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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 16.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 3

 

Illustração Portugueza. p. 85 01.jpgIllustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 85

Do século XII, a croça do báculo de S. Bernar¬do, em cobre dourado, e o belo cálice românico que na orla da base tem a legenda: «Geda Menendiz me fecit in onorem sci michaelis e MCLXXXX»;

Cálice românico.jpgCálice românico

Do século XIV, o relicário de coral e prata, a imagem da Virgem com o Menino ao colo e a cruz de ágata, objetos que pertenceram á Rainha Santa, e todos eles marcados com as armas de Portugal e de Aragão;

Relicário de coral e prata 01. Pertenceu à RainhRelicário de coral e prata que pertenceu à Rainha Santa

Do século XV, a grandiosa cruz processional cuja reprodução acompanha estas linhas;

Cruz gótica(1).jpgCruz processional

Do século XVI, a custódia tão sumptuosamente decorativa de D. Jorge d'Almeida, uma caldeirinha de prata com o brasão do mesmo Prelado, uma riquíssima coleção de cálices, e a bacia e gomil também aqui reproduzidos em gravura; do século XVII, a grande custódia e a cruz-relicário do Bispo D. João Manuel, o relicário de Santa Comba e uma grande cruz de azeviche; finalmente, do século XVIII, o jogo de sacras em prata e lápis-lazúli.
Na secção dos paramentos, figura, em primeiro lugar, a capa da abadessa de Lorvão, com sebastos soberbamente bordados, e na das tapeçarias um pano flamengo, representando Marte o Vénus surpreendidos por Vulcano, e uma alcatifa persa, em seda, verdadeira maravilha de brilho e cor.
Referindo-se ao Tesouro da Sé, escrevia há meses o sr. Joaquim de Vasconcelos: «Quem subscreve «estas linhas teve ensejo de visitar repetidas vezes os museus capitulares de alguns dos cabidos mais ricos da Europa; pode comparar sem prevenções e julgar do valor das obras expostas por experiência própria e por algum estudo, adquirido durante longos anos de pacientes investigações; não hesita, contudo, em afirmar que o Museu de Coimbra rivaliza com os mais opulentos».
O mesmo ilustre crítico escrevera também na «Arte e Natureza em Portugal»: «A criação do Museu é um exemplo preclaro, dado aos restantes prelados portugueses, que podem e devem abrir, os tesouros das catedrais ao estudo. O senhor Bispo-Conde soube achar em Coimbra o artista erudito, competente para a difícil obra da Sé Velha. Temos fé que encontrará, sem sair de Coimbra, o arqueólogo sagaz e bem informado, que deve inventariar num índice impresso, luminoso, manuseável o barato as incomparáveis riquezas do museu diocesano».

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

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por Rodrigues Costa às 09:48

Quinta-feira, 09.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 2

Illustração Portugueza. p. 86 01.jpg

Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 86

A primitiva instalação constava apenas de duas salas: na primeira, estavam as tapeçarias e os paramentos; na segunda, as peças de ouro e prata.

Capa da Abadessa de Lorvão.jpg

Capa da Abadessa de Lorvão

No entanto os últimos conventos iam acabando, e, à proporção que acabavam, ia a coleção crescendo. Não sem o obstáculo de alguns respeitáveis pedregulhos, cuja remoção não foi das mais fáceis, de Lorvão, de Semide, de Santa Clara, de Tentúgal e de Vila Pouca vinha correndo para o Tesouro da Sé uma rutilante enxurrada de alfaias preciosas, relicários, cibórios, turíbulos, cálices, gomis, frontais e dalmáticas, numa estranha confusão em que o ouro, a prata, as pedrarias e os esmaltes se misturavam com o veludo, a seda, a tartaruga, o coral e a malaquite.

Exposição de vários objetos religiosos.jpg

Exposição de vários objetos religiosos

A acumulação tornara-se excessiva. Ousadamen¬te, se rasgou en¬tão uma ampla galeria contigua às duas salas, e ao longo dela se dispuseram, em vitrines, os objetos mais preciosos. Entro estes, alguns há que lu¬ziriam como estrelas de primeira grandeza nos mais ricos museus do estrangeiro. Dadas as di¬mensões naturalmente estabelecidas para este ar¬tigo, apenas mencionarei as peças mais notáveis pe¬la beleza e pelo valor histórico.

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

 

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por Rodrigues Costa às 09:26

Terça-feira, 17.12.19

Coimbra: Cerca do Colégio de S. Agostinho

Extrato de uma comunicação apresentada no ciclo de conferências comemorativo dos 900 anos de Almedina.

A Cerca de S. Agostinho, quando ali nasci, estaria, praticamente, como quando em 1834 o Mosteiro de Santa Cruz foi extinto. Constituía um anexo do Colégio da Sapiência ou de S. Agostinho. Era, então, chamada Cerca dos Órfãos ou simplesmente Cerca.

Imagem mais antiga da Cerca.jpgImagem mais antiga da Cerca que se conhece

Já não conheci, obviamente, o passadiço e casas anexas que ligavam o Colégio da Sapiência à Cerca.

Passadiço do Colégio.jpeg

Passadiço do Colégio para a Cerca

Disposta em socalcos era um mundo fantástico, cheia de segredos e de subterrâneos.

Cerca outra imagem.jpg

Outra imagem antiga da Cerca

A casa onde nasci estava em parte sobre o que poderá ser uma cisterna, pois ainda me lembro de ver parte de uma abóbada feita em tijolos, e quando se deitava água por um buraco ouvia-se cair no fundo.
Sobre os restos da antiga muralha que a separava da Couraça dos Apóstolos corria um cano vindo da fonte que existiu em frente ao Laboratório Chimico, o qual lançava água num pequeno tanque. Dali ia, por um outro cano enterrado, ia para a leira do jardim, onde vertia para um outro pequeno tanque. Leira do jardim onde existiam arbustos e flores que só ali se viam.
Encostadas ao muro do lado nascente que a separava da cerca dos Jesuítas, existiam duas capelas, com vestígios de pinturas murais. A de cima com bancos de pedra embutidos na parede e a de baixo, com bancos de madeira.
Sobrepujava a capela de baixo uma imagem de pedra que hoje já não existe. Arruado da colunata.jpg

O arruado da colunata e ao fundo a capela de baixo onde ainda se pode vislumbrar a estátua de S. Agostinho.

Ligando diretamente a capela de baixo à entrada da Cerca estava uma colunata, a que chamávamos o arruado, uma longa fila de pilares que sustentavam uma latada cheia de roseiras.
A meio da colunata, na parede, havia o que parecia uma porta de pedra. Tinha um buraco e, hoje, penso deveria ser por onde passava a ligação da referida possível cisterna, ao tanque da leira mais abaixo.
A ligação entre os socalcos era feita por escadas de pedra, uma delas com lindos balaustres também em pedra.

Cerca leira de cima.jpg

A leira de cima da Cerca … uma pálida imagem do passado

Na leira mais elevada, no muro sobranceiro ao arruado, havia uma série de bancos de pedra separados entre si por pequenos alegretes. Na leira junto ao muro sobre a Rua do Colégio Novo havia uma pedra com uma data. Era ali que os meninos do Colégio dos Órfãos, raramente, brincavam. Recreio que estava separado, por uma porta de madeira, da leira que o prolongava e de uma outra leira que era a mais baixa.
Ali existia uma mina que devia ter cerca de 50 metros de extensão cuja água vertia para um tanque de grandes dimensões.
Como se pode constatar o aproveitamento da água, tinha ali um exemplo da luta de séculos do Mosteiro de Santa Cruz pelo controlo desse bem essencial.
Na Cerca – que estava e está na posse da Misericórdia de Coimbra – eram então produzidos vegetais e fruta destinados à alimentação das meninas e meninos do Colégio dos Órfãos, hoje Colégio de Caetano.
Rodrigues Costa 

 

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por Rodrigues Costa às 09:55

Terça-feira, 10.12.19

Coimbra: Peças levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

Numa entrada publicada há algum tempo que teve por base uma comunicação da Senhora Dr.ª Ana Paula Machado, Conservadora no Museu Nacional de Soares dos Reis, do Porto, abordava a existência de uma série de 24 placas de esmalte pintado “subtraídas” ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Prometi, então, voltar a este tema.

Cena da Verónica.jpg

Cena da Verónica, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado

A razão dessa promessa decorreu de, na referida publicação, essa série de placas ser classificada como datando do 1.º terço do Século XVI e como sendo uma das séries sobreviventes mais completa pelo que constitui hoje uma referência incontornável entre as suas congéneres europeias; mais à frente, a autora refere que este conjunto não encontrou na última revisão de programas e percursos do Museu Soares dos Reis, enquadramento adequado, estando presentemente em reserva.
Quer isto dizer, traduzindo para uma linguagem entendível por não especialistas, que as referidas peças estão, há largos anos, devidamente acondicionadas e guardadas, longe dos olhares do público.
Confesso que, ao aperceber-me desta situação, senti uma grande revolta, tendo mesmo escrito uma petição, dirigida ao Ministério da Cultura, que teria d ser, obviamente, apoiada pelo Bispado e pela Câmara de Coimbra, no sentido de solicitar o regresso das referidas placas, ora acondicionadas num qualquer caixote, ao local de onde haviam sido retiradas, isto é, ao Santuário do Mosteiro de Santa Cruz.

Acabei por arquivar a petição, porque já não acredito na eficácia desta forma de participação cívica.
Sinceramente, por esta e por outras razões similares, estou cansado de lutar contra os moinhos de vento da ignirância, do imediatismo da política e do desinteresse dos decisores políticos – de todos os quadrantes – pela nossa história, pelo nosso património e pela nossa cultura.
Peço desculpa pelo meu desabafo.

Em ordem a este tema pretendo hoje chamar a atenção para um estudo – a que voltarei – de Rocha Madail, e no qual colhi as seguintes informações:

casa das reliquias de Santa Cruz.JPG

«Casa das reliquias» de Santa Cruz

Os esmaltes, que o próprio Diretor interino da Academia de Belas Artes do Porto em 1864 aceitava «terem estado na banqueta do Altar do mesmo Santuário» de Santa Cruz de Coimbra, são vinte e seis preciosíssimas laminas de cobre esmaltado com viva policromia e ouro, medindo 8x10 cm cada, agrupadas em políptico sobre tabuleiro de madeira, e representando cenas da vida de Cristo.
Trabalho das célebres oficinas de Limoges da primeira metade do século XVI, o seu finíssimo desenho segue muito de perto outros tantos passos da coleção conhecida por «pequena Paixão de Cristo», de Albrechr Durer.
Joaquim de Vasconcelos ocupou-se deles no fasciculo 9 da «Arte Religiosa em Portugal», e o Sr. Dr. Armando de Matos dedicou-lhe desenvolvido estudo de identificação em 1934 na revista «Museu»; por informação que então lhe fornecemos, extraída do presente inventário, já nessa data ficou incontroversamente regista a sua proveniência, que Joaquim de Vasconcelos suspeitava ser a «casa das reliquias» de Santa Cruz.

Igreja de Santa Cruz. Santuário 06.jpg

«Casa das reliquias» de Santa Cruz, pormenor 1

 

Igreja de Santa Cruz. Santuário 06 a.jpg

«Casa das reliquias» de Santa Cruz, pormenor 2

Fico com a esperança de que este meu lamento incentive outros, mais jovens e com mais força, a lutarem pela devolução das peças ao local de onde nunca deviam ter saído.

. Madail, A. G. R. 1938. Inventário do Mosteiro de Santa Cruz à data da sua extinção em 1834.
. Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

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por Rodrigues Costa às 10:39

Quinta-feira, 05.12.19

Coimbra: Tascas que já não existem 4

- COVA FUNDA DO CAREQUINHA
Localização: Av. João das Regras, um pouco mais a jusante, da antiga ponte de ferro.

Cova Funda-1.jpg

Cova Funda, publicidade

À saída da Ponte de Santa Clara, ficava a taberna de Manuel Claro, o conhecido "Carequinha", que possuía magnificas e aprazíveis retiros. O seu proprietário era um homem com muita piada que se tornou popular por mascarar-se todos os anos pelo Carnaval percorrendo as ruas da cidade.

Cova Funda-3.jpg

Cova Funda, publicidade

A Cova Funda do “Carequinha” era construída em madeira, género barracão, tinha umas pequenas vitrinas onde expunha brinquedos de lata e de celuloide, bijutarias, alguns artigos religiosos e pequenos livros de histórias que vendia ali e também na Feira de São Bartolomeu. Quem ficasse encantado com o canto dos canários do “Carequinha”, era também ali que os vendia com ou sem gaiola. A taberna, ficava na cave ao fundo de uma escadaria, espaçosa tinha mesas de pinho e bancos. A Cova Funda era um estabelecimento característico, de certa originalidade, em que o cliente encontrava belos petiscos, saborosas frutas, ótimos vinhos das melhores procedências do país e interessantes distrações proporcionadas pelo seu proprietário, Sr. Manuel Fernandes Claro.
Nos dias das feiras dos 7 e 23 a casa estava particularmente cheia, mas era um local muito escolhido para se organizarem almoços de datas comemorativas de formatura e outros.
A Cova Funda do “Carequinha” como era conhecida a casa, acabou em 1951.

- ZÉ NETO
Localização: Rua das Azeiteiras
No princípio, era uma taberna e casa de pasto.
Um dia, em 1956, para melhor receber os clientes, Zé Neto decidiu transformar a taberna e abrir um restaurante.

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O Zé Neto. pintura de S. Harrison, 1965 (Coleção Particular)

Eram vários os fatores que tornaram o "Zé Neto" um local de referência. A qualidade e frescura dos produtos, a cozinha familiar e, claro, a presença simpática e diária do Senhor Zé Neto, um homem simples, que faleceu em 2017 com 89 anos e que muito acarinhava todos os que visitavam a sua casa.

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O Zé Neto

O ambiente familiar e acolhedor, manteve-se com a sua única filha, D. Esmeralda, licenciada em Engenheira Química, que abdicou da carreira para apoiar os pais no restaurante, e garantia na cozinha, a melhor comida tradicional portuguesa, que marcava todos os clientes e os obriga a voltar.
A sala sempre foi pequena, mas nunca faltou espaço para acolher os amigos que se reuniam em jeito de tertúlia, onde as conversas fluíam entre uma petinga frita ou jaquinzinhos, a famosa açorda de coentros e um bom copo de vinho tinto.
A 3 de Agosto de 2019, foi o último dia que o número 10 da rua das Azeiteiras abriu as portas para servir os clientes.
A alma da Baixa da cidade ficou mais pobre. O Restaurante “Zé Neto” fechou!

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 10:37

Quinta-feira, 28.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 3

- TIAS CAMELAS
Localização: Ruas Larga e do Borralho, hoje desaparecidas

Rua do Borrralho.jpgRua do Borralho, onde se localizava a tasca das Tias Camelas. In: A Velha Alta … Desaparecida

As Tias Camelas, eram consideradas as Mães da Academia. Tinham a sua taberna na esquina oposta da Associação Académica na Rua Larga também com entrada pela Rua do Borralho.

Sede da AAC, na rua Larga.jpgSede da AAC, na Rua Larga. In: A Velha Alta … Desaparecida

Um cubículo onde apenas cabia a pipa do vinho, o fogareiro e com dificuldade se acomodavam os frequentadores. Ali, comia-se e bebia-se à farta. Quem não tinha dinheiro não pagava, ou pagava quando podia, às vezes no fim do mês, quando chegava a mesada. As Tias Camelas só recomendavam é que não se esquecessem de pôr um pataco para o Azeiteiro. O Azeiteiro era um Santo António de barro, sempre alumiado por uma torcida de candeia de azeite!
Apesar de ser uma lojinha escura e cheia de fumo, celebrizou-se pelo seu bom peixe frito, vinho e os rapazes literatos e boémios que ali se juntavam. Certamente não faltaram às diversas noites de tertúlia Camilo, Guerra Junqueiro, Trindade Coelho, Gonçalves Crespo ou Silva Gaio. António Nobre deixou-a para sempre imortalizada no seu livro Só e Eça de Queirós recordaria na sua obra A Correspondência de Fradique Mendes.
… tias Camelas, essas encantadoras velhas, que escrupulosamente, através de lascivas gerações de estudantes, tinham permanecido virgens, para poderem no Céu, ao lado de Santa Cecília, passar toda uma eternidade a tocar harpa... Era uma das suas memórias melhores de Coimbra essa taverna das tias Camelas, e as ceias desabaladas que custavam setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra fumarenta das pipas, com o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por entre temerosas contendas de Metafísica e de Arte. E que sardinhas! Que arte divina em frigir o peixe!”.
A tasca das Tias Camelas foi por assim dizer o cenáculo literário da academia da segunda metade do séc. XIX e João Penha era na Tasca das Tias Camelas o pontífice máximo. As suas palavras de conforto e salvação sossegavam Maria Camela que era uma velhinha magra, um pouco corcovada, de cabelos brancos, olhos grandes e orbitas vermelhas e humedecidos pelo fumo da frigideira. Nunca sentira amor mundano e não sabia para que servissem os homens, a não ser para fregueses de peixe frito e vinho. Acreditava piamente na existência de um coro celeste de onze mil virgens, entre as quais sabia que tinha um lugar... Lamentou-se um dia de já não ser jovem e, assim, não poder candidatar-se ao celeste coro. Para a tranquilizar, João Penha confortou-a com os seus obscuros conhecimentos, dizendo-lhe: sossegue, Tia Maria, eu garanto-lhe que terá o seu lugar reservado num coro muito distinto. Acredite no que lhe digo: há o coro das virgens que o foram por acaso, e o das virgens pelas forças das circunstâncias...

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 11:06

Quinta-feira, 21.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 2

- JOAQUINA CARDOSA
Localização: R. do Paço do Conde

Tasca da Joaquina Cardosa, finais do séc. XIX.jpg

Tasca da Joaquina Cardosa, finais do séc. XIX

A Joaquina Cardosa, do Paço do Conde foi um dos mais procurados lugares da Coimbra boémia e noctívaga.
A Piedade, a criada da tia Joaquina, uma doce morena de olhos tristes e magoados, punha naquele ingénuo cenário uma nota cheia de pureza e gravidade. Não houve poeta que por lá fosse que a não cantasse e aí está, entre tantas outras, a atestá-lo, essa deliciosa quadra de Afonso Lopes Vieira:

Maria da Piedade
Que nome te foram por,
Tu que não tens piedade
De mim que te tenho amor.

A Piedade, ouvia indiferente todos os galanteios, afável e carinhosa, entre condescendente e compassiva, mas se alguém soltava algum dito mais forte logo discretamente ela desaparecia, silenciosamente.

Tasca da Joaquina Cardosa, inicios do séc. XX.jpgTasca da Joaquina Cardosa, inícios do séc. XX

A boa e prazenteira tia Joaquina (Cardosa Marques) retirou-se do negócio nos primeiros anos do século XX, descansando de uma vida de trabalho e retirando-se para uma aldeia nos arredores da cidade. Tão amorável para todos, ainda mais para os seus “filhos” da academia, bem merece, que em sua memória, fique a notabilidade quase glorificadora dos admiradores da sua culinária e da sua resignada paciência…

- MANEL DO SEMINÁRIO
Localização: Rua dos Militares, já desaparecida

Tasca do Manel do Seminário.jpg

Tasca do Manel do Seminário

Em 1896 um antigo “moço de recados” do Seminário Episcopal montou, a meio da Rua dos Militares, por baixo da Real República Ribatejana, a “Loja do Povo”, mercearia, taberna e carvoaria que veio a ser uma das mais famosas tascas da Alta desaparecida e conhecida como “O Manel do Seminário”.

Rua dos Militares, hoje desaparecida.jpgRua dos Militares, hoje desaparecida. In: A Alta Desaparecida

Após a sua morte, o filho, que ficou com a alcunha do pai manteve o negócio que incrementou e uma das iniciativas de modernidade que tomou foi comprar em 1939 um rádio (novidade nas tascas da Alta) na altura da II Grande Guerra para o fregueses ouvirem os noticiários da BBC. Fechou, já nos anos 50, aquando das últimas demolições da Velha Alta.

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 10:08

Quarta-feira, 20.11.19

Coimbra: Igreja de S. Bartolomeu

É a igreja de S. Bartolomeu talvez a de mais antiga história na cidade. Já existia em 957, pois, em 2 de novembro desse ano, foi doada ao mosteiro de Lorvão pelo presbítero Samuel, por mando do presbítero Pedro, em risco de morrer. Antes tinha sido dedicada a S. Cristóvão. A doação incluía também a igreja de S. Cucufate, com todas as suas vinhas e hortas que se encontravam em redor. O grande chefe mouro Almançor conquistou e arrasou Coimbra em 987. A igreja de S. Bartolomeu não deve ter sido poupada, pois que a vemos novamente doada a Lorvão em 1109, o que indica reconstrução. A doação de 1 de janeiro de 1109 é feita pelo presbítero Aires e nela são citados os ornamentos, móveis e imóveis.
Estas primitivas igrejas, cujos vestígios arqueológicos se encontram sob o pavimento da atual, depois de escavações levadas a cabo em 1979 e 1980, mas nunca publicadas, tinham entrada para poente e não para o lado da praça. No século XVIII a igreja ameaçava ruir, pelo que em 5 de junho de 1755 se fez a trasladação do SS. e das imagens de Cristo e Nossa Senhora para o antigo Hospital Real, donde passaram para a Misericórdia, iniciando-se de imediato a demolição do velho edifício românico. A primeira pedra da igreja atual foi lançada em 16 de julho de 1756, sendo arquiteto Manuel Alves Macomboa.

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea

A planta do novo edifício é de grande simplicidade, articulando em retângulo a nave com a capela mor. Amplas janelas inundam e unificam o interior de uma luz homogénea, bem característica da época rococó em que se fez a reedificação.

Igreja de S. Bartolomeu. torre sineira.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, torre sineira

A fachada enobrece o topo da praça, com suas duas torres sineiras coroadas de fogaréus e cúpula bolbosa. No século XIX construíram a casa da esquina com a rua dos Esteireiros, que lhe rouba parte da monumentalidade. O portal é ladeado por colunas dóricas onde assenta uma varanda de balaústres em forma de vaso chinês, diferentes dos da balaustrada que une as duas torres.

Igreja S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos lateIgreja de S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos laterais

O interior é sóbrio apenas se destacando as cantarias dos púlpitos, portas, janelas e arcos das capelas. O arco da capela-mor é em asa de cesto, sobre entablamento peraltado, assentando em pilastras mais cuidadas. O retábulo-mor domina todo o espaço, captando a atenção. Foi executado pelo notável entalhador de Coimbra João Ferreira Quaresma, contratado em 20 de dezembro de 1760, com a obrigação de consultar o arquiteto Gaspar Ferreira, para que ficasse como o de Santa Cruz. A fortíssima impressão causada pelo retábulo de Santa Cruz fez dele o pai de imensa prole que se estendeu de Coimbra a todas as Beiras, originado o estilo do rococó coimbrão. O mesmo João Ferreira Quaresma executou as cadeiras do coro e os arcazes da sacristia. O retábulo tem dois pares de colunas por banda, sobre alto embasamento. O coroamento, em frontão interrompido, de elaboradas formas, abriga glória solar ladeada de anjos com palmas. Marmoreados e dourados dão realce a todo o conjunto e emolduram a boca da tribuna, preenchida com uma tela de Pascoal Parente, representado o martírio de S. Bartolomeu.

Igreja de S. Bartolomeu. capela lateral do SagradoIgreja de S. Bartolomeu, capela lateral

Os retábulos colaterais seguem o mesmo estilo, simplificado. Duas capelas laterais apresentam retábulos recuperados da igreja antiga. O do lado nascente é ainda maneirista, dos finais do século XVI, adaptado ao espaço. Conservou, além da estrutura, duas pequenas pinturas sobre tábua. A capela fronteira tem um retábulo de colunas salomónicas de finais do século XVII, época de D. Pedro II.
A igreja tem ainda no seu espólio belas sanefas de concheados, das melhores peças da cidade, feitas por Bento José Monteiro, mas certamente com desenho de Gaspar Ferreira. Salientam-se ainda outras pinturas de Pascoal Parente com Cristo crucificado e Anunciação.

Igreja de S. Bartolomeu. lustre  e órgão.jpg

Igreja de S. Bartolomeu, lustre e órgão

O templo é indissociável da praça onde se insere, outrora chamada praça de S. Bartolomeu. Nesta praça se fez durante séculos, até 1867, o mercado. Aqui se correram touros. Aqui se situou o paço dos tabeliães. Aqui funcionou a junta dos vinte e quatro dos mesteres e o paço do concelho. S. Bartolomeu é o patrono dos açougueiros e magarefes, cujos talhos estavam na praça e ruas confinantes, isto é, junto da igreja do seu santo padroeiro: principal justificação para a sua edificação neste local.

Nelson Correia Borges

Publicado em Correio de Coimbra, n.º 4761, de 7 de novembro de 2019, p. 8.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quinta-feira, 14.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 1

Com esta, iniciamos aqui uma série de entradas que publicaremos às 5.ªs feiras, dedicadas às tascas de Coimbra. Trata-se de um trabalho de Carlos Ferrão que recolheu as imagens e coligiu os textos.
O A’Cerca de Coimbra fica aberto – como sempre está – a acrescentos e outras eventuais participações.

- TASCA DO PRATAS
Localização: R. José Falcão, edifício do antigo Colégio da Trindade

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Tasca do Pratas, anos 50 do Séc. XX

Não era uma extensão da Biblioteca Geral como alguns lhe chamavam, nem tão pouco o um lugar onde se preparasse as frequências.
Numa dependência do Colégio da Trindade, com frente para a rua José Falcão, a famosa tasca “O Pratas” deixou mil estórias envolvendo estudantes, professores, funcionários e futricas.

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Ana e Armando Pratas

A D. Ana e o Sr. Armando Pratas estavam sempre de sorriso pronto para acolher quem os escolhia para uma "bucha e um copo". Não lhe faltava uma paciência de santo para a estudantada que ali fazia alguns rituais praxistas a mando dos “doutores”, mas sempre de olho nos excessos, nunca deixando ferir a dignidade do caloiro.

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Tasca do Pratas, finais do século XX

E assim foi até 2001, quando os "jaquinzinhos", as pataniscas ou as sandes de queijo da Idanha, servidos no “Pratas”, ficaram para a memória!

- JOÃO DE BRITO
Localização: R. de Baixo

Tasca do João de Brito.jpg

Tasca do João de Brito

Nos finais do séc. XIX, o João (Francisco) de Brito era um maravilhoso retiro junto do velho mosteiro de Santa Clara. Era um verdadeiro cenário de balada!
Uma latada, quatro mesas de pinho, uma nora gemente. Ao fundo o rio sereno e doce e lá no alto erguendo-se dominadora a cidade.
Os poetas Eugénio de Castro, Manuel da Silva Gaio, Afonso Lopes Vieira, Guedes Teixeira, D. Tomás de Noronha e tantos outros foram durante anos os seus mais assíduos frequentadores.
Só mesmo quem por lá passou, nos conseguiu deixar com fidelidade uma ideia da poesia estranha nas tardes no João de Brito!
Carlos Ferrão

Fontes: Vicente Arnoso, Tascas de Coimbra em Ilustração Portuguesa, nº 101 de 27 de Janeiro de 1908, citado por Manuel Alberto Carvalho Prata em A Academia de Coimbra (1880-1926): contributo para a sua história.

 

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por Rodrigues Costa às 10:01

Quinta-feira, 31.10.19

Coimbra: Placas de esmalte com cenas da Paixão levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

A série de vinte e seis placas de esmalte pintado, com cenas da Paixão, diretamente inspiradas na série de gravuras da chamada Pequena Paixão de Dürer, é talvez o mais enigmático dos três itens a que aqui nos dedicamos, já que nada sabemos sequer sobre a sua entrada no Mosteiro de Santa Cruz.

Mestre da Paixão de Cristo; esmalte pintado sobre

Coroação de espinhos, último quartel do Século XVI, atelier do Mestre da Paixão de Cristo; esmalte pintado sobre cobre. Museu Nacional de Soares dos Reis (fot. José Pessoa IMC/ MC)

…. Outrora talvez organizadas num pequeno retábulo ou num frontal de altar as pequenas placas foram ao longo do tempo merecendo esporádica atenção por parte dos autores portugueses.

Igreja de Santa Cruz. Santuário 01.jpg

Mosteiro de Santa Cruz, altar da Casa das Relíquias, onde a série das placas de esmalte poderão ter estado aplicadas.

… Em 1914, Joaquim de Vasconcelos dedica-lhes três páginas ao longo das quais propõe a datação da primeira metade do século XVI e sugere a Casa das Relíquias do Mosteiro de Santa Cruz como local da sua instalação no Mosteiro.
A apresentação da série na Exposição de Arte Francesa em Lisboa, em 1934, dá-lhe visibilidade junto de especialistas nacionais e estrangeiros que nesse contexto a classificam como do 1.º terço do Século XVI. Dessa data em diante passará a ser referida na maioria dos estudos especializados neste tema publicados desde os anos 60 na Europa e nos Estados Unidos.
Por ser uma das séries sobreviventes mais completa e uma das raras com registo documental anterior ao Século XIX, constitui hoje uma referência incontornável entre as suas congéneres europeias, razão pela qual, em janeiro de 2008, o Museu Soares dos Reis, em colaboração com o Centre de Recherche Scientifique de la Reunions des musées de France (CRRMF) e o Musée des Arts Decoratifs de Paris (MAD), se candidatou ao programa Eu-Artech com o objectivo de a analisar e inscrever num mesmo banco de dados em que se encontravam já a série da Wallace Collection e peças do MAD. O processo permitiu a revisão da sua datação (agora atribuída aos meados do século XVI e o início do século) e autoria, um atelier ainda em estudo da esfera de Pierre Reymond.

Esmalte 03.jpg

Batismo no Rio Jordão, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

Esmalte 01.jpg

Cena da Verónica, Batismo no Rio Jordão, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

Esmalte 02.jpgCalvário, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado referida no texto

A série de esmaltes, como aliás parte da arte religiosa da coleção, não encontrou nessa última revisão de programas e percursos, enquadramento adequado, estando presentemente em reserva.

Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

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por Rodrigues Costa às 12:48


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