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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 29.02.24

Coimbra. Carnaval de 1854 1

O Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, ao divulgar os documentos mais relevantes e mais interessantes ali depositados, tem vindo a realizar um meritório trabalho.

Ultimamente, com transcrição da Dr.ª Paula França, revelou a existência de dois documentos que que nos dão a conhecer como, em meados do século XIX, se vivia, em Coimbra, o carnaval ou o entrudo, como então se dizia.

Coimbra. Carnaval de 1854, 1.jpg

Transcrevemos, de seguida, o documento divulgado, embora, a fim de facilitar a leitura, tenhamos atualizado a grafia.

Tudo era alegria, tudo contentamento, Sansão estava povoada até as orelhas.

Homens mulheres rapazes, cães, tudo isto enchia e animava com um esplendor maravilhoso o Largo de Sansão mas, não se entenda que tudo era desordem; não, ao contrário, todo este povo se tinha arranjado e disposto na forma de um ovo, quero dizer, num círculo oval, de sorte que todos, ou pelo menos a maior parte dos constituintes desta figura geométrica, podiam gozar do que no meio da mesma figura se passava.

Praça 8 de Maio e rua Visconde da Luz. Inícios dLargo de Sansão, hoje Praça 8 de Maio. Inícios do séc. XX

 Era uma cena do Carnaval, era uma corrida de burros arvorados em touros, pela simples adjunção de uma armação bicórnea, que estava oferecendo um espetáculo vistoso e divertindo a jovial e variadíssima multidão.

Três touros tinham vergado sob o peso da infatigável destreza e habilidade com que os peritos capinhas os atormentavam de dor de ilhargas, porém, três homens eram levados em braços, vítimas também do seu excesso de dedicação!

Eram mártires da tauromaquia, deviam ser respeitados, todos os circunstantes pagaram o seu tributo de compaixão aos infelizes.

Coimbra. Carnaval de 1854, 2.jpg

Enquanto isto se passava, dois amáveis estudiosos discutiam acaloradamente uma questão que tinha por objeto a referida forma geométrica em que o povo se tinha agrupado, para gozar do espetáculo. Para melhor explicar esta figura ao seu antagonista, o defensor da preposição sacou de um ovo e o expôs a vista do seu adversário, porém, não foi só este que o viu, foi um terceiro amável, que passando por este belo julgar descobrir um belo meio de transtornar as rubicundas faces ao seu amigo da análise tornando-lhas amarelas!

Foi por isso que ele imprimiu, sobre a mão que segurava o ovo, uma tão grande porção de movimento que não só este saltando do seu invólucro rastejou pelas faces do seu admirador, que ficando aterrado, por um golpe tão violento, e ao mesmo tempo tão imprevisto, porque apenas teve tempo de se lembrar que um vácuo se operara na mão que sustentava o ovo, e que era esse mesmo ovo, que rolava agora por seu despeitado rosto; mas até, como íamos dizendo, correu a observar as leis que lhe eram impostas pela natureza, vindo por isso a formar um ângulo de reflexão, igual ao de incidência em virtude da sua elasticidade, operação que teve lugar na cara daquele com quem já estava relacionado. Foi, pois, furando o ovo a natureza, e que ia ser refreada a sua fúria por um transparente vidro, parte constituinte de uma vidraça, que indignado por ver um atentado inaudito, entesou as fibras segurou se no betume e revestindo-se de ânimo esperou o inimigo a pé firme, vendo o ovo preparativos tão hostis redobrou de coragem e velocidade e zás cai sobre o miserável que reduz a mil pedaços, mas ah! Coitado que ele foi vitimado seu furor! Caiu feito em pedaços sobre o ferro frio e impassível!

Foi um som lúgubre e sinistro que anunciou a morte destes dois heróis. Inconcebível desígnio da sorte adversa! O génio mau não quis pôr termo a tão desastrosa catástrofe!

Prosseguiu avante, irritado o senhor da vidraça pela fraqueza de um seu súbdito, começou em contrações nervosas e tão violentas, que de certo as grades voariam, se não fora um novo incidente, que veio pôr termo a um ataque tão terrível.

Uma desgraçada panela rolava furiosamente impelida pela casa, fazendo as delícias duma travessa circunvizinha, que dava agudíssimos gritos ao ver as ligeiras da mísera paciente. Ao rouco e rachado som da panela volta-se exasperado o recém epilético e tomando como insulto feito à sua dignidade, as expressivas cabriolas com que a panela o mimoseava, salta denodadamente sobre a infeliz, que ainda rolava, atraca pelas azas e arroja ao meio do largo o último suspiro, acompanhado dum roufenho gemido. Momento terrível de dor, com imprecações, desordem, tumulto e agitadas desesperações!

Sensações diagonalmente opostas incendiaram e agitaram a multidão e se apoderaram de seus ânimos!

O quarto touro, que ia experimentar a perícia e rigor de seus terríveis e hábeis

perseguidores, foi despojado das armas e completamente reduzido a impassibilidade de um burro!

Os três atores da tragedia altercaram com uma eloquência de Cícero, porém foram interrompidos em sua discussão por uma bravejante coorte de Ciclopes que se arremessaram em todos os sentidos causando mil encontrões e zig-zags. Tarde espantosamente celebre e notória!

Os sucessos que tu viste serão memorizados pelos vindouros por milhares de modos! A História te consagrara duas linhas para eterno monumento de glória!!

Coimbra. Carnaval de 1907 1.jpg

Sem Autor. Episódios do carnaval de 1854, manuscrito. Transcrição Paleográfica de Paula França. Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. JMC/n.º 14, fl. 119

 

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por Rodrigues Costa às 17:55

Quinta-feira, 01.02.24

Coimbra: Viola toeira, na Miami University, em Oxford, Ohio, EUA 2

Concluímos, nesta entrada, a divulgação da publicação onde se relata o trabalho que está a ser desenvolvido na Miami University, relacionado com a revitalização da viola toeira.

A viola toeira e Coimbra

A viola de Coimbra tinha duas denominações distintas: a “Banza” e a “Farrusca,” sendo que o termo Banza descende provavelmente do instrumento africano “Mbanza” levado na memória dos escravos para o Brasil e daí o termo ser utilizado para denominar um instrumento de corda.

Coimbra foi, até às invasões francesas, a universidade do Brasil, os estudantes que vinham estudar na universidade traziam consigo a sua musicalidade, com ritmos, melodias e ambientes harmónicos dos “lundus,” combinando harmonia europeia e ritmos africanos, e a modinha brasileira, baseado na moda portuguesa e sempre acompanhada pela viola. A modinha ficou tão popular que o Jornal de Modinhas foi publicado em Lisboa entre 1792 e 1795. José Ramos Tinhorão confirma que “o costume dos estudantes, tanto de Lisboa quanto em Coimbra, de preencherem as suas horas de lazer com tocatas e cantorias chamadas de estudantinas, levava-os a compor canções.”

Quando um estudante se enamorava era costume convencer alguns dos seus colegas para o acompanhar nas noites mais claras, iluminadas pela lua cheia, pois não existia iluminação publica nas ruas, a cantar à janela da sua amada. Ouvia-se uma serenata deliciosa. Cantando versos como “menina vinde ao luar, vinde ver quem está a cantar,” o instrumento que acompanhava a sua voz era a viola de Coimbra, conhecida agora como viola toeira. Assim nasceu a Serenata, assim nasceu o Fado de Coimbra. Francisco Faria, em Fado de Coimbra ou Serenata Coimbrã?” interroga-se: “Por que chamar a isto fado? Canção coimbrã é uma música de ar livre, a estiolar em ambientes fechados, nos quais perde força expressiva e significado social, para se tornar canção-espetáculo...”

Provavelmente aprenderiam a cantar com familiares e tutores que sorviam a estética parisiense e, no caso da música, a italiana e a austríaca. Por esta razão ouve-se cantar na canção das ruas de Coimbra, a técnica operática do canto lírico que persiste na atualidade e que muito a diferencia do fado de Lisboa. A viola que acompanhava os estudantes era denominada de banza (muito raramente ainda se utiliza hoje expressão como “profissional da banza”). Era semelhante à farrusca a viola dos futricas e tricanas, mas ao nível das decorações era bastante ornamentada e rica segundo a estética barroca, com a utilização de madeiras nobres, madrepérola e marfim.

Quando um estudante se enamorava era costume convencer alguns dos seus colegas para o acompanhar nas noites mais claras, iluminadas pela lua cheia, pois não existia iluminação pública nas ruas, a cantar à janela da sua amada. Ouvia-se então uma serenata deliciosa.

Viola toeira 4.jpg

Eduardo Loio a tocar uma réplica da viola de Bento Martins Lobo. Op. cit.,

Provavelmente aprenderiam a cantar com familiares e tutores que sorviam a estética parisiense e no caso da música a Italiana e austríaca. Por esta razão ouve-se cantar na canção das ruas de Coimbra, a técnica operática do canto lírico que persiste na atualidade e que muito a diferencia do fado de Lisboa. A viola que acompanhava os estudantes era denominada de banza (muito raramente ainda se utiliza hoje expressão como “profissional da banza”). Era semelhante à farrusca a viola dos futricas e tricanas, mas ao nível das decorações era bastante ornamentada e rica segundo a estética barroca, com a utilização de madeiras nobres, madrepérola e marfim.

Revitalização e construção

A viola toeira está a passar por uma revitalização nos últimos anos, com muito interesse nas comunidades académicas e musicais, reconhecendo o potencial de um instrumento com possibilidades expressivas. Com o movimento de early music e o desejo de voltar a usar instrumentos originais na música histórica, vários instrumentos extintos ou esquecidos estão a ser reutilizados em tipos de música antiga e folclórica. A viola toeira cai nesse movimento, e a canção coimbrã.

Em termos acadêmicos, investigadores estão explorando a história e desenvolvimento da viola toeira e música composta para o instrumento, pesquisando a música em arquivos e museus em Portugal e no exterior. Várias teses e dissertações foram escritas recentemente, explorando música disponível como o “Coimbra Codex” em arquivos como a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a Biblioteca Nacional e a Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Outras fontes estão a ser descobertas, e muita informação está disponível na internet. Instrumentos antigos estão a ser estudados também, com exemplares de violas portuguesas de 12 cordas do século XVIII acessível em museus em Portugal e outros países, construídas por António dos Santos Vieira, de Lisboa, exposta no Ashmolean Museum, em Oxford, Inglaterra, a de Pedro Ferreira de Oliveira (Lisboa, c. 1790), da antiga coleção de Arnold Dolmetsch, actualmente no Horniman Museum, em Londres, outra de José Pereira Coelho (Lisboa, c. 1785) no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa.

Uma parte dessa revitalização é a construção de instrumentos, principalmente nas últimas décadas. Construtores redescobriram o instrumento e começaram a construir instrumentos baseados nos exemplares históricos, alguns muito elaborados, outros mais simples. Ultimamente, ateliers e fábricas começaram a produzir instrumentos em número significativo.

A construção da viola toeira respeita as técnicas de construção ibéricas que remontam ao século XVI, em que o braço e o cepo ou bloco da quilha são uma peça única, onde as laterais, ilhargas ou costilhas são coladas em duas ranhuras perpendiculares à mediana do braço, previamente serradas. Este método de construção é muito diferente do utilizado em França e Itália, que emigrou para os Estados Unidos onde a caixa acústica é construída separadamente do braço sendo unidos posteriormente através de um encaixe ou malhete.

A cidade de Coimbra é uma parte essencial da revitalização e a construção da viola toeira, com estudantes, músicos e luthiers amadores e profissionais interessados em construir e tocar o instrumento.

Há muitos websites dedicados às violas portuguesas e à viola toeira, e é possível comprar instrumentos, estojos e cordas em vários países do mundo. Projetos como EcoMusic na Universidade de Aveiro estão a investigar a história e revivalismo do instrumento e outros aspetos da música portuguesa.

A viola toeira tem um passado interessante e variado, e será fascinante ver o que o futuro reserva para esse instrumento.

Viola toeira Imagem 5.jpg

Thomas Garcia a construir uma viola toeira na Coimbra Luthier School. Op. cit.,

Garcia, T.G.C. e Loio, E. A Viola Toeira: História, Desenvolvimento, Revitalização e Construção. Acedido em: https://veduta.aoficina.pt/14/a-viola-toeira/

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por Rodrigues Costa às 19:07

Terça-feira, 30.01.24

Coimbra: Viola toeira, na Miami University, em Oxford, Ohio, EUA 1

Encontrei, com espanto e tristeza, no decurso das minhas buscas pela internet o texto que ora passo a divulgar. Espanto, porque nunca imaginei que uma estrutura deste tipo existisse e muito menos nos Estados Unidos. Tristeza porque Coimbra, mais uma vez, fica mal na fotografia e mais uma vez manifesta a sua faceta madrasta.

Importa salientar que os autores do texto são Thomas George Caracas Garcia, violonista e professor de etnomusicologia na Miami University em Oxford, Ohio, EUA, com especialização em cordafones (sic) e música luso-brasileira e Eduardo Loio, Diretor do projeto Museu da Música de Coimbra, Diretor da Coimbra Luthier School e Coordenador do Núcleo de Estudos da Viola Toeira.

No final desta série, composta por duas entradas, publicarei uma outra, a fim de recordar o que, em 1983, quando era Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra o saudoso Fausto Correia e eu tinha a honra de chefiar o Departamento de Cultura, se implementou relativamente a este instrumento.

A viola toeira é um instrumento indelevelmente ligado à cidade de Coimbra, e foi o instrumento utilizado pelos estudantes da universidade para as serenatas que evoluíram até serem conhecidas como o Fado ou Canção de Coimbra. A viola foi utilizada até o início do século XX pelos estudantes e até à segunda metade do século XX pelo povo (futricas). Poucos instrumentos sobreviveram, a maioria localizados em museus. A influência do instrumento, entretanto, pode ser sentida no mundo lusófono até os presentes dias. Recentemente, um movimento de recuperação e reutilização da viola toeira desenvolveu-se, com músicos portugueses e de outros países redescobrindo o seu potencial e beleza como um instrumento expressivo. Instrumentos contemporâneos são construídos em ritmo crescente tanto por luthiers profissionais quanto por amadores, atestando a importância da viola toeira no contexto artístico do país.

GIL VICENTE, AUTO DE INÊS PEREIRA

Sey bem ler

e muyto bem escreuer,

e bom jugador de bola,

e quanto a tanger viola,

logo me ouuireis tanger.

Viola toeira, imagem 1.jpg

Nova Arte de Viola de Manoel da Paixão Ribeiro a mostrar 12 cordas em 5 ordens. Op. cit.

(Obra impressa em Coimbra na Imprensa da Universidade, em 1789).

 Introdução

 A viola toeira, a viola de Coimbra, é um instrumento que ficou praticamente extinto do uso diário no século XX. Ela é uma das violas tradicionais portuguesas que são todas do mesmo tipo fundamental. Essa espécie de viola usava 12 cordas de arame ou tripa organizadas em 5 ordens, um padrão em Coimbra descrito no livro Nova Arte de Viola do Manoel da Paixão Ribeiro, publicado em 1789. Paixão Ribeiro é de Coimbra e refere-se à viola coimbrã do seu tempo, que se terá mantido basicamente inalterável até hoje. Era um instrumento muito importante na vida musical dos estudantes da Universidade de Coimbra até à segunda metade do século XIX, ouvida nas músicas cantadas pela cidade. Entrou em declínio no final desse século, quando foi substituída pela guitarra portuguesa de Coimbra, atualmente usada no Fado de Coimbra, que cresceu dessa música dos estudantes ao ponto de se transformar no que é conhecido hoje, que tem pouco a ver com o Fado de Lisboa.

 Da viola à viola toeira

A viola toeira caracteriza-se pela sua silhueta semelhante à vihuela e viola barroca, boca elíptica predominantemente perpendicular ao sentido das cordas, uma cabeça em forma de lira. Era encimada por um disco solar ou lua cheia às vezes decorado com grafismos gravados na madrepérola. A ponte é muito de acordo com a estética barroca com curvas delicadamente esculpidas em madeira densa. Era armada com ordens de cordas duplas e triplas na afinação mi si sol ré lá, a mesma afinação da viola barroca e viola da terra dos Açores. A viola em Portugal começa a mudar para o instrumento conhecido hoje ainda no final do século XVIII, quando a viola de arame é mencionada pela primeira vez. E a julgar pela Nova Arte de Viola de Manoel da Paixão Ribeiro, na década de 1780, o repertório tanto da viola de tripa quanto da viola de arame era essencialmente o mesmo, embora, segundo Paixão Ribeiro, exigisse do tocador “uma grande modificação nos dedos para sacarem bons vozes,” depois de alguma prática, “a viola se não diferença de hum Cravo.”

Viola toeira Imagem 2.jpg

Viola toeira do Bento Martins Lobo. Op. cit.

A denominação viola toeira foi recolhida por Octaviano de Sá nas oficinas dos construtores da cidade e publicada numa crónica no jornal O Primeiro de Janeiro e divulgada pelo musicólogo Armando Leça no seu livro Música Popular Portuguesa e em seguida devido a uma necessidade de diferenciação regional das várias violas tradicionais portuguesas foi generalizada por Ernesto Veiga de Oliveira em Instrumentos Populares Portugueses. Acreditamos na possibilidade ser esta viola que dava o tom para outros instrumentos afinarem quando tocava em conjunto.

A viola toeira usava cordas de tripa e arame, mas não era o único instrumento a usar mais que um tipo de cordas. A viola barroca era armada com cordas de tripa quando tangida dentro de portas e com cordas metálicas quando tocada na rua. Podemos especular que, com o início da Revolução Industrial, ainda com a água como força motriz, começa a chegar à cidade do Porto trazido pelos ingleses um novo tipo de liga metálica que estava a ser desenvolvida para o piano. Esse material que chegava a Portugal em rolo denominava-se em português arame musical. Poderá ser esta a explicação para viola de arame para as violas tradicionais portuguesas. No entanto poderemos afirmar que a toeira seria armada com cordas de tripa e gradualmente, devido à durabilidade e preço das cordas passou a ser definitivamente armada com cordas metálicas. Segundo Paixão Ribeiro, eram utilizadas cordas de latão, cordas de prata e cordas banhadas a ouro.

Segundo o historiador António Nunes, a viola toeira atingiu o seu verdadeiro pico nas décadas de 1850 e 1860, devido ao primoroso fabrico dos Irmãos Bruno e ao virtuosismo de José Dória, no que respeita ao fabrico é importante referir a viola construída por Bento Martins Lobo para a exposição de Coimbra em 1884 e a continuidade dada por António Augusto dos Santos e Raul Simões. A viola toeira dava o som e o caráter da serenata coimbrã, mas com a aparência da guitarra portuguesa, que começara a ser utilizada em Coimbra por volta de 1860; a viola toeira saiu da moda.

Garcia, T.G.C. e Loio, E. A Viola Toeira: História, Desenvolvimento, Revitalização e Construção. Acedido em: https://veduta.aoficina.pt/14/a-viola-toeira/

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por Rodrigues Costa às 18:44

Quinta-feira, 25.01.24

Coimbra: Extinção da Roda dos Expostos

Não tendo conseguido encontrar imagens da roda de Coimbra, apresentamos imagens de duas das que existiram no País.

Atualizamos a ortografia para facilitar a leitura dos textos.

Às 7h da manhã do dia 2 de julho de 1872 a Roda dos Expostos de Coimbra fechou para sempre.

Roda dos expostos. Sortelha.jpg

Roda dos expostos de Sortelha. Imagem acedida em: https://capeiaarraiana.pt/2019/01/19/expostos-no-antigo-concelho-de-sortelha/

Roda dos expostos Santa Maria.jpg

Roda dos expostos (Recolhimento de Santa Maria Madalena, Ilha de Santa Maria (Açores), Portugal). Imagem acedida em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/87/Roda_expostos_1.jpg

A abertura do Hospício dos Abandonados, que a substituía, vinha finalmente concretizar a proposta de extinção da Roda apresentada à junta geral do distrito a 25 de abril de 1870 pelo Doutor Manuel Emídio Garcia (1838-1904) e que então se receara pôr em prática.

Não sei quem assistiu ao ato do encerramento da Roda, mas estou em crer que o Doutor João António de Sousa Dória (1814-1877), primeiro diretor do Hospício', terá feito ponto de honra em ser ele próprio a encerrá-la.

…. Ninguém em Coimbra tinha memória de não haver Roda dos Enjeitados, que funcionava na cidade pelo menos desde 1700, há 172 anos.

…. Em meados do século XIX crescia a contestação ao abandono livre e em 1867, pelo decreto de 21 de novembro, o ministro Martens Ferrão ousara abolir as rodas em todo o país. Agia antes do tempo, pois escassos quatro meses depois a medida foi revogada pelo decreto de 20 de março de 1868. Mas à falta de lei geral, algumas juntas de distrito, por sua iniciativa, acabaram por aplicar nos seus espaços o que se projetara para o país, abrindo-se hospícios distritais

…. Contrariamente ao que a palavra indicia, o Hospício dos Abandonados de Coimbra nunca foi um hospício na verdadeira aceção da palavra, um internato, porque as crianças só aí permaneciam temporariamente até serem distribuídas por amas externas, tal como sempre se praticara na Roda. Assim sendo, as crianças do Hospício viviam por todo o distrito, e até fora dele, em casa das amas. O que distinguia a antiga Roda da nova instituição era, portanto, fundamentalmente, o processo de admissão.

…. O Hospício manteve-se nas antigas instalações da Roda, um edifício que, como se disse, fora enfermaria e hospedaria do extinto mosteiro de Santa Cruz e é atualmente a Escola Secundária Jaime Cortesão.

Roda, pg. 176.jpg

Edifício onde funcionou o Hospício dos Abandonados, fotografado a 3 de janeiro de 1935 quando foi demolida a Torre de Santa Cruz que lhe estava adjacente. Op. cit., pg. 176

…. Segundo o Regulamento do Hospício de Coimbra (1872), só eram admitidas "as crianças encontradas em abandono, em qualquer lugar publico ou particular, sem que se lhes saiba a procedência parental" …. Além destas crianças, que eram as expostas, a nova instituição também recebia "...todos os dias, das 9 horas da manhã até ás 4 da tarde, e ali se conservarão provisoriamente, até que, por despacho da autoridade competente, sejam definitivamente admitidas, as crianças menores de sete anos, que estiverem nos seguintes casos:

1.° Se seus pais houverem desaparecido e as tiverem abandonado.

2.° Se forem filhos de pessoas miseráveis que estejam presas, condenadas a prisão ou degredo, ou sofram moléstia grave; não tendo em qualquer destes casos recursos para se sustentarem e a seus filhos, nem parentes com obrigação de os alimentar e recursos para isso, nos termos do art.º 294 do Código Civil".

3.° Se forem órfãos desamparados.

…. O Hospício acolhia também os chamados repostos, crianças devolvidas pelas amas, o que podia ser apenas para se curarem. Não esqueçamos que o Hospício era dirigido por um médico. Houve ainda alguns expostos que por serem deficientes físicos ou mentais, aí permaneceram durante anos, embora o regulamento o não previsse. Foram sempre muito poucos, abaixo da dezena.

…. O que distinguia o Hospício da Roda — a não liberdade de abandono que passara a comportamento ilegal e criminalizado — teve como consequência imediata a redução espetacular do número de expostos. Reproduzo o gráfico porque é eloquente.

Roda, pg. 179.jpg

Op. cit., pg. 19

Como se visava acima de tudo diminuir o número de crianças a cargo das finanças públicas, a opção pelo Hospício foi de facto, em Coimbra, um êxito rotundo.

Lopes, M.A. Assistência pública à infância após a extinção da Roda dos Expostos: Hospício dos Abandonados e crianças maiores de sete anos (distrito de Coimbra, 1872-1890). In: Da caridade à solidariedade: Políticas públicas e práticas particulares no Mundo Ibérico, pg. 173 a 192. 2020. Braga. Universidade do Minho. Laboratório de Paisagens, Património e Território - Lab2PT.

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por Rodrigues Costa às 19:24

Quarta-feira, 17.01.24

Coimbra: Cataventos

Relembramos um trabalho do Dr. Mário Nunes, editado no ano de 2000, sob a chancela do Grupo de Arte e Arqueologia do Centro.

Cataventos, capa a.JPGCataventos de Coimbra, capa

Nos livros antigos de "Horas" e "Cronicões", as iluminuras quando representam castelos ou palácios, mostram os cumes dos torreões encimados de bandeiras em toda a sua grandeza.

As bandeiras e o seu uso associavam-se à nobreza.

Cataventos. Livro_das_Fortalezas_83-_Miranda_do_DoCastelo de Miranda do Douro. Imagem acedida em; https://pt.wikipedia.org/wiki/Livro_das_Fortalezas#/media/Ficheiro:Livro_das_Fortalezas_83-_Miranda_do_Douro.jpg 

…. As bandeiras, de diversos panos e cores, a drapejar, permanentemente, ao vento, deterioravam-se com facilidade. Surgiram a remediar os efeitos negativos e a substituir o pano, bandeiras de ferro, reduções das de pano, e que passaram a ocupar, também, os pináculos dos castelos, palácios e mosteiros. Avistavam-se ao longe e mostravam o brasão do seu proprietário. Porém, como aquelas bandeiras eram rígidas, houve necessidade, de as tornar móveis em torno de um eixo, para não se danificarem ou caírem quando sopravam ventos mais fortes. E, desta maneira, as bandeiras transformaram-se, de simples ornamentos em indicadores da direção do vento, retomando o préstimo que os gregos e os outros povos lhes tinham dado.

Cataventos Lanternim do zimbÔö£Ôöério da SÔLanternim do zimbório da Sé Nova. Op. cit., pg.  75

Cataventos,  pg. 21.jpgOp. cit., Pg. 21

O cata (procura) vento, é, como referimos nos dados históricos, um instrumento que serve para indicar a orientação do vento, e que atua, também, como motivo ornamental dos edifícios.

 … O FERRO FORJAD0 E OS CATAVENTOS DE COIMBRA

 

Cataventos, pg. 33.jpgOp. cit., pg. 33

Coimbra, a "cidade das grades", na designação de Vergílio Correia, acolheu a arte e a beleza do ferro forjado. Executaram-se "autênticos monumentos", que consagraram o pendor criativo daqueles que lhe deram forma.

Cataventos, pg. 37.jpgOp. cit., pg. 37

António Augusto Gonçalves ao criar, em 1878, a Escola Livre das Artes do Desenho, lançara os alicerces da arte que fez nascer alfobres de artesãos e de artistas.

Cataventos, pg. 71.jpgOp. cit., pg. 71

Em 1900, ao deslocar-se à Exposição Universal de Paris e ao confrontar os trabalhos expostos, rendeu-se à serralharia, um ofício que fornecia objetos aplicados na arquitetura, quer fosse ferro fundido, quer ferro forjado.

 

Cataventos, pg. 45.jpgOp. cit., pg. 45

Ao regressar à Lusa-Atenas não hesitou em introduzir na Escola, juntamente com Joaquim Martins Teixeira de carvalho e João Machado, a arte que o fascinara em Paris. E, a primeira obra saída desta temática foi para o monumento funerário de Olímpio Nicolau Rui Fernandes.

Cataventos. Olimpio b.jpgBase do monumento funerário de Olímpio Nicolau Rui Fernandes. Col. RA

 Nunes, M. Cataventos de Coimbra. Fotografia de António Quinteira, João Azevedo, Mário Afonso Nunes, Coimbra, Grupo de Arte e Arqueologia do Centro.

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por Rodrigues Costa às 12:41

Terça-feira, 19.12.23

Coimbra: Implantação de República 3

Continuando a debruçar-nos sobre a obra Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação, de Carlos Santarém Andrade, abordaremos de seguida o último capítulo dedicado à Proclamação da República em Coimbra.

Segunda parte.

Na tarde do dia 13 de Outubro teria lugar a tomada de posse da Comissão Administrativa Municipal. Leia-se, sobre o acto, «A Defesa", do dia seguinte: "Foi ontem aclamada e tomou posse a comissão administrativa que há-de gerir os negócios municipais até às próximas eleições. Pelas 2 horas e meia da tarde, a convite do administrador do concelho, reuniu-se na sala nobre dos Paços Municipais o povo desta cidade". O jornal prossegue a descrição do acto, com a relação dos membros efectivos, constituída, entre outros vultos republicanos, pelo Dr. Sidónio Pais e António Augusto Gonçalves, respectivamente presidente e vice-presidentes da comissão, acrescentando: "Uma estrondosa salva de palmas acolhe a leitura desta lista, que se prolonga à medida que o Sr. Secretário da Câmara vai proclamando cada um dos nomes dos escolhidos e estes vão tomando o lugar que lhes é reservado".

CR.Op. cit., pg. 151.jpgSidónio Pais, 1.º Presidente da Comissão Administrativa Municipal. Op. cit., pg. 151

CR pg. 151 a.jpgAntónio Augusto Gonçalves. Vice-Presidente da Comissão Administrativa. Op. cit., pg. 151

 Seguem-se vários discursos: "Todos os oradores são muito aplaudidos, e entusiasticamente correspondidos os vivas soltados à República Portuguesa, à Pátria, ao Exército, à Marinha, ao Povo de Lisboa, à Câmara Republicana". Continua o jornal: “Encerrada a sessão, repetem-se os aplausos e os vivas à nova vereação, que se prolongam por vários minutos". E a terminar, "A banda do 23 tocou a «Portugueza» no átrio dos Paços Municipais.

A proclamação da República em Coimbra, que decorrera com normalidade, viria a ter um incidente que ocorreu na Universidade, quando um grupo de estudantes radicais, auto-denominado de ”Falange Demagógica'', provocou, no dia 17 de Outubro, distúrbios nas instalações universitárias, partindo peças de mobiliário, rasgando algumas vestes doutorais, destruindo mesmo diversos adereços na Sala dos Capelos, em que foram disparados tiros que atingiam os retratos de D. Carlos e de D. Manuel II.

CR.DisturbiosnaUniversidade.jpg

Distúrbios na Universidade. Op. cit., pg. 150

O acto, reprovado geralmente, incluindo a imprensa republicana, foi justificado pelos seus autores, num manifesto "Aos Espíritos Livres», no dia 18, em que declaravam: "Eis porque meia dúzia de caracteres impolutos que não se deixaram arrastar por essa onda de corrupção ignominiosa, vêm agora, impelidos por um nobre e altivo sentimento, livres das peias de preconceitos atávicos, quebrar os grilhões malditos que arroxeavam os pulsos de centenas de gerações".

Entretanto é nomeado Reitor da Universidade Manuel de Arriaga, que chega a Coimbra acompanhado por António José de Almeida, Ministro do Interior, sendo recebidos por uma enorme multidão na Estação Nova.

CR. Op. cit., pg. 153. chegada.jpgChegada de António José de Almeida e de Manuel de Arriaga à estação de Coimbra. Op cit., pg. 153

 E no dia 19 de Outubro reabria a Universidade, sendo o novo Reitor empossado no cargo por António José de Almeida. O acto, que decorreu sem as tradicionais    praxes académicas, foi relatado, no dia 27 de Outubro, pelo jornal "A Tribuna": "Usando da palavra, o Sr. Dr. António José de Almeida, começa por dizer que veio expressamente a Coimbra para, em nome do Governo Provisório da República, apresentar aos professores e alunos da Universidade o novo Reitor Manuel de Arriaga, a quem se faz uma entusiástica manifestação de carinho e respeito que profundamente o comove".

CR. Op.cit., pg. 153 MA.jpgManuel de Arriaga. Op. cit., pg. 153

 Usou da palavra em seguida o novo Reitor, que agradeceu com um discurso, findo o qual, como acrescenta o jornal: “Muitos lentes, seus condiscípulos e amigos, correm a abraçar o venerando velhinho cuja suave figura todos infunde um respeito profundo, uma carinhosa simpatia. O público dispensa-lhe uma carolíssima manifestação em que os vivas e as palmas se sucedem e se prologam”.

Em favor das vítimas da revolução em Lisboa, tem lugar no dia 1 de Novembro, em Coimbra, um bando precatório para angariar fundos, que saiu dos Paços do Concelho, percorrendo várias ruas da Cidade.

CR pg. 154a.jpgBando precatório para angariar fundos. Op. cit., pg. 154

ambém no dia 6 de Novembro, comemorando o 30.º dia da proclamação, é descerrada a lápide dando o nome de Praça da República ao largo até então denominado D. Luís.

CR pg. 154 b.jpgConvite comemorativo do 30.º dia da proclamação da República. Op. cit., pg. 154

Andrade, C.S. Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação. 2022. Coimbra, Edição Lápis da Memória.

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por Rodrigues Costa às 11:58

Sexta-feira, 01.12.23

Coimbra: Implantação de República 2

Continuando a debruçar-nos sobre a obra Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação, de Carlos Santarém Andrade, abordaremos de seguida o último capítulo, dedicado à Proclamação da República em Coimbra. Primeira parte.

No dia 4 de Outubro, o jornal "Defeza", de Coimbra, dá-nos uma curta, embora destacada, notícia sob o título "Revolução em Lisboa?", sem adiantar desenvolvimentos.

"A Tribuna", do dia 5, dá mais pormenores, no artigo "A revolução de Lisboa", sobre os sucessos na capital, descrevendo vários episódios da luta travada no dia anterior, mas cujo desfecho era ainda desconhecido. Sobre o assassínio de Miguel Bombarda, no dia 3, por um dos seus doentes do foro psiquiátrico, tenente do exército, informa-nos ser o seu autor natural de Coimbra, onde fez os Preparatórios para a Escola do Exército, tendo prestado serviço como alferes no Regimento de Infantaria 23, aquartelado nesta cidade. Sem conhecimento do rumo dos acontecimentos, os republicanos viveram horas de angústia e ansiedade, decidindo enviar a Lisboa um emissário para se inteirar do que se passava.

CR pg. 147a.jpgJornal “Defeza”, de Coimbra. Op. cit., pg. 147

No dia 5, à noite, corre em Coimbra que a República fora proclamada, o que provoca que, na Praça do Comércio (onde se situava o Centro José Falcão) se juntasse muita gente. E quando, cerca das 3 horas da manhã do dia 6 de Outubro, um emissário do governo republicano, entretanto formado, confirma a proclamação da República, há grandes manifestações de regozijo, acompanhadas do lançamento de foguetes, sendo arvorada no edifício da Câmara e na Universidade a bandeira republicana, como nos informa o "Notícias de Coimbra", do dia 8 de Outubro. O mesmo jornal descreve que "a filarmónica «Boa União» toca a «Portugueza», formando-se um cortejo em direcção ao Governo Civil, aonde se encontra já o novo Governador Sr. Dr. Fernandes Costa".

CR O alferes medico sr. João Augusto Ornellas, fa

O alferes medico sr. João Augusto Ornellas, falando ao povo das janellas da Camara de Coimbra, após a notificação da proclamação da Republica. In: Illustracção Portugueza, II-1910, n.º 224, Lisboa, 1910.10.24, p.539.

CR. Op. cit, pg.148.jpg

Dr. Fernandes Costa. 1.º Governador Civil de Coimbra após a implantação da República-Op- cit., pg. 148

Na sede do Governo Civil (então, na Rua Larga, onde hoje se encontra a Faculdade de Medicina) a passagem do testemunho do até então governador, Dr. José Jardim, faz-se com toda a urbanidade, sendo mesmo cumprimentado à saída do edifício. O extenso cortejo regressa à Baixa, ao som de vivas à Liberdade e à República, terminando na Praça do Comércio, cerca do meio-dia.

À uma da tarde desse dia 6 de Outubro estava prevista a proclamação da República nos Paços do Concelho. E essa tem lugar perante o Dr. Fernandes Costa e a vereação que até aí gerira o município, e que então pede a demissão. Como informa o mesmo jornal, no Salão Nobre completamente cheio, "esta cerimónia termina por constantes vivas à Pátria, a Portugal, ao exército e armada e à República, no meio do maior e mais indiscritível entusiasmo", que acrescenta: "Duas bandas de música, a «Boa União» e a «Conimbricense», tocam em frente, no largo, formando-se, em seguida novo cortejo, composto por milhares de pessoas que percorre, com as duas filarmónicas, várias ruas da cidade".

CR- O povo depois do discurso do sr. João Ornella

O povo depois do discurso do sr. João Ornellas a caminho do quartel de infantaria 23. In: Illustracção Portugueza, II-1910, n.º 224, Lisboa, 1910.10.24, p.539.

CR pg. 150a.jpgAuto da Proclamação da República em Coimbra em 6 de Outubro de 1910. Op. cit., pg. 150

Também o quartel do Regimento de Infantaria 23, então na Rua da Sofia, pelas quatro da tarde, se associa à proclamação, hasteando no seu mastro a bandeira do novo regime. Momento registado pelo referido periódico: "Há então um indiscritível entusiasmo, a que se associam os soldados, erguendo vivas à República e confraternizando com o povo. Ouvem-se pouco depois os primeiros acordes da «Portugueza»”. É a banda militar que a toca. Novas manifestações, igualmente calorosas, se ouvem, com vivas ao exército e à armada". À noite seriam iluminados os edifícios públicos e mesmo casas particulares, percorrendo as ruas da cidade grupos de populares em marchas «aux flambeaux». No dia seguinte novas manifestações de alegria teriam lugar em vários pontos de Coimbra.

Uma nota muito curiosa é-nos ainda revelada pelo jornal: "É agora cumprida a disposição testamentária do falecido Dr. Inácio Roxanes, em virtude da qual, no dia da implantação da República, devia ser distribuída a quantia de 100$000 réis pelos pobres da freguesia de Santa Cruz, desta cidade. O respectivo testamenteiro anda cumprindo já a referida disposição".

 Andrade, C.S. Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação. 2022. Coimbra, Edição Lápis da Memória.

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por Rodrigues Costa às 12:22

Quinta-feira, 30.11.23

Coimbra: Implantação de República 1

Carlos Santarém Andrade, cerca de um mês antes da sua partida, apresentou aquele que foi o seu último livro, Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação.

CR badana.jpgCarlos Santarém Andrade ( .Coimbra, 2022). Op. cit., badana

Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação.

CR capa.jpgOp. cit., capa

O livro assenta num aturado trabalho investigativo que honra o seu Autor e que representa um muito digno fecho de uma vida dedicada à cidade de Coimbra.

Carlos Santarém analisa, na obra em apreço e ao longo de nove capítulos, o percurso do ideal republicano em Coimbra. No primeiro aborda o tema Da Patuleia à Geração de 60 e dele destacamos o que se segue:

À Universidade de Coimbra, em meados do século XIX, afluía a geração dos filhos dos revolucionários liberais de 1820, muitos dos quais deram a sua vida ao serviço da causa da liberdade, nos batalhões académicos da Guerra da «Patuleia» em 1844 e 1846, e que viriam a mostrar o seu desapontamento contra os termos da Convenção de Gramido, imposta por potências estrangeiras.

Era então Coimbra como que uma placa giratória, a que convergiam jovens de Lisboa e do Porto, onde as ideias liberais estavam mais difundidas, que aqui conviviam com outros jovens vindos dos mais variados pontos do país e que, no regresso às suas terras ou regiões levavam, a par do canudo de bacharel, o conhecimento dessas ideias, amplamente discutidas durante os anos do seu curso, quer em acaloradas reuniões e assembleias no Teatro Académico, quer nas mesas de pinho das tascas coimbrãs.

1848 é uma data importante nas lutas pela liberdade na Europa. Em 23 de Fevereiro é proclamada a II República Francesa, que levaria à abdicação do rei

Luís Filipe, a que se seguiu em Março a revolução liberal em Viena, que poria fim ao governo autoritário do príncipe Metternich. Ainda em Março desse ano tem lugar a revolução demo-liberal de Berlim, havendo igualmente levantamentos nacionalistas em Itália, então ainda não unificada. Todos estes factos se iriam repercutir na Europa de então.

Na sequência dos acontecimentos, surge em Coimbra uma mensagem dos estudantes da Universidade, datada de 9 de Abril de 1848, subscrita por mais de

400 assinaturas (sensivelmente metade da população académica), dirigida aos seus colegas de Paris, Viena, Berlim e Itália.

CR pg. 10a.jpgTexto da mensagem dos estudantes de Coimbra aos seus colegas de Paris, Viena, Berlim e Itália. Op. cit., pg. 10

Não podendo ser considerado um manifesto republicano é, porém, um hino à democracia, à luta contra a tirania, lembrando que eles próprios se sentiram traídos “pela santa aliança dos reis" que acabaria por "ingerir-se na nossa causa, arrancaram-nos as armas e atar o pobre Portugal ao poste dos vencidos para continuar a escarnecê-lo", e em que os princípios da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade, Fraternidade - estão bem patentes.

Não deixa de ser significativo o aparecimento, em 25 de Abril de 1848, de um jornal clandestino, em Lisboa, intitulado "A República".

Significativa é também a existência de uma participação policial, datada de 16 de Agosto de 1849, que nos dá conta de dois indivíduos, numa tasca da baixa coimbrã, terem dado vivas à república, sendo levados para a cadeia da Portagem, tidos por elementos das forças rebeldes e apodados de vadios.

CR pg. 11a.jpgParticipação oficial de 16 de Agosto de 1849. (Cópia cedida pelo Dr. Paulino Mota Tavares). Op. cit., pg. 11

Na década de 60 do século XIX aflui a Coimbra uma geração a vários títulos notável. É fundada em 1861 a «Sociedade do Raio» que contava, entre os seus membros, além de outros, com Antero de Quental, figura maior dessa geração.

Andrade, C.S. Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação. 2022. Coimbra, Edição Lápis da Memória.

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:22

Sábado, 28.10.23

Coimbra: Diploma dionisiano da fundação primitiva da Universidade

Em 1990, no âmbito da celebração do sétimo centenário da universidade em Portugal, o Arquivo da Universidade de Coimbra procedeu à reedição de um pequeno livro da autoria do seu organizador e seu primeiro diretor, Doutor António de Vasconcelos.

António de Vascocelos.jpg

Imagem acedida em: http://ww3.aeje.pt/avcultur/AvCultur/ArkivDtA/Vol06/Vol06p046.htm

Diploma Dionisiano, capa.jpg

Op. cit., capa

Na apresentação do livro o Doutor Manuel Augusto Rodrigues, acentuava que O texto que agora se publica saiu do prelo pela primeira vez em 1922, quando o Dr. Vasconcelos descobriu, interpretou e deu a conhecer ao público “a certidão de nascimento, de “Alma Mater Conimbrigensis”.

Do texto publicado pelo Doutor António de Vasconcelos, apresentamos a seguinte síntese.

Há uma penúria extrema de documentos relativos à Universidade portuguesa, durante os primeiros anos da sua existência. Alguns, que se conhecem, chegaram até nós, por via de regra, em cópias tiradas de certidões ou de públicas-formas, e alguns apenas nos registos das chancelarias, Um único diploma original se conhecia, há 25 anos: a bula de Nicolau IV, «De statu Regni Portugaliae», que se acha depositada na Torre do Tombo, maço 12 de bulas, n.º 2.

E dá-se um facto, que é muito de estranhar: nem sequer por cópia ou registo havia notícia de diploma algum do fundador D. Dinis, durante a primitiva estada da Universidade em Lisboa! Os mais antigos documentos universitários do rei-lavrador, de que restava notícia, eram: - uma carta passada em Leiria a 27 de Novembro de 1308, em que é concedido aos escolares, que tenham açougues, carniceiros, vinhateiros, padeiras, e almotacés privativos; e a «carta magna priuilegiorum» datada de Lisboa em «quinta decima die mensis februarii, era milésima trecentésima quadragesima» (a. D. 1309), pela qual, em linguagem carinhosa e com cuidados paternais, D. Dinis conferiu largas mercês e privilégios à sua Universidade. Já a esse tempo se achava trasladada para Coimbra. São conhecidos estes dois diplomas pela transcrição que deles se fez em uma carta de confirmação de D. Fernando, de 20 de Maio de 1367, a qual se encontra copiada no «Livro Verde» e no «Códice Joanino», manuscritos do século XV existentes no Arquivo da Universidade.

Documentos originais dos reis da primeira dinastia, que dissessem respeito à Universidade, não eram conhecidos; todos eles se perderam com exceção de um apenas, em pergaminho, que se acha guardado no arquivo deste estabelecimento. É de somenos importância: uma carta de D. Fernando, da «Era de mil e iiije e dez e noue anos», que corresponde ao ano de 1381, pela qual são isentos os mantimentos, que vieram para o Estudo, de todos e quaisquer direitos de dizimas e portagens.

Triste penúria de documentos!

Pois existia, ignorado de toda a gente, um notabilíssimo diploma, escondido num pulverulento armário de castanho dum arquivo particular, que eu tive a singular fortuna de descobrir em 1912. Alvoroçado, apressei-me a dar conhecimento dele ao público na «Revista da Universidade de Coimbra», classificando-o justamente de «Um Documento Precioso».

Diploma Dionisiano, capa, pormenor 1.jpg

Op. cit., capa pormenor

É, nada mais, nada menos, que o próprio diploma original, expedido por el-rei D. Dinis da cidade de Leiria na quarta-feira depois do 2.° domingo da Quaresma, a 1 de Março de 1290, pelo qual fundou o Estudo-Geral na cidade de Lisboa, organizando-o «com cópia de doutores em todas as artes» ou faculdades, «roborando-o com muitos privilégios».

O cavalheiro, meu excelente e velho amigo, em cuja posse estava tal cimélio, apenas soube a natureza e importância suma daquele pergaminho, apressara-se a oferecer-mo para eu, ao tempo diretor do Arquivo da Universidade, o guardar naquele estabelecimento; impondo, entretanto, a cláusula de sigilo inviolável, relativamente a quem foi o generoso doador!

Como e onde foi conservada durante mais de 6 séculos esta notabilíssima e interessantíssima joia documental? Nada se sabe ao certo a tal respeito, senão isto: - o diploma é uma carta aberta, de que devem ter sido passados muitos exemplares perfeitamente iguais, e todos autenticados com a aposição do selo; para constar em todo o país, foram esses exemplares expedidos aos bispos, aos cabidos, aos ricos-homens, aos municípios, aos principais mosteiros, etc. De todos eles nenhum, que se saiba, se conservou até ao presente, senão este.

Estaria sempre em poder da família, em cujo arquivo o fui encontrar? Tenho razão para crer que não. Há no verso deste pergaminho uma nota, lançada por qualquer escrevente na 2.ª metade do século XVI, ou talvez no século XVII, da qual se depreende que a esse tempo se achava o pergaminho no cartório duma igreja, provavelmente duma catedral, e devia pertencer ao pecúlio documental dessa igreja. Dali se tresmalhou depois.

… O notável diploma é alguns meses anterior à concessão da bula de Nicolau IV, a cuja data se costuma reportar a fundação da mesma Universidade. Bastaria esta consideração, se outras não houvesse, para com justa razão se classificar de precioso tal documento.

Passemos a descrevê-lo: pergaminho regularmente conservado, escrito em uma só face, e que mede de altura 0,20 m por 0,145 m de largura.

Diploma Dionisiano, capa, pormenor 2.jpg

Op. cit., capa pormenor do selo

Tem pendente por trancelim de fios de algodão brancos e azuis o «selo de autoridade» de D. Dinis, impresso em cera branca: o que aumenta consideravelmente o valor do diploma, pela extrema raridade desta espécie de selos entre nós.

Vasconcelos, A. O diploma dionisiano da fundação primitiva da Universidade portuguesa. (1 de março de 1290).1990, Arquivo da Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 12:44

Quinta-feira, 21.09.23

Coimbra: Reservatório de água do Jardim Botânico

Prosseguindo na divulgação do texto do Professor Doutor Amado Mendes, inserido na brochura Abastecimento de água a Coimbra: Reservatório do Botânico, dedicamos esta entrada à referida estrutura, conhecida de muitos poucos.

Aquando dos primórdios do abastecimento domiciliário de água a Coimbra, cujo sistema primitivo foi instalado em 1888 e entrou em funcionamento em meados de 1889, como se disse já, foram construídos dois reservatórios: um na Cumeada (considerado o principal e que se mantém em funcionamento), destinado ao abastecimento da zona mais elevada da cidade; o outro (especial, segundo os termos do contrato), na Cerca de São Bento / Jardim Botânico, que desde há anos se encontra desativado.

RB. Reservatório do Botânico.jpg

Reservatório do Jardim Botânico, na atualidade. Foto RC

 O primeiro, localizado a uma cota de108 m, era o principal e enquadra-se na classificação de grande, pois a sua capacidade ultrapassa os 5000 m3. Por seu lado, o segundo, a uma cota de 50 m, era de média dimensão, pois tinha a capacidade de 3000 m3.

RB pg. 7.jpgReservatório do Jardim Botânico (desativado) Op. cit., pg. 7

Como são raros os reservatórios enterrados desativados, o do Jardim Botânico é um belo exemplar do património industrial da água, pelo que se reveste da maior relevância histórica e científica, suscetível de despertar interesse no âmbito do turismo cultural, a nível não só local, mas também nacional e internacional.

No que toca à sua localização, verificou-se uma certa hesitação inicial, não só pela natureza da respetiva área (parte integrante do Jardim Botânico, com toda a carga histórica e científica), mas também pela pouca adequação do terreno ao fim em vista. Aliás, praticamente na altura em que o sistema de abastecimento de água a Coimbra estava prestes a entrar em funcionamento (primeira metade do ano de 1889), já se manifestavam preocupações acerca da consolidação da estrutura. Com efeito, pode ler-se em ata camarária, acerca de alguns aspetos do empreendimento:

«Consolidação dos terrenos, na cerca de S. Bento, junto à casa das máquinas, que ameaçavam desmoronar-se; colocação de um portão de ferro no Arco da Traição, para serventia do reservatório das águas das zonas média e baixa da cidade»". Numa outra ata volta a focar-se o assunto, apontando as deficiências: «não foram construídos anexos da casa das máquinas; os reservatórios perdem quantidades de água assinaláveis; o reservatório das zonas média e baixa [Reservatório do Botânico] está ameaçado por desabamento de terras; o terreno vizinho ameaça escorregar por não ter sido drenado; não funcionam os indicadores elétricos de níveis de água».

RB. pg. 8.jpg

Op. cit., pg. 8

… Uma observação atenta do Reservatório do Botânico permite-nos observar, «in loco», parte do que geralmente é referido nas publicações da especialidade e, bem assim, na própria legislação que enquadra este género de estruturas.

Comecemos pelo exterior.

Aqui destaca-se uma pequena construção (em alvenaria e tijolo e com janelas), à qual o Presidente da Câmara Municipal de Coimbra se referia como a "casa das máquinas", na qual estava instalado o equipamento de controlo do Reservatório. Embora de pequenas dimensões, uma vez que já não alberga equipamento e que acaba de beneficiar de obras de consolidação, manutenção e restauro, esta pequena “casa” pode ser utilizada pra diversas funções culturais:   espaço de exposições permanentes ou temporárias), centro de interpretação (sobre o património hidráulico da cidade e do próprio Botânico, local de realização de atividades lúdico-pedagógicas, etc.).

No amplo espaço envolvente, de terreno com alguma vegetação e que pode bem ser ajardinado, para ali também se efetuarem eventos adequados, entre os quais exposições sobre temáticas diversas, observam-se pequenas estruturas, partes integrantes dos ventiladores / chaminés ou respiradouros. No total são 10, quatro um pouco maiores e seis mais pequenos.

A ventilação tem uma função importante na qualidade da água, processo muito antigo e que antecedeu. inclusive, o uso do cloro (começado a utilizar nos Estados Unidos da América em 1908 e que chegou a Portugal (a Coimbra e a Lisboa), em finais dos anos 1920", e para manter a pressão atmosférica.

Acerca do assunto, e como alerta dc prevenção, já foi escrito: «As coberturas dos reservatórios devem ser providas de uma ou mais chaminés de ventilação, a fim de que o nível da água fique sempre sob pressão atmosférica.

RB. pc. 10.jpg

Interior do Reservatório do Jardim Botânico (desativado). Op. cit., pg. 9

Da casa das máquinas, por duas escadas íngremes e com espaço reduzido (inclusive na altura, relativamente à estrutura superior o que obriga a fazei algum exercício para as utilizar), tem-se acesso às duas células ou câmaras, simétricas e que ocupam uma área considerável, cujas dimensões apenas são devidamente perspetivadas quando se acede ao seu interior. Aquelas encontram-se em estado razoável de conservação, não obstante no teto já se notarem certas fendas que podem denotar alguma fragilidade, em termos de futuro.

As paredes laterais assim como a parede divisória entre as duas células são em alvenaria rebocada. Em cada célula ou câmara se encontram 6 pilares, também de alvenaria, sendo o de uma das células (a do lado direito, quando se entra pela porta principal da casa das máquinas) reforçado.

Em termos de tecnologia, pouco se encontra no local, salvo algumas canalizações e equipamento metálico de regularização do fluxo de água,

…. Em suma: trata-se de um espaço amplo que, caso venha a ser devidamente restaurado e consolidado, bem poderá servir não só para visita turística mas também para eventos culturais, como espetáculos de teatro, música ou dança, exposições, oficinas de atividades pedagógicas, etc.

Mendes, J.A. Abastecimento de água a Coimbra: Reservatório do Botânico. Sem data. Coimbra, Águas de Coimbra E.M.

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por Rodrigues Costa às 21:03


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