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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 26.04.18

Coimbra: Teatro Avenida, uma saudade 1

O “Teatro-Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, [num primeiro momento apenas Theatro-Circo] após 5 de outubro de 1910 renomeado de Teatro Avenida, na Avenida Sá da Bandeira em Coimbra, propriedade de António Jacob Júnior, Moraes Silvano e Mendes d'Abreu [e outros], foi projetado pelo arquiteto Hans Dickel, e inaugurado em 20 de janeiro de 1892.

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 Teatro-Circo a seguir à sua inauguração

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 Enquadramento do Teatro na Avenida Sá da Bandeira

 A sua construção, em terrenos cedidos pela Câmara Municipal de Coimbra, teve início em 1891 e nela trabalharam cerca de 100 operários. Dos estuques encarregou-se Francisco António Meira. As grades dos camarotes, as colunas que os sustentam e as cadeiras para a prateia foram fundidas na oficina de Manuel José da Costa Soares.

Este Teatro, oferecia: 28 camarotes de uma só ordem, 8 frisas, 28 lugares de balcão, 450 cadeiras e 450 lugares de geral.

A inauguração do, então, “Teatro Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, contou com a atuação de uma «companhia equestre, gymnástica, acrobática, cómica e mimíca, do Real Coilyseo, de Lisboa, de que é director o sr. D. Henrique Diaz»

A sala de espetáculos, com um «pano de boca» pintado por mestre António Augusto Gonçalves, tinha capacidade para 1.700 espectadores e o seu custo ultrapassou os 20 000$000 réis. Podiam lá realizar-se espetáculos equestres, de declamação e canto. Embora os espaços de receção e hall de entrada fossem construídos em alvenaria de pedra, o espaço central e cúpula tinham estrutura metálica, vinda de um Teatro mais antigo, o «Teatro-Circo Do Arnado». [Esta informação não nos foi confirmada por uma historiadora deste período]

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 Projecionista do “Teatro Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, em 1902

 «Para qualquer companhia é o theatro alugado por 80$000 réis. O actual emprezario, que procura sempre variar os espectaculos com peças escolhidas das melhores companhias e que é fiel cumpridor dos seus deveres, é o sr. Manoel Francisco Esteves. Tem o theatro orchestra e banda, sob a direcção do habil e intelligente professor Dias Costa. É esta casa de espectaculos muito elegante e tem commodidades. Na epocha propria é muito frequentado pelos academicos.» in: “Diccionario do Theatro Portuguez” - Sousa Bastos - 1908.

Sarau Acdémico.jpg

 Sarau académico

 

Nota – Para completar e corrigir estas informações, consultar a entrada publicada neste blogue em 2016.12.26, com o título Coimbra: o desaparecido Teatro Avenida.   

Restos de Colecção (blogue). Teatro Avenida em Coimbra. Acedido em 2018.04.12, em

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2017/11/teatro-avenida-em-coimbra.html

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por Rodrigues Costa às 22:13

Quinta-feira, 19.04.18

Coimbra: Café Santa Cruz, um café com muita história 3

Como contributo para o encontro internacional de cafés históricos europeus que vai decorrer em Coimbra na próxima sexta-feira e sábado, concluímos hoje a publicação de uma série de três entradas sobre o Café de Santa Cruz, um café com muita história.

 A partir dos finais da primeira década do século XX, a imprensa de Coimbra começa a noticiar a possibilidade de a cidade passar a dispor de um requintado Café-restaurante e apontava para sua instalação no imóvel, nessa altura muito degradado devido às diferentes utilizações e serviços que ali haviam estado instalados após a desamortização, da igreja de S. João de Santa Cruz, situada paredes meias com o templo do mosteiro crúzio, na esquina da Praça de Sansão com a Rua das Figueirinhas.

Num primeiro momento a escolha do local foi aceite de forma pacífica pela opinião pública, porque o empreendimento vinha preencher uma importante lacuna da cidade uma vez que esta não dispunha de qualquer estabelecimento do género capaz de poder oferecer aos habitantes e a um público que a visitava cada vez em maior número, as comodidades e a categoria propostas no projeto em causa. Em suma, estava-se perante um melhoramento local.

Contudo, com o decorrer do tempo, e com os “empatas” a levantarem constantes e variados obstáculos, a polémica rebentou, estendeu-se largamente, envolveu as entidades responsáveis sediadas na urbe, com destaque para o Conselho de Arte e Arqueologia da 2.ª Circunscrição, presidido pelo engenheiro Abel Urbano e de que faziam parte, entre outros, António Augusto Gonçalves (considerado, justamente, a figura predominante), arquiteto Augusto da Silva Pinto, engenheiro Sousa Pinto e João Machado. Esta entidade, ao longo do processo navegava nas águas de uma certa ambiguidade, porque ora reprovava, ora consentia e também porque o presidente, Abel Urbano, engenheiro militar e funcionário da Câmara Municipal de Coimbra (exerceu a vice-presidência da edilidade em 1918-1919 e a presidência nos anos de 1929-1930) era o principal opositor do projeto.

Café Santa Cruz. Logotipo a x.jpg

 Chávena com o logotipo do Café Santa Cruz

 Nos discursos proferidos aquando da inauguração do Café-restaurante, acontecida a 7 de maio de 1923, este foi considerado “um grande melhoramento” e um local onde acorreria “a melhor sociedade citadina” que, por certo, ali viria “a dar-se rendez-vous”.

Os donos de um estabelecimento similar existente em Lisboa seriam os promotores do café conimbricense, mas, na realidade, os proprietários do Café de Santa Cruz eram Adriano Lucas, Mário Pais e Adriano Cunha que, como desejavam “que o estabelecimento fosse de primeira ordem” não “se têm poupado e esforços nesse sentido, nem mesmo a despesas avultadas”.

Como já se disse, o projeto da fachada apresentado por Jaime Inácio dos Santos, que apresentava um traçado a inserir-se no gosto neomanuelino, já dera entrada nos respetivos serviços camarários para aprovação no segundo trimestre de 1921, tendo, na altura, sido alvo dos mais rasgados elogios. No entanto, para o final do ano a fachada teve de sofrer algumas pequenas alterações, a nível da decoração, a fim de ser “desmanuelizada”.

As entidades responsáveis entendiam que o neomanuelino não podia, nem devia, ser utilizado ao lado do templo crúzio. Havia que edificar uma fachada que se distanciasse do monumento, mas que, simultaneamente, não colidisse com ele.

A contenda agudizava-se, porque para além de ser posta em causa a utilização de um espaço que fora sagrado para nele funcionar um Café-restaurante (as outras utilizações do desativado templo jamais haviam levantado qualquer protesto) ainda existia a convicção de que o templo integrara o “mosteiro das Donas” e, por isso, os opositores conseguiram que o local tivesse sido declarado Monumento Nacional através do decreto n.º 7783, de 2 de outubro de 1921, ocasionando o embargo da obra em novembro seguinte. Na realidade, o mosteiro feminino havia séculos que fora transferido para outro local e, além disso, situava-se no lado oposto. A igreja de S. João de Santa Cruz sempre foi a sede da paróquia do mesmo nome, até porque o templo crúzio fazia parte integrante do mosteiro agostinho.

A escolha do local para instalar o Café-restaurante, consensual num primeiro momento acabou por se transformar numa intensa e demorada polémica, com incisivas acusações entre aqueles que se apresentavam a favor e aqueles que se declaravam manifesta e irredutivelmente contra, sendo a imprensa escrita publicada em Coimbra o principal veículo desta acesa discussão.

Café Santa Cruz. Fachada. Pormenor 03a Maluisbe x

 Candeeiros de iluminação exterior (Foto Maluisbe)

 De um lado situavam-se alguns jornais, como A Noticia, O Despertar e a Gazeta de Coimbra, mais liberais e de cariz marcadamente republicano, que viam neste empreendimento um verdadeiro melhoramento e um importante veículo de progresso para a cidade, em nada chocando a sua localização com o importante e imponente monumento vizinho e muito menos com o afastado passado religioso do templo outrora ali existente.

Por outro lado, encontravam-se os jornais católico-monárquicos, como a Restauração ou A Academia, mais conservadores, que consideravam a instalação do café naquele espaço, para além, de um atentado ao património artístico do nosso país, uma afronta e falta de respeito à Fé católica e também à memória dos nossos primeiros reis, Dom Afonso Henriques e seu filho Dom Sancho I, a dormirem ali o sono eterno.

Café Santa Cruz. Interior 01a x.jpg

 Interior do Café de Santa Cruz

 A partir daqui ambas as partes, para defenderem a sua posição, vão fazer uso dos mais diversos argumentos e também de constantes acusações mútuas.

A título de mera curiosidade diga-se que o periódico “Restauração”, ironicamente, propunha que, no caso de a Câmara Municipal aprovar o projeto, “sem perda de tempo se contru[isse] em frente do café chic, um mictório renascença”…

 

Nota 1 – Embora alguns dos periódicos apoiantes do novo estabelecimento comercial, depois da inauguração, afirmassem que “entre a frequência do novo café se nota [a presença] do elemento académico e isso também era de esperar, porque a academia coimbrã sabe bem cumprir o seu dever, a verdade é que outros afirmavam que “os estudantes compenetraram-se do seu dever de não frequentar aquela vergonha, ofensiva da arte e da religião do nosso povo. Fogem-lhe envergonhados do atentado afrontoso (…) e não será a Academia que sancionará o sacrilégio do «café passarão»”. Com efeito, os estudantes, na generalidade, não frequentavam muito aquele espaço. Se a memória me não atraiçoa, apenas os monárquicos ali se reuniam.

A minha sogra que hoje estaria a chegar aos 120 anos chamava a este café, “o café dos passarões”. Podemos pensar que o epíteto lhe advinha dos candeeiros exteriores que decoram a sua fachada ou do tipo de frequentadores do café e também podemos deduzir que o café seria assim conhecido pela imprensa e pela população.

 

Nota 2 – A polémica aqui aflorada e bem documentada no trabalho referido faz-me lembrar uma das características das gentes de Coimbra – será só das gentes de Coimbra? – que resulta, segundo pensamos, da incapacidade, tanta vez presente na nossa sociedade, de avaliar um projeto não pelo seu valor intrínseco, mas pelo posicionamento social e político de quem o sugere; da dificuldade em nos fixarmos no essencial em detrimento do acessório e do circunstancial;  da incapacidade de procurar encontrar aquilo em que se torna possível conjugar interesses, em detrimento da constante busca das divergências e do permanente extremar maniqueísta de posições. Incapacidades e divergências bem presentes ao longo de toda a nossa história e de que a existência de portugueses nos dois lados da batalha de Aljubarrota, para além de recuado no tempo, é bem exemplificativo.

 

Nota 3 – Nas três entradas publicadas sobre este tema seguiu-se, em parte, o texto abaixo referido. No entanto, é de sublinhar que o mesmo foi enriquecido por diversas sugestões que nos foram feitas.

 

Alemão, G.C. 2004. Uma polémica acesa – o nascimento do Café de Santa Cruz. Trabalho apresentado no Seminário da Licenciatura em História da Arte, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (policopiado)

Academia (A), 12, Coimbra, 1923.05.20.

Despertar (O), 460; 469; 631 e 743, Coimbra, 1921.09.03; 1921.10.05; 1923.05.16 e 1924.06.21.

Gazeta de Coimbra, 1204; 1235; 1384; 1390 e 1445, Coimbra, 1921.09.13; 1921.11.26; 1922.11.30; 1922.12.14 e 1923.05.08.

Noticia (A), 79; 97; 98; 101 e 168, Coimbra, 1921.10.05; 1921.12.10; 1921.12.14; 1921.12.24 e 1923.05.24.

Restauração, 4; 23; 27; 30 e 34, Coimbra, 1921.07.07; 1921.11.22; 1921.12.24; 1922.01.19 e 1922.02.18.

 

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por Rodrigues Costa às 10:05

Quinta-feira, 04.01.18

Coimbra: Fotografias antigas

Folheando, tempos atrás, dois catálogos impressos aquando da realização de exposições de fotografias antigas de Coimbra, pertencentes à coleção de Alexandre Ramires, escolhi, de entre muitas que ali observei, três que me pareceu interessante divulgar.

A primeira diz respeito à Sé Velha e foi retirada de Revelar Coimbra. Os inícios da imagem fotográfica em Coimbra. 1842-1900, Lisboa, Instituto Português de Museus, 2001, imagem 48.

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 Sé Velha antes do restauro

 A vetusta catedral conimbricense encontrava-se em franca deterioração e António Augusto Gonçalves, a alma, o mestre, o mentor da Escola Livre das Artes do Desenho tudo fez para que uma intervenção de fundo, capaz de preservar as velhas pedras de séculos, se viesse a concretizar.

As obras iniciaram-se a 30 de janeiro de 1893 e o portal principal foi intervencionado, já em 1898, por José Barata, que se encarregou de esculpir as colunas e por João Machado que tomou sob a sua responsabilidade o trabalho das almofadas. Eram dois artistas formados pela referida Escola e que integravam aquela “plêiade de rapazes que começavam a fazer lembrar a idade áurea da Coimbra artística do século XVI”.

A imagem leva-nos ainda a reparar na atual falta de harmonia existente no edifício, resultado do desaparecimento do terraço. Gonçalves reduziu a área desta plataforma e os Monumentos Nacionais, na reforma levada a cabo em meados da centúria de XX, sumiram-na. Filosofias de restauro mais do que discutíveis que não cabe aqui analisar.

Uma chamada de atenção para a torre sineira, um acréscimo à construção primitiva, que albergava o chamado sino balão, levado para a Sé Nova e a existência de dois janelões laterais também abertos nas grossas paredes dos inícios. No interior da Sé acolhiam-se indivíduos fugidos à justiça régia, os homiziados, pois ali, tal como na zona das lajes, isto é no terraço que circundava o templo, existia o chamado “direito de asilo”.

 

A segunda imagem refere-se à Praça de Sansão, atual Praça 8 de maio e foi retirada de Passado ao espelho. Máquinas e imagens das vésperas e primórdios da photographia, Coimbra, Museu de Física da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2006, p. 60.

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 Praça de Sansão mercado

 A Praça de S. Bartolomeu, Praça Velha ou Praça do Comércio era um dos locais onde, em Coimbra, se realizavam as trocas e a venda de produtos. A partir do momento em que este espaço se tornou exíguo para responder às necessidades da população aeminiense, a comercialização, sobretudo de aves e de grãos, transferiu-se, num primeiro momento, para a Praça de Sansão, atual 8 de maio. Posteriormente este “mercadinho” deslocou-se para a zona fronteira à esquadra da PSP e, e depois de 1867, instalou-se definitivamente mercado D. Pedro V.

À direita, a igreja de S. João, paroquial da freguesia de Santa Cruz (atual café), já se encontrava desativada, fora desamortizada e ali funcionava, ao tempo, um Armazem de Tecidos.

A fotografia é anterior a 1876, porque nesse ano se iniciou a construção do edifício da Câmara Municipal de Coimbra que aniquilou a parte esquerda do mosteiro, ainda intacta na imagem.

 

A terceira imagem que nos chamou a atenção é uma “Panorâmica de Coimbra” e encontra-se no catálogo Revelar Coimbra…, imagem 14. 

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 Vista geral, 1860 c.

 A foto, da autoria de Alfred Fillon, foi tirada c. de 1860. Numa rápida amostragem diremos que nela se pode ver, à direita, a ponte de pedra sobre o rio Mondego, o Largo da Portagem, a zona da Universidade com o Observatório Astronómico, riscado por Manuel Alves Macomboa, erguido na extremidade do Pátio e o complexo que pertencera outrora aos Jesuítas; mais para a esquerda fica a Torre de Anto, o Colégio da Sapiência e a Torre dos Sinos do mosteiro de Santa Cruz.

Visível ainda na imagem a Rua da Sofia com alguns dos seus muitos colégios e, mais em cima, uma estranha estrutura que deve ser constituída por muros da cerca de alguns colégios e suportes murados a formar socalcos que suportavam um frondoso olival outrora ali existente.

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:50

Quarta-feira, 16.08.17

Coimbra: O Senhor da Serra 2

António Augusto Gonçalves, que fora, como se referiu, o responsável pelas hospedarias e que trabalhava com o prelado na intervenção da Sé Velha, incumbiu-se de projetar a nova fábrica eclesial.

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Senhor da Serra. Hospedarias

 A construção do templo, que se processou em duas fases, iniciou-se em 1900 ... Quatro anos depois (Agosto de 1904), a nave e o campanário já se encontravam concluídos. O antigo templo setecentista permaneceu no meio da nave e só quando esta se finalizou é que o demoliram ... em 1907, Gonçalves desloca-se ao Senhor da Serra, a fim de, in loco, observar a obra que se andava a fazer; tratava-se da conclusão da capela-mor e dos anexos.

... Caracterizar estilisticamente a igreja que se ergueu nos primeiros anos de Novecentos no Senhor da Serra, torna-se tarefa difícil, direi mesmo quase impossível, porque ela não apresenta unidade. Mas, quem melhor a descreveu foi o seu autor quando disse que “não houve nunca o propósito de construir uma Capela que fosse escrava dum estilo. Teve-se apenas em vista uma construção agradável. Quem olhar para o esguio da torre supor-se-á em frente dum gótico flamejante; quem examinar os capitéis e cachorros julgar-se-á em frente duma construção românica. O forro do corpo da capela é dum certo sabor românico mas já o da capela-mor, apainelado como é, parece do século XVII”.

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 Capela do Divino Senhor da Serra

Construiu-se a capela, mas estava despida, nua e fria: sem mobiliário. Ornamentá-la e inserir-lhe retábulos tornava-se imperioso. Em Coimbra procedia-se, na altura, à demolição da igreja da Misericórdia velha ... Os dois retábulos laterais existentes no templo deixaram de ter serventia, ficaram desativados, acabando por ser comprados para o Senhor da Serra ... Um dos retábulos ficou povoado com o seu orago, o Cristo Redentor, mas para o outro, João Machado, “que tantas e tão repetidas vezes tem assinalado o prestígio da escola coimbrã com produções geniais e de verdadeiro triunfo para o seu conceituado nome” esculpiu uma imagem da Senhora da Piedade ... na abside faltava o retábulo-mor. Mais uma vez, António Augusto Gonçalves é o responsável pelo projeto e, em 1908, durante o tempo em que decorreu a romaria (Agosto), o esboço aguarelado esteve exposto, a fim de ser ratificado por todos quantos passavam pelo Senhor da Serra.

... Lateralmente, em dois nichos de maior envergadura, aparecem, cada um por banda, S. Pedro e S. Paulo que se encontram, respetivamente, ladeados por uns outros menores povoados por Santo Agostinho e São Jerónimo e por Santo Ambrósio e São Gregório Magno.

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Capela do Divino Senhor da Serra. Retábulo-mor

 ... No novo templo, a erguer-se lá no píncaro da serra, havia que tentar imitar os tempos de outrora; por isso, nas oficinas da Escola Brotero, o químico Charles Lepierre, então professor naquele estabelecimento de ensino, tentava produzir, com os seus alunos, as vidraças brilhantes capazes de tornar intimista a igreja e de lhe conferir espiritualidade. Deparam-se com inúmeros problemas impeditivos de concretizar a empresa, mas, mesmo assim, ainda colocam nas ventanas os vitrais que representam os quatro evangelistas e no óculo o do “Divino Salvador”.

... As oficinas da Brotero, relativamente à igreja do Divino Senhor da Serra, funcionaram como verdadeiros laboratórios, pois também foi aí, nas de cerâmica, que António Augusto Gonçalves deu corpo ao lambril de azulejos que reveste a nave, historiados com a vida de Cristo. Parece-me poder deduzir, através da consulta do seu acervo e da da imprensa local, que eles foram assentes em duas etapas. A primeira, e mais vasta, decorreu até cerca de 1913 e a segunda, em 1919-1920.

E penso assim, porque na Gazeta de Coimbra se pode ler: “com destino à capela do Senhor da Serra acabam de sair das oficinas de cerâmica da Brotero dois belos paneaux representando os quadros “Ecce Homo” e “Flagelato pro nobis” cujo desenho se deve ao notável artista conimbricense António Augusto Gonçalves. É mais uma produção que honra sobremaneira as oficinas da Escola Brotero e também a arte coimbrã”.

Anacleto, R. 2011.  O Senhor da Serra: arte e património, In: Santuário do Divino Senhor da Serra de Semide. História, devoção e espiritualidade, Semide, Senhor da Serra, p. 9-47.

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por Rodrigues Costa às 09:00

Terça-feira, 15.08.17

Coimbra: O Senhor da Serra 1

A partir de uma data indeterminada, mas que se pode situar em torno da primeira metade do século XVII, em Ceira, terra que se situa nas proximidades de Coimbra, o casal Martim (ou Martinho) Avô e sua mulher Maria Guilhalme detinham a posse de um Cristo que passou a ser alvo de grande devoção.

Devido a conflitos e desaguisados acontecidos entre os muitos que acorriam a sua casa para venerar e implorar graças à imagem, ou por qualquer outra razão, os possuidores resolveram desfazer-se dela e esconderem-na num local ermo.

Na vizinhança da zona onde o casal vivia localizava-se o mosteiro de Semide, ocupado por monjas beneditinas e um certo dia, quando os seus criados andavam a apanhar lenha, encontraram a imagem e levaram-na para o cenóbio, a fim de ali ser cultuada. O local do achamento parece que ficava dentro da área de jurisdição do mosteiro e as religiosas fizeram aí erguer uma cruz que passou a ser conhecida pelo nome de “Cruz de Longe”.

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Divino Senhor da Serra registo

 A comunidade, para que a Cruz pudesse continuar a ser venerada pelos muitos que persistiam em acorrer ali, a fim de pedir a proteção do Senhor, acabou por mandar construir um pequeno coberto abobadado no cimo do monte que ficava sobranceiro ao complexo monástico. O alpendre, posteriormente, e no contexto de uma evolução habitual, deve ter visto fechados três dos seus lados e virado capela numa data que se situa entre 1553-1563; mas, ao longo dos tempos, foi recebendo acrescentos e modificações feitos a esmo. Também se lhe iam apondo casas destinadas a dar pousada aos, cada vez mais numerosos, romeiros que acorriam ao Santuário.

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A capela do Divino Senhor da Serra em 1882. Desenho a lápis de António Augusto Gonçalves (ABMC)

 ... A relação do Bispo-conde (Manuel Correia de Bastos Pina) com Mestre Gonçalves, a desenvolver-se no campo artístico e não no ideológico, levou-o a encarregá-lo de, em 1898, riscar um “albergue” destinado a dar guarida aos romeiros, a erguer-se junto da “velha” capelinha do Senhor da Serra e pago pelas esmolas oferecidas ao Santuário. A fim de tomar contacto com o local, para melhor dar corpo à obra, António Augusto Gonçalves deslocou-se ao Senhor da Serra na companhia de Monsenhor José Maria dos Santos. No ano seguinte, em Julho, antes da romaria, as hospedarias (afinal parece que se construiu mais do que uma) já se encontravam concluídas e uma delas tinha capacidade para acomodar 200 pessoas.

Mas, lá no cimo do monte, onde céus e terra quase se tocam, o prelado não se quedou por estes edifícios. Constatando que o pequeno templo não servia para dar resposta a uma romaria tão concorrida como a que acontecia em Agosto de cada ano, pensou em fazer construir uma igreja condigna.

Com efeito, a romaria, tal como o periódico Resistencia, em 1902, a refere era viva e pitoresca: “Anda a cidade [de Coimbra] desde o dia 15, cheia dos ranchos dos romeiros, que vão ou voltam do Senhor da Serra, cuja romaria anual acaba hoje.

Chagada dos romeiros ao apeadeiro de Trémoa. 1901

Chegada dos romeiros ao apeadeiro de Trémoa. Cerca de 1906

 “A estrada da Beira anda animada daqueles grupos, que vão de merendas á cabeça, ou voltam com a imagem do Senhor, cuidadosamente metida na fita do chapéu.

“Quando chegam á Portela, se levam animais, atravessam o rio a vau, sem se importarem com os risos e os ditos, que lhes gritam de cima os que vão pela ponte, ao verem as mulheres levantarem cuidadosamente, e bem alto, as saias para lhas não molhar o rio.

Subindo para o Senhor da Serra. 1901.jpgSubindo para o Senhor da Serra. 1901

 “Depois lá vai tudo até às Vendas de Ceira, e daí, ladeira acima, até ao alto do monte, donde se avista o telhado alegre da hospedaria da capela, e começa a sentir-se a carícia do vento fresco.

“Param a ouvir um sermão, depois outro.

“Lino da Assunção descreve o efeito cómico dos sermões pregados ao mesmo tempo, em pleno ar e pleno sol.

“Ainda hoje a fama do púlpito é para quem mais berra.

“O quadro não deixaria de ser singularíssimo, e digno dum pincel cáustico.

“O céu límpido e azul, o sol claro e abrasador e a planura do cômoro apinhado de homens, suando dentro nos grossos jaquetões de briche, e de mulheres com saias de seriguilha pela cabeça deixando cair sobre as testas deprimidas as farripas dum cabelo empastado como linho antes de ser cardado. Aqui, no púlpito do adro o pregador confundindo a sua voz com o eco de outra que lhe vem lá de dentro de junto do altar. Mais além outro, na beira dum carro, encostado a uma pipa, e a quem o festeiro abriga com um enorme chapéu vermelho, que mais vermelhas torna as bochechas luzidias do pregador. Debaixo dum toldo de barraca e sobre uma mesa, vê se outro gesticulando, alagado em água que lhe encharca a sobrepeliz e estola, procurando dominar com a voz as metáforas do vizinho, que sobre uma cadeira á sombra dos pinheiros conta dezenas de milagres acontecidos em favor dos devotos que mandam pregar sermões. E, acabado um sermão, retira-se o grupo que o encomendou e aproxima-se outro que o prometeu. E todas estas vozes já roucas procurando dominar o ruído confuso dos descantes, das guitarras, das algazarras dos beberrões, das altercações das rivalidades estimuladas pelo álcool e até das injúrias e grosserias das rixas travadas pela posse duma mulher, ou pela liquidação de velhas contas que vieram abertas lá desde as aldeias. E o sol de Agosto dardejando inclemente sobre os largos chapéus e tornando escuros os rostos luzidios e afogueados e ainda mais negros os beiços enegrecidos pelo vinho e pelo pó; e como comentário às palavras dos padres quase áfonos, que clamam pela justiça e misericórdia divinas, as vozes vibrantes das tricanas de Coimbra, menos devotas e mais alegres, bailando e cantando ao som das violas o Manuel ceguinho ou o Oh ladrão! ladrão!

“Por fim entram na capela onde o Cristo agoniza numa cruz de pedra, deixando cair a cabeça para mostrar o cabelo negro que cresce, como diz a lenda, todos os anos.

“Pelas paredes, pregadas em ripas de madeira, vêem-se tranças de cabelo de todas as cores, votos que fazem os doentes, por saberem que é este o sacrifício que mais gosto dá ao Senhor da Serra”.

 Anacleto, R. 2011.  O Senhor da Serra: arte e património, In: Santuário do Divino Senhor da Serra de Semide. História, devoção e espiritualidade, Semide, Senhor da Serra, p. 9-47

 

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por Rodrigues Costa às 10:06

Sexta-feira, 23.06.17

Coimbra: S. António dos Olivais, de ermitério a freguesia 6

Ao lado norte da igreja, perpendicularmente a ela, e com a frontaria para o terreiro, foi construída no fim do século XIX, uma pequena capela, em substituição de uma anterior, isolada, e que marcava o local da antiga casa do capítulo conventual, sítio que a tradição dava como sendo o da cela de Santo António.

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Capela neogótica dos finais do século XIX

Imita o género gótico do século XIII e foi construída a expensas de um particular sob desenho de António Augusto Gonçalves. O retábulo, de madeira entalhada, pertencia à igreja de S. João de Almedina. A imagem do Espírito Santo, em madeira colorida e apresentado na forma tradicional da Trindade, pertencia à capela do mesmo titular, que ficava próxima. Pode ver-se um alizar de azulejos sevilhanos de aresta, datáveis do século XVI, que se encontravam a decorar o claustro do desaparecido convento.

O terreiro posterior à capela-mor, local onde existiram os edifícios conventuais, guarda a cisterna com o respetivo bocal quadrado, mas restaurado.

No lado oposto existem construções modernizadas, vendo-se ao meio, a servir de tribunal da Tutoria de Menores, a fachada de uma antiga capela do século XVI, com alpendre de seis colunas e formando, na frente, três vãos. A parede está ainda revestida de azulejos da segunda metade do século XVIII, de fabrico coimbrão, com as cenas da “Anunciação” e da “Visitação” a ladearem a porta; por baixo desenvolvem-se bancos com rodapé de azulejos sevilhanos, de aresta, datados do século XVI. Na parte que fica acima dos telhados do alpendre, existem azulejos ornamentais do século XVIII. O interior, do século XVII, conserva a abóbada em berço de ti­jolo, duas frestas e duas pequenas credencias embutidas nas paredes, revestidas de azulejos policromos e de tipo reticulados, de Lisboa, e datados do século XVII.

Encostada ao muro do mesmo terreiro, para o lado da estrada dos Tovins, fica a capela do Presépio, de elementos arquitetónicos do sé­culo XVII, abrigando um “presépio” popular, de algumas dezenas de figuras, e que devem datar já dos finais do século XVIII ou até mesmo dos primórdios do XIX. Dado o seu carácter popular, é digno de consideração.

Há espalhados alguns fragmentos antigos. Acima da rampa que vem da estrada dos Tovins, crava-se no chão um marco, que é par­te de um fuste manuelino, de três colunetos torcidos. Na base da esquina da capela da Deposição, vê-se uma pedra de coluna, do século XII, do período afonsino e que tem marcada um E.

O templo, esse “santuário dos altos”, mesmo com as alterações urbanísticas que foram alterando o seu envolvimento, continua a dominar uma cidade que, com frequência, se deslembra do santo que aqui viveu e que aqui se formou. Mas os poetas, mesmo utilizando o ar brejeiro que frequentemente envolve o seu culto, continuam a não o olvidar

Santo António me acenou

De cima do seu altar.

Olha o maroto do santo

Que também quer namorar!

(Afonso Lopes Vieira)

 Anacleto, R. 2005. Santo António dos Olivais: De Ermitério a Freguesia. Conferência na cerimónia comemorativa do aniversário da criação da freguesia.

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por Rodrigues Costa às 10:04

Quarta-feira, 26.04.17

Coimbra e as suas Personalidades: José Barata

De seu nome completo José dos Santos Sousa Barata, foi sócio fundador e um dos primeiros e dos mais ilustres alunos da Escola Livre das Artes do Desenho fundada em 1878 por António Augusto Gonçalves de quem foi um discípulo dileto.

Joaquim Martins Teixeira de Carvalho refere ainda que foi aluno da Escola Brotero e discípulo de João Machado.

Na Exposição de 1884, expõe um busto da Vénus de Milo, estudo feito em pedra de Outil, obra que foi premiada.

A primeira grande obra conhecida em que participou data de 1886 e foi a casa neomanuelina da Rua do Corpo de Deus.

A partir de 1897 colabora na obra do que é hoje o Palace Hotel do Buçaco, sendo referido em O Conimbricense, de 8 de Julho de 1899 como um dos artistas que mais se têm distinguido pela mestria e perfeição com que têem executado delicadissimos lavores em pedra.

Em 1898, em parceria com João Machado e sob a batuta de António Augusto Gonçalves, interveio no restauro do pórtico principal da Sé Velha.

Em 1904, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho refere-o como um dos artistas conimbricenses que trabalha nas obras do Palácio da Regaleira, em Sintra, afirmando, que lavra como nenhum outro artista portugues, em estilo manuelino

Em 1916 esculpiu a fonte do palacete Garcia (hoje Vila Marini).

José Barata. Palacete Garcia. Fonte  cor.TIF

Fonte do Palacete Garcia

 Em 1927 concluiu a magnifica pia batismal da igreja de Santo António dos Olivais.

José Barata. Ig. S. Anto. Olivais. Pia baptismal

 Pia batismal da igreja de Santo António dos Olivais

 No Despertar de 26 de Fevereiro de 1930 é referido numa nota necrológica: Decorador distinto do manuelino, tendo também executado diversas esculturas, deixou espalhada pelo país (Buçaco, Sintra, etc.) obras admiráveis de beleza e elegância. A pia batismal da paróquia de Santo António dos Olivais, a ornamentação de um prédio na Rua Alexandre Herculano e um jazigo em manuelino foram as suas últimas obras, revelando nelas o seu talento de artista, José Barata, pode também dizer-se, foi quem melhor interpretou o estilo manuelino.

Nota: Esta entrada só foi possível pela investigação e disponibilidade da Senhora Professora Doutora Regina Anacleto que, para a mesma, me cedeu as fotografias e as suas fichas referentes a José Barata.

O meu profundo agradecimento.

 

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por Rodrigues Costa às 22:02

Sexta-feira, 21.04.17

Coimbra e as suas personalidades: José da Fonseca

José da Fonseca, apesar das reais potencialidades artísticas reveladas ao longo da sua existência, tem sido votado a um certo esquecimento, talvez nem sempre casual.

O artista nasceu em Coimbra, a 20 de Fevereiro de 1884, e iniciou os seus estudos artísticos na então Escola Industrial Brotero ... Fonseca concluiu o seu curso na Escola Brotero com alta classificação, mas «apesar de já então estar na posse de apreciável técnica e apto a produzir e a criar na difícil atmosfera das artes (...) tomou novas lições com mestre António Augusto Gonçalves», o que equivale a dizer que frequentou a Escola Livre. Além disso, foi discípulo de João Machado e na sua oficina aperfeiçoou os ensinamentos adquiridos no estabelecimento de ensino estatal.

... O arquiteto-pintor italiano Luigi Manini ... foi incumbido, cerca de 1890, de projetar o conjunto dos edifícios onde se integraria o Palace Hotel do Buçaco ... Aos artistas canteiros de Coimbra, ligados à Escola Livre das Artes do Desenho, foi-lhes entregue o lavor da pedra e José da Fonseca, ainda muito jovem, integrava a companha

... Na charneira do século, o Dr. Carvalho Monteiro, vulgarmente apelidado de Monteiro dos Milhões por via da sua enorme fortuna, depois de ter comprado em Sintra (na estrada dos Pisões) aos herdeiros da baronesa da Regaleira, a quinta do mesmo nome, encomendou o projeto do palacete e de alguns outros edifícios a construir na, herdade ao cenógrafo italiano.

... Manini havia lidado de perto com o trabalho realizado, no Buçaco pelos artistas conimbricenses, e não teve rebuços em os aliciar para que fossem também eles a lavrar a pedra desta sua nova construção.

Alguns canteiros deslocaram-se a Sintra e por lá se quedaram, enquanto o trabalho não escasseou, para, posteriormente, regressarem à sua cidade ou se fixarem em Lisboa; outros lavraram a pedra em Coimbra e enviaram-na através do caminho-de-ferro, a fim de ser armada no local. José da Fonseca acabou por se radicar na vila, onde organizou a sua vida pessoal e montou oficina.

Mestre Fonseca acompanhou os trabalhos da Regaleira, pode bem dizer-se, desde o princípio até ao fim.

Regaleira fogão 04.jpg

José da Fonseca. Quinta da Regaleira fogão

 O lavrado da pedra, algumas estátuas e a magnífica chaminé da casa de jantar, saíram do seu cinzel. Esta última, desenhada por Manini, joga com os apelidos do proprietário: Carvalho e Monteiro. Coroa o conjunto, que quase esmaga pela sua sumptuosidade excessiva e pela falta de equilíbrio existente entre a peça e a parede onde se inscreve, a estátua de um caçador. Na parte superior do fogão de sala, surgem cavalos, cães, figuras humanas e vegetação, completamente isolados do fundo, demonstrando por parte do artista grande domínio da técnica de trabalhar a pedra.

... A partir de 1928, participa nas Exposições da Sociedade Nacional de Belas-Artes com bastante assiduidade; a imprensa e o público nota-o, a coletividade confere-lhe prémios, Em 1932, na 25.a Exposição, apresenta o trabalho intitulado Lóki; quatro anos mais tarde, na 33.a expõe o grupo Náufragos; e, no Salão Primavera da 42.a Exposição, levou às gentes da capital o Busto de Senhora e o grupo designado por Surpresa. Este conjunto de nus foi posteriormente, em 1947, apresentado também numa exposição coletiva que teve lugar no Palácio Valenças, em Sintra. A escultura era particularmente notável pela sua plasticidade, riqueza rítmica e possuía ainda a envolvê-la «um sopro de sensualidade» .

José da Fonseca pb.jpg

José da Fonseca trabalhou em Sintra durante mais de quatro décadas, até ao seu falecimento, ocorrido em 13 de Dezembro de 1956.

Anacleto, R. Dois fontanários do concelho de Sintra esculpidos pelo mestre-canteiro José da Fonseca, In Boletim Cultural, 90, 1.º e 2.º tomos. Lisboa, Assembleia Distrital de Lisboa, 1984/1988, p. 105-124.

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por Rodrigues Costa às 12:53

Terça-feira, 18.04.17

Coimbra e as suas personalidades: Daniel Rodrigues

Um outro artista do ferro, que não pode deixar de merecer uma referência específica é Daniel Rodrigues que nasceu a 26 de Março de 1886 no Largo das Ameias, em Coimbra, terra para onde os seus pais, oriundos de Penacova e de Figueira de Lorvão se haviam transferido.

... Iniciou a sua aprendizagem numa oficina de serralharia civil e a sua habilidade invulgar para o desenho e manejo do ferro terão despertado o interesse de António Augusto Gonçalves, que o levou a frequentar as aulas de Desenho Ornamental e de Modelação, ministradas na Escola Industrial Brotero ... Foi também aluno da Escola Livre.

Em 1933, conjuntamente com António Maria da Conceição e com Manuel de Jesus Cardoso, integra a direção daquela ‘universidade plebeia’, fazendo-se também sócio da Associação de Socorros Mútuos dos Artistas de Coimbra.

Morreu, com 84 anos, quase à beira de cumprir mais um, a 11 ou 12 de Fevereiro de 1971.

Para além das obras já mencionadas, começou a executar, em 1928, uma artística grade para o palacete Sotto-Mayor que foi construído na Figueira da Foz. A fundição deste trabalho esteve a cargo da casa Alves Coimbra, Sucessores, desta cidade, e a cinzelagem e acabamento foram feitos na oficina do mestre serralheiro. A peça, que foi muito apreciada e mereceu rasgados elogios.

... em 1934, por iniciativa do pároco daquela freguesia (Santo António dos Olivais) fez o desenho e executou duas artística grades de ferro, no estilo gótico, destinadas às capelas laterais da escadaria da igreja . Quatro anos depois, bateu uns artísticos portões para a capela de Nossa Senhora da Conceição e do Senhor dos Passos, da mesma igreja , bem como o lustre central do templo.

Daniel Rodrigues. Anjo da Paz Eterna cor.JPG

Daniel Rodrigues. Anjo da Paz Eterna

De entre as obras de Daniel Rodrigues, com temática religiosa, destaca-se o Anjo da Paz Eterna, feito em 1941, feito para ser colocado no portão do cemitério da Conchada, a substituir o esqueleto que ali havia . Trata-se de uma estátua vultuosa que teve por modelo uma das suas filhas; dir-se-ia que o artista trabalhou o ferro com a mesma facilidade com que as mãos do oleiro modelam o barro. O anjo ergue as suas asas e, segurando a cruz, como que aponta o céu, num sinal de esperança e de evasão que é, afinal, o estigma de toda a arte. Neste trabalho deve salientar-se a perfeita nitidez das feições do rosto e a execução do cabelo, o subtil drapeado da túnica, apertada na cintura com um cordão, deixando aparecer, ligeiramente, os pés descalços, simbolizando a humildade que é, afinal, a deste artista e a fragilidade inerente ao ser humano.

Nas horas vagas, vai trabalhando na porta do jazigo da sua filha ... A peça revela a forte sensibilidade do artista, que retrata, através da imagem esculpida no ferro duro e frio, o real-irreal ou o tempo-não-tempo, que é a transição vida-morte, numa quase ausência de dimensões. Retratou, ao mínimo pormenor o quarto, com o seu mobiliário, a janela que já não dá para este mundo e a jovem, soerguida no seu leito, enfrentando o Anjo da morte. Em baixo, visualizam-se dois santos, a velar a caminhada eterna que Cristo e sua Mãe, insertos nos grandes medalhões que se situam a meio dos batentes, asseguram, entre lírios e rosas, uma ressurreição.

Ao longo da sua vida, Daniel Rodrigues ... executa “relevos erguidos no ferro forjado à força de buris e martelada”. É um trabalho verdadeiramente “toledano, grosso de aspecto, mas de um valor que atesta bem as possibilidades da forja e do martelo ao serviço da arte”.

... Os seus trabalhos encontram-se espalhados por todo o país, desde a Régua, a Odemira, passando por Braga, Porto, Aveiro, Figueira da Foz, Torres Novas, Beja, Lisboa, Covilhã, Belmonte, Figueiró dos Vinhos, Espinhal, Santa Comba, Mortágua ou Coimbra.

Anacleto, R. 1999. Ourives Conimbricenses do Ferro na primeira metade do século XX. Conferência nas I Jornadas da Escola do ferro de Coimbra. In publicado Munda, n.º 40, p. 25-29.

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por Rodrigues Costa às 08:46

Quinta-feira, 13.04.17

Coimbra e as suas personalidades: Lourenço Chaves de Almeida

Nasceu no lugar e freguesia de Santa Maria de Almacave (Lamego), em 1876. Pertencia a uma família de artistas, pois um seu um bisavô era canteiro; o avô materno, entalhador; o avô paterno e o pai, serralheiros. Em Outubro de 1897, a seu pedido e porque era sargento espingardeiro, foi transferido do Regimento de Infantaria 13, com sede em Lamego, para o 23, que ocupava, em Coimbra, o antigo convento de Sant’Ana.

Depois de se fixar nesta cidade, ele que era serralheiro artífice, conviveu com os artistas e fez-se amigo de João Machado, tendo começado a aprender modelação na sua oficina.

Entretanto, com a reabertura da Escola Livre, em 1904, passou a ser discípulo de Mestre Gonçalves e, posteriormente, frequentou a Escola Industrial.

Quando morreu, no dia 15 de Dezembro de 1952, tinha 76 anos e morava no Tovim de Baixo.

É com os ferros do fogão da casa dos Patudos, que Chaves inicia a sua carreira. O gótico, o manuelino, o renascimento, o rococó, não tinham segredos para o forjador. O artista apresentou, como referi, as ferragens (suporte, tenaz e pá), correspondentes ao fogão executado por João Machado ... Tratava-se de uma obra para ser admirada “pela elegancia nervosa com que foi concebida e executada, torcendo e levantando o ferro com o cuidado delicado de um ourives”. Os ferros do fogão “poder-se-iam fazer com o mesmo desenho em prata martelada, sem necessitar mais elegância no desenho, mais delicadeza na execução” .

Anos mais tarde, em 1919 ... um candelabro, executado de acordo com o gosto pompeiano ... No ano seguinte ... uma segunda obra de vulto: agora tratava-se de uma braseira, que seguiu o mesmo gosto estilístico da peça anterior . Mas, desta vez, o artista auferiu uma dupla consagração, porque o trabalho foi mostrado aos conimbricenses na sala romana do Museu Machado de Castro e, depois, em Lisboa, seria exposto pelos possuidores das suas peças, “que assim lhe queriam dar uma prova de admiração”.

Em 1924, a mesma sala romana do Museu Machado de Castro abre-se novamente para apresentar o chamado Lectus, obra em ferro forjado ... Esta peça é uma verdadeira joia de ferro, “que tanto honra o nome [do artista] e que nos enche de orgulho por ser executada em Coimbra, terra de arte, graça e beleza!” . Juntamente com o canapé expôs um lampadário.

Depois da guerra de 14-18, começou a desenvolver-se, um pouco por todo o país, o culto aos Mortos da Grande Guerra. As entidades responsáveis determinaram que, numa grande manifestação nacional, fossem trasladados para o Mosteiro da Batalha, os restos de um desses heróis.

Em Coimbra, e mais concretamente no Quartel-general, despontou um movimento no sentido de ser colocado um lampadário condigno na casa do capítulo, junto do sarcófago que deve guardar os despojos do soldado desconhecido. Para concretizar esta ideia, foi aberta uma subscrição, que, num primeiro momento se pensava estender a todas as unidades militares do país, mas posteriormente limitada à contribuição dos oficiais, sargentos e praças da 5.ª divisão do Exército, com sede em Coimbra.

Lampadário Chaves de Almeida 03 a.png

Lourenço de Almeida. Chama da Pátria (desenho de António Augusto Gonçalves)

 Desde logo ficou assente que o lampadário, mais tarde denominado Chama da Pátria, fosse executado por Lourenço Chaves de Almeida, que até era militar.

O lampadário, que foi batido dentro do estilo gótico e mede 1,80 m de altura, foi exposto ao público no átrio da Câmara Municipal de Coimbra ... em Lisboa  e depois, em Viana do Castelo, na altura em que ia ser imposta a Cruz de Guerra à bandeira que, em França, fora oferecida à brigada do Minho .

O lampadário seria colocado no Mosteiro de Santa Maria da Victória no dia 28 de Junho, data da assinatura do tratado de paz.

Seja-me ainda permitido referir, em 1930, a encomenda de um candelabro de 30 luzes, feita pelo presidente da Comissão Administrativa do município de Coimbra, a fim de ser colocado no salão nobre.

Anacleto, R. 1999. Ourives Conimbricenses do Ferro na primeira metade do século XX. Conferência nas I Jornadas da Escola do ferro de Coimbra. In publicado Munda, n.º 40, p. 21-25

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por Rodrigues Costa às 09:14


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