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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 08.10.19

Coimbra: Estação Elevatória do Parque Dr. Manuel Braga

Os dois volumes História do Abastecimento de Água a Coimbra, 1889-1926 e 1927-2007, da autoria do Professor Doutor José Amado Mendes, dão-nos conta, detalhadamente, do caminho percorrido em Coimbra, a fim de concretizar este melhoramento. Contamos de, em próxima ocasião, voltar a determo-nos neste trabalho.
A abertura, no passado dia 1 de outubro, da exposição Coimbra e a Água, dos primórdios até meados do séc. XIX, acontecida nas instalações onde funcionou a Estação Elevatória do Parque Dr. Manuel Braga, hoje Museu da Água, chamou-nos a atenção para a inexistência ou para o desconhecimento de documentação fotográfica que se relacionasse com aquela antiga estrutura.
Alguns dos que nos estão a ler ainda se lembram de espreitar para o interior da Estação Elevatória, onde grandes bombas negras, fazendo um barulho ensurdecedor e exalando um cheiro esquisito, bombeavam a água que abastecia a cidade. Pensa-se que, ao ser desativada, o equipamento seguiu o caminho da sucata, com exceção de uma pequena peça que ali se encontra exposta.
Graças a Carlos Ferrão conseguiu-se a imagem que seguidamente se reproduz.

Rio com central elevatória primitiva.jpg

Estamos perante uma vista aérea do Mondego, com a ínsua dos Bentos bem percetível, dado que o Parque Dr. Manuel Braga ainda não havia sido arquitetado, e, no canto inferior direito surge um pequeno edifício passível de corresponder à Estação Elevatória primitiva que, como refere Amado Mendes, foi «edificada em 1922».
Como já atrás mencionámos, não conhecemos qualquer outra referência gráfica relacionada com a Estação Elevatória e, por isso, o que nos moveu a escrever esta “entrada” passa por pedir aos leitores que, no caso de estarem na posse de imagens da Estação Elevatória em funcionamento ou de pistas relacionadas com publicações onde as mesmas se possam encontrar, façam o favor de as divulgar.

Museu da Água.jpg

Temos para nós que seria importante estar patente no atual Museu da Água, através de imagens, a história do passado, mas para que tal possa acontecer pedimos a ajuda de todos.
Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 10:23

Quinta-feira, 27.09.18

Coimbra: Abastecimento de água 2

[Finalmente] a Câmara Municipal presidida por João José Dantas Souto Rodrigues, encetou uma nova e decisiva fase, não só para o abastecimento de água, mas para o futuro da cidade. Fruto também do amadurecimento do papel da administração municipal na construção da cidade e da experiência da construção do novo Bairro de Santa Cruz, o município resolveu assumir a responsabilidade da execução deste melhoramento e empreender com os seus próprios meios a construção da nova rede de captação e distribuição de água a partir do Mondego.

O município de Coimbra tornou-se assim pioneiro na administração municipal ao assumir o papel reservado às companhias privadas, consideradas na época o único meio de levar a cabo a construção e exploração dos novos serviços urbanos. Neste sentido, o novo presidente, Luís da Costa e Almeida, depois de conseguir a rescisão do anterior contrato, continuou a estratégia de Souto Rodrigues e solicitou a Adolfo Loureiro que revisse o seu plano e o orçamento para o abastecimento de águas a partir do rio. Em Setembro desse mesmo ano foi aberto o concurso e a adjudicação das obras de canalização, fornecimento e instalação de máquinas para o abastecimento de água, foi feita no dia 5 de Janeiro do ano seguinte a Eugène Béraud. 

Planta de reconstituição da rede.jpg

 Planta de reconstituição da rede de captação e distribuição d’águas a partir do rio mondego. Início da década de 1890

Avaint-Projet de distribution d’eaux (2).jpg

 Louis-Charles Mary, “Ville de Coimbra, Avaint-Projet de distribution d’eaux. Type de Station des Pompes”

p. 269 b.jpg

 Easton & Anders engineers. “Abastecimento de Aguas a Coimbra. Reservatório de Distribuição. 1866

As obras de captação e dos depósitos iniciaram-se em Março desse mesmo ano e no ano seguinte estavam concluídas.  Nove anos depois da cidade de Lisboa e três anos depois da cidade do Porto também Coimbra começou a abastecer a cidade a partir do rio e pelas novas técnicas mecânicas.  A água era captada no Mondego, elevada a partir de uma estação elevatória para dois reservatórios, um no Jardim Botânico para abastecer a cidade baixa e outro na Cumeada para a cidade alta e o novo bairro de Santa Cruz.

Reservatório deo Botânico.jpg

 Imagem atual da entrada do reservatório do Botânico

Reservatório de Cumeada 01.jpg

 Reservatório da Cumeada 1

Reservatório de Cumeada 02.jpg

Reservatório da Cumeada 2

 Depois da captação e da elevação foi adjudicada a construção das redes de canalizações para os domicílios, de acordo com o regulamento aprovado em Maio de 1889 e pouco a pouco a rede foi-se expandindo por toda a cidade.

No início do século XX o abastecimento chegou ao Calhabé, a Santo António dos Olivais e a Santa Clara, implicando a construção de um terceiro reservatório em Santo António dos Olivais.


Reservatório dos Olivais.jpg

 Reservatório dos Olivais

De notar que o projeto de Adolfo Loureiro, de 1887, tinha sido estudado para abastecer um total de 16 mil habitantes com um consumo diário de 100l/dia, calculado de acordo a previsão de crescimento de população para os 30 anos seguintes, no entanto o crescimento foi muito mais alto e em 1890 já tinha ultrapassado os 17 mil habitantes.

 Calmeiro, M.I.B.R. 2014. Urbanismo antes dos Planos: Coimbra 1834-1924. Vol. I. Tese de doutoramento em Arquitetura, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, pg. 264-271

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por Rodrigues Costa às 22:28

Terça-feira, 25.09.18

Coimbra: Abastecimento de água 1

A iniciativa de dotar a cidade de uma moderna rede de abastecimento de água a partir do Mondego surgiu em 1865, graças ao médico António Augusto da Costa Simões, antigo Presidente da Câmara. Dois anos antes, “O Instituto” tinha publicado a análise das águas das principais fontes da cidade e do rio, efetuadas pelo professor Francisco António Alves que concluía: «Para bebida devia preferir-se a agua do rio e da fonte do Cidral. Convinha construir poços a certa distância do rio, que por filtração dos terrenos recebessem a agua d’elle, tendo no fundo grossa camada d’areia para a tornar mais límpida, mormente durante as cheias do Mondego. D’estes poços poderia elevar-se a agua por meio de bombas e reservatórios, que tornassem mais commoda a sua distribuição pelos habitantes de grande parte da cidade».


António Augusto Costa Simões.jpg

António Augusto da Costa Simões (1819-1903)

Fonte: http://pt.ars-curandi.wikia.com/wiki/António_Augusto_da_Costa_Simões

No seguimento deste estudo, Costa Simões médico experiente e ciente da importância deste melhoramento urbano para a saúde pública, enquanto realizava uma viagem de estudo pela Europa apresentou à Câmara Municipal os “seus oferecimentos para tratar em Paris do projeto de abastecimento d’agua para esta cidade”. Para estudar este projeto, recorreu ao engenheiro Louis Charles Mary, e no início de 1866, já em Coimbra, apresentou à nova vereação o projeto de abastecimento de água à cidade aproveitando as águas do rio, mas na mesma data a vereação preferiu adicionar à rede existente, as águas da Quinta dos Sardões, em Celas, e talvez por esta razão ou por outros constrangimentos a questão da nova rede de abastecimento de águas foi sendo esquecida.

Só em 1870, sob a presidência de Anthero Augusto Marques de Almeida Araújo Pinto foi aberto o primeiro concurso para o projeto e construção de uma rede de abastecimento de água a partir do rio. Surgiram duas propostas, a primeira apresentada por Costa Simões em parceria com Cândido Xavier Cordeiro, a segunda de Louis Penny, de Londres. A escolha recaiu sobre a primeira mas dificuldades … levaram à rescisão do  contrato … Foi aberto novo concurso e voltou a ser assinado [outro] contrato … no dia 13 de Agosto de 1873, mas novamente não se conseguiu mobilizar investidores e este segundo contrato acabou por caducar.

… Costa Simões conseguiu estabelecer uma parceria com o empresário francês, Hermann Lachappelle … o contrato foi assinado a 28 de Fevereiro de 1879 … [mas Simões viu-se] obrigado a trespassar o contrato a 3 de Junho de 1881 para o engenheiro industrial inglês James Easton … [que, depois de analisar as cláusulas] confrontado com a sua pequena dimensão recusou-se a assinar o contrato definitivo “sem a conclusão da rede de esgotos”. Depois de uma série de tentativas e muitas divergências, em 1887 o contrato com o concessionário inglês foi rescindido.

Fonte do Largo da Feira ou dos Bicos 01.jpg

 Fonte do Largo da Feira

 

Fonte da Sé Velha.jpg

 Fonte da Sé Velha

Fonte de Sansão.jpg

 Fonte de Sansão

 Vinte e dois anos depois de iniciado o processo [o problema da] distribuição de água mantinha-se com graves prejuízos para a cidade que continuava a depender da água de fontes e nascentes.

Calmeiro, M.I.B.R. 2014. Urbanismo antes dos Planos: Coimbra 1834-1924. Vol. I. Tese de doutoramento em Arquitetura, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, pg. 264-271

 

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por Rodrigues Costa às 18:35

Terça-feira, 04.09.18

Coimbra: Reservatório do Botânico

Aquando dos primórdios do abastecimento domiciliário de água a Coimbra, cujo sistema primitivo foi instalado em 1888 e entrou em funcionamento em meados de 1889 … foram construídos dois reservatórios: um na Cumeada … outro (especial, segundo os termos do contrato), na Cerca de São Bento / Jardim Botânico, que desde há anos se encontra desativado.

…. Uma observação atenta do Reservatório do Botânico permite-nos observar, in loco, parte do que geralmente é referido nas publicações da especialidade e, bem assim, na própria legislação que enquadra este género de estrutura.

Comecemos pelo exterior.


Reservatório do Botânico fachada sul.jpg

 Reservatório do Botânico, fachada da casa das maquinas virado a sul

Aqui destaca-se uma pequena construção … a “casa das máquinas”, na qual estava instalado o equipamento de controlo do Reservatório. Embora de pequenas dimensões, uma vez que já não alberga equipamento e que acaba de beneficiar de obras de consolidação, manutenção e restauro, esta pequena “casa” pode ser utilizada para diversas funções culturais.

Reservatório do Botânico fachada norte.jpg

 Reservatório do Botânico, fachada da “casa das máquinas” virada a norte e parte superior do reservatório

 …. No amplo espaço envolvente, de terreno com alguma vegetação … observam-se pequenas estruturas, [que são] partes integrantes dos ventiladores/chaminés ou respiradouros. No total são 10, quatro um pouco maiores e seis mais pequenas.

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Reservatório do Botânico, pormenor de um ventilador

[Isto porque] “As coberturas dos reservatórios devem ser providas de uma ou mais chaminés de ventilação, a fim de que o nível d’agua fique sempre sob pressão atmosférica…”

Reservatório do Botânico interior 1.jpg

 Reservatório do Botânico, interior 1

Da casa das máquinas, por duas escadas íngremes … tem-se acesso às duas células ou câmaras, simétricas e que ocupam uma área considerável, cujas dimensões apenas são devidamente perspetivadas quando se acede ao seu interior. Aquelas encontram-se em estado razoável de conservação, não obstante no teto já se notarem certas fendas que podem denotar alguma fragilidade, em termos de futuro.

As paredes laterais assim como a parede divisória entre as duas células são em alvenaria rebocada. Em cada célula ou câmara encontram-se 6 pilares, também em alvenaria.

 

Reservatório do Botânico interior 2.jpg

 Reservatório do Botânico, interior 2

 …. Em suma: trata-se de um espaço amplo que, caso venha a ser devidamente restaurado e consolidado, bem poderá servir não só para visita turística, mas também para eventos culturais.

 Mendes, J.A. Sem data. Abastecimento de Água a Coimbra: Reservatório do Botânico. Coimbra, AC, Águas de Coimbra, EM.

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por Rodrigues Costa às 09:30


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