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No passado dia 7 de setembro, com base num trabalho de António Gonçalves, publicamos em entrada dedicada a Rui Fernando Palhé da Silva, um ex-librista de Coimbra.

Rui Palhé da Silva e o lema da sua vida
O nosso leitor Luís de Oliveira Lopes remeteu-nos um excelente trabalho que relata a sua convivência com o Artista que agora levamos ao conhecimento de todos os que nos leem.
RECORDAR RUI PALHÉ
Foi, Rui Palhé uma figura que conheci desde que me conheço. Fomos vizinhos, residia eu na Rua do Arco da Traição e ele no início da Rua de S. Pedro na primeira porta de quem sobe a dita rua a partir da Couraça de Lisboa.


Igreja de S. Pedro
Na porta seguinte, de grandes proporções e hoje entaipada, (pelo menos mantiveram a alvenaria original), existia uma oficina de sapataria do Sr. Lopes, que era o meu Pai.
A igreja de S. Pedro, aquando da sua demolição e as casas adjacentes

Rui Fernando Palhé da Silva, Ex-libris, com Camilo Castelo Branco
Vivia o Rui na companhia da Mãe e duas tias que se dedicavam à costura e que eram conhecidas pelas Morenas. Talvez o nome advenha do facto de uma delas ter a pele um tanto menos clara que as restantes.
Uma delas cursou obstetrícia, dedicando-se a assistir parturientes ao domicílio. Era a D. Eurídice, e que assistiu minha Mãe no nascimento de minhas Irmãs, já nós vivíamos na Quinta da Cheira ao Calhabé.
Todos os tipógrafos dessa época tinham duas particularidades. Eram pessoas cultas pelo facto de serem obrigados a ler para compor para impressão todo o tipo de textos, desde os mais elementares aos mais eruditos e regra geral sofriam de saturnismo devido à composição química dos tipos gráficos, pois estes tinham na sua composição o chumbo. Culto, era-o sem a menor dúvida, mas se sofria daquela patologia, desconheço-o. Mas… pelo menos os seus lábios eram bastante escuros.
Dadas a sua cultura geral e um certo jeito para lidar com os miúdos e para contador de histórias, nas quentes noites estivais muitas das vezes com a colaboração do Dr. Alberto Lobo (mais conhecido por Dr. Patacão), entretinham a pequenada à sua volta com as mais variadas histórias que prendiam a sua atenção. Esses miúdos além de mim, eram os filhos do Dr Condorcet (o Jorge e a Júlia), a filha do Sr. Emídio (cozinheiro do C.A.D.C.) e mais uns quantos cujos nomes me não ocorrem, vinham engrossar a plateia à porta do Dr. Patacão à entrada da Rua dos Militares.
Mas, muitas outras vezes, conversava com o Rui no degrau da sua casa, enquanto ouvíamos o bate-sola e o trec-trec da ruidosa máquina giratória na oficina de meu Pai.
Nos poucos momentos de seu lazer, tínhamos a presença de meu Pai e como não podia deixar de ser, a conversa ia quási sempre ter a temas de obras literárias recém-editadas ou não se juntassem dois “malucos pelos livros “.
Com a lamentável destruição de parte da Alta, os salatinas foram enxotados e tiveram de procurar poiso por onde puderam.
Nós fomos habitar uma casa na longínqua Quinta da Cheira ao Calhabé e meu Pai estabeleceu oficina ao fundo da rua dos Combatentes e quis o acaso que o Rui e as tias fossem habitar uma casa na Estrada da Beira em frente da Fábrica de fiação dos Fânzeres, onde está atualmente um supermercado.
Como é natural, as relações mantiveram-se e o Rui por lá ia aparecendo, embora não com tanta assiduidade. Mais tarde, depois de regressar das minhas andanças e assentar arraiais na cidade, lá o ia encontrando no café Toledo à Portagem, umas vezes só, outras na companhia da esposa.
Estes encontros, a partir de certa altura tornaram-se rotina semanal. Os temas de conversa mantinham-se.
O que para mim foi algo surpreendente, foi o facto de um dia ele, nos habituais encontros do Toledo me mostrar um trabalho seu. Uma placa de madeira gravada com um desenho cujo tema me não recordo, não por lhe não dar importância. Mais tarde, surpreende-me com outra placa gravada com a figura do nosso Nobel da Literatura. Estava excelente. Esta esteve depois exposta na montra de uma das livrarias da Rua Ferreira Borges.
E como tudo na vida nada é eterno, vim a saber por um amigo que o Rui tinha partido.
Coimbra, outubro de 2023,
Luís de Oliveira Lopes
Lopes, L. O. Histórias do Arco da Traição. 2023. Em preparação.
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