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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 21.11.23

Coimbra: a terra que Torga amou 2

Formado em Medicina. regressa a S. Martinho de Anta. Mas não cabiam na terra natal as suas ambições.

MT. 7.jpgTorga em S.Martinho de Anta. Imagem Col. CF

E pouco depois está de novo em Coimbra.

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Op. cit., s/ numeração

Sem uma situação profissional definida, numa terra em que abundavam os médicos, a escrita continuava, e mais uma vez a «Atlântida» lhe iria imprimir um novo livro. Escritor e médico, como depois escreveria, "servira devotadamente a dois amos". Mas sentia que era necessário separar os nomes de quem empunhava o bisturi e de quem maneja a caneta. Adolfo Rocha seria o clínico, cuidando dos corpos. Para o escritor iria buscar na admiração por Cervantes e por Unamuno o nome de Miguel, a que acrescentaria Torga, matriz transmontana das urzes selvagens das suas origens. E quando em 1934 sai o livro «A Terceira Vez», encimava o título o seu nome literário, “Com um ósculo vo-lo entrego. Chama-se «Miguel Torga", escreveu pela última vez Adolfo Rocha no prefácio.

No mesmo ano vai substituir, temporariamente, o médico de Vila Nova, no concelho de Miranda do Corvo, tornando todos os fins de semana, quando as obrigações médicas não o impediam, o comboio para Coimbra. onde tinha um quarto para as suas pernoitas na A. C. E. (hoje A C. M.), na Rua Alexandre Herculano. E do convívio à mesa da «Central», bálsamo semanal para o isolamento da aldeia, nascia mais uma revista «Manifesto», que finda em 1936 com Albano Nogueira.

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Pastelaria Central, onde acontecia a “Tertúlia do Torga” que também tinha lugar nos cafés da ”Brasileira” e do “Arcádia”. Imagem da Col. CF. Op. cit., s/ numeração.

Nesse ano, mais um livro, «O Outro Livro de Job». Não se demoraria muito em Vila Nova. O regresso do médico permanente, as intrigas aldeãs e a falta de saúde fazem-no regressar à cidade do Mondego.

Mais uma vez em Coimbra procura um destino profissional duradouro, tirando uma especialidade: "Dispus-me, finalmente, a meter o corpo aos varais. Comecei a praticar no consultório de um colega otorrinolaringologista". Mas, ao mesmo tempo, a escrita não para. E, assim, em 1937, publica «A Criação do Mundo. Os  Col. CFDois Primeiros Dias», biografia romanceada dos seus primeiros anos de vida, até aos primeiros tempos no Brasil. Ainda nesse ano colabora na «Revista de Portugal», dirigida por Vitorino Nemésio. E em Dezembro faz uma viagem a Espanha (em plena guerra civil), França e Itália, dando um salto a Bruxelas, para visitar o seu amigo Nemésio, então professor na capital belga. Em 1938, novo livro da «Criação do Mundo, o Terceiro Dia» relato da sua vida, desde o regresso do Brasil até à partida para a viagem à Europa.

Concluída a especialidade, nova fase surge m sua vida. Como não era fácil abrir consultório cm Coimbra, vai para Leiria, onde "montou a sua tenda", segundo as suas próprias palavras. Foi determinante para a escolha da cidade a proximidade de Coimbra o que lhe permitia ir aí todas as semanas, para o convívio literário de que necessitava e pela proximidade das livrarias, das tertúlias e da tipografia onde imprimia os seus livros. E um deles, saído em 1939, «O Quarto Dia da Criação do Mundo», narração da sua viagem pela Europa, da Espanha franquista e da Itália de Mussolini, bem como do encontro em Paris com os exilados do regime salazarista, iria levá-lo à prisão do Aljube, em Lisboa, onde passou o Natal desse ano e escreveu alguns dos seus mais significativos poemas.

Liberto da prisão, regressa a Leiria. No ano de 194 a vida de Miguel Torga iria tomar um novo rumo, com o casamento com Andrée Crabbé, uma jovem belga que conhecera em Coimbra em casa de Vitorino Nemésio, de quem era aluna em Bruxelas.

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Andrée Crabbé Rocha e Torga. Acedida em  https://www.bing.com/images/search

E nesse ano publica um livro de contos, «Bichos», um dos mais representativos da sua obra A censura não dormia e, no ano seguinte, um outro livro do escritor, «Montanha» é apreendido.

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Torga. «Os Bichos». Op. cit., s/ numeração

Continua a viver, agora casado, em Leiria. Mas a cidade não preenchia os seus anseios. E quando pensa em mudar de ares, a resposta surge naturalmente: "Coimbra como não podia deixar de ser. Era ela, quer eu quisesse quer não, a minha Agarez alfabeta, o húmus pavimentado que os meus pés pisavam com mais amor".

E assim, mais um nome vinha juntar-se aos clínicos da cidade. Num primeiro andar do Largo da Portagem estava agora o seu consultório. Na parede uma placa: "Adolfo Rocha - Ouvidos, Nariz e Garganta".

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 Op. cit., s/ numeração

Em frente, o pequeno jardim, com a estátua de Joaquim António de Aguiar, mais além o Mondego e, em fundo, o verde do horizonte de Santa Clara.

Não longe, no nº 32 da Estrada da Beira, num caminho bordejado pelo Parque da Cidade, instalara-se o casal. Nas traseiras, a vista descia até ao Mondego numa paisagem inspiradora

O seu consultório era não só um local de alívio para os seus doentes, mas também um ponto de reunião com os seus amigos e com sucessivas levas de estudantes, onde tudo se discutia, da política à literatura, e sobretudo, as suas janelas eram os olhos com que Miguel Torga viu, no decorrer dos anos, o mundo à sua volta e as alterações que se iam desenrolando e de que, observador atento, deu conta nos seus livros.

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Adolfo Rocha no seu consultório. Op. cit., s/ numeração

Andrade, C. S. Passear na Literatura, A ver correr, / Serenas, / As águas do Mondego. Sem data. Coimbra. Edição do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 11:12



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