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A' Cerca de Coimbra


Sábado, 24.12.16

Coimbra: Coimbra antiga e moderna, um livro a ler 2

Guardei para as vésperas deste Natal, dois textos que Borges Figueiredo publicou, nos finais do século XIX, no seu livro Coimbra Antiga e Moderna.

São belo poema de amor a Coimbra escrito por um Coimbrinha como o são – por nascimento ou adoção – aqueles que vão tendo a paciência de ler os escritos que vou respigando das minhas leituras.

É esta a minha prenda de Natal esse e todos esses e os demais Coimbrinhas.

Feliz Natal

Rodrigues Costa

 

Uma vez na «gare», no meio de grande multidão de pessoas apressadas, que se cruzavam em todas as direcções, acottovelando-se, empurrando-se, batendo com as malas nas pernas dos que encontravam, senti eu uma pequena mão, lenta, que me produziu, ao contacto com a minha, a mesma impressão que me produziria o corpo d’uma cobra, animal que me repugna tanto como repugnava a Virgílio.

Ao mesmo passo que a mão alheia buscava tirar da minha a pequena mala que segurava, uma voz branda e insinuante, evidentemente de pessoa de humilde condição, mas que tinha a graciosa entoação e a correção da pronuncia que só possue o filho de Coimbra, uma voz me dizia:

- «Senhor doutor!» quer que lhe leve a mala? «Senhor doutor!»

Apezar de eu não ter a honra de ser «senhor doutor» (nem mesmo senhor bacharel, embora isto não venha para o caso). Fiquei logo tão convencido de que o rapaz falava commigo, como se elle me houvesse chamado pelo meu nome. E a razão d’isto é extremamente simples: todos em chegando a Coimbra são doutores, ou porque julgam sel-o ou porque lh’o chamam. O moço de fretes, o gaiato, a aguadeira, a servente d’estudantes, seja qual fôr a pessoa «limpa» a quem dirijam a palavra, distinguem-na com o título de «senhor doutor».

Conta-se, valha a verdade, que uma das vezes em que foi a Coimbra o rei D. Pedro V, indo vêr o jardim, succedeu que uma boa velha conseguiu estender a mão, por entre os cortezãos que acompanhavam o soberano, e pedira uma «esmolinha pelo amor de Seus». Os cortezãos, que passam todo o dia a pedir, senão com a bocca ao menos com os olhos, «esmolas» a seu amo, acharam um procedimento inaudito que a pobre mendiga lhe pedisse uma «esmolinha», e fizeram movimento de afastal-a. D. Pedro V, porém, deteve-os com um gesto e, tirando uns «ouros» (os reis não dão «cobres»; ou dão ouro ou não dão nada), depôl-os elle mesmo na mão tremula da velha, que lhe disse, com as lagrimas nos olhos e na voz:

- Muito obrigada, «senhor doutor».

Figueiredo, A. C. B. 1996. Coimbra Antiga e Moderna. Edição Fac-similada. Coimbra, Livraria Almedina, pg. 2-3


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por Rodrigues Costa às 10:20

Sexta-feira, 23.12.16

Coimbra: Coimbra antiga e moderna, um livro a ler 1

Caros Amigos

Guardei para as vésperas deste Natal dois textos que Borges Figueiredo publicou, nos finais do século XIX, no seu livro Coimbra Antiga e Moderna.

São um belo poema de amor a Coimbra escrito por um Coimbrinha como o são – por nascimento ou adoção – aqueles que vão tendo a paciência de ler os escritos que vou respigando das minhas leituras.

É esta a minha prenda de Natal esse e todos esses e os demais Coimbrinhas.

Feliz Natal

Rodrigues Costa

 

Coimbra – a lusa Athenas dos literatos, a rainha do Mondego dos poetas, antiga côrte portugueza dos historiadores, a cidade universitaria de Portugal, como adesignam os estrangeiros, - Coimbra é a cidade mais bella da patria de Camões, é aquella a que está ligado maior numero de nossas memorias gloriosas.

Se todo aquelle que durante algum tempo alli demorou, mórmente na mocidade, conserva d’ella uma indelevel recordação, quem a teve por patria quer-lhe muito, embora por apprehensão ou systema deixe de manafestal-o.

Eu não nego, nem alardeio, a minha affeição por Coimbra, mas declaro que, após muitos anos de auzencia, tive desejos de rever a terra natal. E, para que esses desejos se não convertessem naturalmente em nostalgia, parti para a cidade do Mondego, deliberado a passar lá alguns dias.

Embora sempre em mim produza somnolencia o «zum-tum» do comboio, não cerrei os olhos em toda a viagem; e, talvez por isso, pareceu-me o caminho tão longo... tão longo como a um deputado parece o caminho que leva a ministro.

Finalmente soou o aviso que indicava estarmos proximos de Coimbra; e, alongando eu a vista por entre os salgueiros do rio, onde algumas lavadeiras se entregavam a seu labor nas ilhotas de areia dourada, reconheci essa pinha de casas, a cuja alvura de cal davam os raios do sol poente uma côr graciosa, e em cujas vidraças elles se reflectiam, fazendo-as parecer enormes carvões ardentes.

Confesso francamente, embora isso faça sorrir maliciosamente o leitor, que uma certa melancolia se apoderou de mim n’aquelle momento. É que me assaltaram então mais vivas as doces lembranças  as dolorosas recordações, succedendo-se e combatendo-se à porfia, deliciando-me ou maguando-me o coração...

Mas já o rio tinha sido transposto; atravessáramos uma floresta de elevados salgueiros e copados eucalytos; parára a locomotiva em frente da estação.

Eu que antigamente, quando visitava Coimbra, encontrava logo um rosto amigo cujos olhos me procuravam ansiosos, ou ao menos um semblante conhecido, não vi pessoa alguma que me trouxesse á lembrança o tempo antigo.

Figueiredo, A. C. B. 1996. Coimbra Antiga e Moderna. Edição Fac-similada. Coimbra, Livraria Almedina, pg. 1-2

 

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por Rodrigues Costa às 10:17


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