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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 20.01.22

Coimbra: Camilo e a cidade do Mondego 2

ESTUDANTE EM COIMBRA (Continuação)

Igualmente em «Cavar em Ruínas», no capítulo «O meu condiscípulo» relembra o romancista os tempos passados no Porto, para referir em seguida: «Dois anos depois cursava eu as aulas em Coimbra».

Na mesma obra, no capítulo A Vida Picaresca», depois de comentar passos do livro de Diogo Camacho, «Jornada à Corte do Parnaso», em que o autor descreve a fome que o assaltava enquanto estudante de Coimbra, escreve Camilo:

«Na Coimbra de hoje já não há fome. Graças a Deus. Ainda no meu tempo, há dezoito anos, se a mesada se desfazia em creme no Paço do Conde aí até ao dia 15, a gente sentia até ao dia 30 um pedaço de Diogo Camacho nos intestinos pelo menos.»

Em Carta a Petrónio, artigo inserto na «Revolução de Setembro», de 13 de setembro de 1871, com o pseudónimo Felizardo, Camilo, a propósito da poetisa coimbrã Amélia Janny, mais uma vez relembra os tempos na cidade do Mondego:

«No nosso tempo de Coimbra, meu caro Petrónio, a poesia estava em tudo, menos nas senhoras.

O aspeto taciturno e desconfiado das damas era como um capacete de neve nas cabeças ardentes daquela mocidade que enxameava no Penedo da Saudade e Águas Maias a namorar a natureza, e Teresa Fortunata também. Não se chamava Teresa Fortunata uma onzeneira que me comprou a loba e a capa por dez tostões e um vintém? Que saudades eu tenho dos meus vinte anos, e de um Tito Lívio edição prínceps, que vendi por setecentos e vinte na rua de Quebra-Costas!»

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Penedo da Saudade

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Águas de Maias, hoje rotunda da Casa do Sal. 

Foto Varela Pécurto 1973 c. In: Coimbra Vista dos Céus”, José António Bandeirinha e Filipe Jorge, Argumentum, 2003

 Em «Vaidades Irritadas e Irritantes», opúsculo com que toma partido na «Questão Bom Senso e Bom Gosto», acrescenta:

«A Primavera [de Castilho], no meu tempo de Coimbra, há vinte anos, tempo em que ali andavam poetas como João de Lemos, Cordeiro, Couto Monteiro, ia ler-se à Lapa dos Esteios, quando as árvores celebradas de Castilho desabotoavam, quando o céu se azulejava e espelhava nos lagos.»

Camilo. Lapa dos Esteios 01 a.jpg

Lapa dos Esteios

 Ainda dessa primeira estada de Camilo em Coimbra, escreve no «Cancioneiro Alegre», referindo-se a Donas Boto:

«Conheci-o em Coimbra em 1846 quando a minha batina esfrangalhada abria as suas trinta bocas para admirar e engolir o latim de um padre que não sei se era Simões. Devia ser. Coimbra é a terra dos Simões.»

Mas voltando a Donas Boto, pormenoriza o encontro, no livreiro Posselius:

«Eu comprara o Dicionário de Morais; e ele, com uma gravidade protetora e paternal disse-me: – Faz bem, seu caloiro. Manuseie o bom Morais com mão diurna e noturna. Gaste assim as suas economias, não as malbarate em fofas novelas gafadas de galicismos, nem me vá por botequins a sorveteá-las nem por lupanares a desbotar as suas primaveras, nem por tavolagem a perder o dinheiro e a vergonha.»

Curiosamente, quando publica o «Cancioneiro Alegre» (1879), Camilo supunha Donas Boto já falecido, como viria a escrever a Tomás Ribeiro, então ministro, em carta de 1 de Dezembro de 1881, através da qual intercede, aliás com êxito, em favor do seu antigo conhecido de Coimbra, então em má situação:

«Dá-lhe alguma coisa, por alma dos homens de letras que morreram na miséria. Conheci-o em Coimbra em 1846.

Andrade, C.S. 1990. Coimbra na vida e na obra de Camilo. Coimbra, Coimbra Editora.

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por Rodrigues Costa às 11:08

Terça-feira, 18.01.22

Coimbra: Apontamentos para a História Contemporânea

O Dr. Mário Torres, um conimbricense pelo coração, continua na senda a que se propôs, reeditando, às suas custas, obras relacionadas com a história da nossa Cidade.

Coube agora a vez ao livro Apontamentos para a História Contemporânea seguido de A Nossa Aliada!, título com que publica textos de Joaquim Martins de Carvalho.

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Apontamentos para a História Contemporânea, capa

Diz Mário Torres: Na presente edição, com atualização da grafia, reproduz-se a 1.ª edição dos Apontamentos para a História Contemporânea»

Apontamentos para a História Contemporâne

Apontamentos para a História Contemporânea, 1.ª edição, capa

 complementado pelos «Apontamentos aos Apontamentos para a História Contemporânea», publicados por Manuel Lopes de Almeida, e, em anexo, o opúsculo «A Nossa Aliada!» … sobre as relações de Portugal com a Inglaterra.

Na capa do livro, acrescenta: Recolha de textos, introdução e notas por Mário Araújo Torres.

Já tivemos ocasião de sublinhar a dívida de Coimbra para com o Dr. Mário Torres, que, ao reeditar textos de grande relevância para a história da urbe, coloca obras inacessíveis ao alcance de todos. Como simples cidadão reafirmo e acentuo, de novo e publicamente, que o dever de gratidão da Cidade continua por saldar.

O livro ora reeditado – ao qual esperamos voltar – centra-se na figura de Joaquim Martins de Carvalho, homem de Coimbra, a quem a cidade tanto ficou a dever e a quem – também a ele – tinha obrigação de prestar um reconhecimento digno, dado que a mera atribuição do seu nome à rua onde morreu, a antiga rua das Figueirinhas, se mostra mais do que insuficiente.

Na badana do livro pode ver-se uma gravura que o retrata

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Joaquim Martins de Carvalho

acompanhada da seguinte nota biográfica:

Joaquim Martins de Carvalho nasceu em Coimbra em 19 de novembro de 1822 e aí faleceu em 18 de outubro de 1898.

Órfão muito jovem, o regime de morgadio então vigente determinou que a parte substancial do património familiar fosse encabeçada no filho primogénito, Venceslau Martins de Carvalho. Como filho segundo, fora Joaquim Martins de Carvalho destinado à carreira eclesiástica, ao que ele resistiu.

A sua única instrução formal consistiu na frequência, durante um ano, em !833, da aula de Latim no Colégio das Artes, então dirigida por jesuítas.

Deve-se ao seu abnegado esforço de autodidata a aquisição de vastíssimos conhecimentos, sobretudo nas áreas da história e da bibliografia.

Na sua juventude exerceu as modestas profissões de empregado comercial e de latoeiro, que lhe valeu o epiteto de «Doutor Latas» ou «Lord Latas».

Convicto lutador liberal, esteve vários meses preso na cadeia do Limoeiro, em 1847, como membro do Partido Popular («patuleio») contra o cabralismo.

Depois de libertado, dedicou-se ao jornalismo, essencialmente no «Observador» (1847-1853), a que sucedeu, logo em janeiro de 1854, o «Conimbricense» de que foi proprietário, diretor e principal redator, até à sua morte, em 1898.

Liberal progressista, foi membro da Maçonaria e da Carbonária Lusitana.

Promotor do associativismo. sobretudo no sentido do progresso económico da região de Coimbra e da defesa das classes laboriosas, nos domínios da instrução e do mutualismo. Foi membro de diversas instituições científicas, designadamnte a Academia das Ciências de Lisboa e o Instituto de Coimbra.

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Os Assassinos da Beira, capa

Em vida publicou dois livros, com seleção de artigos e estudos seus saídos em «O Conimbricense»: «Apontamentos para a História Contemporânea» e «Os Assassinos da Beira».

Carvalho, J.M. 2021. Apontamentos para a História Contemporânea» seguido de A Nossa Aliada! Recolha de textos, introdução e notas por Mário Araújo Torres. Lisboa, Edições Ex-Libris.

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por Rodrigues Costa às 16:12

Quinta-feira, 13.01.22

Coimbra: Camilo e a cidade do Mondego 1

Nesta série de cinco entradas quero prestar uma singela homenagem ao meu Amigo de longa data Carlos Santarém Andrade, autor da obra de onde as mesmas foram extraídas.

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Capa da obra

Para além das várias vezes que se deslocou a Coimbra ou por ela passou, ao longo da sua vida, Camilo Castelo Branco viveu nesta cidade em duas épocas distintas, por diferentes motivos: em 1845-1846, como estudante candidato à Universidade, e em1875-1876, para acompanhar os estudos dos filhos.

ESTUDANTE EM COIMBRA

À primeira destas estadas se refere o escritor em abundantes passos da sua obra, por vezes com discrepâncias cronológicas, motivadas porventura pela distância temporal em que descreve os factos ou ainda pela diferença que medeia entre o momento da escrita e o da publicação das obras em que os acontecimentos se inserem.

Comecemos pelo artigo «Que segredos são estes», incluído nas «Noites de Insónia», em que recorda as suas ligações com Duarte Valdês: «Primeira, a da nossa jovial convivência em um casebre da Couraça dos Apóstolos, no ano 1845».

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«… a da nossa jovial convivência em um casebre da Couraça dos Apóstolos, no ano 1845». Camilo Castelo Branco, in «Que segredos são estes». Pg. 11

E mais adiante, aludindo à sua condição de estudante: «Antes de mencionar a terceira época, urge saber-se que nenhum de nós se formou. Ele contentava-se com um diploma de insuficiência em retórica, e eu com a prenda não comum de harpejar três vários fados na viola. Formávamos na nossa recíproca ignorância um conceito honesto. Não queríamos implicar com sábios, nem para os invejar nem para os distrair».

Também em «No Bom Jesus do Monte», historiando o infeliz casamento de José Augusto Pinto de Magalhães com Fanny Owen, afirma de passagem, referindo-se àquela época: «Conheci-o em Coimbra, estudando preparatórios».

Muitos anos depois, em carta dirigida a Cândido de Figueiredo, datada de 1882, agradecendo a oferta do livro «Homens e Letras», recorda Camilo esses anos:

«Fez-se grandes saudades da Coimbra de 45 e 46 em que eu por aí estraguei duas batinas. A Maria Camela, que V. Ex.ª conheceu velhinha, era então uma gentil rapariga, a quem eu desfechava frases sentimentais, mas, sobre a matéria, incombustível. Ela foi a salamandra dos vulcões líricos que então flamejavam em Coimbra. Ouvia-me com um sorriso afetuoso enquanto eu me saturava do fósforo dos seus linguados e das suas tainhas.»

Também recorda a Tia Camela daqueles tempos em «Narcóticos», mais precisamente em «O Sr. Ministro». Misturando ficção com realidade, descreve as oito filhas do bedel Rosendo, que «eram umas ninfas do Mondego», e acrescenta:

«Entre 1840 e 46 não foi a Coimbra Lamartine subalterno que as não cantasse no estilo doentio de então. Solaus e madrigais. Um ideal de castelãs medievas, com umas rimas tão perfumadas de petrarquismo que nem elas tinham olfato capaz de sentir o insidioso azote filtrado nos bagos de mirra. Aqueles amores que viram penujar o buço do sr. dr. Pedro Penedo e o meu, se andassem cantados trinta anos depois fariam zangaraviar guitarras em fadinhos de uma melancolia sem gramática sobre os bancos gordurosos da tia Maria Camela – Deus lhe fale na alma!»

 As referências não param. Em «O General Carlos Ribeiro», depois de historiar a sua passagem como estudante de Química no Porto, escreve Camilo: «Em 1845 ao deixar o Porto e a Química para ir jurar bandeiras na boémia de Coimbra, despedi-me de Carlos Ribeiro».

E em «Cousas Leves e Pesadas», no capítulo «Dezassete anos depois», ao falar de «A Lira da Mocidade», jornal de poesias portuense. Aí recorda Jorge Artur de Oliveira Pimentel: «Conheci-o em Coimbra concluindo formatura em direito em 1846. Fez ato do 5.° ano vestido com a farda do batalhão académico».

Andrade, C.S. 1990. Coimbra na vida e na obra de Camilo. Coimbra, Coimbra Editora.

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por Rodrigues Costa às 10:11

Quinta-feira, 16.12.21

Coimbra: Presépio da igreja de S. António dos Olivais

No terreiro que está detrás da igreja de S. António dos Olivais, um pouco escondida, está uma pequena capela.

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Capela do presépio, no terreiro posterior da igreja de S. António dos Olivais

Dentro dessa capela encontra-se, na sua singeleza de figuras de barro, um presépio que julgamos ser conhecido de não muitos conimbricenses. 

Presépio que foi assim descrito em meados do século passado:

Encostada ao muro do mesmo terreiro, para o lado da estrada dos Tovins, fica a capelita do Presépio, de elementos arquitetónicos do século XVII, abrigando um presépio popular, de algumas dezenas de figuras que devem datar te fins do século XVIII ou já do XIX. Segundo uma lápide foi restaurado em 1929. No seu caráter popular é digno de consideração. O pobre artista inspirou-se de diversos pontos, encontrando-se figuras vestidas à maneira quinhentista, etc.

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(Correia, V., Gonçalves, N. Inventário Artístico de Portugal. Cidade de Coimbra. 1947. Lisboa, Academia Nacional de Belas Artes, p. 95.)

Mais chegado aos nossos dias numa conferência a que iremos voltar, o presépio é assim descrito:

“Presépio” popular, de algumas dezenas de figuras, e que devem datar já dos finais do século XVIII ou até mesmo dos primórdios do XIX. Apesar do seu carácter popular, é digno de consideração.

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(Anacleto, R. Conferência. Santo António dos Olivais: de ermitério a freguesia, Comemoração dos 151 anos de elevação a freguesia civil de Santo António dos Olivais.  2005.11.20. Coimbra, Casa Municipal da Cultura.)

Embora se possa visualizar no local, o blogue “Pingo de Luz”, permite aceder em https://umpigodeluz.blogspot.com/2012/12/presepio-da-igreja-de-santo-antonio-dos.html,  a um conjunto muito interessante de fotografias do presépio.

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Esta lembrança fez-me voltar à minha meninice.

Meu Pai era um Homem que sabia fazer quase tudo. Uns dias antes do Natal, num canto da nossa casa, com algumas pequenas tábuas montava a estrutura de uma pequena montanha que tinha no sopé uma gruta à qual todos os caminhos iam dar.

Depois, o meu Pai pintava, com cores escuras, procurando imitar a terra e as pedras, papel de sacos de cimento ou outro qualquer papel grosso e com esse material dissimulava a estrutura de madeira.

Concluída esta fase era tempo de ir, pela sua mão, buscar um saco de serradura, a uma serração que existia ao fundo da rua Direita. Serradura que servia para se representarem os caminhos.

Existia ainda uma outra tarefa de que muito gostava. Depois de descer até à Portagem e atravessar a ponte, subíamos ao monte sobranceiro ao miradouro do Vale do Inferno. Ali havia um belo musgo verde com tons de amarelo das folhas caídas e também um musgo seco branco que parecia a neve.

Esse musgo era colocado com carinho e arte no presépio.

Na véspera do Natal, durante a tarde dispunham-se as figuras todas a caminho da gruta. Figuras compradas, primeiro na romaria do Espírito Santo e, depois, numa loja da Rua da Sofia que ainda existe. O Menino Jesus só era colocado na manjedoura depois da ceia de Natal e os Reis Magos só chegavam em janeiro.

Era a alegria de uma criança feliz de outros tempos. Eu.

Rodrigues Costa

A todos e a cada um, a quem gosta da nossa Coimbra e em particular aos que seguem este blogue desejo um Feliz Natal e um Bom Ano Novo. Até ao início de 2022.

Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 09:54

Terça-feira, 07.12.21

Coimbra: Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra 2

Este papel na vida religiosa da região veio a ser reconhecido e reforçado em 1879 quando, a pedido de D. Manuel de Bastos Pina, bispo de Coimbra – e após várias vicissitudes, tentativas falhadas e persegui­ções – passou a funcionar no convento de Santa Teresa a Congregação Mariana de Maria Imaculada, destinada a leigos, sobretudo estudantes da Universidade.

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Convento de Santa Teresa, vista aérea

“Em 1897, as religiosas foram mesmo autorizadas, a título excecional, a permanecer no convento, depois do falecimento da última conventual. Para que a vida canónica regular pudesse prosseguir, vieram de Espanha três religiosas e em 1898 professaram mais sete noviças”.

A situação muda inteiramente em 1910, no contexto da revolução republicana. No dia 9 de outubro, “a comunidade de S. Teresa encontrou‑se rodeada pelos soldados e completamente isoladas de qualquer tipo de comunicação com os de fora; nem sequer podiam comunicar‑se com o capelão, P. Dr. António Antunes, mais tarde Bispo de Coimbra.” As reli­giosas são expulsas do convento e dispersas por várias comunidades, em Espanha. O edifício é entregue ao Estado e ocupado por serviços do Ministério da Guerra, mais concretamente o Hospital Militar.

Em 16 de dezembro de 1933, tendo mudado inteiramente o contexto político – em Portugal com a instauração do Estado Novo e em Espanha com a proclamação da República – dá‑se o restabelecimento do Carmelo em Coimbra: três das irmãs que haviam sido expulsas 23 anos antes e que ainda sobreviviam em Valência, no mosteiro de Corpus Christi – Glória do Coração de Jesus, Maria Luz de S. Teresa e Maria Isabel de Santa Ana – regressam, trazendo consigo outras três espanholas. Inicialmente alojadas em casa de familiar de uma delas, novamente na Arregaça, fixam‑se depois numa casa alugada, no Calhabé.

Em 26 de junho de 1934, chegam mais três do mosteiro madrileno de Loeches, entre as quais a nova prioresa, irmã Maria do Carmo do Santíssimo Sacramento, sendo esta data considerada, oficialmente, a da restauração do Carmelo, agora em casa da Ladeira do Seminário. Pouco depois (7/3/1937), a diocese cede‑lhes uma casa na Quinta do Cidral, aos Lóios, onde perma­necerão 10 anos.

Em 7 de março de 1946, após longas negociações, é reconhecido o direi­to de as freiras reocuparem o seu antigo convento, incluindo a cerca, a igreja e a casa do capelão, sendo o respetivo auto de entrega assinado em 14 de junho de 1946. Simbolicamente, as chaves são depositadas nas mãos da religiosa de quem tinham sido arrebatadas, em 10/10/1910, irmã Maria de Jesus.

Após as necessárias obras de reparação e limpeza, no dia 12 de janei­ro de 1947, as carmelitas saem da Quinta de Santo António, aos Lóios, e regressam solenemente ao seu convento. E para a irmã Maria Isabel de SantaAna foi efetivamente um regresso: tendo professado em 1905, foi expulsa em 1910, esteve exilada 23 anos, regressou a Coimbra em 1922, reentrou no seu convento em 1947, onde veio a falecer em 1959. O seu capelão nessa data, cónego Manuel dos Santos Rocha, será elevado ao bispado de Coimbra em 1948.

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Carmelita em oração

Desde então a comunidade tem florescido e daqui saíram algumas professas para fundar outras comunidades: em 1970 saíram 4 irmãs para fundarem um novo Carmelo em Braga e em 1994 saiu outro grupo de 7 irmãs para abrir um novo Carmelo na Guarda (e já em 1780 haviam saído 5 irmãs para a fundação do Carmelo de Viana do Castelo).

Em 1948, o Carmelo de Santa Teresa recebeu a sua irmã mais famosa deste século: a irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, ou irmã Lúcia, vidente de Fátima, que aí permaneceu até ao seu falecimento, em 2005.

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Estátua da Irmã Lúcia, inaugurada em 2013

No muro da frontaria do convento, voltado a norte, foi instalado um grande painel de azulejos comemorativo do centenário do seu nascimento;

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Recriação de uma cela

e junto ao muro do lado nascente foi construído um memorial, aberto em 2007, que permite ao público ver objetos que usou ou relacionados com a sua vida, bem assim como imaginar o dia‑a‑dia “na modéstia, na simplici­dade e despojamento”, próprio daquela comunidade.

Guedes, G.M.F. O Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra: inventário do acervo documental. In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. 26 (2013). Pg. 65 a 80.

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por Rodrigues Costa às 17:17

Quinta-feira, 02.12.21

Coimbra: Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra 1

O convento de Santa Teresa de Jesus, em Coimbra, pertence ao ramo das Carmelitas Descalças e remonta à 1ª metade do século XVIII. A fun­dação deste Carmelo parece ter correspondido à vontade e ao fervor religioso de vários sectores da sociedade e das autoridades religiosas da cidade. Citem‑se, entre outros, a determinação e os esforços de frei Luís de Santa Teresa, nascido Luís Salgado, mais tarde bispo de Olinda, que, após ter frequentado o Colégio das Artes e as Faculdades de Cânones e Leis, onde atingiu o grau de Doutor e onde foi, igualmente, professor – além de juiz corregedor da comarca – abandonou a promissora carreira das leis e, em 1723, com 30 anos de idade, ingressou nos Carmelitas, no Convento de Nossa Senhora dos Remédios, de Lisboa … Na década de 30 regressou a Coimbra “animado pela ideia de aí fundar um convento de Carmelitas Descalças, para o que pedia esmolas de porta em porta, fazen­do os mais servis trabalhos”.

Em 6 de junho de 1737, a Câmara concede licença para a fundação de um convento de Carmelitas Descalças na cidade, por proposta de um grupo de cidadãos encabeçado pelo Doutor Manuel Francisco, professor jubilado da Faculdade de Medicina, que tomam a seu cargo a busca de um local apro­priado, o qual vêm a encontrar no denominado Casal do Chantre, então situado nos arrabaldes. Em 20 de janeiro de 1739, o rei Magnânimo promul­ga a provisão que autoriza a fundação do convento e na tarde do dia 14 de fevereiro chegam as 11 religiosas que o Provincial, Frei Manuel de Jesus Maria e José, nomeara para o efeito, oriundas de vários outros conventos da ordem, em Portugal. Hospedam‑se no vizinho Convento de Sant’Ana, das religiosas de Santo Agostinho. No dia seguinte, são recebidas na igreja do Colégio dos Carmelitas Descalços – Colégio de S. José dos Marianos, atualmente Hospital Militar – com um solene Te Deum. Daí seguem para a quinta de Simão Pereira Homem, sita na Arregaça, onde permanecerão por quatro anos.

No dia de Nossa Senhora das Dores, 9 de abril, de 1740 é lançada a 1ª pedra do convento, num terreno doado pelo cónegochantre da Sé, Manuel Moreira Rebelo. O projeto – muito simples e austero, como fica bem a uma congregação com estas características – é da autoria do arquiteto carmelita Frei Pedro da Encarnação e estaria elaborado desde 1714. O conjunto “é artisticamente modesto, valendo unicamente pelos portais de entrada da igreja onde se crava o milésimo de 1744, e pelo retábulo barroco da capelamor.

A planta do templo privativo é simples, de uma só nave de forma retangular, com um coro alto, uma abóbada de tijolo, uma capela única de cabeceira e uma cúpula no cruzeiro.

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Convento de Santa Teresa, interior

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Convento de Santa Teresa, capela-mor

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Convento de Santa Teresa, portal

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Convento de Santa Teresa, pormenor do portal

” Nesta igreja será sepultado, com grande solenidade, o pintor italiano Pasquale Parenti ou Pascoal Parente, que deixou notabilíssima obra espalhada por todo o país e especialmente por Coimbra e pela região centro, na 2ª metade do século XVIII. À volta do claustro, de cinco arcos de cada lado, dispõemse as dependências monacais, sendo os dormitórios no andar superior.

A 23 de junho de 1744, as religiosas Carmelitas deixam as instalações precárias, embora adaptadas, na Arregaça, e fazem a sua entrada no convento construído expressamente para elas e para as características da sua vida contemplativa e de clausura – tendo o sermão da trasladação sido proferido por Estanislau Manso, Sociedade de Jesus.

Aí permanecem sem grandes percalços, durante quase um século, acrescentando o número de professas e granjeando a simpatia da cidade.

Porém, a revolução liberal e as guerras que se lhe seguiram como, antes, as invasões francesas, trouxeram incertezas e perturbações a que nenhuma comunidade ou instituição ficou alheia.

…O Carmelo de S. Teresa viu serem‑lhe subtraídos os poucos bens que possuía e a iminência da extinção pesar‑lhe sobre a cabeça, uma vez que fora proibida a admissão de noviças.

Porém, em breve “a tempestade passou”; poucos anos depois, a igreja de Santa Teresa era, mesmo, um centro de vida espiritual altamente marcante na cidade”. Enquanto a vida religiosa em Coimbra “definhava” e “nos conventos de Santa Clara, Celas e Sant’Ana morriam as últimas frei­ras” (…) o convento de Santa Teresa era “o maior, para não dizer o único centro de piedade” que “contrastava, à evidência, com o ambiente de indiferença religiosa que era comum dos habitantes da cidade. Ali concorriam as famílias da nobreza e aristocracia coimbrã, que haviam conservado as velhas tradições portuguesas, sem se deixar contaminar pelo liberalismo e pelo formalismo externo (…) Ali concorria também muita gente devota, muita gente pobre e humilde… Neste convento, havia bas­tantes religiosas ainda válidas e algumas novas, todas piedosíssimas, passando a vida em penitências austeras e edificantes.

Elas tinham sabido renovar o seu pessoal professo. Como? Deus o sabe e elas também o sabiam. Era na Igreja das Teresinhas, e só ali, que todos os dias se viam fiéis”.

Guedes, G.M.F. O Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra: inventário do acervo documental. In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. 26 (2013). Pg. 65 a 80.

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por Rodrigues Costa às 09:40

Quinta-feira, 18.11.21

Coimbra: Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz 5

No início do século XX o plano estava quase completo. O Matadouro implantou-se no limite norte da Quinta e foi inaugurado em 1897. O mercado foi ampliado e construído o Pavilhão do Peixe segundo projeto de 1901, do Arquiteto Silva Pinto. A estrada de ligação a Celas foi aberta através da rua Lourenço de Almeida Azevedo. O Jardim Público, aproveitando o antigo Jogo da Bola, foi denominado Parque de Santa Cruz e passou a ser utilizado por toda a população, que elegia aquele espaço para a realização de várias festas populares. O parque infantil foi construído na década de trinta, junto à praça D. Luís e denominado o Ninho dos Pequeninos. As águas da quinta foram canalizadas e conduzidas para o chafariz do largo da cadeia. E o planeado boulevard, ícone do urbanismo do século XIX, foi finalmente construído em 1906.

Para além dos equipamentos projetados, o novo bairro permitiu implantar a Escola Central do Ensino Primário (1905), o Teatro-Circo do Príncipe-Real (1892), a Central de Inspeção de Incêndios (1891), a Manutenção Militar e a Associação Comercial e Industrial (1909).

Concluindo

A extinção das corporações religiosas e a consequente desamortização dos seus bens permitiu ao município de Coimbra delinear uma estratégia concertada de modernização da cidade. Numa primeira fase procedeu à simples ocupação dos edifícios e terrenos desocupados, sem relevantes obras de adaptação às novas funções, mas sem descurar a organização geral da cidade. Num segundo momento, consciente das necessidades de cada função, promoveu obras de adaptação ou em casos mais radicais demoliu o existente, como no caso do edifício dos Paços do Concelho.

A maturação da experiência administrativa e a efetiva transformação da cidade contribuíram para um novo entendimento que esteve na base do primeiro levantamento topográfico da cidade, encomendado aos irmãos Goullard em 1873. Conhecendo a cidade, o município conseguiu avançar para lá dos limites cedidos e empreender a primeira operação de crescimento da cidade desde a abertura da Rua da Sofia no século XVI. Aproveitando os terrenos da antiga Quinta de recreio do Mosteiro de Santa Cruz, empenhou-se numa operação ambiciosa e marcou a entrada de Coimbra na era da modernidade, inaugurando de forma consciente o moderno planeamento urbano na cidade.

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Fig. 11. Planta da autora de reconstituição da execução do Plano de Melhoramentos da Quinta de Santa Cruz a partir do levantamento da cidade de 1934

Fig. 12. Fotografia vertical do Bairro de Santa Cr

Fig. 12. Fotografia vertical do Bairro de Santa Cruz em 1934. Arquivo Histórico das Forças Armadas

Calveiro, M.R. Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz. Ensejo e pragmatismo na construção da cidade de Coimbra. In: Cescontexto, n.º 6, Junho 2014. Coimbra, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Pg. 227-240. Acedido em

https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/80969/1/Apropria%c3%a7%c3%a3o%20e%20convers%c3%a3o%20do%20Mosteiro%20de%20Santa%20Cruz.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 18:09

Terça-feira, 16.11.21

Coimbra: Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz 4

Em janeiro de 1885 a Quinta foi adquirida e convidados o engenheiro Adolfo Ferreira Loureiro e o Dr. Júlio Henriques para elaborarem um Plano de melhoramentos da Quinta de Santa Cruz, a primeira expansão da cidade, à imagem da Europa. Em junho desse mesmo ano foi apresentado o Plano dos Melhoramentos da Quinta de Santa Cruz.

Concebido com claras influências da Avenida da Liberdade de Lisboa (Silva, 1985; Macedo, 2006: 126), propunha um Boulevard com 50 m de largura que partia do Mercado D. Pedro V e que terminava numa praça quadrangular confinante com o Jardim Público que correspondia ao antigo Jogo da Bola dos frades crúzios. A partir dos cantos da praça rasgava simetricamente três avenidas, uma para Celas, outra para o caminho de Santa Anna, outra em direção ao Bairro de S. Bento e, a partir dos lados, traçava uma em direção aos arcos de S. Sebastião e outra em direção a Montes Claros.

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Fig. 9. Planta da autora de reconstituição dos limites da Quinta de Santa Cruz, de acordo com a Representação ao Rei de 18 de fevereiro de 1884 “do mercado d Pedro V até montes claros a norte e quase à entrada do lugar de Cellas, subúrbios de Coimbra, vem pelo nascente e sul proximidades de Sant'Ana até à rua dentre muros onde é a sua principal entrada”

 

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Fig. 10. Planta da autora de reconstituição do Plano de Melhoramentos da Quinta de Santa Cruz delineado por Adolfo Loureiro em 1885

Para além do traçado, Adolfo Loureiro, imbuído da lógica operativa dos engenheiros, elaborou também uma estratégia de implementação. Como primeira medida, e para facilitar a ocupação, propunha o início dos trabalhos pela ligação aos Arcos de S. Sebastião e dividia os terrenos em três classes de preço de acordo com a localização. No entanto, e ao contrário do que era habitual, não criou lotes rigidamente traçados, a dimensão dos lotes dependia da disponibilidade financeira dos compradores. Introduziu assim um novo modelo de gestão integrado na lógica liberal de flexibilidade de mercado.

As novas ruas, amplas, arborizadas e infraestruturadas foram inauguradas no final de 1889. No entanto, a Avenida Sá da Bandeira, o boulevard projetado não tinha sido construído efetivamente. A terraplanagem do vale revelou-se demasiado dispendiosa e optou-se por adiar a construção do boulevard e aproveitar os materiais das terraplanagens da abertura das ruas para sem grande esforço regularizar o vale. Em sua substituição foi aberta apenas uma rua de 15 metros de largura.

Calveiro, M.R. Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz. Ensejo e pragmatismo na construção da cidade de Coimbra. In: Cescontexto, n.º 6, Junho 2014. Coimbra, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Pg. 227-240. Acedido em

https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/80969/1/Apropria%c3%a7%c3%a3o%20e%20convers%c3%a3o%20do%20Mosteiro%20de%20Santa%20Cruz.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 12:29

Quinta-feira, 11.11.21

Coimbra: Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz 3

Entretanto, em 1872, com o avultar das obras relativas à viação municipal e pretendendo encetar a reforma de toda a frente ribeirinha, o município, encabeçado, por Lourenço de Almeida Azevedo, consciente do papel dos engenheiros nas reformas urbanas abriu um concurso para contratação do primeiro engenheiro municipal. No ano seguinte foi contratado António José de Sá, responsável pelo Plano de Melhoramentos do Largo da Portagem e das margens, mas que abandonou o lugar no ano seguinte.

Dois anos depois, novamente com Lourenço de Almeida Azevedo na presidência, deliberou-se contratar um novo engenheiro municipal, Alexandre Simões da Conceição a fim de estudar o projeto para um novo edifício dos Paços do Concelho, demolindo parte do antigo Mosteiro de Santa Cruz. A obra foi muito contestada pela imprensa local que reclamava contra o seu elevado custo e contra a destruição de um edifício histórico, mas para além das polémicas teve um processo problemático, com as obras a iniciarem-se antes da aprovação do projeto e com sucessivas alterações que aumentaram em muito os custos e as dificuldades da obra. Não obstante, no dia 13 de agosto de 1879, a vereação reuniu pela primeira vez no novo edifício, mas as obras arrastam-se até 1886.

No entanto esta intervenção, quer pela contestação que enfrentou, quer pelos avultados empréstimos que requereu, preconizou uma mudança de atuação do município, consciente da necessidade de se apoiar em técnicos para conduzir corretamente o desenvolvimento da cidade.

Plano de Melhoramentos da Quinta de Santa Cruz

Na mesma época, e firmando a consciência de planear com recurso aos novos meios e conhecimentos técnicos, foi mandada elaborar a Planta Topographica da Cidade de Coimbra. Executada entre 1873 e 1874 e desenhada à escala 1:500 em 19 lâminas de grandes dimensões (0,80x 1,25), constituiu o primeiro trabalho de cartográfica científica de Coimbra (Fernandes, 2011: 7), e até à década de 30 do século XX foi a base de todo o planeamento e intervenção na cidade.

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Fig. 8.  Composição da autora de 8 das 19 folhas que compõem a Planta Topographica da Cidade deCoimbra, por Francisco e Cesar Goullards

Como referimos, em 1843, a abertura da rua de ligação entre a Alta e a Baixa, atravessando o Pátio de Santa Cruz e o Vale da Ribela, ultrapassou pela primeira vez os limites seculares do antigo Mosteiro Crúzio. Depois desta rua foi implantado o Cemitério na Quinta da Conchada, para lá da cinta das antigas cercas e começou timidamente a urbanização do Montearroio em direção ao cemitério, mas à parte deste reduzido crescimento a cidade mantinha-se densamente concentrada na Baixa e na Alta. A referida estrada, aberta com 24 palmos para a circulação de carruagens entre a Baixa e a Alta, mantinha-se limitada pela Quinta de Santa Cruz, adquirida por um particular e pela cerca dos Jesuítas, entregue aos Hospitais da Universidade, não deixava antever qualquer possibilidade de crescimento urbano.

Foi o Presidente Lourenço de Almeida Azevedo quem anteviu a importância estratégica que a Quinta de Santa Cruz detinha, articulando a Alta e a Baixa, com uma área superior a qualquer um dos antigos bairros, e iniciou o processo para a compra e urbanização da Quinta.

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Lourenço Almeida Azevedo

Para além da ligação entre a Alta e a Baixa, o plano esboçado pelo presidente previa o alargamento do mercado D. Pedro V, a construção do novo matadouro, a construção do troço da estrada real nº 48 entre Celas e a Baixa, a criação de um Jardim público e de um jardim-de-infância, um espaço para a Feira de Santa Clara e para a feira anual de S. Bartolomeu e, finalmente, aproveitar as águas da Quinta para o abastecimento de água da cidade.

Mas o processo não foi linear. O município, perante um investimento tão avultado, solicitou a expropriação da Quinta em fevereiro, mas no mês seguinte temendo que a mesma não fosse enquadrada no decreto de lei de 11 de maio de 1872, requereu antes autorização para aumentar o valor do empréstimo a contratar e concorrer à compra da Quinta.

Calveiro, M.R. Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz. Ensejo e pragmatismo na construção da cidade de Coimbra. In: Cescontexto, n.º 6, Junho 2014. Coimbra, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Pg. 227-240. Acedido em

https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/80969/1/Apropria%c3%a7%c3%a3o%20e%20convers%c3%a3o%20do%20Mosteiro%20de%20Santa%20Cruz.pdf 

 

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por Rodrigues Costa às 16:36

Terça-feira, 09.11.21

Coimbra: Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz 2

A implantação dos novos equipamentos nos terrenos do extinto Mosteiro de Santa Cruz

Desde 1836 que as várias repartições públicas e a câmara municipal tinham sido instaladas no antigo mosteiro, mas faltava instalar o mercado e, em 1840, algumas vendedeiras foram transferidas para o Pateo de Santa Cruz. Esta medida foi mal aceite pelas próprias vendedeiras, que contestavam a localização fora dos circuitos habituais de circulação da cidade e marcou o início de uma acesa discussão sobre a localização dos modernos equipamentos públicos.

Efetivamente, se, por um lado, a opção de reutilizar os edifícios desocupados pelas ordens religiosas era sustentada por razões de economia e de rentabilização do Património do Estado, por outro, a reforma e o saneamento do denso tecido urbano existente só seria viável com a implantação destes novos equipamentos.

Fig. 5. Planta da autora com a indicação, a verd

Fig. 5. Planta da autora com a indicação, a verde, da localização da Horta de Santa Cruz e a laranja a localização do Largo da Sota.

Neste sentido, o processo de construção do Mercado Municipal constitui o melhor exemplo do confronto entre a estratégica pragmática da Câmara Municipal e os desejos de progresso e modernidade idealizados pela população, que se opunha ao aproveitamento dos terrenos da Horta de Santa Cruz, cedidos ao município em favor da reforma e alteamento do Largo da Sota, no interior da baixa e junto às entradas da cidade, do cais das Ameias e do Largo da Portagem.

O primeiro estudo elaborado pelo município concluía que a hipótese de implantação no Largo da Sota, pelas vultosas expropriações e pelo alteamento de toda a área, correspondia a um aumento de cerca de 30% dos custos da construção do mercado na Horta de Santa Cruz. Pese embora este acréscimo de custos, esta seria a oportunidade de ouro para se proceder à reforma urbanística da Baixa, alteando o solo e rasgando novas ruas, saneando, assim, o antigo tecido insalubre. Tudo isto explica as hesitações do município e o tempo longo até à decisão final, contudo as debilidades financeiras do concelho acabaram por ditar a solução e as obras na Horta de Santa Cruz iniciaram-se em outubro de 1866, sendo o novo Mercado D. Pedro V inaugurado no dia 17 de novembro do ano seguinte.

Fig. 6 e 7. Planta de reconstituição da autora,

Fig. 6 e 7. Planta de reconstituição da autora, com a implantação do Mercado D Pedro V. Fotografia do final do século XIX do antigo mercado. Imagoteca/Câmara Municipal de Coimbra

Para além do mercado, também a implantação do matadouro, aproveitando um antigo palheiro do Mosteiro de Santa Cruz, gerou controvérsia. Era apontada a precaridade da construção, que obrigou a várias intervenções de reparação e a reduzida distância à povoação, não cumprindo os padrões de salubridade. A partir de 1866 apontou-se mesmo a necessidade urgente de construir um novo edifício noutro local, conduzindo, na década de 1880, à compra de um terreno junto ao Rio, mas a necessidade de grandes aterros foi sucessivamente adiando a construção e mantendo o existente.

A segunda metade do século XIX correspondeu a um período de forte transformação na cidade. Primeiro chegou a Mala-posta que em 1855 ligava a cidade ao Carregado, depois instalou-se a iluminação a gás em 1856, seguiram-se os equipamentos sanitários, como o cemitério construído no Alto da Conchada inaugurado em 1860 e a transferência do Hospital da Conceição para o Colégio das Artes em 1857, a primeira operação de reforma urbanística, que decorreu entre 1858 e 1866 e correspondeu ao alargamento da antiga rua de Coruche e os aterros e regularização dos cais do Mondego que começaram a ser construídos com consistência a partir de 1872 e 1873, ao mesmo tempo que se construía a nova ponte de ferro.

Neste quadro de modernização, o município revelou a vontade de construir um novo edifício para albergar a Câmara Municipal e, em 1869, solicitou à Rainha a autorização para encarregar a Direção de Obras do Distrito dos estudos necessários, mas o pedido foi recusado, lembrando a criação no ano anterior da Repartição Distrital de Obras Públicas, dependente dos cofres do concelho e a ideia foi adiada.

Calveiro, M.R. Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz. Ensejo e pragmatismo na construção da cidade de Coimbra. In: Cescontexto, n.º 6, Junho 2014. Coimbra, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Pg. 227-240. Acedido em

https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/80969/1/Apropria%c3%a7%c3%a3o%20e%20convers%c3%a3o%20do%20Mosteiro%20de%20Santa%20Cruz.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 10:31


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