV” esta Fonte, velha pelo tempo, aparece como “Faenix Renascida”.

... A Fonte Nova terá sido também denominada por Chafariz da Ribella? Esta suposição tem por base uma descrição ... é relatada a tempestade, inundações, trovoadas, etc., que aconteceram em Coimbra no dia 16 de Junho de 1411: “Desta escuridão de trouões sahirão coriscos, os quais derão em hum muro da cérca do dito mosteiro de Santa Cruz, que está na horta da parte de cima, junto ao chafariz da Ribella, que era mui forte de pedra & cal e derubarão do dito muro bem dez graças”.

Nesta fonte foram feitas, ao longo do tempo, várias obras, destacando-se pela sua importância, a realizada por mestre Manuel Roiz (Rodrigues) que lhe acrescentou a arca.

Segundo informação que a Câmara Municipal de Coimbra enviou a El-Rei, em 8 de Janeiro de 1749, sabe-se “... que era favorável ao pagamento que o referido mestre reclamava visto que tal importância se aplicava para a existência e conservação da água do chafariz da Fonte Nova, tão importante para o bem comum  do povo desta cidade que V. Magestade foi servido mandar reedificar como se averiguou antes que entrasse na dita obra, a qual não admitia demora pello prejuízo que ao contrário se seguia para o mesmo povo”.

... (está hoje) na rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, em frente ao Jardim da Manga, mandada ali colocar na década de 80 do século XX, pelo então Presidente da Câmara Dr .Mendes Silva.

O conjunto arquitetónico em que está inserida, contem, para além da fonte propriamente dita, a parede revestida de azulejos, em azul e branco, colocados de forma geométrica, uma escadaria que dá acesso à Rua de Montarroio.

Nota: A transferência da Fonte para a atual localização foi feita sob projeto do Arquiteto António Monteiro, à data responsável do Gabinete de História da Cidade que funcionava no âmbito do então Departamento de Cultura, Desporto e Turismo.

Lemos, J.M.O. 2004. Fontes e Chafarizes de Coimbra. Direção de Arte de Fernando Correia e Nuno Farinha. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 22 a 31

 

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por Rodrigues Costa às 23:58

Quinta-feira, 28.04.16

Coimbra: os Paços do Concelho ao longo dos tempos

A Câmara funcionara naquele local (Torre de Almedina) desde tempos roçando pela fundação da monarquia, donde transitou para a chamada Casa da Audiência, defronte da porta principal da Sé Catedral (modernamente denominada Sé Velha).

E, em virtude de transação com o prelado diocesano no fim do séc. XV, passou para a «casa da cidade da praça pública», onde funcionou, por cima dos açougues da cidade, dando para a Praça de S. Bartolomeu (modernamente Praça do Comércio) e para a Calçada (modernamente Rua Ferreira Borges), e que servia também de «paaço dos taballiães».

Este «paaço» tinha-o a Câmara mandado edificar para nele estarem os tabeliães da cidade, tanto os de notas como os do judicial, servindo os seus cargos das 7 às 10 da manhã e da 1 às 5 da tarde, e ocupava o espaço onde atualmente se encontram as primeiras casas a sul das Escadas de Santiago, com as frentes ocidental para a atual Praça do Comércio e oriental para a Rua Ferreira Borges.

Porém, pouco depois do terramoto de 1755, por essa casa ser excessivamente alta e a «fugida lhe não poder ser fácil», as vereações voltaram a fazer-se no segundo pavimento da Torre de Almedina … até que, em 1755 … feitas umas indispensáveis reparações, voltasse a Câmara para a Casa da Cidade.

Mas, o incêndio provocado pelos soldados de Massena, a 3 de Outubro de 1810 … forçou a Câmara a regressar à Torre de Almedina.

Informação adicional

Na Torre de Almedina funcionaram os Paços do Concelho no período que vai de Outubro de 1810 até à inauguração do atual edifício, a qual teve lugar a 13 de Agosto de 1879.

 

Loureiro, J. P. 1967. Coimbra no Século XIX. Separata do Arquivo Coimbrão, Vol. XXIII. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg.8 e 9

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por Rodrigues Costa às 10:01


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