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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 03.07.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 11

E a Marrafa, a Maria, essa bela quarentona, bem fornidinha de carnes, que também foi lembrada no aludido Centenário? Isso é que é uma mulher! Servente de estudantes, portadora de sebentas, lá no intimo amiga dos que usam capa e batina, interessa-se por eles todos e já me constou, não sei se com fundamento, que não raras vezes lhes vale com dinheiro nos momentos críticos, nas suas aflições. De grossos cordões de ouro ao pescoço, sempre sorridente, há quem diga que para um estudante se formar é preciso ter algumas relações com ela. Eu é que não sei se isto é verdade, mas, pelo sim pelo não, como sou estudante… não vá o diabo tecê-las!... 

O Hermínio.jpg

 O Hermínio

 Mas se por acaso alguns académicos se envergonham de ir pedir-lhe qualquer quantia emprestada, pelo que ela nada leva de juros, aparece-lhes logo o Herminio dos óculos, um rapaz franzino, magistral troca-tintas, que passa a vida inteira a transportar para as casas de penhor ou de prego, usando do calão, tudo quanto os estudantes lhe entregam para empenhar,… ou a trazer dessas casas para a rua grandes pechinchas, como ele diz para intrujar os papalvos, e que afinal não passam de fazenda avariada, duns monos sem extração que os penhoristas lá têm para um canto e dos quais se querem ver livres seja por que preço for…

Quer na Baixa quer na Alta, ele dia ou de noite, a cada passo se encontra uma criatura destas.

 

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 O Gaspar Engraxador

 O agarotado Gaspar, engraxador, hoje em busca de uma casa para servir, falador dos quintos, que se aperaltava ao domingo para embarrilar certa incauta donzela que o foi surpreender um dia, em plena calçada, a engraxar as botas de um freguês...

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 O Santos Cego

 O Santos cego, vendedor de cautelas, enjeitado, que concluiu o curso dos Liceus em 1868, segundo ele diz, à custa de uma família amiga e cegou nesse mesmo ano. Conhece todas as moedas apalpando-as, bem como os caloiros pelo pano da capa e fala de matemática como se estivesse sentado numa cátedra…

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 09:53

Quinta-feira, 28.06.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 10


O vendedor de Cristos (Cliché de Joaquim Olavo).j

 O vendedor de Cristos (Cliché de Joaquim Olavo)

 O Homem dos Cristos passeava todas as ruas e becos da cidade sobraçando uma enorme quantidade de Cristos, trabalhados em barro, muito toscos, mas que conseguia vender depois ele os ter lambido todos, de alto a baixo, para provar que não largavam a tinta, que eram fixes como ele dizia. E quantas e quantas vezes nos atirava com o Cristo quase à cara e bradava num misto de raiva e de troça: quem me compra este diabo?!...

Poeta Maximiano Veiga (Cliché Joaquim Olavo).jpg

 Poeta Maximiano Veiga (Cliché de Joaquim Olavo)

 Maximiano Veiga, irmão do grande poeta operário Adelino Veiga, era um impagável ratão que se dedicava a compor guarda-sóis e a trabalhar em metal amarelo. Nunca lhe deu na bolha para fazer versos, troçava até do irmão nas

suas horas de bom humor, mas uma vez, como o Adelino Veiga não dispusesse de ocasião para escrever uma poesia que lhe tinha sido pedida pelo António Portugal, mais tarde o tenor Portugal, que fez parte da companhia do teatro da Trindade e foi morrer ao Pará, o Maximiano quis suprir a falta e saiu-se todo ancho com esta versalhada que ainda hoje corre de boca em boca:

 Do rio Zêzere o Barão

É cunhado da liberdade;

Os soldados são fenómenos,

São filhos da santidade.

 

Vou cantar de Mahomerio,

Qu'as trombas do rhinoceronte

Cantigas do Oriente

Nas barbas do despautério,

Nas campas do cemitério

Norbargue de Norbão

Terrónicos do trovão

Famílicos da humanidade

E' um machucho da maldade

Do rio Zêzere o Barão.

…………………………………

…………………………………

 

?!...

 

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 O Pedra do Pifano

 Agora mesmo acabo eu de ler que morreu o Pedro do pifano, supondo-se que envenenado pela mulher com quem vivia. Era galego e mudava de nome à medida que as gerações académicas lho trocavam. Para uns foi o Manuel da Sanfona, quando apanhou um par de bofetadas do lente dr. Pedro Penedo por se lhe pôr á porta cantando versos alusivos á sua pessoa, feitos expressamente pelos discípulos. Para outros foi o homem do realejo, por trazer um instrumento que há anos deixou numa tasca de Dameiras empenhado por meio litro de vinho... Agora era o Pedra do pifano, por se fazer acompanhar desse instrumento que tocava por qualquer preço. Como tivesse um grande reportório, o Pedro perfilava-se e perguntava com uma certa pose: – O que quer Vossa Senhoria que eu toque?! O Hymno dos Caloiros... diziam-lhe, por ser uma coisa que não existe... O Hymnodos Caloiros... dos caloiros... dos caloiros... começava ele entoando numa voz cantarolada que vinha a terminar com meia dúzia de sons arrancados desalmadamente do pifano e pronto… eis como executava todas as músicas que lhe pediam... Era um pobre diabo este Manuel Fortunato Lopes, usando do seu verdadeiro nome!

E julgo terminada assim a vasta galeria dos mortos.

 – Se, entre eles, nos aparecem tipos interessantes, entre os vivos, que apontarei a largos traços, não os há, decerto, menos curiosos e menos dignos de estudo ...

 

O Manuel das Barbas (Cliché Silva e Sousa).jpgO Manuel das Barbas (Cliché de Silva e Sousa)

 É ver o velho litógrafo de sebentas, o conhecido Manuel das Barbas, que figurou no Centenário da Sebenta, e a quem com uma louvável antecedência fizeram já o epitáfio:

Aqui jaz Manuel das Barbas,

Trabalhou muito e bebeu…

Litografava «sebentas»,

Mas foi feliz…nunca as leu…

 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 11:39

Quinta-feira, 21.06.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 9

O França Rolié.jpg

 O França Rolié

 O França Rolier-Catecnemaquilitanas, como ele se dizia, era um cocheiro que estava encarregado de conduzir as malas do correio á estação do caminho de ferro e por tal forma se desempenhou da sua missão que tenho aqui à vista todos os atestados que por várias vezes lhe foram passados pelo diretor dos correios, enchendo-o de louvores. Mesmo no pino do verão, o França andava sempre vestido com quanto fato possuía, acrescentando a isso tudo, no inverno, um capote com certeza maior do que a arca de Noé. Tendo a seu cargo, todos os anos, o segurar o S. Jorge na procissão do «Corpus Christi», fazia nisso imensa gala e apresentava-se impávido aos olhos de toda a gente que via lá ele alto da sua magnanimidade. Chegava a levar a sua autoridade ao ponto de dizer ao comandante da força quando se deviam dar as descargas! Homem robusto, que numa voz grossa, mascando o seu charuto, metia palão de meia noite, depois de ter desempenhado o glorioso papel de lente da faculdade das tretas pelo Centenário da Sebenta, jamais largou a chapa que então mandara fazer para ornamentar o bonnet. Dias depois da sua morte, lembro-me de ter visto o seu perfil em O Cauterio, que dizia pouco mais ou menos isto:

 

Da Lusa-Atenas o mais popular,

E também, decerto, o mais intrujão:

Na boca sempre um charuto a chupar,

Olhando todos com ar refilão.

 

Vários empregos tem, duvidosos,

O nosso herói, este velho traquinas;

E se non hay - negócios rendosos

O ... coça d'encontro às esquinas.

 

É alto bastante, obeso e pançudo,

E só tem esse defeito massudo

De pregar mentiras, blagues e petas. 

 

Que mais direi? É um pobre coitado,

E ele próprio se chama e é chamado,

O Rolié ou o França das Tretas.

 

Acima de tudo, o França era um homem fiel, muito honrado e não foram poucas as carteiras e os valores importantes que ele encontrou perdidos e fez chegar às mãos dos seus donos. Ouvi dizer que esta palavra Rolié, que adotava como nome, teve a sua origem na porta do Hotel dos caminhos de ferro quando um francês, ao subir para a sua carruagem, pôs nas mãos do corretor urnas moedas de prata para o França que lhe tinha tratado da bagagem, com o roulier (carroceiro). Apanhada esta palavra no ar, ei-la na boca dos garotos para designar o França e daí a resolução que tomou em a adotar como sobrenome…

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 O Quatorze

Disse eu há pouco que o França era um homem honrado, mas já não direi o mesmo do célebre intrujão que dava pelo nome de Quatorze. Muito alto, magro, ora aparecia de chapéu de abas largas, de grosso bengalão, ora de carapuça, de facha preta à cinta, de calças justas e esguias, a fazer-se amigo íntimo e conhecido velho de quantos bacharéis formados pressentia de visita a Coimbra, sempre importuno, à mira de uns vinténs, capaz de, por dez réis de mel coado, prestar-se a qualquer patifaria. Outras vezes apresentava-se carregando um cesto de verga repleto de ananases, cocos e bananas, que vendia lançando o pregão em voz forte e retumbante: ananás! ananás! coco! coco! Ah, rica bánâna da ilha da Mádéra!... 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

 

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por Rodrigues Costa às 09:16

Terça-feira, 19.06.18

Coimbra: A igreja de Santiago de Eiras

Às portas da cidade de Coimbra e da Bairrada se situa a antiga vila de Eiras.

Foi concelho extinto em 1836, com sua câmara, vereadores, juiz, escrivães, meirinhos e todas as usuais burocracias. Nos últimos tempos Eiras cresceu quase sem medida, encontrando-se praticamente ligada a Coimbra. Mas o seu centro histórico mantém carácter aprazível, detendo ainda um apreciável número de casas antigas, por vezes nem sempre bem intervencionadas, com trechos sugestivos e encantadores.

O largo principal é de fazer inveja a algumas cidades.

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Igreja de Santiago de Eiras

 Para ele voltam a fachada a igreja matriz, a fonte e a capela do Espírito Santo. Merece especial destaque o chafariz, ao lado da igreja, composição de grande efeito, mandado fazer por D. João V, em 1743. Lá se podem ver as armas do reino e o selo da vila, envolvidos no corpo central, rematado por pirâmides.

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 Fonte de Eiras

A igreja paroquial domina o largo, com a sua fachada monumental de duas torres, tendo, do lado oposto, a não menos interessante capela do Sacramento ou do Espírito Santo. É dedicada ao apóstolo Sant’Iago. Sobre a porta principal, entre o frontão curvo interrompido, vêem-se as armas reais, tendo, no escudete das quinas, gravada a legenda Vivat Rex Ioseph, que elucida a época da construção.

Trata-se de um edifício edificado na segunda metade do século XVIII para substituir a antiga igreja que, em 1721, ainda se encontrava fora da povoação e em estado de avançada degradação, no sítio hoje chamado Passal. O antigo templo remontava aos alvores da nacionalidade, pois fora mandado edificar por D. Afonso Henriques, sendo bispo de Coimbra D. Vermudo. Em 1306 D. Dinis concedeu ao mosteiro de Celas a vila de Eiras, por troca com a terça parte da vila de Aveiro, que as monjas detinham por doação da sua fundadora, Santa Sancha. Assim ficaram as monjas de Celas como donatárias da igreja e do território, cabendo-lhes a jurisdição cível e a apresentação do pároco.

Em dezembro de 1728 o cabido autorizou a demolição da velha igreja e construção da atual. Porém, o processo arrastou-se durante muitos anos, com incidentes vários que se podem ver na excelente monografia de João Pinho. Só por meados do século se teria iniciado a construção, com planta delineada por Gaspar Ferreira, virtuoso arquiteto e entalhador, com muitas obras espalhadas pela região e Beiras. A obra de pedraria foi arrematada por Manuel Francisco, de lugar de Sá (Esgueira). Em 13 de abril de 1758 foi benzida a parte da igreja que já estava capaz. O edifício deveria estar pronto no essencial em 1767, pois, em 19 de outubro desse ano, o carpinteiro Manuel Gonçalves contratou fazer toda a obra interior: retábulo da capela-mor, dois retábulos colaterais, dois retábulos no corpo da igreja, conforme planta e risco, com muita probabilidade também de Gaspar Ferreira, e ainda cinco portas, um púlpito e grades da comunhão.

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 Igreja de Santiago de Eiras interior

 Manuel Gonçalves não era um banal carpinteiro, pois sabemos da sua intervenção na feitura de outros retábulos, com riscos de Gaspar Ferreira e Domingos Moreira para as igrejas de Taveiro, S. Pedro de Coimbra e mosteiro de Lorvão. Era natural de Adães (Barcelos) e morador na rua da Trindade, em Coimbra.

No vasto espaço da nave única e luminosa desta igreja impressiona o conjunto dos retábulos marmoreados, numa unidade estilística deveras invulgar. De quatro colunas o principal e duas os restantes, todas de fuste liso e belos capitéis compósitos. Os remates, de movimentados frontões interrompidos, contrastam com as linhas calmas e clássicas dos corpos inferiores. Decoram-se com glórias solares, mas, no retábulo-mor, esta zona é obviamente enriquecida com figuras de anjos sentados, segurando palmas, e outros elementos. Rasga-se nele a boca da tribuna, outrora preenchida por uma tela com o martírio de Sant’Iago e agora exibindo o trono eucarístico de cinco degraus curvos.

Igreja Eiras 2.JPG

 Igreja de Santiago de Eiras imagem de S. Tiago

 Ainda se conservam algumas imagens, vindas da igreja antiga. De salientar é o Sant’Iago, no altar colateral esquerdo, boa e expressiva obra da renascença coimbrã.

O estilo retabular do rococó coimbrão, gerado a partir do retábulo de Santa Cruz, tem em Eiras um cunho deveras interessante, a merecer cuidados na sua preservação, porque expressão estética de uma época em que os artistas de Coimbra deixaram a sua marca em todo o centro do país.

Nelson Correia Borges

 

In: Correio de Coimbra, n.º 4695, de 07 Junho 2018, p. 8.

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por Rodrigues Costa às 10:12

Quinta-feira, 14.06.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 8

 

O Horta.jpg

 O Horta

 O Horta, esse então, ás vezes pouco amigo da limpeza nos seus feitos e um pouco, para não dizer bastante. desbragado nos seus ditos, não deixava de ser um velho endiabrado cujas partidas tinham alguma coisa de original e de espirituoso.

De lunetas encavaladas quase na ponta do nariz, levado pela necessidade que, segundo ouço dizer, é a mãe de todos os vícios, bebia azeite por pregar a sua peça. Só se não pudesse! Mas para isso, para chegar a essa conclusão de não poder, era preciso que tivesse já esgotado todos os recursos da estratégia, e tal facto seria quase inacreditável! Uma vez, ao entrar numa padaria que havia nesse tempo e parece-me que ainda existe no Arco de Almedina, o Horta, olhando de relance para o forno, deparou com uma caçoila vidrada coberta com um papel, de onde se exalava um cheiro delicioso a certos temperos que lhe haviam de ser muito gratos ao paladar... Desatou a correr para casa á procura de uma caçoila parecida. Encheu-a de pedras, pôs-lhe um papel por cima, tal qual como na outra que vira, e ei-lo que volta à padaria a pedir com muito empenho para lha colocarem também no forno. Prometendo voltar a uma certa hora, algum tempo antes da hora em que sabia que o saboroso pitéu seria retirado, foi dar o seu passeio para passar tempo, até que, voltando novamente ao forno, embarrilou o moço da padaria dizendo-lhe ser a outra caçoila a sua… E pernas para que te quero... Lá foi ele até casa numa correria louca saborear um belo pastelão de carne que o acaso lhe oferecera. E o verdadeiro dono do acepipe ao vir buscar a caçoila apenas a encontrou cheia de pedras ...

Como esta, contam-se dele inúmeras proezas que o fizeram tomar por doido, sendo, dentro em pouco, internado no hospital Conde Ferreira, pois que ninguém o podia suportar.

Regressando, mais tarde, a Coimbra, pouco tempo demorou a reeditar as cenas doutrora e é assim que ele aparece, numa tarde de inverno, em Santa Clara, ao fim da ponte, a meter num bolso das calças certa encomenda que encontrou à beira do caminho.

Ele que o fez é porque alguma coisa ruminava, é porque lá tinha as suas razões para o fazer... Terminada essa operação, limpando as mãos a uns arbustos que ali estavam perto, induziu um rapazito que passava a que fosse dizer ao guarda-barreira que ele, Horta levava contrabando no bolso das calças. E o rapazito lá foi cumprir a sua missão enquanto sua excelência a passo largo, muito sereno, marchava olimpicamente a caminho da cidade.

Mal tinha tempo de pôr o pé fora da ponte quando o guarda se lhe pôs na frente intimando-o com uma voz de trovão:

– Deixe ver o que leva aí.

– Não deixo, diz o Horta, fingindo-se muito comprometido.

– Deixe ver, já lhe disse.

– Não deixo.

– Ah, não deixa?!

E assim estiveram, neste dize tu, direi eu, até que o guarda resolveu levá-lo à presença da autoridade superior. Foi dito e feito.

Como a autoridade não era para festas, com uns modos façanhudos, arrumou-lhe logo esta à queima roupa:

– Mostre já o que leva aí.

– Não mostro, replicou o Horta com teimosia.

– Mostre, mando eu.

– Não mostro.

– Ai, não mostra? Eu já lhe vou dizer se mostra ou não!

E, dizendo isto, enfia-lhe a mão pelo bolso das calças para tirar de lá o contrabando… Faça-se agora uma pequena ideia da cara com que ficou a autoridade e principalmente como ficaram os dedos!... O Horta era um vivo diabo!

 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 09:53

Terça-feira, 12.06.18

Coimbra: Batalhões Académicos

O primeiro batalhão académico a ser formado na Universidade organiza-se em 1644... Invocava-se a defesa do País, após os acontecimentos que culminaram na Restauração da Independência e na aclamação de D. João IV, em 1640.

A lealdade da Academia à causa pátria e a sua participação no esforço de conservação da autonomia de Portugal veio posteriormente a encontrar novas oportunidades de se ver confirmada.

No final de 1807, com efeito, os exércitos napoleónicos, comandados por Junot, invadem o território português.

Batalhões académicos.jpg

 Imagem comemorativa da conquista do forte da Figueira da Foz

 A proximidade do teatro de guerra relativamente á cidade de Coimbra, leva a que a Universidade encerre as suas portas em 27 de Julho de 1808. Alguns estudantes universitários aderem prontamente à iniciativa de libertar o forte da Figueira da Foz, ocupado por militares franceses... retomam de facto o forte de S-ta Catarina, na Foz do Mondego, em 26 de Junho de 1808, sob o comando do 1.º sargento de artilharia e aluno da Universidade, Bernardo António Zagalo.

A escassez de munições necessárias à defesa da cidade de Coimbra é colmatada pelo fabrico artesanal de projeteis no Laboratório Químico da Universidade... Organiza-se então na Universidade um Corpo Militar constituído por lentes, opositores, doutores e professores e um outro de Voluntários Académicos, que adotaram como legenda, ostentada no emblema, “Vencer ou Morrer por D. João VI”.

 

Batalhões Académicos medalhas.jpg

 

Medalha comemorativa dos Voluntários Académicos de 1808

 

Como reconhecimento do nobre desempenho da sua missão, o Corpo de Voluntários Académicos foi autorizado ... 22 de Julho de 1808, a usar a insígnia representando os símbolos da Universidade aureolados pela legenda “Pro Fide, Pro Patria, Pro Rege”.

Cumpridas as missões realizadas em Leiria, Tomar e Lisboa, regressaram os bravos combatentes, vitoriosamente, a Coimbra, onde, no final de Setembro, a cidade e a Universidade os festejaram e cumularam de louvores.

Expulsas as tropas francesas do país, logo no ano seguinte, perante a eminência d segunda invasão... é ordenado novo alistamento de lentes e estudantes, pela Carta Régia de 2 de Janeiro de 1809... o encerramento da Universidade que havia reaberto as suas portas a 1 de Novembro de 1808. Em Setembro do ano seguinte, retomam-se as aulas... é concedido “perdão de ato” aos estudantes que se alistaram.

... Ao terminar o ano de 1810, a terceira invasão francesa... vem justificar nova mobilização armada de universitários que, pouco tempo volvido, após a retirada das tropas invasoras, perde razão de ser, sendo o Corpo Militar dissolvido, por Aviso de 15 de Abril de 1811.

... A revolta liberal do Porto em 16 de Maio de 1828, motivou o alistamento de um corpo de voluntários académicos cuja atuação não foi bem sucedida, acabando por provocar o abandono da Universidade e mesmo a emigração de elementos seus. Do mesmo modo a revolução liberal de 1834 veio a afastar aquele que haviam aderido à causa de D. Miguel.

Foi um momento conturbado este, em que a Universidade se viu transformada em teatro de lutas intestinas, dividindo professores e alunos. Em 1846-47, organizou-se novamente o Batalhão Académico que incluiu também alunos do Liceu.

... Numa última formação, interveio o Batalhão Académico nos episódios de confrontação armada, em 1919, aquando da tentativa de restauração do regime monárquico, conhecida por “Monarquia do Norte”.

 Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 305-307

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:32

Quinta-feira, 31.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 7


O Mercandó.jpg

 O Mercandó

 O Mercandó, de cabeleira, um bom ratão, o velho porteiro do palácio dos Grilos, que faz lembrar um pouco o Chitó-ó-Chito, que divertia o público executando palhaçadas nas ruas e que linha também umas barbas esplêndidas e um rosto expressivo. 

O Chitó-ó-Chito (Cliché Rodrigues da Silva).jpg

 O Chitó-ó-Chito (Cliché de Rodrigues da Silva)

 A Feliciana Pereira, uma velhota revelha, com umas certas pretensões de asseio; tinha sido criada do grande liberal de Ceira Victorio Telles, cuja cabeça se viu, durante algum tempo, espetada num pinheiro, a uma esquina do largo de Sansão, devido ás lutas apaixonadas e renhidas do seu tempo.


A Feliciana Pereira.jpg

 A Feliciana Pereira

 Talvez por esse motivo liberal ferranha. Não tinha o menor pejo em correr a pau a garotada das ruas que lhe sabia da pecha e, ainda há bem pouco tempo, lhe atormentavam os ouvidos a toda a hora dando vivas ao senhor D. Miguel, o que para ela equivalia à mordedura venenosa e súbita de uma víbora.

Obteriam dela tudo quanto quisessem…, mas nada de ofender os seus
ideais políticos! Credo! Virgem Santíssima! Lá isso não!
 


A Maria do Gato Negro (Retrato a óleo Eduardo Mac

 A Maria do Gato Negro (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

 A Maria do Gato Negro era uma outra velha que viveu em Coimbra e foi um dos tipos mais interessantes da sua época. Já lá vai isto há um bom par de anos! Vivia num casinhoto dentro da torre de Santa Cruz e, como numa noite lhe tivessem morto um lindo gato negro que muito estimava, foi tal a raiva que se apoderou dela que, jurando vingar-se, pelava-se toda por andar altas horas da noite percorrendo as vielas mais imundas á caça dos gatos. Bichinho que ela apanhasse a jeito tanta paulada lhe assentava no lombo que nem a alma se lhe aproveitava!... Os estudantes de então, conhecedores da mania dessa pobre mulher, para se divertirem á sua custa, encomendavam-lhe gatos mortos, que ela de muito bom grado lá ia distribuir pelas repúblicas, a troco de uns míseros vinténs que mal lhe chegavam para não morrer de fome ...


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 O Senhorinha (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

 O Senhorinha, assim chamado pelos seus modos efeminados, era um zelador municipal que ia levar a sua cara metade com quem casara… por amor… a casa dos estudantes, sobraçando sempre o cavaquinho. O amor para ele não valia nada sem um bom acompanhamento...

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

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por Rodrigues Costa às 10:12

Terça-feira, 29.05.18

Coimbra: O trajo académico

É um hábito comprido de panno preto, sem mangas, atado atraz com cordões e guarnecido na frente com duas ordens de pequenos botões bem juntos, que começam no pescoço e descem até aos pés; eis a primeira parte do vestido. 

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Estudante da Universidade de Coimbra, séc. XVIII

 Por cima d’este se usa um outro preto e comprido, com mangas largas, precisamente como o dos pastores protestantes. Cada um traz na mão um pequeno saco de panno preto, onde, à falta de algibeiras, se acham o lenço, a caixa de rapé e outros objectos semelhantes. Os estudantes vão sempre com a cabeça descoberta, mesmo durante os maiores calores de verão:- Eis porque as ruas estão sempre cheias de homens que oferecem um aspecto triste e monacal”.

Desta forma descrevia Link o estudante universitário de Coimbra, retratando-o pelas impressões que lhe deixou a estada na cidade de Coimbra, e que relata na obra «Voyage en Portugal depuis 1797 jusqu’en 1799».

Era este o trajo académico do séc. XVIII, bem diferente do modelo utilizado no século anterior.

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 Trajo académico, painéis de João Abel Manta, 1958

 A disciplina académica impunha ao estudante regras de comportamento e decoro no trajar, vedando-lhe o uso de certos adereços e cores, procurando uma uniformidade do vestuário usado que evitasse revelar as distinções classistas e um dispêndio desnecessário.

... As referências à indumentária são mais pormenorizadas nos Estatutos manuelinos (ca. 1503) onde, no parágrafo ”Da honestidade dos vestidos” se proíbem os pelotes, capuzes, barretes, gibões de cor vermelha ou “verdegaio” e os cintos lavrados a ouro.

Provavelmente estas diretrizes eram por vezes infringidas e daí a emissão de certos diplomas régios, repondo ou especificando melhor as recomendações sobre o trajo académico, de que é exemplo a Carta de 14 de janeiro de 1539 de D. João III. Nela se enumeram os adereços proibidos: barras e debruns, pano frisado, golpes e entretalhos nas calças, lavor branco ou de cores diversas em camisas, lenços, etc. O comprimento de pelotes e aljubetas seria abaixo do joelho e sobre todo o vestuário apenas se podiam usar lobas ou mantéus sem capelo.

... Em 1863 pensava-se já na alteração deste vestuário... “Acerca de acabar-se com as batinas, fácil seria fazelo, se fora substituil-as. Ja se lhes fez uã modificação, e há tempo p.ª meditar até ao fim do anno lectivo”.

...em Edital de 21 de Setembro de 1907, em que apenas se consente o uso de gravata preta “não podendo ostentar coletes d’outra côr nem barrete algum além do gorro”.

Em Março desse ano era proposta... em Conselho de Decanos, a sua completa abolição pois o mesmo não era sequer usado a rigor.

... Só em 1910 o seu uso se tornará facultativo, por Decreto de 24 de Outubro.

 

Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 147-149

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:17

Quinta-feira, 24.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 6

 

O Cego da Abrunheira e seu Moço (Des. Eduardo Mac

 O Cego da Abrunheira e seu Moço (Desenho de Eduardo Macedo)

 A galeria popular coimbrã é vasta, e se nela há vultos de somenos originalidade como lembrando, ao acaso, O Cego da Abrunheira, lugar próximo de Coimbra, que vinha, ás vezes, á cidade em companhia de um moço, ganhar a vida tocando e cantando alguns improvisos, verdadeiros disparates, a quem lhe desse alguma coisa, outros há que merecem um pouco de atenção, como, por exemplo, o Francisquinho Tanana, a Feliciana Pereira, a Maria do Gato Negro e tantos outros que passarei a citar. 

O Chiquinho Tanana  (Retrato a óleo Eduardo Maced

 O Chiquinho Tanana  (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

O célebre Francisquinho Tanana, um velhito magro como um junco, de pele encarquilhada, morava junto ao cemitério, lá no alto do Pio, e passava à tarde para o rio a buscar água num pote de barro que, à volta, trazia à cabeça com muito cuidado. A pobreza do seu vestuário era tão grande que chegava a ser imoral, pois tanto importava esse conjunto de andrajos como nada, o corpo andava quase todo à mostra, e uma vez vi-o eu nesse estado, a gritar como um possesso nuns gritos selvagens e a arrepelar-se todo porque os garotos, além de lhe chamarem Tanana, tinham-lhe feito partir o pote que levava à cabeça e que se desequilibrou ao atirar uma pedra, arma com que se defendia da rapaziada brejeira.

Quando se ouvissem uns gritos agudos, por vezes em falsete, acompanhados de um choro ridiculamente convulso, era certo e sabido que andava por perto o Francisquinho Tanana e toda a gente assomava às portas e ás janelas para ver esse espetáculo miserável da vida das ruas.

O José Maria Mudo.jpgO José Maria Mudo

Facto quase idêntico se dava com O Mudo, um calceteiro que a Câmara Municipal tinha admitido ao seu serviço. 

Esse não tinha nada com os garotos, só se importava com o pessoal que dirigia, mas, para lhe transmitir as suas ordens, para se fazer compreender, desfazia-se em gestos desesperados e gritos tão agudos que se ouviam com certeza sete léguas em redor. Olhar a fronte cheia de rugas do Francisquinho é trazer à ideia toda uma série de magníficas cabeças de estudo que se encontram nesses mendigos vadios perdidos pelas ruas de Coimbra.

O Rabino.jpg

 O Rabino

É ver o D. Sebastião, de que já falei, o Rabino, um belo tipo de judeu, de rosto bem vincado, de linhas bem definidas, que vivia de expedientes e tinha o seu dito espirituoso lá de vez em quando.

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

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por Rodrigues Costa às 11:18

Quinta-feira, 17.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 5

 

O António das Almas  (Retrato a óleo Eduardo Mac

 O António das Almas (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

O António das Almas era um pandego incorrigível, um emérito patusco que sabia arranjar-se menos mal, fundado no grandioso princípio de que não há nada melhor para não morrer á fome e ter dinheiro do que ser amigo de estudantes e captar-lhes as simpatias. Além disso o António não desperdiçou nunca o seu tempo, pois que a par dessa amizade colocava a sua qualidade de pregador, sendo raro o dia em que deixava de pregar um sermão por dá cá aquela palha. O António jamais perdia as ocasiões propícias, inclusive a festa das latas, esse banzé, sabbat infernal, que os estudantes fazem, arrastando latas velhas pelas ruas da cidade mal escurece o dia do encerramento das aulas, do começo das férias do ponto, para não deixarem dormir nem estudar os colegas das outras faculdades que por desgraça vejam as suas aulas encerradas mais tarde.

Pregando em toda a parte e a toda a hora, gostava, no entanto, muito mais de pregar no largo de Sansão, num pilar de pedra que ali havia e ainda se vê atualmente encaixado na parede duma casa que faz esquina com a rua do Corvo e rua da Louça. Chegado aí, no meio do povoléu que lhe servia de séquito, subia ao seu púlpito, persignava-se e rompia sempre nestes termos:

Eu sou o António das Almas. As mulheres são como as cabras que andam pelos outeiros. De Celas nem eles nem elas. E voltava ao princípio... Eu sou o António das Almas…, sendo capaz de estar meia hora assim, na mesma arenga, com tanto que lhe dessem um cigarro, umas calças, um colete servido, que era, em geral, a espécie de moeda que preferia para pagamento dos seus sermões.

Sucedeu, porém, uma vez que, em certa festa das latas, o António não quis pregar, porque dizia faltar-lhe uma papeleta com o tema do sermão, mas isso era o menos. Ele apenas pretendia fazer-se rogado para lhe pagarem melhor. E foi o que sucedeu… Um estudante seu amigo, desejando ouvir mais um sermão dos seus, meteu-lhe na mão uns dinheiros em prata ao mesmo tempo que lhe dizia, entregando-lhe um papel em branco: «Aí tens a papeleta»...

O António das Almas olhou para o dinheiro num grande sorriso de satisfação e exclamou agitando o papel – Meus senhores cá está a papeleta… e mirando o papel de um lado e do outro, pôs-se a cismar… «Deste lado, nada… do outro, também nada… ora do nada criou Deus o céu e a terra… E pregou sobre este assunto o melhor sermão entre os muitos que fez em toda a sua vida.

Por outra vez, devido a um caso inexplicável, o António das Almas que morava para os lados de Montarroio, não pôde pagar ao senhorio o aluguer da casa que habitava com uma mulher chamada a Caqueireira e sendo posto na rua por tal motivo, na rua foi levantar um simulacro de tenda de campanha. Iam, assim, as coisas muito bem.... mas, certo dia, lembrou-se de viajar nas águas de Cupido perante a revolta dos transeuntes que barafustavam e um agente da polícia, então a cargo dos zeladores municipais, deitou-lhe a mão e espetou com ele na cadeia. Pois o António das Almas nada se ralou com isso, pelo contrário, pinchava de contente exclamando em altos gritos: Ora graças a Deus! Aqui está-se debaixo de telha e tem a gente casa de graça!....

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 10:38


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