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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 24.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 6

 

O Cego da Abrunheira e seu Moço (Des. Eduardo Mac

 O Cego da Abrunheira e seu Moço (Desenho de Eduardo Macedo)

 A galeria popular coimbrã é vasta, e se nela há vultos de somenos originalidade como lembrando, ao acaso, O Cego da Abrunheira, lugar próximo de Coimbra, que vinha, ás vezes, á cidade em companhia de um moço, ganhar a vida tocando e cantando alguns improvisos, verdadeiros disparates, a quem lhe desse alguma coisa, outros há que merecem um pouco de atenção, como, por exemplo, o Francisquinho Tanana, a Feliciana Pereira, a Maria do Gato Negro e tantos outros que passarei a citar. 

O Chiquinho Tanana  (Retrato a óleo Eduardo Maced

 O Chiquinho Tanana  (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

O célebre Francisquinho Tanana, um velhito magro como um junco, de pele encarquilhada, morava junto ao cemitério, lá no alto do Pio, e passava à tarde para o rio a buscar água num pote de barro que, à volta, trazia à cabeça com muito cuidado. A pobreza do seu vestuário era tão grande que chegava a ser imoral, pois tanto importava esse conjunto de andrajos como nada, o corpo andava quase todo à mostra, e uma vez vi-o eu nesse estado, a gritar como um possesso nuns gritos selvagens e a arrepelar-se todo porque os garotos, além de lhe chamarem Tanana, tinham-lhe feito partir o pote que levava à cabeça e que se desequilibrou ao atirar uma pedra, arma com que se defendia da rapaziada brejeira.

Quando se ouvissem uns gritos agudos, por vezes em falsete, acompanhados de um choro ridiculamente convulso, era certo e sabido que andava por perto o Francisquinho Tanana e toda a gente assomava às portas e ás janelas para ver esse espetáculo miserável da vida das ruas.

O José Maria Mudo.jpgO José Maria Mudo

Facto quase idêntico se dava com O Mudo, um calceteiro que a Câmara Municipal tinha admitido ao seu serviço. 

Esse não tinha nada com os garotos, só se importava com o pessoal que dirigia, mas, para lhe transmitir as suas ordens, para se fazer compreender, desfazia-se em gestos desesperados e gritos tão agudos que se ouviam com certeza sete léguas em redor. Olhar a fronte cheia de rugas do Francisquinho é trazer à ideia toda uma série de magníficas cabeças de estudo que se encontram nesses mendigos vadios perdidos pelas ruas de Coimbra.

O Rabino.jpg

 O Rabino

É ver o D. Sebastião, de que já falei, o Rabino, um belo tipo de judeu, de rosto bem vincado, de linhas bem definidas, que vivia de expedientes e tinha o seu dito espirituoso lá de vez em quando.

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

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por Rodrigues Costa às 11:18

Quinta-feira, 17.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 5

 

O António das Almas  (Retrato a óleo Eduardo Mac

 O António das Almas (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

O António das Almas era um pandego incorrigível, um emérito patusco que sabia arranjar-se menos mal, fundado no grandioso princípio de que não há nada melhor para não morrer á fome e ter dinheiro do que ser amigo de estudantes e captar-lhes as simpatias. Além disso o António não desperdiçou nunca o seu tempo, pois que a par dessa amizade colocava a sua qualidade de pregador, sendo raro o dia em que deixava de pregar um sermão por dá cá aquela palha. O António jamais perdia as ocasiões propícias, inclusive a festa das latas, esse banzé, sabbat infernal, que os estudantes fazem, arrastando latas velhas pelas ruas da cidade mal escurece o dia do encerramento das aulas, do começo das férias do ponto, para não deixarem dormir nem estudar os colegas das outras faculdades que por desgraça vejam as suas aulas encerradas mais tarde.

Pregando em toda a parte e a toda a hora, gostava, no entanto, muito mais de pregar no largo de Sansão, num pilar de pedra que ali havia e ainda se vê atualmente encaixado na parede duma casa que faz esquina com a rua do Corvo e rua da Louça. Chegado aí, no meio do povoléu que lhe servia de séquito, subia ao seu púlpito, persignava-se e rompia sempre nestes termos:

Eu sou o António das Almas. As mulheres são como as cabras que andam pelos outeiros. De Celas nem eles nem elas. E voltava ao princípio... Eu sou o António das Almas…, sendo capaz de estar meia hora assim, na mesma arenga, com tanto que lhe dessem um cigarro, umas calças, um colete servido, que era, em geral, a espécie de moeda que preferia para pagamento dos seus sermões.

Sucedeu, porém, uma vez que, em certa festa das latas, o António não quis pregar, porque dizia faltar-lhe uma papeleta com o tema do sermão, mas isso era o menos. Ele apenas pretendia fazer-se rogado para lhe pagarem melhor. E foi o que sucedeu… Um estudante seu amigo, desejando ouvir mais um sermão dos seus, meteu-lhe na mão uns dinheiros em prata ao mesmo tempo que lhe dizia, entregando-lhe um papel em branco: «Aí tens a papeleta»...

O António das Almas olhou para o dinheiro num grande sorriso de satisfação e exclamou agitando o papel – Meus senhores cá está a papeleta… e mirando o papel de um lado e do outro, pôs-se a cismar… «Deste lado, nada… do outro, também nada… ora do nada criou Deus o céu e a terra… E pregou sobre este assunto o melhor sermão entre os muitos que fez em toda a sua vida.

Por outra vez, devido a um caso inexplicável, o António das Almas que morava para os lados de Montarroio, não pôde pagar ao senhorio o aluguer da casa que habitava com uma mulher chamada a Caqueireira e sendo posto na rua por tal motivo, na rua foi levantar um simulacro de tenda de campanha. Iam, assim, as coisas muito bem.... mas, certo dia, lembrou-se de viajar nas águas de Cupido perante a revolta dos transeuntes que barafustavam e um agente da polícia, então a cargo dos zeladores municipais, deitou-lhe a mão e espetou com ele na cadeia. Pois o António das Almas nada se ralou com isso, pelo contrário, pinchava de contente exclamando em altos gritos: Ora graças a Deus! Aqui está-se debaixo de telha e tem a gente casa de graça!....

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 10:38

Terça-feira, 15.05.18

Coimbra: Hotel Astória 2

A Companhia de Seguros “A Nacional” ocupou ou seu edifício-sede até finais de outubro ou inícios de novembro de 1925 altura em que Alexandre de Almeida assina uma escritura de arrendamento com a seguradora, a fim de ali vir a instalar um luxuoso hotel. O contrato, com início no dia 1 de janeiro do ano seguinte, prolongava-se por 19 anos com a renda mensal de quatro mil escudos, reservando, a seguradora, três divisões no primeiro andar, a fim de lhe servirem de sede.

O jornal “O Despertar” escrevia na sua edição de 11 de novembro desse ano que “Coimbra fica agora ricamente servida de bons hotéis, nenhuma outra cidade havendo, além de Lisboa e Porto, que os possua em melhores condições de luxo e conforto”.

O conhecido empresário, a fim de “fazer a aquisição de mobiliário e outros artigos para o referido hotel” deslocou-se à Alemanha, embora tenha encomendado no Porto, à Casa Venâncio do Nascimento as cadeiras e as mesas e adquirido na mesma cidade os revestimentos de madeira das paredes, os apliques e o pavimento.

Mas a verdade é que o interior de um edifício que fora construído para servir de escritório não podia acolher, sem adaptações vultuosas, um hotel e, além disso, o espaço disponível não se mostrava suficiente para responder às necessidades.

Espaço a ser anexado.jpg

Espaço a ser anexado ao Hotel Astória

 O arrendatário recorreu, então, aos serviços do conhecido arquiteto portuense Francisco de Oliveira Ferreira, a fim de organizar e ampliar o futuro hotel que pretendia vir a colocar à disposição do público mondeguino, e não só.

Oliveira Ferreira nasceu no Porto em 1885 e faleceu em Miramar no ano de 1957. Diplomou-se em arquitetura na Academia Portuense de Belas Artes e exerceu uma intensa atividade naquela área ao mesmo tempo que se interessava por assuntos de arte e de arqueologia. Viajava frequentemente pela Europa, a fim de aprofundar os seus conhecimentos e marcou significativamente, com alguns dos trabalhos saídos do seu lápis, principalmente, as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia. O artista “ficará, certamente, na história da nossa arquitetura como um caso de coerência no ofício e na arte de ser arquiteto em Portugal”.

Edifício do Hotel Astória.jpg

Edifício do Hotel Astória depois da intervenção de Oliveira Ferreira

 Obviamente que, para responder ao desafio de Alexandre de Almeida, não passou pela cabeça, nem pela mão de Oliveira Ferreira imitar, no exterior e na zona que ia acoplar ao edifício de “A Nacional”, o gosto eclético do pré-existente, mas conseguiu, utilizando embora uma linguagem completamente diferente, que o todo se mostrasse harmonioso e não chocasse.

A 28 de março de 1926 o Hotel Astória foi, finalmente, inaugurado e, tal como “O Despertar” noticiara podia considerar-se, “na altura como a catedral dos hotéis nacionais e internacionais”, porque a existência de uma central telefónica, do elevador, do aquecimento central ou do requintado e luxuoso mobiliário, o permitiam.

Da festa inaugurativa, abrilhantada pelo sexteto "Jazz Band César Magliano", constava um banquete (almoço) e um chá dançante (jantar). O evento foi considerado um verdadeiro acontecimento social.

O Hotel Astória que ainda na atualidade conserva o aspeto romântico da época da abertura e contém no recheio artístico e arquitetónico verdadeiras relíquias tornou-se, quase desde a sua inauguração, num ex-líbris de Coimbra e o edifício projetado a duas mãos, saiu, comprovadamente do lápis de Francisco Oliveira Ferreira e, com grande margem de segurança, do de Adães Bermudes.

 

Lisboa. Monumento aos Restauradores.jpg

 Lisboa. Monumento aos Restauradores. “Génio da Independência”. Alberto Nunes

 Ao longo dos tempos conheceu diversas campanhas de obras, com destaque para as realizadas em 1945, 1980, 1990 e 2002, esta última a contemplar também o exterior do hotel.

As intervenções de 1990 foram levadas a cabo na sequência da escolha do hotel para albergar Mário Soares, então Presidente da República, e a sua comitiva durante a “Presidência Aberta” que aconteceu na cidade; é que, durante 10 dias “a Presidência da República ficou instalada na Reitoria da Universidade de Coimbra (instituição a comemorar 700 anos)”, enquanto a comitiva pernoitou no Hotel Astória, então chamado pela população citadina de «Palácio de Belém da Portagem».

 

O Génio da Independência.jpg

 O “Génio da Independência”, emblema da Companhia de Seguros “A Nacional” decorou durante quase cem anos a fachada do Hotel Astória, mas sumiu…

 A Companhia de Seguros “A Nacional” tinha por emblema o “Génio da Independência”, escultura que se pode observar no monumento da Praça dos Restauradores, em Lisboa. O padrão, inaugurado a 28 de abril de 1886, consagra a Revolução de 1640 e Eça de Queirós, em «Os Maias», descreve-o como sendo “um traço cor de açúcar na vibração fina da manhã de Inverno”.

O Génio da Independência”, esculpido por Alberto Nunes (1838-1912) representa um jovem alado a quebrar as cadeias que o manietavam e a transportar a bandeira; a peça bastava, por si só, para fazer a reputação de um artista.

Durante quase um século, uma réplica em bronze do “Génio da Independência”, símbolo da companhia seguradora, ornamentou a fachada do conimbricense Hotel Astória, mas aquando de uma das obras de conservação, provavelmente das de 2002, levou sumiço, ou porque incomodava os donos do imóvel, ou porque a sua venda tornava passível minorar os custos da intervenção! Seria interessante conhecer o seu paradeiro…

Em 2011 o edifício do Hotel Astória passou a integrar a lista de monumentos de interesse público, classificados pelo Ministério da Cultura e foi-lhe fixada uma Zona Especial de Proteção.

 

Bibliografia:

ANACLETO, Regina, Neoclassicismo e romantismo, em História da arte em Portugal, vol. 10, Lisboa, Alfa, 1986.

Arquitectura, pintura, escultura, desenho. Património da Escola Superior de Belas Artes do Porto e da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, Universidade do Porto, 1987.

BAIRRADA, Eduardo Martins, Prémio Valmor (1902-1952), Lisboa, Manuela R. de A. Martins Bairrada, 1988.

Construcção Moderna (A), Ano VII, 20, Lisboa, 212, 1907.02.01.

Despertar (O), 882, Coimbra, 1925.11.11.

Gazeta de Coimbra, 1823, Coimbra, 1925.11.19.

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/hotel-astoria-em-coimbra.html

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/companhia-de-seguros-nacional.html

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por Rodrigues Costa às 09:41

Quinta-feira, 10.05.18

Coimbra: Hotel Astória 1

Tendo, ultimamente, surgido nas redes sociais algumas notícias menos corretas sobre o edifício do Hotel Astória, iniciámos a publicação de uma série de 2 entradas que procuraram fazer luz sobre o mesmo.

 

O Largo da Portagem, bem como as atuais ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz nem sempre se apresentaram como atualmente as visualizamos. Já em 1813, Joaquim José de Miranda, arquiteto da Universidade, riscara algumas alterações destinadas a transformar o Largo (as mudanças deste espaço foram uma constante ao longo do tempo) e, anos depois, em 1857, o arquiteto João Ribeiro da Silva projeta a retificação da Calçada e da Rua de Coruche.

O Banco de Portugal, no âmbito dos princípios que norteavam aquela instituição, criara em Coimbra, a 03 de fevereiro de 1891, uma agência, mas pretendia fazer construir de raiz, a fim de a instalar, um edifício condigno.

Depois de analisados diversos locais onde o imóvel poderia ser erguido, a que se seguiu a costumeira polémica, os responsáveis optaram pelo Largo Príncipe D. Carlos, batizado, após a implantação da República, com o nome de Miguel Bombarda, para, finalmente, em 1942 virar definitivamente (espera-se) Largo da Portagem.

De riscar o projeto da sucursal bancária encarregou-se, em torno de 1907, o arquiteto Arnaldo Redondo Adães Bermudes (1864-1948) mais conhecido por Adães Bermudes, artista e que já apusera a sua assinatura na conimbricense escola de Santa Cruz construída, a partir de 1905, na Avenida Sá da Bandeira.

Não cabe, nesta entrada, analisar a problemática da construção nem a arquitetura da agência do Banco de Portugal. Fica para outra ocasião; e se a elas aludimos é porque pensamos que o arquiteto deste imóvel e o de parte do edifício onde se encontra instalado o Hotel Astória poderá ser o mesmo, como vamos tentar provar. Estamos a referir-nos à zona que ocupa a esquina da Avenida Emídio Navarro com a Rua da Sota, o mesmo que, num primeiro momento, foi construído para servir de sede à Companhia de Seguros “A Nacional”.

Largo da Portagem. Banco de Portugal.jpg

 Largo da Portagem. Banco de Portugal e antiga Companhia de Seguros “A Nacional”

 A conhecida associação mutualista, apenas nacionalizada em 1975, foi fundada a 17 de abril de 1906 e tinha como objetivo principal fomentar a adesão aos seguros de vida. Com sede em Lisboa, primeiro na esquina da Rua do Alecrim com a Praça Duque da Terceire e, depois, na Avenida da Liberdade, iniciou em 1919 a construção da sua filial na cidade do Porto, na Avenida dos Aliados, com projeto do arquiteto José Marques da Silva.

A filial aeminiense julgamos que se ergueu um pouco antes, no Largo da Portagem, quase paredes meias com o Banco de Portugal.

Não conhecemos qualquer notícia relacionada com a construção do imóvel, nem com a sua inauguração, mas parece (e apenas apontamos a data, porque não a podemos fundamentar) que a sucursal conimbricense da Companhia de Seguros foi construída entre 1915 e 1919.

Analisando sumariamente a vastíssima produção artística de Adães Bermudes concluímos que este riscou, em 1907, para o dr. Guilherme Augusto Coelho, o projeto de um prédio construído em Lisboa, no ângulo da Avenida D. Amélia (atual Almirante Reis) com o Largo do Intendente; o edifício mereceu mesmo ser reconhecido com o prestigiado Prémio Valmor de 1908.

Lisboa. Confluência da Avenida.jpg

 Lisboa. Confluência da Avenida Almirante Reis com o Largo do Intendente. Adães Bermudes. Prémio Valmor 1908

 

Coimbra. Confluência da Avenida Emídio.jpg

 Coimbra. Confluência da Avenida Emídio Navarro com a Rua da Sota. Antiga sede da Companhia de Seguros “A Nacional”

 Ao compararmos a sede conimbricense da Companhia de Seguros “A Nacional” e o referido imóvel constatamos analogias irrefutáveis e não se torna credível que, estando ainda Adães Bermudes vivo qualquer outro artista, arquiteto ou não, se tenha atrevido a apor o seu nome num projeto que, obviamente, viria a ser considerado um plágio.

Atrevemo-nos, dadas as semelhanças existentes entre os dois imóveis, o lisboeta e o mondeguino, e pensando quer na vizinhança do Banco de Portugal, quer na escolha de renomados arquitetos para riscar as filiais da Companhia de Seguros, a atribuir a paternidade de uma parte do atual Hotel Astória a Adães Bermudes. Mas não passamos da atribuição, embora fundamentada.

 Bibliografia:

ANACLETO, Regina, Neoclassicismo e romantismo, em História da arte em Portugal, vol. 10, Lisboa, Alfa, 1986.

Arquitectura, pintura, escultura, desenho. Património da Escola Superior de Belas Artes do Porto e da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, Universidade do Porto, 1987.

BAIRRADA, Eduardo Martins, Prémio Valmor (1902-1952), Lisboa, Manuela R. de A. Martins Bairrada, 1988.

Construcção Moderna (A), Ano VII, 20, Lisboa, 212, 1907.02.01.

Despertar (O), 882, Coimbra, 1925.11.11.

Gazeta de Coimbra, 1823, Coimbra, 1925.11.19.

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/hotel-astoria-em-coimbra.html

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/companhia-de-seguros-nacional.html

 

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por Rodrigues Costa às 09:17

Terça-feira, 08.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 4

E o Rosalino Cândido?

Do Rosalino Cândido de Sampaio e Brito, nome mil vezes maior do que o dono, um velhito pequerrucho, de barba branca, não há ninguém, quer-me parecer, que não conheça aquela cena com o Manso Preto, em geometria, no Liceu.  

O Rosalino Cândido (Des. Raf. B. Pinheiro).jpg

 O Rosalino Cândido (Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro)

 

Como não soubesse a lição, em certo dia, lembrou-se de pedir dispensa em verso… E se bem o pensou melhor o fez: 

 

Como incomodado estado tenho

Dispensa a V S.ª pedir venho

E por não a pedir por varias vezes

Peço-a por dois ou três meses,

 

Responde-lhe o professor:

Por um ano se quiser!

 

E o Rosalino não perdeu a ocasião de retorquir:

Isso mesmo é o que se requer!

 

O Rosalino era pobre, mesmo muito pobre, mas cheio de altivez, para não pedir coisa alguma, fez-se poeta e prosador de sete costados. A publicar folhetos não havia quem o vencesse...no número! Eram às dezenas, às centenas, aos milhares!... Foi assim que O diabo fechado na minha gaveta e a luz da razão vieram à luz do dia, a par de tantos outros folhetos que ele próprio distribuía em troca de alguns vinténs.

Pedir não pedia, mas, usando deste processo, tudo vinha a dar no mesmo...

Falando do Rosalino vem muito a propósito contar um facto pouco divulgado, mas cuja veracidade eu posso garantir. Uma vez, um estudante da Universidade teve a estranha lembrança de enviar as obras de Rosalino não sei a que escritor sueco ou norueguês. Os folhetos partiram e, passado pouco tempo, esse mesmo estudante lia, num jornal estrangeiro, uma pomposa crítica à obra monumental de Rosalino firmada pelo tal escritor que dizia e asseverava, entre muitas outras coisas, que o Rosalino era o primeiro prosador de Portugal!!!

Escusado será dizer que o jornal, passando de mão em mão, foi lido pela academia em peso entre enormes explosões de gargalhadas, enquanto o nosso poeta, impando de orgulho, inchado, ia pensando de si para si: – que grande Rosalino não havia de ser Alexandre Herculano se mandassem o Eurico a este escritor!...

E, arranjando uma casaca, não sei onde nem como, foi assim, todo bem-posto, que se apresentou nas ruidosas e memoráveis festas que a Academia de Coimbra fez pelo tricentenário de Camões. Depois, usou-a, usou-a, como competia a um tão digno e ilustre ornamento das letras pátrias, até que a pôs no fio e teve de encobri-la lançando-lhe por cima a sua inseparável e conhecida capa! Foi um portento esse Rosalino! 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

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por Rodrigues Costa às 09:34

Terça-feira, 24.04.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 3

Quem não conheceu mendigando pelas ruas, ainda há bem pouco tempo?

O Jinó.jpg

 Jinó

O Jinó, essa figura esquelética de velho, de cabelo desgrenhado, de olhar mau, vivo e penetrante, que todo se exasperava quando o rapazio lhe gritava, pondo-se a dançar diante dele: Ó Jinó larga a Maria viúva, talvez alusão a quaisquer amoricos passados, ou Ó Jinó larga o velhó, não porque ele tivesse roubado qualquer velhó, mas pela tendência que o povo sempre teve e tem para rimar tudo o que significa ridículo e tem de dizer repetidas vezes?...

O D. Sebastião ou Pitónó.jpg

 D. Sebastião ou Pitónó

 E o D. Sebastião, um belo tipo de velhote que andava pelas ruas vendendo reportórios novos, apregoando-os de tal forma que parecia dizer Pitónó, razão da sua segunda alcunha, que acreditava na vinda de el-rei D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, e que ia a casa dos sapateiros pedir-lhes uma faca emprestada para se lhes sentar á porta a limpar e aparar as unhas dos pés num estendal imenso de miséria e porcaria?!

O Zé Macaco.jpg

 Zé Macaco

E o Zé Macaco, o José Macaque da Rattazzi no Portugal à vol d'oiseau, o criado do antigo Hotel Mondego, cuja presença daria um imenso prazer a Darwin, esse imperdoável falador que desandava a discutir com os hóspedes, enquanto os servia, sobre assuntos de política!

Hóspede que lá caísse e que já tivesse sido ministro, o fosse nessa ocasião, ou estivesse em vésperas de o ser, já podia contar com um vigoroso ataque de argumentos irrisórios e disparatados cujo fecho era sempre este: «os senhores afinal prometem…, prometem…, mas, em chegando lá, fazem todos o mesmo. Tão bons são uns como outros!...» 

O Cobra Ladrão.jpg

 Cobra Ladrão

E o Cobra, que tinha uma cara de mau, versejador de má morte, que diziam ter roubado as pratas da Sé e ia esconder-se atrás dos silvados, à beira do rio, pescando à linha a roupa, dentro em breve reduzida a metal sonante, que as lavadeiras, belas moçoilas frescas e apetitosas, de saia arregaçada até ao joelho, aí estendiam a enxugar?

Este costume de pescar roupa alheia e de andar, de noite, roubando as chaves que encontrava pelas portas para as ir vender a qualquer ferro-velho, mereceu-lhe o epíteto pouco glorioso de ladrão, que o tornava apoplético e o fazia correr à pedra a garotada que o perseguia.

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 10:10

Terça-feira, 17.04.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 2

De outro comerciante que já morreu, o Ribeirinho, reza a tradição que, tendo falido, se fingiu amalucado em harmonia com certos fins que tinha em vista…

O Ribeiro (Caricatura Miguel da Costa).jpg

  O Ribeirinho – Caricatura de Miguel da Costa

 Ora o Ribeirinho, lá pelos modos, tinha as suas aspirações a poeta e, como tal, deu-se ao luxo de publicar um livro intitulado Allegorias as célebres Alllegorias onde conseguiu, não sei porque artes diabólicas, armazenar quantos pontos de admiração havia neste e no outro mundo até essa data. E a academia, sempre disposta a fazer das suas, sabendo isto e sabendo mais e melhor que o Ribeirinho era homem de muitos haveres, mas avarento como poucos, ia buscá-lo a casa em engraçadíssimas marchas aux flambeaux, percorrendo as ruas da cidade com ele ao colo, fazendo-o recitar, de momento a momento, as melhores produções do seu livro que, diga-se a verdade, tanto valiam umas como outras.

O Ribeirinho.jpg

 O Ribeirinho

Mas ele, saracoteando- se todo, em pose de passar à posteridade, num gesto estudado e ridiculamente impagável, recitava, tornava a recitar, enfiado na sua capa sem mangas e nas suas calças de xadrez, entre a galhofa e o aplauso das turbas que ele generosamente julgava contentar atirando-lhes sempre à queima-roupa, com um – obrigado rapazes. Passado algum tempo o Ribeirinho, que nos últimos meses se dizia um desgraçado, morria deixando em testamento uma fortuna razoável em belos contos de réis!... Ai quem me dera ser um desgraçado assim!

 

Houve ainda outro, certo dia em Coimbra nunca lhe soube o nome, que mandou anunciar, em todos os jornais da terra, que vendia belos chouriços alentejanos e quis ver, no alto do anúncio, em caracteres de palmo e meio: – A LOJA D’UMA PORTA SÓ. Eis senão quando, logo ao outro dia de manhã, viu postar-se-lhe em frente da porta um grande, um numeroso grupo de estudantes exclamando admirados:

 – Olhem A LOJA D’UMA PORTA SÓ!

O homem, não sei porquê, prevendo qualquer cousa de extraordinário, não ficou lá muito bem-disposto com a cena e com aquele ar irónico que via nos rapazes, mas saiu detrás do balcão, avançou até á porta e perguntou, forçando um sorriso:

– Que hão de querer?

– É aqui A LOJA D’UMA PORTA SÓ?

– É sim senhor, porquê?

– Porque não tem senão uma porta!

E logo outro:

– Porque tem unicamente uma porta!

E outro:

– Porque tem uma porta apenas!

E ainda outro:

– Porque tem simplesmente uma porta!

E acrescentando todos ao mesmo tempo:

– Porque tem UMA PORTA SÓ!...

E o certo é que o homem afinou com a brincadeira, foi aos ares, deu ao diabo os estudantes e desatou num berreiro infernal despejando quantos insultos conhecia. – Mariolas! Vadios!...

 

Como umas coisas fazem lembrar as outras e as palavras são como as cerejas, segundo exclamava uma criada velha que eu tive, agora me recorda que lá ouvi contar, não sei a quem, que houve outrora um barbeiro, atrás da igreja de S. Bartolomeu, que, todos os dias, barafustava endiabrado só porque os estudantes, muito ingenuamente, iam perguntar-lhe como é que os sinos da igreja próxima tocavam a fogo, a batizado, ao Senhor fora e como davam as Trindades.

Mas, como estes, houve e há tantos ainda por aí fora!

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

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por Rodrigues Costa às 09:44

Terça-feira, 10.04.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 1

Iniciamos hoje uma série de 14 entradas - que iremos intercalar com outras sobre diferentes assunstos -  através das quais iremos recordar um artigo de Mário Monteiro, ilustrado na sua maioria com fotografias de José Gonçalves; foi publicado no início do século passado, na transição do século XIX para o XX, nesse magnifico fresco da realidade nacional que é a Illustração Portugueza.

Coimbra – uma cidade fechada sobre si mesma ainda que aberta ao contributo de estudantes vindos das mais variadas origens – sempre foi o palco de uma legião de variados tipos humanos. À boa maneira provinciana a tudo e a todos se dava um nome, ou uma alcunha.

Na minha adolescência o Mondego era o basófias, um troleicarro o pantufas, o vendedor de petróleo o petrolino, os carros da PSP os creme nívea, o “Diário de Coimbra” o calino, os habitantes de Alta os salatinas, o autocarro da AAC, sei lá porquê, a Laurinda. Estas entre tantas outras.

Quanto a alcunhas lembro-me de uma mulher da Alta que por ter sido dado como morta, passou uma noite na morgue e daí o ser conhecida pela Maria do Cu Fresco; o proprietário de uma casa de penhores onde o valor da peça não dependia só desta, mas da pancada que se dava e recebia do dono, dava pelo nome de Picalo; o dono de uma tasca situada no Largo da Matemática era o Zé Bruto; um determinado sapateiro dava pelo nome de Carne Assada; o Bentes, jogador da Briosa, era o rato Atómico; o franzino massagista da Académica era conhecido por Mão de Pilinha, em contraposição com o massagista do Benfica, de tamanho grande, conhecido por Mão de Pilão; o excelente fotógrafo da cidade e, sobretudo, da Académica, era o Formidável.

Listagem que por certo pode ser enriquecida com o contributo de todos os leitores.

 

O artigo que iremos transcrever tem o título Typos de Coimbra e está escrito na forma redonda e hiperbólica da época. Optou-se por atualizar a ortografia, a fim de facilitar a sua leitura e começa assim.

 Analisar a miséria das ruas, observar com olhos de ver todo esse constante e crapuloso bric-à-brac onde se atrofiam e se perdem caracteres, mas onde, as mais das vezes, se vão buscar modelos, belas cabeças de estudo vincadas profundamente, dolorosamente, pelos traços indicadores de uma vida agitada e miserável – é, em qualquer parte, um estudo arrojado, quase impossível, cheio de mil obstáculos, e sobretudo, fastidioso, mas, em Coimbra, chega a ser deveras original e interessante.

É que esta deliciosa terra, com a sua Universidade, lá no alto, a coroar-lhe os edifícios, a dar-lhe uns certos ares de sábia ... não sei por que estranho dom, podendo ser encarada sob muitos e variados aspetos, tantos quantos se queiram, – manancial eterno de prosadores e poetas – apresenta-nos uma vida das ruas característica, típica, absolutamente sua.

Tudo isto porque os garotos de Coimbra – e não há nada pior do que eles! – são exímios glorificadores dos grotescos que aparecem dia a dia e, sabendo procurar-lhes todos os pontos vulneráveis, são terríveis no ataque em que, por entre o desespero dos vencidos e o desenfrear das chufas e dichotes dos vencedores, não é raro aparecer uma alcunha que se pega, que se agarra por tal forma que nunca mais sai, criando, ipso facto, um novo tipo apontado e escarnecido em toda a parte.

Alcunha que se ponha em Coimbra é muito pior que cola-tudo, é como alma que caiu no inferno. E pega que nem santo António lhe vale!...

Ainda hoje certos comerciantes pela cidade, ventrudos e lustrosos, pintam para aí as mantas do diabo se lhes forem perguntar à porta dos seus estabelecimentos:

– Tem chá feito?

– Tem cordas para flauta?

–  A boneca já fala? 

Por isso convém aqui dizer que, ao enumerar alguns dos tipos mais curiosos de Coimbra, eu não pretendi ir procurá-los apenas á miséria das ruas, mas fui buscá-los também às suas casas de negócio, arrancá-los detrás do balcão para os trazer até aos umbrais da porta e mostrá-los à luz do dia, corno objetos raros e dignos de uma observação mais ou menos demorada e minuciosa.

E é assim que, sem mais delongas, dando o braço ao amigo Paixão, peço licença para o apresentar.

O Paixão. Imitado pelo dr. Bento Lima na récita

 O Paixão – Imitado pelo dr. Bento Lima, na récita do 5.º ano de 1898

 O Paixão – é um alfaiate que mora na rua de S. João, quase no centro da parte alta da cidade, essa espécie de quartier latin, que é o bairro académico por excelência. Pinta muito regularmente a pera, segundo se conta, e dá uma sorte levada da breca em se lhe dizendo:

Ó Paixão dá cá o diamante ...  aludindo não sei a que episódio dos seus tempos… de outro tempo.

Vicioso fumador de charuto, que traz sempre ao canto da boca, nessas horas de mau humor há quem veja mordê-lo raivosamente, cuspir repetidas vezes, como é seu costume, num grande ar cómico irresistível, e desandar depois numa catilinária pavorosa capaz de assustar todos os anjos e santos da corte do céu!...

Constou-me até, nem eu sei quando, que os estudantes de certa geração o puseram fora da porta-férrea depois de encerradas as aulas, porque ato a que ele fosse assistir era chumbo certo...

No entanto o amigo Paixão, com todos aqueles seus ares de caricato, não passa de uma bela criatura, de um pobre diabo incapaz de fazer mal a uma mosca.

Mas caiu na asneira de dar sorte e fez muito mal, lá isso fez! 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 10:16

Terça-feira, 20.03.18

Coimbra: Carnaval doutros tempos 1

O primeiro documento que conseguimos encontrar sobre os festejos do Carnaval em Coimbra é o anúncio que a seguir se reproduz:

Carnaval. Baile 02a.jpgCarnaval de 1894, anúncio de baile carnavalesco

 

Na sua edição de 21 de fevereiro de 1907, o jornal Resistencia, escrevia que (atualizamos a grafia), a sociedade Comba-Club [fundada numa data que escapa ao nosso conhecimento, mas composta essencialmente por comerciantes e industriais] tinha decidido meter ombros, com bem pouca probabilidade de sucesso nesta sonolenta Coimbra, à organização de festejos tendentes a “civilizar o carnaval”.

 De acordo com o articulista, provavelmente Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, o conhecido Quim Martins, “civilizar o carnaval é uma frase feita, mas má”, porque o carnaval não se civiliza, o carnaval fica o que foi ou desaparece.

Carnaval. Baile 01a.jpgCarnaval de 1907(?), anúncio de Baile de Mascaras

 

O carnaval não tinha sido sempre a festa licenciosa, suja, brutal e sem graça vivida na época medieval, mas no período renascentista evoluiu e apareceu, nessa altura, o cortejo e a mascarada espirituosa que encheram a rua de alegria decorativa e de um grande exibicionismo artístico.

Portugal não acompanhou a evolução acontecida nos outros países onde se passou de uma cerimónia seiscentista á graça amorosa, espirituosa e fina do século XVIII.

Contudo, o nosso amor aos jogos, danças e torneios a cavalo, veio dar ao entrudo nacional uma feição própria que ainda, no final do século XIX, fazia do carnaval uma ocasião de ostentação artística, materializada em jogos de destreza capazes de provocar o sorriso e de, por vezes, gerar uma alegria ruidosa face às surpresas das cavalhadas.

Do programa proposto pelo Comba-Club salientavam-se os bailes organizados na sua sede e na “Casa do sobrado” ou “Casa da pandega”, situada na periferia, bem como cavalhadas e récitas no Teatro-Circo. O cortejo carnavalesco constituía o ponto alto dos festejos.

Carnaval de 1907 02.JPG

 Carnaval de 1907, carro das Especialidades de Coimbra a passar na Praça do Comércio

Illustração Portugueza, 52, Lisboa, 1907.02.18, p. 200; Resistencia, 1181 e 1183, Coimbra. 1907.02.10 e 1907.02.21.

 

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 09:23

Quinta-feira, 08.03.18

Coimbra: Previsões falhadas de Alexandre Herculano

No século XIX, aquando das intervenções levadas a cabo sobretudo na zona das catedrais, destruíram-se as construções que as rodeavam, quebrando todo o diálogo com a malha urbana, a fim de abrir praças capazes de possibilitar a inclusão dos templos nas máquinas fotográficas dos turistas ou então para que, como refere causticamente Alexandre Herculano a vadiagem possa estirar-se regaladamente ao sol.

Nem a igreja de Santa Cruz escapou ao desejo, felizmente não concretizado, de ser destruída para dar lugar a uma praça; quem no-lo dá a saber é Alexandre Herculano.

Levaram-nos a Coimbra no ano de 1834 obrigações de serviço publico: aí residíamos quando foi suprimido o mosteiro de Santa Cruz. Correu então voz publica de que houvera quem se lembrasse de pedir que este belo edifício fosse entregue á municipalidade. Ninguém imaginará para que. Era para esta o mandar arrasar, e fazer uma praça. Não veio a lume este projeto nefando, mas não foi por mingua de bons desejos. Uma praça no lugar onde estivera Santa Cruz; uma praça calçada com os umbrais esculpidos do velho templo, com as lajes quebradas dos túmulos de D. Afonso Henriques, de D. Sancho 1.º, e de tantos varões ilustres que ali repousam!”.

Planta de Magne pormenor.jpg

 Planta de Magne pormenor

Mas se, no século XIX, a ideia chave passava pela construção de praças, no séc. XX transferiu-se para a instalação de shoppings e o camartelo da incúria e da ignorância passou a derrubar edifícios carismáticos para satisfazer interesses que, sob a capa de modernidade, não passam de puramente economicistas ou demagógicos.

O texto citado terminava de uma forma sarcástica.

Há, acaso, quem compreenda a sublimidade deste pensamento; quem avalie a infinita superioridade de um terreiro a um edifício-monumento, onde apenas há história, arte, poesia, religião? – Confessamos que tão desmesurada força de engenho não há em nosso acanhado espirito, que possamos conceber a majestade e a importância de um terreiro do século décimo nono, comparado com um edifício de seis séculos, que não tem a seu favor senão alguns primores de arte, e algumas recordações de história.

Pelos longes que tem tomado o vandalismo podemos sem receio assegurar que dentro de cinquenta anos não haverá em Portugal um monumento.

Felizmente a pessimista previsão de Herculano não se cumpriu.

No que respeita a Santa Cruz houve na realidade um pedido da Edilidade para a cedência de parte do Mosteiro, quando em 3 de Janeiro de 1835, a Camara delibera encarregar... O Vereador Fernandes de redigir [a necessária petição]… indicando-se-lhe para casa das sessões, arquivo etc. da Camara uma parte do edifício do Mosteiro de Santa Cruz, que forma um quadrilongo, e cuja frente lança para o terreiro de Sansão, e se estende do cunhal da Igreja, até ao da porta do carro do mesmo Mosteiro… compreendendo parte do Dormitório de S. Francisco; para casa de Audiência dos Jurados o Refeitório do mesmo Mosteiro; para passeio publico a parte recreativa da quinta; para quarteis de tropas os extintos Colégios de S. Bento, e da Graça; para cemitérios as cercas dos Jesuítas unida á do Colégio de S. Jerónimo; e alem da ponte a cerca de S. Francisco; e para matadouro de gados, o necessário terreno junto á fonte nova. 

Petição sobre a cedência de parte do Mosteiro S

 Petição sobre a cedência de parte do Mosteiro Santa Cruz

Petição que viria logo a ser aprovada na sessão seguinte e enviada às Cortes.

Mas isto é outra história à qual pretendo voltar se a tanto a saúde e o engenho me ajudarem.

 

O Panorama. N.º 70, de 01.09.1838, pg. 276; Vereações n.º 76, 1834-1836, fl. 24v-25;

 Títulos originais, f. 1-2v.

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por Rodrigues Costa às 09:33


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