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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 25.01.17

Coimbra: Uma Escola de Canteiros 2

A Escola Livre das Artes do Desenho não passa, porém, o seu tempo a copiar estilos seguindo a norma do ensino clássico.

Os discípulos de António Augusto Gonçalves, canteiros ou serralheiros, sabem executar os mais modernos caprichos da arte.

É certo, porém, que os discípulos da Escola Livre das Artes do Desenho dão às interpretações dos diversos estilos um encanto; que raras vezes outros conseguem dar, e que os fazem justamente estimados e apreciados por Manini, Raul Lino, e todos enfim para quem o culto do passado não é esterilizador das fecundantes energias modernas.

Eu, por mim, nunca vi obra de estilo antigo, em capricho moderno de artista, que me desse a impressão estética das de António Augusto Gonçalves ou discípulo dele.

Deve-se isso á natureza: do seu ensino, que nos estilos passados, corno nas grandes obras da antiguidade clássica, procura apenas a intenção artística e a sua realização prática dentro da beleza.

A antiguidade clássica, o objeto de arte exótico, até as tentativas artísticas abortadas são para este mestre excecional fonte de ensino vitalizador e forte.

António Augusto Gonçalves não ensina a copiar um estilo, ensina a compreende-lo. E, na transcrição de qualquer motivo decorativo, os discípulos de Gonçalves metem sempre um pouco da sua alma.

Por isso as obras que produzem, na adoração dos velhos estilos, são vivas e não paradas e mortas como os pastiches que o romantismo e o mercantilismo da indústria moderna têm vulgarizado.

Os discípulos de António Augusto Gonçalves conhecem a unidade de espirito característica de cada estilo e a fôrma como se traduz na visão da linha, da superfície e do volume, na utilidade da luz e sombra, e sabem assim dar a uma planta rara de jardim, capricho moderno de floricultor curioso, a graça antiga com que os velhos escultores vestiam amorosamente as plantas humildes dos campos.

 

Alberto Caetano Ferreira – Sacrário de altar.pn

Alberto Caetano Ferreira – Sacrário de altar

 Carvalho, J.M.T. Uma escola de canteiros, In Illustração Portugueza, 2.º semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 162-165.

 

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por Rodrigues Costa às 10:11

Quarta-feira, 26.10.16

Coimbra: a Brotero uma escola com passado e com presente 2

A Brotero é uma escola de tradições. Uma escola que nasceu do nada e cresceu, valorizando o Coimbra e o País ... Atenta à evolução do mundo exterior, sempre foi uma escola de vanguarda ... Uma escola-Escola, de todos os tempos, de sempre, porque sempre em luta consigo própria. Para servir.

... Desde o século XVIII que o ensino profissional – até aí quase inteiramente da responsabilidade das corporações de artes e ofícios e de organismos religiosos – mereceu a atenção dos governantes nacionais. Contudo, só após o Liberalismo e face à necessidade de resposta ao avanço da Revolução Industrial foram tomadas as primeiras medidas sérias com vista à sua implementação.

...Em Coimbra, este estado de coisas fez surgir, em 1851, a «Sociedade de Instrução dos Operários» e, em 1862, a «Associação dos Artistas de Coimbra», que, sob o patrocínio de Olímpio Nicolau Rui Fernandes, visava «a difusão do Ensino Geral e Técnico das Artes e Ofícios, propagando os conhecimentos de economia, industrial e doméstica, necessários ao aperfeiçoamento dos métodos de trabalho, e promovendo em tais atividades o uso e introdução de novos maquinismos», e deu origem ... em 1878, a criação da «Escola Livre das Artes do Desenho», por iniciativa de António Augusto Gonçalves, a qual obteve da Câmara Municipal a cedência da antiga Casa do Senado, no andar superior da Torre do Arco de Almedina.

... por Decreto de 3 de Janeiro de 1884, o Ministro ... António Augusto de Aguiar, criou oito Escolas de Desenho Industrial, verificando-se com agrado que uma delas era em Coimbra – a atual Escola Secundária de Avelar Brotero.

... A 20 de Fevereiro de 1885, ou seja, cerca de um ano depois da sua criação a Escola de Desenho Industrial Brotero, ainda equipada com mobiliário emprestado pela Associação dos Artistas e sem material didático, encomendado na Alemanha ... iniciou atividades ... Matricularam-se cento e cinquenta e dois alunos (cento e quarenta e nove do sexo masculino e três do sexo feminino), com idades compreendidas entre os seis e os quarenta anos e, na sua maioria, profissionais: «alfaiates, canteiros, carpinteiros, empregados, funileiros, marceneiros, ourives, paliteiros, pedreiros, pintores de louça, sapateiros, segeiros, serralheiros, tipógrafos». A única disciplina lecionada no primeiro ano de funcionamento foi a de «Desenho Elementar». E apenas no período noturno, dado que, por falta de alunos, a Escola não teve aulas diurnas, tal como pelo menos nos seis anos subsequentes.

... Em 1889 ... o ministro Emídio Navarro elevou a Escola de Desenho Industrial Brotero a Escola Industrial.

... em 1914, ano a partir do qual a Escola passaria, em consequência, a Escola Industrial e Comercial.

... Nos finais do ano (1918) ... a Secção Comercial existente na Brotero foi-lhe retirada, para formar uma escola independente – a Escola Comercial de Coimbra, que, por não ter sede própria se estabeleceu no edifício da Escola (novamente apenas) Industrial, de Outubro de 1919 até Junho de 1920, data em que, por escassez de espaço, foi transferida para um andar na Rua da Sofia.

... em 1926 ... a 4 de Setembro ... foi decretada a integração da Escola Comercial de Coimbra na Escola Brotero, adotando esta – e por largos anos – a denominação de Escola Industrial e Comercial de Brotero .

... Em suma, a «Brotero», de início uma escola de modestas dimensões, foi ampliando e diversificando ao longo dos tempos o seu efetivo curricular com a introdução sucessiva de cursos profissionais tecnológicos e artísticos ... ligados a variadíssimas áreas, como Comércio, Serralharia, Mecânica, Serralharia Artística, Carpintaria, Talha (em madeira) e Marcenaria, Cerâmica, Vitrais, Eletrotecnia, Mecanotecnia, Construção Civil, Costura e Bordados, Mecânica de Automóveis.

 

Figueira, M. L. 2012. Escola Brotero. Memórias de Sempre. 2.ª edição revista e actualizada. Coimbra, Escola Secundária Avelar Brotero, p. 13, 17-20, 25, 28, 32

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por Rodrigues Costa às 09:44

Quarta-feira, 09.03.16

Coimbra: Leopoldo Battistini um pintor italiano que aqui ensinou

A insuficiência de quadros qualificados no país, que respondessem às solicitações, face ao alargamento inusitado de escolas de desenho industrial … a partir de 1888 … está na origem de contratação de professores estrangeiros para lecionar naquelas escolas.
… A Legação Portuguesa em Roma fez publicar o anúncio … Pelo relatório final apresentado pelo júri romano pode concluir-se que as respostas foram imediatas … Cerca de um ano depois, procedia o governo português à contratação de … Leopoldo Battistini … celebração do contrato por cinco anos com o governo português, em 1 de Julho de 1889, para lecionar na Escola Industrial Brotero … À data da vinda para o nosso país, Leopoldo Battistini contava vinte e quatro anos ... Encontra-se em Coimbra na primeira reunião do conselho escolar que teve lugar na Escola Industrial Brotero no dia 22 de Novembro de 1889. Participaram na mesma reunião outros estrangeiros, oriundos da Áustria (Emil Jock e Hans Dickel professores das cadeiras de desenho de máquinas e física e mecânica, o primeiro e de desenho arquitetónico, o segundo) e França (Charles Lepierre … química industrial) … Permaneceriam na Escola de Coimbra … Battistini até Setembro de 1903 … e Lepierre até ao ano de 1911.

… Maria de Portugal … quando pretende encontrar uma justificação … decisão do jovem professor em prolongar a sua estadia, contra todas as previsões, em Portugal – em Coimbra, mais corretamente – introduz um indicador de ordem subjetiva … o artista não contou com o “sortilégio que a terra portuguesa exerce em todos” … Consta apenas que … foi vítima pactuante do sortílego efeito a que não conseguiu ou não quis oferecer resistência e que se deixou embalar pelas saudosas cores da terra e do céu coimbrão.

… Joaquim Leitão quando fala do encontro de Leopoldo Battistini com a cidade mondeguina … fornece duas pistas significativas. A primeira quando relata que … aceitara ir ensinar ali porque lhe tinham dito que a cidade universitária era a Florença portuguesa e a segunda, ao dizer que Quim Martins e Augusto Gonçalves tinham ido mostrar ao pintor a cidade do Mondego, noite fechada.
… O golpe desferido sobre as suas ilusões, que Battistini alimentara … foi tão cruel quanto eficaz porque “nunca até à morte, se varreu do espirito do ilustre italiano” … o choque … derivara do “atraso material da cidade” que nesse tempo “não tinha sequer iluminação que merecesse tal nome” … a memória que o italiano reteve de Coimbra associava-se às imagens da escuridão, de falta de higiene e de rusticidade – denunciadas pelos gatos vadios – e à bizarria dos intelectuais, enfiados em antros em que ele não descortinava qualquer conforto ou sentido estético, a discutir assuntos que lhe escapavam.
… Caracterizadas pela irreverência sempre, as festas estudantis “além de interferirem em linhas e setores de sociabilidade geral, geravam formas peculiares e relativamente autónomas de sociabilidade a vários níveis”: os bailes, as récitas, as baladas, as serenatas e os passeios fluviais, além da festa exclusiva dos quintanistas de Medicina e as intervenções da Academia nos centenários de inspiração cívica e patriótica, que ficaram memoráveis … A sensibilidade de Leopoldo Battistini não lhe conseguiu ficar indiferente à magia telúrica das manifestações públicas aqui sumariadas plenas de força anímica, de pujança e de rusticidade de um povo que ritma o pulsar da vida pelos ciclos da natureza … A vida privada de Battistini pautar-se-á, em breve, pela dos citadinos de Coimbra … Sabe-se que habitou uma casa na Couraça dos Apóstolos … Posteriormente deslocou-se para a rua da Alegria.

Lázaro, A. 2002. Leopoldo Battistini: Realidade e Utopia. Influência de Coimbra no percurso estético e artístico do pintor italiano em Portugal (1889-1936). Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 71 a 75, 91 a 101

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por Rodrigues Costa às 09:12

Quarta-feira, 10.02.16

Coimbra e as suas personalidades: Pompeu Aroso

Antes de concluir apenas gostaria de prestar a minha singela homenagem a um grande mestre do ferro forjado, que foi José Pompeu Aroso (13.7.1910-26.2.1986). Trabalhou o ferro desde os 14 anos de idade e dedicou-se à arte do ferro forjado até ao fim dos seus dias. Em 1984 fora-lhe atribuída a Medalha de Ouro da cidade de Coimbra. Foi para mim uma experiência inesquecível ter visitado a sua oficina, tendo-o como guia, em Fevereiro de 1982. Ao tempo, o Mestre Pompeu Aroso ainda alimentava uma esperança, embora ténue, de os seus colaboradores poderem vir a manter a oficina em laboração, mesmo após o seu desaparecimento. Isso, infelizmente, não se verificou. Entretanto ofereceu-me, gentilmente, uma síntese da sua biografia, em verso, datada de 4-7-1978, à qual deu o título «É assim uma vida». É com esse testemunho, que considero de relevância para o conhecimento do homem e do artista, no seu percurso por este mundo, que termino este trabalho.

É ASSIM UMA VIDA

Sou de Coimbra de ferro torto
Tenho os brasões em pessoa

Mestres Machados e Gonçalves
Pioneiros de Belas Artes
Chaves de Almeida e Rodrigues
E saudoso Albertino Marques

Com amor e sacrifício
De muitos anos vincados
Este serralheiro de ofício
Aquém dos seus antepassados

Autor de vários cinzeiros
O carro de mão e o gato
É do signo dos caranguejos
E do bacalhau sem pataco

Ferro frio mal tratado
Quando se pensa em casa
Para ser bem forjado
Só obedece estando em brasa

Nada tenho nada valho
Por tudo aquilo que fiz
De bigorna martelo e malho
Neste século dos xis-xis

O’ Coimbra minha terra
Da cultura e da arte
Da tradição o que se espera
É deixar morrer a “Forjarte”
Eu trabalho sim senhor
Quando não tenho que fazer
Luto sempre com amor
Sempre e sempre até morrer

4-7-78
José Pompeu Aroso

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 312 e 313

Uma nota pessoal.
Tive ocasião de conviver com Pompeu Aroso e de visitar diversas vezes a sua oficina. Aquando da homenagem que lhe foi prestada pela Cidade e da consequente organização da exposição "Serralharia Artística. Homenagem da CMC a José Pompeu Aroso", esse conhecimento transformou-se em amizade. Fui, também, testemunha da sua esperança que a Forjarte continuasse.
Tinha já adquirido os atrás referidos cinzeiros “O carro de mão … o signo dos caranguejos … e o bacalhau sem pataco”. Um dia, menos de uma semana antes da sua morte, fui surpreendido no meu gabinete por Mestre Aroso que me disse que fazia questão de me oferecer uma peça.
A peça – uma simples mas muita bela candeia – ainda hoje está em local destacado em minha casa.

 

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por Rodrigues Costa às 11:16

Terça-feira, 09.02.16

Coimbra, a “cidade das grades” 2

… No que ao ferro forjado diz respeito, foi também a partir dos inícios do século que aquela arte mais se desenvolveu, graças à Escola Livre das Artes do Desenho (criada em 1878) e ao Mestre António Augusto Gonçalves

… Já em 1906, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho (Quim Martins), no trabalho intitulado «Os serralheiros da Escola de Coimbra», aludia a nomes destacados da arte do ferro forjado, alguns deles discípulos de António Augusto Gonçalves. Começa por se referir a Manuel Pedro de Jesus e a João Machado, que considerava cooperadores daquele mestre, «nesta obra de ressurgimento artístico». Menciona outros nomes, como António Maria da Conceição, António Couceiro e Lourenço d’Oliveira Chaves de Almeida, arquiteto Augusto da Silva Pinto Joaquim Mendes de Abreu e Joaquim Abreu Couceiro.
Ao concluir o seu artigo, Quim Martins sublinhava:
«E é, em minha opinião, o ensino de António Augusto Gonçalves o único que, no nosso país, mostra a compreensão inteligente das preocupações pedagógicas que têm reformado completamente no estrangeiro a educação artística do operário».

Como é sabido, a estes grandes mestres do ferro forjado, em Coimbra, outros se sucederam, ao longo de cerca de três quartos de século. A sua vida e obra constituem património cultural de grande relevância, sem esquecer um saber-fazer, ancestral, que é hoje pouco conhecido e divulgado. Além do estudo da obra feita por aqueles, devia manter-se viva a tradição, em oficina a funcionar nos moldes tradicionais, que fosse não só um museu vivo, mas também um centro pedagógico e cultural.

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 310 a 312

 

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por Rodrigues Costa às 10:46

Segunda-feira, 11.01.16

Coimbra: o tempo do In Illo Tempore 1

A bibliografia coimbrã de memórias académicas é hoje bastante vasta. Ao longo dos anos, vários artigos estudantes, quando o cabelo começa a branquear e as saudades a estarem mais presentes, deixaram-nos o seu depoimento em letra de forma. Mas entre os vários livros publicados - de tão desigual merecimento, diga-se de passagem – o ‘In Illo Tempore’ ocupa um lugar com um relevo muito especial, sendo ainda hoje uma das obras mais representativas da vida académica coimbrã.
Quais as razões desse facto? Julgo que, para o êxito do livro, que logo no ano da publicação teve duas edições, muito contribuiu a colaboração de António Augusto Gonçalves com os seus desenhos que, infelizmente, não acompanharam as edições posteriores.

O livro seria editado … por Júlio Monteiro Aillaud, ele próprio natural de Coimbra, descendente de uma família de livreiros … Aillaud não deixou de pôr a sua marca no cólofon da obra que, apesar de impressa em Paris, era tão coimbrã:
“Este livro com desenhos originais de António Augusto Gonçalves e photografias coligidas em Coimbra por Antonio Luiz Teixeira Machado e Adriano Marques acabou de imprimir em Paris nas oficinas do editor Julio Monteiro Aillaud, natural de Coimbra, aos 27 dias do mês de Abril de MDCCCCII”.
… Trindade Coelho não se limitou a pôr no papel as suas recordações coimbrãs, recorrendo apenas às suas memórias. Ao longo da obra insere documentos que, certamente durante a sua vida académica foi recolhendo, copiando, quer se tratasse de folhetos, programas ou poemas que, de mão em mão, circulavam pelas aulas ou pelos locais frequentados pela Academia. E valoriza-os, anotando cada nome, referindo pos seus autores, explicando o seu significado, um trabalho que é precioso para o seu melhor conhecimento e as circunstâncias em que foram feitos e que, de outra forma, seriam hoje desconhecidas ou ininteligíveis. E todos esses elementos complementam as suas histórias, as figuras que retrata, os episódios que descreve. Com uma vivência estudantil muito participativa, movimentando-se no meio académico mas também com à-vontade na vida citadina, relacionando-se com as personagens da urbe de diversos quadrantes.

Andrade, C.S. 2003. O ‘In Illo Tempore’ de Trindade Coelho. In Centenário da Publicação do ‘In Illo Tempore’ deTrindade Coelho. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 31 e 32

Tags: Coimbra séc. XX, In Illo Tempore, Trindade Coelho, António Augusto Gonçalves, Júlio Monteiro Aillaud, António Luiz Teixeira Machado, Adriano Marques, Vida académica

 

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por Rodrigues Costa às 11:18

Sexta-feira, 18.12.15

Coimbra e as suas personalidades: João Machado

João Augusto Machado, de seu nome completo, nasceu em Coimbra a 7 de Dezembro de 1862. O pai esculpia “bonecos” nas horas vagas, mas era sapateiro … Depois de António Augusto Gonçalves ter fundado a Escola Livre, em 1878, Machado começou a frequentar esse ‘ninho de águias’ e, mais tarde, abriu oficina de canteiro. Na época, todos os artificies da pedra existentes em Coimbra, foram seus discípulos. O arquiteto Augusto da Silva Pinto … afirmava que, apesar de Machado possuir um curso de arte mais ou menos elementar e jamais se ter deslocado ao estrangeiro, conseguiu ser um escultor notável…
Machado, um dos maiores canteiros que se ‘formaram’ na ‘universidade plebeia’ ... Mas não se pode escamotear, em boa verdade, o facto de João Machado, um dos maiores entre os canteiros que se ‘formaram’ na «universidade plebeia’ mondeguina ter sido o responsável pela aprendizagem de quase todos esses lavrantes da pedra, pois a sua oficina funcionou sempre como laboratório da arte de escultor, uma vez que, no ensino oficial, a parte prática se encontrava, por várias razões, omissa.
… João Machado não recebia ‘ao dia’ como os outros, mas as remunerações eram-lhe entregues globalmente e resultava, quase sempre, de trabalho realizado na sua oficina sita então ainda na rua da Sofia, em Coimbra.
… Mestre Machado trabalhou esta alegoria (a Vitória do Palace do Bussaco) num só bloco, trazido das pedreiras de Ançã e que, segundo os carreiros que a transportam para Coimbra, em virtude do seu peso, fizera abanar a ponte da Cidreira, quando a atravessou. A pedra era linda a valer e o artista, enquanto a teve na sua oficina, antes de a ‘rasgar’, ficava-se longo tempo a olhá-la e a acariciá-la; doeu-lhe mesmo o coração começar a cortá-la, porque ele tinha “pela pedra rude a mesma adoração que os ourives pelo oiro fino … Bem sabia elle que a pedra, se a beija a arte, se põe a rir o mesmo riso que canta o ouro fino. Aos primeiros golpes que se lhe dam, a pedra solta gritos ásperos de dôr, como se chorasse o ferro. Mas, pouco a pouco, vai-se amaciando o som, ainda triste, como o cantar das rôlas a distância. E, quando a obra está quasi a acabar-se, a pedra sôa o riso metálico do oiro”.

Anacleto, R. 1997. Arquitetura Neomedieval Portuguesa. 1780-1924. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Pg. 312 a 315

 

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por Rodrigues Costa às 12:19

Quinta-feira, 17.12.15

Coimbra, a Escola de Canteiros de Coimbra 2

A obra do “Monteiro dos Milhões” (o Palacete da Regaleira) começava a dar brado, e, em 1904, ‘O Século’, na correspondência de Sintra, escrevia:
… Os artistas de cujas mãos sáem éssas óbras primas em pédra são da Batalha …

… transcrito na ‘Resistência’, mereceu uma violenta réplica, saída certamente, porque o tom o deixa adivinhar, da pena do seu diretor, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho.
“ … Os artistas que fizérão as obras que o critico cita são de Coimbra e châmão-se António Augusto Gonçalves, João Machado, Jozé de Souza Barata e José Fonseca. João Machado e Jozé Barata são discipulos de António Augusto Gonçalves e estudárão na Escola livre das artes do desenho. Jozé Fonseca foi aluno da Escóla Brotéro e discipulo de João Machado. Jozé Baráta, lavra como nenhum outro artista português, em estilo manuelino. João Machado é um artista de sensibilidade artística rára, compreendendo e sentido as belezas de todos os estilos, como demonstrão as suas obras (…). Fonseca é um rapás muito novo, já oje um canteiro de valor e que mais poderá elevar-se, se continuar a estudar e não perder no meio lisboeta a modestia e a capacidade do trabalho”.

Mas o autor do artigo olvidara-se de um nome e, certamente a sensibilidade do artista visado terá sofrido com o esquecimento, pelo que no mesmo jornal, dias depois, voltou à carga … esqueceu-nos o nôme de um artista, injustiça que ôje reparamos. Chama-se êle João das Neves Machado; foi aluno da Escóla Brotéro, e é ôje socio da Escóla Livre das Artes do Desenho. É, com J. Fonsêca, um discipulo tambem de João Machado, na sua oficina completou a educação insuficiênte da Escóla Brotéro …”

… Um outro aspeto, quiçá bem importante, relaciona-se com a escola de canteiros de Coimbra que desde sempre se teve como ligada à obra … A maior parte dos artistas, encontravam-se associados à Escola Livre e praticamente todos a João Machado … Mas se alguns, como José Barata e António Gomes que se haviam deslocado para Sintra, a fim de trabalhar na Regaleira, regressaram à cidade, outros, como José e Luís Fonseca por lá se quedaram, o primeiro na vila e o segundo em Lisboa.
Mestre Fonseca acompanhou os trabalhos da Regaleira, pode bem dizer-se, desde o princípio até ao fim.
Esta verdadeira escola de canteiros de Coimbra, durante a sua vigência, assume tal importância na vida artística do país que ouso perguntar-me se ela, dentro destes parâmetros, se pode considerar periférica.

Anacleto, R. 1997. Arquitetura Neomedieval Portuguesa. 1780-1924. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Pg. 335 a 337

 

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por Rodrigues Costa às 10:30

Sexta-feira, 23.10.15

Coimbra, as origens da Escola Brotero

No ... ano de 1984, a Escola Brotero de Coimbra, comemora o seu primeiro centenário. Com efeito, foi criada, pelo então Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, António Augusto de Aguiar, como Escola de Desenho Industrial, por Decreto de 3 de Janeiro de 1884, sendo batizada com o nome de «Brotero» por Decreto de 5 de Dezembro desse mesmo ano.
… Por Despacho de 4 de Dezembro de 1884, foi colocado na Escola Brotero, o professor António Augusto Gonçalves, diretor da «Escola Livre das Artes de Desenho» … Para instalação da Escola, a Câmara Municipal de Coimbra … cedeu a antiga Igreja da Trindade … Sendo, porém, necessário fazer obras de adaptação … a Associação dos Artistas de Coimbra, para que a abertura da Escola não fosse adiada, ofereceu uma sala de que, desde 1866, dispunha no mosteiro de Santa Cruz – o antigo refeitório. Aí abriu a Escola Brotero, em 20 de Fevereiro de 1885, lá se mantendo, em condições precárias, até Dezembro de 1887.
… O material didático … foi obtido, em parte, na Alemanha, na Inglaterra e na França e, em parte, no nosso País. Tendo o da Escola Brotero vindo da Alemanha … O ensino do desenho divide-se em elementar e industrial; o primeiro é diurno e o segundo é noturno … As aulas abriram efetivamente em 20 de Fevereiro de 1885, estando matriculados 84 alunos (81 do sexo masculino e 3 do sexo feminino … Em poucos dias, mantendo-se embora estacionário o número de alunos do sexo feminino, esse número subiu para 152. Esse alunos, cujas idades oscilavam entre os 6 e os 40 anos, ou se distribuíam por um leque bastante amplo de profissões – alfaiates, barbeiros, canteiros, carpinteiros, fabricantes de doce, fundidores, latoeiros, marceneiros, oleiros, ourives, pedreiros, pintores, tipógrafos.
… No começo do ano letivo de 1886-1887, em Dezembro, a Escola Brotero deixou de funcionar na sala da Associação dos Artistas e passou … no corredor por cima do antigo refeitório. Nesse corredor, ladeado de celas, foram feitas obras de adaptação, que consistiram fundamentalmente em unir as celas de um dos lados corredor para formar uma sala grande.
… Emídio Júlio Navarro, então, Ministro das Obras Públicas, por Decreto de 10 de Janeiro de 1889, transforma a Escola de Desenho Industrial de Coimbra em Escola Industrial «destinada a ministrar o ensino teórico e prático apropriado às indústrias predominantes na mesma cidade» … Em 4 de Janeiro de 1890 começou a funcionar como Escola Industrial … em 15 de Maio de 1889, o italiano Leopoldo Battistini foi nomeado professor de «Desenho ornamental» e o austríaco Emil Jack, professor de «Desenho de máquinas» … o austríaco Hans Dickel … professor de «Desenho arquitetónico» … o francês Charles Lepierre … professor de «Química industrial» … Albino Augusto Manique de Melo … professor de «Aritmética e geometria elementar» e Eugénio de Castro e Almeida … professor de «Língua francesa».
… A Câmara Municipal cedeu à Escola, nesse ano letivo (de 1890-1891) «a parte baixa do antigo cerco do noviciado do convento de Santa Cruz”.
Durante o ano letivo de 1890-1891, foram feitas obras «na parte inferior dos edifícios que bordam o jardim da Manga, a fim de adaptar esta parte do edifício ao estabelecimento de oficinas de serralharia, carpintaria e marcenaria, de modelação e cerâmica, com que vai ser dotada aquela escola, bem como para melhorar as instalações da oficina de gravura e ornamentação de metais que este ano já funcionou».

Gomes, J. F. Apontamento para o estudo das origens da Escola Brotero de Coimbra. In 1.º Centenário da Exposição Distrital de 1884. Coimbra. Simpósio. 30 de Junho e 1 de Julho de 1984. Coimbra, Edição do Secretariado das Comemorações, p. 30 a 41

 

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por Rodrigues Costa às 22:38

Quarta-feira, 21.10.15

Coimbra e as suas personalidades: António Augusto Gonçalves

… nasceu em Coimbra, a 19 de Dezembro de 1848. Herdou de seu pai, pintor e decorador com alguns merecimentos, uma fina sensibilidade estética e um critério de apreciação que irá aplicar na pedagogia e na vulgarização artísticas. Concluídos os seus estudos secundários, frequentou na Universidade de Coimbra, o curso de Farmácia, que logo abandonou. A partir de então passa a dedicar-se ao ensino livre do Desenho e da Matemática, ao mesmo tempo que irá alargando o campo dos seus conhecimentos artísticos. Belisário Pimenta, que com ele de perto privou, traça-nos … o perfil da sua mentalidade: «tinha contra si a mácula das suas ideias ao tempo muito avançadas em política e a outra mácula não menor da falta de crenças religiosas; de modo que o seu atrevimento em não seguir os cânones pedagógicos oficiais em Arte, o seu tolerante republicanismo apenas de princípios embora firmes e o não menos tolerante livre-pensamento, teriam, na época ressonância verdadeiramente revolucionária». Neste testemunho falta apenas a alusão ao enternecimento que lhe mereciam as camadas populares mais humildes e o operariado carecido de instrução.
… que o vemos desempenhar as funções de vereador da Câmara Municipal de Coimbra, eleito pela minoria republicana, no triénio de 1887 a 1889 … A sua opção de livre-pensador é demonstrada … na organização do cortejo cívico realizado em Coimbra, em 1890, e dedicado à memória de Joaquim António de Aguiar … os dirigentes republicanos manifestaram-lhe a sua confiança … atribuindo-lhe, em 1912, a presidência da Comissão Administrativa do município conimbricense … colocou o melhor da sua vocação pedagógica quer como professor de Desenho na Associação dos Artistas e no Colégio dos Órfãos … Mas a sua principal realização neste domínio foi indubitavelmente a criação da «Escola Livre das Artes do Desenho» … O primeiro problema que se colocava à viabilização da «Escola» era o da obtenção de um espaço físico … Daí que no dia 31 de Julho de 1878, sete operários tenham dirigido ao executivo municipal … ser cedida a antiga casa do Senado, no andar superior da torre do Arco de Almedina … A Câmara anuiu à pretensão e forneceu mesmo alguns materiais para que o prédio fosse ligeiramente restaurado.
… António Augusto Gonçalves não terminaria a sua longa existência sem realizar duas obras que, pela sua importância artística e relevo cultural, bastariam para conferir ao seu autor o direito de passar a ser reverentemente lembrado pelas gerações coimbrãs: referimo-nos ao restauro da Sé Velha e à fundação do Museu Machado de Castro
… É evidente que nesta breve resenha biográfica se acham omitidas muitas particularidades da vida de Mestre Gonçalves … os primores do jornalista e do crítico de arte, as arremetidas do polemista ou os méritos do professor universitário, que também foi. Mas consignam-se aspetos suficientes para qualificar de generosa e útil uma vida que se extinguirá em 4 de Novembro de 1932

Homem, A.J.C. A Exposição Distrital de Coimbra em 1884. In 1.º Centenário da Exposição Distrital de 1884. Coimbra. Simpósio. 30 de Junho e 1 de Julho de 1984. Coimbra, Edição do Secretariado das Comemorações, p. 53 a 57

 

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por Rodrigues Costa às 09:53


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