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A' Cerca de Coimbra


Sexta-feira, 30.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 8

Infraestruturas desportivas de apoio à competição

A compreensão plena do que são hoje as exigências do fenómeno desportivo nos seus mais diversos níveis e a paixão pelo futebol da Académica, em termos de alto rendimento, levaram Mendes Silva a ambicionar imprimir uma segunda marca no capítulo da modernização das infraestruturas desportivas de apoio. Com efeito, no início dos anos noventa começava a ser visível, em termos comparativos com o esforço efetuado por outras cidades, a ausência de investimento pelo município de Coimbra em termos de construção de relvados para o treino e a prática do futebol. Recorde-se que, nesta altura, a Académica só podia utilizar e de forma partilhada o relvado do Estádio Universitário, o que já então era claramente insuficiente, quer para o treino da equipa principal, quer para os jogos oficiais das equipas de formação. Neste sentido, é de sublinhar que foi obtido para aquele tempo um patrocínio significativo de um empresário estrangeiro para financiar com “uma verba próxima dos 7.000 contos o arrelvamento dum campo” (in Reunião de 03.09.1991, Actas da Direcção da AAC/OAF). Financiamento que não chegou a traduzir-se em resultados práticos. Todavia, a direção presidida por Mendes Silva conseguiu dotar o OAF de uma Residência para alojar, ao mesmo tempo, os atletas profissionais e os jovens estudantes que ambicionavam fazer competição nas equipas de formação da Académica e tentavam prosseguir com os seus estudos. E sublinha-se que este equipamento foi adquirido num espaço de apenas vinte e sete meses de presidência dos destinos da AAC/OAF, ainda que as direções posteriores tenham tido que, a breve trecho, alienar esse património para fazer face às dificuldades financeiras. A propósito do esforço de compatibilização dos estudos com a formação desportiva, registamos também que, logo em 1990, e durante o primeiro mandato presidencial, a direção da Académica conseguiu que a Fundação Oriente oferecesse “três bolsas de estudo no valor de 65.000$00” (in Reunião de 19.02.1990, Actas da Direcção da AAC/OAF).

Investimento no reconhecimento internacional do mérito desportivo da Académica

 A terceira marca incutida pela direção presidida por Mendes Silva traduziu-se numa aposta internacional, em termos de investimento no mérito e no prestígio desportivo da Académica, através da realização de uma digressão e da participação da equipa principal de futebol no Torneio Internacional de Goa organizado na República da Índia. Digressão que decorreu entre 24 de Março e 4 de Abril de 1992 e só foi possível de concretizar por ter contado com o apoio financeiro da Fundação Oriente.

Em termos históricos, esta viagem assinalou a primeira presença de uma equipa portuguesa em solo indiano trinta anos depois da independência de Goa e, não por acaso, contou com uma notável cobertura do enviado especial Manuel António, jornalista de A Bola.

Após uma receção extraordinária e calorosa da comitiva academista no aeroporto de Bombaim, por parte das autoridades políticas e desportivas indianas, testemunhada pela oferta da grinalda de flores sinal de respeito e de honra na civilização e cultura hindu e da colocação da tilaka marca ritual colocada na testa e que é um símbolo de boas vindas ou de auspiciosidade a cada um dos elementos, dirigentes e atletas, que viajaram de Coimbra para a Índia, a comitiva academista foi confrontada e fotografada no aeroporto com uma faixa com os dizeres “Goa Welcomes Académica”. Só depois desta magnífica e fraterna receção é que toda a delegação desportiva viajou para a cidade de Goa. Importa recordar que, no ano de 1992, esta cidade tinha uma população próxima de um milhão e duzentos mil habitantes. E foi aqui que Fernando Luís Mendes Silva reforçou as intenções de estreitar a colaboração com a Académica de Goa, nesta altura, presidida por Remígio Pinto.

Segundo as crónicas jornalísticas, todos os encontros deste torneio internacional de futebol tiveram lugar no Estádio Jawaharlal Nehru, em Margão. Foi assim que, no dia 25 de Março, a Académica começou por defrontar a Seleção de Goa, a qual foi vencida por 2 golos sem resposta, tendo Mendes sido o autor dos dois golos da partida (cf. Manuel António – “A Bola” na Rota de Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque: Triunfo fácil frente a Goa, in A Bola, Lisboa, 26 de Março de 1992, p. 4). O segundo encontro deste torneio internacional verificou-se frente à seleção da Índia de “sub-23”, onde a equipa da Académica teve a oportunidade de, uma vez mais, conquistar uma vitória confortável ao levar de vencida o adversário pela marca expressiva de quatro golos sem resposta. Desta vez, coube a Emanuel marcar dois golos, a Zé de Angola marcar o terceiro golo, e a fechar Latapy marcou um golo memorável, por isso o cronista podia escrever: “Brilhante está a ser o papel que esta embaixada está a desempenhar junto da população desta ex-colónia, que teima em não esquecer Portugal.” (cf. Manuel António – “A Bola” na Rota de Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque: Um jogo que valeu pelo golão de Latapy, in A Bola, Lisboa, 28 de Março de 1992, p. 10). Por último, no dia 29 de Março, a Académica disputou a final do torneio ao defrontar a seleção de Sub-21 da Índia. Esta seleção indiana foi batida por 2 golos sem resposta, da autoria de Mendes e de Emanuel. Neste sentido, importa aqui registar quais foram os atletas academistas que alinharam neste jogo de uma final de um torneio internacional, onde a Académica permaneceu invicta e completamente triunfante, foram eles: Pedro Roma; Crisanto, Marcelino (capitão), Palancha e Grosso; Rocha; Latapy, Zé do Carmo, Tozé e Lewis; Mendes. O treinador José Rachão procedeu ainda, na segunda parte do desafio, às seguintes substituições: Gomes entrou para o lugar de Rocha e Emanuel rendeu Lewis; Zé de Angola ocupou a posição de Tozé e Paliça substituiu Mendes (cf. Manuel António – “A Bola” na Rota de Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque: Académica venceu Torneio Internacional de Goa, in A Bola, Lisboa, 30 de Março de 1992, p. 2).

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Torneio Internacional de Goa. Entrega da taça à equipa vencedora. Acervo Braga da Cruz

 No final do encontro, e quando o capitão Marcelino ergueu em público o troféu de vencedor do torneio internacional conquistado pela equipa de futebol da Académica, encerrava, desta forma, uma das páginas mais gloriosas e honrosas da diáspora desportiva portuguesa no continente asiático.

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Torneio de Macau. Acervo Braga da Cruz

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Torneio de Macau. Jantar com a Governadora de Cantão. Acervo Braga da Cruz

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A saudade de um conimbricense de eleição. Acervo Braga da Cruz

Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigentedesportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

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Nota do Autor do texto

* Este texto nunca poderia ter sido escrito sem a generosidade e a disponibilidade da família de Fernando Luís Mendes Silva, ao disponibilizar toda a documentação e o material fotográfico necessários para que ele pudesse ter alguma importância. Neste sentido, agradecemos, em primeira mão, [mãe] à Manuela Mendes Silva e, muito particularmente, à Margarida Mendes Silva.

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Jorge Pais de Sousa [Coimbra, (1960 -2019]. Imagem acedida em http://arepublicano.blogspot.com/2019/05/in-memoriam-jorge-pais-de-sousa-1960.

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Sobre o Autor do texto

Jorge Manuel Garrido Pais de Sousa (Coimbra, 1960-Coimbra, 2019) fez o seu percurso no ensino superior em Coimbra. Iniciou-o com uma licenciatura em Filosofia (1980-1984), a que se seguiu o mestrado em História Contemporânea e, mais recentemente, o doutoramento também na mesma área. 

Dedicou-se, sobretudo, ao estudo da história institucional e política e da história cultural e intelectual contemporâneas.

Foi autor de livros, capítulos de livros e dezenas de artigos, publicados em Portugal e no estrangeiro.

Texto acedido em http://arepublicano.blogspot.com/2019/05/in-memoriam-jorge-pais-de-sousa-1960.html

 

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por Rodrigues Costa às 17:45

Terça-feira, 27.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 7

Reconfiguração da estrutura organizativa

 Em linhas gerais, quais foram os grandes marcas impressas pela direção de Fernando Luís Mendes Silva em apenas vinte e sete meses de presidência? Primeiro, reformulou a organização e o funcionamento da estrutura diretiva do OAF, tornando-a mais capaz e mais profissional. Se no primeiro mandato existiam pelouros que integravam áreas de trabalho. No início do segundo mandato passou a existir um organigrama com um desenho preciso e mais profissional da estrutura diretiva, a qual passou a desdobrar-se em sete departamentos, a saber: Futebol, Administrativo, Instalações, Imagem e Relações Públicas, Bingo, Iniciativas, e Jurídico (Cf. Reunião de 03.02.1992, Actas da Direcção da AAC/OAF).

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Reunião da Direção da AAC, presidida por Mendes Silva, 1. Acervo Braga da Cruz

 Deste modo, percebemos o sentido da modernização a que foi sujeita a estrutura diretiva do OAF sob a sua presidência, pois no espaço de dois anos passou-se de uma estrutura amadora e incipiente para a implementação de um organigrama departamental mais conforme a uma gestão profissional e, por consequência, mais ajustado aos desafios do desporto de alto rendimento e aos enormes desenvolvimentos em matéria de metodologia científica do treino que, entretanto, se verificavam em Portugal. No capítulo das instalações, cabe referir que foi durante a presidência de Mendes Silva que se processou a mudança faseada e depois definitiva da estrutura diretiva e administrativa do OAF das instalações do edifício dos Arcos do Jardim para o Pavilhão Eng.º Jorge Anjinho (Cf. Reunião de 03.02.1992, Actas da Direcção da AAC/OAF).

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AAC/OAF, visita a Fábrica da Cerveja de Coimbra. Acervo Braga da Cruz

 Ainda do ponto de vista organizativo e administrativo, nota-se o cuidado colocado em suportar documentalmente toda a atividade desenvolvida pela Direção a que Mendes Silva presidiu. Também neste particular, a organização do arquivo e da memória documental produzida ao longo do seu mandato livros de atas, material fotográfico, etc. – contrastam com a rarefação e a penúria das direções que a antecederam e que se lhe vão seguir ao longo da década de noventa. Aliás, a ausência de um arquivo ou de uma memória documental organizada em suporte digital, constituiu e constituirá um obstáculo real para investigar e escrever no futuro sobre a Académica.

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Manuel António, o melhor marcador. Acervo Braga da Cruz

 É que a inexistência de um arquivo organizado, em moldes modernos, constitui em si mesmo um fator de opacidade em relação ao passado, presente e futuro da Académica. Facto este que deveria merecer, só por si, a melhor atenção e cuidado por parte dos corpos diretivos da AAC/OAF em tempo de comemorações dos 120 anos da fundação da Associação Académica de Coimbra e suscitar até uma campanha para convocar a disponibilidade de todos os associados e amigos da AAC para cederem material impresso e fotográfico, a título de empréstimo, para ser  depois digitalizado e devolvido, de forma a ser criada uma Memória Digital do Futebol da Académica, cujos conteúdos deviam ser, posteriormente, editados em linha e ficarem disponíveis para consulta no site oficial www.academica-oaf.pt. Numa segunda fase do trabalho, não deverá ser esquecida a denominada diáspora academista, de forma a integrar os diversos países que possuem filiais e protocolos estabelecidos com a  AAC/OAF e que integram muitos deles os países da CPLP, mas não só, sendo a Internet e o correio eletrónico um recurso renticular e económico para desenvolver em pleno e potenciar este trabalho de organização e edição em linha da Memória Digital do Futebol da Académica. Este é um desafio que deve ser encarado com toda a seriedade para contribuir para suscitar no futuro a investigação histórica, a reflexão, a transparência e o debate em matéria desportiva. Esta seria também uma forma da cidade e da academia encararem e potenciarem o alcance do desporto universitário quando praticado ao mais alto nível, tal como é necessário a Universidade prestigiar-se ao inscrever estudantes-atletas de nível internacional nos seus cursos superiores, no fundo o mesmo procedimento que adota quando promove a investigação e a produção da ciência, das artes e da cultura, por recurso a bolseiros e a investigadores de nomeada.

MS 7.4.jpg Equipa de basquetebol feminino da AAC, vendedora da Taça. Acervo Braga da Cruz

A este nível, a criação da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física na Universidade de Coimbra, no ano de 1997, deveria passar a constituir um salto qualitativo em termos de organização, formação e do treino desportivo, a médio e longo prazo. Assim, os responsáveis da AAC em geral e do OAF em particular, saibam tirarem partido, em primeira instância, desta nova realidade de que o país passou a dispor de há dez anos a esta parte.

Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

 

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por Rodrigues Costa às 15:40

Sexta-feira, 23.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 6

A caminho de um Organismo Autónomo de Futebol para o século XXI

 A 12 de janeiro de 1990, Fernando Mendes Silva toma posse como presidente da Direção da Associação Académica de Coimbra / Organismo Autónomo de Futebol (AAC/OAF), após ter sido eleito para exercer um mandato válido para o biénio de 1990/91.

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Primeiro emblema da Académica (1926-28).  Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema (1928-1974). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Primeiro emblema enquanto CAC (1974-1977). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema (1977-1979). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema (1979-1980). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema (1980-1982). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Último emblema enquanto CAC (1982-1984). Acedido em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema, após 1984 e até ao presente. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

 E voltaria a ser reeleito e reempossado a 31 de janeiro de 1992 para cumprir um segundo mandato, o qual foi interrompido, abruptamente, com o seu falecimento em desastre automóvel ocorrido a 31 de maio de 1992. A grandeza e a afirmação do seu carácter, enquanto cidadão e dirigente desportivo, ficaram então uma vez mais comprovados, pelo facto de Fernando Mendes Silva se ter candidatado pela primeira vez à presidência da AAC/OAF, numa conjuntura particularmente adversa, em termos desportivos e financeiros, uma vez que a Académica disputava o campeonato da então designada 2.ª Divisão – Zona Centro. É preciso ter presente também que no final da época de 1987/1988 a equipa havia sido despromovida àquele escalão, despromoção essa que, por sua vez, desencadeou o início de uma longa disputa nos órgãos de justiça da Federação Portuguesa de Futebol, a qual transitaria mais tarde para os tribunais comuns, e tudo em torno do famigerado “caso N'Dinga”. Nesta altura da vida pública democrática, ocorre perguntar para quando é que as decisões dos órgãos de justiça desportivos ficarão subordinadas às leis da República? Seja como for, o facto é que os enormes prejuízos financeiros avultadas quebras na angariação de patrocínios e consequente continuação de cumprimento das obrigações fiscais, vencimentos em atraso dos técnicos da formação, etc. e desportivos, que resultaram da descida de divisão traduziram-se numa situação calamitosa para as direções do OAF, cujo mandato diretivo decorreu ao longo dos anos noventa.

          Portanto, foi numa conjuntura de enormes dificuldades na vida desportiva do OAF e, consequentemente, num momento pouco propício para a afirmação do arrivismo no dirigismo potenciado e propiciado, por sua vez, pelo nepotismo, pela corrupção, tráfico de influências e pelo oportunismo mediático que predominam em torno das estruturas e do jornalismo do futebol português que Mendes Silva decidiu candidatar-se à presidência do futebol profissional da Académica. O que significava ter a consciência clara de que não colheria os efeitos diretos das “luzes da ribalta” propiciados pelos programas televisivos direcionados e pela imprensa especializada no futebol praticado por três clubes dois de Lisboa e um do Porto e segundo esta rigorosa proporção de ocupação e de difusão do tempo comunicacional que disputam o campeonato principal do futebol português, ordem comunicacional que, no essencial, foi herdada do Estado Novo para cumprir o seu papel de “nacionalização das massas” agora em contexto democrático. Com efeito, é possível constatar que trinta e três anos decorridos sobre o 25 de Abril de 1974 e da instauração de um Estado de Direito democrático, a organização e a colonização do espaço público comunicacional futebolístico em Portugal, continua a ignorar o sentido mais profundo da reflexão ensaística sobre a cultura desportiva que Sílvio Lima iniciou e empreendeu durante a década de trinta do século passado, ou seja, durante os “tempos sombrios” para utilizar a conhecida expressão de um livro de Hannah Arendt do Estado Novo, segundo a qual: “O desporto constitui uma escola (ou ginásio) permanente de sã democracia.” Vivemos hoje num contexto social e mediático, onde o espaço público comunicacional é uniformizado e domesticado, segundo uma lógica ditatorial e um discurso que transmitem, subliminarmente, um clima de guerrilha protagonizada, ao nível do “espetáculo” futebolístico nacional, pelos denominados “Três Grandes”. Esta última expressão é, por sua vez, o testemunho mais acabado de uma cultura desportiva periférica assente numa lógica provinciana patente na forma passiva como a massa dos “adeptos” e dos “comentadores”, cirurgicamente selecionados, assistem e comentam o “espetáculo” do futebol, uma vez que, normalmente, todos eles possuem um traço comum entre si, a saber: o de não terem qualquer passado relevante como atletas e tão pouco serem praticantes de desporto. A este propósito, poderíamos adaptar a reflexão de Fernando Pessoa ao campo da cultura desportiva em Portugal e constatar que o provincianismo que a caracteriza em linhas gerais não é um problema geográfico, mas sim uma pretensa atitude mental de incapacidade de organização democrática da sociedade portuguesa, no sentido de se “pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação consciente e feliz” (cf. O Provincianismo Português, in Fernando Pessoa – Páginas de Doutrina Estética. Lisboa: Inquérito, [s. d.], p. 137). Este é o resultado de vivermos num país e numa sociedade, cuja história é em geral, pontuada e marcada pela inexistência de uma política de cidades e, consequentemente, pelos baixos níveis de cultura e de consciência urbana cidadãs. Em consequência, acumula-se um enorme défice coletivo em termos da vivência efetiva da cidadania participativa, na qual a relação com o corpo no espaço urbano passaria pela promoção e vivência de uma cultura ativa no confronto com a diferença, esclarecida e responsável, de promoção de hábitos e da prática desportiva no quotidiano. A este propósito, a Direção presidida por Mendes Silva, conhecedora das manobras de “bastidores” típicas do “espetáculo” do futebol e dos poderes fácticos instalados na sociedade portuguesa, tomou uma posição ética e desportivamente irrepreensível perante o alastrar do fenómeno do nepotismo e da corrupção endémicas nas estruturas federativas do futebol no início dos anos 90, a propósito do balanço desportivo de uma época em que a Académica tinha obtido o 6.º lugar como classificação final, tendo afirmado Mendes Silva: “A influência dos 'bastidores' (árbitros, aliciantes pecuniários a adversários, etc.) foi uma área onde indiscutivelmente o OAF saiu prejudicado. Não tem o nosso clube qualquer interesse em enveredar por este caminho.” (in Reunião dia 13.05.1991, Actas da Direcção da AAC/OAF). Neste sentido, se compreende também o seu empenhamento pessoal na procura de uma solução associativa alternativa e nova para o futebol profissional em Portugal, facto que levaria Mendes Silva a integrar o grupo restrito de dirigentes desportivos que estiveram nas reuniões preparatórias e fundadoras da Liga de Futebol Profissional Português (LPFF), procurando promover os interesses superiores do desporto em Portugal e da Académica em particular, e sobretudo encontrar uma alternativa à ditadura da “ordem vigente” (cf. www.lpfp.pt/default.aspx?CpContentId=285919). A criação da Divisão de Honra contou então com todo o seu empenho e entusiasmo associativos.

Grandeza de carácter como dirigente desportivo em prol da Académica que já tinha ficado evidenciada, por sua vez, pela sua discrição e generosidade, em outros momentos críticos e particularmente difíceis para a existência do futebol profissional praticado ao mais alto nível em Coimbra. É que, em 1976, Mendes Silva estivera disponível para integrar o grupo de cento e quatro notáveis cidadãos – damos à palavra notável, uma vez mais, o sentido sociológico que Max Weber deu ao termo que constituiu a PROCAC, uma sociedade anónima fundada com o objetivo específico de comprar o edifício n.º 37, na Rua Alexandre Herculano, aos Arcos do Jardim. Edifício que está hoje classificado como sendo de interesse municipal. Uma vez adquirido o edifício, este foi cedido a título gracioso para nele instalar o então novo Clube Académico de Coimbra (CAC), para que este pudesse disputar o principal campeonato do futebol português.

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Sede do Clube Académico de Coimbra, aos Arcos do Jardim. Acervo RA

 E mais tarde, também foi Mendes Silva que, no ano de 1978, vendeu ainda ao CAC, e por uma quantia quase simbólica, a maior das três parcelas de terreno para que esta agremiação pudesse vir a construir o Pavilhão Gimnodesportivo Jorge Anjinho, edificado na Solum,

 

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Pavilhão Gimnodesportivo Jorge Anjinho, em parte construído em terrenos vendidos a preço simbólico pela SOLUM. Acervo Carlos Ferrão.

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Pavilhão Gimnodesportivo Jorge Anjinho. Inauguração, com o patrono a hastear a bandeira do Clube. Acervo Carlos Ferrão

o qual integra hoje o património da AAC/OAF, e cujas instalações desportivas têm a finalidade social de servir “além dos sócios do Clube a comunidade em geral” (Cf. Escritura de Compra e Venda, fls.4).

Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

 

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por Rodrigues Costa às 10:59

Terça-feira, 20.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 5

A participação na vida política da Cidade

 A vivência plena da cidadania e das responsabilidades que ela implica levaram-no mais tarde a ser consequente consigo próprio e a candidatar-se às eleições autárquicas, tendo sido logo eleito pelos seus concidadãos para desempenhar o cargo de presidente da Câmara Municipal de Coimbra, entre Janeiro de 1983 e Dezembro de 1985.

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Mendes Silva, campanha autárquica. 1982, autocolante. Acervo Braga da Cruz

Nesta altura, Mendes Silva imprimiu ao poder local democraticamente eleito a sua forma peculiar de estar no mundo e de liderar a autarquia, sob o lema significativo: “Por Coimbra Tudo – Mãos à Obra”.

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Mendes Silva, campanha autárquica. 1982, entrevista. Acervo Braga da Cruz

A rotina de trabalho diário que desenvolveu à frente dos destinos do município ficou célebre e era impressionante, uma vez que introduziu o hábito de ser o presidente da Câmara o primeiro a chegar às instalações municipais para começar a trabalhar.

MS 5.3.jpgMendes Silva, campanha autárquica. 1982, na baixa coimbrã. Acervo Braga da Cruz

No entanto, sigamos as suas declarações numa entrevista que prestou à revista do semanário Expresso: “Entro aqui pela seis, seis e um quarto da manhã. O porteiro chega às sete com as mulheres da limpeza e a primeira equipa de trabalho vem às oito. A essa hora já tenho tudo orientado, as reuniões preparadas.

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Mendes Silva, Presidente da Câmara, no gabinete de trabalho. Acervo Braga da Cruz

Depois é o dia todo, com dezenas de encontros e, muitas vezes, almoço apenas um prego. À noite, invariavelmente, volto depois do jantar para estar ou com a vereação ou com a papelada.

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Mendes Silva, Presidente da Câmara, numa inauguração com o Presidente da República, Ramalho Eanes. Acervo Braga da Cruz

O horário de deitar é (era) marcado pelo noticiário do Pedro Cid. Aliás, nem ao domingo este meu hábito muda: vou então às freguesias.” Assim sendo, podemos afirmar que à visão europeia que há muito possuía de cidade deve ser acrescentada uma extraordinária capacidade de trabalho, de tal forma que sabemos hoje que Coimbra lhe deve imensas iniciativas e projetos de obra que não cabem elencar no âmbito do objeto e da restrita economia deste texto, as quais só não foram concretizadas no seu mandato devido aos enormes constrangimentos, políticos e financeiros, do Portugal anterior ao processo de integração europeia. Com efeito, é justo recordar que Mendes Silva exerceu o seu mandato autárquico até ao final de 1985, o que significa que só no ano seguinte é que Portugal aderiu à então designada Comunidade Europeia. Neste sentido, só a partir de 1986 é que os municípios passaram a ter facilitado o acesso ao financiamento europeu em condições únicas, e de um modo quase ilimitado, para os municípios com capacidade de apresentar e concretizar projetos. Não obstante, entregou a coordenação de um novo plano-Diretor para a cidade a Costa Lobo, então um dos maiores especialistas portugueses em urbanismo. Pretendeu também impulsionar um “novo 'plano de água' para o Mondego, frente à cidade, da reconstituição da Académica à reconstrução das indispensáveis infraestruturas hoteleiras da cidade, da preservação do património da 'baixa' ao crime que foi a construção da Cidade Universitária...” Mas voltemos a apreciar, uma vez mais, o seu estilo de liderança e o fervilhar da sua criatividade política e, sobretudo, a procura de perspetives diferentes para equacionar e resolver os problemas de Coimbra: “No outro dia meti-me numa avioneta e fui sobrevoar a cidade. Lá em cima vieram-me à cabeça uma dúzia de projetos. Agora, no papel, estou a concretizá-los, a ver onde são possíveis ou não. Depois, hei de voltar à avioneta.” (cf. José Manuel Fernandes – O Presidente de Coimbra, in Expresso, Lisboa, 13 de Agosto de 1983, p. 19).

Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

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por Rodrigues Costa às 18:37

Quarta-feira, 07.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 2

Ora foi, justamente, a opção mais difícil que Mendes Silva e os seus colegas diretores assumiram, contando para tal com o acordo e o facto de Bissaia Barreto ter sido, enquanto professor catedrático de Cirurgia da Faculdade de Medicina, não só um crítico em relação à forma como foram feitas as obras na cidade universitária – ao ponto de manifestar essa discordância pública nas páginas do Diário de Coimbra –, mas também de se bater pela construção de um novo hospital universitário fora da Alta, que evitasse, uma vez mais, a prevista destruição de edifícios significativos do ponto de vista do seu valor patrimonial, como eram os casos do Colégio de São Jerónimo e do Colégio das Artes. Com efeito, o dirigente estudantil Fernando Mendes Silva solicitou uma reunião a Bissaya Barreto, a qual teve lugar no antigo edifício dos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde foi delineada e concertada uma estratégia que iria permitir dotar no futuro a Associação Académica com as elegantes e funcionais instalações que atualmente ocupa e, ao mesmo tempo, acelerar a transferência do Instituto Maternal para os terrenos que hoje ocupa na então designada Quinta da Rainha e cujas instalações são projeto do arquiteto Carlos Ramos. Sabemos, ainda, que Bissaya Barreto colocou como condição para o estabelecimento de tal acordo, que o futuro teatro universitário viesse a ser construído integrado no complexo das novas instalações para a Académica, de modo a tirar o máximo partido da centralidade da sua localização em termos urbanos. Numa visão retrospetiva destes factos atendamos melhor ao alcance estratégico e à importância do acordo então estabelecido entre o presidente da AAC e o cirurgião conimbricense.

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Maternidade Bissaia Barreto. Imagem acedida em: https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid

 É que, além do mais, ele permitiu dotar e beneficiar a cidade com uma nova Maternidade, a qual passou, por sua vez, a integrar mais tarde a presente estrutura dos hospitais civis – complexo hospitalar criado apenas em 1971 e que já existia, desde há muito, nas cidades de Lisboa e do Porto, a par dos respetivos hospitais universitários – que então faltava a Coimbra e que seria essencial para potenciar e valorizar, ainda mais, o ensino superior e universitário, tal como a prática e o exercício quotidiano da Medicina, da Farmácia, da Enfermagem e do Serviço Social, que desde há muito se desenvolviam na cidade (cf. Jorge Pais de Sousa - Bissaya Barreto: Ordem e Progresso. Coimbra: Minerva, 1999, p. 223).

          Em conclusão, a cidade e a Associação Académica de Coimbra devem, à visão da direção de estudantes presidida por Fernando Mendes Silva, entre 1953 e 1954, a iniciativa associativa e o entendimento estratégico que permitiu culminar com a construção no final daquela década de um moderno e funcional complexo de instalações associativas e culturais, projetado pelo arquiteto Alberto Pessoa

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Novas instalações da AAC, início das obras. Acervo Carlos Ferrão

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A ala das Secções da AAC já em fase adiantada. Acervo Carlos Ferrão

Complexo arquitetónico que é constituído pelo corpo do edifício que aloja as secções, o corpo que compreende as salas de ensaios, o edifício do Teatro Gil Vicente e o corpo das cantinas, os quais orlam, por sua vez, o jardim projetado pelo arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles. Jardim que constituiu um primeiro ensaio para o posterior projeto paisagístico dos jardins que envolvem hoje a sede da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.

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Edifício do Teatro Gil Vicente, década de 70. Imagem acedida em https://tagv.pt/sobre/

 

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Ala das Secções já finalizada. Acervo RA

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“Cantinas Velhas”. Imagem acedida em: www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid

Do ponto de vista artístico, Abel Manta realizou e concluiu, em 1960, dois painéis para valorizar este emblemático património arquitetónico. Um primeiro painel que está voltado para o jardim interior e que representa as atividades culturais da Academia, e um segundo painel, projetado sobre o corpo das salas de ensaio e voltado para a Avenida Sá da Bandeira, que representa a evolução do traje académico.

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Jardim interior da AAC e painel azulejar da autoria João Abel Manta. Acervo RA

MS 2.8.jpg Fachada  principal do edifício da AAC. Painéis de azulejos da autoria de João Abel Manta. Acervo RA

Em linguagem arquitetónica, todos podemos fruir hoje de um conjunto de edifícios que vivem da “articulação de vários corpos, de várias escalas e, de um modo mais subtil, de várias linguagens. Desde o volumoso corpo do teatro – que sugere citações dos edifícios charneira de Alvar Alto, ou mesmo do londrino Royal Festival Hall, de Leslie Martin – , até ao edifício das secções – que, apesar da sua pouca ortodoxia, é o mais corbusiano de todos, com o seu coroamento em terraço coberto e os seus rasgamentos horizontais quebrados pela caixa de escada na fachada posterior –, passando pelo sabor 'brasileiro' das sucessivas abóbadas de betão, tão prolificamente usadas na época” (José António Bandeirinha – Os Edifícios da Associação Académica e o Teatro de Gil Vicente, in Monumentos, Lisboa, Março de 1998, p. 86).

 Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

 

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por Rodrigues Costa às 15:32

Terça-feira, 06.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 1

Damos hoje início a uma série de sete entradas, referentes ao Dr. Mendes Silva. Alguém com quem tivemos a honra de trabalhar e com quem aprendemos que “Por Coimbra, tudo” e, também, que o mais importante é meter “Mãos à obra”.

O texto, inédito, que a morte prematura do seu Autor deixou por publicar, foi-nos facultado pelas Filhas do antigo Presidente da Câmara Municipal de Coimbra que, igualmente, nos cederam algumas das imagens que o vão ilustrar. Por isso, o nosso obrigado.

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Mendes Silva, 1982. Acerbo da Família Mendes Silva

 O que mais caracterizou a trajetória de vida de Fernando Luís Mendes Silva foi, em nosso entender, o facto de ele ter sido um notável na sociedade e na política em Portugal. E talvez, por isso, possamos hoje afirmar que poucos cidadãos como Mendes Silva contribuíram tanto, indireta e diretamente, para marcar e capacitar Coimbra com equipamentos modernos de uso público, bem como para urbanizar a cidade segundo os princípios urbanísticos mais arrojados para a Europa do seu tempo. Neste sentido, o seu perfil, enquanto cidadão e dirigente desportivo ímpar que também foi expressa a tensão e a síntese criativa que conseguiu estabelecer entre os interesses legítimos da esfera do privado e a consecução do interesse público.

É para assinalar a passagem dos cento e vinte anos sobre a fundação da Associação Académica de Coimbra e, simultaneamente, dos quinze anos sobre o desaparecimento de um dos seus antigos e mais destacados dirigentes que nos ocorreu escrever este texto de carácter ensaístico. E tudo isto num país historicamente dependente da ação centralizadora do Estado, sendo esta última, por sua vez, tantas vezes obstáculo para o desenvolvimento pleno da participação na vida pública associativa e a consequente assunção das responsabilidades da cidadania por cada um de nós. Neste sentido, o curto percurso de vida de Fernando Luís Mendes Silva (22.10.1930-31.05.1992) merece, justamente, ser salientado e rememorado, na medida em que ele foi pontuado por momentos de fulgurância e de singularidade na participação no espaço público.

Arquitectar” a Associação Académica de Coimbra

 Foi com apenas 20 anos de idade que o jovem estudante universitário, Fernando Luís Mendes Silva, iniciou a sua trajetória como diretor desportivo tendo a seu cargo as equipas de formação da Secção de Futebol da AAC.

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Mendes Silva, finalista de Direito. Acervo da Família Mendes Silva

 E na verdade, a estreia foi auspiciosa, uma vez que logo na época de 1950/51, a Académica conquistou, sob a sua direção, o campeonato nacional de juniores. O mesmo título de campeã nacional que, aliás, a Académica voltaria a ganhar durante a época de 1953/54, ou seja, coincidindo com o mandato e o empenhamento pessoal a todos os níveis extraordinário durante o qual Mendes Silva presidiu aos destinos da AAC. 

Oriundo de uma família da classe média conimbricense, Fernando Luís Mendes Silva presidia em 1953-1954 aos destinos da Direção Geral da Associação Académica, num altura em que estudava Direito na Universidade de Coimbra, quando teve a oportunidade de promover, enquanto dirigente estudantil, um estudo circunstanciado sobre as gritantes necessidades de espaço sentidas e vividas pelas diversas secções culturais e desportivas acantonadas nas instalações do vetusto e desadequado Palácio dos Grilos.

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Palácio dos Grilos. Sede da AAC, ao tempo da presidência de Mendes Silva. Acedido em: https://1.bp.blogspot.com/-nrLZWS7peI4/XaHhI0_S-0I/AAAAAAAADpo/

 No entanto, o jovem e dinâmico dirigente não se ficou apenas pela identificação e estudo cuidado destes problemas. É que, em seguida, teve a ousadia e a irreverência política de solicitar uma audiência em Lisboa, ao então presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, no sentido de lhe apresentar as pretensões estudantis e pedir uma solução para o problema do completo desajustamento e inadequação das instalações associativas, com base na entrega de um documento meticuloso a que denominou de «Exposição da Academia de Coimbra» (Acessível no Arquivo Salazar, in Instituto dos Arquivos Nacionais Torre do Tombo, AOS/CO/ED-3)

O presidente do Conselho entendeu a urgência em resolver o problema da insuficiência e da inadequação do espaço com que então se confrontava, no seu quotidiano, a mais prestigiada associação de estudantes universitários portugueses. A falta de dignidade das instalações era pouco condizente com o facto de a Associação Académica constituir a mais antiga associação estudantil universitária em Portugal (1887), a maior em dimensão e património e, sobretudo, em dinâmica, diversidade e criatividade cultural e desportiva. Numa atitude paternalista, Oliveira Salazar propôs-se, naquela conjuntura histórico-política do Estado Novo, encontrar uma solução para os problemas colocados pelos “rapazes de Coimbra” no quadro das obras em curso na cidade universitária (Cf. Fernando Mendes Silva – Ainda a Segunda Tomada da Bastilha, in «Jornal de Coimbra», 30 de dezembro de 1987, p. 2). Colocavam-se então dois cenários possíveis em matéria de construção de raiz das novas instalações da Associação Académica.

O primeiro cenário estudado consistia em construir os novos edifícios da AAC junto ao atual Estádio Universitário na margem esquerda do Mondego, o que significava que as novas instalações associativas ficariam longe do campus universitário.

O segundo cenário congeminado, e também o mais difícil de concretizar, passaria por encontrar uma localização central e nobre no contexto do tecido urbano da cidade, mas exigiria sempre obter um compromisso com Bissaya Barreto, o então diretor da Instituto Maternal e do Ninho dos Pequenitos, cujas edificações, adaptadas e já então também desajustas face ao cumprimento dos seus objetivos e necessidades em matéria de saúde, ocupavam a área de implantação delimitada pela Rua Padre António Vieira, pela Avenida Sá da Bandeira e pela Rua Oliveira Matos.

 

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Instalações do “Ninho dos Pequenito”, em 1938. Imagem acedida:  https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/20486/1/Texto%20final%20da%20tese.pdf

 Acontecia, também, que o Instituto Maternal procurava terrenos para novas instalações, de forma a capacitar Coimbra com novos equipamentos projetados e construídos de raiz para alojar e prestar, adequadamente, serviços de saúde pública vocacionados para a proteção e a promoção da infância e da maternidade.  O país vivia um tempo de crescimento demográfico e de promoção da natalidade. Tratava-se de um acordo difícil de concretizar por implicar terceiros, mas era de longe aquele que, a médio e longo prazo, mais beneficiaria a cidade e a Associação Académica, em termos da criação de novas e modernas infraestruturas e da consequente melhoria da prestação de serviços nos domínios da promoção da cultura, e da interação estreita que deve existir entre desporto e saúde pública, numa cidade com uma significativa população escolar. 

Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

 

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:15

Quinta-feira, 10.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 4

Para terminar a divulgação do livro Coimbra de capa e batina, volume II, vamos às páginas 219 a 225, rever a conquista pela Associação Académica de Coimbra, em 1939, da Taça de Portugal, em futebol.

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Emblema da AAC. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

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Equipa que disputou a final da Taça de Portugal, ganhando ao Benfica por 4-3. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Bola Académica

Golo!... E o abraço caiu como um raio em cima do companheiro do lado!... 0 homem, porém, era do Benfica! . . .

~Vá lá abraçar um raio que o parta…

A situação foi salva imediatamente por uns companheiros da «claque», que o nervosismo nunca deixava estar parados nos 90 minutos do jogo. Daí o engano da fúria daquele abraço. . .

Mas a realidade era aquela. A Associação Académica tinha metido um estupendo golo...

Ali, nas redes do Benfica e no campo das Amoreiras! com o Tibério a ser «metralhado» por detrás das balizas.

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Intervenção do guarda-redes da AAC, Tibério. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

No retângulo do jogo, onze rapazes de camisola negra, davam luta de peito aberto a onze homens do Benfica e a uns milhares de adversários, espicaçados por aquele atrevimento dos «gajos» de Coimbra.

Sobre meia dúzia de adeptos da Associação começaram a cair as fúrias dos benfiquistas.

Mas, nem um passo de recuo… Nem uma vibração abalada. O grito era sempre o mesmo e redobrava de fé, a cada instante: é «Briosa»!!

Um fogo sagrado temperava aquela magnífica resistência dos estudantes de Coimbra. Havia ali a defender qualquer coisa de grande e de tradicional. Aquela equipe negra, impunha responsabilidades a jogadores e a adeptos.

Ninguém fugiu a dar. Os que jogavam aceitavam os ataques desleais dos adversários e procuravam destruí-los sem timidez. Os que aplaudiam, metidos entre agressões iminentes, mantinham a mesma atitude e continuavam a aclamar a Associação, que naquele momento se batia com um futebol e com uma alma, que um benfiquista traduziu, nesta expressão:

- Estes tipos são tremendos

Quando o árbitro deu por findo o encontro, o brio académico e a velha tradição da «malta» estavam perfeitamente salvos. O Benfica foi derrotado.

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No final do desafio da Taça de Portugal- Fan, Fan, Fan, Auto Fan… Repare-se na derrota estampada na cara dum jogador do Benfica… Op.cit. 225

Final da Taça. Op. cit. Pg. 225.jpg

No final do desafio da Taça de Portugal. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Uma espécie de loucura, atacou-nos então e ali, naquele campo das Amoreiras, mesmo nas barbas do Benfica e dos seus adeptos. Esqueceram-se posições sociais, conveniências próprias e o perigo de qualquer manifestação. Médicos, advogados funcionários públicos, alunos da Escola Militar, etc., deitaram cá para fora aquela alegria exuberante de incondicional estima pela Associação.

Que extraordinária vibração a desses momentos. Que admirável e sã energia, dum punhado de rapazes que traziam consigo aquela Coimbra eterna da nossa juventude!

Á saída, os jogadores estudantes, foram «assaltados» por nós. . . Um rapaz do grupo, que nunca estudou em Coimbra – Mas que ainda hoje é capaz duns bons murros para defender a Associação – queria por força abraçar as pernas do Faustino, que, no seu entender, foram as traves do desafio. Não sei se chegou a tal manifestação, o que sei, é que nessa noite levou a família ao Teatro. Chegou mesmo a «decretar» à mulher, que só iria nos dias em que a Associação ganhasse. Um empate merecia cinema. Uma derrota, não se jantava e ia tudo para a cama, com as galinhas, curtir a tristeza do chefe familiar.

Sou testemunha de que estas ordens foram algumas vezes cumpridas.

Nessa tarde, quando no Rossio continuavam as manifestações académicas, descobrimos, a entrar para a «Brasileira», um antigo estudante de Coimbra e diretor da Associação, com profundos traços de tristeza no fácies …  Aquele seu antigo grupo vencer o Benfica era mágoa que o acompanharia até à eternidade … Infelizmente há disto…

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

 

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por Rodrigues Costa às 12:30

Quinta-feira, 16.11.17

Coimbra: Colégio dos Grilos ou de S. Rita

Era dos «Eremitas descalços de St.º Agostinho», que fundaram este seu Colégio universitário em 1755, dando-lhe, como titular da pequena igreja, S.ª Rita de Cássia.

Construíram um bom e amplo edifício, ao cimo do sítio denominado Palácios Confusos, na escarpa ocidental do monte onde assenta a Universidade, e muito próximo desta; local magnífico, com belas e dilatadas vistas para Ocidente, estendendo-se pelos campos e colinas dos arredores de Coimbra.

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 Colégio de S. Rita ou dos Grilos, portal e fachada meridional

 Em 1785 ainda não haviam sido dadas como conclusas as obras de construção, embora já de há muito ali vivessem os colegiais. A 3 de setembro deste ano... adquiriram e consolidaram o seu domínio direto com o útil, das três moradas de casas, cuja compra haviam ajustado ... para a construção da sua igreja.

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 Colégio de S. Rita ou dos Grilos, fachada ocidental

O povo denominava os eremitas descalços - «Grilos»... Aquele apelido, um pouco extravagante, vinha do nome da quinta, perto de Lisboa, onde tinham a sua sede.

... Primavam os «grilos» pelo seu carater modesto, pacifico, bondoso, que os tornava muito simpáticos ao povo, e no meio universitário, sem contudo deslustrar ou prejudicar os seus merecimentos e reputação de muito eruditos e sábios, e de pedagogos distintos. Apesar de ser curta a história deste Colégio, pois não chegou a ter oitenta anos de existência apontam-se com veneração e elogio os nomes de alguns dos seus frades.

...Pela extinção dos Colégios em 1834, e expulsão dos seus colegiais, não ficou o edifício abandonado, como sucedeu a quase todos. Instalou-se logo ali a autoridade administrativa distrital, que veio depois a chamar-se Governador Civil, com as repartições respetivas.

Mas não foi prolongada essa aplicação... Transferiu-se para lá em breve a Administração geral do distrito, e o edifício foi entregue à Universidade... 27 de outubro de 1836. Passou a ser arrendado a uma república de estudantes ... Decorridos anos, o Governo mandou-o vender, avaliado em 5.600$000 reis, base de licitação. Realizou-se a praça a 27 de Abril de 1844.

Posteriormente, neste Colégio funcionou até à construção da sua nova sede, a Associação Académica de Coimbra.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 280, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 11:44

Quinta-feira, 10.11.16

Coimbra: O Fio da Navalha e as Cordas da Guitarra

 

Mais de meio século depois, é preciso puxar pela memória. E voltar a entrar no Palácio dos Grilos, ou melhor, no antigo Colégio de Santa Rita, então, desde a destruição da antiga “Bastilha” em plena Rua Larga, a sede da Associação Académica.

No pátio da entrada os restos do monumento a Luís de Camões, em que sobressaia o Leão, que, inaugurado em 1881, fora também vítima do camartelo, vindo muitos anos mais tarde a ser reconstituído junto ao CADC, e atualmente colocado ao fundo da Avenida Sá da Bandeira.

Ultrapassada a porta principal entrava-se no que fora a igreja do Colégio Universitário. Sobre a porta, uma espécie de coro, com uma mesa de pingue-pongue; nas paredes algumas glórias do futebol, de separatas do “Mundo de Aventuras”, entre as quais Azeredo, ao que consta, hoje o mais antigo jogador da “Briosa” ainda vivo.

A antiga igreja era ampla. No que fora o altar-mor com os seus ornatos, um longo balcão corrido do qual o senhor Álvaro, qual comandante de navio, dirigia as operações, auxiliado pelo senhor Xico, satisfazendo o pedido dos académicos espalhados pelas mesas.

E, julgo que a memória não me trai, o bilhar completava o quadro.

Do lado direito de quem estava virado para o antigo altar, uma porta que dava para a sede propriamente dita, onde se situavam o Salão Nobre, a sala da direção da A.A., as várias secções, o Orfeão e a Tuna Académica, que aí tinham os seus ensaios, a sala e o pátio onde tantas e acaloradas assembleias magnas tiveram lugar nesses primeiros anos da década de 60. Isto sem esquecer o refeitório da Sociedade Filantrópica, num tempo em que as cantinas universitárias eram uma miragem.

Do lado contrário, à esquerda, uma porta semelhante dava entrada para uma insólita barbearia. De vez em quando ouvia-se o tic-tac de uma tesoura ou o som de uma navalha a ser afiada na tira de sola existente para o efeito.

Mas, sobretudo, ouviam-se os sons de uma guitarra ou de uma viola, sublinhados pela voz de um “sol maior” ou de um “ré menor”, um “outra vez” ou um “está melhor”, proferidas pelo senhor Fernando, o barbeiro que ensinou sucessivas gerações de académicos a acompanhar com os seus instrumentos a canção coimbrã.

Era, pois, aquele cubículo, um minúsculo conservatório onde, entre duas barbas e um corte de cabelo, estudantes aprendiam a tocar, e tantos foram, tendo como mestre Fernando Rodrigues da Silva, tal como o seu irmão Flávio, exímios executantes, na tradição familiar de seu pai, o violinista António Rodrigues da Silva.

No desenrolar da crise académica de 1962 a sede da Associação Académica viria a ser invadida pela polícia e os estudantes que nela se entrincheiraram presos, sendo então encerrada, e onde não mais voltaria a ter lugar.

Calaram-se assim os acordes melodiosos da velha barbearia. E o mestre Fernando passaria e fazer barbas e a cortar cabelos ao domicílio, continuando a dar lições na sua casa na Rua da Matemática.

Pouco tempo depois, em 2 de Dezembro de 1964, viria a falecer, com 49 anos apenas. Dir-se-ia que os deuses do Olimpo e os santos o chamavam para o Paraíso, não para lhes aparar as barbas ou cabelos, do tamanho de séculos, mas para, cansados da música celestial das liras e das harpas dos querubins, ouvirem algo de novo, mais vivo e vibrante: a viola e a guitarra de Coimbra, percorridas pelas mãos ágeis de Fernando Rodrigues da Silva.

Andrade, C. S. 2012. O Fio da Navalha e as Cordas da Guitarra. In: Músicos Salatinas. 1880-1947. Exposição Fotográfica e Documental. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 8

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por Rodrigues Costa às 21:07


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