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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 14.01.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 2

A Cidade Oitocentista (continuação)

Toda esta gente que tentava subir na vida a pulso, quando atingia o estatuto económico de pequena burguesia, aspirava a fazer-se reconhecer como tal e nada melhor para se afirmar do que e a ostentação; por isso, as moradas, tanto as dos vivos, como as dos mortos, passaram a funcionar como sendo o seu cartão-de-visita. Mas, as dos vivos exigiam áreas amplas e de forma nenhuma podiam caber nas ruas tortuosas e acanhadas da cidade medieval. A urbe tinha de crescer e, por isso, rompem-se os muros e um novo centro urbano emergiu após a urbanização de zonas que até aí mais não eram do que arrabaldes. Os bairros novos que então despontaram correspondem ao gosto e às aspirações da sociedade que os vai habitar. O burgo mudou completamente a sua fisionomia.

O acumular de capital por parte de todos estes homens de negócio, embora moderado, repita-se, ajuda a explicar que, em 1874, se instalasse na cidade, mais propriamente na Rua Visconde da Luz, centro vital da urbe trabalhadora, o Banco Comercial de Coimbra que acabou por ter vida efémera.

 

Rua Visconde da Luz. 1911-1920 01.jpg

Rua Visconde da Luz. 1911-1920

 Nesta época atuaram na cidade outros fatores de desenvolvimento, pois em 1864 passa a fazer-se sentir, em Coimbra, o “arfar” das locomotivas, facto que acaba por a despertar e por lhe abrir outras perspetivas. Naquela data apenas se consuma a ligação ferroviária entre Lisboa e Porto, mas, posteriormente, com todo o corolário de consequências bem visíveis sobretudo a nível da mentalidade e da economia, através da linha da Beira Alta, em 1882, a cidade fica ligada à Europa e o famoso Sud Express une, em 1895, diretamente Coimbra a Paris. A chegada do caminho-de-ferro introduz nas pequenas cidades da província uma dinâmica de crescimento. E Coimbra não fugiu à regra.

 

Fig. 02. Estação do caminho-de-ferro. [Revelar C

Fig. 02 – Estação do caminho-de-ferro. [Revelar Coimbra, 22].

 Refira-se, sem que tal se possa aplicar ao “apeadeiro” de Coimbra, ou seja, ao edifício pomposamente conhecido por Estação de Coimbra B ou Estação Velha, quase inalterado ao longo de mais de um século, que se na época medieval, as cidades rivalizavam entre si, porque cada uma delas pretendia construir a sé catedralícia mais imponente, a partir do século XIX, esse sentimento transferiu-se para o cais de acolhimento de passageiros do novo meio de transporte, uma vez que deixava de interessar o símbolo do poder, para passar a estar em causa o carisma do progresso.

Ponte da Portela.jpgPonte da Portela

 Um outro agente de desenvolvimento a fazer-se sentir na urbe passa pela construção, em 1873, da ponte da Portela que substituiu a tradicional barca de passagem (que operava a montante da Portela), permitindo que chegassem à cidade os chamados carros da Beira, isto é, estrados de quatro rodas, com jogo dianteiro móvel, puxado por um tiro de muares e com um toldo branco a cobrir a carga. Para Coimbra transportavam produtos produzidos na serra: batatas, castanhas, cebolas, leguminosas secas, queijos e mantas; na torna-viagem carregavam para o interior mercadorias de mimo e utilitárias proporcionadas pelo comércio citadino.

Na Portagem, a estreita e velha ponte manuelina, a famosa ponte do O, por onde passava todo o tráfego vindo do sul ou do norte, da Beira (nascente) ou do litoral mondeguino (poente) após dois anos escassos de trabalho, em 1875, cede lugar à ponte metálica de Santa Clara que ligava aquele largo à outra margem do rio. Esta nova ponte, projetada por Matias Heitor de Macedo, garantia, em toda a extensão do tabuleiro, o cruzamento de veículos, sendo também dotada de passeios laterais destinados aos peões.

 

Fig. 03. Ponte metálica de Santa Clara. [Bilhete

Fig. 03 – Ponte metálica de Santa Clara. [Bilhete Postal].

 Coimbra legitima, durante o último quartel do século XIX, a proeminência de importante nó vial.

… Na realidade, os lugares arrabaldinos do Calhabé, de Celas e dos Olivais começam a poder desfrutar dos benefícios carreados por este novo meio de transporte [os carros elétricos] que rapidamente se apossou de “velhos caminhos vicinais” capazes de transmitir “à periferia o frémito do centro”, de atrair ao “seu percurso novas moradias” e de condicionar “prolongamentos tentaculares da cidade”. Poucos anos depois toda esta área fazia parte do perímetro urbano da urbe que também passou a incluir Montarroio e Montes Claros, zonas que, paulatinamente, iam ficando pejadas de casas.

… Em 1813, o arquiteto da Universidade Joaquim José de Miranda, risca as modificações destinadas a levar a cabo no largo da Portagem e, anos depois, em 1857, o arquiteto João Ribeiro da Silva projeta a retificação da Calçada e da Rua de Coruche.

Fig. 04. Projeto da estrada entre as Ruas da Calç

Fig. 04 – Projeto da estrada entre as Ruas da Calçada e Sofia (pela Rua de Coruche). [MNMC. Inv. n.º 2873]

 O bairro de S. José, encostado à cerca do Seminário, e o de S. Sebastião, que se desenvolvia à sombra do aqueduto, começaram a crescer. Na outra margem, com proteção conventual, evoluía gradativamente o bairro de Santa Clara.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf.

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por Rodrigues Costa às 17:52

Segunda-feira, 06.07.15

Coimbra, a tração elétrica nos transportes urbanos 2

 

O tempo dos carros elétricos

A primeira notícia conhecida sobre a criação de um sistema de tração elétrica em Coimbra data de 1 de Dezembro de 1904 quando a Câmara decide “em princípio na concessão de um subsídio à Companhia dos Carris para a substituição da tração animal pela elétrica”.
Mas a decisão que deu origem à efetiva concretização deste melhoramento foi tomada em 15 de Maio de 1908, quando a Edilidade tendo concluído que “desapareceram todas as ilusões relativamente à possibilidade da instalação elétrica na Cidade por meio da Companhia de Carris de Ferros de Coimbra”, decidiu: “1.º - Que se municipalize o serviço de tração elétrica; 2.º - Que se contraia um empréstimo de 150.000$00 reis”.
… em 23 de Setembro de 1909, veio a ser adjudicado à Firma Thomson Houston Ibérica a instalação de um sistema de tração elétrica, o qual veio a ser inaugurado em 1 de janeiro de 1911, tendo sido assim noticiado:
“A instalação da tração elétrica de Coimbra … compreende 3 linhas: uma da Estação Velha à Alegria, outra da Estação Nova à cidade alta (Universidade) e a terceira da Estação Nova a Santo António dos Olivais. As tarifas … mais baratas … custam 20 reis.
… Os carros (cinco) cujos equipamentos elétricos … saíram das conhecidíssimas oficinas de J.C. Brill de Filadélfia, são elegantíssimos e confortáveis. O seu aspeto, sobretudo quando à noite circulam iluminados pelas ruas de Coimbra, é esplêndido”.

Mas o grande salto para o período de oiro dos elétricos em Coimbra – os anos 30 do século passado – foi dado quando foi aprovado o “programa para os anos de 1926 a 29” para cuja realização foi contraído um empréstimo de 6.000 contos que permitiu, nomeadamente, a encomenda do “material para a instalação de oito quilómetros de novas vias de tração elétrica, incluindo a duplicação da via desde a Rua Visconde da Luz aos Arcos do Jardim, um grupo convertidor, de mercúrio, para o serviço da Central Elétrica, 5 carros motores abertos (alcunhados de pneumónicos) e dois fechados …
Assim … em 1 de Janeiro de 1930, existiam as seguintes linhas: Linha 1, Estação Nova – Universidade; Linha 2, Praça 8 de Maio – Estação Velha; Linha 3, Calhabé – Olivais; Linha 4, Praça 8 de Maio – Olivais; Linha 5, Praça 8 de Maio – Montes Claros – Cruz de Celas; Linha 6, Portagem – Calhabé (circulação); Linha 7, Olivais – Cumeada.
Isto é: no início da década de oiro dos carros elétricos a rede de tração elétrica de Coimbra apresentava, nas suas linhas gerais e no que respeita ao casco urbano, a configuração da rede dos transportes urbanos dos nossos dias.
A partir do final desta década iniciou-se um processo que se arrastou por quase quarenta anos, através do qual, gradualmente, foram sendo substituídas as linhas de carros elétricos por troleicarros e autocarros, vindo os elétricos de Coimbra a deixar de percorrer as ruas da Cidade em 9 de Janeiro de 1980, data em que – como afirmou o estudioso deste sistema Pedro Rodrigues da Costa – “ficaram para trás 69 anos de bons serviços tendo o sistema manifestado uma eficácia e uma resistências invulgares”.

Costa, A. F. R. 2007. Troleicarros: Um Património de Coimbra. In Troleicarros de Coimbra. 60 Anos de História. Coordenação de João d’Orey. Coimbra, Ordem dos Engenheiros – Região Centro, pg. 61 a 62

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:58


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