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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 27.12.18

Coimbra: Senhora da Alegria de Almalaguês

Quase ignorado santuário de montanha, dedicado à Virgem Maria, é este.

Capela da Senhora da Alegria exterior.JPG

Capela da Senhora da Alegria exterior

Poucos autores se lhe referem, com exceção do Pe. Luiz Cardoso no seu Dicionário Geográfico de 1747. E, no entanto, a sua antiguidade é incontestável. Situa-se no cimo de um cômoro, donde se vislumbra e sente uma infinidade de aldeias em redor, circundado pela ribeira afluente do Dueça e agora pela autoestrada 13. O acesso é ao presente facilitado por esta via e por caminhos alcatroados, outrora veredas rurais percorridas a pé por romeiros devotos.
O monte tem o sugestivo nome de Crasto ou Castro, a remeter-nos para eras de um passado remoto, com habitações pré-históricas ou fortificação de defesa na época da reconquista cristã, como aconteceu nesta região de Bera, designadamente na vizinha Torre de Bera. Fica-lhe de fronte a aldeia de Almalaguês, a cerca de um quilómetro. Por aqui ainda se pode ouvir o bater de um ou outro tear, mas esta atividade que outrora foi importante e fez de Almalaguês o maior centro de tecelagem artesanal da Europa encontra-se hoje decadente. Houvesse em Coimbra uma edilidade consciente dos valores culturais do seu território e teria protegido convenientemente a tecelagem de Almalaguês e o que resta da torre de Bera.

Capela da Senhora da Alegria interior.JPG

Capela da Senhora da Alegria interior

À falta de fontes escritas é a própria capela que ditará a sua história. O edifício é modesto, com uma só nave, de apreciável tamanho para uma ermida, capela-mor e sacristia adossada a norte. Sensivelmente a meio da nave encontra-se um púlpito de forma cilíndrica sobre coluna dórica, lavrado em pedra calcária, com caneluras e dois frisos de cabecitas aladas de anjos. Tem aposta uma inscrição onde se lê que a capela foi mandada construir em 1634 pelo pároco Teodósio Abreu. Na fachada abre-se um portal do século XVIII, atestando outra intervenção. Esta tem certa nobreza na sua austeridade: porta encimada por frontão triangular e decorada com brincos laterais, na tradição da época de D. João V, cunhais vincados de cantarias e discreto campanariozinho.
No topo da nave erguem-se dois altares colaterais em popular e tardio neoclassicismo. O arco cruzeiro, de cantarias, abre-se para a capela-mor onde avulta o retábulo com a imagem da titular. Tem duas colunas espiraladas por banda, recobertas por folhagens, cachos de uva e aves debicando os bagos. O remate é uma composição de elementos diversos coroados por um medalhão com as iniciais AM. Pena é que tudo isto se encontre repintado de branco e purpurinas, apenas restando alguma policromia antiga em certas cabeças de anjo.
Cobria o teto da capela-mor um revestimento de madeira com vinte caixotões, do qual apenas existe atualmente uma pequena parte envolvendo o retábulo. Os caixotões, da reforma do século XVIII, ostentavam pinturas e dísticos de alegorias à piedade, mansidão, prudência, justiça, fortaleza, temperança, caridade, humildade e pureza. Os que restam, colocados em volta do retábulo ilustram algumas litanias da Virgem Maria.

Capela da Senhora da Alegria capela-mor.JPG

Capela da Senhora da Alegria capela-mor

Reveste as paredes da capela-mor um encantador alizar de azulejos recortados da segunda metade do século XVIII, da oficina coimbrã de Salvador de Sousa e Carvalho. As cenas representadas são: a Adoração dos Magos, Adoração dos Pastores, e Nossa Senhora da Conceição; Nascimento da Virgem, Anunciação e Visitação.
A Senhora da Alegria, bem como uma santa mutilada, do século XV, num retábulo colateral, atestam a antiguidade deste lugar sagrado. A imagem da Senhora, de madeira, é de uma época difícil de definir, talvez século XIV ou mesmo XIII. Só um exame científico poderá ajudar. Ampara o Menino no antebraço esquerdo e com a mão direita faz um gesto de bênção. Apresenta uma ligeira curvatura à direita, que pode ter sido um aproveitamento do tronco em que foi esculpida.
Outro motivo de interesse deste santuário são os ex-votos, dos séculos XVIII e XIX.
Já aqui não mora o ermitão de que nos fala Luiz Cardoso, mas a Senhora da Alegria continua a receber devotos, nos dias da sua festa, que é segunda feira da Pascoela, e sempre, como pudemos testemunhar. Permanece o mesmo encanto espiritual que tanto atraiu as gentes dos séculos passados.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra,  n.º 4718, de 2018.12.06

 

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por Rodrigues Costa às 12:25

Sexta-feira, 18.03.16

Coimbra e as suas personalidades: Inês da Fonseca, tecedeira

Vitália Cunha de Assunção e Mabília Sequeira são as tecedeiras que, nessa ocasião (25.10 a 05.11.1978, a 5 de Novembro, mostra da Tecelagem da Região da Almalaguês, realizada no Edifício Chiado) ... acompanham Inês Carvalho Ferreira da Fonseca a Coimbra e com ela animam essa mostra, tecendo perante um público surpreendido e entusiasta. Para nenhuma terá sido fácil chegar até ali. Para Inês Fonseca foi com certeza muito difícil.

Nasce (Inês da Fonseca) em 1937 em Almalaguês, sede da maior freguesia do concelho de Coimbra. A mais velha de seis irmãos, Inês aprende a tecer como todas as da sua idade aprenderam, com a sua Mãe, logo muito novinha "assim que comecei a chegar com os pés aos pedais" e desde criança foi envolvida em todo o conjunto de operações que está associado ao trabalho do tear.
...Ir e vir a Coimbra, mesmo que a pé, uma vez por mês, ou ainda mais espaçadamente, era, pois, considerado razoável e normal, e daí que as tecedeiras fizessem essa viagem, com regularidade. De manhã traziam nas suas cestas, açafates ou canastras as mantas, passadeiras, tapetes ou toalhas que as suas freguesas lhes tinham encomendado; à tarde regressavam carregadas com os novelos de trapo que outras lhes tinham dado para serem aproveitados na manufatura de novas encomendas
... E a tecedeira aparecia, pontualmente, com as encomendas, entregando umas, recebendo outras, descarregando as obras feitas, carregando novelos de "trapo". Quando chegava o tempo de um casamento encomendava-se então outro tipo de trabalhos, de "linha fina", a "ponto miúdo" ou "ponto graúdo" de linho ou, mais vulgarmente, de algodão. As Colchas de Almalaguês sempre tiveram fama devido à finura dos desenhos que as suas tecedeiras "bordam" ao tear.
... Assim que se tornou conhecida, "foi quando comecei com o Turismo", aproveitando as oportunidades dinamizadas pelos Serviços de Turismo da Câmara ganhou a sua autonomia e "as freguesas aprenderam depressa onde é que eu vivia" ... anteriormente, ainda antes de 1974, tinha havido lugar para inovações consideráveis de que se salienta as cópias, ou melhor, a utilização, ao tear, de adaptações dos motivos característicos dos Tapetes de Arraiolos! Vestígios dessa experiência ainda hoje se encontram na panóplia de desenhos que as tecedeiras de Almalaguês utilizam. Felizmente que muitos dos desenhos antigos continuam a ter a preferência de uma clientela mais exigente. As bonitas cercaduras "dos cravos e das rosas" a que também chamam "dos arcos, está a vê-los aqui?", "do louro" com as "folhas e as flores", "dos fetos" juntamente com "o silvado de roseira", a "espiga de trigo" com a "rosa no meio" bem como as cercaduras das "parras" com o "cacho de uva, mas esta é diferente, é a parra americana" são alguns desses desenhos mais tradicionais, utilizados desde sempre nas colchas ou nos reposteiros, cuja produção só se iniciou nos finais dos anos 70. Outras cercaduras, mais estreitas, menos exuberantes, que geralmente limitam o desenho do campo são a "grega das bichas" ou a das "cravetas". Alguns motivos podem ser usados isoladamente ou, por repetição, dão origem a barras e, os mais característicos serão o "vaso de castelo" e a "fechadura". "Estrelas", "girassóis" e o "cipreste, com quatro partes que saem de uma casela" fazem parte do vocabulário tradicional que a tecedeira manipula de acordo com o combinado no ato da encomenda, onde ela mesma também refere quais os desenhos que se podem utilizar "a ponto graúdo" ou "a ponto miúdo".
Motivos de "ponto de cruz" passaram, há muito, para o vocabulário das tecedeiras, o mesmo acontecendo relativamente aos desenhos das populares rendas de "crochet". Inês faz tudo o que lhe encomendam ... os trabalhos de "linha fina" em que é exímia, a tornam uma das grandes tecedeiras de Almalaguês. "nós todas somos boas tecedeiras aqui em Almalaguês" diz convicta, "mas é mais os acabamentos"...E mostra com um prazer genuíno os "panos de amostra", onde teceu motivos variados, desde os antigos, com direito a nome próprio, aos das revistas.
A energia e a frontalidade que a caracterizam levam-na por caminhos nunca trilhados e é corajosamente pioneira quando se inscreve nas Finanças. "Iam-me tirando a pele" atira, ainda magoada com a incompreensão, frase que define uma mulher sem medo, que quer fazer as coisas de forma limpa e clara, que quer edificar o seu negócio numa base sólida para melhor o poder desenvolver. E ela arrisca-se, lança-se para o exterior, ganhando notoriedade a despeito das resistências e condicionalismos impostos por um marido renitente, em que o álcool sublinhava uma funda depressão e um meio, apesar de tudo, muito fechado. Ultrapassando-se a si própria e às suas limitações, Inês ultrapassou todas as dificuldades que lhe eram exteriores.
Na força com que batia a "queicha", no ritmo que dava aos "pedais", na velocidade que imprimia à "lançadeira", Inês descarregou muita da raiva e da revolta de uma vida que nunca foi fácil. Por vezes punha-se a tecer logo às seis da manhã. "Credo - dizia-lhe um vizinho - quando te pões ao tear até a minha cama estremece!". Só ao tear se sente bem, por isso, o reumatismo, que lhe consome as articulações e a inibe de tecer como gostaria, lhe dói a dobrar. Ao tear ganhou a sua vida com um esforço, uma determinação e uma coragem que ninguém lhe nega, merecendo todo o reconhecimento de quem só a si mesma deve o sucesso do seu percurso de tecedeira justamente renomada.
Por detrás desta grande tecedeira está, de facto, uma grande Mulher.
A Inês.
(Entrevista realizada, em Almalaguês, a 30 de Abril de 2002)

Inês Fonseca faleceu em finais de 2011. Em 2013, a título póstumo, a Junta de Freguesia de Almalaguês atribui-lhe o Certificado de Mérito Industrial.

Pires, A. Tocar a vida, aos pedais do tear. (História de uma tecedeira). In Mestres Artífices do Século. 2002. Lisboa, Instituto de Emprego e Formação Profissional.

 

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por Rodrigues Costa às 09:21

Quinta-feira, 17.03.16

Coimbra: Almalaguês, terra de tecedeiras, "das melhores"

Almalaguês é sede da freguesia... Confinando com os municípios de Lousã e Miranda do Corvo, a freguesia participava, até há cerca de trinta anos, dos modos de vida e da economia tradicional... Deste facto resulta, em parte, a prevalência que a tecelagem manual ainda assume naquela área. É que "antigamente todas teciam". Teciam em casa para si e para as necessidades das famílias, teciam para as "senhoras de Coimbra", teciam e vendiam em feiras próximas mas, a maior parte tecia para os negociantes que abasteciam mercados regionais em carpetes, passadeiras, tapetes e mantas.
Alguns destes negociantes... montaram as suas próprias unidades fabris com teares mecânicos, quer na Lousã, quer em Miranda do Corvo. Almalaguês, alcandorada no cimo do monte, com problemas graves, à época, de acessibilidade, com pouca água, não teve condições para a emergência de processos semelhantes ou paralelos a este. Isoladas, as suas tecedeiras não só não induziram o aparecimento da indústria têxtil, como não tinham alternativa aos rendimentos propiciados pela tecelagem.
Até 1974 a freguesia viveu, por deficiência de transportes diários, um relativo isolamento, o que ajudou a preservar, com uma rara expressão, uma atividade como a tecelagem manual... Ancoradas numa forte tradição de manufatura e venda de carpetes, passadeiras e "atoalhados", com sólidas e variadas ligações ao mercado, as tecedeiras de Almalaguês mantiveram-se a trabalhar nos seus teares, até aos nossos dias.
Nem todas... Mas, independentemente da sua atual situação relativamente à tecelagem, em todas se deteta uma grande afetividade na sua relação com o tear, onde radica um forte sentimento identitário. Almalaguês, terra de tecedeiras, "das melhores".
Num abandono que, contudo, tende a generalizar-se, "há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não" e algumas, de meia idade, mantém-se mesmo ao tear. Em 1980 ... 330 tecedeiras ... Em 1994/95 ... 135 tecedeiras na freguesia e 80 no lugar. ... em quinze anos (dos quais dez correspondem ao início da integração europeia) a freguesia perde 59,1% das tecedeiras recenseadas em Novembro de 1980.

... Nos finais dos anos setenta a Câmara Municipal de Coimbra foi pioneira no entendimento das artes tradicionais como um património de cariz popular, não autorado, que se tornava importante conhecer nos seus limites e potencialidades. O trabalho, em tão boa hora começado por Fernando Rodrigues Costa, não teve, no entanto, continuadores à altura e quando este abandonou o seu lugar de responsável pelos Serviços Municipais de Turismo muito se perdeu, daquele primeiro entusiasmo e da reflexão então encetada num memorável "Colóquio sobre Artesanato" realizado em Novembro de 1979, no Instituto Antropológico.
Mas, em 1978, quando se faz de 25 de Outubro a 5 de Novembro, no Edifício Chiado ... uma mostra da Tecelagem da Região da Almalaguês toda a reflexão sobre artes e ofícios tradicionais está ainda, por toda a parte, no seu início. Fortemente marcado por abordagens de carácter etnográfico o discurso que então se fazia sobre Almalaguês ignora a descrição dos motivos ou padrões que caracterizam e individualizam aquela produção, omite o nome das tecedeiras que lhe dão sentido, enquanto valoriza a descrição e nomenclatura de cada uma das peças do tear.
... Está por fazer o levantamento dos motivos de Almalaguês, mas é fácil entender que, a situação atual se caracteriza por uma grande variedade de possibilidades colhidas em fontes muito diversas. Como o "bordado" corresponde ao levantamento (borboto) do fio segundo uma quadrícula implícita à trama do tecido, em que aos fios "verticais" da teia, se contrapõem os fios "horizontais" propiciados pela lançadeira, torna-se fácil transpor para o trabalho do tear qualquer desenho assente numa quadrícula e vice-versa.

Pires, A. Tocar a vida, aos pedais do tear. (História de uma tecedeira). In Mestres Artífices do Século. 2002. Lisboa, Instituto de Emprego e Formação Profissional

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por Rodrigues Costa às 10:08


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