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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 05.11.20

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos 4

A terminar esta sequência de entradas, transcrevo um documento que elaborei, em 6 de dezembro de 2016, após uma visita que fiz ao que resta do Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra.

Núcleo do Carro Elétrico

Não obstante o que de mau ali foi feito, a parte essencial do património histórico subsistiu a anos de abandono, facto que permite considerar a imediata reabertura do Núcleo. Importa, salientar os factos a seguir referidos.

1 – Trabalhos realizados depois da minha saída da CMC e até 2001

- Reinstalação parcial da exposição inicial.

- Inventariação, catalogação e fotografia das peças existentes.

- Elaboração de um anteprojeto – que inclui peças arquitetónicas – tendo em vista a apresentação de uma candidatura para financiamento, visando a instalação do Núcleo, nas condições museológicas, hoje exigíveis. 

Não me tendo sido facultado o acesso a esse documento, em conversa havida com as Técnicas da Divisão de Bibliotecas e Museus, Srªs. Dr.ªs Berta Duarte e Elizabete Carvalho, foi-me referido que o mesmo, com algumas atualizações, se mantem em condições de ser desenvolvido.

2 – Trabalhos realizados em 2004, aquando do encerramento do Museu para a instalação de um grupo de teatro, com o consequente abandono do projeto de candidatura a um financiamento

- Arrumação das peças de menor dimensão, separadas em tabuleiros por tipologia, os quais ainda se encontram, junto ao portão de acesso dos elétricos. Trabalho que foi realizado por uma equipa orientada pela Dr.ª Elizabete Carvalho e que incluiu antigos funcionários dos SMTUC.

 

Edificio onde funcionou o Museu dos Transportes Ur

Edifício onde funcionou o Museu dos Transportes Urbanos. Col. Carlos Ferrão

3 – Situação verificada em 06.12.2016

3.1 – Foi retirado o seguinte espólio:

3.1.1 – O truck/chassis e motores do elétrico nº 19 que permitia a compreensão do funcionamento do veículo, pelo que importaria tentar a sua recuperação. Esta peça teria sido cedida – emprestada, ou dada – ao Museu dos Elétricos de Sintra, onde está exposto;

 

thumbnail_Truck 79E SMC 19 - 1995(1).jpgTruck e motor elétrico quando expostos no Museu. Imagem cedida por Ernst Kers

 

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Truck cedido pela CMC ao Museu de Sintra, na atualidade. Foto Pedro Mendes

3.1.2 – O troleicarro n.º 21, que foi o primeiro deste tipo de veículos a circular em Coimbra. Embora já não no estado inicial, e que estará resguardado nas instalações dos SMTUC;

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Troleicarro n.º 21, na forma inicial. Acedido em https://sites.google.com/site/transportesurbanosdecoimbra/troleis?fbclid=IwAR3LxP4hNcAFbz5jgs1nUW7uP2Q9CNauRFirgCfqx2q1Er25jNDyPtc5SPY

3.1.3 – O autocarro nº 8, de marca Volvo, dos anos cinquenta do passado século, de que se desconhece o paradeiro, depois de ter estado algum tempo na parada dos SMTUC;

3.1.4 – O carro torre utilizado na manutenção da rede aérea, de marca Hansa-Lyod, oriundo de Braga, em ordem ao qual haveria todo o interesse em voltar a integrar o património do Núcleo.

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Carro-torre, a última fotografia conhecida, depois de ter integrado o acervo do Museu. Foto Pedro Mendes

3.2 – Foi desmontado:

3.2.1 – A rede aérea, a qual permitia quer a iluminação dos carros elétricos, quer a sua periódica movimentação;

3.2.2 – A central elétrica de produção da energia de alimentação da rede dos carros elétricos – a central da Alegria montada em 1910 – que estava contigua ao Núcleo, cuja desmontagem e dispersão classificamos como um grave atentado ao património da cidade. Dos equipamentos que a constituíam resta um gerador, sendo que desconhecemos o destino dos demais elementos. Importa salientar que a reposição, pelo menos, da iluminação dos carros elétricos, constituirá a principal dificuldade técnica a vencer para a reabertura do Núcleo;

3.2.3 – A bancada de trabalho, bem como os expositores que se encontravam colocados sobre a mesma, contendo as ferramentas específicas utlizadas para a manutenção dos carros elétricos.

3.3 – Novo espólio

Passou a integrar o património do Núcleo o já referido gerador da central da Alegria, que teria vindo, em 2010, do extinto Museu Nacional da Ciência e Técnica.

3.4 – Material da exposição «Cem anos da tração elétrica em Coimbra»

O material criado para esta exposição realizada no edifício Chiado, em outubro de 2011, nomeadamente fotografias de grande dimensão, foi reinstalado no Núcleo, sendo um bom ponto de partida para a sua reabertura.

3.5 – Renovação do espaço museológico

3.5.1 – O espaço museológico está carecido de uma limpeza geral face ao pó acumulado ao longo do tempo. Recordo que, no tempo em que fui Diretor do Museu, tive ocasião de obter a ajuda dos Sapadores Bombeiros que com agulhetas limpavam periodicamente o chão.

3.5.2 – Pelo Administrador dos SMASC foi afirmada a disponibilidade para a demolição do refeitório construído no espaço do Núcleo e sua consequente reintegração no mesmo.

3.5.3 – Seria, também, conveniente o alargamento das obras em curso de pintura das paredes exteriores às paredes interiores e janelas.

3.5.4 – Neste âmbito haverá – tendo em vista o que se refere no ponto 3.2.2 – que se proceder á revisão do sistema de iluminação.

4 - Conclusão

Julgamos possível, necessária e urgente a imediata reabertura do Núcleo do Carro Elétrico, numa situação similar, mas melhorada, relativamente ao que existia à data do seu encerramento, mas, agora integrado, no âmbito do Museu Municipal de Coimbra.

Julgamos importante e necessário o reativar do processo de candidatura ao financiamento da obra de fundo de que o Núcleo está carecido.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 18:29

Terça-feira, 20.10.20

Coimbra: Coro D. Pedro de Cristo 3

Para os mais velhos, ao falar do Coro D. Pedro de Cristo está, sempre, associado o nome do Dr. Francisco Faria.

Recorda Maria do Rosário Pericão, uma das fundadoras do Coro.

Com efeito o Dr. Francisco apresentava já, naquela época [aquando do início do Coro] um notável curriculum como fica demonstrado nos dados biográficos então divulgados e que nos permitimos transcrever.

«Nascido em S. Paio de Seide (V.N. de Famalicão) no ano de 1926, Francisco Faria começou os seus estudos no Seminário Diocesano de Braga, tendo como professor seu irmão o compositor Manuel Faria e continuou os seus estudos musicais em Coimbra ao mesmo tempo que cursava Direito o que concluiu em 1954 … em 1961 foi nomeado professor de História da Música da Faculdade de Letras de Coimbra.

Durante a sua permanência em Coimbra e ainda estudante, participa em todas as manifestações musicais que culminaram na criação do Coral  dos Estudantes da Faculdade de Letras de que foi Diretor Artístico e à frente do qual durante quase dezasseis anos deu o melhor do seu trabalho e saber conduzindo-o aos maiores sucessos no país e no estrangeiro.

Homenagem do Coro e do Instituto.jpgHomenagem do Coro e do Instituto de Justiça e Paz que atribuiu o nome de Francisco Faria, à sala de ensaios. 06.07.2016

Tendo sido honrado com o pedido de um curto depoimento para esta obra ali figura o seguinte texto.

Acompanhei o nascimento do Coro D. Pedro de Cristo, mas o meu relacionamento com o grupo assumiu outra dimensão depois de ter passado a exercer as funções de primeiro Diretor do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Foi no exercício desse cargo e da amizade então cimentada com o Dr. Francisco Faria - pessoa com quem tanto aprendi - que aprofundei o meu conhecimento acerca das escolas de música que outrora  existiram em Coimbra, da importância do Patrono do Grupo na música coral portuguesa e da pertinência  deste tipo de música.

Posso afirmar a qualidade do Coro recordando uma pequena história, No âmbito da geminação de Coimbra com Poitiers, o Coro D, Pedro de Cristo, em permuta com o Chorale Josquin des Prés, deslocou-se àquela cidade, onde atuou. O nível artístico atingido mereceu, na imprensa local, lisonjeiras referências.

Retribuindo a visita, o referido Chorale deslocou-se a esta cidade e realizou um concerto na Sé Nova. Recordo a «zanga» de Francisco Faria, quando, no decurso da atuação do grupo constatou que o mesmo, a fim de atingir uma qualidade semelhante à patenteada pelo grupo português, tinha sentido necessidade de se socorrer da colaboração de profissionais do canto. Fica o meu testemunho.

Concerto de Reis dedicado aos utentes.jpg

Concerto de Reis dedicado aos utentes e funcionários do Solar das Chãs. 05.01.2020

Medalha.jpgMedalha comemorativa do cinquentenário do Coro D. Pedro de Cristo

Pereira, I.B., Pedro, I., Figueiredo G.T. Coordenadores. Coro D. Pedro de Cristo. 50 anos: memórias e história(s). 1970-2020. Coimbra, Coro D. Pedro de Cristo – Associação Cultural.

 

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por Rodrigues Costa às 19:32

Quinta-feira, 17.03.16

Coimbra: Almalaguês, terra de tecedeiras, "das melhores"

Almalaguês é sede da freguesia... Confinando com os municípios de Lousã e Miranda do Corvo, a freguesia participava, até há cerca de trinta anos, dos modos de vida e da economia tradicional... Deste facto resulta, em parte, a prevalência que a tecelagem manual ainda assume naquela área. É que "antigamente todas teciam". Teciam em casa para si e para as necessidades das famílias, teciam para as "senhoras de Coimbra", teciam e vendiam em feiras próximas mas, a maior parte tecia para os negociantes que abasteciam mercados regionais em carpetes, passadeiras, tapetes e mantas.
Alguns destes negociantes... montaram as suas próprias unidades fabris com teares mecânicos, quer na Lousã, quer em Miranda do Corvo. Almalaguês, alcandorada no cimo do monte, com problemas graves, à época, de acessibilidade, com pouca água, não teve condições para a emergência de processos semelhantes ou paralelos a este. Isoladas, as suas tecedeiras não só não induziram o aparecimento da indústria têxtil, como não tinham alternativa aos rendimentos propiciados pela tecelagem.
Até 1974 a freguesia viveu, por deficiência de transportes diários, um relativo isolamento, o que ajudou a preservar, com uma rara expressão, uma atividade como a tecelagem manual... Ancoradas numa forte tradição de manufatura e venda de carpetes, passadeiras e "atoalhados", com sólidas e variadas ligações ao mercado, as tecedeiras de Almalaguês mantiveram-se a trabalhar nos seus teares, até aos nossos dias.
Nem todas... Mas, independentemente da sua atual situação relativamente à tecelagem, em todas se deteta uma grande afetividade na sua relação com o tear, onde radica um forte sentimento identitário. Almalaguês, terra de tecedeiras, "das melhores".
Num abandono que, contudo, tende a generalizar-se, "há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não" e algumas, de meia idade, mantém-se mesmo ao tear. Em 1980 ... 330 tecedeiras ... Em 1994/95 ... 135 tecedeiras na freguesia e 80 no lugar. ... em quinze anos (dos quais dez correspondem ao início da integração europeia) a freguesia perde 59,1% das tecedeiras recenseadas em Novembro de 1980.

... Nos finais dos anos setenta a Câmara Municipal de Coimbra foi pioneira no entendimento das artes tradicionais como um património de cariz popular, não autorado, que se tornava importante conhecer nos seus limites e potencialidades. O trabalho, em tão boa hora começado por Fernando Rodrigues Costa, não teve, no entanto, continuadores à altura e quando este abandonou o seu lugar de responsável pelos Serviços Municipais de Turismo muito se perdeu, daquele primeiro entusiasmo e da reflexão então encetada num memorável "Colóquio sobre Artesanato" realizado em Novembro de 1979, no Instituto Antropológico.
Mas, em 1978, quando se faz de 25 de Outubro a 5 de Novembro, no Edifício Chiado ... uma mostra da Tecelagem da Região da Almalaguês toda a reflexão sobre artes e ofícios tradicionais está ainda, por toda a parte, no seu início. Fortemente marcado por abordagens de carácter etnográfico o discurso que então se fazia sobre Almalaguês ignora a descrição dos motivos ou padrões que caracterizam e individualizam aquela produção, omite o nome das tecedeiras que lhe dão sentido, enquanto valoriza a descrição e nomenclatura de cada uma das peças do tear.
... Está por fazer o levantamento dos motivos de Almalaguês, mas é fácil entender que, a situação atual se caracteriza por uma grande variedade de possibilidades colhidas em fontes muito diversas. Como o "bordado" corresponde ao levantamento (borboto) do fio segundo uma quadrícula implícita à trama do tecido, em que aos fios "verticais" da teia, se contrapõem os fios "horizontais" propiciados pela lançadeira, torna-se fácil transpor para o trabalho do tear qualquer desenho assente numa quadrícula e vice-versa.

Pires, A. Tocar a vida, aos pedais do tear. (História de uma tecedeira). In Mestres Artífices do Século. 2002. Lisboa, Instituto de Emprego e Formação Profissional

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por Rodrigues Costa às 10:08

Quarta-feira, 16.03.16

Coimbra: A Casa do Artesanato da Região de Coimbra

A CARC, criada por Fernando Rodrigues Costa, diretor dos serviços municipais de Turismo, foi uma das primeiras entidades a promover artesãos e atividades artesanais com um programa coerente de iniciativas de que se destacam exposições temáticas – e lembro a de 1978, sobre a tecelagem de Almalaguês, ou a de 1980 sobre os Barros Pretos de Olho Marinho (com texto de Alberto Correia) - com artesãos a trabalhar junto dos visitantes, recriando as condições das respetivas oficinas.
Mas também a organização de um espaço de venda das produções artesanais mais emblemáticas, primeiro no edifício Chiado, posteriormente na Torre de Anto constituiu um domínio de intervenção da CARC, bem como o apoio à participação de artesãos em feiras, quer nacionais quer internacionais. Na ocasião, esse apoio, além de financeiro e logístico, exercia-se em domínios tão privados como a obtenção do consentimento dos maridos para que permitissem a ida das suas mulheres a ida à Feira de Vila do Conde ou outra qualquer feira.
… A Casa do Artesanato da Região de Coimbra, que apostava no associativismo dos artesãos, poderia ter significado para Coimbra e sua região o que o CRAT (Centro Regional de Artes Tradicionais, Porto) significou e significa para o Artesanato Português – e, nesse pressuposto, ainda houve contactos entre as duas instituições, trocando informações sobre estatutos, financiamento e modo de funcionamento. Todavia, acabou por se reduzir a um posto de vendas instalado na Torre de Anto, que durou até aos finais da década de 90 e todo o trabalho de estudo e reflexão iniciado logo em 1976/77 se gorou, apesar da dos seus auspiciosos começos em ligação a uma entidade universitária e mobilizando gente muito motivada e capaz.
Mas, em 1979, o tempo era ainda de esperança e os técnicos que se encontravam na “Casa do Artesanato da Região de Coimbra”, mostram bem, no “trabalho coletivo” que apresentaram no Colóquio, e a que chamaram “O necessário papel das Autarquias Locais na defesa do Artesanato” (páginas 57 a 61), o quanto acreditavam no projeto. De todos os nomes que poderão ter estado ligados à CARC é de elementar justiça mencionar o de Berta Duarte que, sempre que lho permitiram, desenvolveu trabalho empenhado no âmbito das Artes e Ofícios.
Numa altura em que praticamente não existiam serviços que, de algum modo se ocupassem com o sector de atividade a que hoje chamamos Artes e Ofícios, os funcionários públicos que acorrem ao Colóquio, fazem-no, não por razões diretamente relacionadas com a sua vida profissional, mas, e não arrisco muito ao afirmá-lo, por gosto pessoal, por considerarem o tema interessante, uma novidade, porventura, uma oportunidade de desenvolverem trabalho numa área tão específica e que apreciavam.

Pires, A. (2008). Um colóquio. Um livro. Um ponto de partida. In Mãos – revista semestral de artes e ofícios. N.º32 - Jul/Dez 08

A Casa do Artesanato da Região de Coimbra, iniciativa da Câmara Municipal de Coimbra, através dos Serviços Municipais de Turismo, visa a preservação e divulgação do artesanato da região... desenvolve a sua atividade através de: Sala Museu, repositório objetos e ferramentas; Oficina, onde pela presença de diversos artesãos se procura divulgar as diferentes técnicas artesanais; Posto de Vendas, dedicado à venda dos artigos produzidos.
Desde o início, registou esta Casa um grande afluxo de turistas, particularmente estrangeiros, interessados no artesanato da nossa região... para o Inverno voltámo-nos para um novo campo – o didático ... o primeiro grupo de jovens que visitaram a Torre aproveitando a presença de um artesão... foi um desencadear de perguntas a eu o Artesão respondia prontamente, feliz por se ver rodeado daquela miudagem ávida de aprender.

Casa do Artesanato da Região de Coimbra. 1979. O necessário papel das Autarquias Locais na defesa do Artesanato. In Actas do Colóquio sobre o Artesanato. 1982. Coimbra, Gráfica de Coimbra. Pg. 58 e 59

 

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por Rodrigues Costa às 10:00

Terça-feira, 15.03.16

Coimbra: O colóquio sobre Artesanato realizado em 1979

O livro é pequeno e de fraco aspeto. A capa de cartolina, queimada do sol, mostra um verde-claro debotado onde se destaca um título formal e preciso: Actas do Colóquio Sobre Artesanato. Coimbra, 8 a 11 de Novembro de 1979. A mesma capa elucida logo quanto às entidades responsáveis pela organização do Colóquio: os Serviços Municipais de Cultura e Turismo de Coimbra e o Instituto Português do Património Cultural.
... Na sua aparente modéstia, este livro representa um dos grandes marcos da História do Artesanato Português, sólido testemunho de uma realização que congregou um heterogéneo grupo de 90 pessoas, algumas das quais se dedicaram a este sector de atividade, num vínculo que desenvolveram em múltiplas realizações, ao longo de quase trinta anos, e que, para muitas, ainda hoje se mantém.
Se, passado todo este tempo, impressiona a qualidade dos presentes, a lista de participantes evidencia ainda uma realidade que não tem qualquer paralelo com uma situação equivalente que se verificasse na atualidade.
... Num Colóquio que, nas palavras de Henrique Coutinho Gouveia, nasceu “da convicção comum de que qualquer política futura de artesanato terá que se basear num conhecimento mais aprofundado da realidade portuguesa”... para além dos 30 professores, dos 15 funcionários trabalhando em museus, de mais outros 15 funcionários públicos, dos 6 elementos dos serviços de Cultura e Turismo da Câmara Municipal de Coimbra, dos 5 estrangeiros (1 brasileiro, 1 espanhol e 3 cabo-verdianos) restam 9 elementos que se distribuem por categorias muito diversas.

A organização do Colóquio previa dois dias inteiros para apresentação de comunicações, um outro dia para... constituição de cinco mesas redondas para debate e proposição de conclusões ... é no grupo de trabalho moderado por Rodrigues Costa (“Turismo e Artesanato”), que surgem, sem dúvida, as conclusões mais interessantes e visionárias, de que se destacam:
- “O artesanato deve ser rigoroso na sua qualidade, resguardando-se das mistificações e das fraudes. Deverá ser estabelecida uma verificação da sua genuinidade.
- Recomenda-se às Autarquias a realização de feiras periódicas, francas, semanais ou mensais, com a presença exclusiva do artesão, evitando-se os intermediários.
- Recomenda-se igualmente às autoridades ligadas ao sector a criação do Estatuto do artesão e do respetivo cartão de identificação.
- Propõe-se a criação de um Organismo ou Centro dinamizador do artesanato, que trate de todos os problemas a ele respeitantes”.

... No registo escrito que testemunha o Colóquio de 1979 nada ficou sobre as acaloradas discussões que aí tiveram lugar. Viviam-se tempos de grande efervescência e liberdade pessoal... Faziam-se estudos sobre produções artesanais descrevendo pormenorizadamente todos os utensílios e respetivos modos de usar, nomeando todas as suas partes, sem, com o mesmo detalhe, se caracterizarem as produções na especificidade das suas gramáticas decorativas e funcionalidades.
... Embora em pequeno número, os estrangeiros que são convidados e aceitam participar neste Colóquio, acrescentam uma dimensão internacional plena de significado quanto à ambição e abertura que o Colóquio revela, ao pretender-se auscultar outras realidades... o espanhol Manuel Montalvo aparece com um discurso iconoclasta, defendendo a necessidade de se inovar ao nível das tecnologias e do produto final. É assim que, sobre o artesanato, denuncia que “não se trata de fabricar objetos medíocres para que se possa apreciar que são feitos à mão e de forma primitiva” recomendando as vantagens da qualidade de todos os processos ligados ao fabrico e da própria mobilização e envolvimento dos artífices, como condição prévia de sucesso.

Numa época em que a substituição de rodas de oleiro por rodas mecânicas gerava a maior das polémicas, pois o trabalho “deixava de ser artesanal”, poucas pessoas terão percebido (e aceite) o lúcido discurso de Manuel Montalvo:
“Recordo ainda artesãos já idosos, trabalhando em condições muito duras e sacrificadas, com métodos que se pretendia que nunca se deveriam modificar, considerando-se sacrilégio pensar numa evolução e facilitar o trabalho – era mais cómodo sacrificar-se o homem na ara de uma pureza arcaica e fictícia. E o resultado ficou à vista: nenhum dos filhos destes artesãos quis continuar o ofício da família”.
(…) “O artesanato não precisa de dádivas; (…) não acredito nos artesanatos de conserva, nos artesanatos subvencionados para fabricarem aquilo que ninguém lhes pede, (…) gastando o tempo em operações vãs, que uma simples máquina pode realizar”.
Palavras sensatas, realistas, que demoraram tempo a fazer o seu caminho.

Pires, A. (2008). Um colóquio. Um livro. Um ponto de partida. In Mãos – revista semestral de artes e ofícios. N.º32 - Jul/Dez 08

 

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por Rodrigues Costa às 12:16

Quarta-feira, 09.12.15

Coimbra, o edifício Chiado 3

Durante os anos que se seguiram (ao 5 de Junho de 1978, a “Noite de Coimbra”) foi fundamental a ação destes serviços (os Serviços de Turismo da CMC) … Terá sido aqui que surgiram eventos que estiveram na génese de importantes programas culturais da cidade, como por exemplo os Encontros de Fotografia e a Feira do Livro. Foi também aqui que funcionou uma escola de fado e o local onde se instalaram os primeiros serviços de cultura da autarquia, o Departamento de Ação Educativa e Cultural.

Magalhães, R. 2010. Edifício Chiado. Uma das curiosidades de Coimbra. In Caminhos e Identidades da Modernidade. 1910. O Edifício Chiado em Coimbra. Actas. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 218

 

Tendo tido a honra de liderar a equipa que ergueu os eventos acima referidos importa, para memória futura, enumerar do conjunto de eventos então realizados, os mais relevantes, primeiro no âmbito dos Serviços Municipais de Turismo, depois do Departamento de Cultura, Desporto e Turismo.

- Eventos de temáticas diversas

. Encontros de Música Ibérica
Apoio à organização da II edição em 1978
. Festival Internacional do Filme Amador de Coimbra (FIFAC)
Organização em colaboração com a Secção de Cinema da AAC das edições de 1979, 1980 e 1981.
. Encontros de Fotografia de Coimbra
Organização em colaboração com a Secção de Fotografia da AAC: edição de 1980, comissariada por Zeferino Ferreira; edição de 1981, comissariada por António Miranda.
Apoio às organizações subsequentes
. Curso e Concurso Internacionais de Guitarra de Coimbra
Organização das edições de 1984, 1985, 1986.
. Salão de Pintura Naïve
Organização de quatro edições
. Recuperação e divulgação da Doçaria Tradicional de Coimbra
Exposição no edifício Chiado, Julho de 1982
. Ciclo de palestras sobre História de Coimbra «Descobrir Coimbra»
1º ciclo de Fevereiro a Abril de 1983; 2º ciclo Janeiro a Março de 1984, num total 20 sessões). Programação de Berta Duarte
. Prémio Literário Miguel Torga Cidade de Coimbra
Lançado em 1984 e que continua a ocorrer anualmente
. O Postal Ilustrado. Contributo para a Imagem de Coimbra
Exposição temporária, de 28.06 a 15.07 de 1986. Edifício Chiado.
Recolha e catalogação de Berta Duarte e Carlos Serra.

- Eventos de apoio à Etnografia e Folclore do concelho de Coimbra
. I Seminário sobre a Etnografia e o Folclore de Coimbra e seu termo
Fevereiro de 1978
Na sequência deste evento foram desenvolvidas, nomeadamente, as seguintes ações:
- Esquema de apoio ao Folclore da Região de Coimbra
Assente no funcionamento de uma Comissão de Análise dos Grupos Folclóricos que avaliava o mérito dos grupos e na atribuição de apoios financeiros àqueles que era reconhecido “interesse folclórico”.
- Cursos de Formação de Responsáveis de Grupos Folclóricos
Organização dos cursos realizados
- Recuperação da viola toeira coimbrã
Viabilização da recuperação através da prévia aquisição de exemplares e distribuição destes pelos grupos folclóricos classificados
- II Congresso da Federação do Folclore Português, em 15 e 16 de Setembro de 1979
Organização e publicação das Atas.
. Aspetos do Trajo Popular Feminino em Coimbra
Exposição inicialmente apresentada no Casino Estoril e posteriormente no Edifício Chiado (Outubro de 1984) e no Casino do Funchal (Abril de 1990).
Planificação e textos de Berta Duarte e Nelson Correia Borges.

- Eventos de apoio ao Fado de Coimbra
. Seminário sobre o Fado. Seu passado. Seu futuro
Organização do Seminário que incluiu a realização da primeira serenata na Sé Velha depois de 1969, em Maio de 1978
. II Seminário sobre o Fado de Coimbra
Organização do Seminário, em Maio de 1979
Na sequência destes eventos foram desenvolvidas, nomeadamente, as seguintes ações:
- Edição: do disco “Coimbra tem mais encanto”; do opusculo Fado de Coimbra ou Serenata Coimbrã? da autoria de Francisco Faria; do livro “O Canto e a Guitarra na Década de Ouro da Academia de Coimbra (1920-1930), da autoria de Afonso de Sousa; do disco “Zeca em Coimbra”; viabilização da edição do álbum com seis discos “Tempos de Coimbra. Oito décadas no canto e na guitarra”.
- Escola de Fado de Coimbra
Criação e financiamento da Escola que funcionou no Edifício Chiado de 1979 a 1981, sob a direção de Jorge Gomes e Fernando Monteiro
- Guitarras de Coimbra
Exposição temporária. Edifício Chiado, em 1982, comissariada por Berta Duarte e Carlos Serra (Museu Académico)
- Fado de Coimbra – Memória Fonográfica (1896-1930)
Exposição temporária, em 1986, comissariada por Berta Duarte e Carlos Serra (Museu Académico)

- Eventos de apoio ao Artesanato da Região de Coimbra
. Colóquio sobre o Artesanato
8 a 11 de Novembro de 1979
Organização e publicação das respetivas Atas
. Jornadas sobre a Cerâmica em Coimbra
Janeiro de 1981
Organização e publicação das Atas, editadas pela Comissão de Coordenação da Região do Centro.
. Casa do Artesanato da Região de Coimbra que funcionou no edifício da Torre de Anto de 1979 a 1995
. Exposições sobre as Técnicas Tradicionais da Região de Coimbra, a saber:
-Tecelagem da Região de Almalaguês
Exposição temporária. Edifício Chiado, de 21 de Outubro a 5 de Novembro de 1978. Encenação e catálogo de Henrique Coutinho Gouveia
- Funilaria e Latoaria na Região de Coimbra
Exposição e demonstrações ao vivo realizadas na Casa de Artesanato da Região de Coimbra, a partir de 7 de Setembro de 1979. Organização de Ângela Sobral
- Palitos de Pá e Bico
Exposição itinerante. Casa de Artesanato da Região de Coimbra, Novembro de 1979.
Organização do Museu e Laboratório Antropológico da Universidade de Coimbra
- Estatuária Popular de Gondramaz
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra, 27 de Novembro de 1982.
Planificação e texto de apresentação de Ângela Sobral
- Colheres de Pau
Exposição temporária. Casa do Artesanato da Região de Coimbra, Fevereiro, Abril 1985.
Planificação e texto de apresentação de Ângela Sobral
- O Último Tamanqueiro de Cantanhede
Exposição temporária. Organização em colaboração com o Instituto Português do Património Cultural. Casa do Artesanato da Região de Coimbra. Janeiro de 1986.
Texto de apresentação da Margarida Coutinho Gouveia
- Barros Vermelhos do Carapinhal
Exposição temporária. Casa do Artesanato da Região de Coimbra. 1987
Planificação de duas exposições sobe o tema a primeira com texto de Berta Duarte
- Barros Vidrados de Casal do Redinho
Exposição temporária. Casa de Artesanato de Coimbra, de 16 de Março a 31 de Maio de 1980.
Planificação e texto de apresentação de Ângela Sobral

Deste conjunto de exposições recolhemos a respetiva documentação de apoio. Neste âmbito foram, ainda, organizadas as seguintes exposições em ordem às quais não dispomos de documentação:
- Faiança Esmaltada de Coimbra
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra, 1980
Planificação e texto de apresentação de Ângela Sobral
- Rendas de Semide
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra.
Planificação e texto de apresentação de Ângela Sobral
- Cobres de Oliveira do Hospital
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra.
Planificação e texto de apresentação de Ângela Sobral
- Cestaria em Vime
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra, de Fevereiro a Setembro de 1980.
Planificação e texto de apresentação de Berta Duarte
- Esteiras de Arzila
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra.
Planificação e texto de apresentação de Ângela Sobral
- Serralharia Artística. Homenagem da CMC a José Pompeu Aroso
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra, em Julho 1980. Planificação e texto de apresentação de Berta Duarte
- Barros Pretos de Olho Marinho
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra, de Dezembro de 1980 a Abril de 1981.
Planificação e texto de apresentação de Berta Duarte
Esta exposição foi posteriormente reapresentada com texto e apresentação de Ângela Sobral.
- Antonino de Castro, Peneireiro
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra, em 1989.
Planificação e texto de apresentação de Ângela Sobral
- Bordados da Madeira
Exposição temporária. Casa de Artesanato da Região de Coimbra, de Outubro a Dezembro de 1983.
Planificação e texto de apresentação de Berta Duarte

- Eventos sobre a salvaguarda do património cultural
. I Encontro sobre a Salvaguarda do Património Cultural
Organização, Dezembro de 1980
. Seminário sobre a recuperação do Centro Histórico de Coimbra
Organização. Fevereiro de 1982
. Museu dos Transportes Urbanos
Planificação, montagem e abertura na antiga remise dos carros elétricos.
Organização e textos de Rodrigues Costa.

- Semana de Coimbra no Estoril, 8 a 17 de Junho de 1984
Evento que para além da apresentação diária de grupos de fado de Coimbra e de grupos folclóricos, da gastronomia regional e da realização de uma Serenata de Coimbra junto à Igreja de S. Estêvão, em Lisboa, integrou as exposições a seguir enumeradas.
. Técnicas tradicionais da Região de Coimbra em que foram apresentados as seguintes mostras: Faiança Esmaltada de Coimbra; Rendas de Semide; Artefactos de Madeira; Cobres de Oliveira do Hospital; Funilaria e Latoaria; Tecelagem de Almalaguês; Cestaria em Vime.
. Coimbra antiga
Textos de A. Carneiro da Silva
. 6 Fotógrafos de Coimbra
Textos de Manuel Miranda
. Pintores de Coimbra
Textos de A.F. Rodrigues da Costa
. Medalhística. Homenagem a Cabral Antunes
Textos de A. Carneiro da Silva

Rodrigues Costa, que agradece a colaboração das Dr.ªs Berta Duarte e Ângela Sobral.

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por Rodrigues Costa às 18:35


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