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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 26.01.21

Coimbra: Finanças da Câmara entre 1762-1820 1

José Luís dos Santos Barbosa, Doutorando em História Moderna na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra publicou na Revista Portuguesa de História um artigo sobre as receitas do município coimbrão, no período compreendido entre 1762 e 1820.

Trata-se de um estudo aprofundando, denso e rigoroso do tema tratado cuja leitura nem sempre é fácil. No entanto, são ali feitas referências esclarecedoras sobre o funcionamento da Câmara no final do Antigo Regime, quando o Rei estava dotado de poder absoluto.

Assim, optamos por respigar alguns parágrafos que julgamos de maior interesse e mais reveladores da vivência estudada.

- Página 108

Coimbra, uma das maiores e mais importantes cidades portuguesas no séc. XVIII e inícios do XIX, sede de provedoria e comarca e detentora de um alargado termo, com mais de 100 juradias (em 1754), com uma população que rondava os 15 000 habitantes, na viragem do século.

AHMC. Novo Regimento para o Concelho. 1740, fl. 1.

AHMC. Município de Coimbra. 1740. Novo Regimento para os Concelhos do Termo da Cidade de Coimbra. Coimbra, Oficina de Antonio Simoens Ferreyra

- Página 115

Composição da receita da Câmara Municipal de Coimbra, 1762-1820

Composição da receita da Câmara Municipal de Co

Fonte: AHMC, Livros de Receita e Despesa, 1762-1820.

As rendas eram receitas que as câmaras arrecadavam de forma indireta, por intermédio de rendeiros [contratadores das rendas]. Para o efeito, celebrava-se um contrato de arrendamento do qual se ajustava o montante e a forma de pagamento, a duração, as fianças e as cláusulas adicionais (conhecidas por ordinárias). O conceito de rendas integrava rendimentos de grande variedade e complexidade: podiam ter origem em condenações (decorrentes de transgressões às posturas municipais), tributos sobre o comércio e consumo, foros e alugueres de imóveis.

- Página 116

De acordo com os livros de receita, deram entrada, no período em análise, as seguintes rendas: guarda do campo, balanças e repeso, medidagem de Condeixa, aferidor das medidas e medidas de pau e barro, lojas de Almedina e Praça e almotaçaria.

Torre de Almedina. Casa da Câmara durante séculoTorre de Almedina. Casa da Câmara durante séculos. Acedido em www.cm-coimbra.pt

. Páginas 116-117

Guarda do campo

Nos sécs. XVI e XVII, esta renda consistia na cobrança de coimas provenientes de transgressões ao estabelecido nas posturas municipais sobre pastagens e no pagamento de uma medida de pão aos guardadores, por parte dos lavradores e seareiros do termo de Coimbra, pelo trabalho da vigia dos campos. Os guardadores eram nomeados aos pares, um pelos lavradores e outro pela Câmara, devendo assentar mensalmente as transgressões e entregar o dinheiro das coimas.

Pg. 119

Balanças e repeso

No desempenho da sua função de regulação económica, competia às câmaras proceder à aferição de pesos e medidas. Em Coimbra, esta fiscalização era realizada pelas rendas das balanças e do repeso. Apesar de representarem uma categoria única, nem sempre estiveram juntas. Sérgio Soares indica que a renda do repeso se trata da evolução do “ver do peso”, mas algumas fontes dos finais do século referem-na como “repeso do peixe”, estando presente nas fontes desde 1762, enquanto a renda das balanças surge apenas em 1797.

Pg. 120-121

Medidagem de Condeixa

Consistia numa “imposição” que incidia sobre os carros e bestas que se deslocavam para os mercados que se realizavam nessa localidade. A renda era destinada às Câmaras Municipais de Condeixa e Coimbra, entidades que tinham a seu cargo a manutenção das estradas por onde os mercadores circulavam e, por essa razão, o valor da arrematação era dividido pelos dois municípios.

Barbosa, J.L.S. As finanças da Câmara Municipal de Coimbra nos finais do Antigo Regime (1762-1820) [I]: as receitas. In: Revista Portuguesa de História – t. LI (2020), p. 107-149.

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por Rodrigues Costa às 11:26

Quinta-feira, 21.01.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 3

O complexo crúzio no contexto citadino

O Decreto redigido por Joaquim António de Aguiar e publicado a 30 de maio de 1834 declarava extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares, sendo os seus bens secularizados e incorporados na Fazenda Nacional, com exceção dos templos e das alfaias litúrgicas.

Largo da Portagem, monumento a Joaquim António de

Largo da Portagem, monumento a Joaquim António de Aguiar

 Na sequência desta medida, e através de um processo nem sempre muito linear, verificaram-se alterações e modificações vultuosas em torno do património fradesco, agora na posse estatal e que, no futuro, veio a passar pela transferência para as mãos de particulares ou para a pertença de instituições públicas. No que se refere a edifícios, estas últimas utilizaram-nos a seu bel-prazer, quer para alojar os serviços que se encontravam na sua dependência, quer para fins sociais ou utilitários. Acontece ainda que a fisionomia de cercas e de património construído acaba, muitas vezes, por ser alterado através da feitura de transformações e de projetos urbanísticos, por vezes, mais do que duvidosos.

Em Coimbra, no âmbito do presente trabalho e face à desamortização referida, vamos cingir-nos ao mosteiro de Santa Cruz e à quinta anexa.

A autarquia mondeguina, na reunião de 13 de maio de 1835, determinou, em cumprimento de uma ordem emanada pelo Ministério do Reino, que fosse organizada uma listagem com o nome dos conventos desamortizados existentes na cidade, bem como a descrição dos seus bens. O rol teria de especificar quais os imóveis que a edilidade pretendia, a fim de neles acomodar misericórdias, hospitais e outros estabelecimentos de utilidade pública.

Na reunião do dia 16, um dos vereadores recordava o pedido que havia sido anteriormente endereçado pela edilidade à Câmara dos Deputados, solicitando não só a cedência do pátio do Mosteiro de Santa Cruz e das lojas que o rodeavam, para que ali passasse a funcionar o mercado público, como ainda todo o restante edifício, destinado a alojar as repartições judiciais, administrativas, da fazenda, da administração do correio e similares.

Praça 8 de Maio. Antiga fachada de Sta. Cruz.jpg

Praça 8 de Maio. Antiga fachada de Sta. Cruz

 A Câmara viu a sua pretensão satisfeita e, em 15 de dezembro de 1836, tomou posse dos edifícios dos extintos mosteiro de Santa Cruz e colégio da Graça, embora no documento se encontrassem exaradas cláusulas que obrigavam a estabelecer um quartel militar neste último e a instalar as repartições públicas no primeiro.

Entretanto, os serviços já alojados nos agora edifícios camarários começavam a considerar o espaço como seu, obrigando a que fossem clarificadas com rigor “as fronteiras do que fora dado à Câmara”.

A carta de lei de 30 de julho de 1839 esclarecia que lhe tinham sido concedidos os edifícios do extinto mosteiro de Santa Cruz, com exclusão da igreja e suas dependências, o pequeno laranjal, a horta e a encosta que ficam contíguas aos mencionados edifícios e terminavam na estrada pública situada na zona da Fonte Nova.

Fig. 05. Zona do mosteiro de Sta. Cruz. [AHMC. Arm

Fig. 05 – Zona do mosteiro de Sta. Cruz. [AHMC. Armário 3. Gaveta 12. Pormenor da planta da cidade de Coimbra riscada em 1834 por Isidoro Emílio Baptista].

 Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas Artes.

Lisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 10:58

Quinta-feira, 14.01.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 2

A Cidade Oitocentista (continuação)

Toda esta gente que tentava subir na vida a pulso, quando atingia o estatuto económico de pequena burguesia, aspirava a fazer-se reconhecer como tal e nada melhor para se afirmar do que e a ostentação; por isso, as moradas, tanto as dos vivos, como as dos mortos, passaram a funcionar como sendo o seu cartão-de-visita. Mas, as dos vivos exigiam áreas amplas e de forma nenhuma podiam caber nas ruas tortuosas e acanhadas da cidade medieval. A urbe tinha de crescer e, por isso, rompem-se os muros e um novo centro urbano emergiu após a urbanização de zonas que até aí mais não eram do que arrabaldes. Os bairros novos que então despontaram correspondem ao gosto e às aspirações da sociedade que os vai habitar. O burgo mudou completamente a sua fisionomia.

O acumular de capital por parte de todos estes homens de negócio, embora moderado, repita-se, ajuda a explicar que, em 1874, se instalasse na cidade, mais propriamente na Rua Visconde da Luz, centro vital da urbe trabalhadora, o Banco Comercial de Coimbra que acabou por ter vida efémera.

 

Rua Visconde da Luz. 1911-1920 01.jpg

Rua Visconde da Luz. 1911-1920

 Nesta época atuaram na cidade outros fatores de desenvolvimento, pois em 1864 passa a fazer-se sentir, em Coimbra, o “arfar” das locomotivas, facto que acaba por a despertar e por lhe abrir outras perspetivas. Naquela data apenas se consuma a ligação ferroviária entre Lisboa e Porto, mas, posteriormente, com todo o corolário de consequências bem visíveis sobretudo a nível da mentalidade e da economia, através da linha da Beira Alta, em 1882, a cidade fica ligada à Europa e o famoso Sud Express une, em 1895, diretamente Coimbra a Paris. A chegada do caminho-de-ferro introduz nas pequenas cidades da província uma dinâmica de crescimento. E Coimbra não fugiu à regra.

 

Fig. 02. Estação do caminho-de-ferro. [Revelar C

Fig. 02 – Estação do caminho-de-ferro. [Revelar Coimbra, 22].

 Refira-se, sem que tal se possa aplicar ao “apeadeiro” de Coimbra, ou seja, ao edifício pomposamente conhecido por Estação de Coimbra B ou Estação Velha, quase inalterado ao longo de mais de um século, que se na época medieval, as cidades rivalizavam entre si, porque cada uma delas pretendia construir a sé catedralícia mais imponente, a partir do século XIX, esse sentimento transferiu-se para o cais de acolhimento de passageiros do novo meio de transporte, uma vez que deixava de interessar o símbolo do poder, para passar a estar em causa o carisma do progresso.

Ponte da Portela.jpgPonte da Portela

 Um outro agente de desenvolvimento a fazer-se sentir na urbe passa pela construção, em 1873, da ponte da Portela que substituiu a tradicional barca de passagem (que operava a montante da Portela), permitindo que chegassem à cidade os chamados carros da Beira, isto é, estrados de quatro rodas, com jogo dianteiro móvel, puxado por um tiro de muares e com um toldo branco a cobrir a carga. Para Coimbra transportavam produtos produzidos na serra: batatas, castanhas, cebolas, leguminosas secas, queijos e mantas; na torna-viagem carregavam para o interior mercadorias de mimo e utilitárias proporcionadas pelo comércio citadino.

Na Portagem, a estreita e velha ponte manuelina, a famosa ponte do O, por onde passava todo o tráfego vindo do sul ou do norte, da Beira (nascente) ou do litoral mondeguino (poente) após dois anos escassos de trabalho, em 1875, cede lugar à ponte metálica de Santa Clara que ligava aquele largo à outra margem do rio. Esta nova ponte, projetada por Matias Heitor de Macedo, garantia, em toda a extensão do tabuleiro, o cruzamento de veículos, sendo também dotada de passeios laterais destinados aos peões.

 

Fig. 03. Ponte metálica de Santa Clara. [Bilhete

Fig. 03 – Ponte metálica de Santa Clara. [Bilhete Postal].

 Coimbra legitima, durante o último quartel do século XIX, a proeminência de importante nó vial.

… Na realidade, os lugares arrabaldinos do Calhabé, de Celas e dos Olivais começam a poder desfrutar dos benefícios carreados por este novo meio de transporte [os carros elétricos] que rapidamente se apossou de “velhos caminhos vicinais” capazes de transmitir “à periferia o frémito do centro”, de atrair ao “seu percurso novas moradias” e de condicionar “prolongamentos tentaculares da cidade”. Poucos anos depois toda esta área fazia parte do perímetro urbano da urbe que também passou a incluir Montarroio e Montes Claros, zonas que, paulatinamente, iam ficando pejadas de casas.

… Em 1813, o arquiteto da Universidade Joaquim José de Miranda, risca as modificações destinadas a levar a cabo no largo da Portagem e, anos depois, em 1857, o arquiteto João Ribeiro da Silva projeta a retificação da Calçada e da Rua de Coruche.

Fig. 04. Projeto da estrada entre as Ruas da Calç

Fig. 04 – Projeto da estrada entre as Ruas da Calçada e Sofia (pela Rua de Coruche). [MNMC. Inv. n.º 2873]

 O bairro de S. José, encostado à cerca do Seminário, e o de S. Sebastião, que se desenvolvia à sombra do aqueduto, começaram a crescer. Na outra margem, com proteção conventual, evoluía gradativamente o bairro de Santa Clara.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf.

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por Rodrigues Costa às 17:52

Quinta-feira, 07.01.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 1

Conforme prometi, retomo hoje a publicação regular, às 3.as e às 5.as feiras, das entradas que, em resultado das minhas leituras sobre Coimbra, vou divulgando neste blog, tendo como objetivo transmitir aos naturais da nossa Cidade ou aos que a amam um melhor conhecimento da sua história. De acordo com este propósito, inicio hoje uma série de 29 entradas extraídas de um trabalho da Senhora Professora Regina Anacleto, publicado no Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, com o título Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX.

Face ao interesse do trabalho, mas tendo em conta a sua extensão, publicá-lo sequencialmente tornar-se-ia fastidioso, o que me levou a optar por o divulgar semanalmente às 5.as feiras e por introduzir às 3.as feiras outras temáticas. Mais uma vez, obrigado pelas palavras de incentivo que tenho recebido, relacionadas com o trabalho que venho realizando.

 

A Cidade Oitocentista

Coimbra situa-se num morro sobranceiro ao rio, de pendentes bastante íngremes cuja vertente, a norte, desce quase a pique para o vale da Ribela, onde corria a Torrente dos Banhos Régios, como, ainda nos finais do século XII, era apelidado o curso de água que, descendo do alto da quinta do mesmo nome, atravessava a atual Avenida Sá da Bandeira e se escoava por entre a Rua Direita e a Rua da Moeda em direção ao Mondego; contudo, a poente, o descaimento, mais suave, processa-se como que em patamares.

Vista de Coimbra. Hoefnagel 04.JPG

Fig. 1 – Vista de Coimbra. [Georg Braun e Franz Hoefnagel. c. 1565].

 Cidade dualista, dividida em Alta e Baixa, com a primeira a ocupar a colina, delimitada parcialmente pelas duas couraças, a de Lisboa e a dos Apóstolos, bem como pela Porta de Almedina e a segunda a distender-se na plana zona ribeirinha, preenchida por um dédalo de ruas caprichosas e estreitíssimas. A população citadina estendia-se pelos dois espaços: no cume do cômoro desenvolvia-se a vida cultural e, simultaneamente, formavam-se mentalidades e espíritos; na parte baixa movimentavam-se assalariados, artífices e comerciantes.

A referida dualidade encontrava-se bem patente na toponímia. Enquanto que na zona da Alta nos deparamos com a Rua dos Estudos, a Rua dos Militares, a Rua de Entre-Colégios, a Rua dos Lóios ou o Largo da Feira dos Estudantes, na Baixa encontramos a Rua dos Sapateiros, a Rua das Padeiras, a Rua da Louça, a Rua das Azeiteiras ou o Largo das Olarias.

Largo da Feira dos Estudantes. [Passado ao Espelho

Largo da Feira dos Estudantes. [Passado ao Espelho, p. 58]

Rua dos Oleiros.jpg

Rua dos Oleiros

 Entre cerca de 1350 e 1600, grosso modo, pode dizer-se que o nível demográfico de Coimbra, embora com altos e baixos, se manteve mais ou menos estável, o que não significa que as gentes da cidade não vissem as suas necessidades de abastecimento regulamentadas por diversas e sucessivas cartas régias que determinavam quando e como podiam e deviam organizar-se os mercados e as feiras.

A população de Coimbra entre cerca de 1600 e de 1930 aumenta consideravelmente e de entre os fatores que ajudam a explicar o crescimento demográfico aeminiense, seja-me permitido destacar apenas dois: os progressos verificados no campo da medicina e, desde o reinado de D. João III, a permanência ininterrupta dos Estudos Gerais na cidade.

Os artífices e os comerciantes instalados na zona baixa, já fora de portas, labutavam na ânsia de conseguir a sua sobrevivência ou de, dentro do espírito economicista e capitalista da época, começar a enriquecer; mas convém não esquecer que, em Coimbra, o desenvolvimento industrial se apresentava “moderado e tardio”, até porque se tratava de uma terra quase provinciana, de parcos recursos económicos, onde muito pouco havia para investir. Comparando com o que se passou em outras zonas do país ou no estrangeiro fácil se torna concluir que a industrialização em Coimbra foi “desfasada quer por se ter verificado tardiamente quer pela sua fraca intensidade”.

Planas & C.ª. Lanifícios.jpg

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidade

 Para além das fábricas de fiação e tecelagem, de sabão, de lanifícios e de cerâmica, O Conimbricense referia ainda a presença das de massas, de moagem e de padarias. Penso não estar muito longe da verdade se afirmar que estas “fábricas” não passavam de pequenas unidades industriais.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 16:45

Terça-feira, 15.12.20

Coimbra: EnCantada Coimbra. Colectânea de Poesia sobre Coimbra 4

Fernando Assis Pacheco

Olivais. R. Capitão Luís Gonzaga 2 (2).jpgAcedido em: http://www.citador.pt/poemas/a/fernando-assis-pacheco

eu vivia num lento bairro da periferia a.JPG

eu vivia num lento bairro da periferia
onde a chuva apagava os passos


LOUVOR DO BAIRRO DOS OLIVAIS

Não tive nunca nada a ver com as
guitarras estudantes: eu vivia
num lento bairro da periferia
onde a chuva apagava os passos das

pessoas de regresso as suas casas
fazia compras na mercearia
e algum livro mais forte que então lia
já era para mim como um par d’asas

amigos vinham ver-me que eu servia
de ponche ou de Madeira malvasia
para soltar as línguas livremente

um que bramava um outro que dormia
eu abria a janela e só dizia
ao menos estas ruas têm gente

XXX

Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira.jpgAcedido em: https://www.bing.com/images/search?q=alberto+de+oliveira&id=60600D43006A6B62507E0F9E9E411134D80CA9A2&FORM=IQFRBA 

 

Chama por nós o sino diligente.jpgChama por nós o sino diligente. Foto Maluisbe

O SINO DA UNIVERSIDADE

Chama por nós o sino diligente,
Todos os quartos de hora, com voz clara,
E distribui-nos paulatinamente
A moeda do tempo, antiga e rara.

Da torre de vigia permanentemente
De onde vela por nós e nos ampara,
O sino diz: - Ó perdulária gente,
O tempo voa, voa, voa, mas não para!

Dai mais lento compasso à vossa vida,
Não a desperdiceis nem deiteis fora,
Não se torna a ganhar a hora perdida!

Assim repete, em sua voz sonora,
À nossa mocidade distraída,
O velho sino, cada quarto de hora…

Encantada Coimbra. Colectânea de Poesia sobre Coimbra. Organização e Nota Prévia de Adosinda Providência Torgal, Madalena Torgal Ferreira. 2003. Lisboa, Publicações Dom Quixote. Pg. 111, 182.

 

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por Rodrigues Costa às 18:19

Quinta-feira, 10.12.20

Coimbra: EnCantada Coimbra. Coletânea de Poesia sobre Coimbra 3

José Viale Moutinho

José Viale Moutinho.jpgAcedido em: https://www.wook.pt/autor/jose-viale-moutinho/3029

eis o declive do beco da anarda.JPGeis o declive do beco da anarda

 BECO DA ANARDA

 como se tratasse de encontrar

a torre de anto ou o poetísico

na palavra azeda daquele meu

amigo na esplanada do «tropical»

 

eis o declive do beco da anarda

desde casais novos que o não via

à beira da estrada janela aberta

a tudo quanto quero esquecer

 

por isso no beco da anarda sou

 primeiro a dizer «ai do lusíada»

ó torre de anto ó António nobre

é alberto de oliveira ó beco oh

XXX

Alberto de Oliveira

 

Alberto de Oliveira.jpgAcedido em: https://www.infoescola.com/escritores/alberto-de-oliveira/

Na avenida cismática e sozinha.JPGNa avenida cismática e sozinha.

 PELO JARDIM BOTÂNICO

Pelo Jardim Botânico, à tardinha…

É a hora ritual do sol poente,

Quando as tílias rescendem docemente

Na avenida cismática e sozinha.

 

Quisera ver raiar na minha frente

Alguma namorada «Teresinha»,

Cruzar no dela o meu olhar ardente,

Ter enlaçado a sua mão na minha …

 

Amam em cada ninho as toutinegras,

Chamejam, ao passar, as capas negras,

Como se a luz do amor as penetrara…

 

Tange um sino suave no convento…

E o sol exausto, em seu ocaso lento,

Acaba de morrer em Santa Clara.

 

Encantada Coimbra. Colectânea de Poesia sobre Coimbra. Organização e Nota Prévia de Adosinda Providência Torgal, Madalena Torgal Ferreira. 2003. Lisboa, Publicações Dom Quixote. Pg. 85, 91.

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por Rodrigues Costa às 12:16

Terça-feira, 27.10.20

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos 1

Foi recentemente divulgado na internet um trabalho intitulado O Museu Municipal de Coimbra: Contributos para o Programa do Núcleo Museológico do Carro Elétrico.

Trata-se do Relatório de Estágio de Mestrado em Política Cultural Autárquica, apresentada em 2016 ao Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, por Ana Filipa de Jesus Pereira. Estágio que teve como orientadora a Senhora Professora Doutora Maria Margarida Sobral Neto e como acompanhante responsável a Senhora Dr.ª Elisabete Carvalho.

Por razões éticas, dado que nos últimos 25 anos da minha carreira profissional exerci funções docentes, não irei discutir o mérito do referido trabalho, sem, contudo, deixar de sublinhar que a autora dispunha de fontes primárias e de informadores qualificados que marginalizou.

A obra apresentada tem, nas palavras da autora, como “principal objetivo contribuir para o enriquecimento dos conteúdos do futuro Núcleo do Carro Elétrico do Museu Municipal de Coimbra” o que a faz partir de um pressuposto errado.

Existe um Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, que ocupa a antiga oficina de reparações da rua da Alegria e que foi criado por decisão do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados, em 1982, apenas concretizada dois anos mais tarde, quando o seu Regulamento foi aprovado e os respetivos corpos diretivos empossados, ficando, desta forma, o Museu dotado de personalidade jurídica e de autonomia financeira. Ora, não tendo conhecimento de uma decisão formal da sua extinção e ainda que, lamentavelmente, as suas portas continuem vai 16 anos encerradas, a maioria do espólio que lhe dá razão de ser continua ali guardado.

O que seria de esperar é que a autora, depois de contextualizar a formação do Museu procurasse dar um contributo positivo para a sua revitalização e apontar caminhos que se inserissem no contexto das novas filosofias museológicas.

Face à minha intervenção no processo, considero ter o dever de comentar algumas situações que se encontram expressas ao longo do referido Relatório.

Desempenhava, na altura, o cargo de Diretor do Departamento de Cultura, Desporto e Turismo da Câmara Municipal de Coimbra e, nesta qualidade, fui chamado a exercer as funções de Diretor do Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, cargo que desempenhei durante os cinco primeiros anos de vida do mesmo.

As intervenções e trabalhos desenvolvidos no Museu durante o tempo em que fui responsável por aquela Instituição foram objeto de uma comunicação que apresentei ao “I Encontro sobre Património Industrial”, acontecido em Coimbra, Guimarães e Lisboa no ano de 1986 e publicada em 1990 no primeiro volume das Actas e Comunicações, pg. 265-278.

Irei republicar essa comunicação neste espaço, prometendo, desde já, se a minha saúde o permitir e logo que o Covid nos deixe, numa das conferências que vimos organizando, voltar a abordar o tema relacionado com o Museu Municipal de Coimbra,

Aqui, torna-se pertinente recordar que, em 2007, escrevi no livro Troleicarros de Coimbra. 60 anos de História que na minha perspetiva, o Museu dos Transporte Urbanos de Coimbra foi uma iniciativa que se pretendia como o primeiro núcleo de um projeto, ainda, tão necessário: o da criação de um Museu da Cidade, polinucleado, que abranja as múltiplas facetas de que o passado da nossa cidade se reveste.

Acresce que o Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra esteve aberto ao público durante 13 anos, assentou num trabalho de recolha e investigação e ali estava guardado e exposto um património valioso, parte do qual foi recuperado e mantido no propósito imposto pelo respetivo Regulamento, o de poder vir a ser utilizado numa sonhada e nunca concretizada linha histórica.

Um Museu que tem a sua história e um trabalho que no livro em apreço foi resumido, na página 34, do seguinte modo: Importa por fim referir que neste espaço funcionou de 1982 a 1995 o Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, tendo sido o seu primeiro diretor António Rodrigues da Costa.

Perante o exposto, fica demonstrado que o principal objetivo da autora do trabalho não tem razão de ser, pois a haver um futuro Núcleo do Carro Elétrico, o mesmo terá que resultar da transformação do Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra.

Aliás, é patente ao longo do Relatório, não só a intenção de passar uma esponja sobre o passado, cujo porquê não quero qualificar, bem como a tentativa de perspetivar um projeto salvífico que, como se disse, o poderia ser, mas com coordenadas bem diferentes das que foram apresentadas.

Embora desconhecendo as condições em que este tipo de estágio se efetua e não desejando formular processos de intenção, seja-me permitido, no entanto, manifestar a minha estranheza perante a (des)informação, nada compreensível, manifestada pela responsável deste trabalho efetivado no Museu Municipal de Coimbra, departamento de cuja equipa fazem parte Técnicos que ao tempo integravam o quadro de pessoal do Departamento de Cultura, Desporto e Turismo, que não podiam ignorar o que então se passou.

Quero ainda afirmar que um Museu não pode ser estático, tem de se ir transformando e adaptando, tanto à evolução das técnicas, como das novas filosofias museológicas que, entretanto, se vão desenvolvendo. Decorre destes pressupostos a necessidade de surgirem novos projetos, devidamente enquadrados, capazes de marcar o rumo dessa evolução; não se pode, contudo, esquecer o acervo existente, razão da sua existência, acervo esse que se torna necessário salvaguardar e manter. Qualquer museu, e este em especial devido às suas características, exige um trabalho permanente e persistente de investigação capaz de completar e explicar com maior profundidade a sua história e simbolismo.

Quero ainda de chamar a atenção para a legenda de figura 4 que afirma tratar-se da Fachada da Remise / Futuras instalações do núcleo do carro elétrico.

Em primeiro lugar direi que “remise” é uma palavra francesa que tem como um dos significados mais arcaicos e menos usuais o de garagem, cocheira e recolha e que manda a verdade que esse termo foi utilizado por algumas pessoas para designar o local de recolha dos carros elétricos. Mas, também, manda a verdade que se diga que usualmente era usada a palavra portuguesa recolha.

2930.jpgVista geral das instalações. 1911 c. Col. Carlos Ferrão

Acontece, ainda, que o termo inicialmente utlizado para designar o local destinado a guardar os carros elétricos, foi o de cocheira, como se pode verificar numa fonte secundária, o Noticias de Coimbra datado do início de janeiro de 1911, onde se pode ler que a cocheira, situada junto à Central, tem espaço para recolher onze carros, tendo junto a oficina de reparações, o atelier de pintura e os armazéns de material.

Ora, a zona fotografada no livro em apreço, diz respeito à área da oficina de reparações e como tal foi salvaguardada aquando da abertura do Museu. Daí, a legenda estar errada.

Por último recordo que existiram em Coimbra três locais de recolha dos carros elétricos.

A primeira foi atrás referida, a qual com a expansão da frota, foi transferida para a antiga fábrica de produção de gás de iluminação, na rua Figueira da Foz.

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Recolha dos carros elétricos na fábrica do gás. Coleção Carlos Ferrão

Com a cedência desses terrenos ao Ministério da Justiça e a criação das oficinas na margem esquerda do rio Mondego, a recolha dos elétricos voltou à rua da Alegria, mas ocupou um outro local como se documenta na imagem que seguidamente se publica.

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Recolha de elétricos na zona da Alegria

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 13:04

Quinta-feira, 22.10.20

Coimbra:  Paço de D. Pedro, em Tentúgal

Num dos seus passeios de fim-de-semana um nosso familiar deparou-se com um edifício localizado a sul de Tentúgal e como tal no concelho de Montemor-o-Velho que lhe despertou a atenção pela sua grandiosidade e estado de destruição em que se encontra. Do mesmo fez, entre outras, com as seguintes imagens.

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Paço de Tentúgal, 1. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 2. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 2. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 3. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 3. Foto Dora Matos

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Paço de Tentúgal, 4. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 5. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 5. Foto Dora Matos

Paço de Tentugal, 6. Foto Dora Matos.jpg

Paço de Tentúgal, 6. Foto Dora Matos

 

As fotografias vinham acompanhadas de um desafio: “deve dar para uma entrada do seu blogue”. Desafio que pelo presente assumo.

As fotografias são – segundo o site www.monumentos.gov.pt – do Paço do Infante D. Pedro, também designado por: Quinta do Paço, Paço dos Condes de Tentúgal, Paço dos Duques de Cadaval e Paço de Tentúgal.

Mais ali é referido que se trata de um imóvel classificado por Portaria de 31 de julho de 2013, como MIP – Monumento de Interesse Público e está localizado em zona "non aedificandi", sendo o monumento assim descrito:

O Paço de Tentúgal, originalmente constituído por casa, eira, celeiro e capela, já referidos em documentação do último terço do século XV, fazia parte da extensa Quinta do Paço, integrada nos férteis campos do Mondego, tudo indica doada em 1413 por D. João I ao Infante D. Pedro, futuro duque de Coimbra, e que em 1417 obteve a jurisdição da vila.

O conjunto arquitetónico terá sido reconstruído por D. Pedro na mesma época, quando patrocinou igualmente a construção da igreja matriz local, cujo portal principal apresenta modelo muito semelhante ao da capela do paço. Apesar das obras de reedificação levadas a cabo no século XIX, que se seguiram a duas centúrias de abandono e vandalização, tendo alterado profundamente as suas características estruturais, e embora atualmente se conservem apenas as paredes da capela e do celeiro e uma parte do paço, é ainda possível distinguir no notável conjunto, de volumetria intacta, diversas estruturas quatrocentistas e quinhentistas de grande interesse.

Nelas se inclui a capela tardo-gótica, dedicada a São Miguel, de que restam as paredes, de altura invulgar, e o pórtico ogival, que constitui talvez o primeiro exemplar de um ciclo arquitetónico que abrange a igreja do Convento de Santiago de Palmela, igualmente patrocinada por D. Pedro.

O palácio, um dos raros paços conservados em Portugal, é composto por diversos corpos pontuados pela disposição das aberturas ogivais e pelas altas chaminés, dominando um pátio nobre formado por um conjunto de arcadas com capitéis ornados de folhagem e motivos de inspiração andaluza que se repetem nas colunas de mármore branco da loggia de gosto renascentista. No vasto celeiro situado à direita do paço, já datado de finais do século XVI, destacam-se o portal clássico e o curioso interior, com três naves separadas por colunas dóricas com arcos de volta perfeita, tipologia única em construções de caráter agrícola.

Para quem estiver interessado em aprofundar o seu conhecimento sobre este imóvel, poderão ser consultados os seguintes sites:

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5214, para além de apresentar 11 fotografias e um mapa são referidos outros dados.

https://www.cm-montemorvelho.pt/index.php/component/k2/item/198-paco-dos-condes-de-tentugal-dos-duques-do-cadaval

Onde, nomeadamente, é referida a existência de uma eira (com 100 m de comprimento por 60 m de largura), onde, em tempos idos, se granjeava não só o milho, como se procedia à secagem dos dízimos. Atualmente, este local está ocupado por uma vinha.

https://www.academia.edu/23377940/Pa%C3%A7o_Ducal_de_Tent%C3%BAgal_patrim%C3%B3nio_a_proteger_com_urg%C3%AAncia_2011_

Um artigo publicado pelo Doutor Rui Lobo da Universidade de Coimbra, sob o título Paço Ducal de Tentúgal: património a proteger com urgência (2011), no qual é contada a história do imóvel e do processo que levou à sua classificação onde, nomeadamente, é referido que o conjunto foi muito alterado ao longo dos anos. Estaria já em ruínas em 1721, tendo sido incendiado pelos liberais em 1834. Foi depois reconstruído sem critério, ainda no século XIX, na forma atual.

Antes de terminar não posso deixar de lamentar, profundamente, que um edifício tão carregado de história esteja na situação em que se encontra, não se vislumbrando um fim feliz para o mesmo.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 22:16

Quarta-feira, 17.06.20

Coimbra: O Antiquário Conimbricense

Esperando voltar, daqui a cerca de um mês, às publicações regulares de entradas neste blogue, faço hoje uma breve interrupção no silêncio que as circunstâncias me impuseram.

A razão deve-se à recente publicação do livro O Antiquário Conimbricense seguido de Elvenda ou Conquista de Coimbra por Fernando Magno, que constitui o quarto volume da série de livros antigos sobre Coimbra, resultante da recolha dos textos e notas levadas a cabo por Mário de Araújo Torres, que além disso patrocina a sua publicação.

Trata-se de mais uma reedição que Coimbra fica a dever àquele conimbricense de alma e coração, a quem a Cidade ainda não fez o agradecimento público pela meritória tarefa a que se propôs e já realizou.

Numa Nota Prévia, é traçada uma biografia de Manuel da Cruz Pereira Coutinho (1808-1880), o autor das obras ora reeditadas, das quais respigamos as seguintes passagens.

Nasceu na freguesia de Almagreira, concelho de Pombal, em 1808, no seio de uma família de parcos recursos, tendo, ainda moço, vindo para Coimbra trabalhar como caixeiro de um botequim, à Sé Velha. Por ocasião do seu falecimento, em 24 de janeiro de 1880, recordou Joaquim Martins de Carvalho que "na primeira quadra deste século, e ainda alguns anos depois, havia um botequim ( ... ) à Sé Velha", onde se via "a servir os fregueses, um mocinho, chamado apenas Manuel da Cruz ( ... ). Nos intervalos de aviar os fregueses agarrava-se logo aos livros, que lia com avidez, e, à falta de mestres, pedia a alguns frequentadores da loja para o ensinarem. O mocinho de então, totalmente desajudado e limitado exclusivamente aos seus próprios esforços, acaba de falecer nesta cidade ( ... ) na idade de 72 anos. Do pobre filho do povo, do caixeiro do botequim, saiu o sr. P.e Manuel da Cruz Pereira Coutinho, amanuense da Administração-Geral deste Distrito em 1837, Vice-Reitor do Colégio dos Órfãos a cargo da Misericórdia, secretário particular do Reitor da Universidade, Conde de Terena [Sebastião Correia de Sá, 1.° Conde de Terena, Reitor da Universidade entre 1841 e 1848], prior de S. Pedro, prior de S. Cristóvão, cónego honorário da Sé de Coimbra, associado provincial da Academia Real das Ciências, sócio efetivo do Instituto de Coimbra, vice-presidente da secção de arqueologia, distintíssimo paleógrafo, investigador e escritor incansável! Tanto podem o trabalho e a força de vontade." (O Conimbricense, n." 3390, janeiro de 1880).

Capa.png

Obra editada, capa

A iniciativa bibliográfica de maior vulto de Manuel da Cruz Pereira Coutinho foi indubitavelmente a edição de O Antiquário Conimbricense (1841-1842), por ele fundado, dirigido e inteiramente redigido.

Antiquário n.º 1.pngImagem acedida na obra ora editada, pg. 15

Foi a segunda mais antiga publicação periódica impressa em Coimbra (a seguir à Minerva Lusitana, de 1808-1811) e "a primeira publicação periódica portuguesa dedicada exclusivamente a antiguidades medievais que foi editada entre nós" (Mário Jorge Barroca, Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422), vol. lI, tomo I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, pág. 1659).

Elvenda.pngImagem acedida em: https://www.eclecticaleiloes.com/pt/auction/lot/id/22234

Em 1869, Manuel da Cruz Pereira Coutinho editou um prospeto anunciando uma sua nova iniciativa: o lançamento de uma publicação que deveria intitular-se Epigrafia Conimbricense ou Coleção de inscrições lapidares.

Na presente edição, reproduz-se integralmente o conteúdo de «O Antiquário Conimbricense, mas como nova disposição gráfica: na primeira parte, inserem-se, pela ordem em que surgiram nos diversos números, as inscrições lapidares, transcrevendo-se as respetivas leituras e notas históricas; na segunda parte, surgem, sem quebras de sequência, os documentos e notícias divulgados, agrupados por ordem cronológica e proximidade temática. Manteve-se a grafia dos documentos históricos reproduzidos, mas atualizou-se a dos textos da autoria de Manuel da Cruz Pereira Coutinho. Atribuiu-se numeração sequencial às notas de rodapé e completaram-se as referências bibliográficas, com menção completa dos nomes dos autores, títulos, editor, local e data da edição.

Quanto à projetada publicação Epigrafia Conimbricense ou Coleção de Inscrições Lapidares, reproduz-se o prospeto que anunciava essa iniciativa, em digitalização cedida pela Biblioteca Universitária João Paulo II, da Universidade Católica Portuguesa, que penhoradamente se agradece.

Da vasta colaboração de Manuel da Cruz Pereira Coutinho em publicações periódicas, reproduzem-se três artigos, diretamente relacionados com a história de Coimbra: "Ponte de Coimbra" (O Instituto, vol. I, 1853), "As Emparedadas de além da Ponte de Coimbra ou as Agostinhas Calçadas do Convento de Sant' Ana" (O Instituto, vol. XII, 1863), e "Chão da Torre" (O Zéphyro, n." 8, 31 de maio de 1872), este último sobre a Torre dos Sinos do velho Convento de S. Domingos, em Coimbra.

Mário de Araújo Torres

Este livro pode ser adquirido em: www.sitiodolivro.pt, ou 211 932 500.

 

 



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por Rodrigues Costa às 19:35

Quinta-feira, 16.04.20

Coimbra: O Convento de S. Francisco

Os seguidores da regra instituída por São Francisco entraram na cidade de Coimbra em 1217, fixando-se, inicialmente, nas proximidades da pequena ermida de Santo Antão, numa circunscrição que podemos situar na atual igreja de Santo António dos Olivais.
O levantamento de instalações próprias iniciou-se 30 anos depois, a partir da edificação do complexo conventual junto à ponte, na margem esquerda do Mondego, próximo do hodierno estádio universitário. Mais tarde, em 1314, terá como vizinhança a morada das clarissas conimbricenses que professavam a mesma regra.
Se a intervenção do infante D. Pedro, já em 1247, nos parece fundamental no impulso dado à fundação e respetiva ereção do convento franciscano, os contributos monetários deixados, em testamento, pela sua irmã D. Constança Sanches (falecida em 1269), auxiliaram na continuação da referida empresa. Em 20 de janeiro de 1362, a igreja foi sagrada por D. Vasco, antigo arcebispo de Toledo, assumindo, à época, o cargo de administrador da Diocese conimbricense.
A austera vida quotidiana presente no medievo convento de São Francisco da Ponte contou, desde cedo, com as várias intempéries trazidas pelo Mondego, entre o assoreamento do leito e as consequentes inundações das margens. Da representação gráfica de Coimbra de George Hoefnagel, datada de 1581, transparecem tais dificuldades, uma vez que as águas ladeiam, já com alguma perigosidade, o seu edifício, bem como o análogo cercano pertencente às clarissas.
Na mesma fonte documental são visíveis os resultados nefastos das investidas fluviais, através da representação do mosteiro de Santa Ana - morada das cónegas regrantes de Santo Agostinho - já em ruínas, totalmente cercado por água, uma autêntica ilha no leito do Mondego.

Vista de Coimbra. Hoefnagel 04.JPG

Gravura da cidade de Coimbra nos finais do séc. XVI… George Hoefnagel

O abandono efetivo das instalações franciscanas mediévas ocorreu nos últimos anos do século XVI. Na centúria seguinte, mais propriamente a 2 de maio de 1602, lançou-se a primeira pedra para a edificação de um novo complexo conventual, nos terrenos na margem esquerda do rio, em local mais defensável das suas investidas
… Graças às esmolas recolhidas pelos fiéis, a construção do espaço foi avante, permitindo, já a 29 de novembro de 1609, a passagem dos religiosos para as novas instalações, ainda em fase de edificação

Epígrafe que invoca a construção.jpgEpígrafe que invoca a construção do novo convento de Sâo Francisco (foto de António Cal Gonçalves), pg. 66

Em termos estético-estilísticos, podemos enquadrar a nova construção conventual nos cânones estéticos do maneirismo, bem presentes na fachada do edifício, de cuja descrição se encarregou o historiador de arte António Nogueira Gonçalves nos seguintes modos: “A frontaria da igreja, grande mas de simples composição de pilastras, divide-se em três zonas: a baixa, com os cinco arcos do átrio; a das janelas, mais estreita, acolitada de dois torreões cheios, terminados em obeliscos; a terminal, só com o grande nicho, onde se encontra uma fraca escultura da Senhora da Conceição, acompanhado de duas outras menores e independentes, S. Francisco e outro santo da Ordem [Santo Antônio]. A sineira fica recuada da linha da fachada; mostra uma ventana grande e, como apenso, uma outra muito menor, para sineta".
O programa estabelecido para o interior da igreja consubstanciou-se numa nave de grandes dimensões, ladeada por três capelas laterais em cada lado, com ligação à zona conventual no lado da Epístola, localizando-se ainda, sobre o nártex, um coro alto que detinha passagem para os espaços privados dos frades franciscanos.

Fachada principal do convento.jpgFachada principal do convento de São Francsco (foto de António Cal Gonçalves), pg. 67

Importa, de igual modo, compreender as restantes dependências que ladeavam a igreja, insertas numa fachada de três filas de janelas colocadas de modo simétrico. Neste quadrante encontram-se a casa do capítulo, a livraria (ou biblioteca), oficinas, os corredores dos dormitórios e respetivas celas, o claustro e nas suas proximidades outras demarcações de intuito doméstico, identificadas como sendo a cozinha, a dispensa, o ante-refeitório, o lavabo e o refeitório.
Na cerca do convento instalou-se uma pequena ermida, provavelmente dedicada a São João Batista, cuja datação surge marcada na entrada com o ano de 1624. Ainda no exterior, desta vez no adro de acesso à igreja, situou-se um cruzeiro datado da mesma centúria que a edificação do convento, embora, por razões de alteração do trajeto viário e, mais tarde, do foro estritamente funcional – uma vez que se achava implementado à entrada da fábrica -, este fosse apeado do local primitivo.
A ocupação dos espaços conventuais pelos frades franciscanos foi interrompida abruptamente pela lei da extinção das ordens religiosas, assinada por Joaquim António de Aguiar, em 30 de maio de 1834. Antes mesmo da referida data que modificou, sobremaneira, a vida dos seguidores da regra monástica assentes por todo o país e, em particular, o contexto religioso da própria cidade de Coimbra, não deverão ser esquecidas as vicissitudes que ocorreram no complexo conventual nos inícios de Oitocentos, sendo ocupado pelas tropas gaulesas - durante as invasões francesas a Portugal (1807-1811) -, que dele improvisaram um hospital de campanha militar.
Descobertas arqueológicas recentes confirmam a presença do referido contingente, uma vez que se exumaram, em valas comuns, cerca de 600 indivíduos do sexo masculino, cujos vestígios da sua indumentária nos reportam indubitavelmente para um contexto militar. Alguns relatos da época afiançam que foi a própria população conimbricense responsável por tais assassinatos, uma vez que após a saída para sul dos soldados liderados por André Masséna, os feridos da Batalha do Buçaco foram deixados nos aludidos hospitais, à mercê da fúria da população. Tais episódios da história da cidade ainda não se encontram devidamente esclarecidos, revestindo-se mais de "sombras" do que de "luzes", faltando ainda compreender a situação dos próprios frades franciscanos perante a ocupação do seu locus matricial.
Com a passagem dos bens religiosos das casas masculinas para o Estado, através do já referido decreto de 1834, o convento de São Francisco viveu tempos novamente tumultuosos, com a saída definitiva dos seus ocupantes, sujeitando-se, num período inicial, ao abandono e à rapacidade. Deste modo, o ciclo primordial fechou-se e um novo se abriu, onde o murmúrio das orações e de vida em comum ditada por uma regra será substituído pelos sons industriais das máquinas e dos trabalhadores.

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed.Pg. 66-70

 

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por Rodrigues Costa às 12:53


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