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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 30.03.21

Coimbra: Evolução do Brasão do Concelho 3

No parecer sobre as armas de Coimbra, que formulei em setembro de 1930, transcrevi umas referendas feitas pelo Sr. Dr. Simões de Castro num trabalho intitulado «O Brasão de Coimbra» e publicado em 1895 na revista «O Instituto».

Os dois últimos selos de Coimbra.jpg

Os dois últimos selos de Coimbra: à esquerda, o que se usou até 1930: à direita o atual.

Era o seguinte

No «Catalogo dos bispos de Coimbra» de Pedro AIvares Nogueira (manuscrito existente no cartório da Sé d'esta cidade, hoje publicado nas «Instituições Christãs» por diligencia do sr. Cónego Prudêncio Quintino Garcia) havíamos lido a pág. 7: As armas de que usava esta cidade não eram as que agora vemos comummente pintadas; mas era somente um rosto de uma mulher com uma touca grande, e as pontas da touca lhe chegavam até ao ombro de cada parte e com uma coroa de rainha na cabeça … Depois. disto usaram de outras armas, que eram um vaso no qual aparecia uma mulher dos peitos para riba com uma coroa na cabeça. E ao pé do vaso estava uma cobra que parece que andava… Depois se mudaram estas armas da maneira por que vemos, porque puseram neste vaso de uma parte uma serpente, da outra um leão; a razão destas mudanças e das armas deixamos aos curiosos.

primeiro dos treze selos citados por Pedro Alvares Nogueira, consistia apenas n'um busto de uma «Mulher com uma touca grande, as pontas da touca lhe chegavam até ao ombro de cada parte e com uma coroa de rainha na cabeça.» [Este selo foi casualmente encontrado pelo] Sr. Dr. Rui de Azevedo, quando procedia a buscas de assuntos diferentes, no Arquivo da Torre do Tombo, Caixa 25 da Coleção Especial, 2.ª parte.

Dos documentos assim selados, segundo a amável leitura do Sr. Dr. Laranjo Coelho, consta o seguinte:

Carta de venda de urna vinha, no sitio denominado Algeara, termo de Coimbra, que fazem Egídio Salvador e sua mulher D. Maria, a Domingos Fernandes, clérigo, datada do mês de novembro da era de 1278. Tem pendente um sêlo de cera vermelha com a inscrição que parece dizer – Sigillum Concilie Colimbrie – Maço 3. Caixa 25, Parte II da Coleção Especial.

Carta de venda de uma casa com sobrado que fazem Pedro Gonçalves Chasco e sua mulher, a João Fernandes, clérigo, de Coimbra, datada do mês de julho da era de 1283 (1245). Tem pendente um selo de cera vermelha no qual parece ler-se a inscrição Sigillum Concilie Colimbrie – Maço 3. Caixa 25, Parte II da Coleção Especial.

Sigillum Concilie Colimbrie.jpg

Sigillum Concilie Colimbrie

 Por aqui se demonstra que até 1245 era usado este selo.

O Dr. Simões de Castro, mais adiante, no seu trabalho citado, refere-se a um escrito de 1265 que já descreve o selo com a cobra e a taça, ou seja, o selo que aparece no documento da aclamação de D. João I em 1385. Esta referência é tirada de um manuscrito de D. José de Cristo, existente na Biblioteca Pública Municipal do Porto.

Este elemento será verídico? De facto, em 1265 já teria aparecido este selo? Por enquanto, o único documento conhecido com tal é de 1365, e assim atribuir poderíamos atribuir os acrescentamentos feitos às armas de Coimbra, ou a factos da vida do Rei D. Dinis e de sua mulher a Rainha Santa Isabel, ou à vida de D. Inês de Castro.

MNMC6344, E594 a.jpg

© DGPC| Arquivo do MNMC. 6344, E594

MNMC6347, E597 b.jpg

© DGPC| Arquivo do MNMC. 6347, E597

É este outro ponto que falta esclarecer: saber a data exata em que foi acrescentado o selo de Coimbra com a cobra, a taça, as flores e os escudetes das quinas acompanhando o busto que já vinha do selo anterior.

Dornelas, A. Os Selos da Cidade de Coimbra. In: O Instituto, Vol. 88.º. 1935. Pg. 5-16. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt

 

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por Rodrigues Costa às 20:05

Terça-feira, 23.03.21

Coimbra: Evolução do Brasão do Concelho 2

Eu concordo que muitos autores, copiando-se, tenham repetido que a dama sai da taça, mas no selo que existe no célebre documento das Côrtes de Coimbra em que D. João é feito Rei de Portugal, é que nem por sombras a representação da taça tem tal atribuição e, além disso, antes deste selo, houve outro (como abaixo demonstrarei) em que a taça nem aparece.

Os dois mais antigos selos de Coimbra.jpg

Os dois mais antigos selos de Coimbra: à esquerda, o primitivo; à direita o que autentica o acto de aclamação de D. João I.

 A minha opinião é que, na desarrumação que fizeram depois de D. João I ao mesmo selo, procuraram arranjar melhor simetria, colocando a taça ao centro e, então, o busto que estava em chefe, passou a figurar sainte da taça, sendo isto um erro facílimo de suceder.

Quando um dia se encontrar um documento ou uma referência ao acrescentamento que fizeram às armas de Coimbra, então se verá qual foi a intenção do ordenador dessas armas e talvez se demonstre que nunca houve a intenção de meter o busto da mulher dentro da taça.

O que é possível é que houvesse a ideia de fazer desaparecer a taça, passando a representar-se o busto com o respetivo pedestal.

Enfim, é uma investigação que ainda não está terminada, sendo provável que só termine quando aparecer o tal documento ou referência que nos diga quando entrou o leão nas armas de Coimbra, portanto, quando lhe deram essa arrumação pondo a taça ao centro. Infelizmente, no Museu de Machado de Castro, só aparecem esculturas posteriores a D. João I; portanto, todas têm já o leão.

Também foi transformada outra peça das mesmas armas; a primitiva cobra, que aparece no selo que está no documento da aclamação do Rei D. João I, passou depois a ser uma serpe alada.

Nas esculturas do Museu de Machado de Castro, reproduzidas nos estudos referidos dos srs. António Gonçalves e Simões de Castro, só aparece a cobra em duas das esculturas; nas outras, já esta figuração é fantástica, com asas e cabeça de formas esquisitas, e até com braços e garras.

MNMC710; E589 a.jpg

© DGPC| Arquivo do MNMC. 710; E589

MNMC6345, E595 (em madeira) a.jpg

© DGPC| Arquivo do MNMC. 6345, E595 (em madeira)

Dornelas, A. Os Selos da Cidade de Coimbra. In: O Instituto, Vol. 88.º. 1935. Pg. 5-16. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt

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por Rodrigues Costa às 19:02

Terça-feira, 17.11.20

Coimbra: Primeiro túmulo da Rainha Santa 2

… A concepção de um juízo particular imediatamente post mortem torna-se gerador do temor do dia do passamento, potencia a necessidade de que a memória do defunto seja sempre recordada e que se invista no seu acesso às bem-aventuranças eternas, junto de intercessores privilegiados. Por conseguinte, completa esta face da arca tumular, acompanhando o cortejo das monjas clarissas, uma trilogia de Santos: S. Francisco, S. Luís de Tolosa e Santa Clara, da mesma família religiosa em quem a rainha Isabel depositou a confiança necessária para se acolher nos seus últimos tempos de vida e legar os seus reais despojos (vide Fig. 4).

Túmulo da Rainha Santa, frontal direito.pngOp. cit. Fig. 4 – Túmulo da Rainha Santa, frontal direito, pg. 78

Para obter a ressurreição, que só a Deus pertence, a rainha esco­lheu a intercessão dos Apóstolos e da sua família franciscana, que fez inserir contrapostos nos frontais do seu túmulo (vide Fig. 4 e 5)

Túmulo da Rainha Santa, frontal esquerdo.pngOp. cit. Fig. 5 – Túmulo da Rainha Santa, frontal esquerdo, pg. 79

… No entanto, a invocação intercessora prioritária é a da Virgem, tal como se pode comprovar pela representação duplicada que tem no facial da cabeceira. Enquanto sofredora, aos pés da cruz, a tes­temunhar, juntamente com S. João, o drama da Paixão de seu Filho e, também, como soberana com o Menino ao colo. Na repetição desta figura tutelar pode ver-se a intenção de à morte acrescentar a vida, o que se processou através de uma iconografia, então ainda em fase de disseminação, a do Menino Jesus e com ele da infância. Nesta opção não pode deixar de se ver expressão da vontade da própria rainha, mãe e avó extremosa, numa altura em que começava a florescer o interesse pelas crianças (vide Fig. 6).

Túmulo da Rainha Santa, facial dos pés.png

Op. cit. Fig. 6 – Túmulo da Rainha Santa, facial dos pés, pg. 80

Túmulo da Rainha Santa, facial da cabeceira.pngOp. cit. Fig. 7 – Túmulo da Rainha Santa, facial da cabeceira, pg.81

… Através da iconografia da sua última morada, acedemos ao que consideramos o testamento espiritual de Isabel de Aragão que, ao colocar os receios da justiça divina no momento em que a alma se separa do corpo, remete para um tempo em que as orações por intercessão ganham um valor acrescido e em que a Igreja, em particular as ordens religiosas, se apoderam do corpo dos defuntos, em função da sua hierarquia e prestígio social, e se tornam especialistas da sua memória.

Créditos: Florentino Bernardes Franco e Babo Ribeiro – © Confraria da Rainha Santa Isabel

Macedo, F.P. O primeiro túmulo da Rainha Santa: Relicário e Relíquia. In: Isabel, Rainha e Santa. Pervivência de um culto centenário. Rebelo, A.M.R., Urbano, C.M. Coordenadores. Coimbra, Imprensa da Universidade. Pg. 45-81.

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por Rodrigues Costa às 19:35

Sexta-feira, 13.11.20

Coimbra: Primeiro túmulo da Rainha Santa 1

A arca tumular da rainha Santa, coroada de jacente, continua a motivar, ainda hoje, forte impacto em quem a visita, no coro baixo do mosteiro de Santa Clara-a-Nova de Coimbra, onde atualmente se encontra preservada.

… As manifestações populares, ocorridas no decurso das solenes exéquias, responsáveis por rodear de uma auréola de sobrenatural a carismática e venerada figura da rainha, são expressão do começo do seu culto público estimulado pelo círculo dos que lhe eram mais próximos. Ganha cada vez maior consistência a ideia de que a origem do culto da Rainha Santa resulta, no essencial, da ação pronta e conjugada de duas pessoas que lhe eram próximas, o filho D. Afonso e Frei Salvado Martins, seus executores testamentários.

Para se fazer perpetuar na sua última morada, Isabel de Aragão escolheu um jacente evocador da sua personalidade, da posição que ocupou na hierarquia do poder e da excelência da sua linhagem. Ao orgulho da sua individualidade e condição, patente em elementos caracterizadores do seu percurso terreno e da exaltação enfatizada da estirpe, associa-se o discurso escatológico de todo o sepulcro, onde transparecem, sob o manto da linguagem religiosa, a relação da tumulada com o sagrado e as suas inquietações face à descoberta do seu destino último e se deixa entrever a complexa questão, ainda hoje não cabalmente esclarecida, do que era viver e morrer na Idade Média (vide Fig. 1).

A efígie régia “estática, volumosa e perturbante” é singularizada de modo eloquente pela coroa, o hábito de clarissa e as insígnias de peregrina, símbolos da afirmação da sua excecionalidade, tanto no mundo civil como religioso.

Túmulo da Rainha Santa, jacente e frontal direitoOp. cit. Fig. 1 – Túmulo da Rainha Santa, jacente e frontal direito, pg. 76

Verdadeiro documento de individualidade, traçado pela rainha sem constrangimentos ou falsas modéstias, apartado de uma imagem fantasiada de total despojamento e humildade forjada em tempos modernos e que até aos nossos dias foi continuamente passada (vide Fig. 2)

Túmulo da Rainha Santa, pormenor do jacente.pngOp. cit. Fig. 2 – Túmulo da Rainha Santa, pormenor do jacente, pg. 77

A conjugação de elementos aparentemente paradoxais: a coroa de rainha e descendente de reis, rodeada da heráldica que a individualiza, (os escudos palados de infanta de Aragão, as cinco quinas com bordadura castelada de rainha de Portugal e as águias bicéfalas do império alemão, herdadas de sua mãe); quatro pequenos cães domésticos, distintivos do seu elevado estatuto social, a remeterem para o quotidiano das casas de morada de uma dama de alta estirpe, em que eram usuais; o livro que segura junto ao peito, em alusão a uma vida pautada pelo cumprimento empenhado dos deveres religiosos de oração, jejuns e caridade; o porte do hábito religioso de clarissa da terceira ordem, num mimetismo directo com a mortalha escolhida, em sinal de humildade e recolhimento; o bordão e a bolsa das esmolas e dois anjos turiferários a acompanharem a sua derradeira viagem, numa menção explícita ao ideal de peregrinação, uma das mais perfeitas formas de ascese que o cristianismo medieval apontava aos que ansiavam pela salvação, fazem do seu jacente um tempo (vide Fig. 3).

Túmulo da Rainha Santa, pormenor do jacente 2.pngOp. cit. Fig. 3 – Túmulo da Rainha Santa, pormenor do jacente, pg. 78

Créditos: Florentino Bernardes Franco e Babo Ribeiro – © Confraria da Rainha Santa Isabel

Macedo, F.P. O primeiro túmulo da Rainha Santa: Relicário e Relíquia. In: Isabel, Rainha e Santa. Pervivência de um culto centenário. Rebelo, A.M.R., Urbano, C.M. Coordenadores. Coimbra, Imprensa da Universidade. Pg. 45-81.

 

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por Rodrigues Costa às 10:23

Sexta-feira, 01.05.20

Coimbra: Lei das Sesmarias, o exemplar do AHMC 2

Extratos da versão para português atual

Lei das Sesmarias, folha 2 pormenor do Exórdio da

AHMC. Lei das Sesmarias, folha 2 pormenor do Exórdio da ordenação da lavoura

Exórdio da ordenação da lavoura
Por que segundo disseram os antigos sabedores entre todas as artes e obras da polícia e regimento do mundo não foi achada nenhuma melhor que a agricultura e pelo facto e pela razão natural se mostra que ela é mais proveitosa e necessária para a vida dos homens e das animálias … considerando como para todas as partes dos nossos reinos há desfalecimento de pão e da cevada … Esguardando como entre todas as razões para que este desfalecimento e carestia aconteça, a mais certa e especial é por míngua das lavras, que os homens deixam, e se partem delas entendendo em outras obras, e em outros mesteres, que não são tão proveitosos para o bem comum.

Lei das Sesmarias, folha 2 pormenor da Ordenação

AHMC. Lei das Sesmarias, folha 2 pormenor da Ordenação de como as herdades devem ser lavradas

Ordenação de como as herdades devem ser lavradas
Estabelecemos e ordenamos e mandamos que todos que hão herdades suas próprias, ou tiverem emprazadas, ou aforadas, ou por outra qualquer guisa, ou título, por que hajam direito em essas herdades, sejam constrangidos para as lavrar e semear.

Dos bois
E por que pode acontecer que aqueles que hão de ser constrangidos para lavrarem, e terem bois para a lavoura, não os puderam achar, para os comprar, se não por muito grandes preços, mais do que o que valeriam aguisadamente, temos por bem e mandamos que sejam constrangidos, aqueles que os tiverem para vender, para os darem àqueles que os mester houverem, e os hão de ter por preços aguisados, segundo for taxado pelas justiças dos lugares, ou por aqueles que forem postos por vedores para isto.

Lei das Sesmarias, folha 3 pormenor do item dos Ma

AHMC. Lei das Sesmarias, folha 3 pormenor do item dos Mancebos e Servidores

Dos mancebos e Servidores
E a muitos daqueles que usavam de lavrar e que serviam no mester da lavoura, deixaram esse mester da lavoura, e recolheram-se aos paços dos ricos homens e fidalgos por haverem vivenda mais folgada e mais solta… Porém temos por bem e mandamos que todos que foram, ou deviam ser lavradores, e outrossim os filhos e netos dos lavradores e todos os outros moradores, assim nas cidades e vilas como de fora delas, que houverem de seu, meor quantia de quinhentas libras … sejam constrangidos para lavrar e usar do dito mester e oficio da lavoura.

Dos pedintes e religiosos
E por que a vida dos homens não deve ser ociosa e a esmola não deve ser dada se não àquele que por si não pode ganhar, nem merecer por serviço de seu corpo porque se mantenha … sejam constrangidos para servirem aquelas obras que as ditas justiças, ou aqueles que para isto forem postos, virem que podem servir por seu mantimento e por sua soldada … E aqueles que acharem andar, ou viver em hábito de religiosos que não são professos dalguma das ordens aprovadas como sobredito é, digam-lhes e mandem que vão lavrar e usar do mester da lavoura.

Glossário: animálias = animais, bestas; desfalecimento = falta, engano, falha do preciso; esguardar = ter em consideração, acautelar-se; meor = menor; mester = ofício, ocupação, trabalho; mingua = falta, diminuição; outrossim = também, de outro modo; policia = governo, administração.

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Lei das Sesmarias, 1375. Transcrição paleográfica. Versão para português actual e Glossário de Termos. Coimbra, sem data.

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por Rodrigues Costa às 10:47

Quinta-feira, 30.04.20

Coimbra: Lei das Sesmarias, o exemplar do AHMC 1

Muitos de nós, especialmente os que têm mais de 60 anos, já ouviram falar da Lei das Sesmarias. Mas o que poucos sabem é que no Arquivo Histórico da Câmara de Coimbra se encontra guardado um exemplar dessa lei.

Lei das Sesmarias, capa.jpg

AHMC. Lei das Sesmarias, capa

Recordo que a palavra sesmarias, entre outros significados, diz respeito a terras não cultivadas ou abandonadas e que a Lei das Sesmarias foi promulgada em Santarém, em de maio de 1375, reinava D. Fernando.
Surgiu por força das grandes dificuldades decorrentes da peste negra que levou a uma forte redução da mão-de-obra nos centros urbanos, a uma subida dos salários dos artesãos e à consequente migração dos que trabalhavam a terra para as cidades.
O resultado foi que a seguir à peste, veio a fome por escassez de cereais. Daí o surgir de uma lei que tentava fixar os trabalhadores rurais e que tinha como a mais forte medida, a expropriação da terra se os seus donos a não trabalhassem.
De uma forma muito simplista é este o enquadramento da Lei das Sesmarias, cujos resultados efetivos se desconhecem.

Do exemplar coimbrão – que está guardado em Pergaminhos Avulsos e tem o número 29 – as Técnicas em serviço no AHMC fizeram:
. Transcrição paleográfica.
. Versão para português actual, complementada por um Glossário de Termos.

Trabalho que permite a qualquer um poder ler o documento, o qual se encontra dividido nos seguintes itens: Exórdio da ordenação da lavoura; Ordenação de como as herdades devem ser lavradas; Dos bois; Dos mancebos e Servidores; Dos pedintes e religiosos; Dos vedores e dos que hão de constranger para servir; Dos gados; Dos mercadores.
O exemplar coimbrão termina com o seguinte item.

Lei das Sesmarias, folha 12 pormenor.jpg

AHMC. Lei das Sesmarias, folha 12 pormenor

Item cuja versão para português atual é a seguinte

Publicação de Coimbra
Era de mil e quatro centos e treze anos, primeiro dia de Junho na cidade de Coimbra, presentes Gil Anes, vassalo d’el rei e sobre juíz na Casa do Civel e Corregedor em essa casa e na dita cidade e Gonçalo Miguéis, ouvidor do crime e Gonçalo Anes, sobrejuíz e Gonçalo Martins, procurador nos feitos d’el rei e Afonso Martins Alvernaz, juiz por esse senhor na dita cidade e Outros muitos homens bons chamados e ajuntados para isto foram publicadas e lidas estas ordenações suso escritas. Eu Estevão Anes, escrivão da chancelaria da dita casa isto escrevi.
Egidius Johanis (assinatura autógrafa)

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Lei das Sesmarias, 1375. Transcrição paleográfica. Versão para português actual e Glossário de Termos. Coimbra, sem data.

 

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por Rodrigues Costa às 10:03

Terça-feira, 28.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 1

No passado mês de abril publiquei uma entrada sobre o primitivo Convento de S. Domingos.
Entretanto chegou ao meu conhecimento uma imagem das escavações realizadas e a que ali me referi a qual, a dado o seu interesse, ora reproduzo.

Diapositivo5.jpg

Descoberta das estruturas do Convento medieval (primitivo) de São Domingos (1227) no Centro Histórico de Coimbra
LUSA - Agência de Notícias de Portugal, 23 de Fevereiro de 2009

xxx

No texto publicado era feita uma referência a Frei, ou, Dom, ou São Paio de Coimbra.
Pouco ou nada sabendo sobre esta figura da nossa terra foi, entretanto, possível recolher as informações que agora se divulgam.

Há trinta anos, pelo menos, quando nos pusemos a estudar um por um, todos os códices alcobacenses da Biblioteca Nacional de Lisboa, respeitantes à Idade Média … vieram ao nosso encontro estes sermões [o Sermonário de Frei Paio de Coimbra, o Cód. Alc. 5/cxxx], ou melhor, esquemas de sermões, escritos em pergaminho, em letra de transição do séc. XIII, com iniciais a vermelho e azul, filigranadas … Só desejamos acentuar que todo o códice (e não unicamente os sermões de Frei Paio) se destinava a pregadores mais ou menos incipientes. Era um manual teórico e prático de oratória cristã.

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Frontispício do Sermonário. Cod. Alc. 5/cxxx Fotocópia de microfilme: Hill Monastic Manuscript Library, 1980

Tornando aos sermões, foi seu autor o dominicano Frei Paio de Coimbra ou Pelagius Parvus. E conforme a nota final, da mesma letra, foi copista deles o monge alcobacense Frei Domingos Pires ou Peres (Dominicus Petri), no ano de 1250, a pedido de Dom Pedro Eanes, abade do Mosteiro de Tarouca.
Frei Luís de Sousa [refere] a data duvidosa da morte de Frei Paio de Coimbra, [citando uma lápide que dizia] «Aqui jaz Frei Paio, primeiro prior deste convento [de S. Domingos-o-Velho de Coimbra] e notável pela santidade de costumes e pela glória dos seus milagres».
Morreu à volta de 1240. E acrescenta Frei Luís de Sousa: «foi sua vida e morte surda e sem rumor». Talvez isto explique a ignorância do ano exato em que morreu um dos maiores pregadores do séc. XIII.
… Outros autores apontam o ano de 1257 (e não o de 1240), o que faz supor a inexistência de lápide antiga com ano certo. De contrário, talvez a levassem quando trasladaram o túmulo ou as ossadas.
O cónego coimbrão Pedro Álvares Nogueira (f 1598) fala-nos também de Frei Paio, assim como do «mosteiro de sam Domingos o velho». Nele esteve muitos anos a sepultura do grande pregador, até que «os frades levarão tudo pera o mosteiro novo e não deixarão mais que hum sino, em lembrança do milagre» que, na fundição do mesmo sino, realizou «o bemaventurado sam Payo».

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São Frei Paio. Capela do Espírito Santo, Carapinheira, Montemor-o-Novo. Testemunho do culto popular
Foto: Bernardino F. C. Marques

… Que nos dizem de Frei Paio os informadores (diretos ou indiretos) de Frei Gerardo? Pois bem, dizem que ele confessou e pregou durante largo tempo e partiu deste mundo no convento de Coimbra, rodeado pelos outros frades postos de joelhos e a rezar.
Passado algum tempo (notemos a frase) morreu outro frade e enterraram-no junto do seu coval... Ora, tanto o coveiro como os frades sentirem evolar-se dele um perfume maravilhoso e uma espécie de névoa. E estando bastante doente a filha do coveiro e sem poder levantar-se, de regresso a casa ofertou-a a Frei Paio… isto é, fez por ela uma promessa. Logo se levantou a moça, pegou no cântaro e foi buscar água ao rio, sem doença nenhuma.
... A fama de santidade, julgamos nós, espalhou-se mais a partir do povo … Segue o famoso milagre da fundição do sino; mais outro duma mulher com dores no estômago; um escudeiro dos arredores de Coimbra e um frade dominicano do convento, ambos eles curados da febre; a confissão dum pecador empedernido; a cura dum cego que dantes se confessava a Frei Paio; cinco endemoninhados salvos da sua aflição … enfim, duas mulheres sarracenas, dos arredores de Coimbra, atacadas de febre e livres da doença, por tomarem terra do sepulcro de Frei Paio … Milagre deveras notável… por se tratar de muçulmanas, gente doutra religião.
… Ora bem, este frade, cuja morte foi «surda e sem rumor», deixou-nos uma coleção de sermões que podemos colocar, sem vergonha ao lado dos que escreveu Santo António de Lisboa, seu contemporâneo. Nada menos de quatrocentos e sete sermões, quase todos panegíricos de santos. Entre eles, dois sermões em louvor de Santo António, o que faz de Frei Paio um dos panegiristas antonianos mais antigos — e muito desejaríamos nós que fossem estes os mais recuados sermões ainda existentes, em honra do grande santo de Lisboa.
…Que os sermões de Frei Paio sejam de importância para a história da eloquência medieval, salta aos olhos, sobretudo para o caso português. E não só.
…Já provámos ter Frei Paio estado em Santarém. E decerto em muitas mais terras portuguesas, pois os pregadores … Que pregou em português não oferece dúvidas … entre os sermões de Frei Paio, existam nada menos de nove panegíricos de S. Tomás de Cantuária… significaria ter Frei Paio estado em Cantuária.
… Quanto à presença de Frei Paio em Bolonha (e por conseguinte noutros lugares da Itália) nenhuma dúvida possível. Foi Bolonha o lugar preferido para alguns dos primeiros capítulos gerais dos frades pregadores.

Martins, M. 1973. O Sermonário de Frei Paio de Coimbra do Cód. Ale. 5 / CXXX. In: Didaskalia. III (1973). Pg. 337-362. Acedido em 2919.01.03, em
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/11993/1/V00302-337-361.pdf 

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full

 

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por Rodrigues Costa às 09:47

Terça-feira, 23.04.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal, um lugar a visitar

Frequento com alguma assiduidade do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra e tenho para mim que se trata de um local que não pode ser ignorado por todos aqueles que se interessam pela história da cidade.
Alicerço a minha convicção em virtude do vasto e valioso acervo que ali se encontra depositado, constituído, em boa parte, pelos documentos fundacionais da nossa cidade. Além disso, pode sempre visualizar-se uma exposição temporária de médio ou longo prazo que mostra documentação original e contextualizada, na medida em que se encontra especialmente vocacionada para centrar, num discurso claro e integrado, uma mensagem relacionada com a cidade.

Também se pode observar a imagem de S. Jorge, montado num cavalo, a fim de participar na procissão do Corpus Christi, a festa maior que, durante muitos séculos, acontecia em Coimbra.

S_Jorge.pngImagem de S. Jorge

Não posso, nem quero, deixar de chamar a atenção para a grande competência, disponibilidade e simpatia das Técnicas responsáveis pelo aquivo e que atendem personalizadamente (o que é muito importante para quem investiga) todos quantos ali se deslocam.
Podemos ainda observar as varas que os vereadores outrora levavam nas mãos quando participavam em atos oficiais, bem como peças de vestuário que então utilizavam

obj20.JPGVaras dos vereadores da Câmara de Coimbra

A exposição temporária de médio ou longo prazo é periodicamente renovada e nela podem ser observados, quando integram a mostra, alguns destes documentos:

- Carta de Sentença
1297, Julho, 8, Coimbra. Carta de Sentença do Ouvidor da Corte, Estêvão Peres, ordenando ao alcaide de Coimbra, João Arrais, que restituísse a dízima, indevidamente cobrada ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, “atendendo ao Costume de Coimbra, sobre que foram perguntados os alvazis e homens bons”.
É o documento original mais antigo que se encontra no AHMC.

Carta de Sentença.png

 

- Carta partida por ABC
1299, Maio, 20, Coimbra. Instrumento de composição amigável feito entre o concelho de Coimbra, representado pelos seus procuradores Domingues Esteves e Martim Anes, mercadores, e o concelho de Penela, pelo procurador António Anes, sobre a jurisdição e direitos a cobrar nos lugares de Pousafoles-o-Velho, Pousafoles-o-Novo (conc. Miranda do Corvo); Pereiro (conc. de Penela); Cabeça de Boi e Lavarrabos (actual Rabarrabos, conc. de Penela).
O acordo alcançado referia que os moradores dos lugares pagariam “irmãmente a metade” de todos os serviços e tributos que aí fossem lançados quer pelo concelho de Coimbra, quer pelo de Penela.

Carta partida por ABC.jpg

Nota: Uma carta partida por ABC, era um pergaminho no qual era escrito um original e uma cópia fiel do mesmo, ambos devidamente assinadas. O pergaminho era cortado na forma que se vê na imagem, sendo cada uma das metades entregue às partes subscritoras. Se fosse necessário confirmar a veracidade de uma das partes, juntavam as duas e verificavam se o corte coincidia.

Lei das Sesmarias
1375, Junho, 1, Coimbra. “Exórdio da ordenação da lavoura”, conjunto de medidas decretadas por D. Fernando e posteriormente conhecidas por “Lei das Sesmarias”, para que “haja maior abundância no reino”, tentando recuperar a produção agrícola, após uma época de grave crise económica, provocada pela epidemia da “peste negra”. É um dos poucos originais do texto fernandino que hoje se conhece.

Lei das Sesmarias.jpg

Acordãos e Vereações
1491, 23 de Março a 31 de Dezembro, Coimbra. “Livro dos Acordos e Verações do ano de mil iiijc LRj”em que foram oficiais: João de Barros, cavaleiro e João Pessoa, juízes; Pedro Brandão, cavaleiro, Aires Alvelo e Álvaro Vasques, vereadores; Garcia Rodrigues Pacheco, procurador da cidade. É o mais antigo livro de registo das reuniões da vereação que se preservou até à actualidade.

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Arquivo Histórico Municipal de Coimbra ali na Rua Pedro Monteiro, no edifício da Casa da Cultura, ao cimo da Sereia. Vá por lá que vai gostar.

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Catálogo da Exposição. 2018

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por Rodrigues Costa às 09:46

Terça-feira, 02.04.19

Coimbra: Convento velho de S. Domingos

Segundo o cronista da Ordem [em Coimbra], o convento de São Domingos estava já formado em 1227 sendo seu prior Frei João e a iniciativa da fundação ter-se-ia ficado a dever a D. Branca, filha de D. Sancho I [a quem] atribui … todo o mérito da elevação do convento que … seria um dos mais antigos do reino, fundado antes de vinte anos decorridos sobre a confirmação da Ordem.

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S. Domingos. Gravura de Jacques Callot

… Frei Luís de Sousa … anota que D. Teresa, sabendo do propósito da irmã, como que dele se apropria e concede o lugar de Figueira Velha, para a instituição do mesmo, acrescentando, contudo, que a cargo de D. Branca teria ficado a construção, em si, do edifício.
Mas é possível que o convento de S. Domingos de Coimbra já fosse uma realidade em 1226, data em que um chantre da Sé … lega aos pregadores 10 morabitinos. Sem dúvida, no ano de 1229 aí se sepultava [um] cidadão de Coimbra.
… o arcebispo de Braga D. Silvestre (1229-1244), passando pelo convento de São Domingos, concedeu, a todos os homens que fossem ajudar nas obras, 40 dias de indulgência.
…. Logo desde o início da sua existência os Pregadores de Coimbra atraíram vocações …. Adquirem a credibilidade e estima dos vizinhos da cidade e arredores que lhes legam bens móveis e imóveis e escolhem o convento como sepultura.

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Frei Gerardo de Frachet, na sua obra Vitae Fratrum Orditiis Praedicatorum, dedicou aos sermões e aos milagres de Frei Paio de Coimbra várias páginas

… E o mosteiro de São Domingos de Coimbra teve a felicidade de contar, logo no início, entre os seus frades, com um pregador da envergadura de D. Paio de Coimbra. Os seus 407 sermões são o maior acervo de sermonaria medieval que possuímos, alguns dos quais poderão ombrear com os de Santo António de Lisboa. A sua palavra calaria fundo no coração do povo e a sua fama de santidade depressa se espalhou, chegando célere a Gérard Frachet que inclui a sua vida e milagres na «Vitae Fratrum», posta a correr em 1259.

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Localização do convento velho de S. Domingos na carta da cidade levantada em 1845 por Isidoro Emílio Baptista

…. Breves são estas notas históricas sobre o convento velho de S. Domingos, como breve foi também a duração do primitivo edifício e do seu arquivo, arrasado pelas cheias do Mondego… Segundo Nogueira Gonçalves situar-se-ia este primitivo convento ao fundo da Rua Direita, já na confluência com a atual Rua de Fernão de Magalhães, mas desconhece-se, completamente, pormenores sobre o seu traçado. Sabemos apenas que o claustro tinha dois pisos, abrindo-se para o superior a porta da sala do cabido, e o interior da igreja seria ornamentado com vários altares, entre eles o de S. Frei Gil, Santa Iria, Santa Catarina e, no final do século XV, o de Nossa Senhora do Rosário.
Os efeitos das águas já se faziam sentir em pleno século XIV … as obras do convento novo começaram em 1543.

Localização atual do convento velho de S. Doming

Localização do convento velho de S. Domingos, na atualidade. Imagem Google

Nota:
Há alguns anos, no início do atual milénio realizaram-se obras nos terrenos situados nas traseiras do antigo Hotel Almedina, atual Stay Hotel.
Face às estruturas e aos materiais encontrados no decurso desses trabalhos tornou-se necessário levar a cabo estudos arqueológicos – cujo relatório, julgamos, não se encontra ainda divulgado – que possibilitaram localizar o velho convento de S. Domingos naquele local. Já Nogueira Gonçalves, em artigos outrora publicados e relacionados com o assunto, apontara para aquela zona, embora com um pequeno desvio de cerca de 100 metros.

Coelho, M.H.C. e Matos, J.J.C. 1986. O Convento velho de S. Domingos de Coimbra. Contributo para a sua história. Separata do Arquivo Histórico Dominicano Português. Vol. III/2

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por Rodrigues Costa às 09:47

Quinta-feira, 10.01.19

Coimbra: Pesca Artesanal no Rio Mondego

A carne era o complemento alimentar básico da população [da população da região de Coimbra, no século XVI], mas como era escassa, o peixe do rio, ou vindo dos portos da costa mais próximos, como Buarcos e Aveiro, supria as necessidades maiores em anos de fome.
… O ano de 1526 foi terrífico, tendo a Câmara deliberado em 28 de fevereiro, que todo o peixe pescado no rio, fosse nas «bugigangas» [rede de malha apertada, com cerca de 20 metros, que com embarcações em cada extremo formavam um círculo em que o peixe ficava aprisionado] ou noutro qualquer artifício, teria de ser levado à praça, salvo aquele que os pescadores necessitassem para sua alimentação.
… conhecem-se notícias que vêm de muito longe, sobre a comercialização na cidade [de Coimbra] do peixe do rio e do mar, uma das quais se pode ler no «Livro das Kalendas» … [respeitante a] uma tenda … no local das «Tendas» que se estendia da Almedina à Sé, pela então Rua dos Fiveleiros, e hoje de Quebra-Costas. Essa tenda, identificava-se como a «casa da pedra do peixe» que, em data imprecisa, se mudou para a Rua das Fangas da Farinha. O peixe era então cortado e vendido à posta, e aquela «pedra» não tinha outra finalidade que não fosse a de servir de mesa para o seu corte. Era obrigatório reunir nesse local todo o peixe destinado à venda, para ser taxado pelos oficiais da Câmara, e escolhido, antes da venda pública, pelos privilegiados. Parece que o peixe seria mais volumoso do que é hoje e as condições económicas da maioria não seriam propícias à compra de peixes inteiros, tanto mais que a sua conservação se resumia à salga.
Nas «Posturas Municipais», publicadas em 1554, determinavam-se as obrigações relativas aos pescadores, à almotaçaria e aos locais de venda. Aquele peixe que viesse do mar seria vendido pelo próprio pescador que o trouxesse, e na barca ou azémola em que viesse, depois de ter sido taxado. O peixe do rio podia ser vendido pelas portas, assim como os mariscos.

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Dois caneiros no rio levantados com estacaria, redes, ou entrançado de vimes ou ramos de choupo. Desenho não identificado

… A legislação do tempo sobre a pesca é extensa, e aparece com frequência nas «Posturas, Cartas Régias, Alvarás, Forais» e outro tipo de legislação. Os primeiros documentos régios que se conhecem sobre o colocar no rio os «caneiros» … remontam a uma autorização de D. Afonso I concedida no ano de 1139, aos crúzios, para colocarem no rio, em seu benefício, aquele tipo de apanha do peixe que subia ou descia o rio.

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Barco de pesca do baixo Mondego. Desenho não identificado

… O Mosteiro era também autorizado a ter uma barca de pesca, no rio ou no mar, isenta de qualquer tributo.
… [no] regresso da tomada de Ceuta, são dados ao Infante D. Pedro junto com o título de 1.º Duque de Coimbra, inúmeros benefícios materiais, e, entre eles, o direito, expressamente mencionado, de ter um «caneiro» no rio. [Este caneiro] após Alfarrobeira, passou a ser referido por «caneiro real»
…. Conhece-se documentação que dá notícia de nas tendas do mercado da Almedina, aí pelos anos 40 do século XIV, haver tendas em que o peixe era vendido frito ou cozido.

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Um pescador coimbrão, setecentista, com rede ao ombro e cesta de peixe na mão. O fundo da gravura é o Mosteiro de S. Cruz, com a cruz de uma «estação», e a porta para a zona de Santa Margarida. Desenho não identificado

Os pescadores que livremente queriam pescar no rio, tinham que previamente se inscrever em livro próprio da Câmara … e pressionados pela mira do lucro ou por carências alimentares, não guardavam as distâncias entre os «caneiros», em que era proibido pescar, ou a eles iam, de noite, apanhar o peixe. Isso se depreende de queixas que a Cidade fez ao rei.

Livro das posturas dos piscadores, pormenor do in

Livro das posturas dos «piscadores», pormenor do início

…. No «Livro dos Regimentos e Posturas da Câmara» mais conhecido por «Livro I da Correia» … no capítulo que tocava às «pescadeiras» … eram obrigadas a vender todo o peixe, a peso, fresco ou seco, na praça ou no açougue do peixe – a tal «casa da pedra do peixe» – salvo os linguados, lampreias e azevias que se venderiam por contado, e finalmente os mariscos, que não tinham preço fixado e, portanto, variável.

Nota:
No Livro das posturas dos «piscadores» pode observar-se um pormenor deveras interessante. O mester Fernão da Serra à frente do seu nome colocou, desenhada, uma serra; contudo, pensamos que a assinatura terá sido caligrafada pelo escrivão e o mester, devendo ser analfabeto, em vez de colocar a costumeira cruz utilizava a figuração do seu apelido.

Livro das posturas dos piscadores, pormenor das as

Livro das posturas dos «piscadores», pormenor das assinaturas

Silva, A.C. A pesca artesanal no Rio Mondego como factor económico na vida Coimbrã. Separata do Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. X. 1988.

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por Rodrigues Costa às 11:46


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