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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 16.11.17

Coimbra: Colégio dos Grilos ou de S. Rita

Era dos «Eremitas descalços de St.º Agostinho», que fundaram este seu Colégio universitário em 1755, dando-lhe, como titular da pequena igreja, S.ª Rita de Cássia.

Construíram um bom e amplo edifício, ao cimo do sítio denominado Palácios Confusos, na escarpa ocidental do monte onde assenta a Universidade, e muito próximo desta; local magnífico, com belas e dilatadas vistas para Ocidente, estendendo-se pelos campos e colinas dos arredores de Coimbra.

Colégio de S. Rita ou dos Grilos porta.jpg

 Colégio de S. Rita ou dos Grilos, portal e fachada meridional

 Em 1785 ainda não haviam sido dadas como conclusas as obras de construção, embora já de há muito ali vivessem os colegiais. A 3 de setembro deste ano... adquiriram e consolidaram o seu domínio direto com o útil, das três moradas de casas, cuja compra haviam ajustado ... para a construção da sua igreja.

Colégio de S. Rita ou dos Grilos fachada.jpg

 Colégio de S. Rita ou dos Grilos, fachada ocidental

O povo denominava os eremitas descalços - «Grilos»... Aquele apelido, um pouco extravagante, vinha do nome da quinta, perto de Lisboa, onde tinham a sua sede.

... Primavam os «grilos» pelo seu carater modesto, pacifico, bondoso, que os tornava muito simpáticos ao povo, e no meio universitário, sem contudo deslustrar ou prejudicar os seus merecimentos e reputação de muito eruditos e sábios, e de pedagogos distintos. Apesar de ser curta a história deste Colégio, pois não chegou a ter oitenta anos de existência apontam-se com veneração e elogio os nomes de alguns dos seus frades.

...Pela extinção dos Colégios em 1834, e expulsão dos seus colegiais, não ficou o edifício abandonado, como sucedeu a quase todos. Instalou-se logo ali a autoridade administrativa distrital, que veio depois a chamar-se Governador Civil, com as repartições respetivas.

Mas não foi prolongada essa aplicação... Transferiu-se para lá em breve a Administração geral do distrito, e o edifício foi entregue à Universidade... 27 de outubro de 1836. Passou a ser arrendado a uma república de estudantes ... Decorridos anos, o Governo mandou-o vender, avaliado em 5.600$000 reis, base de licitação. Realizou-se a praça a 27 de Abril de 1844.

Posteriormente, neste Colégio funcionou até à construção da sua nova sede, a Associação Académica de Coimbra.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 280, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 11:44

Quinta-feira, 10.11.16

Coimbra: O Fio da Navalha e as Cordas da Guitarra

 

Mais de meio século depois, é preciso puxar pela memória. E voltar a entrar no Palácio dos Grilos, ou melhor, no antigo Colégio de Santa Rita, então, desde a destruição da antiga “Bastilha” em plena Rua Larga, a sede da Associação Académica.

No pátio da entrada os restos do monumento a Luís de Camões, em que sobressaia o Leão, que, inaugurado em 1881, fora também vítima do camartelo, vindo muitos anos mais tarde a ser reconstituído junto ao CADC, e atualmente colocado ao fundo da Avenida Sá da Bandeira.

Ultrapassada a porta principal entrava-se no que fora a igreja do Colégio Universitário. Sobre a porta, uma espécie de coro, com uma mesa de pingue-pongue; nas paredes algumas glórias do futebol, de separatas do “Mundo de Aventuras”, entre as quais Azeredo, ao que consta, hoje o mais antigo jogador da “Briosa” ainda vivo.

A antiga igreja era ampla. No que fora o altar-mor com os seus ornatos, um longo balcão corrido do qual o senhor Álvaro, qual comandante de navio, dirigia as operações, auxiliado pelo senhor Xico, satisfazendo o pedido dos académicos espalhados pelas mesas.

E, julgo que a memória não me trai, o bilhar completava o quadro.

Do lado direito de quem estava virado para o antigo altar, uma porta que dava para a sede propriamente dita, onde se situavam o Salão Nobre, a sala da direção da A.A., as várias secções, o Orfeão e a Tuna Académica, que aí tinham os seus ensaios, a sala e o pátio onde tantas e acaloradas assembleias magnas tiveram lugar nesses primeiros anos da década de 60. Isto sem esquecer o refeitório da Sociedade Filantrópica, num tempo em que as cantinas universitárias eram uma miragem.

Do lado contrário, à esquerda, uma porta semelhante dava entrada para uma insólita barbearia. De vez em quando ouvia-se o tic-tac de uma tesoura ou o som de uma navalha a ser afiada na tira de sola existente para o efeito.

Mas, sobretudo, ouviam-se os sons de uma guitarra ou de uma viola, sublinhados pela voz de um “sol maior” ou de um “ré menor”, um “outra vez” ou um “está melhor”, proferidas pelo senhor Fernando, o barbeiro que ensinou sucessivas gerações de académicos a acompanhar com os seus instrumentos a canção coimbrã.

Era, pois, aquele cubículo, um minúsculo conservatório onde, entre duas barbas e um corte de cabelo, estudantes aprendiam a tocar, e tantos foram, tendo como mestre Fernando Rodrigues da Silva, tal como o seu irmão Flávio, exímios executantes, na tradição familiar de seu pai, o violinista António Rodrigues da Silva.

No desenrolar da crise académica de 1962 a sede da Associação Académica viria a ser invadida pela polícia e os estudantes que nela se entrincheiraram presos, sendo então encerrada, e onde não mais voltaria a ter lugar.

Calaram-se assim os acordes melodiosos da velha barbearia. E o mestre Fernando passaria e fazer barbas e a cortar cabelos ao domicílio, continuando a dar lições na sua casa na Rua da Matemática.

Pouco tempo depois, em 2 de Dezembro de 1964, viria a falecer, com 49 anos apenas. Dir-se-ia que os deuses do Olimpo e os santos o chamavam para o Paraíso, não para lhes aparar as barbas ou cabelos, do tamanho de séculos, mas para, cansados da música celestial das liras e das harpas dos querubins, ouvirem algo de novo, mais vivo e vibrante: a viola e a guitarra de Coimbra, percorridas pelas mãos ágeis de Fernando Rodrigues da Silva.

Andrade, C. S. 2012. O Fio da Navalha e as Cordas da Guitarra. In: Músicos Salatinas. 1880-1947. Exposição Fotográfica e Documental. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 8

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por Rodrigues Costa às 21:07


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