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A' Cerca de Coimbra



Quarta-feira, 18.10.23

Coimbra: Recordar Rui Palhé

No passado dia 7 de setembro, com base num trabalho de António Gonçalves, publicamos em entrada dedicada a Rui Fernando Palhé da Silva, um ex-librista de Coimbra.

Palhé da Silva, pg. 1.jpg

Rui Palhé da Silva e o lema da sua vida

O nosso leitor Luís de Oliveira Lopes remeteu-nos um excelente trabalho que relata a sua convivência com o Artista que agora levamos ao conhecimento de todos os que nos leem.

RECORDAR  RUI  PALHÉ

Foi, Rui Palhé uma figura que conheci desde que me conheço. Fomos vizinhos, residia eu na Rua do Arco da Traição e ele no início da Rua de S. Pedro na primeira porta de quem sobe a dita rua a partir da Couraça de Lisboa.

Palhé da Silva, 1.jpg

 

Palhé da Silva, 2.jpg

Igreja de S. Pedro

 Na porta seguinte, de grandes proporções e hoje entaipada, (pelo menos mantiveram a alvenaria original), existia uma oficina de sapataria do Sr. Lopes, que era o meu Pai.

Palhé da Silva, 3.jpgA igreja de S. Pedro, aquando da sua demolição e as casas adjacentes

Palhé da Silva, 4.jpg

Rui Fernando Palhé da Silva, Ex-libris, com Camilo Castelo Branco

 Vivia o Rui na companhia da Mãe e duas tias que se dedicavam à costura e que eram conhecidas pelas Morenas. Talvez o nome advenha do facto de uma delas ter a pele um tanto menos clara que as restantes.

Uma delas cursou obstetrícia, dedicando-se a assistir parturientes ao domicílio. Era a D. Eurídice, e que assistiu minha Mãe no nascimento de minhas Irmãs, já nós vivíamos na Quinta da Cheira ao Calhabé.

Todos os tipógrafos dessa época tinham duas particularidades.  Eram pessoas cultas pelo facto de serem obrigados a ler para compor para impressão todo o tipo de textos, desde os mais elementares aos mais eruditos e regra geral sofriam de saturnismo devido à composição química dos tipos gráficos, pois estes tinham na sua composição o chumbo.  Culto, era-o sem a menor dúvida, mas se sofria daquela patologia, desconheço-o.  Mas… pelo menos os seus lábios eram bastante escuros.

Dadas a sua cultura geral e um certo jeito para lidar com os miúdos e para contador de histórias, nas quentes noites estivais muitas das vezes com a colaboração do Dr. Alberto Lobo (mais conhecido por Dr. Patacão), entretinham a pequenada à sua volta com as mais variadas histórias que prendiam a sua atenção. Esses miúdos além de mim, eram os filhos do Dr Condorcet (o Jorge e a Júlia), a filha do Sr. Emídio (cozinheiro do C.A.D.C.) e mais uns quantos cujos nomes me não ocorrem, vinham engrossar a plateia à porta do Dr. Patacão à entrada da Rua dos Militares.

Mas, muitas outras vezes, conversava com o Rui no degrau da sua casa, enquanto ouvíamos o bate-sola e o trec-trec da ruidosa máquina giratória na oficina de meu Pai.

Nos poucos momentos de seu lazer, tínhamos a presença de meu Pai e como não podia deixar de ser, a conversa ia quási sempre ter a temas de obras literárias recém-editadas ou não se juntassem dois “malucos pelos livros “.

Com a lamentável destruição de parte da Alta, os salatinas foram enxotados e tiveram de procurar poiso por onde puderam.

Nós fomos habitar uma casa na longínqua Quinta da Cheira ao Calhabé e meu Pai estabeleceu oficina ao fundo da rua dos Combatentes e quis o acaso que o Rui e as tias fossem habitar uma casa na Estrada da Beira em frente da Fábrica de fiação dos Fânzeres, onde está atualmente um supermercado.

Como é natural, as relações mantiveram-se e o Rui por lá ia aparecendo, embora não com tanta assiduidade.  Mais tarde, depois de regressar das minhas andanças e assentar arraiais na cidade, lá o ia encontrando no café Toledo à Portagem, umas vezes só, outras na companhia da esposa.

Estes encontros, a partir de certa altura tornaram-se rotina semanal. Os temas de conversa mantinham-se.

O que para mim foi algo surpreendente, foi o facto de um dia ele, nos habituais encontros do Toledo me mostrar um trabalho seu. Uma placa de madeira gravada com um desenho cujo tema me não recordo, não por lhe não dar importância.  Mais tarde, surpreende-me com outra placa gravada com a figura do nosso Nobel da Literatura. Estava excelente. Esta esteve depois exposta na montra de uma das livrarias da Rua Ferreira Borges.

E como tudo na vida nada é eterno, vim a saber por um amigo que o Rui tinha partido.

 Coimbra, outubro de 2023,

Luís de Oliveira Lopes

 

Lopes, L. O. Histórias do Arco da Traição. 2023. Em preparação.

Tags: Coimbra séc., XX, Rui Fernando Palhé da Silva ver Palhé da Silva, Rua do Arco da Traição, Rua de S. Pedro, Rua dos Militares, Quinta da Cheira, Calhabé, Largo da Portagem, Café Toledo, Dr. Patacão ver Alberto Lobo, Condorcet ver Jorge Condorcet dos Reis Pais Mamede,

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:11


6 comentários

De Anónimo a 19.10.2023 às 21:31

Amigo R. Costa
Boa noite
Acabo de abrir o mail e ver a sua mensagem, que agradeço.
A apresentação do trabalho está magnífica e as fotos nunca me ocorreria recorrer a elas. Foi uma muito boa ideia. Parabéns.
Lamento que a sua saúde não seja a melhor, mas melhores dias virão, espero
Muito obrigado pela atenção dispensada.
Um abraço
Luís

De Anónimo a 19.10.2023 às 23:16

Caro Amigo Luís Lopes
Obrigado pelas suas palavras. Fico feliz por ter gostado.
A sua nova entrada também vai dar uma boa entrada.
Bom fim-de-semana.
Um abraço
Rodrigues Costa

De Anónimo a 28.10.2023 às 16:15

Amigo Rodrigues Costa
Só agora dei com a sua resposta.
Obrigado pela sua atenção e desejo de um bom fim de semana Um abraço
Luís Lopes

De Anónimo a 28.10.2023 às 20:06

Caro Luís Lopes
Origado, eu, pelo seu interessante texto. A porta fica aberta para outros textos seus.
Com consideração, o
Rodrigues Costa

De Manuel Miranda a 28.11.2023 às 12:19

Ao procurar informação sobre Ruy Fernando Palhé da Silva, a propósito de um ex-libris inserto num livro que acabei de comprar, dei com o seu post, e que alegria me deu. Regressei por momentos a um passado que não conheci, mas que foi o de minha avó materna, minha mãe e meus tios, e que me toca de perto pelas histórias escutadas na minha juventude recordadas agora em virtude das suas palavras.
O meu avô tinha as oficinas da sua casa de móveis instaladas no Salão da Trindade, que fora igreja, e morava ao cimo da Couraça de Lisboa.
Manuel Miranda

De Rodrigues Costa a 28.11.2023 às 19:26

Estimado Manuel Miranda
As suas palavras emocionaram-me e deram ainda mais força à minha vontade de continuar o caminho que encetei de divulgar os factos e as pessoas de Coimbra.
Obrigado pelas suas palavras e incentivo.
Com considerarão, o
Rodrigues Costa

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