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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 31.07.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 13

 

O Luizinho das Pontas (Cliché Silva e Sousa).jpg

 O Luizinho das Pontas (Cliché de Silva e Sousa)

 O Luizinho das pontas! Outro tipo curioso...

Não precisava de pedir porque a família tem alguma coisa e não quer que ele peça, mas de tal forma se acostumou a andar pelas ruas, apanhando pontas de cigarro, que daí lhe veio o hábito de pedir uns dez réis a este e àquele com quem fala. De vez em quando aparece com papeletas para o público subscrever com qualquer quantia para a ajuda de um varino, de um colete ou de umas calças. Dele conheço eu várias partidas, mas a que vou contar, francamente é muito superior a todas elas. Assistia-se ao sarau que uma comissão de académicos realizou no teatro Circo nessa época em que apareceu a ideia da receção dos novatos com festas. Representava-se, nesse momento, uma peça qualquer, feita por um dos vogais da comissão, na qual se simulava um tribunal. Ora o público e as testemunhas que se nos apresentavam no palco eram a malta, a crápula das ruas, esses tipos sebentos e grotescos, ao vivo e o Luizinho que também lá estava, farto, como a plateia, de ouvir o pseudo-advogado a falar, a falar, a falar, levanta -se como um raio, perfila-se e exclama com uma cara das mais curiosas deste mundo, naquela sua voz meio fanhosa e entrecortada: Arre! Que chatice medonha! Eu não sei como o teatro não caiu com a gargalhada forte, retumbante. que se ouviu então! É que o Luizinho naquela sua frase, vinda a propósito, tinha conseguido concretizar a opinião de toda a plateia!... E o mais engraçado foi que o Beb’água quis atirar-se à pancada ao Luizinho! Que quadro! Que cena!

 


O Beb'Agua.jpgO Beb'Água

 O Beb’água, que por sinal bebe vinho e ás vezes o despeja pelas ruas é um distribuidor de prospetos, um magnífico exemplar ele transição, entre o homem e o macaco, sebento, mal alinhavado, todo ele a transpirar sabujice, que, por um defeito qualquer, fala somente por monossílabos. Aí vai uma frase para amostra quando vê um petiz a fumar: ai tu jà fú? Ló di tê pae!... Ainda assim de todos os tipos que conheço é precisamente o Luizinho das pontas o que dá menos sorte… 

Um archeiro... (Desenho Álvaro de Lemos).JPG

Um archeiro…que está dois furos acima do estudante e um abaixo de lente (Desenho de Álvaro de Lemos)

 E se entrarmos na Universidade, sagrado templo da sabedoria, onde em vez de nos formarmos apenas nos conseguimos deformar...lá vos mostrarei certo archeiro, boa pessoa, que dá sorte por lhe chamarem Estópido desde aquele dia em que se dignou dizer que o archeiro estava dois furos acima de estudante e um abaixo de lente! o que equivale a dizer, neste meio repleto ele prosápia científica, que estava milhões de léguas acima da terra e apenas um palmo abaixo do céu!... Outro archeiro conheço eu, boa pessoa também, (os archeiros são sempre boas pessoas...) que todo se abespinha quando lhe chamam S. Pedra aludindo ás barbas brancas que possui. Na verdade, ele parece-se muito mais com um Cerbéro do que com o meu grande amigo S. Pedro, chaveiro lá de cima, pois que este velho santo vive às portas do céu, que dizem ser o Paraíso, e o outro, o archeiro, pespega-se á porta das aulas, que são um verdadeiro inferno! 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28. 

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:38


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