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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 20.11.19

Coimbra: Igreja de S. Bartolomeu

É a igreja de S. Bartolomeu talvez a de mais antiga história na cidade. Já existia em 957, pois, em 2 de novembro desse ano, foi doada ao mosteiro de Lorvão pelo presbítero Samuel, por mando do presbítero Pedro, em risco de morrer. Antes tinha sido dedicada a S. Cristóvão. A doação incluía também a igreja de S. Cucufate, com todas as suas vinhas e hortas que se encontravam em redor. O grande chefe mouro Almançor conquistou e arrasou Coimbra em 987. A igreja de S. Bartolomeu não deve ter sido poupada, pois que a vemos novamente doada a Lorvão em 1109, o que indica reconstrução. A doação de 1 de janeiro de 1109 é feita pelo presbítero Aires e nela são citados os ornamentos, móveis e imóveis.
Estas primitivas igrejas, cujos vestígios arqueológicos se encontram sob o pavimento da atual, depois de escavações levadas a cabo em 1979 e 1980, mas nunca publicadas, tinham entrada para poente e não para o lado da praça. No século XVIII a igreja ameaçava ruir, pelo que em 5 de junho de 1755 se fez a trasladação do SS. e das imagens de Cristo e Nossa Senhora para o antigo Hospital Real, donde passaram para a Misericórdia, iniciando-se de imediato a demolição do velho edifício românico. A primeira pedra da igreja atual foi lançada em 16 de julho de 1756, sendo arquiteto Manuel Alves Macomboa.

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea

A planta do novo edifício é de grande simplicidade, articulando em retângulo a nave com a capela mor. Amplas janelas inundam e unificam o interior de uma luz homogénea, bem característica da época rococó em que se fez a reedificação.

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Igreja de S. Bartolomeu, torre sineira

A fachada enobrece o topo da praça, com suas duas torres sineiras coroadas de fogaréus e cúpula bolbosa. No século XIX construíram a casa da esquina com a rua dos Esteireiros, que lhe rouba parte da monumentalidade. O portal é ladeado por colunas dóricas onde assenta uma varanda de balaústres em forma de vaso chinês, diferentes dos da balaustrada que une as duas torres.

Igreja S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos lateIgreja de S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos laterais

O interior é sóbrio apenas se destacando as cantarias dos púlpitos, portas, janelas e arcos das capelas. O arco da capela-mor é em asa de cesto, sobre entablamento peraltado, assentando em pilastras mais cuidadas. O retábulo-mor domina todo o espaço, captando a atenção. Foi executado pelo notável entalhador de Coimbra João Ferreira Quaresma, contratado em 20 de dezembro de 1760, com a obrigação de consultar o arquiteto Gaspar Ferreira, para que ficasse como o de Santa Cruz. A fortíssima impressão causada pelo retábulo de Santa Cruz fez dele o pai de imensa prole que se estendeu de Coimbra a todas as Beiras, originado o estilo do rococó coimbrão. O mesmo João Ferreira Quaresma executou as cadeiras do coro e os arcazes da sacristia. O retábulo tem dois pares de colunas por banda, sobre alto embasamento. O coroamento, em frontão interrompido, de elaboradas formas, abriga glória solar ladeada de anjos com palmas. Marmoreados e dourados dão realce a todo o conjunto e emolduram a boca da tribuna, preenchida com uma tela de Pascoal Parente, representado o martírio de S. Bartolomeu.

Igreja de S. Bartolomeu. capela lateral do SagradoIgreja de S. Bartolomeu, capela lateral

Os retábulos colaterais seguem o mesmo estilo, simplificado. Duas capelas laterais apresentam retábulos recuperados da igreja antiga. O do lado nascente é ainda maneirista, dos finais do século XVI, adaptado ao espaço. Conservou, além da estrutura, duas pequenas pinturas sobre tábua. A capela fronteira tem um retábulo de colunas salomónicas de finais do século XVII, época de D. Pedro II.
A igreja tem ainda no seu espólio belas sanefas de concheados, das melhores peças da cidade, feitas por Bento José Monteiro, mas certamente com desenho de Gaspar Ferreira. Salientam-se ainda outras pinturas de Pascoal Parente com Cristo crucificado e Anunciação.

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Igreja de S. Bartolomeu, lustre e órgão

O templo é indissociável da praça onde se insere, outrora chamada praça de S. Bartolomeu. Nesta praça se fez durante séculos, até 1867, o mercado. Aqui se correram touros. Aqui se situou o paço dos tabeliães. Aqui funcionou a junta dos vinte e quatro dos mesteres e o paço do concelho. S. Bartolomeu é o patrono dos açougueiros e magarefes, cujos talhos estavam na praça e ruas confinantes, isto é, junto da igreja do seu santo padroeiro: principal justificação para a sua edificação neste local.

Nelson Correia Borges

Publicado em Correio de Coimbra, n.º 4761, de 7 de novembro de 2019, p. 8.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quinta-feira, 14.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 1

Com esta, iniciamos aqui uma série de entradas que publicaremos às 5.ªs feiras, dedicadas às tascas de Coimbra. Trata-se de um trabalho de Carlos Ferrão que recolheu as imagens e coligiu os textos.
O A’Cerca de Coimbra fica aberto – como sempre está – a acrescentos e outras eventuais participações.

- TASCA DO PRATAS
Localização: R. José Falcão, edifício do antigo Colégio da Trindade

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Tasca do Pratas, anos 50 do Séc. XX

Não era uma extensão da Biblioteca Geral como alguns lhe chamavam, nem tão pouco o um lugar onde se preparasse as frequências.
Numa dependência do Colégio da Trindade, com frente para a rua José Falcão, a famosa tasca “O Pratas” deixou mil estórias envolvendo estudantes, professores, funcionários e futricas.

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Ana e Armando Pratas

A D. Ana e o Sr. Armando Pratas estavam sempre de sorriso pronto para acolher quem os escolhia para uma "bucha e um copo". Não lhe faltava uma paciência de santo para a estudantada que ali fazia alguns rituais praxistas a mando dos “doutores”, mas sempre de olho nos excessos, nunca deixando ferir a dignidade do caloiro.

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Tasca do Pratas, finais do século XX

E assim foi até 2001, quando os "jaquinzinhos", as pataniscas ou as sandes de queijo da Idanha, servidos no “Pratas”, ficaram para a memória!

- JOÃO DE BRITO
Localização: R. de Baixo

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Tasca do João de Brito

Nos finais do séc. XIX, o João (Francisco) de Brito era um maravilhoso retiro junto do velho mosteiro de Santa Clara. Era um verdadeiro cenário de balada!
Uma latada, quatro mesas de pinho, uma nora gemente. Ao fundo o rio sereno e doce e lá no alto erguendo-se dominadora a cidade.
Os poetas Eugénio de Castro, Manuel da Silva Gaio, Afonso Lopes Vieira, Guedes Teixeira, D. Tomás de Noronha e tantos outros foram durante anos os seus mais assíduos frequentadores.
Só mesmo quem por lá passou, nos conseguiu deixar com fidelidade uma ideia da poesia estranha nas tardes no João de Brito!
Carlos Ferrão

Fontes: Vicente Arnoso, Tascas de Coimbra em Ilustração Portuguesa, nº 101 de 27 de Janeiro de 1908, citado por Manuel Alberto Carvalho Prata em A Academia de Coimbra (1880-1926): contributo para a sua história.

 

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por Rodrigues Costa às 10:01

Quinta-feira, 31.10.19

Coimbra: Placas de esmalte com cenas da Paixão levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

A série de vinte e seis placas de esmalte pintado, com cenas da Paixão, diretamente inspiradas na série de gravuras da chamada Pequena Paixão de Dürer, é talvez o mais enigmático dos três itens a que aqui nos dedicamos, já que nada sabemos sequer sobre a sua entrada no Mosteiro de Santa Cruz.

Mestre da Paixão de Cristo; esmalte pintado sobre

Coroação de espinhos, último quartel do Século XVI, atelier do Mestre da Paixão de Cristo; esmalte pintado sobre cobre. Museu Nacional de Soares dos Reis (fot. José Pessoa IMC/ MC)

…. Outrora talvez organizadas num pequeno retábulo ou num frontal de altar as pequenas placas foram ao longo do tempo merecendo esporádica atenção por parte dos autores portugueses.

Igreja de Santa Cruz. Santuário 01.jpg

Mosteiro de Santa Cruz, altar da Casa das Relíquias, onde a série das placas de esmalte poderão ter estado aplicadas.

… Em 1914, Joaquim de Vasconcelos dedica-lhes três páginas ao longo das quais propõe a datação da primeira metade do século XVI e sugere a Casa das Relíquias do Mosteiro de Santa Cruz como local da sua instalação no Mosteiro.
A apresentação da série na Exposição de Arte Francesa em Lisboa, em 1934, dá-lhe visibilidade junto de especialistas nacionais e estrangeiros que nesse contexto a classificam como do 1.º terço do Século XVI. Dessa data em diante passará a ser referida na maioria dos estudos especializados neste tema publicados desde os anos 60 na Europa e nos Estados Unidos.
Por ser uma das séries sobreviventes mais completa e uma das raras com registo documental anterior ao Século XIX, constitui hoje uma referência incontornável entre as suas congéneres europeias, razão pela qual, em janeiro de 2008, o Museu Soares dos Reis, em colaboração com o Centre de Recherche Scientifique de la Reunions des musées de France (CRRMF) e o Musée des Arts Decoratifs de Paris (MAD), se candidatou ao programa Eu-Artech com o objectivo de a analisar e inscrever num mesmo banco de dados em que se encontravam já a série da Wallace Collection e peças do MAD. O processo permitiu a revisão da sua datação (agora atribuída aos meados do século XVI e o início do século) e autoria, um atelier ainda em estudo da esfera de Pierre Reymond.

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Batismo no Rio Jordão, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

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Cena da Verónica, Batismo no Rio Jordão, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

Esmalte 02.jpgCalvário, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

A série de esmaltes, como aliás parte da arte religiosa da coleção, não encontrou nessa última revisão de programas e percursos, enquadramento adequado, estando presentemente em reserva.

Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

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por Rodrigues Costa às 12:48

Terça-feira, 29.10.19

Coimbra: Tinteiro de tartaruga levado do Mosteiro de Santa Cruz

João Batista Ribeiro, no seu Inventário do Museu Portuense de 1839, regista «um estojo que contem um tinteiro de tartaruga marchetado d’ouro e madrepérola, que foi do uso de Fr. Bartholomeu dos Martires».

Escrivaninha, c. 1720-1747, tartaruga, madrepérolEscrivaninha, c. 1720-1747, tartaruga, madrepérola, liga de cobre e ouro. Museu Nacional
de Soares dos Reis (fot. José Pessoa IMC/ MC)

Mas já em 1838, no periódico O Panorama (1838: 122), se fizera referência a esta peça com essa associação ao nome do Arcebispo de Braga, acrescentando a menção a uma pena «com que se asignaram os decretos do concilio tridentino, monumentos curiosos doados a Sancta Cruz por D. Fr. Bartholomeu dos Martyres».

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Igreja de S. Cruz. Santuário, onde a peça estava guardada

Dessa pena não volta a encontrar-se notícia, tão pouco do estojo a que alude João Batista Ribeiro. Trata-se de uma peça de produção italiana do século XVIII, construída em tartaruga, ornamentada com incrustações de motivos “chinoiserie” em ouro e elementos “rocaille”, grotescos e figuras alegóricas em madrepérola. Não é assinada, mas tem paralelos muito estreitos com peças da autoria de Gennaro e Giuseppe Sarao.
Foi apresentada na exposição de Arte Ornamental de 1882, sem classificação, mas já com a indicação de ter sido oferecida por Benedito XIV à Academia Litúrgica Pontifícia fundada em Coimbra em 1747.
Joaquim de Vasconcelos dedicou-lhe, em 1914, um breve estudo onde a classifica como trabalho francês, da corte de Luís XV e onde definitivamente deita por terra a associação ao concílio de Trento e a Frei Bartolomeu dos Mártires. Em 1998, a sua classificação foi revista por comparação com paralelos de outros museus, designadamente da Wallace Collection, tendo então sido datada do século XVIII e aproximada à produção da família Sarao.

A escrivaninha integra-se, desde 2001, no circuito da exposição permanente do Museu em articulação com peças de ourivesaria do Século XVIII.

Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172.

 

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por Rodrigues Costa às 09:29

Quinta-feira, 24.10.19

Coimbra: Espada de D. Afonso Henriques levada do Mosteiro de Santa Cruz 3

A espada de Afonso Henriques, que hoje se guarda no Museu Militar do Porto, tem uma dimensão simbólica que ultrapassa largamente a sua dimensão física que, aliás, é surpreendentemente maneirinha, à luz das descrições daquele que a empunhava, que seria homem para medir nada menos do que 10 palmos, ou seja, muito mais do que dois metros.
…. Segundo a lenda, esta espada, juntamente com o escudo de Afonso Henriques, teria sido levada, como amuleto protetor, por D. Sebastião para a desastrosa incursão de Alcácer Quibir, mas teria ficado esquecida no barco que transportar o rei ao lugar que lhe serviria de sepultura.

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Desenho da espada de D. Afonso Henriques. In: Arquivo Pitoresco. 1861

A revista Arquivo Pitoresco publicou, em 1861, a gravura que encima esta nota, acompanhada por um texto onde se conta a história da misteriosa espada de Afonso Henriques. Aqui fica.

«Foi esta a espada que libertou Portugal da dependência de Castela; que conquistou aos moiros Lisboa, Santarém, Palmela, Leiria e outras terras; a que fundou em Ourique a monarquia portuguesa.
Até à extinção das ordens religiosas, a espada de D. Afonso Henriques conservou-se junta ao seu túmulo na capela-mor de Santa Cruz de Coimbra; depois foi transferida para o museu do Porto; onde se acha, e ali foi tirado o desenho que hoje apresentámos.
É sabido que el-rei D. Sebastião, quando partiu para a desastrosa jornada de África, levou a espada e o escudo de D. Afonso Henriques. Não tendo, porém, desembarcado estas armas, quando a armada regressou ao reino foram estes dois monumentos restituídos ao convento de Santa Cruz. É isto o que afirmam os nossos antigos cronistas.
… Do modo por que estas armas saíram de Santa Cruz, é que há documento e testemunhos autênticos. Eis o que diz D. Nicolau de Santa Maria na Crónica dos Cónegos Regrantes:
«Depois de ter assistido no dia 20 de Outubro de 1570 a um doutoramento na universidade, passou D. Sebastião a visitar as sepulturas de D. Afonso Henriques e D. Sancho. O prior-mor lhe mostrou a espada de D. Afonso Henriques, a qual tomou D. Sebastião, e com grande veneração a beijou, dizendo aos fidalgos da sua comitiva: «Bom tempo em que se pelejam com espadas tão curtas! Esta é a espada que libertou todo o Portugal do cruel jugo dos mouros, sempre vencedora, e por isso digna de se guardar com toda a veneração». E entregando-a ao prior geral de quem a recebera, lhe disse: — «Guardai, Padre, esta espada, porque ainda me hei-de valer dela contra os moiros de África».
Passados oito anos, lembrado el-rei destas palavras, a mandou pedir ao geral de Santa Cruz … Desse fac-simile é que é o traslado que vamos apresentar.

D. Sebastião 01.jpgD. Sebastião

«Padre geral e convento do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Eu el-rei vos envio muito saudar. Eu me tenho publicado em haver de fazer por mim com ajuda de Nosso Senhor uma empresa em África, por muitas e mui grandes razões, mui importantes ao bem de meus reinos, e de toda Espanha, de que também resulta benefício à cristandade, o que me pareceu escrever-vos assim para encomendardes ao Nosso Senhor o bom sucesso desta empresa, que por seu serviço faço, como para vos dizer que desejo levar nela a espada e escudo daquele grande e valoroso primeiro rei deste reino D. Afonso Henriques, cuja sepultura está nesse mosteiro, porque espero em Nosso Senhor que com estas armas me dê as vitórias que el-rei D. Afonso com elas teve. Pelo que vos encomendo muito que logo mas mandeis por dois religiosos desse convento que para isso elegereis. E como eu embora tornar, as tornarei a enviar a esse mosteiro, para as terdes na veneração e guarda que é devido a cujas foram, e por tudo. E por aqui entendereis que as não quero senão emprestadas para o efeito a que vou, e de quão grande contentamento isto é para mim. Escrita em Lisboa a 14 de Março de 1578. — Rei.”

Espada do glorioso rei D. Afonso … e uma caixa p

Espada dita de D. Afonso Henriques, último quartel do Século XVI ?; aço; 99,5 x 14,5 cm. Inv. N.º 1 Div Museu Nacional de Soares dos Reis/ em dep. No Museu Militar do Porto (fot. José Pessoa IMC/ MC)

… “Recebida esta carta, mandou logo o padre prior limpar a espada do glorioso rei D. Afonso, e fazer-lhe uma bainha de veludo, com sua ponteira de prata doirada, e uma caixa preta em que fosse metida com sua chave, e fechadura doirada; e outra caixa preta em que fosse o escudo do mesmo santo rei, para irem estas armas com mais resguardo e veneração, e as mandou … a el-rei, o qual as recebeu com grande gosto e contentamento, dizendo, que se Deus lhe dava a vitória que esperava, prometia de fazer canonizar o glorioso rei D. Afonso, como já o intentara fazer el-rei João III seu senhor e avô.”

Neves, A.A. 2016. A Espada de Afonso Henriques. Acedido em 2019-09.17, em https://araduca.blogspot.com/2016/05/a-espada-de-afonso-henriques.html

 

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por Rodrigues Costa às 21:40

Terça-feira, 22.10.19

Coimbra: Espada de D. Afonso Henriques levada do Mosteiro de Santa Cruz 2

A sagração dos aprestos de guerra de D. Afonso Henriques, enquanto relíquias teve um papel inquestionável na construção de que nos fala António Cruz de uma “legenda áurea”, que muito interessava aos monges crúzios e que foi já estudada por vários autores.

D. Afonso Henriques desbarata as forças do Rei de

D. Afonso Henriques desbarata as forças do Rei de Badajoz

… A sua vinda para o Museu Portuense toma, pois, foros de iniciativa política eivada de simbolismo e por isso acaba inevitavelmente rodeada de polémica. Aos envolvidos no processo caberá o difícil papel da sua legitimação que debilmente se apoia na ideia de que D. Pedro IV a oferecera à cidade. Desse gesto não ficou qualquer registo escrito. A omissão é agravada pela ausência de registo de saída de Santa Cruz e de entrada no Museu Portuense.
O volume de correspondência trocado, de Maio a Outubro de 1834, entre o Prefeito do Douro, o Subprefeito de Coimbra, o Vice-Reitor da Universidade e o Ministro de Estado dos Negócios do Reino, acerca dos objetos retirados de Santa Cruz de Coimbra e da sua vinda para o Museu é bem elucidativo do confronto de vontades e da divergência de entendimentos relativamente aos princípios que norteavam a integração dos bens no património do Estado.

Batalha de Ourique. Domingos António de Sequeira.

D. Afonso Henriques. Batalha de Ourique, quadro de Domingos António de Sequeira

… A Universidade e a Câmara de Coimbra multiplicam-se em pedidos e requerimentos para que fiquem na cidade os bens dos conventos locais suprimidos «por terem nella a sua sede os principais Institutos da Sciencias e das Artes; e onde por isso tais objectos serão com utilidade publica, mais consultados pelos Nacionais, e estrangeiros»
…. Alegava-se que esses bens formavam na cidade «huma distincta parte do seu ornamento, celebridade, e publica utilidade». … No documento em que se expõe essas alegações refere-se ainda que a «Espada do Grande Affonso acha-se depositada com outras preciozidades no Sanctuario do Mosteiro de Santa Cruz, não será justo que esta estimadíssima Relíquia do Fundador da Monarquia Luzitana se separe da Cidade onde repouzão as cinzas de tão Grande Heroe».

AfonsoB.jpgIgreja de Santa Cruz. Tumulo de D. Afonso Henriques.
Fotografia de António Luís Campos, acedida em https://nationalgeographic.sapo.pt/historia/grandes-reportagens/953-afonso-henriques

… Em 1863, coincidindo com um dos momentos em que é reclamada a sua devolução a Coimbra, é-lhe feita uma placa em prata para lhe servir de legenda com a simples informação «Espada de D. Affonso Henriques»
Em 1864, a Câmara de Coimbra reclama de novo «a devolução da espada que foi de Afonso I e outros objectos retirados do Mosteiro de Santa Cruz».
… Entre 1878 e 1903 Martins de Carvalho, nas páginas do periódico O Conimbricense, reclama repetida e veementemente a restituição da espada e das “outras preciosidades” a Coimbra, embora curiosamente duvide da autenticidade da espada.
Em 1933, a polémica reacende-se. Aquando da inauguração da sala Vitorino Ribeiro no Museu Militar de Lisboa, o seu Diretor reclama a espada para a Capital a pretexto de um monumento ao monarca fundador que aí planeava erguer-se … a polémica prosseguirá durante os vinte anos seguintes, entre a genuinidade, a ilegitimidade da transferência e a imperiosidade da devolução a Coimbra.
Em 1943 Rocha Madahil publica um inventário inédito do Mosteiro de Santa Cruz, que dará de imediato lugar a uma exposição coimbrã exigindo a restituição da espada «tesouro supremo da Cidade» cuja permanência no Porto «representa não só uma afronta ao brio de Coimbra, como sacrílega mutilação do venerando túmulo do fundador da Pátria».
O pedido é recusado pela Direção Geral do Ensino e das Belas Artes,
… O pedido repetir-se-ia em 1947 para entrega ao então Museu Regional de Machado de Castro, de novo sem sucesso.

Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172, acedido em http://artison.letras.ulisboa.pt/index.php/ao/article/view/72/65

 

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por Rodrigues Costa às 10:55

Terça-feira, 15.10.19

Coimbra: Faculdade de Teologia, extinção

A Universidade permaneceu até 1910 (reforçada na sua simbologia em 1901) em grande parte uma universidade Católica e daí a República secularizar o programa cívico e demopédico que os seus teóricos há muito propugnavam.
A expulsão de Deus, é o mais claro sintagma modernizador nos ritos e símbolos universitários.

Capela da Universidade de Coimbra, pormenor do tetCapela da Universidade de Coimbra, pormenor do teto do altar mor. Insígnia da Faculdade de Teologia

A extinção da Faculdade de Teologia, correlata do longo declínio dos estudos jurídico-eclesiásticos, era por ela sugerida e discutida. Lente de Hermenêutica Sagrada, Mota Veiga admitia a escassa frequência, “os poderes públicos não oferecem nem dão aos estudantes teólogos garantias algumas eficazes para os atrair ao estudo da ciência da religião”, razão pela qual “os alunos vão sempre escasseando mais nas aulas de Teologia” pois a licenciatura jurídica, desleal concorrente, conferia em plano de igualdade o acesso e o provimento aos lugares eclesiásticos.
O fim da Teologia era exigido por adversos campos. Republicanos, livre-pensadores, mações, para quem a dimensão autotélica da liberdade só faria sentido numa sociedade secularizada e na Escola laica, exprobravam o ensino confessional e remetiam o estudo das religiões para o quadro das ciências históricas e sociológicas. Teólogos, como modo prático de assegurar cátedras perante as bancadas vazias, propunham a sua desagregação e a criação da nova Faculdade, designada de Letras (na linha francesa das iniciais propostas), onde estudos teosóficos, porventura teológicos e de história das religiões, pudessem noutras vestes sobreviver.
Condizia com o velho projecto de emancipação dos estudos humanísticos – confinados, nos Estatutos de 1772, ao âmbito dos «estudos menores» aí assegurados pelo Colégio das Artes – que sectores regeneradores anunciavam … em Claustro pleno de 10 de abril de 1867, originar a representação decidida a fundar a Faculdade de Letras.
… Resposta tardia ao não instalado Curso de Letras e a novas exigências que em meados do século da história se evidenciam, mormente na Faculdade de Direito, dado o maior peso da perspectiva histórica e filosófica dos estudos jurídicos, a criação da Faculdade de Letras passou por óbices que a adiaram para as calendas.
… Em sequência, o reitor Adriano Cardoso Machado, a 1 de outubro de 1888, anuncia a iminente criação da Faculdade mas só em 1907, vinte anos depois, os cinco conselhos facultativos criam consenso … desiderato de novo gorado.
Só a República o fará no âmbito da reforma do ensino superior consubstanciada na lei de bases, a Constituição Universitária.

 

Capela da Universidade de Coimbra, altar mor.jpg

Capela da Universidade de Coimbra, altar mor

… Ora, o fim da Teologia não significou a expulsão física dos mestres. Ex-teólogos criam mesmo a autêntica matriz qualitativa da Faculdade de Letras pois desde finais do séc. XIX orientam ensino e investigação no sentido da historiografia, filologia, literatura e pedagogia, colhendo a visão civilista que fundamenta o paradigma positivista, cientista e laico dos estudos humanísticos que a República promove, ministrando-o porém numa lógica conservadora que expede para a gnose religiosa.
Em 1919 admitiam os ex-teólogos que “nos últimos anos do antigo regime, a frequência da Faculdade de Teologia diminuíra dia a dia progressivamente” … Se em 1878 havia 44 matrículas, em 1909-10, para 12 professores, apenas havia 20 alunos: seis no I ano (dos quais Cerejeira), um no II, três no III, quatro no IV e seis no V. Toda a Faculdade não enchia a menor sala.

Carvalho, P.A. A exclusão universitária: Sobre o caso Sílvio Lima. 1935. Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. In Biblios, n. s. IX (2011) 125-193. Acedido em 2019.05.24, em
http://hdl.handle.net/10316.2/32411 

 

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por Rodrigues Costa às 20:44

Terça-feira, 08.10.19

Coimbra: Estação Elevatória do Parque Dr. Manuel Braga

Os dois volumes História do Abastecimento de Água a Coimbra, 1889-1926 e 1927-2007, da autoria do Professor Doutor José Amado Mendes, dão-nos conta, detalhadamente, do caminho percorrido em Coimbra, a fim de concretizar este melhoramento. Contamos de, em próxima ocasião, voltar a determo-nos neste trabalho.
A abertura, no passado dia 1 de outubro, da exposição Coimbra e a Água, dos primórdios até meados do séc. XIX, acontecida nas instalações onde funcionou a Estação Elevatória do Parque Dr. Manuel Braga, hoje Museu da Água, chamou-nos a atenção para a inexistência ou para o desconhecimento de documentação fotográfica que se relacionasse com aquela antiga estrutura.
Alguns dos que nos estão a ler ainda se lembram de espreitar para o interior da Estação Elevatória, onde grandes bombas negras, fazendo um barulho ensurdecedor e exalando um cheiro esquisito, bombeavam a água que abastecia a cidade. Pensa-se que, ao ser desativada, o equipamento seguiu o caminho da sucata, com exceção de uma pequena peça que ali se encontra exposta.
Graças a Carlos Ferrão conseguiu-se a imagem que seguidamente se reproduz.

Rio com central elevatória primitiva.jpg

Estamos perante uma vista aérea do Mondego, com a ínsua dos Bentos bem percetível, dado que o Parque Dr. Manuel Braga ainda não havia sido arquitetado, e, no canto inferior direito surge um pequeno edifício passível de corresponder à Estação Elevatória primitiva que, como refere Amado Mendes, foi «edificada em 1922».
Como já atrás mencionámos, não conhecemos qualquer outra referência gráfica relacionada com a Estação Elevatória e, por isso, o que nos moveu a escrever esta “entrada” passa por pedir aos leitores que, no caso de estarem na posse de imagens da Estação Elevatória em funcionamento ou de pistas relacionadas com publicações onde as mesmas se possam encontrar, façam o favor de as divulgar.

Museu da Água.jpg

Temos para nós que seria importante estar patente no atual Museu da Água, através de imagens, a história do passado, mas para que tal possa acontecer pedimos a ajuda de todos.
Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 10:23

Terça-feira, 24.09.19

Coimbra: Francisco Lemos de Faria Pereira Coutinho, bispo

O percurso deste antístite é indissociável das atribulações que envolveram D. Miguel da Anunciação, analisadas anteriormente. Não obstante, o seu carácter único e imprescindível para a história da Mitra e da Universidade de Coimbra, é absolutamente indiscutível.

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Retrato de D. Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho com a sua representação heráldica

Representação da heráldica de D. Francisco de LRepresentação da heráldica de D. Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho existente no retrato

Foi, portanto, o décimo sétimo conde de Arganil e quinquagésimo segundo bispo de Coimbra, D. Francisco Lemos de Faria Pereira Coutinho, natural de Santo António de Jacotinga (Rio de Janeiro). Filho de Manuel Pereira Ramos de Lemos de Faria, capitão-mor e Senhor do Engenho de Marapicu, e de D. Helena de Andrade Sottomayor Coutinho, nasceu a 5 de Abril de 1735, vindo com a tenra idade de onze anos para Portugal.

Salva com as armas de D. Francisco de Lemos.JPG

Salva em prata branca, com as armas de D. Francisco de Lemos ao centro. MNMC

Sob a tutela do seu irmão mais velho Dr. João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho, o prelado seguiu Humanidades na Universidade de Coimbra, doutorando-se em Cânones em 1754 com apenas 19 anos de idade, prenunciando a carreira brilhante que iria construir nesta Instituição. Enquanto frei professo na Ordem de Avis, recolheu ao colégio dos Militares, aguardando vaga no magistério universitário. Entretanto, ao vagar o deado da Sé do Rio de Janeiro, terá pedido a nomeação para este cargo, recusada peremptoriamente por Sebastião José de Carvalho e Melo, que terá respondido: “Não lhe convém tal emprego. Não limite tanto as suas vistas”. Com efeito, viria a ser nomeado sucessivamente Juiz Geral das Três Ordens Militares, desembargador dos Agravos na Casa da Suplicação, deputado da Mesa Censória e do Tribunal do Santo Ofício. De facto, como veremos, o Marquês terá insistido para que D. Francisco Lemos fosse eleito vigário capitular, aquando da condenação a que D. Miguel da Anunciação foi severamente sujeito, pela mão de Pombal.
Nomeado Reitor da Universidade em 8 de Maio de 1770, com 35 anos foi, juntamente com o seu irmão João Pereira Coutinho e Frei Manuel do Cenáculo, um dos principais elementos da comissão da Junta da Providência Literária, que reformou a Universidade.
… Foi o responsável pela reforma de 1772, acumulando as pensões de reformador e reitor, sendo um ano depois apresentado como coadjutor e futuro sucessor do bispo de Coimbra, D. Miguel da Anunciação, confirmado a 13 de Abril de 1774 por Clemente XVI com o título de bispo de Zenópolis.
… Falecido o anterior prelado, o bispo de Zenópolis ter-se-á dirigido a D. Maria I pedindo providências quando à mitra de Coimbra, recebendo como resposta uma carta ríspida com palavras de admoestação, aconselhando-o a seguir “as modelares virtudes do seu antecessor”.

Selo de Chapa com as Armas de D. Francisco.JPG

Selo de Chapa com as Armas de D. Francisco de Lemos…Tombo do Couto de Casal Comba, Convento de Sant’Ana. A.U.C.

… Os últimos anos da sua vida foram um mapa de atribulações das quais se ressalvam as invasões francesas, tendo sido um dos membros da missão enviada a Baiona, aquando da invasão de Junot … D. Francisco de Lemos terá regressado em Novembro de 1810, data em que conseguiu licença para recolher à sua diocese mas, num processo em que foi acusado de traidor, foi retido até 1814 enquanto as autoridades apuravam responsabilidades, só depois podendo regressar à Universidade.
Acusado de ter divergido dos outros membros da comitiva, de ter viajado com um salvo-conduto do ministro da Guerra francês e de ter acompanhado as tropas francesas que caminhavam pelo norte de Espanha, só regressou a Coimbra já em idade avançada, “alquebrado de desgostos e trabalhos”, resultado de um processo que se arrastou sem as conclusões devidas.
… Veio a falecer em Coimbra, a 16 de Abril de 1822.

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes 

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por Rodrigues Costa às 10:46

Terça-feira, 13.08.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 1

O Arquivo Histórico Municipal de Coimbra para além do vasto património relativo à história da cidade e do seu termo, detém um conjunto de documentos que, face ao seu interesse, iremos divulgando, sobre a epígrafe acima referida.
Nesta entrada iremos abordar:
- um desafio para a confeção das receitas apresentadas;
- uma reflexão sobre a politiquice local que já vem de há muito tempo como se pode constatar.

Livro de Receitas e Despesas … de um estabelecimento comercial do século XIX [1852-1879] da cidade Coimbra, importante para o conhecimento da nossa história local.
Regista a receita e despesa corrente de uma indústria de licores. O autor que não está identificado explicitamente no livro, vem da Figueira da Foz para Coimbra, tomar conta do negócio de uma sua tia.
Regista a receita e despesa corrente de uma indústria de licores. O autor que não está identificado explicitamente no livro, diz qe veio da Figueira da Foz para Coimbra, tomar conta do negócio de uma sua tia.
Livro de Receita e Despesa, de um estabelecimento



No meio dos pagamentos e recebimentos de uma contabilidade apurada, na gestão corrente da casa de família e com o empréstimo de dinheiro a juro sobre penhores de pequenos bens, regista receitas de licor de canela, de licor de rosas, licor de marrasquino; receitas de pudim de batata; pudim de leite; receitas de mézinhas para cura de doenças, receita de tinta de escrever.
Além disso, o autor utiliza o livro como uma espécie de diário: regista episódios do seu quotidiano familiar, do que acontece no país e na cidade, crises e doenças; noticia a morte do rei Dom Pedro V, a inauguração da ponte de ferro de Coimbra em 8 de maio de 1875, entre outros eventos.

Transcrição paleográfica
[fl. 65] Licor de Rozas
Fiz hoje 14 quartilhas do Licor de Rozas, e levou aguardente regular 9 quartos; assucar 2 e meio arrattes, Essencia e Coxenilha.


[fl. 153] Receita para fazer Podim [de batata]

Livro de Receita e Despesa Fl. 533.JPGLivro de Receita e Despesa, de um estabelecimento comercial de venda de licores em Coimbra, 1852-1879, fl. 153. AHMC

Hum arratte de assucar muito fino; hum quarto manteiga ingleza;
Meio arratte batata cozida
Dezoito gemmas de ovos
Faz se da seguinte maneira

Parte primeira
Cozem-se as batatas, dispois de bem cozidas, passão se pella peneira, peza se dispois d’esta massa o meio arratte asima ditto.

Parte segunda
Poem se o assucar a ponto de espedana e nelle emquanto esta quente lansa se lhe o resto da manteiga que subejar dispois de untada a lata; Feito isto em seguida, vai-se lhe lançando a batata pouco a pouco, devendo mecher-se sempre com a colher, em seguida vão-se lançando tambem os ovos, mais devagar devendo sempre mecher-se com a colher; dispois de tudo muito bem disfeito, aquese-se hum pouco ao lume, depois lansa se dentro da lata e vai para
o forno.

[fl. 553] Inauguração da ponte de Coimbra.

Ponte de ferro. Final da construção. Fotografia.

Ponte de ferro. Final da construção

Livro de Receita e Despesa fl. 153.jpg

Livro de Receita e Despesa, de um estabelecimento comercial de venda de licores em Coimbra, 1852-1879, fl. 533. AHMC

Em 8 de Maio deste anno foi que se fez a inauguração da nova Ponte mas nem Camera nem Dereção das Obras Publicas se prestarão a couza nenhuma por cauza da politica do Penacho que então governava, cuja politica trazia muitos e muitas pessoas desgostozas, e para as auctoridades desse tempo não sofrerem alguma disfeita nada fezerão, mas o Illustrissimo Senhor Director serião 5 horas da manhãa mandou deitar os tapumes abaixo, e declarou podia entrar quem quizesse, sem mais etiqueta, foi como se costuma dizer foi feita a Capucha. Só os molleiros de Sernache entrarão pello meio dia em grande pandega vindo todos a cavallo em sima das mesmas cargas com bandeiras e gaita de folles, andando precorrendo as ruas. Houve então muzica e muito foguetorio feito pella Assuciação Liberal que fizerão a inauguração da Ponte hindo ali tucar e lançando muitas girandollas de foguetes mas tudo de porpozito cauzando isto muitas zangas.

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf

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por Rodrigues Costa às 22:45


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