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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 22.02.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 1

Esta entrada, que reproduz um artigo publicado na revista O Panorama, carece de uma explicação.

O Panorama. Jornal litterário e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, foi publicado aos sábados, entre 1837 e 1868, estando a digitalização dos seus índices e das revistas disponível em:

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/OPanorama/OPanorama.htm.

O Panorama.jpg

 Folha do rosto de O Panorama

A maioria dos artigos ali publicados não são assinados, embora a sua paternidade seja comumente atribuída a Alexandre Herculano, a alma e o motor deste projeto.

Daí o título aposto à entrada, que reproduz na íntegra um texto ali publicado – cuja ortografia foi atualizada para facilitar a sua leitura – e que consideramos de uma grande beleza.

Importa sublinhar que se trata de uma síntese, escrita em 1836, onde se dá conta dos conhecimentos de então relacionados com a história de Coimbra e com a de alguns dos seus monumentos; os conhecimentos atuais relacionados com estas temáticas são muito mais aprofundados e desenvolvidos.

O artigo em causa insere uma gravura onde também se não vislumbra a assinatura do autor, mas cuja autoria poderá ser atribuída a Manuel Maria Bordalo Pinheiro ou a José Maria Baptista Coelho, porque foram estes dois artistas que, maioritariamente, colaboraram na revista.

O Panorama gravura de Coimbra.jpg

 Coimbra xilogravura de autor desconhecido. In O Panorama, n.º 51

 O Panorama esteve entre as primeiras publicações portuguesas que inseriram gravuras, a impropriamente chamada xilogravura, ou seja, a gravura aberta em blocos de madeira; mas utilizou a “xilogravura de fio”, também conhecida como madeira à veia ou madeira deitada, porque o bloco foi cortado longitudinalmente em relação ao caule da árvore e trabalhado com canivete ou goiva, procurando aproveitar as fibras rígidas e salientes. Posteriormente, noutras publicações, passou a ser utilizada a “xilografia de topo”, porque o bloco que vai ser utilizado se obtém cortando a madeira no sentido horizontal; esta trabalha-se com buris das mais variadas secções, semelhantes aos utilizados pelo gravador na chapa de metal.

 

Por último uma nota pessoal. Dos textos de Alexandre Herculano que tenho lido ressalta o pouco apreço do autor por Coimbra e, principalmente, pelo ensino que então se ministrava na Universidade. O texto ora apresentado vai, inequivocamente, nessa linha.

Apesar do profundo respeito pela figura maior que Herculano é, não posso esquecer que foi ele o responsável pela saída de Coimbra das duas cousas mais importantes que havia no convento [de Santa Cruz e que] eram a livraria e o sanctuario: as preciosidades d’um e d’outro foram levadas para a cidade do Porto.

 

COIMBRA

Depois de Braga é Coimbra, em nosso entender, a mais bem assentada cidade de Portugal; e até não sabemos se a vizinhança do Mondego lhe dá a primazia sobre a antiga capital do Minho. É verdade que as sendas [o nome de estradas não o merecem] que de várias partes conduzem a Braga, acompanhadas em quase toda a sua extensão de vales cultivados, de ribeiros deleitosos, de montes selvosos, de pequenas povoações, não contrastam com o painel que descobrimos ao aproximarmo-nos da cidade; enquanto as estradas que do Porto ou de Lisboa conduzem a Coimbra, comumente por brenhas cerradas, descampados inférteis, pinhais extensíssimos, mas sem majestade, e povoações pobres e derramadíssimas, preparam o caminhante com hábitos  de tristeza e de tédio, para contemplar a cena de Coimbra, que, semelhante a uma pirâmide esculpida, se levanta dominadora dos seus fresquíssimos e saudosos arredores, e do tranquilo Mondego, que se revolve mansamente a seus pés, como uma fita branca, lançada por meio de um tapete de verdura.

Da «Collimbria», «Conimbrica» ou «Conimbriga» dos romanos já não existem há seculos, senão umas gastas ruinas, no sitio chamado Condeixa velha, a duas léguas da moderna Coimbra. Esta, fundada por Ataces, segundo dizem, só data do tempo da dominação dos Alanos e Suevos. Da época da sua fundação pretendem alguns ainda sejam as armas atuais da cidade; mas semelhante crença tem todos os visos de fabulosa.

No tempo da invasão dos mouros, Coimbra, como todas as demais povoações de Portugal, caiu debaixo do jugo dos conquistadores. Seguiu-se a longa luta dos cristãos com os muçulmanos: no mesmo século Coimbra foi resgatada; mas no século seguinte tornou ao poder dos infiéis, até que em 1064 D. Fernando o Magno, rei de Castela e Leão, a conquistou pela última vez. Parece que os monges beneditinos de Lorvão, que tinham trato com os cristãos da cidade, ajudaram D. Fernando a levá-la de salto, entrando pela porta da traição. – Houve aqui grande estrago de mouros, e querem afirmar que o arco de Almedina é um monumento desta vitória, dando aquela palavra a significação de «porta do sangue»; mas nem esta é a verdadeira tradução do vocábulo arábico, nem por certo o arco que existe junto á igreja de S. João d’Almedina, é de tão remota antiguidade.

Divididas as conquistas de D. Fernando entre seus filhos, guerrearam uns com os outros por causa da herança paterna, pertencem essas guerras á historia de Espanha. Basta saber que no tempo de D. Afonso 6.º de Leão, neto do conquistador de Coimbra, a cidade foi entregue ao conde D. Henrique com o resto de Portugal, dado em dote da rainha D. Tareja, sua mulher. Desde este tempo até o de D, João 1.º Coimbra foi o principal assento da corte dos reis portugueses; porque a sua posição geográfica, a salubridade do clima, e a fertilidade do território lhe davam jus a semelhante primazia. Lisboa, entretanto, crescia em poder e riqueza, que lhe atraía o seu porto magnifico, propriíssimo para o trato de comércio, e nas cortes celebradas na mesma Coimbra, em tempo de D. João 1.º, os povos pediram a el-rei mudasse a residência da corte para a cidade do Tejo.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 121

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por Rodrigues Costa às 10:03

Segunda-feira, 08.05.17

Coimbra: Santa Comba, uma santa esquecida 1

Contavam as antigas tradições, que a Virgem cristã Comba (Columba-Coomba-Comba), em tempos em que esta região era dominada pelos mouros, fora requestada por um poderoso príncipe crente de Mafoma, a qual, para se escapar às suas ternuras e solicitações, fugira para estes sítios, então ocupados por floresta inextricável, onde conseguiu ocultar-se algum tempo. Descoberta um dia pelo príncipe apaixonado, quando ela ia ao fundo da colina, buscar água à fonte, que ainda hoje se chama da Santa, novas tentativas de sedução a envolveram.

Como fosse inabalável a resistência da donzela a apostar da fé em Cristo, e a romper o seu voto religioso de virgindade, arrastaram-na encosta acima até uma clareira, onde os cristãos haviam erguido uma grande cruz de madeira para aí se reunirem e orarem; nesta cruz a fixaram os do séquito do príncipe, e, assim exposta, foi alvejada com setas, até exalar o último suspiro, invocando, com os olhos no céu, o divino Esposo.

Depois os cristãos tiraram da cruz o corpo da Mártir, e sepultaram-no naquele mesmo local, onde sofrera o martírio, e que ficou a ser muito frequentado de gente piedosa, que vinha junto da sepultura suplicar as intercessões da Santa.

Tempos decorridos, passou Coimbra ao domínio dos cristãos, sendo então construída uma capelinha modesta, da invocação de S." Comba, que ficou a abrigar a sepultura.

Até aqui o que nos dizem as lendas.

Esta capelinha existia, é certo, no século XII ... nos princípios do 2.° quartel daquele século, foram procuradas as relíquias de S.ta Comba na cripta da sua capela, onde a tradição dizia haver sido sepultada. Lá encontraram o esqueleto, que pelos monges da Caridade foi trasladado para a sua igreja de S.ta Justa, de cujas ruínas ainda hoje restam vestígios no local conhecido pela denominação de terreiro da herva.

Decorridos alguns anos, foram as venerandas relíquias segunda vez trasladadas, agora para a igreja de S. João, contígua ao templo de S.ta Cruz.

Ainda há anos se via numa parede da casa, que atualmente está transformada em café ou restaurante, uma lápide com inscrição a designar o local, onde as relíquias estiveram depositadas. Dizia em belos caracteres do século XII, onciais de mistura com capitais: HIC QVIESCVNT OSSA BEATE COLVMBE

Mais tarde, no século XIII, fez-se nova trasladação, desta vez para o templo do mosteiro crúzio, donde vieram a ser cedidas relíquias para algumas igrejas, indo uma relíquia insigne para a Catedral, onde se erigiu um altar na nave da Epístola em honra de S." Comba.

 

Sé Nova St. Comba.jpgPor fim as relíquias restantes da Virgem e Mártir de Coimbra foram recolhidas no Santuário de S.ta Cruz, e ali se guardam.

... Considerava-se S.ta Comba especial advogada contra as maleitas ou sezões, doença que atacava e dizimava os habitantes dos campos do Mondego, então pantanosos e muito insalubres.

Vasconcelos, A. A ermida de Santa Comba. In “Correio de Coimbra”, 227, Coimbra, 1926.09.25.

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por Rodrigues Costa às 11:34

Segunda-feira, 22.02.16

Coimbra: primeira reconquista cristã e a destruição pelo Almançor

Era o ano de 878 … segundo a contagem comum da sucessão dos tempos, ano de novecentos e dezasseis, da hispânica, que nessa época se usava.
Ano glorioso este, ano pedra angular em que assenta o teor da vida moderna da cidade e da região.
Feito de tal grandeza e que, contudo, hoje, passado um milénio e centena de anos, o seu conhecimentos nos é dado por breve nota da ‘Chronicon Laurbanense’: "Era DCCCCXVI prendita est conimbrie ad ermenegildo comité". Na era de 916 foi tomada Coimbra pelo conde Ermenegildo.

Era este conde de Portucale e Tui e procedeu por ordem do rei asturo-leonês D. Afonso III – o grande, aquele que de Oviedo veio assentar a sede do governo em Leão.
Oito palavras somente a rememorar esse facto de extraordinário alcance. Comentado singelamente pelo ‘Chronicon Gotorum’, na ementa de resenha da vida daquele rei … Coimbra, possuída pelo inimigo, fora ermada e povoada a seguir por gente vinda de acima Douro.
Ação epopeica consideramo-lo, como em todos os tempos os vencedores julgaram as suas; porém, nós, com a sensibilidade moderna, meditamos nos morticínios a seguir à tomada e na redução ao cativeiro dos moradores restantes.

… E esse período, essa primeira reconquista cristã, permaneceu por um século, até às razias de Almançor, o que na mesma ementa é comentado sumariamente: … Almançor, pois, tomou Coimbra e, como a muitos foi ouvido dizer, ficou deserta sete anos, sendo reedificada pelos ismaelitas, que a conservaram em seu poder.
Era o ano de 987, como para Montemor se daria em 990. Se foi despovoada a cidade, o território permaneceu com a gente adstrita.

… a tomada de Coimbra, leva-nos … a da restaurada diocese visigótica conimbricense, a qual tinha por limite norte a corrente do rio Douro, desde Gaia (‘Castrum Antiquum’), com o distrito de Aveiro, prolongando-se para sul do Mondego.
… a vida (em Coimbra) podia decorrer normalmente, só entrecortada das lutas domésticas que não foram pequenas e dos ataques muçulmanos na fronteira sul, porque aqui, como diz Gonzaga de Azevedo … «Coimbra, cidade de fronteira com os sarracenos, mudou frequentemente de possuidor no decurso do século X. Libertada por S. Rosendo, em 968, voltou ao poder dos muçulmanos, que a dominaram até 981, e, em 975, percorriam e despovoavam a terra, até ás vizinhanças do Douro, sem obstáculo».

Gonçalves, A. N. 1978. Evocação do XI Centenário da Primeira Reconquista Cristã de Coimbra. Separata das Actas das I Jornadas do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro. Coimbra, Edição do GAAC. Pg. 3 a 5

 

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por Rodrigues Costa às 10:13

Segunda-feira, 17.08.15

Coimbra, os primórdios da alcáçova 2

Como seria, porém, internamente, o orgulhoso alcácer? Não é fácil sabê-lo, por enquanto, atento o carácter limitado, em especial justamente no que respeita às áreas a norte da muralha, das intervenções realizadas no «Pátio das Escolas». Mas é certo que este flanco parece revelar a presença de estruturas habitacionais, ao mesmo tempo que a conservação dos rebocos no intradorso do trecho mural exumado sob o gigante da Capela … sugere, também aí, a existência de espaços habitados. Outro tanto sucederia a norte, provavelmente, como indicia a pequena «cloaca» da fachada (mesmo que a natureza da relação topográfica, entre o «ninho das águias» e o plano mais elevado, obrigassem certamente os construtores do alcácer a providenciar sistemas de drenagem)

… Por outro lado, no que respeita ao lanço de entrada, de acesso direto, como indicam os cubelos de flanqueio e porta dupla, seguramente, na tradição califal do séc. X, como impunha a existência de dispositivos internos de defesa, não parecem os «encontros» garantir aí espessura adequada à implantação de dependências … Porém, estrutura “marcadamente militar”, erguida numa cidade «submetida», confiada às ordens de um «qa’id» - como afirma o relator da conquista de Fernando Magno – e não, por certo, de um «governador», muito dificilmente ostentaria, em anos apesar de tudo recuados, a tipologia dita de «governo», palacial, mas essa outra, essencialmente «funcional», assente no pátio único central, em torno ao qual, apoiadas na muralha, se alinhavam as diversas dependências, característica, de facto, dos palácios omíadas, em cujo modelo se inspirava e dos «rubut» dos místicos guerreiros da «djihad» que, em fim de contas, na sua própria essência, fundamentalmente configuraria. Mas talvez, na verdade, se não assemelhasse a qualquer deles. De facto, persiste ainda, em redor do «alcácer de Qulumryya», a enigmática aproximação feita por Vergílio Correia e Nogueira Gonçalves entre o seu aparelho construtivo e o da própria cintura das muralhas urbanas, tradicionalmente atribuídas ao período romano. E talvez também por essa via seja possível precisar melhor o verdadeiro recorte da construção que nos ocupa.

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg. 193 e 194

 

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por Rodrigues Costa às 20:14

Sábado, 15.08.15

Coimbra, os primórdios da alcáçova 1

É pois, decerto, sobre essa urbe, próspera e «moçárabe», onde entre os vestígios da antiga ordem imperial, que após cinco séculos de abandono lentamente se esboroavam, despontam os novos signos da sua dignidade eclesiástica, debilmente protegida pela «muralha romana» e pelos esforços (seguramente frustres) realizados pelos condes, que se abate, em Julho de 987, a fúria destrutiva de Almançor – fúria, na verdade – que as pedras do alcácer não deixariam, certamente, de «ilustrar».
Com o «repovoamento», porém, «sete anos» mais tarde, chegava também, por fim, uma «comunidade árabe». E, com ela, decerto, finalmente, a mesquita, islamizando a antiga catedral. Mas vinha sobretudo o eloquente sinal de submissão: o reduto «real». Assim pois, buscando, na sua dupla intencionalidade, a um tempo endógena e exógena, local estratégico e eminente onde cumprir o seu objetivo semiótico, erguer-se-ia no extremo do braço meridional da ferradura, o mais proeminente, aí onde, na expressão feliz de Fernandes Martins, se formava como uma esplanada, suspenso, um amplo «ninho de águias» - «ninho» cercado de falésias, defendido naturalmente a sul e a poente, acessível apenas por nascente e alcandorado sobre a «cutilada» que, vincando a colina, abrigava a antiga catedral e, com ela, o «núcleo duro» do agregado cristão. Implantação forçosamente ingrata, que obrigaria, por óbvios imperativos de ordem estática, à deformação da planta regular – tal como a «linha de fastígio» do dorso da colina que a antecede (hoje por completo rebaixada), levaria também a descentrar a porta-forte. Mas cumpria plenamente os critérios «representativos» que haviam presidido à sua edificação. A antiga zona residencial patrícia que, dez séculos mais tarde, as intervenções no «Pátio das Escolas» iriam desvendar, degradada havia muito por novas utilizações – senão mesmo (quase) abandonada – serviria pois, agora, de assento ao monumento que, pelo tempo fora, iria moldar a imagem da cidade … um «alcácer muçulmano», guarda avançada do Islão, de rosto à Cristandade e às pretensões hegemónicas dos monarcas asturo-leoneses.

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg. 192 e 193

 

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por Rodrigues Costa às 22:22

Sexta-feira, 26.06.15

Coimbra, a reconquista definitiva visto pelo lado cristão

Precedida de uma ofensiva estratégica contra a taifa de Sevilha, dinamizada a partir de Mérida, em 1063, destinada a isolar o Reino de Badajoz, a tomada de Coimbra por Fernando I, no ano seguinte, não constituiria um mero episódio na lógica da «Reconquista». Era antes, em certo sentido, o seu próprio e simbólico ponto de partida … A submissão da fortíssima praça - «illarium partium maxima civitas», como refere a documentação medieval – avultava, assim, como prova de fogo da estratégia imperial formulada pelo monarca leonês. Donde a peregrinação a Santiago, de que seria precedida, destinada a impetrar a proteção do santo; donde o conjunto de lendas que se iriam tecer em seu redor, como os «sete anos» de cerco, a ativa intervenção do próprio apóstolo (em tal transe assumindo perfil de «mata-mouros»), a participação de Rui (ou Rodrigo) Dias, o romanesco Cid, armado cavaleiro, após o triunfo, na mesquita. Donde, enfim, nova romagem régia a Compostela, na sequência da conquista, a render graças pelo bom sucesso da empresa.
A fazer fé nos relatos cristãos, os sitiantes haviam combatido “muy fortemente com os engenhos, em tanto que britarom o muro da villa. E os mouros, maao seu grado, veheron a el rei e deitaronsse a seus pees e pedironlhe por mercee que os leixasse hyr cõ seus corpos, e que lhe leixaria a villa e a alcaçova, com quanto aver em ella avya. E el rey com grande piedade outorgoullo. E entregaronlhe a vylla a huum domingo, ora de terça.

Coimbra renderia, de facto, um opulento saque em cativos e bens, mesmo que os 5.000 prisioneiros transmitidos pelas fontes pertençam também, provavelmente, aos domínios da lenda. Integrada pelo Imperador no Reino da Galiza, atribuído a seu filho Garcia … seria confiada (bem como todo o território a sul do Douro, reconstituindo, de um modo geral, o velho «condado de Coimbra»), a Sesnando Davides.

A nomeação do famoso «alvazir» como governador da cidade e seu território no novo contexto da conquista cristã … representava a possibilidade de utilização, ao serviço da «reconstrução» e em pleno «Andalus», da sua própria origem moçárabe … no âmbito de uma estratégia de aglutinação do tecido social e de atração de novos «povoadores».

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg. 218 a 220.

 

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por Rodrigues Costa às 10:32

Terça-feira, 23.06.15

Coimbra e as suas muralhas 1

… data de 1930, por mão de António de Vasconcelos, a primeira reconstituição do circuito medieval das muralhas coimbrãs. Se o velho mestre não curara de deslindar a sua origem, mas tão só de definir o seu percurso, outro tanto não faria Virgílio Correia, que, no mesmo ano e sob o impacte da descoberta, nas infraestruturas do Museu que dirigia, do criptopórtico romano, afirmava, invocando Plínio, que “admitindo que «oppidum et flumen Minium» se referem a Coimbra, aí temos, além da designação do nome da terra, a sua qualidade de «oppidum», povoação de altura, fortificada, que de facto Coimbra é, e provavelmente sempre foi”. Apesar disso, não deixava de constatar que “acerca das muralhas romanas de Coimbra, nada conhecemos, até agora, de positivo. Em Junho de 1943, contudo, evocava Nogueira Gonçalves: “Alvorecia o século quinto. Iam caindo, feridas quase sem glória, as águias dos emblemas imperiais. Desabava a torrente dos povos bárbaros, alastrando em ruínas e morticínios. Em 409 … a primeira onda, a dos suevos, alanos e vândalos …”

Ganhava, pois, raízes, até por confronto com Conimbriga, onde os avanços da arqueologia comprovariam a origem tardo-antiga das muralhas, a tese da ereção da cerca coimbrã ao despontar do século V, perfilhada por Fernandes Martins, em 1951 e por Pierre David, desde 47, embora recuando a edificação dos muros, em ambas as cidades, à invasão dos Francos de 258. Antes que terminasse o ano de 43, contudo, meses depois de Nogueira Gonçalves, recordando a invasão bárbara de 409, com ela relacionar a edificação das muralhas coimbrãs, as obras em curso do palácio universitário, proporcionando a descoberta do pano de muro e do cubelo (depois demolido) incluídos no átrio de S. Pedro, abriam novas perspetivas, em função das quais Virgílio Correia, estribado no confronto do “aparelho de construção, onde, como noutros pontos dos muros e das portas de Coimbra, foram empregados blocos romanos, de algum grande edifício desmontado para o efeito”, deduzia ser o mesmo «coevo das grandes obras de fortificação citadina, cuja origem e cronologia precisa são ainda um problema em aberto”

E concluía: “O problema da idade das primeiras muralhas de Coimbra apresenta-se como de difícil solução … Por outro lado, não se encontraram, até agora, nas muralhas pedras de ornato paleocristão ou bárbaro. Donde tornar-se admissível o levantamento da fortificação precisamente na época do domínio dos visigodos, que tornaram Imínio numa capital onde quatro monarcas cunharam moeda; e capital significou sempre, na Idade Média, cidade poderosamente fortificada. As muralhas apresentam, desde o Castelo, ao longo da Couraça de Lisboa, até ao Arco de Almedina, a mesma composição, com aproveitamento nas fiadas inferiores de silhares do grande aparelho romano. Mal conhecidos os muros do lado poente e norte … sendo porém absolutamente seguro que a parte visível sobre a Ladeira dos Jesuítas é de época tardia, de material uniforme”. Por seu turno … exarava Nogueira Gonçalves … “As fortificações militares da cidade pertencem a diversas épocas…”


Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg.195 e 196

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Segunda-feira, 15.06.15

Coimbra, a reconquista cristão vista pelo lado muçulmano

Com a morte de Almançor, em 1002, a rápida fragmentação do Califado de Córdoba, no âmbito da «2.ª fitna» e a formação do Reino aftássida de Badajoz, onde «Qulumbryya», juntamente com outras cidades do «Gharb» (Santarém, Lisboa, Sintra, Alcácer do Sal, Évora e Beja), se veria integrada a partir de 1022, é provável que a urbe não tivesse visto diminuída a sua importância militar … Desde 1057, aliás, Fernando I de Leão, atravessando o Douro, se apoderava sistematicamente de posições muçulmanas … Mas a importância que revestia a tomada de Coimbra é amplamente ilustrada pela amplitude da expedição em sua intenção, assumindo o soberano pessoalmente o comando das hostes e com esse fim se dirigindo à cidade em companhia da Rainha D. Sancha, de seus filhos e filhas e de diversos prelados … vindo a conquista a verificar-se em 10 de Julho de 1064.

segundo o relato de Ibn ‘Idari … : “E assim continuou o inimigo de Deus, Fernando – escreveria o cronista –, fortalecendo-se, enquanto os muçulmanos se debilitavam (…) até que o maldito sitiou a cidade de Coimbra (…) O maldito Fernando assediou-a agora até que a conquistou. E isso porque o seu «qa’id» - nesse tempo era um dos escravos de Ibn al-Aftas, que se chamava Randuh –, falou secretamente com Fernando para que lhe desse o «amãn» a ele e à sua família e se passaria a ele, desde a cidade, durante a noite. Então o maldito lhe deu o «amãn» e o maldito passou secretamente ao exército dos cristãos. Ao amanhecer, as gentes da cidade, já tinham feito os preparativos para a luta. Então lhes disseram os cristãos: como nos combateis quando vosso emir está connosco? A gente da cidade não tinha conhecimento daquilo e quando não o encontraram, souberam que a notícia era certa. Pediram ao estrangeiro o «amãn», mas não lhes foi concedido. Tinham-se esgotado as provisões e o inimigo de Deus sabia-o. Então esforçou-se em combatê-los, até entrar nela por assalto; como consequência, foram mortos os homens e cativas as crianças e as mulheres. E isto foi no ano 456”.
Com a conquista de Fernando Magno, encerrava-se a etapa islâmica da urbe, um amplo ciclo de três séculos e meio, longamente interrompido, entre 878 e 987, pela tomada de Afonso III e pelo domínio dos «condes de Coimbra»

Não é exatamente verdade que tenha deixado de “haver história da cidade nesse período” mesmo que esta, com efeito, se encontra praticamente por fazer … É, sobretudo, um facto, que o conjunto de informações reunido produz, essencialmente, uma sequência de «episódios», cujo real sentido em boa parte nos escapa e entre os quais, não obstante, figurará o que representa a «circunstância» que determinou a ereção do enigmático «alcácer».

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg.164 e 165

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:32

Domingo, 14.06.15

Coimbra, de novo cidade fronteira

Beneficiando da sua posição estratégica como cidade-fronteira – de relevância tal que a própria marca inferior («al-Tagr al Gharb») chegaria a ser designada de «al-Tagr-al-qulumriyya»; da vantagem que, em pleno «al-andalus», representava um clima atlântico e, por conseguinte, de rico alfoz proporcionado pelos campos do Mondego cujas «diferentes bondades» as várias descrições não deixariam de exaltar …; dominando uma extensa região … Coimbra mesmo que sem contabilizar, talvez, o avultado número de 5.000 habitantes que lhe tem sido atribuído, configurava, certamente, «a cidade mediterrânica implantada mais a norte no Garbe». Ao mesmo tempo e integrada embora num contexto de acelerada islamização, em particular depois da «submissão» das fronteiras levada a cabo nas primeiras décadas do século IX, a urbe parecia conservar o seu estatuto de luzeiro do moçarabismo no mundo muçulmano, como atesta, já no século X, o episódio relatado por al-Razi, a respeito de uma inscrição latina incorporada na muralha da alcáçova de Mérida e da incapacidade dos habitantes (e sua) para a decifrarem, bem como da convicção geral de que «apenas um clérigo que se encontrava em Coimbra a saberia ler». Porém, volvido um século sobre a conquista cristã, o «Gharb-al-Andalus» e, em particular, o troço que lhe correspondia da antiga «marca inferior», protagonizada por Coimbra, adquiririam uma importância súbita nos desígnios «omíadas», com a ascensão, a partir de 976, de Muhamad Ibn Abi’Amir, o poderoso «hayib» de Hisham II, no quadro da ofensiva contra os «infiéis» por ele delineada. De facto, é nesse contexto de «djihad» ou «guerra santa» que se opera a recuperação da cidade pelas forças muçulmanas, em 1 de Julho de 987 … Conquistada em três dias, segundo as crónicas, ao que parece com a cumplicidade da própria família condal, seria a urbe de novo destruída, presos (uma vez mais) os habitantes e deixada «deserta» pelo espaço de «sete anos». Contudo, a mais-valia que representava a sua situação, em pleno território de «entre Tejo e Douro», como base de apoio para novas incursões, ditaria o seu «repovoamento» (em 994?) à custa de moçárabes e muladis. Converter-se-ia então, nas palavras de Christophe Picard, na “grande place militaire musulmane d’où partaient les razias”.

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg.163, 164

 

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por Rodrigues Costa às 10:31

Sábado, 13.06.15

Coimbra, instabilidade do domínio árabe

Desde 825/826 … parecem detetar-se perturbações em Coimbra, eventualmente justificativas da enigmática referência a um «rei mouro», de nome Alhamah, que Ramiro I de Lião teria vencido em 850 e obrigado a pagar-lhe «párias». Ao redor de 875, porém, a cidade surge designada nas fontes como capital da «cora» de Santarém, o que pressupõe uma ligação administrativa ao poder central, ao mesmo tempo que como sede do importante grupo berbere, «obediente a Córdova». No ano seguinte, contudo, era o seu território cenário das razias de Sadun al-Surumbaqui, (ou «Xurumbaqi»), apodado o «grande vagabundo», típico expoente das populações fronteiriças, explorando, em proveito próprio, as ambiguidades da malha administrativa, por seu turno aliado do muladi Abd al-Rahman b. Marwan, o «filho do galego», este em revolta aberta contra o poder omíada no quadro do surto irridentista da designada «1.ª fitna». A fidelidade «coimbrã» explicará, por certo, que, nesse mesmo ano, as tropas do general al-Barã b. Malik penetrem na Galiza «pela porta de Coimbra»; mas a atuação contínua dos rebeldes, assolando as regiões de «entre Douro e Tejo», terá minado qualquer tentativa de imposição da ordem cordovesa no extremo acidental da marca inferior, facilitando a conquista da cidade pelo conde galego Hermenegildo Guterres, ou Peres - «Tudæ et Portugaliæ Comes», às ordens de Afonso III de Leão, em 878, ficando a urbe, segundo os relatos, destruída e «erma» durante alguns anos.

Do lado cristão, desce também então, sobre a vida administrativa da cidade, um espesso véu, pouco mais se conhecendo que a transferência para Emínio, com as próprias autoridades eclesiásticas, do topónimo «Conimbriga», a breve trecho corrompido em «Colimbria» (antes de constituir a «Qulumriyya» da reconquista muçulmana) e a perpetuação do seu governo na estirpe de Hermenegildo Guterres, na qualidade de «condes de Coimbra», numa situação de autonomia em relação à Corte de Oviedo/Leão, que não deveria diferir muito, afinal, da que os Bani Danis haviam observado em relação a Córdova.


Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg.163

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:24


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