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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 02.04.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 2

A notícia da nova tentativa de criar uma unidade de lanifícios no antigo convento de Sâo Francisco da Ponte foi divulgada com regozijo pelo periódico «O Conimbricense», no dia 17 de março de 1888, invocando a oportunidade criada pela junção de «tres activos e habeis industriaes, todos de Sadadell, provincia de Catalunha, no visinho reino».
… A escritura de constituição da sociedade de comércio e indústria Peig, Planas & C.ª foi lavrada, em 24 de julho de 1888 … apresentando como finalidade «a fiação e manufactura de toda a espécie de tecidos de lã e estambre no edifício de São Francisco da Ponte».
... O período de montagem da estrutura fabril iniciou-se logo em abril de 1888, com a vinda de máquinas a vapor, caldeiras e teares mecânicos do estrangeiro, que, depois de montados nas salas do antigo complexo conventual, foram alvo de um período de testes para aferir o seu correto funcionamento, Finalmente, no dia 7 de dezembro, o periódico O Conimbricense anuncia «que se acha em plena laboração a fabrica de lanificios dos srs. Peig, Planas & C.ª, no edifício de S. Francisco além, da ponte. Estão trabalhando os differentes teares, fiações e cardas, e em geral todos os machinismos. Ainda bem que vemos em Coimbra a funccionar uma importante fabrica de lanificios, que pode vir a ser um forte incentivo para a creação de outras».

8-Excursao-FLSC-ao-Porto-usm-med-min[1].jpgPessoal da Fábrica em visita à Exposição Têxtil, no Porto. Fotografia de Lara Seixo Rodrigues, acedido em https://www.acabra.pt/2019/03/convento-sao-francisco-aborda-memorias-a-cores/

… Na aproximação da data comemorativa dos 50 anos de atividade (1938), os responsáveis pela empresa relembraram, em comunicado, a odisseia percorrida até então, enaltecendo a papel fundamental daqueles que nela labutaram e, em particular, as diligências iniciais dos sócios fundadores: «Se atendermos à vida difícil que têm atravessado as realizações industriaes portuguesas, particularmente nos lanifícios, o cincoentenário da Fábrica de Coimbra representa uma invulgar afirmação do valor conjunto dos seus dirigentes e dirigidos, pois todos se esforçaram atravez dos anos nem sempre fáceis e das circunstâncias quasi nunca propícias, por elevar sem descanso o progresso e o prestígio deste estabelecimento fabril».
… As mortes de Jaime Castanhinha Dória, em 9 de junho de 1956 e, no ano seguinte, de Vitorino Planas Dória (30 de junho) provocaram alterações significativas na direção da unidade fabril, a que se juntou o afastamento total de Luís Elias Casanovas, por já antever as dificuldades que o futuro dos lanifícios em Portugal, e da fábrica de Santa Clara em particular, teria com a emergência das unidades de confeção e do pronto-a-vestir. Entre saídas e decessos, podemos afirmar que se fechou um ciclo na gerência do estabelecimento fabril. Os novos tempos trarão novos donos, selecionados, uma vez mais, no seio familiar.

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios.jpg

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios em Santa Clara. Finais da década de 70 do século. Fotografia do arquivo particular de Pedro Planas Meunier, acedida, em https://www.publico.pt/2019/07/08/local/noticia/ascensao-queda-fabrica-coimbra-1878945

… Após o período fatídico de sucessivos falecimentos, a sociedade concentrou-se nas mãos dos herdeiros de Vitorino Planas Dória, dividindo-se pelas suas filhas Maria Irene Dória de Aguiar Planas Leitão, Maria Emília Dória de Aguiar Planas Raposo e Maria Vitorino Dória de Aguiar Planas Meunier, casada com o engenheiro George Greenwood Meunier (1926-1996). Este último tomará o comando da gestão da unidade fabril e, a 14 de dezembro de 1962, ascendeu ao estatuto de sócio a partir da compra das quota-partes pertencentes às irmãs da sua esposa.

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed. Pg. 37-59

 

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por Rodrigues Costa às 11:07

Terça-feira, 31.03.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 1

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aér

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aérea das instalações

A Fábrica de Lanifícios de Santa Clara apresenta-se como referência máxima do sector têxtil num polo citadino [de Coimbra) sem grandes tradições no referido do ramo, cujo período anterior à firma em evidência se pautou sobretudo, pelo amadorismo das confeções caseiras dos teares manuais e por tentativas de organização de módulos de produção de tecidos dos que não vingaram no tempo.

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidad

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidade

Neste último aspeto, atenda-se, como exemplo, à fábrica de tecidos da Rua de João Cabreira, fundada nos finais da centúria de Setecentos pelos empresários Manuel Fernandes e Guimarães, Manuel Fernandes da Costa e António Machado Pinto, ficando famosa pelos seus damascos «que se tornaram notáveis pelo gosto dos seus lavores e pelo ouro que entrava em muitos», segundo a apreciação do jornalista conimbricense Joaquim Martins de Carvalho.
Os mesmos negociantes fundaram, na cidade, outra unidade de produção de tecidos de algodão em vistosas instalações, uma vez que os relatos asseveram a existência na loja de materiais nobres como o bronze, o aço e madeiras do Brasil. O fornecimento da matéria-prima (fio de algodão) proveio de uma fábrica Tomar; de onde, igualmente, chegaram, para ocuparem um lugar no corpo de funcionários, Bernardo Ferreira de Brito, Paulo José da Silva Neves e Pedro Espingardeiro, epitetados de “habeis artistas”. Em termos de equipamento para produção, o citado espaço deteve 12 teares, cada um com 100 fusos, resultando num tecido de boa qualidade, «não obstante o motor ser de trabalho manual, e por isso sem a regularidade precisa; mas tudo venceu o machinista com a sua rara habilidade».
As causas subjacentes ao definhamentoe respetivo fecho dos dois espaços remetem-se para o roubo de uma porção significativa de fazenda por parte de um familiar dos sócios, bem como a instabilidade proveniente das invasões francesas e a abertura do mercado português aos produtos provindos da Inglaterra, numa consequência evidente do Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810.
Invoque-se, de igual modo, a importância da tentativa de implantação, já em 1875, da Fábrica de Fiação e Tecidos de Coimbra, uma vez que o objeto do presente estudo irá aproveitar as bases materiais deixadas por uma firma que não conseguiu estabelecer-se de modo definitivo e cujo projeto não deixou de espelhar um ímpeto de grandeza que trouxe em si o gérmen da própria derrocada. Se os primeiros tempos nos parecem auspiciosos, dada a grande procura na subscrição do capital social fixado em 150 000$000 réis – divididos em 1500 ações de 10$000 réis cada uma –, o conhecimento, por parte da opinião pública, dos detalhes da compra do convento de São Francisco da Ponte pela quantia, por muitos considerada exorbitante, de 30 000$000 réis, gerou a fuga do investimento inicial através da desistência de muitos dos subscritores.

Um «valente canudo».jpg

«valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade»

Apesar do citado revés, os membros da direção deram continuidade ao projeto, a partir da transformação do complexo conventual em unidade fabril, acrescentando ao edifício uma chaminé industrial, descrita pelo periódico A Voz do Artista como um «valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade».

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed.Pg. 27-29

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por Rodrigues Costa às 11:55

Quinta-feira, 19.03.20

Coimbra: Convento de Santa Ana e as invasões francesas

Esta entrada relata os estragos causados pelos franceses no Convento de Santa Ana. Decidimos ilustrar com as imagens da parte do património que existia no Convento de Santa Ana e que foi dispersa por outros lugares.

Passados duzentos anos, [sobre 1610, quando as freiras entraram no novo Convento] novo sobressalto acomete as freiras, pois os franceses (invasões francesas) estão às portas da cidade de Coimbra.
Com medo das atrocidades que pudessem vir a sofrer, escondem (enterram) os seus tesouros no próprio Convento, e partem levando consigo pouca coisa.
Em 1811 já estão de volta ao convento, e num auto de justificação de um pedido de ajuda monetária, narram assim o estado em que está o mesmo:

A Madre Prioresa e mais Religiosas do Convento de Santa Ana, extra muros desta cidade de Coimbra, para justos requerimentos, pretendem justificar o seguinte:
1º Item
Que pela invasão do Inimigo comum nesta cidade no 1º de Outubro do ano pretérito de 1810, se virão as Religiosas Justificantes na precisão de saírem do seu Convento e dispersarem-se para diversas partes procurando o mais de escapar à morte e a outros insultos que os mesmos costumam praticar, e se retiraram para partes remotas aonde ainda por motivos justos se conservam algumas quais os de falta de meios para a sua transportação para o seu Convento, ainda mesmo por saberem a penúria em que se acha o mesmo, sem meios de administrar os socorros necessários às Religiosas a que são obrigadas.
2º Item
Que em razão da falta de transportes, (e) ainda de meios para fazer as despesas para esse fim preciso, não puderam transportar muitas roupas brancas, já do uso particular das Religiosas, como do comum e foram levadas e roubadas todas, assim como as do Culto Divino, como toalhas, Amitos, Alvas, Cordões corporais e sanguinhos e Paramentos como Palametas, Dalmáticas, Capas de Asperges, Frontais, Véus de ombros e de Cálices, Umbelas, Pálio, Cortinados e Tapetes, sendo uns de damasco de seda lisa, outros de damasco bordados de ouro, tirando a todos as guarnições e franjas de ouro e prata.
3º Item
Que algum trigo, milho e azeite que tinham no seu celeiro para sua sustentação e economia, como também louças, trastes das oficinas, apesar de terem sido escondidas e enterradas algumas coisas, por verem que não tinham meios de as transportar, e ser este o único meio a que podiam recorrer, assim mesmo tudo perderam e os esconderijos foram achados e o que foi enterrado foi descoberto pelo inimigo no que mostraram ser peritos.
4º Item
Que igualmente se lhe desencaminharam do Cartório vários títulos e papéis pertencentes à arrecadação dos réditos do seu Convento no que experimentam grande perda.
5º Item
Que os rendeiros das suas limitadas rendas lhe não querem pagar o convencionado preço por que as arremataram, com o fundamento de que nada receberam dos inquilinos e que estes lhe não pagam, porque dizem nada receberam no ano pretérito de 1810, assim como não querem pagar o presente ano de 1811, com o fundamento de que a maior parte das terras ficarão incultas, por falta de sementes, bois, homens e os mais meios necessários para a cultura.
6º Item
Que dentro do Convento foi notável o prejuízo causado pelos Inimigos pois que quebraram portas, janelas, vidraças, armários e todos os trastes de madeira que puderam achar, estragaram as Capelas do Claustro no seu ornamento.
7º Item Que os referidos estragos aqui frisados, que é uma pequena relação do que na verdade foi, e na comum e geral estimação de todas as pessoas que sabem a perda das justificantes a avaliam no melhor de sessenta mil cruzados.

11º Item
Que tal foi o estado deplorável em que as justificantes ficaram que nem têm com que possam subsistir pois se acham sem ração, padecendo gravíssimas necessidades.

Portal da igreja do convento 02.jpg

Portal da igreja do Convento de Santa Ana, hoje no Museu Nacional Machado de Castro

Porta do claustro do convento. Porta lateral de S.

Portal do claustro do Convento de Santa Ana, hoje no Museu Nacional Machado de Castro

Oiã. Retábulo da capela-mor 01.jpg

Retábulo da igreja do Convento de Santa Ana, hoje capela-mor da Igreja Matriz de Oiã. https://www.facebook.com/Paroquia.Oia/

Oiã. altar lateral.jpg

Altar lateral e parte do cadeiral do Convento de Santa Ana, hoje na Igreja Matriz de Oiã.
http://www.rotadabairrada.pt/irt/show/igreja-matriz-de-oia_pt_209 

Oiã. Cadeiral.jpg

Pormenor do cadeiral do Convento de Santa Ana, hoje na Igreja Matriz de Oiã.
http://www.rotadabairrada.pt/irt/show/igreja-matriz-de-oia_pt_209

Capelo, L. C. 2006. Convento de Santa Ana de Coimbra. Inventário. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 11:02

Quinta-feira, 12.03.20

Coimbra: Convento de Santa Ana

O local onde foi construído o primeiro Convento de Santa Ana de Coimbra das Eremitas Descalças, situava-se na margem esquerda do rio Mondego, arredores de Coimbra.

Vista de Coimbra. Georg Braun e Franz Hoefnagel (cRuínas das “Celas da Ponte”. Vista de Coimbra. Georg Braun e Franz Hoefnagel (c. 1565). Pormenor

Conhecido por “Celas da Ponte” dá-se como data da sua fundação o ano de 1174, segundo D. Nicolau de Santa Maria, cónego regrante da Congregação de Santa Cruz de Coimbra.
Concluída a obra em 1184, teve como primeira prioresa Dona Joana Pais, que veio do Convento de S. João das Donas, como mestra de noviças D. Maria Martins, e como porteira e vigaria D. Maria Lopes.
Mudanças significativas observam-se no local da sua fundação, pois as cheias do rio Mondego, no Inverno, causavam-lhe grandes inundações e o depósito de areias que as mesmas arrastavam, tornam o local inadequado para viverem.
(…). Em 1561 recolhem-se as freiras numa quinta em São Martinho (Coimbra), que lhes doou o bispo D. João Soares, enquanto não construíam outro Convento. Embora esta quinta tivesse poucas condições, mantiveram-se nela até que o bispo conde D. Afonso de Castelo Branco lhes mandou construir um novo edifício.

Convento de Santana Antiga fachada norte do convenConvento de Santa Ana, planta da fachada norte. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 65

A 23 de Junho de 1600 o Senhor Bispo dá início ao novo edifício, lançando a primeira pedra do novo Convento.

Planta do piso térreo. Lado norte. Pormenor da igPlanta do piso térreo. Lado norte. Pormenor da igreja. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 67

Situado na “Eira das Patas”, junto à cerca de S. Bento (Jardim Botânico), o seu domínio estendia-se até ao atual Penedo da Saudade.

Convento de Sant'Ana aoo longe.jpgConvento de Santa Ana e Colégio de Tomar
Imagoteca Municipal de Coimbra. Cota: BMC_A033

Consta que a construção demorou nove anos e meio e as freiras entraram no novo Convento em Fevereiro de 1610, e começaram a usar o hábito das Eremitas de Santo Agostinho.

Capa das Constituições de Santo Agostinho.jpg

Capa das Constituições das religiosas da ordem dos eremitas de S. Agostinho. Edição de 1734. In: Ferreira, J.M.V.A. e Caldeira, J.R.M.
Sant'Anna: três séculos de convento, um século de quartel, pg. 29

A primeira prioresa deste novo Convento foi Dona Hieronyma, freira professa do Convento de Santa Mónica de Lisboa.

Convento Santa Ana selo de chapa.JPGAUC. Livro de Cartas de Aforamentos, Compras… de que é senhoria o Convento de Santa Ana de Coimbra, pormenor de um selo de chapa

Diapositivo3.JPGTrabalho de recorte de papel encontrado dentro de um livro do Convento de Santa Ana

Mas o decreto da extinção das Ordens religiosas de 30 de Maio de 1834, e a lei de 4 de Abril de 1864, que desamortizou os bens das freiras e das igrejas, põe um ponto final neste Convento.
A última freira deste Convento, D. Maria José Carvalho, foi transferida a 6 de Junho de 1885 para o colégio das Ursulinas e sabemos que em 29 de Novembro de 1891 já havia falecido.
A 6 de Julho de 1885, o edifício do Convento passou para a posse da Fazenda Nacional. Por solicitação do Ministério da Guerra foi-lhe dada a posse do edifício do antigo Convento das freiras de Santa Ana de Coimbra, com exclusão da Igreja e da Cerca, para estabelecimento do Regimento de Infantaria nº 23, a 13 de Agosto de 1885, onde ainda hoje se encontra.

Capelo, L. C. 2006. Convento de Santa Ana de Coimbra. Inventário. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 11:50

Terça-feira, 10.03.20

Coimbra: O Senhor dos Passos da Graça

Situamo-nos em Coimbra, na rua da Sofia. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, com decreto redigido por Joaquim António de Aguiar, alcunhado de “Mata Frades”, teve o edifício colegial de Nossa Senhora da Graça, dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, diversas utilizações.

Igreja da Graça_Coimbra_IMG_9159.jpgIgreja da Graça, exterior.
In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_da_Gra%C3%A7a_(Coimbra)

A igreja foi, porém, entregue à Irmandade do Senhor dos Passos, ali existente e gozando de prestígio na cidade, graças ao culto prestado à imagem do Senhor dos Passos, “muito gabada por sua beleza”, no dizer de Simões de Castro, em 1867.

Igreja da Graça.jpgIgreja da Graça, interior.
In:https://www.facebook.com/baixadecoimbra/photos/pcb.1063879910297440/1063879780297453/?type=3&theater

Este culto, com a procissão representando os passos da Via Sacra, foi estabelecido em Coimbra pelos frades gracianos, à semelhança do que tinha acontecido em Lisboa em finais do século XVI. Três nomes andam associados à introdução deste ato litúrgico em Portugal. Fr. Manuel da Conceição presenciara a procissão no convento de Santo Agostinho em Sevilha, estabelecida havia pouco tempo, e foi portador da ideia para Portugal. Para aquela cidade andaluza se dirigiu, pouco depois, Fr. Domingos de Azevedo, para se inteirar e documentar. De lá trouxe todos os pormenores, até a medida dos Passos, tudo autenticado por notário. Mas o grande entusiasta foi o pintor de estandartes, bandeiras e diversas imagens, Luís Álvares de Andrade, mais gabado pelas virtudes granjeadoras do título de “pintor santo” que pela sua arte. Foi o fundador da Irmandade ou Confraria da Santa e Vera Cruz, sediada numa capela do convento da Graça, em Lisboa, em 1586. Esta associação, que hoje existe com o nome de Real Irmandade da Santa Cruz e Passos da Graça, em breve se transformou na preferida de todo o povo da capital, dos nobres, e dos próprios soberanos.
Rapidamente a devoção chegou a Coimbra e se espalhou por todo o país, proliferando as confrarias, algumas delas instituídas em mosteiros e conventos. Na igreja da Graça, tratava da devoção a Irmandade de S. Nicolau e das Almas, extinta em 1721, para dar lugar à Irmandade do Senhor dos Passos.

Igreja da Graça P1100566.JPG

Igreja da Graça. Altar do Senhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

O culto na igreja da Graça deve ter começado ainda no século XVI, como a mesa do altar parece indicar: esculpida em pedra de Ançã, apresenta quatro pilastras decoradas com losangos, dividindo panos ornamentados com os símbolos da Paixão e pinturas de que hoje restam vestígios.
Sobre esta mesa de altar ergueram, em finais do século XVII o retábulo de talhas douradas com camarim profundo, onde se abriga a imagem do Senhor dos Passos. Tem quatro colunas espiraladas sobre mísulas de exuberante decoração, formando intercolúnios laterais, onde se encontram as imagens de Santo Ildefonso e S. Tomás de Vila Nova. A decoração das colunas é a habitual desta época, constituída por parras, cachos de uva com gavinhas e aves debicando. As colunas centrais prolongam-se em arquivolta superior e as laterais em grandes volutas em que se sentam anjos mostrando um medalhão central com as insígnias da Paixão. São conhecidos os nomes dos entalhadores e douradores, provavelmente do Porto: Manuel de Almeida, João de Sousa e Domingos de Almeida (o documento não refere datas nem outros dados).

Igreja da Graça. Sr.dos Passos. Fotografia NelsonSenhor dos Passos. Fotografia Nelson Correia Borges

A imagem atual deverá também ser contemporânea do retábulo. Apresenta apenas o rosto, as mãos e os pés esculpidos, sendo o corpo revestido por tecido. Este tipo de imagens, genericamente designadas por “de roca”, foi um traço comum da época barroca e é uma representação quase exclusiva do mundo de cultura ibérica. São raras as que ostentam as vestimentas originais, envergando muitas vezes tecidos de pouco merecimento, o que altera a sua leitura como obra de arte e devocional. São resultado de uma época, na sequência do Concílio de Trento, em que se procurava o máximo de realismo, para mostrar que os santos eram pessoas comuns e que, portanto, todos podiam ser santos. Eram fáceis de transportar em procissões, onde o realismo era acentuado pelo movimento que os tecidos adquiriam.

Procissão.JPGProcissão do Senhor dos Passos. 2019. Fotografia Nelson Correia Borges

Há que valorizar esta forma de expressão artística tão digna de ser considerada escultura, como certas correntes da escultura contemporânea.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra n: º 4777, de 5 de março de 2020.

 

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por Rodrigues Costa às 10:05

Quinta-feira, 05.03.20

Coimbra: Peças levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra 3

Nesta entrada iremos referir os objetos de arte levados de Santa Cruz, para o hoje Museu Nacional Soares dos Reis, arrolados no seguinte documento transcrito por Madaíl.

Igreja de Santa Cruz. Santuário 01 a.jpgMosteiro de Santa Cruz, santuário

«Termo de entrega das pinturas e mais objectos para o Mozeu da Cid.e do Porto
Aos quatro de Junho de mil oitocentos e trinta e quatro annos em Coimbra e Mosteiro de Santa Crus aonde eu Escrivão vim Com Francisco Pedro de Oliveira e Souza, Comicionado do Mozeu Portuençe para este na forma da ordem retro escolher, e Serem entregues os objectos que houvesse na mesma Casa para fazer Conduzir ao mesmo Mozeu e procedendo o mesmo na mesma escolha Se entregar e lhe forão entregues os objectos escolhidos que Saõ os que Se Seguem –
Seis paizages ao Devino pinturas em Cobre
Seis floreiros ditos, em Cobre
Cinco Nascimentos do Menino, em Cobre
Tres descimentos da Crus, em Cobre
Quatro Vezitações dos tres Reis Magnos, em Cobre
Tres Santos Antonios a receber o Menino, em Cobre
Huma pintura da flagelação de Christo, em Cobre
Outra ditta Calvario, em Cobre
Duas dittas a Sepultar Christo, em Cobre
Outra ditta = Senhora da Piedade, em Cobre
Outra ditta = Vezitaçaõ de Santa Izabel, em Cobre
Duas ditas Assençaõ de Nossa Senhora, em Cobre
Outra ditta de Trnafiguraçaõ no Horto, em Cobre
Outro ditto de Santa Izabel Raynha da Ungria, em Cobre
Outro ditto = Morte de Saõ Francisco, em Cobre
Outro ditto = Baptismo de Christo, pintura em pedra
Outro ditto de Nossa Senhora apresentando o menino a Santa Catherina, em Cobre
Outro dito de Saõ Joaõ pregando no dezerto, em Cobre
Outra ditta de Nossa Senhora entre huma gloria de Meninos Com dois Santos em adoração.
Outros ditos de Saõ Pedro, e São Paullo em Cobre e redondos
Duas famílias Sagradas, piquenas em Cobre
Huma dita redonda, Senhora da Cadeira, pintada em pedra
Outra pintura dita do Nascimento pintada em pedra e ouvada
Hum saõ Jeronimo em Cobre
Outra pequena pintura em pedra, vezitaçaõ dos tres Reis
Quatro Evangelistas, pinturas em Cobre
Huma Senhora com o Menino em Cobre
Santa Maria Magadallena em Cobre
Vinte e Seis pequenos quadros esmaltados em Cobre, da Paixão de Christo.

Mestre da Paixão de Cristo; esmalte pintado sobreMestre da Paixão de Cristo; esmalte pintado sobre cobre. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade

Três notas finais;
– No documento ora transcrito são ainda arrolados 21 títulos, sendo o primeiro Antiguidades Gregas, Italicas, e Romanas com 52 volumes;
- Para além da livraria do Mosteiro também foram também levados livros do Colégio de S. Agostinho, sendo referido o título Homens Ilustres, com 52 volumes;

Colégio de Santo Agostinho. Claustro a.jpg

Colégio de S. Agostinho, claustro. Coleção Regina Anacleto

- Não foram encontrados documentos referentes à retirada da espada dita de D. Afonso Henriques, nem da escrivaninha/tinteiro, aqui referidos em entradas próprias.

Madail, A.G.R. 1949. Inventário do Mosteiro e Santa Cruz à data da sua extinção em 1834. Separata revista e aumentada da Revista O Instituto , vol. 101, 1943, acedida em:
http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/tinstituto/tinstituto/1,291,309,E/l856~b1594067&FF=tinstituto&1,1,,1,0

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por Rodrigues Costa às 10:06

Terça-feira, 03.03.20

Coimbra: Peças levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra 2

Nesta entrada iremos abordar o que foi levado de Santa Cruz no que respeita a livros e manuscritos. Madaíl começa por referir que com a ocupação de Coimbra pelas forças liberais em 8 de Maio de 1834, cidade que era conhecida, desde o relato de Balbi, pelas suas magnificas Bibliotecas monásticas, caem, ato contínuo dois emissários da Comissão de Administração dos bens dos Conventos abandonados … um deles era Francisco Pedro de Oliveira e Sousa, por parte do Museu portuense; o outro, Alexandre Herculano, pela Biblioteca.
Ao Subprefeito da Província em Coimbra, José Maria Ribeiro Vieira de Castro, repugnou a diligência, que constituía um enxovalho e uma espoliação à cidade, e contrariava as instruções de 18 de Maio que o encarregavam de nomear uma comissão responsável pelos bens dos Conventos. De nada valeu porque em 30 de Maio foi determinado que nada mais lhe competia que cobrar deles recibos dos objetos que escolherem.
… Em 5 de Junho estava a escolha feita, concluída a relação de tudo, assinados os recibos e apensos ao processo; só um deles se encontra datado, mas todos são do punho dos próprios comissionados e constituem impressionantes relações de preciosidades arrebatadas injustamente a Coimbra, que, havia três séculos já, dispunha duma biblioteca na Universidade onde tudo devia ter sido recolhido; por iniciativa do Vice-Reitor, certamente alarmado com o conhecimento do que os comissionados do Porto estavam levantando, como a conjugação das datas permite concluir, assim o compreendeu, e dispôs, a Portaria de 9 desse mês, mandando recolher à Universidade os livros de objetos de Museu.
… Em dezembro de 1834 é que a Universidade foi entregue do que restava da famosíssima Livraria do Mosteiro de Santa Cruz. Chegava em último lugar…

O que foi levado para o Porto foi arrolado em diversos recibos, sendo:
- Manuscritos, num total de 157, sendo o primeiro da lista o Breviarium gothicum.

Breviarium gothicum..jpgBreviarium gothicum. Edição impressa de 1775
Imagem acedida em: https://archive.org/details/A104159/page/n6/mode/2up 

- No que concerne livros e documentos – de diferentes tamanhos e alguns com dois ou mais volumes – foram agrupados por temas:
- História e Antiguidades, com 439 títulos, sendo o primeiro Historia de la India oriental por San Roman;

Historia generale de la India.jpgImagem acedida em:
https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=42118

- Literatura, com 125 títulos, sendo o primeiro Statii opera;
- Ciências e Artes, com 160 títulos, sendo o primeiro Annales du Musée trinta e volumes;

Annales do Musée.jpgImagem acedido em:
: https://www.biodiversitylibrary.org/item/189419#page/5/mode/1up

- Jurisprudência, Economia, Política, com 21 títulos, sendo o primeiro Cours diplomatique avec Supplement;
- Teologia, com 37 títulos, sendo o primeiro S. Philastrii opera.
Ou seja, foram levados de Santa Cruz 782 títulos, necessariamente com um número muito maior de volumes. Número que há época era extremamente significativo.
Termina Madail com a seguinte nota.
Herculano deve ter retirado de Coimbra precipitadamente, perante o visível despertar da opinião pública, e o protesto do Vice-reitor da Universidade … A própria Câmara Municipal procurou «varrer sua testada»; convocou uma reunião extraordinária em 5 de junho, data, justamente, da entrega dos objetos aos comissionados do Porto, ficando na ata, para memória, o registo seguinte: «E nesta se deliberou que se fizesse hum officio ao Dezembargador Corregedor desta Cidade para elle, sendo sua attribuiçaõ impedice a remessa dos objectos».
Protesto inútil, meramente formal; fora exatamente o Corregedor quem recebera do Sub-Prefeito ordem para tudo deixar escolher.

 

Madail, A.G.R. 1949. Inventário do Mosteiro e Santa Cruz à data da sua extinção em 1834. Separata revista e aumentada da Revista O Instituto , vol. 101, 1943, acedida em:
http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/tinstituto/tinstituto/1,291,309,E/l856~b1594067&FF=tinstituto&1,1,,1,0 

 

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por Rodrigues Costa às 20:48

Quinta-feira, 27.02.20

Coimbra: Peças levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra 1

Sob esta epígrafe publicamos há algum tempo um conjunto de informações relativas ao que foi “tirado” do Mosteiro de Santa Cruz e levado para o Porto.
O entendimento das razões desse facto e do que foi levado é possível conhecer a partir do trabalho de Rocha Madaíl que iremos passar a utilizar. Nesta entrada iremos procurar compreender as razões que estavam subjacentes à ira liberal contra o Mosteiro, começando com a seguinte citação de um documento divulgado por Madaíl no trabalho em apreço. Trata-se de uma carta datada de 30 de Maio de 1834 dirigida pelo Sub Prefeito Interino Joze Maria Ribeiro de Castro, ao Corregedor da Comarca de Coimbra, Manuel Homem Rebelo Freire de Almeida.

Sendo publico, e notorio que o Prelado Geral do Convento de S.ta Cruz desta Cidade, e mais quatro Religiosos Conventuaes do mesmo Mosteiro, se evadirão, e abandonarão aquella Caza na occazião da entrada das Tropas Fieis [8 de Maio de 1834] nesta Cidade e Acclamação do Governo Legitimo de S. M.J. o Duque de Bragança Regente em nome da Rainha; e sendo de igual notoriedade publica que o referido Prelado serviu hostilmente contra o Governo do Mesmo Augusto Senhor, na qualidade de Commandante, de hum Corpo de Voluntarios, e não menos sabido que o mesmo Convento, recebeo alguns Religiozos dos Conventos Abandonados da Serra, Grijó, em cujos termos hé considerado Supprimido… nomeio a V.S.ª para proceder sem perda de tempo ao Inventario do referido Convento … Sirva-se igualmente enviar-me uma hua relação Nominal de todos os Religiozos do Convento.

Mosteiro de Santa Cruz. Fachada.jpgMosteiro de Santa Cruz, fachada da igreja.Coleção Regina Anacleto 

… Sobre o drama político, em que desde sempre se consubstanciou a gloriosa mas acidentada vida de S.ta Cruz de Coimbra – arrastada, nos últimos tempos, pelo torvelinho das violentas paizões que dominavam a época e às quais, a instituição não soube ou não pôde manter-se estranha – caía agora, com a frieza terminante do ofício acima transcrito, inglório e implacável, o pano do ultimo ato.
O que se lhe seguiu e aqui se relata, mais do que um epílogo, foi uma farsa que podemos perfeitamente isolar da vida daquela casa sete vezes secular; de comum com ela tem apenas o lugar da ação.
… Pelo que respeita a Santa Cruz de Coimbra é de notar que sempre o mosteiro gozara da fundada tradição de professar ideias antiliberais; com a vinda de D. Miguel a Coimbra em outubro de 1832, de caminho para o Porto, onde os liberais desembarcados no Mindelo se haviam instalado já desde 9 de julho, mais se arreigaram dedicações, e velhas simpatias absolutistas se concitaram.

Mosteiro de Santa Cruz. Púlpito.jpgMosteiro de Santa Cruz, púlpito. Coleção Regina Anacleto

O Rei [D. Miguel] chegou a Coimbra no dia 20, mas desde 12 que o seu Estado-Maior se encontrava na cidade, e aquartelado justamente no mosteiro de Santa Cruz.
Madaíl transcreve de seguida um documento em que se descreve, minuciosamente. os preparativos para alojar D. Miguel e o seu séquito no Mosteiro, o que não veio a ocorrer pois este preferiu alojar-se no Paço da Universidade.

Mosteiro de Santa Cruz. Túmulo de D. Afonso Henri

Mosteiro de Santa Cruz, túmulo de D. Afonso Henriques. Coleção Regina Anacleto

Prossegue Madaíl salientado que Conquanto não lograsse hospedar o monarca adentro de seus muros, o mosteiro recebeu-o nos dias 23 e 25 … vendo todo o convento, santuário e igreja; a pedido do Rei, foram abertos os túmulos de D. Afonso Henriques e D .Sancho I, patenteando-se-lhe, e à régia comitiva, a própria ossada do fundador da monarquia portuguesa.
Mais adiante acrescenta que Na noite de 7 para 8 os miguelistas abandonavam Coimbra às quais se juntaram … o Geral de Santa Cruz e mais quatro Cónegos; para a identificação destes últimos não dispomos de elementos suficientes; mas o Geral sabemos que era D. João da Assunção Carneiro.
… Primeira consequência do abandono do Paço episcopal e do Mosteiro de Santa Cruz por parte, respetivamente, do Prelado e do Prior Geral, foi a instalação das tropas liberais nestes edifícios.

Madail, A.G.R. 1949. Inventário do Mosteiro e Santa Cruz à data da sua extinção em 1834. Separata revista e aumentada da Revista O Instituto , vol. 101, 1943, acedida em:
http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/tinstituto/tinstituto/1,291,309,E/l856~b1594067&FF=tinstituto&1,1,,1,0 

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por Rodrigues Costa às 18:13

Terça-feira, 18.02.20

Coimbra: Festas de Nossa Senhora da Boa Morte, em 1897

Coimbra, a ridentíssima cidade, decantada pelos nossos mais egrégios poetas, que tantíssimas vezes se tem extasiado perante a beleza incomparável dos seus arredores, povoados de luxuriantes pomares, e a amenidade sempre constante das formosas margens do Mondego. O deleitoso rio sobre a qual se debruçam os rumorosos salgueiros, enamorados da prata das suas águas; Coimbra a vetusta cidade, onde os seus carcomidos e tisnados monumentos, iluminados pelos clarões das façanhas épicas dos nossos antepassados, nos fazem evocar os cultos legendários de outras eras e as tocantes e sentimentais legendas que brotaram da imaginação popular, é uma das terras portuguesas, em que se encontra mais intensamente radicado o sentimento da religiosidade, que se manifesta de uma maneira exuberante nas esplendorosas solenidades religiosas que se celebram nos seus templos e a que o povo conimbricense, de índole essencialmente bondosa e sincera, se associa espontaneamente como para agradecer a Deus os mil e um encantos de que revestiu a Atenas portuguesa, o foco vivíssimo das ciências, de onde irradiam as luzes para todo o país.
… Mas como estávamos dizendo, são na verdade sumptuosas as festividades que costumam realizar-se na Sé de Coimbra; há, porém, uma que eclipsa todas as outras, tal é o brilhantismo que costuma assumir, tal é a riqueza que se apresenta perante a nossa vista fascinada: a festividade de Nossa Senhora da Boa Morte, feita a expensas da irmandade que possui o mesmo nome e que, desde 1723, se encontra ereta na capela particular na Catedral de Coimbra.

Sé Nova. Imagem de NS Boa Morte.jpg

No tempo dos jesuítas e nos anos anteriores esta festa, que há anos passou a bienal a fim de lhe aumentar o esplendor, costumava fazer-se no segundo domingo de agosto, consoante as prescrições dos seus estatutos; como, porém, nesse tempo Coimbra se acha quase deserta em virtude da debandada de famílias que se retiram para as praias, e como todos se lastimassem que uma tão luzida procissão percorresse algumas ruas sem vivalma, a irmandade deliberou que este ano [1897] se celebrasse no dia 4 do corrente mês [de Julho], como se celebrou, com uma pompa extraordinária, tornando-se a útil instituição religiosa digna dos mais rasgados encómios.
Como o nosso intento é dar uma leve ideia dessa festividade, e como muitos dos nossos leitores podem ser interessados em saber os primórdios do culto pela Senhora da Boa Morte, principiaremos por apresentar uns ligeiros traços históricos relativamente a este assunto.

Foi em Roma que se instituiu a primeira irmandade sob o sugestivo titulo de Nossa Senhora da Boa Morte … os exercícios deviam realizar-se em todas as sextas-feiras do ano na Igreja da Casa professa da companhia de Jesus.
Em Lisboa estabeleceu-se a primeira irmandade no século XVII; outras cidades e povoações portuguesas seguiram o exemplo da capital, sendo somente instituída pelos jesuítas no Real Colégio de Coimbra no dia 15 de agosto de 1723.
…. Foi copioso o número de irmãos que se inscreveram logo depois da instituição da irmandade em Coimbra, concorrendo para isso as muitas graças e indulgências que por esse tempo foram concedidas em três breves particulares, pelo papa Inocêncio XIII.
A corrente de adesões redobrou quando o papa Benedito XIII expediu, a 23 de setembro de 1729, a bula especial que principia, «Redemptoris nostri Jesu Christi etc.» concedendo à congregação de Nossa Senhora da Boa Morte de Roma grande número de indulgências prerrogativas e isenções … Desejando a irmandade do colégio de Coimbra participar desses privilégios, resolveu agregar-se à de Roma, união que se efetuou a 8 de setembro de 1731.
… Este ano a festividade excedeu as dos anos anteriores, deixando deslumbrados os que tiveram a felicidade de a ver. Não falaremos da bonita ornamentação das ruas com festões e galhardetes e cuja iluminação produzia um belo efeito, nem do soberbo fogo que na véspera se queimou no Largo da Feira e em que os pirotécnicos de Coimbra mostraram mais uma vez os recursos de que dispõem, se bem que desejássemos extintas por completo essas velhas usanças de fogo preso, que podiam ser substituídas por um lauto bodo aos pobres, para nos ocuparmos exclusivamente do aspeto verdadeiramente majestoso que apresentava o amplo templo jesuítico que, como por encanto, perdeu a sua aparência pesada e fria, transformando-se numa mansão celestial…
A nossa paleta não possui tintas com que possa dar uma ideia do brilhantismo que imprimia a festividade o sumptuoso altar-mor, onde se ostentava descoberto o riquíssimo trono, chapeado de prata lavrada, e com o frontal e dossel do mesmo metal; os altares do transepto onde faiscavam riquíssimas pratas e que estavam ornamentados com discrição e bom gosto, e sobretudo a monumental eça, mandada fazer em Roma pelos jesuítas, que se elevava ao centro do cruzeiro, com uma profusão enorme de lumes e flores que lhe davam o aspeto de um formosíssimo jardim.

Sé Nova. Eça de NS Boa Morte.jpgNo centro da eça achava-se colocada a formosa imagem da Senhora da Boa Morte, mandada vir de Itália pelos jesuítas.

Sé Nova. Imagem de NS Boa Morte atual.jpg

Sé Nova, imagem de Nossa Senhora da Boa Morte

A imagem, que é de cera e de escultura muito regular, veste ricamente e está deitada numa graciosa naveta de talha dourada e revestida de uma prodigiosa quantidade de mimosas florinhas.

Sé Nova. Naveta de NS Boa Morte.jpg

De manhã a festividade teve a realçar a palavra inspirada no notável orador sagrado e talentoso lente de teologia sr. Dr. Porfírio da Silva, que produziu um discurso à altura dos créditos de que goza: de tarde saiu a formosa imagem em imponente procissão, que levava um grande número de anjinhos primorosamente vestidos.
Eis uma ligeira resenha, ao correr da pena, do que foi essa solene e esplendorosa, festa que pode ombrear com as que Coimbra dedica a Santa Isabel.

Sousa, A.J.V. A Festividade de Nossa Senhora da Boa Morte (Em Coimbra). In: Branco e Negro. Semanário Illustrado. 2.º ano. n.º 67, de 4 de Julho de 1897. Lisboa, Editora de António Maria Pereira.

 

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por Rodrigues Costa às 12:03

Terça-feira, 11.02.20

Coimbra: Belezas de Coimbra e Memória topográfica e descritiva de Coimbra 3

Como já referimos, decidimos complementar a primeira entrada com a descrição de cada um dos Autores relativamente à emoção sentida face à visão que a cidade lhes oferecia quando observada da margem esquerda do Mondego.
Gusmão utiliza uma prosa mais sóbria, mas também bela.

VISTA EXTERIOR DE COIMBRA
«Esta Coimbra, a formosa, sentada em seu monte de primavera; com o largo Mondego a seus pés, como barra de viva prata em seu manto verde,' dentro em o seu tão sereno horizonte, que parece jeito de um beijo risonho do Criador.
CASTILHO, Quadros históricos de Portugal».

As estradas, que do Porto ou de Lisboa conduzem a Coimbra, cortando comummente por brenhas serradas, descampados inférteis, pinhais extensíssimos mas sem majestade, e povoações pobres e derramadíssimas, preparam o caminhante com disposições de tristeza, para contemplar a cena de Coimbra, que, semelhante a uma pirâmide esculpida, se alevanta dominadora dos seus fresquíssimos e saudosíssimos arredores, e do tranquilo Mondego, que se revolve mansamente a seus pés, como uma fita branca lançada por meio de um tapete de verdura.
Quanto é bela a aparência desta multidão de casas, diferentes na fábrica, nas cores e na altura, entressachadas de góticos palácios, mostrando ainda pela forma acastelada, os longos séculos de sua existência!
Quando se deleita a vista na gradação variada, com que se vão apinhando os edifícios, aparecendo na crista do monte, como patriarca e rei de todos, o Paço Real das Escolas, com a sua torre quadrangular!

Torre da Universidade.jpgTorre da Universidade

Ou se aviste Coimbra, quando o astro do dia surgindo no horizonte espalha seus raios sobre a cidade, ou quando já vai a submergir-se no oceano para renascer mais brilhante e luminoso, ou enfim quando o pálido clarão de uma lua desmaiada apenas deixa ver indistintamente os objetos, sempre a Rainha da Beira aparece majestosa e com gracioso donaire; porém, em quadra nenhuma ostenta mais solene perspetiva que olhada do Monte da Esperança em noite bem escura.
Nos confins de um horizonte nubloso e melancólico, no meio de um silêncio profundo, enxerga-se a cidade, qual montanha longínqua. Espesso véu de negras sombras a envolve desde o viso até às raízes do outeiro; nem homens, nem animais, nem habitações se avistam; através, porém, do escuro manto reverbera o fulgor de numerosos lumes. É que, lampejando milhares de luzes para entre as vidraças das janelas, vem formar um contraste maravilhoso com a
escuridão da noite; e o vulto enorme da cidade, negrejando por entre a claridade destas luzes, amostra-se como fantasma gigante cercado de estrelas.

Vista geral 01.jpgVista geral de Coimbra

E que ideias não afluem ao pensamento, ao contemplar tão primoroso quadro?! Lembram esses palácios encantados, tão ricos de ouro e pedraria, de que nos belos dias da infância ouvimos embevecidos a mui longa e mui curiosa história,
Em verdade, Coimbra, a mais bem situada de todas as nossas cidades (embora Braga lhe dispute a preeminência, que a não beija um Mondego plácido e cristalino), e edificada em anfiteatro, oferece o mais formoso e encantador aspeto.
R. de Gusmão

Corte-Real, A.M.B. e Gusmão, F.A.R. 2020. Belezas de Coimbra seguido de Memória topográfica e descritiva de Coimbra e seus arredores. Recolha de textos e notas de Mário Araújo Torres. Lisboa, Edição Gráfica de Edições Ex-Libris.

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por Rodrigues Costa às 21:08


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