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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 13.09.22

Coimbra: Vida académica nos anos 20, do século passado 2

Na época distante a que me estou reportando – mais concretamente, no meu tempo - havia poucas distrações. Os académicos, se queriam gozar um bocado tinham que as inventar. Os divertimentos que a cidade lhes oferecia eram o cinema (mudo) no Teatro Avenida

Teatro Avenida.jpg

Teatro Avenida

– o Sousa Bastos estava abandonado e o Tivoli apareceu mais tarde – os arraiais dos Santos Populares, a romaria do Espírito Santo, em Santo António dos Olivais, a festa da Rainha Santa, de dois em dois anos, e os bailes. Isto para não falar nas manifestações de índole puramente académica, tais como a Queima das Fitas (a 27 de Maio) que era a expressão viva da alegria reinante entre a juventude universitária,

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Enterro do Grau, 1905

os saraus do Orfeão e da Tuna (onde nos era dado o prazer inefável de escutar as vozes melodiosas dos saudosos Lucas Junot, Edmundo Betencourt, Armando Gois, Paradela de Oliveira e Serrano Baptista, infelizmente já falecidos), as récitas de despedida dos quintanistas - especialmente de medicina – e o `futebol!...

Equipa de futebol da AAC. 1923.06.03..png

Equipa de futebol da AAC. 1923.06.03.  Acedido em https://www.facebook.com/academica.oficial/photos/

Este, praticado em puro amadorismo, começou justamente por essa altura e graças à virtuosidade desse ídolo que em vida se chamou Teófilo Esquível, a conquistar adeptos e a «eletrizar» as multidões. (Não emprego o termo alienar, hoje muito em voga, por que a demência coletiva pode ser motivada por razões várias, estranhas ao desporto).

Os preços do cinema - vem a talho de foice recordá-los - eram: 3$00 a plateia e 15$00 um camarote de cinco lugares onde cabiam e entravam, sem (pagar qualquer sobretaxa, quantos estudantes quisessem! E a geral ainda era mais barata!...

Representavam-se no dito teatro uma ou outra peça desempenhada por afamadas companhias em digressão. Pelo palco da velha sala da Avenida Sá da Bandeira passaram as grandes figuras da cena portuguesa daquela época: Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Alves da Cunha, Robles Monteiro, Chaby Pinheiro, Alexandre de Azevedo, Ilda Stiquini, Maria Matos, Lucília Simões, Adelina e Aura Abranches, Vasco Santana, Auzenda de Oliveira, Estêvão Amarante, Raúl de Carvalho - para só falar daqueles que vi. E no seu ecrã projetaram-se os filmes mais reclamados do cinema americano, alemão e francês, então os de maior fama mundial, abrilhantados pela orquestra que Teixeira Lopes regia. Mal esta se quedava silenciosa por instantes, logo se ouvia a voz de um estudante gritar:

-Toca a música!...

Que mal havia nisto?

Nas noites de teatro a «malta» ocupava normalmente a geral, colocada em anfiteatro ao redor da plateia (no rés-do-chão, portanto) enchendo de alegria a vasta sala com seus ditos espirituosos e levando o entusiasmo ao seio dos artistas. Os atores-empresários saiam de Coimbra gratos pelos aplausos carinhosos recebidos da generosa e hospitaleira Academia; e sempre que a casa estava passada - o que sucedia frequentemente – davam entrada gramita aos estudantes que, por falta de recursos, não podiam comprar bilhete, deixando-os ficar sentados nas coxias, da plateia. Resumindo: em noite de espetáculo teatral só não entrava quem não queria!

Teatro Avenida. Sarau, 1946. Col. Resto e Coleçã

Teatro Avenida. Sarau, 1946. Col. Resto e Coleção

Em determinado ano, porém, os empresários levados pela ânsia de progresso meteram-se em grandes e dispendiosas obras. Para alargar a plateia acabaram com a geral no rés-do-chão e implantaram-na lá no alto, perto do palco, mas junto ao teto, estilo «galinheiro». Nunca mais se sentou lá um estudante!... Os camarotes, lugar económico e convidativo para os menos endinheirados, desapareceram também, sendo substituídos pelo balcão. Estragaram tudo! Entretanto apareceu o sonoro, subiram os preços, as «Gretas Garbos» eclipsaram-se, as películas baixaram de nível, a estudantada criou novos hábitos, surgiu o Tivoli a fazer concorrência, e a empresa, que investira seus capitais na melhor das intenções, teve de enfrentar dificuldades. Se o velho Avenida falasse teria muito que contar!...

Os bailes, porém, eram a «perdição» de meia Academia. Havia-os nos clubes recreativos das várias camadas sociais, nas ruas, largos e praças durante o S. João, nas casas particulares - os celebérrimos assaltos onde entravam amigos e desconhecidos! - nos hotéis e em improvisadas salas, não esquecendo os agradáveis serões nos casinos das praias e termas mais próximas, nem os bailaricos nas localidades vizinhas. Lembro-me muito bem de que por mais de uma vez fui parar a Pombal para assistir ao «baile do calcanhar rachado» -calcanhar rachado porque nele tomavam parte as moçoilas do campo, de pé descalço e gretado - que se efetuava no velho celeiro do Marquês, pavimentado a tijolo. Daqui resultava que a partir de certa hora da noite o ambiente tornava-se irrespirável. Levantavam-se horríveis nuvens de pó vermelho que deixavam também vermelhas as nossas capas pretas; e na manhã seguinte a nossa saliva ainda era avermelhada! Mas sabia-nos bem...

Em quase todos os bailes e chás-dançantes que se realizavam em Coimbra e arredores, tinham entrada os estudantes que se portavam como gente civilizada.

O que se comia nessas festanças, Santo Deus! Recordo-me de que uma noite, durante um baile em casa do Violante - atleta do Sport Clube Conimbricense - eu e poucos mais, à nossa conta, «devorámos» um presunto! …

Muito se dançava em tais «festarolas» ... A bailar os rapazes conheciam as raparigas, a bailar se combinavam namoricos, a bailar se faziam e desfaziam casamentos...

Hoje é muito diferente. Tudo muda na vida; até o nome das coisas! Os rapazes novos passaram a chamar-se jovens (tal e qual como as raparigas; é a tendência geral para o unissexo!), os velhos são designados por idosos, os aleijados por diminuídos físicos, os loucos por débeis mentais, as criadas de servir por empregadas` domésticas (e vê-las?), os sapateiros por manufatores ide calçado... e por aí adiante!

Não critico nem reprovo. Apenas registo...

Andava eu por Coimbra, despreocupado, de capa aos ombros e cabeleira ao vento, quando começou a evolução. Pessoas, hábitos e costumes, atividades de ordem vária e preconceitos, ouviram soar, justamente nessa época já tão distante, o «tiro de partida» para a grande «cavalgada» rumo ao progresso; e ninguém vê, nem sabe onde fica a meta-desta corrida vertiginosa. Posso mesmo dizer que foi a minha geração que sofreu o primeiro embate da grande viragem que em poucos anos modificou a histórica e linda cidade de alto a baixo, que é como quem diz da cabeça aos pés: apareceram as primeiras raparigas matriculadas nas várias Faculdades (até aí as poucas que estudavam não iam, geralmente, além do curso liceal), multiplicaram-se os automóveis, duplicaram as linhas e o número dos carros elétricos,

Elétrico n.º 4 com “chora”. Col. Pedro Rodri

Carro elétrico para o Calhabé, com o “chora”. Col. Pedro Rodrigues da Costa

surgiram como grande novidade os recipientes metálicos para recolha do lixo, que o irreverente Castelão de Almeida «batizou» de Jacós - nome que pegou; Jacob era, na altura, o presidente da Câmara - iniciou-se a urbanização da periferia (Calhabé, Montes Claros e Olivais praticamente eram subúrbios), começou (ou recomeçou) a moda do beija-mão às senhoras, e, mais ou menos, todas as atividades escolares, sociais, e citadinas, sofreram alterações. Umas terão sido para melhor, outras para pior. Só o tempo, grande mestre, o dirá. Uma coisa é certa: o progresso não para. Acabaram-se os quartos sem janela e desapareceram os candeeiros de petróleo! Simplesmente, nem todas as benesses terão trazido a felicidade à gente nova. Esta, em meu entender, é hoje mais ambiciosa do que no meu tempo. Ambição aliás legítima. Porém, talvez por via dela, e também por má perceção de quem a devia compreender, a juventude estudantil parece menos alegre do que era há cinquenta anos.... Será?

Sampaio, A. Coimbra onde uma vez… Recordações de um antigo estudante. 1974. Portalegre, edição do Autor.

 

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por Rodrigues Costa às 10:37

Quinta-feira, 14.01.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 2

A Cidade Oitocentista (continuação)

Toda esta gente que tentava subir na vida a pulso, quando atingia o estatuto económico de pequena burguesia, aspirava a fazer-se reconhecer como tal e nada melhor para se afirmar do que e a ostentação; por isso, as moradas, tanto as dos vivos, como as dos mortos, passaram a funcionar como sendo o seu cartão-de-visita. Mas, as dos vivos exigiam áreas amplas e de forma nenhuma podiam caber nas ruas tortuosas e acanhadas da cidade medieval. A urbe tinha de crescer e, por isso, rompem-se os muros e um novo centro urbano emergiu após a urbanização de zonas que até aí mais não eram do que arrabaldes. Os bairros novos que então despontaram correspondem ao gosto e às aspirações da sociedade que os vai habitar. O burgo mudou completamente a sua fisionomia.

O acumular de capital por parte de todos estes homens de negócio, embora moderado, repita-se, ajuda a explicar que, em 1874, se instalasse na cidade, mais propriamente na Rua Visconde da Luz, centro vital da urbe trabalhadora, o Banco Comercial de Coimbra que acabou por ter vida efémera.

 

Rua Visconde da Luz. 1911-1920 01.jpg

Rua Visconde da Luz. 1911-1920

 Nesta época atuaram na cidade outros fatores de desenvolvimento, pois em 1864 passa a fazer-se sentir, em Coimbra, o “arfar” das locomotivas, facto que acaba por a despertar e por lhe abrir outras perspetivas. Naquela data apenas se consuma a ligação ferroviária entre Lisboa e Porto, mas, posteriormente, com todo o corolário de consequências bem visíveis sobretudo a nível da mentalidade e da economia, através da linha da Beira Alta, em 1882, a cidade fica ligada à Europa e o famoso Sud Express une, em 1895, diretamente Coimbra a Paris. A chegada do caminho-de-ferro introduz nas pequenas cidades da província uma dinâmica de crescimento. E Coimbra não fugiu à regra.

 

Fig. 02. Estação do caminho-de-ferro. [Revelar C

Fig. 02 – Estação do caminho-de-ferro. [Revelar Coimbra, 22].

 Refira-se, sem que tal se possa aplicar ao “apeadeiro” de Coimbra, ou seja, ao edifício pomposamente conhecido por Estação de Coimbra B ou Estação Velha, quase inalterado ao longo de mais de um século, que se na época medieval, as cidades rivalizavam entre si, porque cada uma delas pretendia construir a sé catedralícia mais imponente, a partir do século XIX, esse sentimento transferiu-se para o cais de acolhimento de passageiros do novo meio de transporte, uma vez que deixava de interessar o símbolo do poder, para passar a estar em causa o carisma do progresso.

Ponte da Portela.jpgPonte da Portela

 Um outro agente de desenvolvimento a fazer-se sentir na urbe passa pela construção, em 1873, da ponte da Portela que substituiu a tradicional barca de passagem (que operava a montante da Portela), permitindo que chegassem à cidade os chamados carros da Beira, isto é, estrados de quatro rodas, com jogo dianteiro móvel, puxado por um tiro de muares e com um toldo branco a cobrir a carga. Para Coimbra transportavam produtos produzidos na serra: batatas, castanhas, cebolas, leguminosas secas, queijos e mantas; na torna-viagem carregavam para o interior mercadorias de mimo e utilitárias proporcionadas pelo comércio citadino.

Na Portagem, a estreita e velha ponte manuelina, a famosa ponte do O, por onde passava todo o tráfego vindo do sul ou do norte, da Beira (nascente) ou do litoral mondeguino (poente) após dois anos escassos de trabalho, em 1875, cede lugar à ponte metálica de Santa Clara que ligava aquele largo à outra margem do rio. Esta nova ponte, projetada por Matias Heitor de Macedo, garantia, em toda a extensão do tabuleiro, o cruzamento de veículos, sendo também dotada de passeios laterais destinados aos peões.

 

Fig. 03. Ponte metálica de Santa Clara. [Bilhete

Fig. 03 – Ponte metálica de Santa Clara. [Bilhete Postal].

 Coimbra legitima, durante o último quartel do século XIX, a proeminência de importante nó vial.

… Na realidade, os lugares arrabaldinos do Calhabé, de Celas e dos Olivais começam a poder desfrutar dos benefícios carreados por este novo meio de transporte [os carros elétricos] que rapidamente se apossou de “velhos caminhos vicinais” capazes de transmitir “à periferia o frémito do centro”, de atrair ao “seu percurso novas moradias” e de condicionar “prolongamentos tentaculares da cidade”. Poucos anos depois toda esta área fazia parte do perímetro urbano da urbe que também passou a incluir Montarroio e Montes Claros, zonas que, paulatinamente, iam ficando pejadas de casas.

… Em 1813, o arquiteto da Universidade Joaquim José de Miranda, risca as modificações destinadas a levar a cabo no largo da Portagem e, anos depois, em 1857, o arquiteto João Ribeiro da Silva projeta a retificação da Calçada e da Rua de Coruche.

Fig. 04. Projeto da estrada entre as Ruas da Calç

Fig. 04 – Projeto da estrada entre as Ruas da Calçada e Sofia (pela Rua de Coruche). [MNMC. Inv. n.º 2873]

 O bairro de S. José, encostado à cerca do Seminário, e o de S. Sebastião, que se desenvolvia à sombra do aqueduto, começaram a crescer. Na outra margem, com proteção conventual, evoluía gradativamente o bairro de Santa Clara.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf.

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por Rodrigues Costa às 17:52

Terça-feira, 25.02.20

Coimbra: Antigos caminhos e pequenos bairros a nascente da Cidade

Com esta entrada iniciamos a divulgação de alguns artigos publicados por Nogueira Gonçalves entre 1921 e 1991, principalmente em jornais. Este texto, um dos que mais nos tocou, integra a obra recentemente editada pela Câmara Municipal de Coimbra, intitulada “A. Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas”, que teve a coordenação de Regina Anacleto e de Nelson Correia Borges.
É nossa intenção voltar, uma e mais vezes, a este livro de grande valor histórico, escrito de uma forma admirável pela sua beleza e singeleza.

Nada mais natural pensar que a antiga estrada da Beira até á Portela tenha seguido um traçado que a atual decalca; o próprio terreno parece indicar esse lógico trajeto; e, todavia, não se deu isso.
Deixaremos para outra vez o caminho da rua da Alegria, Arregaça, seguindo para Marrocos, o caminho da via longa como outrora se dizia.
A estrada da Beira partia não da ponte mas da parte alta, da porta do Castelo.
Sigamo-la.
Passada a porta da fortaleza tinha-se logo abaixo ao lado direito o caminho que permitia voltar á cidade pela porta da Traição; à esquerda a estrada de Entremuros que levaria a Fonte Nova, de onde se tomaria para a porta Nova ou rua das Figueirinhas ou ainda se cortaria a norte para o Montarroio.
Além de entrada principal da cidade travessas várias pois daí se tomavam; não faltaria a qualquer hora gente a calcorrear o ponto de separação viário.

Aqueduto de S. Sebastião. Arco principal 03.jpgNa parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Coleção Regina Anacleto

Muito naturalmente o sítio, na parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Ao lado direito, aonde vinha bater o muro da velha quinta dos crúzios, havia um, como hoje, em frente ao aqueduto. Prolongava-se mais que agora (e duma demolição recente ainda nos lembramos todos), fazendo uma correnteza de casas, tendo só encostadas aos arcos e em frente, portanto das outras umas duas ou três.
Tinha para o lado da Penitenciária a modesta capela de S. Martinho, e em ponto levemente anterior o oratório do Santo Cristo das Maleitas, transformação dum cruzeiro de caminho.
Era este o fatal bairro popular que precedia a entrada das cidades fortificadas. Tabernas, pequenos negócios, gente sem eira nem beira, vivendo em tugúrios e pronta a qualquer serviço humilde, a alombar todos os carregos, a encarregar-se de qualquer recado, tudo isso aí ficaria.
Sigamos o caminho, passando sob o arco principal, pois que a topografia foi modificada com o muro do jardim botânico. Era aqui o ladeirento e pequeno campo de Santa Ana, com o chafariz, donde seguia o caminho de Celas e cortava o da Beira para o novo bairrozinho, o de S. José, tirando o nome do colégio conventual de S. José dos Marianos (hospital militar).
Logo na esquina, tal como hoje, lá esperaria sem sombra de dúvida outra taberna aos que vinham da cidade e aos que cansara a ladeira que nós iremos descer.
Paremos e deixemos que os nossos olhos repousem a despedir-se das duas casas que as demolições deixaram em pé por uns breves dias.
Uma das coisas mais incompletas que há pelo campo das ciências é a geografia humana; em nenhum livro dos vários que dela se ocupam e que percorri (em nenhum!) encontrei este capítulo: – a taberna fulcro da fixação dos agregados populacionais. Valia a pena estudá-lo e escrevê-lo, que daria perspetivas novas a esta ciência.
A taberna atual deverá representar uma série infinda delas. Já ali beberam as tropas de Massena, para não falar em tempos mais antigos. Quantos almocreves, carreiros, gente de todo o género por ali não passou, quantos mendigos ali não trocaram uns tostõezinhos por um bom copo, compensador da miséria e do abandono, dando-lhes um verdadeiro antegosto dum céu particular!
Não há sensibilidade nesta desgraçada terra, não há amor da tradição, escusado será pedir à fria gente da Câmara para a conservar no meio dum larguito, enramada de larga parreira e com um loureiro a dar sombra. Dentro de dias o balcão esmurrado e nodoento será tirado, desaparecerá aquele soalho aonde cuspiram centenas de gerações! Exultaram os higienistas, como é de seu mau instinto, e eu entristecer-me-ei por saber que os malandros que hoje me pedem um tostãozinho não terão aonde o ir empregar sem tardança!

S. Antoninho dos porcos 1.jpgCapela de Santo Antoninho dos porcos, na sua atual localização. Coleção Regina Anacleto

S. Antoninho dos porcos 2.JPGCapela de Santo Antoninho dos porcos, interior. Coleção Regina Anacleto

Começava a descida e, à capela de Santo Antoninho dos porcos (pois que ali se fazia o mercado deles) passava o caminho pelo desvio angular que ainda ali se vê, para depois se meter pela ladeira calçada das Alpenduradas.
No fundo da descida, depois do mercado e das traseiras da fábrica, atingindo o vale, encontrava-se, como hoje, o começo do bairro do Calhabé e que se continuava esgarçadamente até perto da passagem de nível, sítio este aonde todos nós conhecemos umas casas baixas.

Calhabé 7 CF.jpgNuma destas parece que viveu o velho Calhabé. Coleção Carlos Ferrão

Numa destas parece que viveu o velho Calhabé, prazenteiro e bebedor, mas que fora homem de representação.
Já outrora ninguém pensaria que ainda fosse cidade o Calhabé, bem ao contrário do que os justos fados talharam e que começa a realizar-se: o Calhabé ser a cidade e Coimbra um pobre bairro do mesmo Calhabé!
Podia-se descansar um pouco que uma nova ladeira esperava o caminhante. Lentamente subia-se á Portela da Cobiça.

Portela da Cobiça.JPGPortela da Cobiça. O que resta, no seu estado original, do percurso descrito

Lançado um último olhar à cidade afastada, transposto o colo, caminhava-se pelo vale transverso até ao rio, que depois se ia acompanhando para cima das Torres.

Barc do Concelho.JPGLocal onde funcionava a “barca do Concelho”

Em frente aos Palheiros esperava-se que a barca do concelho viesse da outra margem e nos transportasse.
A cidade, aonde ficava ela!
Não vale a pena continuar só pela esperança de a tornar a ver do alto do monte, vencida a longa e áspera ladeira.
Lá seguiriam os viandantes, pelo cume, até Carvalho. Por Poiares, Almas da Serra, (S. Pedro Dias) iriam cair na Ponte de Mucela, aonde buscariam agasalho conforme a sua bolsa.
A serra máxima, a da Estrela do pastor, esperava-os. Quantas horas não levariam, moídos do mau piso e da distância! Tudo isso tão longínquo, não é verdade? E, todavia, para a gente da minha infância e um pouco mais velha, com a melhoria das diligências e da estrada a macadame, quão próximo e compreensivo, que os tempos anteriores se poderiam fazer surgir sem espanto; como tudo está longe, porém desta gente que já foi embalada num bom automóvel!
«Diário de Coimbra», 1952.12.25.

Gonçalves, A. N. 2019. António Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas. Coordenação de Regina Anacleto e Nelson Correia Borges. Prefácio de José de Encarnação. Coimbra, Câmara Municipal. Volume II, pg. 498-500

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por Rodrigues Costa às 10:02

Segunda-feira, 12.06.17

Coimbra: S. António dos Olivais, de ermitério a freguesia 1

No início do século XIII o local onde atualmente se ergue a igreja de Santo António dos Olivais já era conhecido pelo nome de Olivais, mas ignora-se a partir de que data se agregou ao sítio o epíteto de Santo António ou Santo Anton. Tratava-se do António ou Antão, um ermita que tinha a sua capela numa zona deserta. O templo situa-se a nordeste da antiga ci­dade, assenta numa pequena elevação, domina subdivisões de velhos caminhos e pertence ao tipo dos “santuários dos altos”.

Santo António dos Olivais. Bilhete-postal antigo.

Santo António dos Olivais. Bilhete-postal antigo

A mais antiga referência documental que lhe diz respeito encontra-se na Vita Sancti Antonii, escrita no século XIII.

As grandes ondulações laterais dos terrenos antigos, integrantes do forte e largo maciço da meseta peninsular, a que se encostam ro­chas mais recentes, da época terciária, vêm morrer pela altura dos Tovins e o seu pregueado, a partir daí, vai-se desdobrando em curvas menos acentuadas e em alturas cada vez menores. 

Desses mesmos Tovins desenvolve‑se uma linha de cimos que, elevando‑se em São Sebastião, tem o ponto dominante na igreja de Santo António. Corre depois pela Cumeada até ao Penedo da Saudade, descai à garganta dos Arcos e sobe, para o alto do antigo castelo. Ergue aí a cabeça como que a despedir‑se das serras de onde veio e passa a olhar o rio em que se vai sumir, quer deslizando pelas linhas do morro da Sé Nova, quer pelas da antiga alcáçova real.

Do ponto de vista geomorfológico, Santo António nunca foi um ermo perdido, pois situava-se num local obrigatório de passagem para os que, descendo do Roxo ou do Agrelo, buscavam os vales húmidos de Coselhas ou do Calhabé. Os caminhos trilhados hoje, coincidem, grosso modo, com os de outrora e as linhas naturais de trânsito vinham divi­dir-se na base do pequeno morro da igreja: a principal, cortava ao lado para nordeste, descendo a calçada e a outra, voltava-se para noroeste.

Certamente que, também e desde sempre, o morro arredondado se impôs ao espírito religioso, até porque os altos são, naturalmente, pousadouros de culto, sítios que o homem consagra à divindade, talvez porque assim lhe pareça que se aproxima mais de Deus. Neste contexto, não se mostra despiciendo tentar desvendar qual teria sido a latria que acampara neste cimo, antes de se haver erguido a capelita de Santo António ermita.

... a charneira dos séculos XII-XIII não funcionou como um começo, mas como uma continuidade, pois luso-romanos e visigodos já ali devem ter feito subir as suas preces ao Ser Supremo.

Nos primórdios da nacionalidade existiu nesta pequena e destacada elevação uma capelinha dedicada a Santo António, o ermita, e, ao lado, erguer-se-ia um tugúrio para o ermitão, certamente homem pobre, sem recursos, que se prontificava a guardar o oratório a troco de alguma esmola e de um teto que o protegesse das intempéries.

O conjunto pertencia ao cabido catedralício, tal como acontecia com um outro modesto templo, o do Espírito Santo, que se erguia um pouco mais abaixo, logo ali no vale; a este, nem mesmo os brasões de D. Fernando e de Leonor Teles, apostos na fachada, lhe conferiam grandeza.

E se, a capela de Santo António marcava o cimo, a do Espírito Santo assinalava o talvegue penumbroso.

Anacleto, R. 2005. Santo António dos Olivais: De Ermitério a Freguesia. Conferência na cerimónia comemorativa do aniversário da criação da freguesia.

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por Rodrigues Costa às 10:51

Terça-feira, 02.05.17

Coimbra: origem do topónimo Calhabé

Encontra-se também próximo da estrada da Beira (hoje Rua do Brasil, junto ao entroncamento com a Rua dos Combatentes) um pequeno lugar, o «Calhabé», que foi formado pela aglomeração de algumas casitas ao pé de uma antiga taberna.

Vem-lhe o nome de um consciencioso sacerdote de Baco, muito nomeado nos finais do último (séc. XVIII), e do qual nos deixou memória um dos autores da «Macarronea», no «Calhabeidos». Vejamos.

O Calhabé, o famoso Calhabé, entra na taverna, e é calorosamente recebido; alguém o apostrofa, com umas reminiscências virgilianas:

Ó Calhabee, Deus nobis haec otia fecit;

Sejas bem vindo; nobis communia sejant

Gaudia; nam boa pinga temos, boa pinga bibatur,

Tantas pelas nossas corrat vinhaça goellas,

Quantum ferre solet Inverni mensibus augam,

Monda, Coimbrenses cobris qua turbidus agros.

Ferte siti alqueires, almudes, ferte canadas,

Et pipae, ceu Monda, fluant: date procula, tripas

Tempestas vermelha reguet ; Calhabee, bebamus.

O Calhabé não se fez rogar; escancara a boca como um forno; bebe da torneira do tonel, bebe, bebe; e não fica farto, Vendo que os outros não acompanham, incita-os às libações:

Bibe plus, bibe, quaeso:

Sume canadinham saltem hanc: engole copinhum

Saltem hunc.

E bebe sem descanso; mas finalmente a cabeça se lhe transtorna; e por fim cai bêbado «como uma canastra».

Então todos os companheiros aplaudem, dizendo-lhe um tanto admirados:

Tu quoque, magne, cadis, Calhabee!

 

 Nota

A designação Calhabé foi aqui muito popular pois era a que figurava nos elétricos da linha 5. Quando foram substituídos pelos troleicarros estes passaram a ostentar a designação S. José e o topónimo foi-se perdendo.

Figueiredo, A. C. B. 1996. Coimbra Antiga e Moderna. Edição Fac-similada. Coimbra, Livraria Almedina, pg. 311

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por Rodrigues Costa às 09:58

Segunda-feira, 02.05.16

Coimbra: Vaga de crimes na transição do século XVIII para o século XIX

Nos anos de 1799 a 1802, a região de Coimbra foi inundada por uma verdadeira vaga de crimes. Os assassinatos, roubos, violações e resistência às autoridades sucediam-se a traziam as populações em permanente inquietação. O «quartel-general» dos malfeitores estava localizado na vizinha povoação da Cruz dos Morouços e em outras aldeias não distantes desta cidade.

… Um atentado grave, porem, pôs em sobressalto a população citadina, que indignadamente se ergueu em protesto contra a impunidade em que vivam os criminosos … Este atentado teve lugar na noite de 20 de Janeiro de 1802. Dez facínoras dirigiram-se à Quinta da Cheira, no Calhabé, entraram numa casa particular, amarraram a sua moradora (mãe de um capitão de Ordenanças), estenderam-na sobre um banco, deram-lhe algumas picadas com uma faca, tendo um alguidar por baixo … intimidando-a assim para revelar onde tinha escondido o dinheiro. Como nem assim conseguiram que ela falasse, encaminharam-na para um quintal, abriram uma cova para enterrar a sua vítima, e reentraram em casa, revolvendo e arrobando tudo, roubando dinheiro, roupas e cereais. Nem um porco vivo escapou.

… Mas tornara-se corrente e geral a convicção de que as autoridades locais eram impotentes para fazer face à audácia dos criminosos …por carta régia foi o desembargador … incumbido de dirigir superiormente as averiguações … Chegado a Coimbra … instalou-se … na casa do correio velho, na Rua das Fangas, e logo expediu ordens severas para todas as autoridades da província da Beira, determinando a prisão dos criminosos. E em breve começaram a afluir ao pátio da casa do correio os criminosos capturados em diversas terras… Concluída a devassa, os réus presos foram enviados para a cadeia da Relação do Porto, ligados uns aos outros com cadeias de ferro.

… De Coimbra foram remetidos para o Porto 25 presos, e na capital do norte foram julgados por sentença de 25 de Junho de 1803, sendo 17 condenados a pena última, 3 a degredo perpétuo, 3 a degredo por dez anos, 1 a degredo por 5 anos, e só um absolvido … Por carta régia foi substituída a pena dos condenados à morte por outra menor … de degredo perpétuo, dando três voltas em roda da forca e sendo açoitados ali e em outros lugares.

… De harmonia com esse julgado, os réus vieram a Coimbra para a aplicação dos açoites, dando entrada na cadeia da Portagem. No dia seguinte para a triste cerimónia, saíram da cadeia seguros uns aos outros por gargalheiras de ferro, de mãos atadas adiante e nus da cinta para cima. O meirinho leu o acórdão da Relação logo à saída da cadeia, no Largo da Portagem, batendo o algoz em seguida com uma sola nas costas de cada um dos condenados. Percorreram as principais ruas e largos da cidade, repetindo-se o castigo em diversos pontos, e por último no Calhabé, no local do crime referido. E, voltando novamente ao Porto, de lá seguiram para o degredo.

Loureiro, J. P. 1967. Coimbra no Século XIX. Separata do Arquivo Coimbrão, Vol. XXIII. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg.27 a 29

 

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por Rodrigues Costa às 09:24

Quinta-feira, 24.12.15

Coimbra, caminhos e bairros a nascente da Cidade

Nada mais natural pensar que a antiga estrada da Beira até á Portela tenha seguido um traçado que a atual decalca; o próprio terreno parece indicar esse lógico trajeto; e todavia não se deu isso.
… A estrada da Beira partia não da ponte mas da parte alta, da porta do Castelo … Passada a porta da fortaleza tinha-se logo abaixo ao lado direito o caminho que permitia voltar á cidade pela porta da Traição; à esquerda a estrada de Entremuros que levaria a Fonte Nova, de onde se tomaria para a porta Nova ou rua das Figueirinhas ou ainda se cortaria a norte para o Montarroio.
… Muito naturalmente o sítio, na parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Ao lado direito, aonde vinha bater o muro da velha quinta dos crúzios, havia um, como hoje, em frente ao aqueduto. Prolongava-se mais que agora (e duma demolição recente ainda nos lembramos todos), fazendo uma correnteza de casas, tendo só encostadas aos arcos e em frente portanto das outras umas duas ou três.
Tinha para o lado da Penitenciária a modesta capela de S. Martinho, e em ponto levemente anterior o oratório do Santo Cristo das Maleitas, transformação dum cruzeiro de caminho.
Era este o fatal bairro popular que precedia a entrada das cidades fortificadas. Tabernas, pequenos negócios, gente sem eira nem beira, vivendo em tugúrios e pronta a qualquer serviço humilde, a alombar todos os carregos, a encarregar-se de qualquer recado, tudo isso aí ficaria.
Sigamos o caminho, passando sob o arco principal, pois que a topografia foi modificada com o muro do jardim botânico. Era aqui o ladeirento e pequeno campo de Santa Ana, com o chafariz, donde seguia o caminho de Celas e cortava o da Beira para o novo bairrozinho, o de S. José, tirando o nome do colégio conventual de S. José dos Marianos (hospital militar).
… Começava a descida e, à capela de Santo Antoninho dos porcos (pois que ali se fazia o mercado deles) passava o caminho pelo desvio angular que ainda ali se vê, para depois se meter pela ladeira calçada das Alpenduradas.
No fundo da descida, depois do mercado e das traseiras da fábrica, atingindo o vale, encontrava-se, como hoje, o começo do bairro do Calhabé e que se continuava esgarçadamente até perto da passagem de nível, sítio este aonde todos nós conhecemos umas casa baixas. Numa destas parece que viveu o velho Calhabé, prazenteiro e bebedor, mas que fora homem de representação.
Já outrora ninguém pensaria que ainda fosse cidade o Calhabé, bem ao contrário do que os justos fados talharam e que começa a realizar-se: o Calhabé ser a cidade e Coimbra um pobre bairro do mesmo Calhabé!
Podia-se descansar um pouco que uma nova ladeira esperava o caminhante. Lentamente subia-se á Portela da Cobiça. Lançado um último olhar à cidade afastada, transposto o colo, caminhava-se pelo vale transverso até ao rio, que depois se ia acompanhando para cima das Torres. Em frente aos Palheiros esperava-se que a barca do concelho viesse da outra margem e nos transportasse.
A cidade, aonde ficava ela!
… Lá seguiriam os viandantes, pelo cume, até Carvalho. Por Poiares, Almas da Serra, (S. Pedro Dias) iriam cair na Ponte de Mucela, aonde buscariam agasalho conforme a sua bolsa.
A serra máxima, a da Estrela do pastor, esperava-os.

Gonçalves, A. N. 1952. Antigos Caminhos e Pequenos Bairros a Nascente da Cidade. In Diário de Coimbra, edição de 25.12.1951

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 24.11.15

Coimbra, o Bairro de S. José, a capelinha de Santo Antoninho dos porcos e a Estrada da Beira

A partir da segunda metade de Oitocentos projetaram-se e começaram a crescer os bairros de S. José e de S. Sebastião; o primeiro encostava-se à cerca do Seminário e abrangeria, outrora, a zona que ia da esquina do Jardim Botânico ao começo da ladeira das Alpenduradas; tirara o seu nome do colégio conventual de S. José dos Marianos (hospital militar). O segundo desenvolvia-se à sombra do aqueduto, quiçá confundindo-se parcialmente com o bairro de S. Martinho.
… O Bairro de S. José, que outrora servia de cenário à feira dos porcos, prolongou-se pela Rua de S. José, posteriormente dos Combatentes da Grande Guerra, até ao Calhabé que, em meados do século XIX, não passava de uma quinta com uma única casa.
… Entre as direções apontadas como possíveis para responder à necessidade do alargamento do espaço urbano pode referir-se o Bairro da Estrada da Beira que, desde 1887, vinha ganhar forma. Nessa data, a conhecida via iniciava-se no Largo Príncipe D. Carlos (Portagem) e estendia-se até ao Calhabé, mais ou menos ao local onde se encontra a passagem de nível; mas nem sempre assim foi, porque, na verdade, a Estrada da Beira partida da parte alta, da porta do Castelo, baixava ao longo do aqueduto, passava sob o arco principal, atravessa o “jardim dos patos” e seguia até à capela de Santo Antoninho dos porcos, cruzava o bairro de S. José e metia pela ladeira calçada das Alpenduradas. No fundo da descida, depois de desenrolar um pouco, subia à Portela da Cobiça, caminhava pelo vale transverso até ao rio que era atravessado numa zona situada um pouco acima das Torres do Mondego.


Anacleto, R. 2010. Coimbra Entre os Séculos XIX e XX. Ruptura Urbana e Inovação Arquitectónica. In Caminhos e Identidades da Modernidade. 1910. O Edifício Chiado em Coimbra. Actas. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 169 e 170

 

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por Rodrigues Costa às 10:43

Segunda-feira, 06.07.15

Coimbra, a tração elétrica nos transportes urbanos 2

 

O tempo dos carros elétricos

A primeira notícia conhecida sobre a criação de um sistema de tração elétrica em Coimbra data de 1 de Dezembro de 1904 quando a Câmara decide “em princípio na concessão de um subsídio à Companhia dos Carris para a substituição da tração animal pela elétrica”.
Mas a decisão que deu origem à efetiva concretização deste melhoramento foi tomada em 15 de Maio de 1908, quando a Edilidade tendo concluído que “desapareceram todas as ilusões relativamente à possibilidade da instalação elétrica na Cidade por meio da Companhia de Carris de Ferros de Coimbra”, decidiu: “1.º - Que se municipalize o serviço de tração elétrica; 2.º - Que se contraia um empréstimo de 150.000$00 reis”.
… em 23 de Setembro de 1909, veio a ser adjudicado à Firma Thomson Houston Ibérica a instalação de um sistema de tração elétrica, o qual veio a ser inaugurado em 1 de janeiro de 1911, tendo sido assim noticiado:
“A instalação da tração elétrica de Coimbra … compreende 3 linhas: uma da Estação Velha à Alegria, outra da Estação Nova à cidade alta (Universidade) e a terceira da Estação Nova a Santo António dos Olivais. As tarifas … mais baratas … custam 20 reis.
… Os carros (cinco) cujos equipamentos elétricos … saíram das conhecidíssimas oficinas de J.C. Brill de Filadélfia, são elegantíssimos e confortáveis. O seu aspeto, sobretudo quando à noite circulam iluminados pelas ruas de Coimbra, é esplêndido”.

Mas o grande salto para o período de oiro dos elétricos em Coimbra – os anos 30 do século passado – foi dado quando foi aprovado o “programa para os anos de 1926 a 29” para cuja realização foi contraído um empréstimo de 6.000 contos que permitiu, nomeadamente, a encomenda do “material para a instalação de oito quilómetros de novas vias de tração elétrica, incluindo a duplicação da via desde a Rua Visconde da Luz aos Arcos do Jardim, um grupo convertidor, de mercúrio, para o serviço da Central Elétrica, 5 carros motores abertos (alcunhados de pneumónicos) e dois fechados …
Assim … em 1 de Janeiro de 1930, existiam as seguintes linhas: Linha 1, Estação Nova – Universidade; Linha 2, Praça 8 de Maio – Estação Velha; Linha 3, Calhabé – Olivais; Linha 4, Praça 8 de Maio – Olivais; Linha 5, Praça 8 de Maio – Montes Claros – Cruz de Celas; Linha 6, Portagem – Calhabé (circulação); Linha 7, Olivais – Cumeada.
Isto é: no início da década de oiro dos carros elétricos a rede de tração elétrica de Coimbra apresentava, nas suas linhas gerais e no que respeita ao casco urbano, a configuração da rede dos transportes urbanos dos nossos dias.
A partir do final desta década iniciou-se um processo que se arrastou por quase quarenta anos, através do qual, gradualmente, foram sendo substituídas as linhas de carros elétricos por troleicarros e autocarros, vindo os elétricos de Coimbra a deixar de percorrer as ruas da Cidade em 9 de Janeiro de 1980, data em que – como afirmou o estudioso deste sistema Pedro Rodrigues da Costa – “ficaram para trás 69 anos de bons serviços tendo o sistema manifestado uma eficácia e uma resistências invulgares”.

Costa, A. F. R. 2007. Troleicarros: Um Património de Coimbra. In Troleicarros de Coimbra. 60 Anos de História. Coordenação de João d’Orey. Coimbra, Ordem dos Engenheiros – Região Centro, pg. 61 a 62

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:58


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