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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 11.01.22

Coimbra: Sé Velha, inscrição em árabe

"A grandeza permanecerá"

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Sé Velha. Imagem acedida em: https://en.qantara.de/content/arabic-inscription-on-coimbra-cathedral-greatness-will-remain

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Sé Velha, fachada principal. Imagem acedida em: https://en.qantara.de/content/arabic-inscription-on-coimbra-cathedral-greatness-will-remain

É muito pouco provável encontrar esculpida na fachada de uma catedral datada do século XII uma mensagem escrita em árabe; contudo, esta improbabilidade verifica-se na cidade portuguesa de Coimbra. 

Marta Vidal levou a cabo um estudo aturado e profundo do monumento em causa e verificou que, ao longo de 800 anos, havia perdurado, num edifício católico e construído ao gosto românico, uma inscrição desse tipo.

As pedras da vetusta catedral brilham com os últimos raios de luz solar a anteceder uma quente noite de verão. As andorinhas giram em torno do austero edifício, enquanto os turistas fazem fila para visitar o monumento românico que se ergue na terceira maior cidade de Portugal.

A fachada norte do templo, com a sua decoração e no seu todo, atrai a atenção dos visitantes. Contudo, a uma distância considerável do solo, encontra-se insculpida nesse paramento, que integra um dos mais antigos e mais significativos edifícios românicos do país, algo único, embora discreto – uma inscrição árabe com menos de um metro de largura e que passa despercebida.

A maior parte das pessoas que circulam por ali não conseguem ler nem ver as letras árabes esculpidas na pedra e que se foram sumindo ao longo de oito séculos.

Alois Richard Nykl, um linguista e arabista que visitou a antiga catedral no verão de 1940, transcreveu a inscrição da seguinte forma "Eu escrevi (isto) como um registo permanente do meu sofrimento; a minha mão perecerá um dia, mas a grandeza permanecerá".

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Transcrição da inscrição. Imagem acedida em Imagem acedida em: https://en.qantara.de/content/arabic-inscription-on-coimbra-cathedral-greatness-will-remain

 A pedra com uma inscrição em árabe, foi transcrita por Alois Richard Nykl, no verão de 1940. (Fonte: Nykl. A.R. Arabic Inscriptions in Portugal. In: Ars Islamica, Vol. 11/12 (1946), pp. 167-183, publicada pela The Smithsonian Institution.

Outros autores, antes dele, propuseram diferentes leituras da inscrição que, acredita-se, possa ter sido gravada na época em que a catedral foi construída. Todavia, a leitura de Nykl é a mais citada de todas.

Financiada por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, a catedral foi apenas concluída no final do século XII, quando as forças portuguesas ainda lutavam contra os muçulmanos conhecidos pelo nome de mouros. Entre os séculos VIII e XIII, os mouros controlaram grandes faixas do território que atualmente é Portugal … O domínio muçulmano, em Coimbra, exerceu-se de forma intermitente até 1064, altura em que o território foi conquistado pelas tropas do rei cristão de Leão.

Posteriormente, a cidade foi incorporada no Condado de Portucalense.

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A inscrição árabe na parede da Antiga Catedral de Coimbra.

Imagem acedida em: https://en.qantara.de/content/arabic-inscription-on-coimbra-cathedral-greatness-will-remain

Embora a maioria dos académicos que estudaram a inscrição concordem que ela é, provavelmente, tão antiga quanto a igreja, a verdade é que se ignora o nome de quem a esculpiu.

De acordo com Rassi, a inscrição demonstra a existência de uma forte presença árabe e “sugere que existia na cidade um profundo conhecimento da língua árabe, não só utilizada na comunicação oral, mas também na escrita”.

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Sé Velha, claustro. Imagem acedida em: https://en.qantara.de/content/arabic-inscription-on-coimbra-cathedral-greatness-will-remain

"Em Coimbra viviam pessoas com as mais diversas proveniências, e o facto da inscrição árabe ter sobrevivido nas paredes da igreja ao longo tantos séculos demostra bem essa heterogeneidade", diz Joel Sabino, historiador que trabalha na catedral como conservador e guia.

A inscrição mostra a resiliência e um legado duradouro que, para algumas pessoas, significa ainda uma nostalgia relacionada com o Al-Andalus, período muitas vezes idealizado como sendo uma época de intercâmbio transcultural, onde a ciência, as artes e a arquitetura prosperaram.

Ao contrário do que se passou em Espanha, onde o domínio muçulmano em centros como Granada e Sevilha, deixou tesouros arquitetónicos, em Portugal existem poucos restos físicos, porque, na região, a cultura árabe se pode considerar como sendo marginal... Modesta e subtil, tal como a inscrição árabe gravada na parede da catedral, a herança andaluz ainda se vislumbra e é palpável para todos quantos estiverem dispostos a procurá-la.

Marta Vidal (© Qantara.de 2021). Acedido em: https://en.qantara.de/content/arabic-inscription-on-coimbra-cathedral-greatness-will-remain

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por Rodrigues Costa às 14:02



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