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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 09.04.20

Coimbra: Igreja de S. Martinho do Bispo

A reconquista de Coimbra por D. Fernando Magno, em 1064, foi a viragem decisiva para a região, doravante definitivamente em posse dos cristãos. À frente da cidade de Coimbra e de toda a região, D. Fernando colocou um moçárabe, o alvasil D. Sisnando para que a povoasse e defendesse dos mouros. O sábio governo de D. Sisnando resultou em grande progresso para a região: foram construídos castelos, edificadas casas, plantadas vinhas e arroteadas terras. É neste contexto que surge a figura do abade Pedro, vindo da região em poder da moirama. A 26 de Abril de 1080, D. Sisnando dou-lhe terras a sul do Mondego que ele diligentemente repovoou. O abade Pedro edificou aí, próximo à cidade, a igreja de S. Martinho, dando origem a uma das mais populosas freguesias rurais do país, mas hoje plenamente absorvida no perímetro urbano de Coimbra.
Em 24 de Fevereiro de 1094 o abade Pedro doou os seus domínios à Sé de Coimbra, onde avultava a igreja edificada à sua custa e dotada com as casas necessárias, vinhas e outras árvores e ainda uma torre de defesa. Os bispos continuaram a obra de repovoamento e de valorização da igreja. Em 1104 o bispo D. Maurício concedeu carta de povoação, espécie de foral, reformada por D. Bernardo, em 1141. Aqui mantiveram os bispos de Coimbra uma quinta de veraneio e também se refugiaram das cheias do Mondego, no século XVI, as freiras do convento de Santana, numa quinta doada pelo bispo D. João Soares.
Da igreja medieval, que sabemos ter sido protegida por muros e torres de defesa, praticamente nada resta. Foi renovada em tempos posteriores, com se vê pela porta principal, seiscentista, de frontão curvo interrompido, e pela torre dos sinos, datada de 1733 por um discreto relógio de sol. A torre encontra-se afastada do corpo da igreja e em quase alinhamento com a porta principal. Sabe-se que houve obras na igreja e residência paroquial contratadas pelo carpinteiro de Coimbra Xavier Gomes da Costa em 19 de julho de 1739.
A igreja atual começou a edificar-se em 1754. Em 18 de novembro desse ano a obra das paredes e frontispício foi contratada pelos pedreiros José Ribeiro Facaia e José Francisco Botas, por 780$000 réis. Logo a 20 foi feito contrato com os carpinteiros Custódio Gonçalves, Domingos Gonçalves e José Gonçalves para a obra de carpintaria, por 290$000 réis.

Igreja S. Martinho do Bispo, exterior.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, exterior. Foto Nelson Correia Borges

A fachada é de simples traçado, com dois corpos laterais vincados por pilastras unindo-se ao central mais alto por arco decorativo. No corpo central rasga-se um arco de volta perfeita, formando pequeno átrio abobadado. Aqui se encontra sepultado o padre António da Cunha Rebelo, certamente o mentor da renovação da igreja, como o epitáfio de 1780 humildemente deixa entender.
O corpo da igreja é amplo, de larga nave com cobertura lígnea em caixotões retangulares, aparentado com o de S. Bartolomeu de Coimbra, da mesma época.

Igreja S. Martinho do Bispo, capela mor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, capela mor. Foto Nelson Correia Borges

A capela mor profunda segue o mesmo tipo espacial.
O topo da igreja, acima do degrau, constitui um outro espaço, outrora separado por teia, como área mais sagrada. Aqui se encontra o revestimento azulejar, os altares laterais e colaterais e a capela-mor.
O retábulo principal é da primeira metade do século XVIII, com colunas torsas de grinalda no cavado, remate de anjos segurando festões de flores e mostrando as insígnias de S. Martinho. O trono e o camarim incluem elementos anteriores e posteriores.

Igreja S. Martinho do Bispo, altar lateral.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, altar lateral. Foto Nelson Correia Borges

Os retábulos colaterais e laterais são excelentes exemplares do estilo rococó coimbrão. Os colaterais, geminados, foram executados pelo notável entalhador Domingos Moreira, autor de vários outros trabalhos de igrejas de Coimbra e da região, morador em Santa Clara, com contrato lavrado em 28 de março de 1757. Custaram 215$000 réis. Mostram colunas de capitéis compósitos, concheados sóbrios e remate elaborado de volutas sobrepostas, com querubins e cabecitas aladas.
Os laterais, de idêntica estrutura, têm remates mais movimentados, com volutas em avanço e glórias solares. Todos os retábulos se encontram marmoreados de lápis-lazúli com dourados, o que aliado à azulejaria confere ao conjunto uma interessante nota cromática.

 

Igreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor. Foto Nelson Correia Borges

Os painéis de azulejo recortados são de fabrico coimbrão, provavelmente da oficina de Salvador de Sousa Carvalho. Na capela-mor representam S. Martinho celebrando e Aparição de Cristo a S. Martinho. No espaço dos retábulos, S. Domingos, Santo António e Última Ceia e Senhora da Conceição.
Entre as esculturas destaca-se a de S. Martinho, do século XVII e, da segunda metade do século XVIII, as de Senhora dos Remédios e Senhora da Conceição. Há ainda uma bandeira processional pintada por Pascoal Parente, em 1756 com Cristo crucificado e a Senhora do Rosário. A tela que preenchia o camarim do altar-mor, já de 1877, encontra-se agora no corpo da nave da igreja.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra, n.º 4781, de 2 de abril de 2020

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por Rodrigues Costa às 11:35

Quinta-feira, 20.02.20

Coimbra: O Conde D. Sisnando, Governador de Coimbra

Na Sé Velha de Coimbra existe uma arca tumular, da qual reproduzimos o epitáfio:

AQUY JAZ HUU QUE EM OUTRO TEMPO FOY GRANDE BARON
SABEDOR E MUITO ELOQUENTE AUONDADO E RICO E AGORA
HE PEQUENA CINZA ENÇARADA EM ESTE MOIMENTO
E COM ELE JAS HUUM SEU SOBRINHO DOS QUAES HUN
ERA JÁ VELHO E OUTRO MANCEBO E O NOME DO TIO
SESNANDO E PEDRO AVIA NOME O SOBRINHO.

Este túmulo parece ter sido mandado fazer pelo Bispo Conde D. Jorge de Almeida, nos fins do XV século.

Arca tumular de D. Sisnando ainda no exterior do m

Sé Velha, com arca tumular de D. Sisnando, na sua primitiva localização

Arca tumular de D. Sisnando no exterior da Sé Vel

Sé Velha, com arca tumular de D. Sisnando, na sua primitiva localização, pormenor

Claustro da Sé Velha. Arca tumular de D. SisnandoSé Velha, arca tumular de D. Sisnando, na sua atual localização

Tão curioso epitáfio certamente excitará a curiosidade do leitor. Quem era D. Sesnando? É o que veremos abaixo.

Não se sabe o ano em que nasceu, se bem que deveria ter sido na primeira metade do século XI. Todavia, conhece-se quem eram os seus pais: um rico moçárabe de nome David, senhor de Tentúgal e de outras terras no território conimbricense, e Susana, também dona de vastas propriedades no arrabalde de Santa Cruz. Por este motivo se depreende que Sisnando (ou Sesnando) era natural de Coimbra ou das suas imediações.
Segundo alguns historiadores, num «fossado», que era hábito fazer-se em terras do inimigo, terá sido aprisionado pelos sarracenos e levado para Sevilha. Herculano, porém, admite o ter sido Sisnando muçulmano, até mais tarde passar ao serviço de Fernando o Magno.
A verdade é que, uma vez em Sevilha, pelo seu talento e importantes serviços prestados, o amir Ibn Abbad lhe conferiu o cargo de viziar ou divã, na sua corte.
Mais tarde Sisnando abandona a Corte de Sevilha – fuga motivada, certamente, por descontentamento – e vai oferecer os seus serviços a Fernando, o Magno, rei de Leão e Castela, colaborando com o monarca na reconquista dos territórios da antiga Lusitânia, ao tempo em poder do Islão.
E assim temos o nosso biografado na reconquista de Coimbra, em 1064.
Como recompensa dos seus serviços, D. Fernando nomeia-o governador dos territórios reconquistados, além daquele ao sul do Douro, já pertencente ao Condado Portucalense. O próprio D. Sisnando assim no-lo diz em diploma do seu tempo.
… A Fernando Magno sucedeu o rei Garcia, seu filho, mas D. Sisnando, não lhe faz qualquer referência no diploma a que atrás aludimos, o que leva a crer que este – o Conde D. Sisnando – não gozou das boas graças do novo soberano; em contrapartida diz-nos que após a morte de Magno, obteve o reino «de seu filho, o gloriosíssimo rei D. Afonso (o VI), o qual (…) me confirmou tudo aquilo que seu pai ordenara e me assinou a carta de privilegio».
Era D. Sesnando casado com D. Ourovelido Nunes, filha de D. Nunes Mendo, governador dos territórios ao norte do Douro e que revoltando-se contra o dito rei Garcia, foi por este derrubado e morto na batalha de Pedroso, em 1071. D. Garcia confiscou os bens dos herdeiros de D. Nuno, entre os quais se contava, como é óbvio, seu genro Sisnando.
Não é por isso de admirar que D. Sisnando não faça qualquer referência a D. Garcia.
Foi notável a ação governativa de D. Sisnando, pelo povoamento da região recém-conquistada. Cantanhede, Tentúgal, Montemor-o-Velho, S. Martinho de Mouros, Armamar, Tarouca, Seia, Viseu, Lamego, Arouce, Penela, S. Martinho do Bispo, Alhadas e Figueira da Foz, contam-se entre as «villas» edificadas e cristãmente povoadas, durante o seu governo

Sé Velha.1862.jpg

Sé Velha. 1862 c.

Muito particularmente a cidade de Coimbra sentiu os efeitos da sua sábia administração. A ele se deve a restauração da sua Sé com a nomeação do Bispo Paterno, vindo de Santiago de Compostela a convite do próprio D. Sisnando, numa visita a essa cidade, em romagem de ação de graças pela tomada de Coimbra.
Também se deve a D. Sisnando a resolução do conflito havido entre os bispos de Orense e de Braga, a favor do último.
Por voltas de 1092 faleceu o Conde D. Sisnando deixando prósperos os territórios sob a sua alçada. Como já se disse jaz na Sé Velha.
Algum tempo depois Martin Moniz retirava-se para Arouca por ter passado o poder para as mãos do Conde D. Henrique.
Nelson Correia Borges

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por Rodrigues Costa às 18:47

Terça-feira, 21.05.19

Coimbra: Mitra Episcopal 1

A Mitra Episcopal de Coimbra representa essencialmente o conjunto de bens patrimoniais que estavam destinados ao sustento e provisão do bispo de Coimbra.
A diocese de Coimbra teve sede, primitivamente, em Conímbriga, no período de romanização da Península Ibérica, depois em Emínio (Aeminium), durante o domínio dos Suevos, tendo sido nestes períodos sufragânea de Mérida e depois de Braga, e por fim ficou sedeada na cidade de Coimbra, enquanto diocese isenta.
Os limites geográficos do bispado ficaram definidos em 1253, pela bula Provisionis nostrae de Inocêncio IV, de 12 de Setembro, tendo sido retirados a Coimbra os territórios entre o rio Douro e Antuã que foram anexados ao bispado do Porto.

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Inocêncio IV

A área geográfica do bispado de Coimbra sofreu alterações com a criação do bispado de Leiria, pela bula Pro excellenti apostolicae sedis de Paulo III, de 22 de Maio de 1545, no reinado de D. João III, que ditou a saída de seis paróquias (Caranguejeira, Colmeias, Espite, S. Simão de Litém, Souto da Carpalhosa e Vermoil) da diocese de Coimbra que passaram a pertencer ao novo bispado.

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Paulo III

Idêntica situação ocorreu aquando da criação da diocese de Aveiro, desmembrando localidades diversas do bispado de Coimbra, por breve de Clemente XIV de 12 de Abril de 1774.

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Clemente XIV

Com a nova circunscrição diocesana ditada pela bula Gravissimum Christi de 30 de Setembro de 1881, na diocese de Coimbra foi integrada parte dos bispados de Leiria e Aveiro, que só voltaram a ser restaurados pelo papa Bento XV em 1918 (Leiria) e 1938 (Aveiro).

As doações patrimoniais à Sé de Coimbra são anteriores à fundação da nacionalidade. A necessidade de sustentação dos bispos, cónegos e mais prelados esteve na origem de várias doações, nomeadamente, a importante doação do Mosteiro da Vacariça, em 1094, por D. Raimundo e D. Urraca, e do mosteiro do Lorvão, em 1109, que apenas por sete anos esteve na posse da Mitra.

Raimundo de Borgonha 01.jpg

D. Raimundo

No entanto, as propriedades de Santa Comba Dão, Couto do Mosteiro, Midões, Vila Cova e parte da Pedrulha, que eram do dito mosteiro do Lorvão, mantiveram-se na sua posse.
Em 1082, o conde D. Henrique e D. Teresa doam à Sé de Coimbra os castelos de Coja e Arganil, altura em que os bispos de Coimbra passam a designar-se Senhores de Coja.


D. Henrique e D. Teresa. Iluminura da Genealogia d

D. Henrique e D. Teresa

A partir do reinado de D. Afonso V, o bispo de Coimbra passa a acumular o título de conde de Arganil, na sequência do reconhecimento da participação do bispo D. João Galvão nas campanhas do Norte de África (conquista de Tânger e Arzila), em 1471… concedeu também a este prelado, por provisão régia de 18 de Agosto de 1472, a vedoria mor das obras e alcaidaria-mor das comarcas da Beira e Ribacôa, razão pela qual se intitulava alcaide-mor de Avô.

Bandeira, A.M.L., Silva, A.M.D., Mendes, M.L.G. 2007. Mitra Episcopal de Coimbra: descrição arquivística e inventário do fundo documental. Acedido em 2019.04.29, em
https://www.uc.pt/auc/fundos/ficheiros/DIO_MitraEpiscopalCoimbra 

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por Rodrigues Costa às 09:02

Terça-feira, 12.03.19

Coimbra: Igreja de Santiago 1

Determinaram as «Constituições Sinodais do Bispado de Coimbra», em 1591 … que em todas as igrejas houvesse um livro de Tombo, autêntico, donde constassem todas as suas propriedades e bens … Assim surge o «Inventário da prata e ouro, ornamentos e roupa do serviço da igreja de Nossa Senhora e dos Sanctos e de todas as cousas de que se serve a Igreja de S. Tiago que mandou fazer o prior».

…. O aspeto que esta igreja citadina de um dos topos da Praça Velha, depois de restaurada, nos oferece, poderá não ser, porventura, o mesmo da sua primitiva fábrica. Todavia, temos de reconhecer que a reconstituição feita foi, na ocasião, a única e a melhor possível.

A igreja de Sant’Iago antes das obras de restaur

A igreja de Sant’Iago antes das obras de restauro

A Igreja  de Sant'Iago durante as obras de restaur

A Igreja de Sant'Iago durante as obras de restauro

A Igreja  de Sant'Iago depois das obras de restaur

A igreja de Sant’Iago depois as obras de restauro

Está a sua fundação envolta em lendas que se relacionam com a tomada da cidade, em 1064, por Fernando Magno. De concreto apenas se sabe que antes da reconstrução dos finais do século XII e inícios do XIII – a nova igreja foi sagrada em 28 de Agosto de 1206 – já no local existia outro templo de que há referências documentais no século XII.
[A origem lendária da fundação da Igreja de Sant’Iago foi contestada, nomeadamente, por António de Vasconcelos … e F.A. Martins de Carvalho… Para estes historiadores o documento mais antigo respeitante a Sant’Iago apenas remontava a 1183. Foi A. Nogueira Gonçalves quem revelou e chamou a tenção para notícias anteriores àquela data].
No século XVI, a fisionomia do monumento foi grandemente alterada,
Com efeito, em 3 de Junho de 1546 lavrou-se contrato entre a Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia e a Colegiada de Sant’Iago para a construção da casa e igreja da Misericórdia sobre o velho templo românico.

Entrada para a Misericórdia.jpg

Entrada para a Misericórdia antes das obras de restauro da Igreja de Sant’Iago

O novo edifício ficou edificado sobre a nave da «capela de S. Simão, onde ora está o Santíssimo Sacramento e sobre a capela de Vasco de Freitas», com entrada pela rua de Coruche, na parte posterior, o que era possível graças ao grande desnível do terreno. O patim de acesso foi feito sobre a «sacristia e capela de S. Simão».
Para segurança de ambos os templos se estipulavam a construção de «arcos», «na dita nave de S. Simão», bem como diversas medidas a tomar quanto ao encaminhamento das águas pluviais.

…. Que capelas ou altares haveria então na Igreja de Sant’Iago?
Também a este respeito o inventário fornece indiretamente algumas informações. O número não iria além de sete: três na cabeceira e quatro do corpo da igreja, sendo uma à Epístola e três do lado do Evangelho.
Na capela-mor se encontrava a imagem do orago, Sant’Iago, e o sacrário com o Santíssimo Sacramento que mais tarde esteve também na capela do Bom Jesus. Nas colaterais destacavam-se os altares de Nossa Senhora da Conceição, à Epístola. O primeiro era da administração da Colegiada. O segundo pertencia à respetiva confraria, constituída por nobres, no dizer do escrivão do inventário, e «muito rica», segundo as palavras do prior.
…. No corpo da igreja, do lado direito, entre a porta travessa e a escada que subia para o coro, situava-se a capela gótica primitivamente dedicada a S. Pedro e depois a Santa Escolástica, ao Bom Jesus, e, por fim, ao Sacramento. Nas obras de restauro foi transferida para o tramo fronteiro, indo ocupar o espaço da capela de Santo Ildefonso.
Do lado esquerdo estavam as capelas de Santo Elói e Santo Ildefonso, a que mais tarde se juntaria a do Espírito Santo, instituída em 1653 por Úrsula Luís, viúva do mercador Manuel Roiz-
…. A capela de Santo Ildefonso era da família dos Alpoins.
.… A capela de Santo Elói «que edificaram e fabricaram os ourives desta freguesia …» era a primeira, ao entrar no portão principal.
…. Resta ainda a capela de S. Simão e a de Vasco de Freitas… A primeira é a da Senhora da Conceção, ou seja, a colateral direita da cabeceira da igreja. A última deverá talvez corresponder à do Bom Jesus, primitivamente de S. Pedro.
Quanto a Santo André, que aparece com certo destaque no inventário, com suas vestes próprias e um possível altar, onde «servia» uma estampa e um frontal de rede, a ter existido na verdade este altar, seria bastante singelo. O mais lógico é que se tratasse de uma imagem integrada num dos outros altares.
…. Além das confrarias de Nossa Senhora da Conceição, dos nobres, e de Santo Elói, dos ourives, o inventário fala ainda das de S. Simão, Santo André, Sant’Iago, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Piedade e Espírito Santo. Todas possuíam a sua arca, destinada a arrecadar a cera que cada confrade deveria pagar anualmente e de que se faziam as tochas que eram levadas na procissão do Corpo de Deus.

Borges, N.C. 1980. O Inventario dos Ornamentos e Joias da Igreja de Sant’Iago de Coimbra, em 1697. Coimbra, Instituto de História da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 09:31

Terça-feira, 17.07.18

Coimbra: Igreja de São Tiago cronologia

- Nos finais do séc. XI/ início de XII, existia uma edificação romano-bizantina, da qual ainda estavam inteiros dois pórticos, em 1894. Em 1131 aparece referida tendo por prior um D. Onorio. Até 1183 esteve sujeita ao Arcebispo de Compostela, e a partir daí passou a pertencer ao bispo conimbricense. 

- Foi sagrada sob a designação de basílica em 1206, devido a profanação, reparação ou reconstrução.  

- Em 1500, D. Manuel funda a Misericórdia em Coimbra. E, em 1526, esta muda-se para o celeiro da Igreja Paroquial de São Tiago. Em 3 de Junho de 1546 é lançada a primeira pedra da Igreja Velha da Misericórdia sobre uma das naves de S. Tiago, concluída em 1549, com capelas, retábulos e varanda de João de Ruão. No entanto acontecem divergências com a paróquia, e saem, e em 1571 começam mesmo a construir outro edifício na mesma praça, mas em 1587 suspendem os trabalhos. Voltam a S. Tiago em 1589. São retomadas as obras. Deu-se a deformação da frontaria com o acrescento de dois pisos. A rosácea é rasgada e convertida em janela de sacada. Em 1772 vão para a Sé Velha, mas pouco depois voltam para São Tiago. De facto, a Misericórdia tinha tido várias localizações, mas acabava sempre por voltar. No séc. XVIII nova reforma desfigurou-lhe completamente as naves interiores, tendo as suas paredes sido todas estucadas. 

- Em 1841 a Misericórdia vai definitivamente para o Colégio da Sapiência, junto com o Colégio dos Órfãos.

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 S. Tiago antes das obras

 - Em 1858, quando a Câmara procede ao alargamento da “tortuosa, escura e estreitíssima” Rua do Coruche, para a converter na atual Visconde da Luz, as absides da capela-mor e laterais foram cortadas e, portanto, as proporções da planta inteiramente alteradas. Além disso não se respeitou a disposição da antiga escadaria que dava acesso à porta principal, tendo sido introduzida como que uma escadaria “em trono”.

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S. Tiago durante as obras

- Em 1861, é demolida a Capela-mor de São Tiago e parte do Adro da Misericórdia Velha. Para restabelecer o acesso às instalações, constroem-se umas escadas e um patim gradeados.


S. Tiago depos obras 1.JPG

 S. Tiago depois das obras

 A antiga Igreja da Misericórdia vem a ser demolida em 1908. Em 1930, a igreja é visitada por um conjunto de especialistas, no sentido de serem tomadas opções para o restauro. No entanto o restauro só se conclui em 1935, pelos Monumentos Nacionais.

 

Anjinho, I. 2006. Da legitimidade da correção do restauro efetuado na Igreja de S. Tiago em Coimbra. Acedido em 2018.01.23, em https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31091/1/

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por Rodrigues Costa às 09:33

Quinta-feira, 15.03.18

Coimbra: As Escolas da Sé e de Santa Cruz

Antecedendo o movimento de fundações universitárias que caracterizou o “Renascimento Medieval” e se estendeu a Portugal nos finais do século XIII, verifica-se a existência mais ou menos constante e conseguida, de um sistema de ensino que, durante largo período de tempo, garantiu a transmissão do saber.

Substancialmente ligadas à Igreja, na sua génese, no seu quadro orgânico e nos objetivos programáticos, as instituições escolares apresentavam-se sob duas modalidades fundamentais: as escolas catedralícia e as escolas monásticas.

De entre umas e outras, importa salientar aquelas que manifestaram mais estreita ligação à Universidade. Sã elas a Escola da Sé de Coimbra e as Escolas de Santa Cruz e de Alcobaça e ainda a Colegiada de Guimarães. 

Filósofo medieval, Grandes Chroniques de France.j

Filósofo medieval In: Grandes Chroniques de France

 A Escola da Catedral de Santa Maria de Coimbra – embora a data da sua fundação não possa ser estabelecida com rigor – terá sido criada entre 1082-1086, por iniciativa do bispo conimbricense, D. Paterno. Um documento de doação datado de 1008 traz a subscrição de um tal Petrus Grammaticus e, mais tarde, em pedra tumular conservada hoje no Museu Machado de Castro, uma inscrição com a data de 1102, fez chegar até nós o nome de João «mestre-escola» - o prebendado que superentendia na lecionação relativa ao trivium e quadrivium. Esta escola, onde se trabalhava a Gramática e a Dialética e, obviamente, a matéria teológica, tradicionalmente designada por «sacra pagina», destinava-se institucionalmente à preparação dos candidatos às ordens sacras. Os estudantes, reunidos em regime de vida comum, debaixo da regra de S.to Agostinho, habitavam em casas da dependência da sé ou do cabido.

Honorius of Autun’s Imago Mundi in a private col

 Honorius of Autun’s Imago Mundi

 ... A Escola de Santa Cruz, implantada no mosteiro do mesmo nome, que data da 2.ª metade do século XII, cedo se transformou num centro de formação e irradiação cultural, cujo papel foi decisivo para a consolidação da consciência da nacionalidade. É interessante notar que, no grupo de fundadores, figura o nome de D. João Peculiar, cónego e mestre da Escola da Sé conimbricense.

Relativamente ao quadro curricular, muito pouco se conhece ao certo; não andaria, porém, longe do esquema delineado, no seu «Didascalion», por Hugo de S. Vítor, de quem existiam diversas obras no «armarium» de Santa Cruz.

Seja como for, o ensino parece ter atingido grande amplitude e projeção funcionando as disciplinas profanas como propedêuticas do acesso à Teologia; é mesmo verosímil que as próprias ciências fossem abordadas, nomeadamente a medicina. De resto, a existência de um hospital na dependência do mosteiro recomendaria o estudo daquela ciência.

Conhecem-se alguns dos mestres que funcionaram nesta escola e alcançaram renome, como D. Frei João, teólogo, D. Frei Raimundo, profundo conhecedor em ciências diversas, D. Frei Pedro Pires, eminente na Gramática, Lógica, Medicina e Teologia. Para falar também de estudantes, basta citar Fernando de Bulhões, o futuro Frei António, já então frade franciscano, canonizado e declarado Doutor da Igreja Universal.  

 Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 10-21

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por Rodrigues Costa às 09:52

Segunda-feira, 03.07.17

Coimbra e as suas Personalidades: Sesnando Davides

Não temos qualquer dado sobre quando e aonde o alvazil nasceu, ou onde passou a infância, todavia esse facto não impediu de numerosos investigadores de afirmarem que Sesnando tinha a sua origem em Tentúgal.

... como teria Sesnando Davides, passado de Coimbra para Sevilha? ...  Dozy diz que “O Cadi “de Sevilha” fez renderem-se dois castelos...tendo sido assim aprisionado em 1026..., e levado para a corte sevilhana de Abu al-Hacim Mohamed. Contudo, Luis de Parga... aponta a data de 1041-1042.

...recebeu – o cargo de vizir ou wazir era reservado para os mais letrados da administração central árabe-islâmica – sendo o homem mais respeitado dentro da corte sevilhana.

A partir de 1060 deve ter-se juntado a Fernando, o Magno...teria sido o conselheiro que aliciou o rei a conquistar Coimbra logo em 1064...naqueles dias, o próprio rei tendo exortado com honra, o grande príncipe naquele lugar, duque e cônsul fiel, dom Sisnando...sobre a própria cidade, para que a povoe e defenda da gente pagã.

... Sesnando Davides foi um cônsul respeitado por todos, incluindo-se neste campo Fernando o Magno e Afonso VI, permitindo que o alvazil governe Coimbra com uma total autonomia deixando que o moçarabismo florescesse na cidade e na região, cunhando Igrejas e Mosteiros com o nome de diversos santos da liturgia visigótica romana. Foi um homem que nunca se libertou do título de alvazil fazendo questão de o deixar marcado nos documentos não só de Coimbra mas de Leão e Castela, sendo a referência política para os não cristãos. Mas não era só um administrador, era também um guerreiro, um dux, que servira tanto de diplomata como de líder militar em expedições sobre os Reinos de Taifa do al-Andaluz

... Como homem Sesnando terá sido assim um dinamizador, um guerreiro, um diplomata, um conselheiro, um justo juiz, isto à luz dos cronistas árabes como Ibn Bassam, tendo um papel fulcral nos destinos do Termo de Coimbra, e no futuro Condado de Portucale.   

Isaac, F.M.B. 2013. Sesnando Davides. Alvazil, Cônsul, Estratega e Moçárabe. Dissertação de Mestrado em História. Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pg. 111-114, 144-145.

 

Mausoléu de D. Sesnando.jpg

Mausoléu de D. Sesnando

 Singular osteoteca (no claustro da Sé Velha) de Dom Sesnando, genial alvazir e destacado governador de Coimbra, fautor da reconquista cristã de 9 de Julho de 1064. Data do século XV-XVI. Na cabeceira tem uma composição vegetal e, no frontal, uma simples orla de folhagens a cercar a legenda, feita num gótico minúsculo, de letras ressaltadas, a recordar as qualidades daquele homem memorável, e do sobrinho Pedro, falecido na juventude, cujas cinzas repousam com as do tio Dom Sesnando, no mesmo monumento.

Coutinho, J.E.R. 2001. Catedral de Santa Maria de Coimbra (Sé Velha), Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2001, p. 93-94.

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por Rodrigues Costa às 09:52

Sexta-feira, 03.02.17

Coimbra: a Igreja de S. Tiago, localização

 Razões topográficas exigiram a construção das igrejas medievais nos lugares em que se encontram.

O morro da primitiva cidade de Coimbra despega-se das outras colinas pelo colo dos Arcos do Jardim, donde partem os dois vales que o delimitam: o de Santa Cruz e o do Jardim Botânico. Saia um córrego médio do Marco da Feira, corria pela rua que depois tomou o nome de Rêgo-de-Água, depois, já mais volumoso e veloz na Rua das Covas, desfazia-se em espuma nas rochas do Quebra-Costas, e avançava já torrente pelo sítio onde será depois a Porta de Almedina, espraiando-se e depositando os materiais carregados na parte baixa da cidade, juntando-se aos aluviais do Mondego, que iam formando os diversos “arnados” que são o substrato do arrabalde antigo.

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Planta da Cidade 1845

De facto, esta topografia é tão intrínseca que, nas grandes tempestades, a Natureza às vezes repõe o que o homem alterou. E assim aconteceu em 14 de Junho de 1411, em que foi tal a quantidade de água e o volume dos materiais transportados, que arrancou as portas chapeadas de ferro da cidade.

Temos assim uma linha de córrego que separa em duas partes, a antiga Almedina. Seguia, este córrego, um traçado que se aproximava bastante de uma reta e que agora está cortada pelo ângulo sudoeste do embasamento romano do Museu Machado de Castro e depois esquina noroeste da Sé.

Do outro lado, o vale de Santa Cruz contorna a colina, com grande bacia de receção pluvial. O vale tinha uma corrente contínua de águas, riacho que antes do seu encanamento pelas obras de Santa Cruz, tinha pelo menos um pontão e cuja corrente movia moinhos em várias épocas. 

Delimitava pois, esse ribeiro, do lado norte, o arrabalde com forma de triângulo, e com duas igrejas: São Bartolomeu e São Tiago.

Ora, quais as razões topográficas da existência de duas freguesias em tão pequeno arrabalde?

O córrego médio da parte alta da cidade, cavado, não pela ação de águas contínuas, mas sim das de género torrencial, tinha à porta de Almedina como que o seu canal de transporte. O cone de depósitos devia ocupar, na sua maior estreiteza o espaço sensivelmente entre a R. das Solas e a das Azeiteiras.

Assim, quando o homem começou a construir no arrabalde, essas águas torrenciais obrigaram a repartir o povoado em dois grupos populacionais, com duas igrejas que até eram de padroado diferente. Sabe-se da existência de São Bartolomeu no séc. X, na primeira reconquista, apesar dos restos mais antigos, até hoje encontrados, serem do séc. XII, do período afonsino. O edifício atual data do séc. XVIII.

Planta da Cidade 1845 1.jpg Planta da Cidade 1845 Pormenor

Quanto à Igreja de São Tiago é do fim do XII, princípio do XIII, do reinado de D. Sancho. Sabe-se, no entanto, que houve uma construção anterior de que nada se conhece, sendo bastante provável que remonte à primeira reconquista.

Anjinho, I.M.M. 2006. Da legitimidade da correção do restauro efetuado na Igreja de S. Tiago em Coimbra. Acedido em 17.01.2017, em

https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31091/1/Da%20legitimidade%20da%20corre%c3%a7%c3%a3o%20do%20restauro%20efetuado%20na%20Igreja%20de%20S.%20Tiago%20em%20Coimbra.pdf

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por Rodrigues Costa às 09:09

Quinta-feira, 02.02.17

Coimbra: a Igreja de S. Tiago, cronologia

 - Finais do séc. XI / início de XII

Existia uma edificação romano-bizantina, da qual ainda estavam inteiros dois pórticos, em 1894.

- 1131

Aparece referida tendo por prior um D. Onorio. Até 1183 esteve sujeita ao Arcebispo de Compostela, e a partir daí passou a pertencer ao bispo conimbricense.

- 1206

Foi sagrada sob a designação de basílica devido a profanação, reparação ou reconstrução.

- 1500

D. Manuel funda a Misericórdia em Coimbra ... E, em 1526, esta muda-se para o celeiro da Igreja Paroquial de São Tiago.

- 3 de Junho de 1546

É lançada a primeira pedra da Igreja Velha da Misericórdia sobre uma das naves de S. Tiago, concluída em 1549, com capelas, retábulos e varanda de João de Ruão. No entanto acontecem divergências com a paróquia, e saem

- 1589

Voltam a S. Tiago. São retomadas as obras. Deu-se a deformação da frontaria com o acrescento de dois pisos. A rosácea é rasgada e convertida em janela de sacada.

- 1772

Vão para a Sé Velha, mas pouco depois voltam para São Tiago. De facto, a Misericórdia tinha tido várias localizações, mas acabava sempre por voltar.

- Séc. XVIII

Nova reforma desfigurou-lhe completamente as naves interiores, tendo as suas paredes sido todas estucadas. 

- 1841

A Misericórdia vai definitivamente para o Colégio da Sapiência, junto com o Colégio dos Órfãos.

- 1858

Quando a Câmara procede ao alargamento da “tortuosa, escura e estreitíssima” Rua do Coruche, para a converter na atual Visconde da Luz, as absides da capela-mor e laterais foram cortadas, e portanto as proporções da planta inteiramente alteradas. Além disso não se respeitou a disposição da antiga escadaria que dava acesso à porta principal, tendo sido introduzida como que uma escadaria “em trono”.

- 1861

É demolida a Capela-mor de São Tiago e parte do Adro da Misericórdia Velha. Para restabelecer o acesso às instalações, constroem-se umas escadas e um patim gradeados.

Scan0005 Santiago.jpg

 

- 1906

A antiga Igreja da Misericórdia vem a ser demolida.

- 1930

A igreja é visitada por um conjunto de especialistas, no sentido de serem tomadas opções para o restauro. No entanto o restauro só se conclui em 1935, pelos Monumentos Nacionais.

 

Scan0006 Santiago.jpg

Anjinho, I.M.M. 2006. Da legitimidade da correção do restauro efetuado na Igreja de S. Tiago em Coimbra. Acedido em 17.01.2017, em

https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31091/1/Da%20legitimidade%20da%20corre%c3%a7%c3%a3o%20do%20restauro%20efetuado%20na%20Igreja%20de%20S.%20Tiago%20em%20Coimbra.pdf

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por Rodrigues Costa às 09:53

Terça-feira, 14.06.16

Coimbra: Primórdios da Universidade 1

Depois da “Reconquista Cristã” de Coimbra e ainda no tempo de Fernando Magno, cerca do ano de 1070, surgiu a primeira escola catedralícia instituída em Portugal, fruto da vontade do Conde Dom Sisnando e do Bispo Dom Paterno. Esta “Escola de Santa Maria”, funcionando à sombra da Catedral (hoje a Sé Velha), destinava-se a jovens que pretendessem seguia a carreira eclesiástica. E, na esteira desta, outras escolas episcopais se fundaram até finais do século XI, nomeadamente em Braga e Lisboa.

A este primeiro surto do ensino no território que hoje é Portugal, seguiram-se, desde logo... as escolas monásticas, de que se destacam as escolas de Santa Cruz de Coimbra, dos cónegos regrantes de Santo Agostinho... que havia sido fundado pelo nosso primeiro rei, ela em pouco tempo se transformou num verdadeiro difusor de cultura. Foi efetivamente do Mosteiro dos Crúzios que saíram alguns dos maiores expoentes da intelectualidade portuguesa naquela época, como são os casos de Fernando de Bulhões, o nosso Santo António, que se tornou um dos maiores teólogos do seu tempo e que levou a sua sabedoria até Montpellier, Pádua e Tolosa, e Frei Gil de Santarém.

Poderá dizer-se que neste período pré-universitário o Real Mosteiro de Santa Cruz funcionou como uma autêntica universidade, continuando a atuar nesse sentido ao longo de vários séculos, mesmo depois da fundação da universidade portuguesa.

Desde muito cedo começaram os monges de Santa Cruz a enviar os seus religiosos mais distintos à Universidade de Paris e, estes, ou ficavam por aquelas paragens ensinando, ou regressavam especializados em várias ciências, desde a Teologia à Medicina.

... D. Sancho I tinha estabelecido a sua corte em Coimbra e haveria nesta cidade, naquela época, “Mestres de boas artes e ciências” ... É neste sentido mesmo sentido que se orienta a carta de doação de 14 de Setembro de 1192, onde D. Sancho I afirma: “Dou e concedo ao Mosteiro de Santa Cruz quatrocentos morabitinos da minha fazenda para sustentação dos cónegos do dito mosteiro que estudam em França”.

Assim, não será de admirar que, nesta nossa Idade Média, o Mosteiro de Santa Cruz se constituísse como o grande aglutinador da cultura e da intelectualidade, podendo ombrear, ao nível do ensino que ministrava e dos seus Mestres, com algumas das universidades que gradualmente iam surgindo na Europa. E, para um melhor aproveitamento do ensino, criou a sua própria escola de calígrafos que produziu e reproduziu muitas obras de valor, num tempo em que os códices eram tidos como coisa valiosa e rara.

Ribeiro, A. 2004. As Repúblicas de Coimbra. Coimbra, Diário de Coimbra. Pg. 13 a 15

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por Rodrigues Costa às 22:23


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