Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 17.09.15

Coimbra, cortes de 1261

Estabelecendo por algum tempo a corte em Guimarães, o novo monarca visitou sucessivamente vários daqueles distritos, recolhendo-se a Coimbra, ainda então considerada como capital da monarquia, nos fins de Julho de 1248. Tanto aqui, como durante a sua residência no Norte, Afonso III parece ter seguido uma politica judiciosa.

Efetivamente Afonso III jurara então conservar intacta a moeda … O prazo expirava, porém, em 1261, e o rei, desobrigado das suas promessas, tratou de recorrer de novo a esse deplorável meio de locupletar-se. Apenas, todavia, começara a aumentar o valor nominal da moeda antiga e a cunhar outra nova viciada, um brado de reprovação se alevantou de toda a parte … Cedendo aos clamores universais, Afonso III convocou as cortes de Coimbra, onde os bispos, os vassalos da coroa, os mestres das ordens, os abades dos principais mosteiros e os procuradores dos concelhos vieram a reunir-se nos fins de Março ou princípios de Abril desse mesmo ano.
A assembleia foi agitada. Discutiu-se largamente o direito da coroa e ponderaram-se os males que resultavam ao reino daquelas mudanças…. Para chegar a um acordo fizeram-se, enfim, concessões mútuas. Decretou-se que as moedas antigas fossem restituídas ao estado primitivo; que nunca mais nelas se fizesse alteração de valor nominal ou real, e que as novas que o rei começara a cunhar, e que evidentemente eram de inferior toque, valessem em relação às antigas na razão de setenta e cinco por cento, isto é que dezasseis destas equivalessem a doze daquelas.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. V. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 9, 52

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 23:02

Terça-feira, 15.09.15

Coimbra, a lenda de Martim de Freitas

Diz-se que, nos últimos tempos, de todas as povoações importantes do reino apenas restava ao rei a capital. Uma tradição, cujos fundamentos são, aliás, incertíssimos, vai acorde com este sucesso, que também carece de certeza absoluta. Refere-se que, partindo Sancho II para Castela, deixara por alcaide de Coimbra um certo Martim de Freitas. Pôs o conde de Bolonha estreito assédio ao castelo. Nem as promessas, nem os combates puderam reduzir os cercados, que no meio das maiores privações resistiram por largo tempo, até que chegou a nova da morte de Sancho em Toledo. Então o leal alcaide, pedindo seguro a Afonso de Bolonha, passou pelo campo dos sitiadores e, dirigindo-se à antiga capital de Espanha, fez abrir o túmulo do rei para com os seus próprios olhos saber se, na verdade, morrera. Certificado do triste sucesso, meteu no braço do cadáver real as chaves do castelo, cuja guarda lhe fora confiada. Depois, tirando-lhas de novo, voltou a Portugal e entregou-as a Afonso, abrindo as portas aos seus soldados; e como o príncipe, admirado de tanta fidelidade, quisesse conservar-lhe a alcaidaria, ele, longe de aceitar, amaldiçoou qualquer dos seus descendentes que recebesse castelo de rei algum e por ele fizesse menagem. A história do cerco de Coimbra, sem ser impossível, não é, porventura, mais que uma destas lendas em que o povo costuma resumir os factos que caracterizam uma época notável e atribuir a um indivíduo só, poetizando-as, as ações que diversos praticaram. Martim de Freitas é o símbolo dos homens que, na queda de Sancho, souberam respeitar o pundonor de cavaleiro e a religião do juramento. Que importa se o cerco de Coimbra foi como a tradição o refere ou se o povo o moldou pelas formas da sua rude mas generosa poeira? Que importa, sequer, que Martim de Freitas existisse, quando os monumentos nos asseguram que Afonso encontrou naquela obra de usurpação a repugnância de muitos ânimos firmes na sua lealdade?

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. IV. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 113 e 114

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:27

Sexta-feira, 11.09.15

Coimbra, rapto da rainha D. Mécia

O argumento, porém, mais decisivo de que todos os meios serviam aos inimigos de Sancho (II) para o oprimir e assegurar a seu irmão a posse do supremo poder, não transitória, mas irrevogável, seria o que se refere acerca do rapto de D. Mécia dos paços de Coimbra, acontecimento que, a ser verdadeiro, devia ocorrer durante a guerra civil de 1246 … Diz-se que Raimundo Viegas de Portocarreiro, um dos irmãos do arcebispo de Braga, acompanhado, provavelmente de outros, entrara disfarçado em Coimbra de envolta com alguns esquadrões de homens de armas do valido Martim Gil de Soverosa. A plena confiança que o rei tinha na gente de guerra deste nobre e valente fidalgo facilitava aos conjurados o acesso do paço, e eles puderam uma noite arrancar dali a rainha e, fugindo, conduzi-la à forte vila de Ourém. Debalde marchou o rei a libertar sua mulher: as tropas do conde de Bolonha, já assenhoreadas do castelo, responderam com tiros e arremessos às intimações do príncipe que, sem forças para os combater, teve de retirar-se. Foi a rainha verdadeiramente roubada? A liberdade com que nos fins deste ano, quando já a Estremadura e boa parte de Portugal obedeciam ao conde de Bolonha, ela dispunha pacificamente em Ourém de várias propriedades, rodeada de parentes e compatrícios seus, um dos quais exercia aí o mais alto cargo militar, a omissão da menor referência a Sancho no diploma que nos instrui do facto, a dificuldade, enfim, de arrancar uma mulher do leito conjugal legitimam as suspeitas de que, a ser exata a tradição, a sua partida de Coimbra fosse mais fuga que rapto. Não devia Afonso (III) poupar os meios de todo o género para assegurar para si a herança do trono, no que, como vimos, logo pensara, e as restrições impostas pela bula de deposição tornavam indispensável, para obter esse fim, impedir que Sancho tivesse um sucessor. Embora o seu primeiro passo na conjuração a que se associara houvesse consistido em promover contra o rei um processo de divórcio, a conclusão da causa seria em todo o caso demorada, e se, antes disso, Sancho tivesse um filho este poderia de futuro invocar contra o conde ou contra a sua dinastia direitos que mais de um exemplo nos diversos reinos de Espanha lhe asseguravam.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. IV. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 107 e 108

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:53


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Abril 2019

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930