Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 08.04.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 14

Da Estrada dos Jesuítas à Rua Abílio Roque

 Em junho de 1910, António Heitor, Chefe da Repartição das Obras Municipais e condutor, assinava um desenho com o loteamento da “rua n.º 2” da Sá da Bandeira e da que se desenvolvia pegada ao muro da Cerca dos Jesuítas; ou seja da via ascendente da Avenida e da Abílio Roque (atual Padre António Vieira).

Fig. 18. Loteamento Sá da Bandeira e Abílio Roqu

Fig. 18 – Loteamento Sá da Bandeira e Abílio Roque. [AHMC. Repartição de obras municipais. Pasta 18. B-14].

Penso poder afirmar que este desenho, para além de apontar os lotes ainda disponíveis, serviu para confirmar a delimitação de parcelamentos preexistentes, dado que, em data anterior à apresentação do plano, já ali haviam sido construídos edifícios.

Mas a edilidade não se queda por aí e pensa abrir, quiçá em data mais ou menos simultânea ao loteamento apresentado por Heitor para os dois arruamentos, uma via destinada a unir a Abílio Roque à Praça de República. Como este projeto não se encontra nem datado nem assinado aponto para uma data posterior a 1910 dado que o Largo D. Luís já se transmutara em Praça da República, o que aconteceu apenas depois da queda da monarquia.

Fig. 19. Projeto para ligação da Rua Abílio Roq

Fig. 19 – Projeto para ligação da Rua Abílio Roque com a Praça da Republica. [AHMC. Repartição de obras municipais. Posto de desinfestação e outros. Pasta 18. B-14].

 Esta rua, projetada e nunca concretizada, iniciar-se-ia no local onde a Abílio Roque confluía com a Rua de Entre Muros, estender-se-ia nas traseiras do espaço onde funcionou o “Ninho dos Pequenitos”, integrado na obra assistencial do dr. Bissaia Barreto, e desembocava no início da Oliveira Matos, justamente na esquina fronteira à casa que João Francisco dos Santos construíra, nos finais do século XIX, na Praça da República.

Nas traseiras do espaço onde funcionou o Ninho do

Nas traseiras do espaço onde funcionou o “Ninho dos Pequenitos”.

O novo bairro e toda a zona envolvente ia-se pontuando com edifícios e a 29 de outubro de 1914, Joaquim Fernandes dos Santos submete à aprovação camarária um novo projeto (o primeiro fora rejeitado com base na simplicidade das fachadas), a fim de construir quatro casas nos lotes que havia comprado ao cimo da Abílio Roque. Curiosamente, o desenho apresentado mostra seis fachadas e não quatro. Esses edifícios foram construídos e até ao terceiro quartel do século XX mantiveram-se, tendo sido, mais ou menos nessa época, paulatinamente substituídos por prédios mais modernos e funcionais.

Outro tanto não aconteceu com a moradia que se ergue quase no início da rua, logo a seguir à curva e que ainda se mantém de pé. É verdade que a sua construção foi muito mais tardia, pois a 03 de junho de 1940 Albino Pereira da Costa fez dar entrada na devida repartição da edilidade o pedido de autorização para a construção de um edifício que ocuparia os lotes n.os 6 e 7 da referida artéria; esses lotes haviam sido comprados a Joaquim da Costa Neto que os adquirira em 1928.

Fig. 20. Moradia de Albino Pereira da Costa. [Foto

Fig. 20 – Moradia de Albino Pereira da Costa. [Foto RA].

 O requerimento, devidamente instruído, integrava o projeto do imóvel, a inserir-se, como se compreende numa outra linguagem arquitetónica e assinado pelo arquiteto Edmundo Tavares (1892-1983).

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 15:08

Quinta-feira, 01.04.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 13

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

Tal como aconteceu com o Teatro-Circo, adiante referido, e como vai suceder com outros imóveis considerados de interesse para a cidade, o terreno para a Associação Comercial e Industrial de Coimbra também foi cedido pela edilidade mediante a concessão de uma redução no preço, embora com a condição de ali ser instalada uma escola prática destinada a permitir aos jovens a aprendizagem das técnicas essenciais à vida económica.

Edificio da Associação Comercial.jpg

Edifício da Associação Commercial

Assina o projeto Manuel Gonçalves de Campos que, sob o seu nome apõe um “A.” passível de o identificar como arquiteto. Até ao momento não consegui obter qualquer informação relacionada com o alarife em causa.

Francisco António dos Santos, Filho lavrou as cantarias; ele próprio o confessou a Abreu d’Aguiar Oteda, quando este o entrevistou para a crónica “A arte e os artistas de Coimbra”, por altura da sua nomeação como professor interino da Escola Brotero, em substituição de João Machado, artista com quem, pese embora o teor da conversa, rivalizava.

Abreu d’Aguiar Oteda manteve em “O Despertar”, durante bastante tempo, esta crónica e nela publicava as entrevistas que ia fazendo aos mais diversos artistas da cidade.

Associação Comercial e Industrial de Coimbra. Po

Associação Comercial e Industrial de Coimbra, pormenor. Foto RA

No mesmo ano em que foi solicitada à edilidade a aprovação do desenho destinado à sede da ACIC, Francisco Barreto Chichorro apresentava também, a fim de lhe ser concedida a licença e o alinhamento, o projeto da casa que pretendia construir na Sá da Bandeira; assinava-o Bernardino José, construtor de Obras Públicas, de quem não encontrei, ao longo da investigação, mais nenhuma referência.

O então presidente da Câmara, Marnoco e Sousa, deferiu o requerimento a 22 de julho de 1909. Do edifício, uma moradia geminada, salientam-se apenas as sucessivas aberturas neobarrocas da platibanda e os dois, acrescentados ao desenho inicial, pseudofrontões destinados, possivelmente, enriquecer a fachada.

Casa de Francisco Barreto Chichorro Foto [RA].jpg

Casa de Francisco Barreto Chichorro. Foto RA.

Casa de Francisco Barreto Chichorro. Pormenor [Fot

Casa de Francisco Barreto Chichorro, pormenor. Foto RA

Do mesmo lado, no local onde mais tarde foi edificada uma garagem que atualmente virou banco, isto é, entre a casa de Francisco Chichorro,

Garagem que atualmente virou banco. Foto RA.jpg

Garagem que atualmente virou banco. Foto RA.

e o atual (2016) edifício sede da Polícia Municipal,

Edificio da Polícia Municipal. Foto RA.jpg

Edifício sede da Polícia Municipal. Foto RA.

 onde funcionou, durante largos anos, o quartel dos bombeiros municipais, construiu-se um picadeiro, que teve vida efémera.

Em 1908 já fora aprovado pela autarquia o projeto do imóvel do picadeiro, a construir em terrenos que haviam sido cedidos em condições idênticas aos do Teatro-Circo, visto ambos se destinarem a melhoramentos públicos. O risco foi elaborado pelo “habil constructor civil” João Gaspar Marques Neves e “o professor do picadeiro será o sr. D. João de Mello, professor da Escola Nacional d’Agricultura, muito habil e muito competente”.

O Noticias de Coimbra ainda acrescentava que “tendo fallado em melhoramento com que esta cidade vae ser dotada, resta-nos dizer que elle se deve aos srs. Francisco e Miguel Barreto Chichorro, que bem podem ser considerados dois benemeritos, porque, se não fossem elles, Coimbra não teria tão depressa uma escola de cavalaria”, onde também se ensina, para além da equitação, “ginástica, jogos de armas, etc. para a educação física mais completa”.

O referido estabelecimento “encontra-se em magníficas condições e veio preencher uma lacuna que há muito se fazia sentir na cidade”, mas pouco tempo volvido após ter iniciado a sua atividade, por motivo de doença ou afazeres, os proprietários anunciam que arrendam ou vendem o picadeiro.

A partir desta data ignoro o que se terá passado, mas, nem mesmo os mais idosos, retém na memória e existência, em Coimbra, desta escola de equitação.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 18:35

Quinta-feira, 25.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 12

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

A Avenida Sá da Bandeira, verdadeiro boulevard conimbricense, mostra, na sua conceção, aspetos haussmannianos: ruas largas a ladearem uma zona ajardinada que dão acesso a uma praça de onde partem, em diversas direções, vias de comunicação.

Avenida Sá da Bandeira. c. 1920.jpg

Av. Sá da Bandeira, c. 1920

No entanto, é bem provável que na base da sua abertura não se encontrassem presentes teorias urbanísticas eruditas e academizantes, mas sim o conhecimento das necessidades reais do alargamento urbano da cidade dentro de um contexto pragmático passível de se adaptar às caraterísticas do espaço disponível.

A Sá da Bandeira, que vale pelo conjunto, ainda hoje apresenta, embora vilmente mutilada, marcas de uma mentalidade e de um espírito bem característicos da época em que foi traçada. Trata-se de uma zona que deve ser preservada pela autarquia e pelos conimbricenses. Integra a memória coletiva da cidade e a urbe, como qualquer um de nós, não pode sobreviver sem raízes.

Como já mencionei, para a nova zona urbana foram pensados alguns edifícios que jamais ultrapassaram a fase de projeto; entre estes pode referir-se o que se destinava a sede da Associação dos Artistas de Coimbra.

Olímpio Nicolau Rui Fernandes.jpg

Olímpio Nicolau Rui Fernandes

A coletividade, criada em 1862, teve como fundador e principal dinamizador Olímpio Nicolau Rui Fernandes, homem que, nascido em Lisboa, se radicara em Coimbra, onde exerceu o cargo de Administrador da Imprensa da Universidade.

Entre 1862 e 1866, data em que passou a ocupar o refeitório dos frades crúzios, a Associação terá utilizado, a fim de aí poder ministrar as aulas, um outro qualquer espaço.

Já depois da morte do fundador, no final da centúria, mais concretamente em 1895, a direção encarregou “o hábil e acreditado conductor de obras públicas, o sr. Eduardo Augusto de Parada e Silva Leitão” de elaborar o projeto da sua nunca construída sede que, de acordo com as informações insertas nos periódicos locais, se exteriormente se inseria no gosto neorromânico, no interior utilizava o neogótico.

Mas se a sede da Associação dos Artistas de Coimbra ficou no papel, outro tanto se não pode dizer da Associação Comercial e Industrial de Coimbra que então girava sob o nome de Associação Comercial de Coimbra. O vice-presidente da direção, José Martins dos Santos, requere à edilidade, a 07 de setembro de 1909, autorização para “construir uma casa para a sua sede” no “talhão n.º 3” da Avenida Sá da Bandeira.

O edifício, construído durante a presidência de João de Moura Marques, foi inaugurado a 01 de janeiro de 1912, com pompa e circunstância, a deixar claramente sentir o republicanismo exacerbado dos promotores e, provavelmente também, alguma ideologia maçónica. A notícia da inauguração do edifício, inserta na Gazeta de Coimbra (n.º 54, 1912.01.03), comprova amplamente este posicionamento.

A fachada do imóvel insere-se dentro do gosto Arte Nova e, porque utiliza linhas bastante duras e carregadas, falta-lhe a leveza e a graciosidade que caracterizam o estilo. De qualquer forma, trata-se de uma aproximação à moderna estética europeia. Do interior, tem de se destacar o grande “salão que deve comportar mais de 500 pessoas [e que] fica sendo um dos maiores e mais bonitos desta cidade”.

Fig. 17. Associação Comercial e Industrial de Co

Fig. 17 – Associação Comercial e Industrial de Coimbra. [Foto RA].

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:12

Quinta-feira, 18.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 11

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

 No lado oposto da então Rua Sá da Bandeira, junto à antiga Fonte Nova, ainda hoje se pode observar um prédio para rendimento mandado construir, depois de 1915, por duas senhoras que, julgo, seriam irmãs: Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Conceição Almeida.

Casa de Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Con

Casa de Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Conceição Almeida. Foto RA.

Casa de Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Con

Casa de Idalina Preciosa de Almeida e Adelaide Conceição Almeida, pormenor. Foto RA.

O projeto foi riscado pelo construtor civil diplomado, inscrito nas Obras Públicas de Coimbra, João Gaspar Marques das Neves. O autor, como os terrenos naquela zona eram bastante húmidos e uma vez que a fachada posterior deitava para sul, “procurou captar a concentração do calôr pelo recinto que se acha entre os refeitorios, tendo dado a devida luz e ar a todos os compartimentos”, preocupações bem de acordo com os preceitos higienistas da época.

O prédio em questão não apresenta, estruturalmente, qualquer laivo de modernidade. A sua especificidade advém-lhe da decoração utilizada, quer nos azulejos, quer no trabalho de cantaria ou até mesmo no das grades.

Continuando a pôr de lado a cronologia, olhemos para o edifício que, um pouco mais acima do anteriormente referido, em 1913, António Mizarela e Augusto Lopes fizeram construir na nova artéria citadina. O imóvel que, ao nível da fachada, mostra aquilo a que, quiçá impropriamente, se pode apelidar de laivos de Arte Nova, ostenta oito painéis cerâmicos destinados a ornamentar lateralmente os pés-direitos das janelas principais saídos das mãos do pintor-azulejista Miguel Costa.

Casa decorada com azulejos da autoria de Miguel Co

Casa decorada com azulejos da autoria de Miguel Costa. Foto RA.

O ceramista utiliza nos azulejos que pintou um colorido intenso e brilhante, as paisagens campestres e fluviais surgem envoltas por malmequeres, papoilas, rosas e amores-perfeitos; num desses quadros, de entre as papoilas, sobressai a ‘barca serrana’, velha de séculos, que durante tantos anos prestou relevantes serviços não só à população ribeirinha do Mondego, como também àquela que residia no interior da Zona Centro.

 

Fig. 16. Casa decorada com azulejos da autoria de

Fig. 16 – Casa decorada com azulejos da autoria de Miguel Costa. Pormenor de uma janela. Foto RA.

Mas o transeunte apressado mal se dá conta, se é que se dá mesmo conta, da beleza desses azulejos, embora sejam eles, conjuntamente com outros pequenos-grandes nadas que, no fundo, conferem caráter a uma cidade.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em: https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:39

Quinta-feira, 11.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 10

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

 Um pouco mais acima ergue-se a Escola de Santa Cruz.

Em 1904, quando o arquiteto Adães Bermudes veio propositadamente à cidade, a fim de estudar a possibilidade de alargar a escola de S. Bartolomeu e de ver o local onde, na então Rua Sá da Bandeira, se devia edificar a nova escola primária, não era a primeira vez que se pensava em fazer erguer, naquela área, um complexo escolar, pois a Câmara Municipal, na sessão de 25 de abril de 1889, dera o seu aval à planta do “grandioso edifício” que se projetava construir no novo Bairro de Santa Cruz para esse fim, embora pensasse em o levantar num largo que já estava terraplenado em frente ao jogo da bola, virado para os Arcos de S. Sebastião, ou seja, num dos lados da atual Praça da República.

O local apontado para edificar a chamada Escola de Santa Cruz, ao tempo da estada de Bermudes em Coimbra, situava-se na esquina da Sá da Bandeira com a Rua da Manutenção Militar; mas, para isso, tornava-se necessário, demolir “a casa esqueleto para exercicio dos bombeiros municipaes, e onde se encontra a estação principal do material de incendios”, estruturas construídas, como referi, havia muito pouco tempo. Além disso, tratava-se de um terreno que se localizava na freguesia da Sé Nova e se destinava a ali ser levantada a escola da freguesia de Santa Cruz. Ingredientes mais que suficientes para não tornar o assunto pacífico.

 

Adães Bermudes.jpg

Adães Bermudes

 O arquiteto Arnaldo Redondo Adães Bermudes (Porto, 1864.10.01-Sintra, 1948.02.18) é que se encarregou de elaborar, tanto o projeto da escola Central (escola de Santa Cruz), como o da ampliação da de S. Bartolomeu e acompanhou de perto os trabalhos, não só porque era inspetor das construções escolares, mas também porque havia sido galardoado com uma medalha de ouro na parisina Exposição Universal de 1900, onde expusera “umas magníficas plantas para escolas da instrução primária de ambos os sexos, conjunta ou isoladamente”; o alarife, de acordo com o que consta no seu processo [AHMOP], é responsável pelos projetos de cento e oitenta edifícios de escolas primárias construídas por todo o país.

Escola de Santa Cruz.jpg

Escola de Santa Cruz, 1922 c.

 … O edifício insere-se, apenas na zona central da fachada, dentro de um estilo neorromânico, fugindo aos posteriores massificados projetos de escolas riscados pelo arquiteto e que enxameiam o país. As arquivoltas que rodeiam o tímpano hemicircular, onde se inscreve um relógio aposto sobre vistosos azulejos decorativos atribuíveis, por comparação, ao ceramista conimbricense Miguel Costa, são interrompidas pelo escudo real rematado pela coroa que, talvez pela altura a que se encontra, escapou intacta aos ventos da implantação da República.

A colocação de relógios nas estações de caminho-de-ferro, nos grandes armazéns, nas fábricas, nas escolas e em espaços semelhantes tornou-se, no século XIX e nos inícios do seguinte, tão carismática como a utilização do ferro; eram eles que mantinham a disciplina, propagando a religião da hora exata e contrapunham um tempo tradicional, celeste e solar a um tempo pagão e tecnológico.

Fig. 15. Escola de Santa Cruz. [Foto RA].jpg

Fig. 15 – Escola de Santa Cruz. [Foto RA].

Escola de Santa Cruz. Pormenor. [Foto RA].jpg Escola de Santa Cruz, pormenor. Foto RA

 Em dezembro de 1907 o edifício já se encontrava terminado há cerca de um mês e sendo “o primeiro do paiz no seu genero, veio rematar lindamente as amplas ruas de Sá da Bandeira e Manutenção Militar, dando belleza e realce ao local onde se acha construido” e “ao empreiteiro sr. Manoel Alexandre Sellada, cabem louvores, por isso que, apesar de ter luctado com falta de recursos pecuniarios pela demora dos pagamentos, nos apresenta esse bello edificio com execução fiel da planta feita pelo distincto architecto sr. Adães Bermudes”. A Escola Central Primária de Santa Cruz recebeu os primeiros alunos em 1908.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:11

Quinta-feira, 04.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 9

O novo Bairro de Santa Cruz

 Os proprietários que haviam adquirido lotes na recém programada urbanização, com mais ou menos celeridade e dentro dos parâmetros estabelecidos pela Câmara, começavam a construir as suas casas de habitação ou de rendimento. Para se erguerem ao longo das novas artérias projetaram-se também edifícios de utilidade pública que, algumas vezes, não saíram do papel.

Convém esclarecer que não vou deixar de aludir a esses não construídos imóveis sempre que esteja na posse de elementos passíveis de os referir minimamente.

E se entra neste lote dos não concretizados a sede da Associação dos Artistas de Coimbra, outro tanto se não pode dizer da estação do corpo de bombeiros municipais, com projeto de Hans Dickel, aprovado em março de 1891.

 

Estação do corpo de bombeiros municipais.jpgEstação do corpo de bombeiros municipais. Foto RA

 Ao falar dos edifícios construídos, ou não, na urbanização da Quinta de Santa Cruz coloquei de lado a cronologia, a fim de seguir como que uma caminhada virtual, iniciada no entorno da Fonte Nova.

Inicio o percurso olhando para o edifício da sucursal da Manutenção Militar que começou a ser construído em 1899, no local em que outrora existiu a casa do palheiro do mosteiro de Santa Cruz, ocupado pelo município depois da desamortização e transformado em matadouro. Será de referir, contudo, que a atual estrutura resultou do aumento da primeira edificação.

Manutenção militar 02.jpg

Manutenção Militar

 Parece que estes e outros edifícios já erguidos na nova artéria não agradavam ao diretor do jornal Resistencia, o conhecido Quim Martins, pois quando Raul Lino, em 1902 se deslocou a Coimbra, o então “jornalista” acompanhou-o num pequeno passeio pelo Bairro de Santa Cruz e narra assim essa digressão: “Encaixados num caleche, sob um sol abrazador, aí pela 1 hora, passámos pela Avenida e mostrámos-lhe, primeiro que as nossas bellezas architectónicas, aquella galeria de monstrosinhos, que os honestos, mas pouco artistas, mestres de obras, cá da terra, e mais alguns têem ido poisando por êsse Bairro de Santa Cruz fóra.

“Apresentámos-lhe aquelle mostrengo da Padaria militar, sellado na frontaria, com todas as coisas” e “fizemo-lo admirar aquelle caprichosinho ingénuo e ridiculo, de uma casolita de boneca, feita de tijolo, e encarrapitada na chaminé da mesma padaria”.

O articulista mostra-se muito crítico em relação às construções levadas a efeito no novo bairro e escreve que, aos poucos, foi apontando a Raul Lino “aquellas frontarias chatas, em rectangulo, com jánellas em rectangulo, e portas em rectangulo, monótonas variações sobre o mesmo thema, – o rectángulo, ou então construcções estylo cartão de visita”.

Continuando o nosso peregrinar deparamo-nos com a Câmara, em 1905, a planear construir o edifício destinado à Inspeção de Incêndios. A planta, assinada a 30 de agosto de 1905 por António Heitor que era condutor de Obras Públicas e, penso, chefe do respetivo departamento camarário, conheceu deferimento a 01 de outubro e foi aprovado pelo Secretário de Estado dos Negócios do Reino a 22 do mês seguinte. Devia erguer-se logo acima do pavilhão do peixe, pegado à Rua do Colégio Novo e nas proximidades da Fonte Nova. O desenho do conjunto e o alçado do edifício, acompanhado do correspondente processo, encontra-se no AMC e permite determinar com exatidão o local onde se devia erguer. Trata-se de mais uma estrutura que não saiu do papel ou melhor, no caso vertente, da tela imperial.

Fig. 14. Inspecção de incêndios. [AHMC. Reparti

Fig. 14 – Inspecção de incêndios. [AHMC. Repartição de obras municipais. Pasta 24. B-14].

 Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 17:48

Quinta-feira, 25.02.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 8

Avenida Sá da Bandeira (continuação)

Apesar do loteamento da quinta [de Santa Cruz] se ir fazendo e de serem vendidos muitos assentos de casas, a verdade é que a urbanização se processava lentamente; a imprensa assacava a culpa às vereações municipais, acusando-as de “terem votado o empreendimento ao abandono”.

Fig. 12. Projeto para a construção da Avenida de

Fig. 12. Projeto para a construção da Avenida de Santa Cruz (Sá da Bandeira) 1906. [AHMC. Diversos. Maço 3, documento 2].

Por seu turno, em torno da praça, também se iam levantando moradias mais ou menos sumptuosas e, certamente, relacionadas com o poder económico dos proprietários; cerca de 1897, João de Moura Coutinho de Almeida d’Eça e João Francisco dos Santos fazem construir as suas casas, com esquinas voltadas, respetivamente, para as Ruas Alexandre Herculano e Oliveira Matos e, em 1906, Alberto Carlos de Moura apresenta à Câmara o projeto e pede autorização para erguer um edifício de habitação na zona fronteira, um pouco antes do início da Lourenço de Almeida Azevedo.

A verdade é que se os dois primeiros, embora sem se inserirem nos modernos cânones arquitetónicos europeus e até lisboetas, acompanham a tendência citadina a que mais à frente nos reportaremos, o terceiro utiliza linhas de extrema simplicidade, a poderem considerar-se mais do que arcaizantes.

Edificio da Praça de República. Foto RA.jpg

Edifício na Praça da República. Foto RA

Edificio da Praça de República, pormenor. Foto R

Edifício na Praça da República, pormenor. Foto RA

Em dezembro de 1890 o engenheiro João Teófilo da Costa Góis, que já havia sido incumbido de continuar os estudos dos terrenos da quinta de Santa Cruz, tendo em vista a prossecução da venda de mais lotes, apresenta, na sessão da Câmara do dia 18, a planta de um novo arruamento que “parte de um dos ângulos da Praça D. Luís I e vai sair na estrada de Celas junto à quinta do sr. Francisco Maria de Quadros”. Trata-se da Lourenço de Almeida Azevedo que começou a ser aberta em maio de 1891 e pavimentada em 1904. A obra de calcetamento e de construção dos passeios da via foi adjudicada a Joaquim dos Santos Machado, da Abrunheira, pela quantia de 1.440$000 réis.

Fig. 13. Largo D. Luís (Praça da República) e R

Fig. 13 – Largo D. Luís (Praça da República) e Rua Lourenço de Almeida Azevedo. [Bilhete Postal].

Anteriormente, em 1889, já havia sido lançada a ‘subideira’ que ligava a zona de confluência das Ruas Oliveira Matos e Castro Matoso à ladeira do Castelo: são as mais tarde chamadas ‘Escadinhas do Liceu’, posteriormente aniquiladas pelas estadonovenses Escadas Monumentais.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:00

Quinta-feira, 18.02.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 7

Avenida Sá da Bandeira (continuação)

Adquirida a velha cerca, apesar da premência de a urbanizar, a decisão foi sendo sucessivamente protelada, mas o engenheiro Adolfo Ferreira Loureiro acabou por ser encarregado de elaborar, sob a direção do presidente, um plano de benfeitorias (ou seja, de urbanização) da quinta; apresentou-o a 23 de julho de 1885.

Adolfo Ferreira Loureiro.jpgAdolfo Ferreira Loureiro.

 Na criteriosa opinião do diretor de O Conimbricense, Adolfo Loureiro, o “muito hábil e intelligente director das obras do Mondego” era a pessoa indicada “e decerto não haveria ninguém mais competente para satisfazer este encargo”.

Adolpho Ferreira de Loureiro embora recordado na cidade que, em 1836, o vira nascer pela toponímia, pois existe uma rua com o seu nome, pode considerar-se um quase desconhecido e isso apesar do trabalho vultuoso que desenvolveu ao longo da sua vida profissional, dos diversos e importantes cargos que ocupou e das honrarias que lhe foram concedidas.

… O projeto que Ferreira Loureiro elaborou para o alargamento do espaço urbano conimbricense ainda hoje, no contexto citadino, se mostra estruturante.

Fig. 11. Um dos projetos de urbanização do BairrFig. 11 – Um dos projetos de urbanização do Bairro de Santa Cruz. 1889. [AHMC. Repartição de obras municipais. Pasta 43. B-14].

Lourenço Almeida Azevedo ocupou a cadeira municipal durante quase doze anos, mas os seus mandatos, lúcidos e virados para o futuro, foram marcados por acesas polémicas; da proposta apresentada por Ferreira Loureiro ressalta a experiência do pragmático engenheiro, a par com os conhecimentos profundos das necessidades citadinas advindas da clarividência presidencial.

O facto de o nome de Adolfo Ferreira Loureiro não aparecer relacionado com o projeto da abertura da nova avenida a rasgar-se na quinta dos crúzios e do bairro adjacente talvez se fique a dever à morosidade da execução e ao facto de o engenheiro ter deixado Coimbra antes da sua concretização.

Na realidade, o projeto, só tardiamente se cumpriu, até porque a Sá da Bandeira, antes de virar avenida foi pensada como Rua, mas teve sempre por base o plano de Ferreira Loureiro, que “traçou a partir do mercado uma grande avenida de 50 metros de largo que termina à entrada do jogo de bola da quinta por uma grande praça. Da praça partem simetricamente duas avenidas para Celas e para Sant’Ana e outras duas em direcção aos arcos de S. Sebastião”.

Em 1889 inicia-se o loteamento do Vale da Ribela e em junho desse ano são postos em praça diversos espaços destinados à construção de moradias. Os proprietários que então adquirissem os terrenos obrigavam-se a cumprir determinadas obrigações e a iniciar a obra no espaço de um ano; estas regras, que se encontram explicitadas tanto nas atas camarárias, como nos periódicos da época, evidenciam a preocupação da edilidade pelo planeamento urbanístico e pelo arranjo da nova zona citadina.

Os trabalhos desenvolvem-se a bom ritmo e no mês de dezembro desse ano, antes do Natal, em comemoração do batizado do infante D. Manuel (futuro D. Manuel II), inauguram-se os arruamentos de Sá da Bandeira, de Alexandre Herculano, da Escola Industrial (Oliveira Matos), de Castro Matoso, de Tomar e de Almeida Garrett.

 

Rua de Tomar 01.jpgRua de Tomar

Rua Almeida Garrett.jpgRua Almeida Garrett

A cerimónia revestiu-se de solenidade: para além da presença das mais altas individualidades citadinas, tocou a banda do Regimento 23 e subiram ao ar numerosos foguetes. “À noite foram pela primeira vez acesos os candeeiros de gaz na Praça D. Luiz I [Praça da República], nas ruas Marquês de Sá da Bandeira e Alexandre Herculano”.

 Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:18

Quinta-feira, 04.02.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 5

Dos mercados ao Mercado D. Pedro V

 Em Coimbra, os mercados e as feiras foram regulamentados, ao longo dos tempos, por cartas régias, mas os locais onde se processava a troca de produtos permaneceu inalterável até à segunda metade do século XIX.

Durante o período medieval e até a Oitocentos, a permuta de bens estendeu-se, na cidade, por vários locais. Um deles, o Forum Régio, situava-se entre a Torre da Rolaçom e a Sé, ou seja, mais ou menos na zona do atual Quebra-Costas e organizava-se em dois espaços: o “das tendas de baixo” (mais próximo do início do Quebra-Costas) e o “das tendas de cima” (mais chegado à Sé). Um outro local de troca de produtos ocupava, lá no cimo da colina, o terreiro do Paço Real. A partir de 1537, no Largo da Feira, frente à Sé Nova, após a transferência da Universidade para Coimbra, começou a realizar-se, às terças-feiras, um mercado semanal destinado, essencialmente, à comunidade estudantil.

Largo da Feira dos Estudantes. [Passado ao Espelho

Largo da Feira dos Estudantes. [Passado ao Espelho, p. 58]

Contudo a Praça de S. Bartolomeu (também conhecida por Praça do Comércio ou Praça Velha) pode considerar-se o local onde tradicionalmente acontecia o principal mercado, mas com o andar dos anos e com o aumento da população o espaço vai-se tornando cada vez mais exíguo e alguns produtos, sobretudo aves e grãos, passaram a ser comercializados em frente à igreja de Santa Cruz, no Terreiro de Sansão.

Fig. 07. Praça do Comércio. [AHMC. Repartição

Fig. 07 – Praça do Comércio. [AHMC. Repartição de obras municipais. Luiz Antonio Nogueira. 1878. Pasta 49. B-14].

Os espaços atrás referidos, mesmo se se tiver em conta as contínuas disposições camarárias que especificavam o local exato da venda de cada produto, nem sempre eram acatadas de bom grado pelos vendedores (vendedoras em maior número) que se iam amontoando a esmo, de modo um tanto ou quanto caótico.

A ideia de reunir todas as transações num único local, começa a ganhar consistência e a necessidade de construir um mercado assume-se consensual. A partir de 1852 assiste-se à tentativa de concentrar, não sem oposição, os vários pontos de venda na horta do extinto mosteiro de Santa Cruz. Contudo, as opiniões dividiam-se quanto à localização do mercado e se uns apontavam para aquele local, outros inclinavam-se para a zona da Sota, na velha ‘baixa’ coimbrã.

Neste contexto, a 09 junho de 1858, Hardy Hislop, de nacionalidade inglesa, apresenta à Câmara um projeto para a construção de um mercado público cujos custos, na Sota, rondavam pelos 100 contos de réis e na Horta crúzia pelos 70.000$000 réis.

A escolha da zona onde o mercado se devia instalar, sob forte contestação, acabou por recair na horta de Santa Cruz, até porque esta, em virtude de ser propriedade da edilidade, tornava o cometimento mais acessível, contrariamente ao que aconteceria na Sota, onde, devido às cheias do Mondego, era necessário altear o local e proceder a expropriações.

Mas a debilidade das finanças municipais não consentiu a viabilização do empreendimento; por isso, mais tarde, a Câmara e o Conselho Municipal aprovaram, a 12 de março de 1866, um empréstimo de 13.000$000 réis tendente a fazer face à concretização da nova estrutura que teve por base o mais do que modesto projeto elaborado pelo engenheiro Everard, um provável técnico ferroviário britânico.

Fig. 08. Mercado D. Pedro V em 1907. [Passado ao E

Fig. 08 – Mercado D. Pedro V em 1907. [Passado ao Espelho, p. 66].

A vereação, depois de “fazer festejos e convites”, decidiu marcar para o dia 17 de novembro de 1867 a inauguração do novo mercado, batizado com o nome de D. Pedro V; o imóvel foi-se tornando obsoleto e O Despertar, na sua edição de 17 de novembro de 1917, escrevia: “Também faz hoje 50 anos (já meio século!) que foi inaugurado o mercado D. Pedro V. Está a pedir museu das raridades”.

Radicara-se na cidade, entretanto, o arquiteto Augusto de Carvalho da Silva Pinto e a Câmara, em 1902, encarrega-o de riscar, a fim de “completar” o mercado existente, o projeto de um pavilhão destinado à venda de peixe.

Após serem ultrapassadas algumas barreiras, o edifício foi inaugurado em 08 de março de 1908. Esta estrutura que assentava prioritariamente no ferro e no vidro, se se pensar no contexto português e, sobretudo, no conimbricense, desenvolveu-se no âmbito de uma linguagem eivada de modernidade, embora, cronologicamente, face à Europa e à América, se apresentasse como tardia. Mas de nada lhe valeu inserir-se nas “modernas” tecnologias arquitetónicas, porque não deixou de ser depreciativamente apelidada de “aquário” por um dos jornais citadinos, quando, em 1921, o arquiteto emitiu uma opinião desfavorável acerca da transformação da igreja de S. João em “Café de Santa Cruz”.

Fig. 09. Projeto para um mercado municipal. Arquit

Fig. 09 – Projeto para um mercado municipal. Arquiteto Silva Pinto. 1908. [AHMC. Repartição de obras municipais. Pasta 36. B-50].

Contudo, a edilidade, cônscia que estava da necessidade de dotar a cidade com um mercado condigno, encarregou o mesmo arquiteto, cerca de 1908, de riscar esse imóvel, que, apesar de aprovado, jamais saiu do papel (neste caso, do marion) e foi pena, pois, a ser edificado “constituiria hoje, sem dúvida, um dos mais curiosos exemplares da chamada arquitectura do ferro, tão representativa de uma época”.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:25

Quinta-feira, 28.01.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 4

O complexo crúzio no contexto citadino (continuação)

 

As repartições públicas ali acomodadas deviam manter-se e a edilidade poderia gerir aqueles espaços como lhe aprouvesse.

Complexo crúzio.jpg

Complexo crúzio

 Contudo, o referido documento impunha à Câmara a obrigatoriedade de abrir duas vias de comunicação com o Bairro Alto, uma que conduzisse ao caminho da Fonte Nova e outra ao de Montarroio. Coloco a hipótese, fundamentada numa outra documentação não muito explícita, de este último caminho vir a ligar a Rua de Montarroio com a zona de Celas, desenvolvendo-se na periferia poente-sul da cerca (ou quinta, se se preferir) crúzia.

A autarquia ficou na posse de um vasto espólio que lhe permitia ceder assento a todas as instituições que se julgassem com direito a essa benesse, mas viu-se confrontada com a necessidade de manter e conservar edifícios antigos e degradados que tinham passado a integrar o seu património.

Nas estruturas foram-se acomodando ou confirmaram a sua instalação diversos serviços públicos: cadeia, esquadra da polícia, roda dos expostos, hospício dos abandonados, creche, maternidade, Instituto Industrial e Comercial de Coimbra,

A edilidade, depois de haver alojado os serviços administrativos e de utilidade pública, ainda alugou espaços monacais para tudo quanto se possa imaginar: bairro de gente modesta, celeiro, matadouro e até cedeu a ‘Porta Fidalga’ para nela se abrir um talho.

A construção de uma praça de touros no terreiro fronteiro ao local onde esteve instalada a esquadra da polícia, dependência então conhecida pelo nome de “Casa Vermelha”, “Casa dos Meninos de Palhavã” ou “Casa dos Moços Fidalgos”, não se concretizou e parte do edifício, após a transferência dos presos da cadeia situada no Largo da Portagem, passou a funcionar como prisão da cidade.

Dando cumprimento às exigências estatais constantes da carta de lei de 30 de julho de 1839 que impunha à Câmara a obrigatoriedade de abrir duas ruas que comunicassem com a zona alta, em 1860, quando D. Pedro V visitou a cidade, a rua que ligava a Praça de Sansão à Fonte Nova, a Olímpio Nicolau Rui Fernandes, já havia sido aberta, rompendo a unidade do conjunto outrora pertencente aos frades agostinhos.

A Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, já havia si

A Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, já havia sido aberta.

Trata-se da primeira intervenção estrutural levada a cabo no complexo crúzio, dividindo-o em dois lotes completamente autónomos.

Alterações estruturais do complexo crúzio.jpg

Alterações estruturais do Complexo Crúzio

 A fim de satisfazer a segunda exigência, em 1890 a edilidade resolveu que se estudasse “a rua que há-de comunicar desde a cidade baixa com Celas” e encarregou o projeto a Estêvão Parada, condutor de Obras Públicas. Comentando este empreendimento, um jornal local referia: “vamos ver se serão atendidos os interesses públicos ou se lhes prefere os interesses particulares”.

Por quantas vicissitudes passou o septacentenário complexo fradesco!

Não pode deixar de se acentuar que a edilidade, ao modificar, arrasar, substituir, alterar as estruturas monacais e ao transformar a quinta anexa, destruiu, no bom e no mau sentido, possivelmente mais neste do que naquele, o património existente e transfigurou mesmo a fisionomia da urbe.

A 18 de março de 1875, a Câmara pede licença ao rei para demolir uma parte do mosteiro crúzio, a fim de aí construir os novos Paços do Concelho e, a 22 de junho de 1876, sob a presidência de Lourenço de Almeida Azevedo (1833-1891), votou, por entre o ruído feito por uma parte da imprensa local que vivamente se insurgiu contra este e outros atos da administração municipal, a primeira verba para custear a demolição parcial do mosteiro, justamente a zona em que se deviam erguer os novos paços municipais. A casa da Câmara, inaugurada a 13 de agosto de 1879, ostenta, a coroar a fachada principal, as armas da cidade que, certamente devido à pouca confiança depositada pela vereação nos canteiros da cidade e na recém-iniciada formação destes na Escola Livre das Artes do Desenho, fundada no ano anterior, foram encomendadas a Joaquim Castelo, artista lisboeta com oficina na Rua do Arsenal. Mas, mal as colocaram, logo o diretor de O Conimbricense, notando o erro existente no escudo, afirma que elas serão para os vindouros “o padrão do desleixo, incúria e ignorância” da vereação citadina de 1879.

Fig. 06. O edifício da Câmara Municipal integra

Fig. 06 – O edifício da Câmara Municipal integra o complexo dos frades crúzios. [Bilhete Postal].

Diversos incêndios também se encarregaram de desfigurar o complexo monacal dos crúzios, neste caso as alas claustrais da Manga; em 1917 a zona onde se encontravam instaladas as oficinas da Escola Industrial Brotero e, em 1926, a parte do nascente, ocupada pelos serviços dos correios.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas Artes.

Lisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:49


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Abril 2021

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930