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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 23.06.22

Coimbra: Mantilha Coimbrã 2

A muito divulgada água-tinta de G. Vivian, que é o n.º XVI de Scenery of Portugal & Spain, editado em Londres, em 1839, e de que apresentamos um pormenor na Fig. 3, é um manancial de informações sobre o trajo popular em Coimbra, na época, já que junto à fonte de Santana se agrupam diversas figuras citadinas que vão desde os estudantes, à esquerda, às senhoras de mantilha, à direita. Ali as vemos, conversando, uma de frente outra de costas, amantilhadas com a extraordinária coca armada em papelão e barbas de baleia.

Fig. 3.jpg Fig. 3 - Pormenor da estampa XVI da obra de G. Vivian, “Scenery of Portugal & Spain”, Londres, 1839, vendo-se, à direita, duas mulheres de mantilha

O desenho é em tudo coincidente com a descrição de António Cândido Borges de Figueiredo que, recordando com certa saudade as senhoras, que conheceu, de mantilha, não se abstém de ridicularizar esse trajo feminino:

«Quando eu era pequeno, quando eu usava calcinhas curtas, [...] nesse tempo, aí de 1858 para 1859, lembro-me perfeitamente de ter visto ainda algumas senhoras de mantilha, principalmente na semana santa. Conquanto eu então apreciasse muito o cortar bonecos de livros e colá-los em papel, para desassombrar as figuras das letras, confesso que, todas as vezes que percebia que íamos à missa ao Salvador, não cabia em mim de contente. É que, naquela igreja encontrávamos sempre as senhoras S., a casa de quem íamos depois da missa. Ora a casa das senhoras S., e as donas dessa casa tinham a arte de me atrair. A casa atraía-me, porque na sala havia sobre as mesas um papagaio e um gato empalhados, e uma recova de cavalinhos de vidro, e um pavão também da mesma matéria cuja cauda era composta de vidro em cabelo. [...] Quanto às senhoras S., essas atraíam-me, porque me davam uns certos bolinhos, muito melhores que especiones [...].

«Devo ser – e sou – grato à memória daquelas excelentes criaturas, que me deram tantas gulodices; todavia não posso deixar de rir-me ainda hoje do aspecto que as três senhoras – mãe e filhas – apresentavam quando iam à missa. As suas tradições de família, o seu recato, a sua devoção, não lhes permitiam adop- tar a moda. Nada direi da saia, ou vestido, preto quasi sempre, e, quando não preto, então da cor da túnica do senhor dos passos; mas a mantilha...

«Creio que ainda nalgumas partes do nosso Portugal se vêm as clássicas mantilhas; mas a mantilha de Coimbra era muito diferente das outras, – pelo menos não me consta que em outras partes se usassem do feitio daquelas. Compunha-se de uma tira de papelão grosso arqueada e convenientemente coberta de fazenda preta; colocada sobre a cabeça e segura sob o queixo por fitas, caía o pano preto exterior pelas costas e peito a modo de mantéu: até aqui não há nada de extraordinário; mas de diversos pontos do papelão que cobria a cabeça partiam algumas barbas de baleia que a distância de dois palmos da testa se uniam formando vértice, tudo isto coberto de fazenda igual à restante e apresentando a figura da maxila superior do ranforincho, ou, melhor, do pterodáctilo... E que lindos rostos, que rosadas e mimosas faces se escondiam sob esse hediondo e ridículo trajo!

«Mas foi o que usaram as damas do high-life de outrora; quem não trajava de mantilha, tinha de pôr o capote de cabeção e o lenço de cambraia muito branco c muito gomado. O bico formado atrás da cabeça pelo lenço era a perfeita antítese do bico da mantilha. As senhoras S. foram, creio eu. as últimas damas que usaram mantilha.»

Ainda um outro desenho, certamente de artista nacional, mas de autor desconhecido e que deverá datar do segundo quartel do século passado, vem de encontro aos testemunhos anteriores. Nele se vê uma cena matutina (Fig. 4). O desenho é desagradável, mas elucidativo. O garotito e a manteigueira, descalços, contrastam com a senhora de mantilha que se dirige, certamente, para a igreja.

 

Fig. 4.jpg

Fig. 4 - Cena matinal, com senhora de mantilha. Desenho de autor desconhecido

E eis, suficientemente caracterizada, a mantilha coimbrã.

Borges, N. C. A Mantilha e o seu uso em Coimbra, In: “Munda”, 7, Coimbra, Revista do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, 1984, p. 60-71.

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:37

Terça-feira, 21.06.22

Coimbra: Mantilha Coimbrã 1

O Grupo de Arqueologia e Arte do Centro (GAAC), ao ser fundado na cidade de Coimbra, em 11 de maio de 1978, teve como primeiro objetivo «Promover o estudo, conservação, defesa e divulgação do património cultural, nomeadamente arqueológico, paisagístico, artístico e etnográfico». Ao longo dos anos, tem vindo a publicar a revista «Munda», cujo primeiro número apresenta a data de 11 de maio de 1981.

Muna n. 1.jpg

Munda, n.º 1. 18 de maio de 1981

Esta revista, nomeadamente os números da sua primeira fase, atualmente apenas consultáveis em algumas bibliotecas, destacaram-se pela qualidade da colaboração e não pode deixar de se lamentar os injustamente esquecidos artigos ali publicados. Por isso, iremos procurar recordar neste blogue, sobretudo aqueles trabalhos cuja temática se relaciona com a nossa cidade.

Começamos com um escrito do Professor Doutor Nelson Correia Borges, intitulado «A Mantilha e o seu uso em Coimbra». O autor apresenta ali um aprofundado estudo sobre a origem e evolução desta peça do vestuário feminino, «que se destinava exclusivamente a cobrir a cabeça da mulher, e era usada sobretudo para ir à igreja até não há muitos anos».

A parte final do artigo é dedicada ao estudo das especificidades da mantilha usada pelas mulheres de Coimbra.

Nas duas próximas entradas transcreveremos o texto e inseriremos as imagens que o ilustram.

Rodrigues Costa

Fig. 1.jpg

Fig. 1 A lady of Coimbra in mantilla. Gravura da obra de Henry L’Evêque, “The costume of Portugal”, Londres, 1812

 A representação mais antiga (Fig. 1) é uma belíssima gravura a «pointillé», incluída na obra de Henry L'Evêque, The Costume of Portugal, publicada em Londres. em 1812. Ostenta a seguinte legenda: «A Lady of Coimbra in Mantilla». Nela se recorta uma esbelta figura feminina sobre a paisagem da cidade, onde se reconhece a Sé Nova e o Mondego. Envolve-se na mantilha, com graciosidade, deixando a descoberto parte da «blusa» e da saia preta. Notaremos ainda no seu trajo as meias brancas e os sapatos finos, além das joias que ostenta. Em segundo plano segue, ao lado de um homem, outra mulher, também de mantilha. Parece-nos, todavia, que esta gravura não representa com fidelidade a parte que envolve a cabeça – a coca –, a qual, segundo outros testemunhos, era de muito maior dimensão, e a forma, ainda que não se afastando nas suas linhas gerais, aparece aqui mais comedida.

Assim a viu Carlos Van Zeller, oficial do exército britânico, cerca de 1834, com a sua coca muito saliente, terminando num bicoque, pelo que afirma, encurvava quase até ao nível do queixo. Não se poupa ao comentário depreciativo comum a quantos, nesta época, se referem a esta peça de vestuário: «The walking dress of fema'e of Coimbra is ridiculous in the estreem. The mantilha is in every aspect the same as that of Oporto except the cape which projects to an extraordinary lengíh beyond the face so as nearly to hide it, ending in a sharp point which bends down wards nearly as far as the chin».

Além das notas manuscritas, Van Zeller fez alguns esboços, dos quais nos interessam particularmente os pormenores da mantilha coimbrã que reproduzimos na Fig. 2.

Fig. 2.jpg

Fig. 2 - Coca da mantilha coimbrã, segundo apontamentos de viagem de Carlos Van Zeller, em 1853

De facto, é a coca que verdadeiramente distingue e define a mantilha de Coimbra, só encontrando rivais no Porto, Viseu e Braga que não lhe ficam atrás na singularidade. Estamos em crer que o desenvolvimento do tamanho da coca foi uma consequência dos toucados, por vezes muito elaborados, em moda, sobretudo, na última metade do século XVIII.

 

Borges, N. C. A Mantilha e o seu uso em Coimbra, In: “Munda”, 7, Coimbra, Revista do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, 1984, p. 60-71.

 

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por Rodrigues Costa às 11:27

Terça-feira, 07.06.22

Coimbra: Universidade, capela de S. Miguel 2

O arco cruzeiro é de arco quebrado, largo caveto entre colunelos, rematando num Calvário de figuras posteriores. os tetos são os referidos do século XVII restaurados no fim do século XIX, de ornatos de enrolamentos acantiformes.

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Vista da capela-mor e do transepto da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 55

As paredes da capela-mor estão cobertas de azulejos de tapete, de folhagens azuis, protobarrocos, de fabrico de Lisboa, de Gabriel Ferreira, aplicados pelo azulejador Jorge Gonçalves, em 1613. O azulejo da nave pertence ao meado do mesmo século XVII, policromo, de Lisboa, mostrando duas figuras sobre o arco Cruzeiro, Adão e Eva, também protobarrocos.

O retábulo do altar-mor é do princípio do século XVII. 0 desenho foi pago, em 1605, a Bernardo Coelho, artista lisbonense que fez trabalhos em Coimbra e que parece nada a ter com os Coelho vindos de Portalegre. A obra foi dada a Simão da Mota, em 1611. A estrutura é um magnífico exemplo da estética maneirista. As pinturas são de Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão que as contrataram em 1612. Ladeando o vão central e formando o primeiro corpo há dois intercolúnios coríntios, com frontões de enrolamentos; o segundo é de pilastras mísuladas. As tábuas superiores representam o Nascimento e a Adoração dos Magos. As de baixo a Ressurreição e o Aparecimento à Virgem. Na parte central da predela há uma Ceia, e nas laterais dois bustos em talha de madeira de São Pedro e São Paulo. o vão foi alterado no século XVIII, como as talhas denunciam e os documentos comprovam. Trata-se de um dos maís importantes conjuntos da pintura maneirista portuguesa refletindo claramente a tendência italianizante que este estilo alcançava, no final do século XVI, e início do século XVII particularmente no círculo lisboeta.

Encostados às paredes vêem-se bancos corridos os «doutorais» e a cadeira do prelado universitário, de braços e alto espaldar com veludo, do século XVIII. Os doutorais foram executados por Francisco de Barros e Manuel de Morais que também fizeram o pequeno cadeiral do coro-alto, tudo em estilo D. Maria, isto é, uma forma peculiar do neoclássico nacional.

Aos lados do cruzeiro, encostam-se dois retábulos, do terceiro quarto do século XVIII, claramente barrocos da última fase, cuja traça se deve ao marceneiro Manuel Moreira. O do lado esquerdo mostra uma escultura grande de pedra, dos três últimos anos do século XVI, da Senhora com o Menino, e duas de madeira pequenas, do século XVIII e evocativas de Santo Agostinho e São José, da autoria do lisbonense Joaquim Bernardes que as esculpiu em 1781. O do lado direito, há uma grande imagem de Santa Catarina, e duas menores, uma representando Santo Inácio e outra São Francisco de Borja. A primeira saiu das mãos do escultor beneditino Frei Cipriano da Cruz, e as outras das do já citado Joaquim Bernardes.

No topo do |ado esquerdo do transepto está embutida a lápide do juramento da Imaculada Conceição, executada por Samuel Tibau. Na parede do |ado direito, salientam-se o púlpito e o órgão. O púlpito é uma obra corrente, idêntica a outras existentes na cidade (1648-49), sendo a parte de madeira de Manuel Ramos.

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Órgão barroco da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 67

A caixa do órgão foi construída de 1732 a 1733, e dourada e pintada, em 1737, por Gabriel Ferreira da Cunha, é uma boa composição do barroco da primeira metade do século XVIII.

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Pintura e talha decorativa da caixa do órgão barroco da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 68

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Pintura decorativa da caixa do órgão barroco da Capela de São Miguel. Op.cit., 69

A estrutura mecânica ficou a dever-se ao grande organeiro setecentista Manuel de São Bento Gomes, deve destacar-se a excecional decoração de "chinoiserie” tão em voga na época de D. João V, e a terminação superior, plenamente barroca, com anjos e tecidos fantasiados, alegoria à magnificência do Monarca, representado pelo Escudo Real.

O coro-alto assenta num corte feito à nave, em 1780, para se dar um acesso a várias repartições administrativas, obras dirigidas pelo mestre José Carvalho.

A coleção de pratas da capela, do tempo e estilo D. João V, constitui um bom agrupamento de peças. Além das espécies do século XVIII, como castiçais e lâmpadas dos altares laterais destaca-se a lâmpada da capela-mor, de 1597, maneirista de prata branca, executada pelo ourives Simão Rodrigues e composta de balaústres e largamente decorada. São excelentes as banquetas do altar-mor e dos dois altares laterais ao arco-cruzeiro, obras de prata executadas em Lisboa e que ostentam o Brasão Real de D. João V, monarca que as ofereceu à Universidade, são de um barroco evoluído e erudito, constituindo um dos melhores conjuntos portugueses do género.

É de salientar ainda o sacrário de bronze dourado, do século XVII, com uma composição de dois corpos e com colunas coríntias emparelhadas, separando nichos vazios de estilo maneirista e excelente nível de execução.

Dias, P. e Gonçalves, A.N. O Património Artístico da Universidade de Coimbra. 2.ª edição revista e aumentada. 2004. Coimbra, Gráfica de Coimbra, Ld.ª

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:26

Quinta-feira, 02.06.22

Coimbra: Universidade, capela de S. Miguel 1

Com esta entrada iniciamos uma exploração do que nos é revelado no livro O Património Artístico da Universidade de Coimbra.

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O Património Artístico da Universidade de Coimbra, capa

A Capela de São Miguel foi uma das extensões manuelinas dos paços antigos. Do oratório dos primeiros tempos existem alvarás de D. Afonso V que se referem a uma capela, capelães e encargos, etc. A obra atual é inteiramente manuelina, segundo o traçado de Marcos Pires, que faleceu no fim de 1521. Ficou incompleta, faltando o lajeamento, caiações, etc., e os tetos que, sendo de madeira, não eram da sua empreitada, mas pertenciam à de Pêro Anes.

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Vista da fachada da Capela de São Miguel. Op.cit., pg. 53

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Interior da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 54

As cornijas no transepto e capela-mor que são já renascença e devem-se a Diogo de Castilho. Talvez tenha sido projetada uma abóbada para a capela-mor que, por morte do mestre, abortaria, tanto mais que se deu acabamento sumário aos Paços. Em 1544, estavam ainda tantos entulhos na capela que subiram a 200 carradas. João de Ruão trabalhou também nestas obras de acabamento.

No tempo intermédio continuaram os atos religiosos das obrigações da capeia, mas não se sabe onde se realizavam. Em datas sucessivas, fizeram-se obras secundárias. De 1695 a 1697, foi renovado o teto bem como os telhados. A pintura do estuque é da autoria do pintor lisbonense Francisco Ferreira de Araújo (fal. 1701), e foi renovada, em 1859, por António José Gonçalves das Neves.

O plano é o costumado, dois retângulos, para a nave e capela-mor, tendo aquela duas leves saliências a servir de transepto que, em alçado, terminam abaixo do nível da linha das paredes, da nave, cobertas de pequenas abóbadas nervadas. Os ângulos externos da capela-mor são robustecidos de contrafortes cilíndricos terminados por torreões renascentistas de sabor serliano.

A porta de entrada é lateral, a meio da parede esquerda da nave, acompanhada de duas altas janelas, que se repetem ao lado fronteiro, rasgando-se outras, uma a cada banda, no transepto e na capela-mor, de traçado maís simples.

A porta é uma composição típica de Marcos Pires, num manuelino naturalista. Entre dois contrafortes, em forma de pilar torcido, recorta-se o arco decorativo, tricêntrico, cujos aros se entrelaçam e rematam em desenvolvida cruz. Ficam-lhe inferiores os dois vãos, de verga policêntrica e abatida que um pilar médio separa, pilar fruto duma restauração de 1895, em substituição duma coluna clássica. Fica sobre este o Escudo Real, acompanhado, nos extremos do espaço, da Cruz de Cristo e da Esfera Armilar. Três escudetes suplementares mostram símbolos da Paixão.

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Escultura barroca de São Miguel da Capela de São Miguel. Op. cit., pg. 62

No vértice da empena do topo da nave, ergue-se a cópia de uma escultura de pedra, manuelina evocativa de São Miguel, da autoria de Diogo Pires-o-Moço. O original está guardado.

Dias, P. e Gonçalves, A.N. O Património Artístico da Universidade de Coimbra. 2.ª edição revista e aumentada. 2004. Coimbra, Gráfica de Coimbra, Ld.ª

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:09

Terça-feira, 31.05.22

Coimbra: Memória histórico-corográfica dos concelhos do distrito de Coimbra

Prosseguindo na sua tão meritória caminhada de divulgar livros injustamente esquecidos da bibliografia coimbrã, o Dr. Mário Araújo Torres acaba de editar, com recolha de textos, introdução e notas da sua autoria, mais uma obra.

Trata-se da Memória histórico-corográfica dos concelhos do distrito de Coimbra, seguida de Mapa do Distrito Administrativo de Coimbra, obras editadas em 1853-1854.

Henriques Seco, capa.jpg

Capa do livro ora editado

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Contracapa do livro ora editado

Mário Araújo Torres apresenta da figura e a obra de António Luís de Sousa Henriques Seco.

Henriques Seco, contacapa. Pormenor.jpg

Pormenor da contracapa

Foi uma personalidade marcante em vários setores da vida política e cultural portuguesa do século XIX: na política, no jornalismo, na docência universitária, na historiografia.

Na política, foi um convicto liberal, participando nas revoltas populares de 1844 e 1846 e no movimento da Regeneração (1851), sendo eleito, por diversas vezes, Deputado às Cortes.

Na Administração Pública, chefiou o Distrito de Coimbra em 1847 e de 1852 a 1854, salientando-se, neste último período, o seu decidido combate ao banditismo, mesmo quando associado ao clientelismo político eleitoral.

Em 1862 e 1863, exerceu, com generalizados elogios, a presidência da Câmara Municipal de Coimbra.

No combate ao cabralismo, esteve na origem de várias publicações periódicas.

Como professor universitário, na Faculdade de Direito de Coimbra, de que foi Diretor, deixou obra relevante, sobretudo na área do Direito Criminal, mas também na História do Direito.

No bicentenário do seu nascimento, lutando contra o esquecimento a que a sua obra tem sido injustamente votada, e após termos recuperado extratos das suas Memórias do Tempo Passado e Presente para Lição dos Vindouros, relativos à luta contra o banditismo, inseridos, como anexo, à recente redição de os Assassinos da Beira, de Joaquim Martins de Carvalho, coloca-se à disposição  pública duas outras obras de António Luís de Sousa Henriques Seco, elaboradas enquanto exerceu funções de Governador Civil de Coimbra: Memória Histórico-Corográfica dos Diversos Concelhos do Distrito Administrativo de Coimbra (1853) e Mapa dos Distrito Administrativo de Coimbra (1854).

Estamos, mais uma vez perante o inestimável contributo de Mário Araújo Torres para a história e a cultura de Coimbra.

Seco, A.L.S.H. Memória histórico-corográfica dos concelhos do distrito de Coimbra, seguida de Mapa do Distrito Administrativo de Coimbra. 1853-1854. Recolha de textos, introdução e notas de Mário Araújo Torres. Lisboa, 2022. Edições Sítio do Livro

 

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por Rodrigues Costa às 10:11

Quinta-feira, 12.05.22

Coimbra: Na Judiaria de Coimbra 2

Desci ao vale por um caminho que representa um outro já multissecular. Fui ter ao sítio da Fonte Nova, Fonte dos Judeus no séc. XII e ainda assim chamada, já partidos, no ano de 1548. A fonte demorava outrora no prédio novo do começo da avenida, acima do mercado.

Fonte Nova ou Fonte dos Judeus 04.jpg

A Fonte Nova, na localização descrita.

Recordamo-nos todos como, durante as obras em que o veio da água foi cortado, caía do alto um jorro, cristalino e abundante, numa época final de quatro anos de sequeira, tal qual a alma perene do povo de Israel.

Vale da Ribela.jpg

Segui pela rua, ladeando à minha esquerda o terreno inicial do almocavar

Segui pela rua, ladeando à minha esquerda o terreno inicial do almocavar ou cemitério dos judeus que irregularmente ia pela encosta até à ladeira do Castelo, de limites indefiníveis hoje.

Entrei de vez na rua, repetindo, como tantas vezes o tenho feito: –que restará nestas paredes das velhas construções que Israel aqui levantou? Nada que apareça nos exteriores. As casas da época manuelina já são posteriores a sua saída. Os cristãos renovaram tudo e muitos já aí habitavam a esse tempo.

É a sina de Israel: passou por toda a terra, regou-a com o seu sangue e com lágrimas das maiores agonias e, logo que desaparece, os seus vestígios eliminados também.

 Aqui estiveram séculos, contribuíram para a riqueza nacional; tinham o comércio e a indústria, num tempo em que os aborígenes só podiam e sabiam cavar a terra para o senhor dela e este, acabado o período da conquista, vivia na ociosidade e na intriga.

Vítimas de ódios mais económicos do que raciais ou religiosos que, nascidos no resto da Europa, abateram com uma ferocidade na Península, quebrando aquele viver harmonioso até ao século XIV, que foi aqui o de cristãos, judeus e muçulmanos sujeitos, desapareceram com a mesma brutalidade que os próximos anos passados viram desencadear-se.

Israel é o novilho gordo que todos os povos imolam. Na sua vida milenária só teve o descanso rápido dos reinados de David e de Salomão. 

O significado do traje cerimonial judaico.png

Imagem acedida em: https://www.coisasjudaicas.net/2011/04/o-significado-das-roupas.html

… Foi neste momento que rápido como relâmpago e esvanecente como alucinação, passou diante de mim a nobre figura do grande arrabi de Coimbra, a labita flutuante, os tefilins ligados e as correias soltando-se, como quem vem da sinagoga no dia ritual.

Depois de pousar em mim um olhar profundo, levantou as mãos descarnadas e translúcidas e eu ouvi:

«Profetisa sobre a terra de Ysrael e dize aos montes, outeiros, rios, e vales: assi diz o Senhor D.: Em meu zelo e meu fervor falei quando padecestes a injúria recebida das gentes, pela qual levantei minha mão para que padeçam também as gentes que cerca de vós outros estão a vossa mesma injúria; e vós, montes de Ysrael, produzireis vossas árvores e ao meu israelítico povo dareis a comer vosso fruto. Isto certo está já para vir, porque eu a vós tenho, ó montes de Ysrael, e por vós olharei; sereis lavrados e semeados e eu multiplicarei em vós homens, os da casa de Ysrael».

Recordei-me, eram as palavras de Samuel Usque, nascidas no coração, na esperança dum português de Israel. Na terra dos avós combatem hoje, com a fé multissecular e, mesmo que vencidos agora, Israel virá a possuir de novo a terra que foi sua; virão de todos os pontos da terra, do setentrião ao meio-dia, do levante ao ocaso, combatentes, e o lar restaurado de Israel renovará as maravilhas da raça.

Esta é também a voz antiga judiaria de Coimbra.

Diário de Coimbra, 1947.10.27.

 Gonçalves, A. N. 2019. António Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas. Coordenação de Regina Anacleto e Nelson Correia Borges. Prefácio de José de Encarnação. Coimbra, Câmara Municipal. Volume II, pg. 483-485.

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por Rodrigues Costa às 11:10

Terça-feira, 12.04.22

Coimbra: Faculdade de Farmácia e a sua história 1

No Arquivo da Universidade de Coimbra esteve patente uma muito interessante exposição intitulada 100 anos de Faculdade de FarmáciaDo seu Catálogo

AUC. 100 anos da FFUC, capa do catálogo.png

Catálogo, capa

extraímos as imagens, sem referência, que integram a entrada de hoje, bem como o texto, assinado pelo Professor daquela Faculdade, Doutor João Rui Pita, com o título Comemoração do centenário da Faculdade de Farmácia no Arquivo da Universidade de Coimbra (1921-2021) que abaixo se cita.

O ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra é o mais antigo de Portugal e dos mais antigos no panorama internacional.

Com efeito, foi nos finais do século XVI que se iniciou na Universidade de Coimbra a aprendizagem da arte de botica com a fundação de um curso de boticários. Reinava em Portugal D. Sebastião. Era um curso prático com matrícula na Universidade e aprendizagem prática em boticas.

AUC. Livro do Receituário.png

Há outras datas e momentos igualmente muito marcantes na história do ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra. Desde logo, o curso de boticários fundado em 1772 pela reforma pombalina da Universidade de Coimbra e que foi herdeiro do curso anteriormente referido.

AUC Carta de Farmácia.png

Carta da Arte de Boticário, passada aos 21 de novembro de 1777

 Com a reforma de Pombal, pela primeira vez, a Universidade de Coimbra passou a ter um local para o ensino da farmácia – o Dispensatório Farmacêutico do também recém-fundado Hospital Escolar.

AUC. Instrumentos de Farmácia.png

 Instrumentos da indústria famacêutica. Património histórico-farmacêutico da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra. Foto: Paulo Amaral©DCom.UC
[cf. https://www.uc.pt/ffuc/patrimonio_historico_farmaceutico]

Em 1836 foi fundada a Escola de Farmácia anexa à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e que resultou de uma profunda alteração do regime de estudos de 1772. Foram também fundadas congéneres escolas em Lisboa e Porto, resultando esta institucionalização das medidas levadas a bom termo no ensino em Portugal, por Passos Manuel.

AUC. 100 anos de Faculdade de Farmácia. Universidade de Coimbra. Exposição documental. Arquivo da Universidade de Coimbra. Fevereiro-Março 2022. Acedido em https://www.uc.pt/auc/article?key=a-cb0df61dab

 

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por Rodrigues Costa às 10:15

Quinta-feira, 07.04.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 3

Mas, se a Cidade consolidou um Poeta, a Universidade não formou um Bacharel.

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Universidade, Via Latina, in: Passear na Literatura. António Nobre

 

“Olha... São os Gerais, no intervalo das aulas.

Bateu o quarto. Vê! Vêm saindo das jaulas

Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes.”

«Só — Carta a Manuel»

 

De novo reprovado, António Nobre sai de Coimbra:

Quando vem Julho e deixo esta cidade,

Batina, Cais, tuberculosos céus,

Vou para o Seixo, para a minha herdade:

Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

O regresso, em Outubro, é breve. Demora-se o suficiente para tratar de papéis que precisará para se matricular em Paris, na Faculdade de Direito, cujo curso terminará em 1895.

E também para as despedidas. E nesses breves dias instala-se na “sua” Torre de Anto “onde um só homem vivia, que era o Anto encantado, na sua Torre”, e que para sempre ficará ligada ao poeta do “Só”.

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Torre de Anto, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Mas que surpresa ao despertar: imaginarás o que é a gente abrir o olho, repleto de tanta imagem deste século XIX e deparar encantado com a Idade Média em frente, pelos lados, sobre e sob? Oh, a Torre! Levantei-me entusiasmado e fui abrir as ogivas talhadas nestas pedras milenares e, ao ver toda a Coimbra outonal, essa paisagem religiosa, milagrosa, o Mondego sem água, os choupos, meus queridos corcundas, sem folhas e Vergados pelos anos, — pareceu-me que estava num mundo extinto, todo espiritual, onde só um homem vivia, que era o Anto encantado, na sua Torre.”

«Carta a Alberto de Oliveira, 4 Outubro 1890»

Partia de Coimbra, dizia adeus às margens do Mondego. Mas transportava consigo a saudade.

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Coimbra, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Que lindas coisas a lendária Coimbra encerra!

Que paisagem lunar que á a mais doce da terra!

Que extraordinárias e medievas raparigas!

E o rio? e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?”

«Só – Carta a Manuel»

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Monumento a António Nobre, no Penedo da Saudade, inaugurado em 30 de Outubro de 1939. in: Passear na Literatura. António Nobre

E, muitos anos mais tarde, quando procura em Lausana a cura para o mal que em breve lhe leva a curta vida, evoca, emocionado, a “Coimbra sem par, flor das Cidades”:

"Todas as tardes, vou Léman acima,

(E leve o tempo passa nessas tardes)

A pensar em Coimbra. Que saudades!

Diogo Bernardes deste meigo Lima.

 

Na solidão, pensar em ti, anima,

Oh Coimbra sem par, flor das Cidades!

Os rapazes tão bons nessas idades

(Antes que a vida ponha a mão em cima)

 

Alegres cantam nos teus arrabaldes,

Por mais que tire vêm cheios os baldes,

Mar de recordações, poço sem fundo!

 

Freirinhas de Tentúgal, passos lentos!

É chá com bolos, dentro dos conventos!

Meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!"

 

Carlos Santarém Andrade

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

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por Rodrigues Costa às 12:18

Terça-feira, 05.04.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 2

António Nobre não passa despercebido na Coimbra de então. Os poemas dispersos já publicados, o esguio da sua figura, a palidez do rosto, o singular modo de vestir a capa e batina, fazem-no sobressair de entre os seus pares.

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Fotografia do Poeta. In: Passear na Literatura. António Nobre

 À mesa do «Lusitano», sede das tertúlias boémias e literárias, naquele século XIX de todos os poetas, vai nascer uma revista, grito de uma geração que quer deixar em páginas impressas a afirmação do seu pensar. E surge assim A «Bohemia Nova», que na sua efemeridade, é a presença de uma nova poesia, que desencadeará um vendaval de apaixonadas discussões literárias.

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Imagem acedida em https://almamater.uc.pt/republica/item/65714

 O fim do ano escolar aproxima-se, e com ele a deceção dolorosa de um ano perdido, com a “quadrilha” de lentes, nas suas próprias palavras, a negar-lhe a aprovação.

Após as férias, no regresso a Coimbra, António Nobre, no acto da matrícula, dá como morada a “Estrada da Beira”.

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Estrada da Beira. In: Passear na Literatura. António Nobre

“Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,

Donde ouvia arrulhar as pombas no telhado;

Oiço o relógio a dar as horas vagamente,

Devagar, devagar, como os ais dum doente;”

«Só — Na Estrada da Beira»

 Se aí não vem a viver, ficará para sempre ligado a essa rua pelo grande amor da sua vida, Margarida Lucena, a sua Margareth, que cantou em versos, com o nome de «Purinha»:

«Aquela, que, um dia, mais leve que a bruma,

Toda cheia de Véus, como uma espuma,

O Senhor Padre me dará para mim

E a seus pés, me dirá, toda coroada: Sim!»

E entre os fugazes encontros no Jardim Botânico e as novenas nas Ursulinas, a casa amada na “Estrada da Beira”:

«Vejo o teu Iuar e a ti, tão pura, tão singela,

E vejo-te a sorrir, e vejo-te à janela

Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,

Ansiosa, olhando dentre as folhas do arvoredo,

Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,

Que às vezes não me fosse um carro atropelar.»

Durante o ano letivo, mora numa casa que dá, por um lado, para a Rua do Correio (hoje Joaquim António de Aguiar) e por outro, para o Beco da Carqueja, mesmo ao pé “de uma das melhores coisas de Coimbra, a Sé Velha; é uma esplêndida igreja, estilo mourisco, que eu tanto desejaria transportar para a Boa Nova, fazendo dela o tão desejado Torreão”.

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Beco da Carqueja, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Moro, já sabes, no Beco da Carqueja: beco célebre, a que se refere, na sua História de Portugal, o Oliveira Martins. Aqui, numa casa vizinha (nesta quem sabe?), houve uma associação secreta composta de estudantes e conhecida popularmente pelo “Bando da Carqueja”, cujos fins, atém de políticos olhavam a guerrear os Isentes e aquela Universidade:”

«Carta a Alfredo de Campos, 9 Janeiro 1890»

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Beco da Carqueja, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Não escrevi e gastei, ou antes estraguei duas folhas de papel: uma por hesitar na preferência das minhas duas adresses— Beco da Carqueja, 114 Correio;

...Queria antes de acabar, falar-te desta República a que os meus companheiros, talvez influenciados pela epidemia-Dandy— chamam Le Château jaune.

«Carta a Alberto de Oliveira, 9 Janeiro 1890»

 Das janelas da sua nova casa, espraiando a vista, olha-se o rio, que lhe inspira quadras como esta, que irá entrar no folclore coimbrão:

«Vou encher a bilha e trago-a

Vazia como a levei!

Mondego, qu’é da tua água.

Qu’é dos prantos que eu chorei?»

E lá mais longe, o Choupal, que lhe guia a mão nos versos que compôs:

«O choupo magro e velhinho,

Corcundinha, todo aos nós,

Es tal qual meu avôzinho:

Falta-te apenas a voz.

 

Fui plantar o teu cabelo

Entre os choupos, no Choupal,

E nasceu, anda lá vê-lo,

Um choupinho tal e qual.

 

Ó boca dos meus desejos

Onde o padre não pôs sal,

São morangos os teus beijos,

Melhores que os do Choupal!»

 

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:48

Quinta-feira, 31.03.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 1

Carlos Santarém Andrade organizou há alguns anos uma série de percursos que intitulou Passear na Literatura, tendo elaborado, para cada um, textos ilustrados que merecem ser relembrados. Recordamos o percurso dedicado a António Nobre.

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Passear na Literatura. António Nobre, capa

«Vem a Coimbra. Hás-de gostar, sim meu amigo.

Vamos! Dá-me o teu braço e vem daí comigo.»

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Passear na Literatura. António Nobre, pormenor de capa

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Passear na Literatura. António Nobre, contracapa

Em Outubro de 1888, após a pacatez das férias, Coimbra retoma o seu bulício característico, com o regresso às aulas e a chegada de novos alunos que vêm frequentar a Universidade. Entre eles está António Nobre, que vem cursar Direito.

Instala-se numa casa junto ao Penedo da Saudade, então fora do perímetro urbano, de cuja janela disfruta a bucólica paisagem a que o Penedo é sobranceiro, cuja amplidão recortada de quintas e olivais contrasta com o estreito emaranhado das ruas da cidade.

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“O Penedo da Saudade é, na verdade, o único sítio em que se podia viver: à janela do meu quarto, que dá para as bandas de onde nasce o sol, passo eu infinitos segundos meditando  na minha vida que é ainda mais triste do que eu.”

Carta Augusto de Castro, 18 Outubro 1888

As duras praxes estudantis, o tédio das aulas, o rigor universitário, são para o poeta uma amarga experiência:

«Hoje, mais nada tenho que esta

Vida claustral, bacharelálica, funesta,

Numa cidade assim, cheirando, essa indecente,

Por toda a parte, desde a Alta à Baixa, a tente

E ao pôr do Sol, no Cais, contemplando o Mondego,

Honestos bacharéis são postos em sossego

E mal a cabra bala aos ventos os seus ais,

“Speech" de quarto de hora em palavras iguais,

Os tristes bacharéis recolhem às herdades,

Como na sua aldeia, ao baterem as Trindades.»

Mas o fascínio da cidade não o pode deixar indiferente:

«Contudo, em meio desta fútil coimbrice,

Que lindas coisas a lendária Coimbra encerra!

Que paisagem lunar que é a mais doce da Terra!

Que extraordinárias e medievas raparigas!

E o rio? e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?»

E, depois, há ainda os amigos:

«O que, ainda mais, nesta Coimbra de salgueiros

Me vale, são os meus alegres companheiros

De casa. Ao pé deles é sempre meio-dia:

Para isso basta entrar o Mário da Anadia.

Até a morte é branca e a Tristeza vermelha

 E riem-se os rasgões desta batina velha!»

E, para quebrar a “vida claustral”, nada como os passeios pelos arrabaldes:

«Manuel, vamos por aí fora

Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,

Por esses doces, religiosos arredores,

Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:

Torres, Condeixa, Santo António dos Olivais,

Lorvão, Cernache, Nazaré, Tentúgal, Celas!

Sítios sem par! onde há paisagens como aquelas?

Santos lugares onde jaz meu coração,

Cada um é para mim uma recordação…»

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:15


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