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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 07.02.23

Coimbra: Faculdade de Letras, Ícone do Poder 2

Os Portões: páginas de bronze. (Homero, Gil Vicente, Camões, Antero, Cesário, Nobre, Florbela, Pessoa e Eugénio de Castro).

 Houve preocupação notória, por parte dos mentores do projeto, em enobrecer a entrada das faculdades e isto nota-se especialmente na Faculdade de Letras.

… olhemos, de novo, a entrada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e perscrutemos o sentido daquelas “letras” de bronze. A erudição que tem lugar no interior do edifício transpira para o exterior pelos poros da fachada que são os seus portões. Aí se deixa antever um pouco do estudo que toma lugar na Faculdade de Letras. Completamente dedicado à temática da literatura, os portões da Faculdade de Letras exibem páginas (em imagens) das obras de Homero, Gil Vicente, Camões, Antero de Quental, Florbela Espanca, Cesário Verde, Eugénio de Castro, António Nobre e Fernando Pessoa.

 Os Autores dos relevos que citam episódios das obras dos escritores que acabámos de enumerar são discípulos e Barata Feyo, alunos da Escola Superior das Belas-Artes do Porto: Maria Alice Gomes Pereira, Olívio Machado França, Joaquim Barbosa e Manuel Vigário.

… O primeiro portão dedicado a Mestre Gil Vicente, exibe [para além de outras] a primeira peça do teatro português: o “Monólogo do Vaqueiro” de 1502.

Op. cit., pg. 51.jpg

Portão dedicado a Mestre Gil Vicente. Op. cit., pg. 51

De regresso ao Mundo Antigo, de Homero, não temos dúvidas na identificação das cenas representadas nos portões que ladeiam a porta mais ao centro: fomos encontrá-las a todas na “Odisseia”

Op. cit., pg. 52.jpg

Portão dedicado a Homero. 1. Op. cit., 52

 

Op. cit., pg. 54.jpg

Portão dedicado a Homero. 2 Op. cit., 54

O painel central é o que oferece maiores dúvidas e, como diria Nuno Rosmaninho, admitimos que os seus relevos se tratem de “súmulas interpretativas de cada um dos poetas”, da obra dos poetas ou de algum passo da obra desses poetas.

Op. cit., pg. 53.jpg

Portão dedicado aos Poetas Contemporâneos. Op. cit., 53

O último portão é dedicado ao Poeta de Portugal por excelência, Luís Vaz de Camões. É tratado, quer na sua obra épica, quer na sua escrita lírica.

Op. cit., 55.jpg

Portão dedicado a Camões, pg. Op. cit., pg. 55

Os autores dos relevos estudaram bastante para representarem as obras: leram-nas e colheram informações sobre elas. Quando dizemos autores, poderemos querer referir-nos aos seus mentores pois não sabemos se a obra foi idealizada apenas pelo arquiteto ou também, e com certeza que isto terá acontecido, pelo diretor da Escola de Escultura do Porto e, ainda, pelos escultores que, não teremos motivações para duvidar de Barata Feyo, contribuíram para que a obra “resultasse feliz”.

Duarte, M.D. 2003. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra: Ícone do Poder. Ensaio iconológico da imagética do Estado Novo. Prefácio de Regina Anacleto. Coimbra, Câmara Municipal.

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por Rodrigues Costa às 19:40

Terça-feira, 31.01.23

Coimbra: Faculdade de Letras, Ícone do Poder 1

Já tivemos ocasião de chamar a atenção dos nossos leitores para a obra do Doutor Marco Daniel Duarte, atualmente, diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos da mesma Instituição religiosa, bem como do Arquivo e da Biblioteca. Também dirige o Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima.

Investigador de grande gabarito, historiador probo, doutorado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi mais um de entre os seus mais brilhantes alunos que a Cidade não soube reter, “obrigando-o” a demandar outras paragens, onde, pela qualidade do seu trabalho desenvolvido, tem demonstrado a importância da investigação histórica, investigação essa que aqui poderia – e deveria - ter desenvolvido em Coimbra. É este o trabalho que vamos divulgar.

Faculdade de Letras. Ícone do Poder, capa.jpg

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra: Ícone do Poder. Ensaio iconológico da imagética do Estado Novo. Capa

Como refere no prefácio a Professora Doutora Regina Anacleto foi realizado no contexto avaliativo da disciplina de História da Arte Contemporânea, por si, então regida, acrescentando, nomeadamente: "O objetivo do livro … passa pela tentativa (bem conseguida) do estudo da obra de arte plena, através da análise de diferentes perspetivas que englobam, para além de outras, a abordagem biográfica dos artistas, bem como a inserção do imóvel no contexto social, a fim de entender mais intimamente a obra de arte na sua totalidade. Por isso procura olhar, interpretar e ver o imóvel da cidade universitária aeminiense representado por imagens e tenta “perscrutar a obra feita no seu sentido mais ínfimo que escapa ao observador, mais apressado”.

 

Op. cit., pg. 20.jpg

Edifício da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Op.cit., pg. 20

Iremos realizar a divulgação deste trabalho, procurando seguir as partes em que se encontra dividido e que correspondem a uma imaginária delimitação do todo da obra estudada, em cinco espaços que a constituem, cada um sob uma epígrafe.

As quatro esculturas (Barata Feyo esculpe Safo, Tucídides, Aristóteles e Demóstenes ou A Poesia, A História, A Filosofia e A Eloquência)

 A ideia de que as edificações das faculdades da cidade universitária são meras linhas retas sem interesse arquitetónico-artístico desfaz-se com o olhar pra a fachada de qualquer uma das construções, principalmente quando se olha a frontaria da Faculdade de Letras.

Op. cit., pg. 17.jpg

Praça da Porta Férrea, onde se implanta o edifício da Faculdade de Letras, cujo fácies se geminou na fachada da Biblioteca Geral. Op. cit., pg. 17

Na verdade, a fachada do edifício fica longe de se resumir às quatro linhas que delimitam as arestas da frontaria do «caixotão».

Op. cit., pg. 25.jpg

A clareza arquitetónica da construção leva a considerar os seus (poucos) ornamentos como essenciais no discurso que se quis edificar. Op. cit., pg. 25.

  o acesso àquela casa do saber não é feito de maneira fácil. Na verdade, não teremos certezas que a fachada se abra, acolhedoramente, aos que percorrem a Via Larga. Parece-nos que o trajeto é o oposto: será o interessado que fará o esforço para penetrar no edifício das Letras. Essas barreiras – se não arquitetónicas, no mínimo, psicológicas – foram criadas desde a Rua Larga até ao interior do edifício. A primeira meta a passar é a das quatro estátuas que, enfileiradas, habitam de forma muito segura (até, rígida) elevando-se ao nível superior do tamanho humano, a frontaria entre a zona de circulação e o espaço que se começa a perceber como dedicado ao estudo.

Op. cit., pg. 28.jpg

As esculturas de Salvador Barata Feyo perfilam-se como primeira barreira urbanística que faz distinção entre espaços: o da Praça da Porta Férrea e o átrio dos que pertencem ao Ensino das Letras. Op. cit., pg. 28.

OP. cit., pg. 29.jpg

Demóstenes incarna a Eloquência.  Op. cit., pg. 29.

Op. cit., pg. 32.jpgAristóteles ou a Filosofia. Op. cit., pg. 32

Op. cit., pg. 33.jpg

A História representada em Tucídides. Op. cit., pg. 33

Op. cit., pg. 34.jpg

Safo, a Poesia, foi, entre as esculturas de Barata Feyo para a Faculdade de Letras, a que gerou mais polémica. Op. cit., pg. 34

Pela sua temática não é difícil conotá-las com o mundo grego e se Barata Feyo naquele mundo houvesse procurado a inspiração, para a técnica e formulários escultóricos, tê-lo-ia feito nas rígidas esculturas dos «koroi» e das «korai» gregas. Elas possuem, inclusivamente, o hieratismo típico da escultura egípcia. Tem interesse notar que as estátuas estão tão apartadas do mundo mortal que o escultor não tem pejo em representar o corpo feminino da Poesia com os dois seios desnudados. Não obstante esta particularidade, nada naquela figura roça o erotismo e, nem mesmo, a sensualidade.

Duarte, M.D. 2003. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra: Ícone do Poder. Ensaio iconológico da imagética do Estado Novo. Prefácio de Regina Anacleto. Coimbra, Câmara Municipal.

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por Rodrigues Costa às 11:03


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