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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 11.02.20

Coimbra: Belezas de Coimbra e Memória topográfica e descritiva de Coimbra 3

Como já referimos, decidimos complementar a primeira entrada com a descrição de cada um dos Autores relativamente à emoção sentida face à visão que a cidade lhes oferecia quando observada da margem esquerda do Mondego.
Gusmão utiliza uma prosa mais sóbria, mas também bela.

VISTA EXTERIOR DE COIMBRA
«Esta Coimbra, a formosa, sentada em seu monte de primavera; com o largo Mondego a seus pés, como barra de viva prata em seu manto verde,' dentro em o seu tão sereno horizonte, que parece jeito de um beijo risonho do Criador.
CASTILHO, Quadros históricos de Portugal».

As estradas, que do Porto ou de Lisboa conduzem a Coimbra, cortando comummente por brenhas serradas, descampados inférteis, pinhais extensíssimos mas sem majestade, e povoações pobres e derramadíssimas, preparam o caminhante com disposições de tristeza, para contemplar a cena de Coimbra, que, semelhante a uma pirâmide esculpida, se alevanta dominadora dos seus fresquíssimos e saudosíssimos arredores, e do tranquilo Mondego, que se revolve mansamente a seus pés, como uma fita branca lançada por meio de um tapete de verdura.
Quanto é bela a aparência desta multidão de casas, diferentes na fábrica, nas cores e na altura, entressachadas de góticos palácios, mostrando ainda pela forma acastelada, os longos séculos de sua existência!
Quando se deleita a vista na gradação variada, com que se vão apinhando os edifícios, aparecendo na crista do monte, como patriarca e rei de todos, o Paço Real das Escolas, com a sua torre quadrangular!

Torre da Universidade.jpgTorre da Universidade

Ou se aviste Coimbra, quando o astro do dia surgindo no horizonte espalha seus raios sobre a cidade, ou quando já vai a submergir-se no oceano para renascer mais brilhante e luminoso, ou enfim quando o pálido clarão de uma lua desmaiada apenas deixa ver indistintamente os objetos, sempre a Rainha da Beira aparece majestosa e com gracioso donaire; porém, em quadra nenhuma ostenta mais solene perspetiva que olhada do Monte da Esperança em noite bem escura.
Nos confins de um horizonte nubloso e melancólico, no meio de um silêncio profundo, enxerga-se a cidade, qual montanha longínqua. Espesso véu de negras sombras a envolve desde o viso até às raízes do outeiro; nem homens, nem animais, nem habitações se avistam; através, porém, do escuro manto reverbera o fulgor de numerosos lumes. É que, lampejando milhares de luzes para entre as vidraças das janelas, vem formar um contraste maravilhoso com a
escuridão da noite; e o vulto enorme da cidade, negrejando por entre a claridade destas luzes, amostra-se como fantasma gigante cercado de estrelas.

Vista geral 01.jpgVista geral de Coimbra

E que ideias não afluem ao pensamento, ao contemplar tão primoroso quadro?! Lembram esses palácios encantados, tão ricos de ouro e pedraria, de que nos belos dias da infância ouvimos embevecidos a mui longa e mui curiosa história,
Em verdade, Coimbra, a mais bem situada de todas as nossas cidades (embora Braga lhe dispute a preeminência, que a não beija um Mondego plácido e cristalino), e edificada em anfiteatro, oferece o mais formoso e encantador aspeto.
R. de Gusmão

Corte-Real, A.M.B. e Gusmão, F.A.R. 2020. Belezas de Coimbra seguido de Memória topográfica e descritiva de Coimbra e seus arredores. Recolha de textos e notas de Mário Araújo Torres. Lisboa, Edição Gráfica de Edições Ex-Libris.

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por Rodrigues Costa às 21:08


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