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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 10.04.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 1

Iniciamos hoje uma série de 14 entradas - que iremos intercalar com outras sobre diferentes assunstos -  através das quais iremos recordar um artigo de Mário Monteiro, ilustrado na sua maioria com fotografias de José Gonçalves; foi publicado no início do século passado, na transição do século XIX para o XX, nesse magnifico fresco da realidade nacional que é a Illustração Portugueza.

Coimbra – uma cidade fechada sobre si mesma ainda que aberta ao contributo de estudantes vindos das mais variadas origens – sempre foi o palco de uma legião de variados tipos humanos. À boa maneira provinciana a tudo e a todos se dava um nome, ou uma alcunha.

Na minha adolescência o Mondego era o basófias, um troleicarro o pantufas, o vendedor de petróleo o petrolino, os carros da PSP os creme nívea, o “Diário de Coimbra” o calino, os habitantes de Alta os salatinas, o autocarro da AAC, sei lá porquê, a Laurinda. Estas entre tantas outras.

Quanto a alcunhas lembro-me de uma mulher da Alta que por ter sido dado como morta, passou uma noite na morgue e daí o ser conhecida pela Maria do Cu Fresco; o proprietário de uma casa de penhores onde o valor da peça não dependia só desta, mas da pancada que se dava e recebia do dono, dava pelo nome de Picalo; o dono de uma tasca situada no Largo da Matemática era o Zé Bruto; um determinado sapateiro dava pelo nome de Carne Assada; o Bentes, jogador da Briosa, era o rato Atómico; o franzino massagista da Académica era conhecido por Mão de Pilinha, em contraposição com o massagista do Benfica, de tamanho grande, conhecido por Mão de Pilão; o excelente fotógrafo da cidade e, sobretudo, da Académica, era o Formidável.

Listagem que por certo pode ser enriquecida com o contributo de todos os leitores.

 

O artigo que iremos transcrever tem o título Typos de Coimbra e está escrito na forma redonda e hiperbólica da época. Optou-se por atualizar a ortografia, a fim de facilitar a sua leitura e começa assim.

 Analisar a miséria das ruas, observar com olhos de ver todo esse constante e crapuloso bric-à-brac onde se atrofiam e se perdem caracteres, mas onde, as mais das vezes, se vão buscar modelos, belas cabeças de estudo vincadas profundamente, dolorosamente, pelos traços indicadores de uma vida agitada e miserável – é, em qualquer parte, um estudo arrojado, quase impossível, cheio de mil obstáculos, e sobretudo, fastidioso, mas, em Coimbra, chega a ser deveras original e interessante.

É que esta deliciosa terra, com a sua Universidade, lá no alto, a coroar-lhe os edifícios, a dar-lhe uns certos ares de sábia ... não sei por que estranho dom, podendo ser encarada sob muitos e variados aspetos, tantos quantos se queiram, – manancial eterno de prosadores e poetas – apresenta-nos uma vida das ruas característica, típica, absolutamente sua.

Tudo isto porque os garotos de Coimbra – e não há nada pior do que eles! – são exímios glorificadores dos grotescos que aparecem dia a dia e, sabendo procurar-lhes todos os pontos vulneráveis, são terríveis no ataque em que, por entre o desespero dos vencidos e o desenfrear das chufas e dichotes dos vencedores, não é raro aparecer uma alcunha que se pega, que se agarra por tal forma que nunca mais sai, criando, ipso facto, um novo tipo apontado e escarnecido em toda a parte.

Alcunha que se ponha em Coimbra é muito pior que cola-tudo, é como alma que caiu no inferno. E pega que nem santo António lhe vale!...

Ainda hoje certos comerciantes pela cidade, ventrudos e lustrosos, pintam para aí as mantas do diabo se lhes forem perguntar à porta dos seus estabelecimentos:

– Tem chá feito?

– Tem cordas para flauta?

–  A boneca já fala? 

Por isso convém aqui dizer que, ao enumerar alguns dos tipos mais curiosos de Coimbra, eu não pretendi ir procurá-los apenas á miséria das ruas, mas fui buscá-los também às suas casas de negócio, arrancá-los detrás do balcão para os trazer até aos umbrais da porta e mostrá-los à luz do dia, corno objetos raros e dignos de uma observação mais ou menos demorada e minuciosa.

E é assim que, sem mais delongas, dando o braço ao amigo Paixão, peço licença para o apresentar.

O Paixão. Imitado pelo dr. Bento Lima na récita

 O Paixão – Imitado pelo dr. Bento Lima, na récita do 5.º ano de 1898

 O Paixão – é um alfaiate que mora na rua de S. João, quase no centro da parte alta da cidade, essa espécie de quartier latin, que é o bairro académico por excelência. Pinta muito regularmente a pera, segundo se conta, e dá uma sorte levada da breca em se lhe dizendo:

Ó Paixão dá cá o diamante ...  aludindo não sei a que episódio dos seus tempos… de outro tempo.

Vicioso fumador de charuto, que traz sempre ao canto da boca, nessas horas de mau humor há quem veja mordê-lo raivosamente, cuspir repetidas vezes, como é seu costume, num grande ar cómico irresistível, e desandar depois numa catilinária pavorosa capaz de assustar todos os anjos e santos da corte do céu!...

Constou-me até, nem eu sei quando, que os estudantes de certa geração o puseram fora da porta-férrea depois de encerradas as aulas, porque ato a que ele fosse assistir era chumbo certo...

No entanto o amigo Paixão, com todos aqueles seus ares de caricato, não passa de uma bela criatura, de um pobre diabo incapaz de fazer mal a uma mosca.

Mas caiu na asneira de dar sorte e fez muito mal, lá isso fez! 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

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por Rodrigues Costa às 10:16


2 comentários

De Anónimo a 21.05.2021 às 19:53

Não conhecia este espaço.
Hoje, por pesquisar em "alcunhas" vim dar à minha saudosa Coimbra, dos anos 60 do séc. XX, onde concluí o Liceu e os primeiros 3 anos de Engª na U.C.

Com muito prazer li este texto e acrescento alguns ditos de então:

Ao caixote do lixo camarário posto às portas das habitações, denominava-se "jacó". Era um latão redondo com tampa.
Indaguei, nesse tempo, porquê "jacó", ao que me disseram que era o nome, ou um apelido, do Presidente da Câmara de Coimbra que o instituiu.

Ao conjunto das duas ruas Visconde da Luz seguida pela Ferreira Borges dava-se o nome do "Canal", onde se passeava para ver montras e sobretudo para catrapiscar o "miudame". Ao chegar ao Largo da Portagem, voltava-se para trás e dizia-se: "Pr'áli é marrocos!".
As Repúblicas também todas tinham um nome muito sugestivo que aqui recordo mas não sei se escrevo com rigor os nomes das que me lembro agora:
"Point'a pau!," "Kágados", "Ninho dos Matulões" (por oposição ao "Ninho dos pequeninos" (uma excelente obra da mão do Prof. Dr. Bissaia Barreto), "Práquistão"; "Raisteparta", "Boabaiela", "Palácio da Loucura", "Corsários da Ilhas", etc.

Recordo perfeitamente o "Píca-lo" a quem comprei (por 450$00) a minha capa e batina que ainda hoje guardo quando caloiro; fui levado pela mão dos "Drs" da casa onde me hospedava. Foi um fim de tarde invernoso que jamais esquecerei pelo pitoresco e inusitado das situações criadas. Às tantas, depois dos "Drs" tanto o terem espicaçado, ele levantou a perna direita e pôs o pé em cima do balcão "ameaçador". Estava calçado com um tamanco de sola de pau grossíssima que quando bateu em cima do balcão fez um estrondo que assustou o caloiro mas foi enorme gáudio para os "Drs"!
E a "Briosa" (não a Pastelaria, mas a Equipa de Futebol da AAC) que estava na boca de meio mundo toda a semana?
E a Queima e subsequentes "dores-de-barriga" nos Gerais?
E todo aquele que só por se ter inscrito na Secretaria já dizia, bazofiando:
"Eu já mijei à Porta Férrea!"

E a Cabra que se dizia ter por companheiro o "Cabrão"?

Ai que saudades que eu sinto!


De Anónimo a 21.05.2021 às 20:36

Caro Colega
Foi bom ler o seu texto e recordar as suas memórias. Muito interessante e era como descreve.
Na realidade Jacó era o nome dado aos recipientes de recolha de lixo, criado por imposição do então Presidente de apelido Jacob.
Obrigado pela sua partilha
Rodrigues Costa

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