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A' Cerca de Coimbra



Quinta-feira, 17.03.16

Coimbra: Almalaguês, terra de tecedeiras, "das melhores"

Almalaguês é sede da freguesia... Confinando com os municípios de Lousã e Miranda do Corvo, a freguesia participava, até há cerca de trinta anos, dos modos de vida e da economia tradicional... Deste facto resulta, em parte, a prevalência que a tecelagem manual ainda assume naquela área. É que "antigamente todas teciam". Teciam em casa para si e para as necessidades das famílias, teciam para as "senhoras de Coimbra", teciam e vendiam em feiras próximas mas, a maior parte tecia para os negociantes que abasteciam mercados regionais em carpetes, passadeiras, tapetes e mantas.
Alguns destes negociantes... montaram as suas próprias unidades fabris com teares mecânicos, quer na Lousã, quer em Miranda do Corvo. Almalaguês, alcandorada no cimo do monte, com problemas graves, à época, de acessibilidade, com pouca água, não teve condições para a emergência de processos semelhantes ou paralelos a este. Isoladas, as suas tecedeiras não só não induziram o aparecimento da indústria têxtil, como não tinham alternativa aos rendimentos propiciados pela tecelagem.
Até 1974 a freguesia viveu, por deficiência de transportes diários, um relativo isolamento, o que ajudou a preservar, com uma rara expressão, uma atividade como a tecelagem manual... Ancoradas numa forte tradição de manufatura e venda de carpetes, passadeiras e "atoalhados", com sólidas e variadas ligações ao mercado, as tecedeiras de Almalaguês mantiveram-se a trabalhar nos seus teares, até aos nossos dias.
Nem todas... Mas, independentemente da sua atual situação relativamente à tecelagem, em todas se deteta uma grande afetividade na sua relação com o tear, onde radica um forte sentimento identitário. Almalaguês, terra de tecedeiras, "das melhores".
Num abandono que, contudo, tende a generalizar-se, "há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não" e algumas, de meia idade, mantém-se mesmo ao tear. Em 1980 ... 330 tecedeiras ... Em 1994/95 ... 135 tecedeiras na freguesia e 80 no lugar. ... em quinze anos (dos quais dez correspondem ao início da integração europeia) a freguesia perde 59,1% das tecedeiras recenseadas em Novembro de 1980.

... Nos finais dos anos setenta a Câmara Municipal de Coimbra foi pioneira no entendimento das artes tradicionais como um património de cariz popular, não autorado, que se tornava importante conhecer nos seus limites e potencialidades. O trabalho, em tão boa hora começado por Fernando Rodrigues Costa, não teve, no entanto, continuadores à altura e quando este abandonou o seu lugar de responsável pelos Serviços Municipais de Turismo muito se perdeu, daquele primeiro entusiasmo e da reflexão então encetada num memorável "Colóquio sobre Artesanato" realizado em Novembro de 1979, no Instituto Antropológico.
Mas, em 1978, quando se faz de 25 de Outubro a 5 de Novembro, no Edifício Chiado ... uma mostra da Tecelagem da Região da Almalaguês toda a reflexão sobre artes e ofícios tradicionais está ainda, por toda a parte, no seu início. Fortemente marcado por abordagens de carácter etnográfico o discurso que então se fazia sobre Almalaguês ignora a descrição dos motivos ou padrões que caracterizam e individualizam aquela produção, omite o nome das tecedeiras que lhe dão sentido, enquanto valoriza a descrição e nomenclatura de cada uma das peças do tear.
... Está por fazer o levantamento dos motivos de Almalaguês, mas é fácil entender que, a situação atual se caracteriza por uma grande variedade de possibilidades colhidas em fontes muito diversas. Como o "bordado" corresponde ao levantamento (borboto) do fio segundo uma quadrícula implícita à trama do tecido, em que aos fios "verticais" da teia, se contrapõem os fios "horizontais" propiciados pela lançadeira, torna-se fácil transpor para o trabalho do tear qualquer desenho assente numa quadrícula e vice-versa.

Pires, A. Tocar a vida, aos pedais do tear. (História de uma tecedeira). In Mestres Artífices do Século. 2002. Lisboa, Instituto de Emprego e Formação Profissional

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por Rodrigues Costa às 10:08


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