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A' Cerca de Coimbra



Quinta-feira, 31.03.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 1

Carlos Santarém Andrade organizou há alguns anos uma série de percursos que intitulou Passear na Literatura, tendo elaborado, para cada um, textos ilustrados que merecem ser relembrados. Recordamos o percurso dedicado a António Nobre.

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Passear na Literatura. António Nobre, capa

«Vem a Coimbra. Hás-de gostar, sim meu amigo.

Vamos! Dá-me o teu braço e vem daí comigo.»

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Passear na Literatura. António Nobre, pormenor de capa

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Passear na Literatura. António Nobre, contracapa

Em Outubro de 1888, após a pacatez das férias, Coimbra retoma o seu bulício característico, com o regresso às aulas e a chegada de novos alunos que vêm frequentar a Universidade. Entre eles está António Nobre, que vem cursar Direito.

Instala-se numa casa junto ao Penedo da Saudade, então fora do perímetro urbano, de cuja janela disfruta a bucólica paisagem a que o Penedo é sobranceiro, cuja amplidão recortada de quintas e olivais contrasta com o estreito emaranhado das ruas da cidade.

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“O Penedo da Saudade é, na verdade, o único sítio em que se podia viver: à janela do meu quarto, que dá para as bandas de onde nasce o sol, passo eu infinitos segundos meditando  na minha vida que é ainda mais triste do que eu.”

Carta Augusto de Castro, 18 Outubro 1888

As duras praxes estudantis, o tédio das aulas, o rigor universitário, são para o poeta uma amarga experiência:

«Hoje, mais nada tenho que esta

Vida claustral, bacharelálica, funesta,

Numa cidade assim, cheirando, essa indecente,

Por toda a parte, desde a Alta à Baixa, a tente

E ao pôr do Sol, no Cais, contemplando o Mondego,

Honestos bacharéis são postos em sossego

E mal a cabra bala aos ventos os seus ais,

“Speech" de quarto de hora em palavras iguais,

Os tristes bacharéis recolhem às herdades,

Como na sua aldeia, ao baterem as Trindades.»

Mas o fascínio da cidade não o pode deixar indiferente:

«Contudo, em meio desta fútil coimbrice,

Que lindas coisas a lendária Coimbra encerra!

Que paisagem lunar que é a mais doce da Terra!

Que extraordinárias e medievas raparigas!

E o rio? e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?»

E, depois, há ainda os amigos:

«O que, ainda mais, nesta Coimbra de salgueiros

Me vale, são os meus alegres companheiros

De casa. Ao pé deles é sempre meio-dia:

Para isso basta entrar o Mário da Anadia.

Até a morte é branca e a Tristeza vermelha

 E riem-se os rasgões desta batina velha!»

E, para quebrar a “vida claustral”, nada como os passeios pelos arrabaldes:

«Manuel, vamos por aí fora

Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,

Por esses doces, religiosos arredores,

Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:

Torres, Condeixa, Santo António dos Olivais,

Lorvão, Cernache, Nazaré, Tentúgal, Celas!

Sítios sem par! onde há paisagens como aquelas?

Santos lugares onde jaz meu coração,

Cada um é para mim uma recordação…»

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:15



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