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A' Cerca de Coimbra



Quinta-feira, 23.05.24

Coimbra: S. Teotónio e o seu priorado do Mosteiro de Santa Cruz 2

Prosseguimos na divulgação do estudo do académico brasileiro Doutor Jonathas Ribeiro dos Santos Campos de Oliveira, sobre a problemática da construção do Mosteiro de Santa Cruz e do papel fundamental de S. Teotónio no seu desenvolvimento inicial.

A partir do que a documentação nos permite perceber e do que a historiografia frequentemente destaca, a primeira década de vida da canónica crúzia foi marcada pelas transformações que teriam estabelecido os alicerces da experiência regrante no Condado.

Pensamos ter sido, esta, tanto uma fase em que o Mosteiro buscaria dissociar-se em relação ao bispado local, quanto de estruturação da base sobre a qual a conduta moral dos cónegos se assentaria, sendo para ela buscados os mais diversos referenciais.

Em relação ao bispado coimbrão, salienta Morujão que «Almost immediately a tense relationship developed between the monastery and the see, since the monastery had been founded by clerymen who had abandoned the cathedral chapter to join the new institution and consequently the Crucians tried to evade the episcopal authority».

A necessidade de desvinculação em relação ao bispado teria como raiz, segundo a «Vita Tellonis», a oposição levantada pela diocese, que exigia a confeção em seu favor de um testamento tanto do local quanto do Mosteiro, isto é, que o lançasse como património diocesano. Com isso, vendo a possibilidade de ter sua liberdade cerceada, mantendo-se sob a tutela do bispo local, D. Telo e seus companheiros teriam recorrido à Santa Sé.

Nessa iniciativa, teriam eles buscado o reconhecimento fundacional da Comunidade, bem como a devida proteção face o episcopado coimbrão, gerando assim, de Inocêncio II, em 1135, três bulas: a Desiderium quod, que garantia o amparo da Sé Apostólica ao Mosteiro; a Quod personam e a In Beati Petri cathedra, as quais recomendavam tanto a Afonso Henriques quanto ao bispo de Coimbra os cónegos crúzios. Segundo a Vita Tellonis faz notar, seria a partir de tais disposições que o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra teria conquistado a isenção em relação ao bispo da cidade, estando, assim, diretamente subordinado à Sé romana.

Pope_Innocent_II_–_Santa_Maria_in_Trastevere.jpg

Inocêncio II, papa. Detalhe de um mosaico na basílica de Santa Maria em Trastevere de Roma (c. séc. XII). Imagem acedida em https://es.wikipedia.org/wiki/Inocencio_II

A controvérsia entre D. Bernardo, bispo de Coimbra, e a Comunidade de cónegos regrantes de Santo Agostinho, para além das questões antes citadas, teria se estendido também sobre outros assuntos. De acordo com o que narra Pedro Alfarde sobre o supracitado bispo, ele vendia bens eclesiásticos às escondidas, motivo pelo qual os Regrantes teriam se recusado a serem ordenados por ele. Tal desconfiança, prossegue o autor, teria levado os cónegos a solicitarem a presença do arcebispo de Braga, D. João Peculiar (1138 – 1175), para promover a ordenação. Como resultado, D. Bernardo, [...] tomado de fúria insana, contra as determinações em contrário, procurava impedir os fiéis [sic] que podia de nos entregarem [ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra] benefícios, quer nas coisas eclesiásticas que acaso possuíssem quer no direito civil. Por isso, até algumas das nossas igrejas reteve para si durante bastante tempo [...].

Livro Santo S. Cruz.jpg

Livro Santo começado no ano de 1155 que contem entre outras a transcrição da Vita Tellonis. Acedido em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4614123

 …. Em linhas gerais, a contenda mais incisiva envolvendo a diocese coimbrã e o mosteiro de Santa Cruz teria durado, pelo menos, até que dois bispos, questionados pelas suas condutas, deixassem de ocupar seus cargos: o já citado D. Bernardo, que morrera em 1146, e seu sucessor, D. João Anaia (1147-1155), cuja demissão fora forçada em 1155.

Mosteiro de S. Cruz,  Claustro do Silêncio, tumul

Mosteiro de S. Cruz, claustro do Silêncio, tumulo de D. Miguel Pais Salomão. Imagem acedida em: https://en.wikipedia.org/wiki/Miguel_Pais_Salom%C3%A3o#/media/File:Tomb_-_Cloisters_-_Mosteiro_de_Santa_Cruz_-_Coimbra,_Portugal_-_DSC09710.jpg

Após este período, o bispado teria ficado vacante por sete anos até que um regrante crúzio, D. Miguel Pais Salomão (1162-1176), o ocupasse.

Oliveira, J.R.S.C. A Cidade de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz no Século XII. Reflexões sobre o Priorado de S. Teotónio. 2017. In: Acedido em: https://www.academia.edu/38218646/A_CIDADE_DE_COIMBRA_E_O_MOSTEIRO_DE_SANTA ...

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:55



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