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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 15.03.18

Coimbra: As Escolas da Sé e de Santa Cruz

Antecedendo o movimento de fundações universitárias que caracterizou o “Renascimento Medieval” e se estendeu a Portugal nos finais do século XIII, verifica-se a existência mais ou menos constante e conseguida, de um sistema de ensino que, durante largo período de tempo, garantiu a transmissão do saber.

Substancialmente ligadas à Igreja, na sua génese, no seu quadro orgânico e nos objetivos programáticos, as instituições escolares apresentavam-se sob duas modalidades fundamentais: as escolas catedralícia e as escolas monásticas.

De entre umas e outras, importa salientar aquelas que manifestaram mais estreita ligação à Universidade. Sã elas a Escola da Sé de Coimbra e as Escolas de Santa Cruz e de Alcobaça e ainda a Colegiada de Guimarães. 

Filósofo medieval, Grandes Chroniques de France.j

Filósofo medieval In: Grandes Chroniques de France

 A Escola da Catedral de Santa Maria de Coimbra – embora a data da sua fundação não possa ser estabelecida com rigor – terá sido criada entre 1082-1086, por iniciativa do bispo conimbricense, D. Paterno. Um documento de doação datado de 1008 traz a subscrição de um tal Petrus Grammaticus e, mais tarde, em pedra tumular conservada hoje no Museu Machado de Castro, uma inscrição com a data de 1102, fez chegar até nós o nome de João «mestre-escola» - o prebendado que superentendia na lecionação relativa ao trivium e quadrivium. Esta escola, onde se trabalhava a Gramática e a Dialética e, obviamente, a matéria teológica, tradicionalmente designada por «sacra pagina», destinava-se institucionalmente à preparação dos candidatos às ordens sacras. Os estudantes, reunidos em regime de vida comum, debaixo da regra de S.to Agostinho, habitavam em casas da dependência da sé ou do cabido.

Honorius of Autun’s Imago Mundi in a private col

 Honorius of Autun’s Imago Mundi

 ... A Escola de Santa Cruz, implantada no mosteiro do mesmo nome, que data da 2.ª metade do século XII, cedo se transformou num centro de formação e irradiação cultural, cujo papel foi decisivo para a consolidação da consciência da nacionalidade. É interessante notar que, no grupo de fundadores, figura o nome de D. João Peculiar, cónego e mestre da Escola da Sé conimbricense.

Relativamente ao quadro curricular, muito pouco se conhece ao certo; não andaria, porém, longe do esquema delineado, no seu «Didascalion», por Hugo de S. Vítor, de quem existiam diversas obras no «armarium» de Santa Cruz.

Seja como for, o ensino parece ter atingido grande amplitude e projeção funcionando as disciplinas profanas como propedêuticas do acesso à Teologia; é mesmo verosímil que as próprias ciências fossem abordadas, nomeadamente a medicina. De resto, a existência de um hospital na dependência do mosteiro recomendaria o estudo daquela ciência.

Conhecem-se alguns dos mestres que funcionaram nesta escola e alcançaram renome, como D. Frei João, teólogo, D. Frei Raimundo, profundo conhecedor em ciências diversas, D. Frei Pedro Pires, eminente na Gramática, Lógica, Medicina e Teologia. Para falar também de estudantes, basta citar Fernando de Bulhões, o futuro Frei António, já então frade franciscano, canonizado e declarado Doutor da Igreja Universal.  

 Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 10-21

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por Rodrigues Costa às 09:52

Terça-feira, 13.03.18

Coimbra: O Santo Cristo do Arnado

O Professor Doutor Nelson Correia Borges acaba de divulgar este excelente texto sobre o Santo Cristo do Arnado. Consideramos que as informações nele contidas, dada a sua importância, merecem uma mais ampla difusão e não devem ficar confinadas ao círculo restrito dos leitores do jornal onde foi publicado.

Santo Cristo do Arnado.JPG

 Senhor Santo do Arnado. Claustro da Sé-Velha de Coimbra

 

Era um cruzeiro de caminhos, como tantos outros que assinalam a entrada das localidades. Situava-se na antiga entrada de Coimbra, para quem vinha do Norte.

A velha estrada do Porto correspondia à atual rua da Figueira da Foz. Passava à Gafaria de S. Lázaro, fundada e dotada pelo rei D. Sancho I e, antes de chegar à rua da Sofia, aberta por Fr. Brás de Braga para a construção dos colégios universitários, derivava para o lado do rio em terreno de areais que deram o nome ao sítio: Arnado. Foi nos campos do Arnado que o mesmo rei D. Sancho I, ainda infante, fez o seu alardo em 1181, isto é, reuniu os homens de Coimbra que com ele partiram para combater vitoriosamente no Alentejo um rei mouro de Sevilha. O largo ainda hoje mantém aproximadamente o mesmo espaço de outrora. Dele partia uma viela para o porto de Santa Justa, no Mondego, a que corresponde a atual rua do Arnado; uma outra azinhaga, mais a sul, conduzia ao porto dos Cordoeiros. Daqui se entrava na cidade pela rua Direita, uma das mais importantes de Coimbra, onde se estabeleceram violeiros e cordoeiros.

Bem no meio do largo, no século XVI, os frades do convento de S. Domingos, que ficava próximo, erigiram o cruzeiro, cobrindo-o com uma cúpula sobre quatro colunas. Esta solução construtiva ainda hoje se pode ver em Arazede, Assafarge, Pocariça, Ventosa do Bairro, Vila Nova de Anços e em outras povoações da região.

Em 1652, um devoto, de seu nome Gaspar Mendes ou Gaspar dos Reis, decidiu fazer-lhe algumas benfeitorias: ergueu mais o cruzeiro por causa do assoreamento, ou levantando os degraus antigos ou construindo novos degraus; fechou o espaço entre colunas por três lados, colocando no da frente uma grade. Em 12 de Julho de 1655 os padres de Santa Justa-a-Antiga fizeram uma procissão com o Santo Cristo do Arnado até à sua agora capelinha, sinal de que as obras se prolongaram até esta data, tendo sido durante elas a imagem guardada na igreja de que agora só restam vestígios no Terreiro da Erva.

A imagem rapidamente ganhou fama de prodigiosa. Constou-se mesmo que em 1 de agosto de 1722 suara sangue e água, o que gerou grande afluência de devotos. Logo se tratou de ampliar o espaço reduzido que continha o cruzeiro, transformando-o em capela de uma nave com capela-mor, circundada de sacristia e arrumos. As obras começaram em 1723 e terminaram em 1729, sendo, entretanto, benzida em 1727.

A capela do Santo Cristo do Arnado foi demolida pela Câmara nos primeiros decénios do século XX, para obras de urbanização. Há anos atrás, quando se abriram rasgos para colocar o coletor grande da cidade, pudemos ver os seus restos destroçados e recolher um azulejo de fabrico local, para recordação. As lápides com inscrição relatando a história da capela foram recolhidas ao Museu Machado de Castro e o cruzeiro antigo levado para o claustro da Sé Velha, onde se encontra.

O conjunto escultórico, talhado em pedra de Ançã, é impressionante.  A cruz eleva-se sobre uma coluna de fuste liso com capitel coríntio renascentista, tendo no ábaco a cruz de Cristo. Lateralmente colocaram o brasão de armas da Ordem de S. Domingos e na frente as armas reais com uma píxide sobre a coroa. A cruz é de secção retangular e ergue-se sobre uma base de rocha com uma caveira e tíbias cruzadas. A escultura mostra um corpo emaciado, com os sofrimentos da Paixão patentes, o rosto desfalecido e sereno. Não poderia deixar de ter produzido grande impressão e fervor religioso quando se encontrava na sua casa. Se pensarmos que no século XVIII deve ter havido alguma intervenção na imagem, fácil nos é relacioná-la com o Cristo dos Olivais, de autoria comprovada de João de Ruão. Trata-se de uma obra que seguramente teria saído das oficinas do mestre escultor francês.

Recentemente procedeu-se ao arranjo urbanístico do Largo do Arnado. Foi pena não se ter aproveitado o ensejo para ali colocar uma qualquer memória de um culto que foi marcante no passado da cidade e que marcou muitas gerações de conimbricenses. A lendária Cindazunda já tem lugar de maior honra no brasão de Coimbra.

Nelson Correia Borges

 

Correio de Coimbra, n.º 4.683, de 2018.03.08

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por Rodrigues Costa às 09:01

Quinta-feira, 01.03.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 3

Passada a Sofia, a primeira coisa notável que se encontra é o velho mosteiro de Santa Cruz, fundação do nosso D. Afonso Henriques. Da primitiva obra nada ou mui pouco resta. – Consta que o antigo mosteiro era um edifício cercado e torreado, como um castelo: o templo tinha três naves; os claustros eram três, as celas oitenta e quatro. Hoje é mui diverso o estado das cousas. Porventura as celas são mais numerosas, os corredores mais elegantes, as oficinas mais acomodadas, os claustros mais magníficos; mas a igreja pareceu-nos acanhada, mesquinha, mal traçada, e de mau gosto, porque a vimos depois de ter lido pomposas descrições dela. O que ainda se conhece que realmente foi bom, é o portal lavrado de laçarias, e vultos, e mil invenções curiosas. Cremos que infelizmente entalharam esta obra em pedra de Ançã, em lugar de pedra canto; e por isso está tudo estragado e carcomido.

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 Mosteiro de Santa Cruz, pormenor da planta de Magne

 No corpo da igreja há muitas sepulturas de venerável antiguidade, e inscrições mortuárias que falam de nomes gloriosos: mas os mais notáveis sepulcros são os dos dois primeiros reis portugueses, D. Afonso e D. Sancho, colocados aos lados da capela-mor. Estes monumentos preciosos foram mandados fazer por el-rei D. Manuel, e aí se conservaram até o ano de 1832, em que D. Miguel os mandou arrombar, para ver o que continham: ainda no ano seguinte vimos as pedras quebradas, e os mal apagados sinais deste ato de barbárie.

As duas coisas mais importantes que havia no convento eram a livraria e o santuário: as preciosidades de um e de outro foram levadas para a cidade do Porto. Entre os quadros que adornavam o santuário dizem que estava uma «transfiguração» de Rafael, e a «adoração dos reis» de Rubens. Aí se mostrava uma espada, que se dizia ter sido de D. Afonso Henriques, e que se acha reunida á do moderno Afonso, o duque de Bragança, no museu do Porto, para onde também foi levada a escrivaninha e a pena com que assignaram os decretos do concilio tridentino, monumentos curiosos doados a Santa Cruz por D. Fr. Bartolomeu dos Mártires.

A quinta ou cerca de Santa Cruz é uma das mais extensas e maravilhosas de Portugal. Descrevê-la fora impossível na brevidade do nosso quadro. O lago é obra magnifica: mas as árvores que a rodeiam, cortadas em colunas e obeliscos, são apenas um dos mil exemplos de mau gosto dos antigos jardins. 

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 Sé Velha, antes do arranjo

 A paroquia de S. Cristóvão, ou Sé Velha, é o monumento de Coimbra mais digno de atenção, porque é porventura o único que resta em Portugal do tempo dos godos. A sua arquitetura não se parece, portanto, com a de outro algum edifício conhecido. As suas paredes, vistas exteriormente, assemelham-se às de um castelo; é talvez o que resta da primitiva, e um escritor moderno se enganou inteiramente, supondo os lavores da porta lateral do templo obra de arquitetos godos, quando basta vê-los para conhecer que foram lavrados no 13.º ou 14.º século. Posterior ainda a esta época é o interior da igreja.

No alto da cidade, onde estão os fundamentos do observatório novo, começado pelo marquês de Pombal, e nunca levado a cabo, jazia o antigo castelo, que foi demolido, e de que restam apenas alguns fragmentos. Este castelo era célebre pela ação heroica do leal Martim de Freitas,

A universidade está onde antigamente eram os paços reais, chamados das alcáçovas; neste edifício ainda existem muitos vestígios da sua origem remota. Nada diremos aqui acerca desse estabelecimento literário, que tantos homens ilustres tem dado a Portugal, porque o guardamos para um artigo especial.

A Sé Nova era a igreja dos jesuítas: ampla, e ao primeiro aspeto majestosa, um exame mais miúdo faz descobrir nela o ferrete de todos os edifícios daquela ordem – mau gosto de arquitetura.

Muitos outros monumentos notáveis se encontram na antiga capital dos portugueses, mas a brevidade necessária nos veda falar deles. Entretanto há aí uma cousa curiosa, de que ninguém tratou ainda, e que vale a pena de se mencionar. É esta a inquisição. Ela ainda está em pé com os seus corredores escuros, os seus carceres medonhos, as suas «espreitadeiras». Ainda aí se vê a casa dos tratos, com as paredes cheias de arranhaduras, e de manchas escuras, que porventura são de sangue!  - E não se deveria conservar este monumento de fanatismo para os vindouros, a quem parecerão impossíveis os horrores que se contam acerca da inquisição!

Nos arredores de Coimbra, pode-se dizer que cada pedra, cada campo, cada bosquezinho é um monumento histórico. – A fonte do Cidral e o Penedo da Saudade, quem os não conhece? – Atravessando a ponte para o lado de Lisboa, encontram-se à esquerda umas ruínas, e atrás delas um campo coberto de arvoredos e de hortas. Aqui houve um mosteiro ilustre: este foi o de Santa Clara, fundado por S. Isabel, e que o rio fez desaparecer. D. João 4.º edificou o novo no monte ao ocidente de onde em perspetiva se descobre a cidade.

Naquela margem do Mondego está também a Quinta das Lágrimas, e a Fonte dos Amores. No palácio pertencente à quinta sucedeu, segundo dizem alguns, o trágico sucesso da morte de D. Inês de Castro. A Fonte dos Amores, rica de recordações e pobre de adornos, lá corre ainda caudal para um tanque meio entulhado. Descrita por poetas, viajantes, e historiadores, calará acerca dela a nossa mal aparada pena, e só faremos um voto para que a mão do homem não derrube os últimos cedros que a assombram, e que são testemunhas das memórias de muitos séculos.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 122-123

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por Rodrigues Costa às 22:15

Terça-feira, 27.02.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 2

Como todas as cidades antigas, Coimbra é para ser vista de fora; porque colocada em anfiteatro o seu prospeto é formoso; mas vistas interiormente as ruas são tortuosas, e em grande parte tristes. Há ali um cunho de decrepitude; sem haver, salvo em raros edifícios, a majestade dos séculos. A bondade, porem, dos ares, a barateza do sustento, a amenidade dos campos e hortas vizinhas a tornam cómoda e agradável. Os habitantes são em geral alegres e folgazões, ao que os aconselha e inclina o céu e o ar e o solo que a Previdência lhes deu. Quando a natureza ri á roda de nós, alegra-se e folga o coração do homem, e o sorriso vem habitar nos seus lábios.

O Mondego que sumiu grande parte da antiga Coimbra, assentada na planície, ao sopé do monte onde hoje campeia o principal da cidade, é o maior rio dos que nascem em Portugal. Tem as suas fontes nos altos da serra da Estrela, e correndo por mais de vinte léguas, vem meter-se no oceano junto á vila da Figueira. – A sua pequena correnteza na proximidade de Coimbra, e o passar entre montes, cuja terra se esboroa e vem ao leito do rio com as torrentes do inverno, tem feito com que o álveo se vá alteando, de modo que nas grandes cheias os campos ficam inundados. Entretanto na cidade baixa a corrente impetuosa faz notáveis estragos, deixando as casas em sitio. Felizmente estas cheias desmedidas são pouco frequentes: mas a tortuosidade do rio que contribui para que as areias fiquem retidas, fará no decurso dos tempos com que a baixa Coimbra se converta num areal, se a arte não souber pôr barreiras invencíveis ás irrupções das águas.

Já desde os fins do século passado se trabalha por obviar a este dano certo, e aos estragos que as cheias causam nos campos de Coimbra, areando-o, e tornando-os inférteis; mas o mal não foi ainda remediado. Nos anos demasiadamente chuvosos as estacadas de encanamento são rotas e derrubadas, ficando perdido num dia o trabalho de uns poucos de anos, e o rio se estende como vasto mar por aquelas dilatadas campinas.

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 Rio Mondego ponte de pedra

 Sobre o Mondego está lançada a formosa ponte que se vê na nossa estampa, e que une a cidade com a margem esquerda do rio, dando para a estrada de Lisboa. Foi edificada por el-rei D. Afonso Henriques; mas o tempo e as aluviões do rio sepultaram a primitiva fabrica. Segundo o testemunho do historiador Barros já pelo seu tempo se haviam submergido duas pontes: a que existe, obra, quase toda, de el-rei D. Manuel, apesar de sucessivos reparos, também já vai tendo entulhados os primeiros e últimos arcos, e com o andar do tempo ficará provavelmente sepultada, como as antigas, debaixo das areias do rio.

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 Rua da Sofia

 Quem entra na cidade pela estrada do Porto vem desembocar na mais formosa rua da cidade, a «Sofia», rua bordada quase só de conventos, ou colégios, de diversas ordens monásticas. Estes conventos, hoje desertos, serão em breve montes de ruínas. Em Coimbra, cidade de pouco trato, não se achará quem compre estes edifícios vastíssimos; e a rua da «Sabedoria», [Sofia] orlada de paredes desmoronadas, será a imagem epigramática do estado intelectual do nosso país.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 121-122

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 05.12.17

Coimbra: Mosteiro de Santa Cruz, o porquê do nome

É sabido que os mosteiros e conventos ocupam os melhores troços de paisagem: vales férteis, outeiros com vistas soberbas, e, em regra geral, assegurando a presença de água dentro das suas cercas – bem cumprida no caso do Mosteiro de Santa Cruz.

... sempre seguro na sua excelente localização ao longo do vale da Ribela, vale largo de terras férteis para onde corriam águas de nascentes, formando um pequeno afluente que terminava no Mondego.

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 Vale da Ribela, atual Av. Sá da Bandeira

 A escolha do lugar merece ser contada e Ilídio de Araújo transcreve-a de D. Nicolau de Santa Maria, que, por sua vez, conta como D. Tello, varão amigo e contemporâneo de D. Afonso Henriques, escolhe o sítio: «(...) achou hum fora da cidade, nos arrabaldes dela, onde chamavam os Banhos da Rainha, que lhe contentou mais que todos, por ter da parte Norte hum monte coroado de oliveiras, árvores bem afortunadas e ditosas que sempre pronosticavão grandes felicidades; porém a principal razão que o moveu a escolher este sítio foi aver nelles hua Igreja antiga de invocação de Sta. Cruz, que no tamanho e no estar fundada junto de hua horta se parecia com o Santo Sepulcro, que D. Tello trazia estampado na alma (...)». Razões da qualidade física e espiritual da paisagem misturam-se na origem da escolha do lugar. 

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 Planta do Mosteiro de Santa Cruz em meados do séc. XIX

 Os espaços exteriores deste convento foram mantidos intactos até meados do século XIX, garantindo séculos de utilização ao serviço da comunidade monástica. É certo que a área a área construída em redor da igreja passou de uma unidade com um claustro a três claustros com os respetivos edifícios em redor, mas a horta que comovera D. Tello, o parque e o cabeço das oliveiras mantiveram-se intactos de cima abaixo do vale.

É certo, também, que neste longo percurso de séculos, outros monarcas representado por outros religiosos deixaram a sua marca no convento e na cerca.

 Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 108-121

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por Rodrigues Costa às 09:01

Terça-feira, 11.07.17

Coimbra: a evolução da Cidade 1

Edificada numa colina, e cingida pelo forte círculo de altas e espessas muralhas, tendo lá ao cimo a alcáçova real, o castelo onde residia o Alcaide, e o paço do Bispo, a formarem como que os vértices de um triângulo aproximadamente equilátero, a cidade estendia-se pela encosta ocidental do monte quase até ao sopé.

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A alta antes das demolições do séc. XX

Desde o século XII que a população, extravasando-se pela porta ocidental e principal da cidade, situada onde ainda hoje perdura a denominação de «arco de Almedina», fora construir novas habitações pelo arrabalde, umas pertencentes a comunidades religiosas, outras a pessoas leigas. Assim se edificaram grupos de casaria, como que acostados aos templos que aqui se viam erguidos: os de S. Bartolomeu, S. Tiago e Santa Cruz, formando na planície uma linha quase paralela à muralha, e pouco distantes desta; o de Santa Justa (no que é hoje o Terreiro da Erva) um pouco mais afastado para NO, à beira do caminho que conduzia ao campo do Arnado; finalmente o de S. Domingos, fronteira a Santa Justa, junto ao rio, um pouco abaixo do local onde hoje se encontra a estação do caminho-de-ferro (as ruínas estão sob o Hotel Almedina).

Planta da Cidade 1845 2.jpgPlanta da cidade 1845

Próximo das igrejas de S. Bartolomeu e de S. Tiago, é que o casario mais se apinhava, constituindo um bairro bastante populoso.

Como havia a ponte a ligar entre si as duas margens do rio, já as edificações se tinham estendido para a orla esquerda do Mondego, onde se viam, junto deste, a jusante da ponte o convento de S. Francisco (o primitivo, não o atual); a montante o de Santa Ana (cujas ruínas ainda são visíveis na gravura de Baldi), e um pouco mais afastado o grupo de construções incompletas, modestas e acanhadas, do projetado mosteiro clarista de Santa Isabel de Hungria, começado a edificar por D. Mór Diaz, e que fiaria incompleto (posteriormente incorporado no Conventos de Santa Clara-a-Velha).

Coimbra 38 Vista áerea.jpgVista área da Cidade nos inícios do século XX

Ora essa parte baixa ou suburbana, o arrabalde, que se estendia a Oeste e Noroeste de «almedina de Coimbra», tornara-se o bairro mais apreciado e estimado das famílias coimbrãs; para aqui vinham residir aqueles mesmos que possuíam casas velhas, mais ou menos mesquinhas, no bairro alto, e que ficavam em regra abandonadas, por não aparecer quem as alugasse.

Outro facto concorreu para o grande decrescimento da população da «cerca de almedina», ou bairro compreendido dentro das muralhas. Durante os quatro primeiros reinados fora em Coimbra a residência mais aturada dos monarcas, nos paços da alcáçova, que formavam a coroa da cidade; por isso era então lá o bairro nobre, onde preferiram viver com suas famílias os grandes, os fidalgos, os funcionários palatinos. Quando, em tempo de D. Afonso III, Coimbra deixou de ser a sede habitual da corte, a população cortesão abandonou esta cidade, e devem ter-se fechado por isso muitas das casas da almedina.

 

 Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 82-83, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 09:26

Sexta-feira, 07.07.17

Coimbra: a Família dos Rabaldes

Iniciado o seu percurso e afirmação com o conde D. Henrique, a família dos Rabaldes apaga-se um pouco durante o governo de D. Teresa e de Fernão Peres de Trava (1121-1128).

O apoio a Afonso Henriques na luta contra sua mãe e o subsequente protagonismo de Coimbra, refletido no papel diretivo que a cidade desempenha na Reconquista desde a década de 1130, faz a família recuperar poder e prestígio. Filhos e netos de Rabaldo frequentam a alcáçova régia e acompanham Afonso Henriques nas guerras ofensiva e defensiva, de Santarém e Lisboa ao Alentejo. Alguns perdem aí a vida. E com a perda da varonia rapidamente a linhagem desaparece.

A guerra, as funções militares na fronteira e a colaboração no repovoamento propiciam-lhes riqueza e a constituição de um pujante património.

Outros almejam e logram mobilidade social e poder na carreira eclesiástica, no bispado do Porto, sob a sombra protetora do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, seu parente.

As filhas de Rabaldo fazem bons casamentos, com cavaleiros do mesmo nível ou de superior posição social, proporcionando, assim, uma maior segurança à família. As boas posições desses esposos no xadrez político-militar ocasionam substanciais doações por parte do rei ....

E muitas são as compras e escambos que ... fazem, com seus maridos.

Por presúria, compras e doações se constrói o património da linhagem; por múltiplas partilhas sucessórias, o mesmo se desagrega; enfim, por doações e vendas, no mosteiro de Santa Cruz de novo se reunifica.

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Rabaldes, filho de Rabaldo vende uma propriedade a Santa Cruz de Coimbra

A guerra de fronteira que o ajudara a construir obriga, por vezes, à sua alienação.

A mesma guerra, matando também os genros de Rabaldo, propicia os recasamentos das suas filhas, cujo elevado grau de fertilidade gera uma fortíssima subdivisão do património e a sua progressiva desvalorização.

À semelhança de outras famílias de Coimbra, da mesma posição na mesma época, assinala-se a presença, nas várias gerações da linhagem, de importantes cavaleiros do exército régio, com funções militares ou administrativas (vigários, mordomos, juizes), e, simultaneamente, de outros com cargos eclesiásticos, nomeadamente bispos...

Na Corte e na Igreja se construíram, pois, alguns percursos familiares que a documentação régia ou a eclesiástica nos foi revelando e permitiu reconstituir. Porque na Corte ou na Igreja exerceram cargos. Porque na Corte receberam bens e mercês, e na Corte combinaram casamentos. Porque à Igreja doaram ou venderam bens, e pela Igreja foram rememorados.

Ventura, L. 2003. O Elemento Franco na Coimbra do Século XII: a Familia dos Rabaldes. In Revista Portuguesa de História t. XXXVI (2002-2003), pp. 89-114 (vol. 1), pg. 108-109

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por Rodrigues Costa às 09:58

Quarta-feira, 05.07.17

Coimbra e as suas personalidades: Rabaldo

É desconhecida a exata origem e proveniência de Rabaldo, importante cavaleiro de Coimbra e iniciador da família dos Rabaldes. A acreditar na sua origem franca, terá vindo para a Península com D. Raimundo ou, mais provavelmente, com D. Henrique. Era esse um tempo de renovação do conjunto demográfico de Coimbra, com particular incidência do elemento franco. Integrando-se no séquito ou na comitiva de fideles do conde, Rabaldo é ... um dos primeiros a chegar ao território de Coimbra e um dos seus mais estreitos colaboradores

... Rabaldo aparece igualmente destacado pelas suas funções político-militares. Terá, com certeza, substituído alguns quadros deixados vagos pelo afastamento de moçárabes, caso de Martim Moniz, genro de D. Sesnando, de João Gondesendes e outros, sobretudo na zona mais litoral. Através da fidelitas, prestou ajuda militar e assumiu vicarialmente funções de governo com responsabilidades político-militares, fiscais e judiciais. Promovido social e politicamente, ao ser integrado na cúria vassálica de D. Henrique e D. Teresa, está, desde 1102, presente na documentação condal e como vicarius do conde, em Coimbra, em 1109.

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Henrique, conde portucalense

Nessas mesmas funções, ter-se-á mantido com D. Teresa, a ajuizar por documento desta, de 1113, em que testemunha em primeiro lugar. O facto de exercer funções militares na fronteira e de ser detentor de autoridade faz com que o seu nome seja utilizado como elemento de referência importante para certos atos. No entanto, a outorga do foral de Coimbra de 1111, que inviabilizava a detenção de cargos importantes pelos não naturais da cidade, tê-lo-á levado a preferir a zona de Lafões e/ou de Viseu, talvez a zona de origem de sua esposa, e de cujo grupo de barones et infanzones fazia parte em 1117. Depois disso, não o voltamos a encontrar na documentação.

Poderá ter sido morto em algum confronto com os Almorávidas ou, o que é mais provável, a entrega da fronteira de Coimbra a Fernando Peres de Trava terá levado a um ofuscar da família, pelo menos entre 1121 e 1128. Se D. Henrique privilegiara os conselheiros francos, D. Teresa fê-lo apenas num primeiro momento, porque cedo entregou a condução dos assuntos político-militares e administrativos a barões portucalenses e galegos, em especial aos últimos.

Ventura, L. 2003. O Elemento Franco na Coimbra do Século XII: a Familia dos Rabaldes. In Revista Portuguesa de História t. XXXVI (2002-2003), pp. 89-114 (vol. 1), pg. 1-3.

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por Rodrigues Costa às 09:38

Sexta-feira, 30.06.17

Coimbra: Afonso Henriques e a sua corte 2

Em Telo, nesta importante fase «pré-nacional», vê Afonso Henriques o potencial e carismático chefe religioso capaz de conseguir a adesão e o controlo de consideráveis energias, isto é, de uma grande parte da população e consequentemente de recursos e espaços. Com ele e à sua volta, poderia Afonso Henriques constituir uma cerrada rede de resistências, ao mesmo tempo que reforça o seu próprio poder.

D. Afonso 04.jpg

 ... Por isso, nele se apoiará Afonso Henriques na luta contra a igreja institucionalizada – hierarquizada e temporal -, assim limitando mais facilmente o poder desta. Através dele, na base da confiança entre iguais, à sombra dos desejos da Igreja e mediante a infusão do amor divino, pretenderia o príncipe unir os cavaleiros e associá-los ao seu poder. Deste modo, alargando o grupo dos seus vassalos contrabalançaria, consequentemente, o poderio dos magnates nortenhos e reforçaria o seu próprio.

O projeto de uma nova sociedade laica e o de uma nova sociedade eclesiástica, entrecruzavam-se e interpenetravam-se, já pela influência das estruturas sociais globais sobre a instituição monástica, já pela intervenção e controlo do rei.

... A consciência da pertença a uma mesma unidade territorial, a uma mesma unidade política (sobretudo desde que D. Fernando Magno deu a D. Sesnando todo o território do Mondego ao Douro e do litoral até Lamego), a consciência da mesma identidade cultural (que é também moral e ideológica) ou a ânsia de aproximação (ou reaproximação) dos centros do poder sagrado e profano (ou da conexão entre estes) fazem associar os cavaleiros de Coimbra ao movimento eclesiástico em criação.

... Criar uma subsociedade, uma subcultura dentro dos limites da Sé, seria difícil senão impossível. E a renovação exigia um sítio novo, se possível não muito longe do palácio real (lugar de apoio)... Como doador destes banhos (os banhos régios), D. Afonso Henriques liga-se assim cultural e materialmente à fundação do Mosteiro de Santa Cruz.

... Adentro do projeto expansionista de Afonso Henriques, programar a e realizar a colonização de toda a margem (a retaguarda da fronteira) era primordial. O repovoamento da mesma fronteira, no interior, impunha-se-lhe do mesmo modo. Tinha então que, direta ou indiretamente, prolongar e culminar a ação já iniciada por
D. Sesnando e prosseguida, em parte, por D. Henrique e D. Teresa. Ação cujo elemento fundamental de orientação era o mesmo: o Rio Mondego nas suas duas direções, para montante e para jusante de Coimbra.

 Ventura, L. e Faria A.S. 1990. Livro Santo de Santa Cruz. Cartulário do Séc. XII. Edição de Leontina Ventura. Transcrições de Leontina Ventura e Ana Santiago Faria. 1990. Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica, pg. 19-22, 26-27

 

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por Rodrigues Costa às 09:55

Quarta-feira, 28.06.17

Coimbra: Afonso Henriques e a sua corte 1

À frente dos destinos da Terra Portucalense, desde 1128, Afonso Henriques deixa Guimarães e fixa-se em Coimbra, em 1130 ou 1131.

Este deslocar do centro de gravidade de Guimarães para Coimbra é carregado de significado. É a fuga à tensão entre senhores territoriais de Entre-Douro-e-Minho. Isto é, entre pequenas unidades sociais interdependentes e rivais na conquista do poder social. Auxiliares importantes na vitória de Afonso Henriques em 1128 (também a sua própria vitória), foram engrandecendo o seu domínio e aumentando o seu poder, passando a ver em Afonso Henriques um rival. Este pressentiu o risco de se deixar aniquilar por eles ou vir a cair na sua dependência. Um processo concorrencial entre Afonso Henriques e os senhores do Norte, agravado pelas dificuldades de expansão externa, leva-o a desejar apoderar-se de outras terras. É, em última análise, a procura e a consequente construção de um espaço operatório para a sua ação, a partir do qual se irá esforçar por realizar o seu programa político: a integração das distintas unidades socioculturais, a expansão e o domínio do conjunto do território. A facilidade que Coimbra oferece à defesa e irradiação do seu poder, justifica a escolha desta cidade e a ulterior estratégia de controlo sobre ela.

D. Afonso 02.jpg

 A ação do infante sobre Coimbra começara já em 1128, com a nomeação para seu bispo do arcediago D. Bernardo, pro-gregoriano e anti-compostelano, em oposição ao clero local que propusera D. Telo, arcediago da Sé de Coimbra, à condessa D. Teresa. Assim, utilizando o conjunto de particularidades que dificultavam a uniformização em Coimbra, absorve a antiga oposição entre senhores laicos e gregorianos, ao mesmo tempo que prepara a aproximação com Roma. Por outro lado, sendo, em primeiro lugar, um grande senhor feudal, atribui-se como função fundamenta a guerra externa, a conquista. Coimbra, como cidade fronteiriça, tendo próximo o muçulmano, possibilitava não só o alargamento do território, mas permitia ainda ao rei aumentar a sua riqueza, fama e honra e recompensar as forças essenciais do seu exército, os seus cavaleiros, também eles desejosos de terras.

... No que diz respeito a Coimbra propriamente dita, subjacente às doações de Afonso Henriques está a consciência da diversidade existente e do prolongamento da luta, entre moçárabes e gregorianos... A intenção de ter propício à sua causa o bispo, representante máximo do poder religioso da cidade, um pro-gregoriano e anti-compostelano de que necessitava na sua luta contra os Travas e contra Diogo Gelmirez é evidente. Que o conseguiu e dele terá recebido importantes auxílios pecuniários, quer para a prossecução desta luta, quer principalmente para subsidiar a guerra externa, provam-no as ulteriores doações onde esse auxílio fica expresso.

... neutralizados os potenciais rivais do Norte, organizado o poder e centralizado em Coimbra, Afonso Henriques procurará, defendendo militarmente as suas terras e afirmando o seu poder face aos muçulmanos e a seus vizinhos, transformar o sistema social existente. Enfim, projetar uma sociedade laica.

Ventura, L. e Faria A.S. 1990. Livro Santo de Santa Cruz. Cartulário do Séc. XII. Edição de Leontina Ventura. Transcrições de Leontina Ventura e Ana Santiago Faria. 1990. Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica, pg. 9-10, 14-15, 17.

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por Rodrigues Costa às 22:51


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