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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 27.07.21

Coimbra: Nunes Pereira, uma exposição realizada em 1983, 2

Mas existe um segundo motivo que torna o catálogo da Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira uma obra que não pode deixar de se referir sempre que se estuda este artista. 

Monsenhor Nunes Pereira.jpg

Monsenhor Nunes Pereira acompanhado do seu caderno para desenhar

Para além do que já se deixou escrito na entrada anterior, esse catálogo registo revela-se uma obra importante na medida em que nos proporciona a leitura de dois textos assaz elucidativos. O primeiro escrito por Fausto Correia, ao tempo Vereador do Pelouro da Cultura e Turismo, que sublinhava:

Monsenhor Nunes Pereira podia ser homenageado também como homem, como cidadão, como sacerdote, como jornalista, como conimbricense adotivo. Preferiu-se salientar - a justo título - a faceta de artista, que, bem vistas as coisas, reflete ineludível e globalmente toda uma personalidade, uma mensagem, uma maneira de ser e estar. … Rende-se agora preito à criatividade, ao valor e à autenticidade do artista, que é também um modo adequado de homenagear o homem, o cidadão, o sacerdote, o jornalista, e o conimbricense por adoção.

E referimo-nos também, e quiçá seja este o escrito mais significativo, à autobiografia traçada pelo próprio Nunes Pereira, peça literária de mérito, que bem espelha o Homem que foi e cuja memória perdura.

A palavra que se espera neste catálogo pudera solicitá-la dum amigo, e seria mais autorizada. Mas escrevo-a eu, mau grado o odioso deste pormenor.

Nasci na Mata, à beira do Ceira, que nessa noite de Dezembro de 1906 devia levar um volumoso e frio caudal.

Nunes Pereira. Contos de Fajão 1.jpg

Nunes Pereira. Contos de Fajão. “Os fidalgos de Fajão com o Juiz ao centro”. [Acedido em https://www.facebook.com/Os-Contos-de-Faj%C3%A3o-30-anos-2139002963080610/] (Saliente-se a inclusão do autorretrato do autor)

Os quinze ou vinte moradores que teria o povoado eram todos agricultores. Meu pai acrescentava a profissão ou arte de escultor-santeiro. A 14 de Abril de1916 despediu-se de nós com um «Adeus até ao Dia do Juízo». Dele herdei este jeito para as artes e um razoável conjunto de ferramentas, com as quais iniciei a minha aprendizagem manual: plainas, serras, formões, goivas e o mais da arte. Que ele repetidas vezes recomendara à minha mãe que não vendesse as ferramentas.

Na escola primária comecei a desenhar. Data de então a minha primeira escultura.

No Seminário ia aproveitando as horas vagas, e nas férias trazia sempre o caderno para desenhar, distintivo este que sempre me tem acompanhado. Depois de ordenado, fui para Montemor-o-Velho, onde havia abundante material para desenhar: igrejas, monumentos, paisagens, como aliás em toda a região. Como escrevia para jornais e revistas, desenhava à pena por ser mais fácil a reprodução. Depois fui para Coja, centro duma região cujos monumentos estavam, na maior parte, inexplorados. Fiz uma grande série de desenhos, que expus em várias terras, com a intenção de difundir a cultura e chamar a atenção dos habitantes para as riquezas que possuíam e nem sempre apreciavam devidamente.

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Nunes Pereira. O jogo de cartas. [Ponta seca. Sobre chapa gravada. 2.º estado. 3/10. Não datado]. Coleção particular

As minhas primeiras gravuras datam do período de Montemor-o-Velho. Tinha começado, como Marques Abreu, por fazer carimbos. Depois fui à xilogravura, e ilustrei o meu primeiro livro de versos, saído em 1934 mas que estava pronto para imprimir em 1933.

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Nunes Pereira. Contos de Fajão. [Xilogravura. Museu Nunes Pereira. Fajão. Acedido em http://www.cm-pampilhosadaserra.pt/pages/428?event_id=252]

Nunes Pereira. Contos de Fajão 2.jpg

Nunes Pereira. Contos de Fajão. [Xilogravura. Museu Nunes Pereira. Seminário Maior de Coimbra. Acedido em https://agencia.ecclesia.pt/portal/evento/coimbra-exposicao-regressar-as-origens-pela-xilogravura-de-nunes-pereira/]

Em Coja, para dar que fazer a dois ou três artistas, dirigi a construção de alguns retábulos para capelas, fazendo eu os desenhos e a obra de talha.

Mas foi sobretudo depois da minha vinda para Coimbra, em1952, que pude entregar-me um pouco mais às artes plásticas, não porque tivesse mais vagar, antes pelo contrário, mas por outros motivos. Redator do «Correio de Coimbra», tive oportunidade de fazer muitas dezenas de gravuras para este jornal, algumas delas feitas apressadamente com a máquina à espera para imprimir o jornal.

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Nunes Pereira. Cabo Mondego. [Aguarela sobre papel. 22 de Agosto de 1971]. Coleção particular

A certa altura tentei obter uma bolsa de estudos para me aperfeiçoar na gravura, mas não a consegui. Limitei-me a estudar por mim e aproveitar viagens ao estrangeiro para confrontar os meus trabalhos com os de autores competentes. Contactei com Pietro Pariggi, em Florença, e com André Jaquemin em Épinal - mas só de passagem.

Em Coimbra, José Contente explicara-me, numa tarde, a técnica da gravura em metal e o funcionamento do «tórculo», que ele tinha muito bom e que mais tarde, após o seu prematuro falecimento, adquiri. A esse artista, tão modesto como grande, rendo aqui a minha homenagem.

Circunstâncias favoráveis encaminharam-me para o desenho de vitrais. O primeiro foi para a capela da Casa de Saúde da Santa Filomena; seguiu-se a capela de Paleão, e depois uma série de igrejas e capelas. Se tinha contribuído para o ressurgimento da gravura de madeira, também contribuí para o ressurgimento do vitral.

A par disso, vendo que as matrizes das gravuras de madeira, independentemente da sua reprodução no papel, constituíam por si um quadro interessante, gravei grandes painéis em xilogravura, o maior dos quais mede 4,16 x 2,80 m.

Na base de todos os meus trabalhos está, sem dúvida, o desenho. Desenho em casa, na rua, nos cafés, nas reuniões, nos almoços. Em Montemor e em Coja desenhava nas feiras. A rapidez com que desenho vem desse treino contínuo. O meu desenho, salvo o que faço no gabinete, é um desenho de viagem, aproveitando ocasiões e às vezes escassos minutos.

Há poucos anos que pinto a aguarela, pois a primeira tentativa não me entusiasmara. Quanto à monotipia, que tem muito mais criatividade, não tem logrado interessar muito os visitantes, habituados à cópia servil da natureza que viram.

Nunes Pereira. Presépio.jpg

Nunes Pereira. Presépio. [Gravura. 1990. 2/20. Coleção particular]

 

Por fim o calhau rolado. Privado das arestas, pronto e quase envernizado, é um belo material oferecido à imaginação do escultor, que chegado a esta idade vê nele o símbolo do seu próprio batalhar na vida.

Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira. Coimbra Abril 1983. Catálogo. Organização Serviços Municipais de Cultura e Turismo.

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por Rodrigues Costa às 10:57



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