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A' Cerca de Coimbra


Segunda-feira, 11.04.16

Coimbra: tipologia da habitação corrente nos séculos XIV a XVI 1

Anísio Saraiva, ao estudar a propriedade urbana das confrarias e hospitais de Coimbra, em 1504, deparou-se com 51,61% de casas de um só piso para 48,39% de casas sobradas … Das propriedades que o rei detinha em Coimbra, em 1395, 60,9% eram compostas de sótão e sobrado sendo os restantes 39,8% relativos a «casas» ou «casas térreas». A desproporção entre as duas tipologias aumenta consideravelmente para o património camarário de 1532: 73% de casas sobradadas para 27% de casas térreas. Importa ainda referir que, no século XVI, dentro das casas sobradadas, a que ocorre mais frequentemente é a de três pisos, sobrelevando claramente a de sótão e sobrado. Mais significativa ainda é a constatação que 20% da amostragem é composta por casas de três, quatro e cinco sobrados, ou de quatro a seis pisos, para usarmos a terminologia atual.

… O poder atrativo dos centros económicos e/ou de decisão politico-administrativa, a que normalmente se alia o prestígio social, determinam a procura que naturalmente encarece o valor do solo. Mais caro e escasso, torna-se necessário rentabilizar o lote sobrepondo um ou mais pisos nos já existentes. Verificámo-lo … na Rua da Calçada, em Coimbra … Em Coimbra, encontra-se, em 1504, um prédio de três andares junto à porta do Castelo … dois dos mais significativos edifícios conservados em Coimbra: um prédio de quatro andares na Rua do Sargento-Mor e uma casa de dois pisos, na travessa da Rua Velha…

… em 1514, solicitava autorização para lançar um passadiço (na Casa da Rua de Sobre Ribas), de resto, um dos poucos ainda existentes…

… Coimbra … são apenas alguns exemplos de cidade em que o casario se apropriou das cercas defensivas … em 1427, a câmara de Coimbra aforava … parte da muralha ocidental da cidade, incluídas as torres de D. Joana e Belcouce, salvaguardando para a cidade a possibilidade de «andar pelo dicto muro e casas e tore e alpenderes e belar e roldar e en eles quando conprir ao conçelho».

Ao longo desta obra são apresentados alguns dados estatísticos sobre a tipologia das habitações no País que permitem a seguinte síntese no que respeita a Coimbra:

Tipologia média das habitações em Coimbra

Área

50,43 m2

Número de pisos

2 pisos

Número de divisões por casa

1 a 2 divisões

Materiais de construção

Pedra e cal, madeira, tijolo, adobe, telha

 

Trindade, L. 2002. A Casa Corrente em Coimbra. Dos finais da Idade Média aos inícios da Época Moderna. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 47 a 50, 62, 101, 107, 109

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por Rodrigues Costa às 12:04

Sexta-feira, 11.12.15

Coimbra: O Despertar, um jornal da Cidade

Hoje, pouco se sabe de concreto relativamente à fundação de O Despertar, em 1917.
Sem dúvida que houve reuniões preparatórias … Numa dessas reuniões assentou-se na escolha do Diretor – o Dr. José Pires de Matos Miguens – e deu-se o nome do novo periódico: O Despertar. Quem lhe deu o nome foi o colaborador Ezequiel Correia…
… Coimbra despertara, havia tempos, e transformava-se, graças à colaboração de dois grupos: de um lado, os gestores de origem universitária …; e do outro, os enérgicos burgueses das casas comerciais da Praça Velha ou da Calçada … Depois, houve uma paralisação: as forças nacionais, ou se empenhavam na Guerra, ou corriam o risco de serem submergidas pelos faciosismos que surgiram e se digladiavam.
Era preciso ressurgir – e lutar contra a miséria moral e material que espreitava a Grei.
Aqui e além, esse esforço começava.
Era o despertar dum povo, no nosso caso, duma cidade. De Coimbra.
Era O Despertar.

No seu curto programa, Magna Carta do jornal, estabelece-se que o Despertar:
- Só tem uma norma: a da Correção;
- É independente, alheio às forças partidárias;
- Louvaria, e reprovaria com altivez, o que lhe parecesse merecer reprovação;
- Punha, acima de tudo, os legítimos interesses de Coimbra.

… em 3.XI.1934, a empresa passou às mãos de João Henriques … e o jornal estava arriscado a um colapso fatal se, nesse momento, António de Sousa, que lá trabalhava, não tomasse … o encargo de continuar a publicação de O Despertar.
E assim foi. Tomou conta da Administração desta empresa que, se não é ruinosa, é empobrecida. Foram anos de sacrifício e de devoção: o espirito de cruzada e de apostolado dos homens de 1917, herdou-o ele e continuou, intemeratamente.

… Há dois tipos fundamentais de jornais: o noticioso e informativo e o de esclarecimento e orientação … Entre estes dois tipos extremos, encontram-se numerosos tipos intermediários de jornais, principalmente na chamada Imprensa de Província ou Imprensa Regional, quase sempre eclética.
O Despertar pertence ao grupo dos jornais ecléticos.

Machado, F. F. 1967. Um Jornal de Coimbra: O Despertar. 1917-1967. Coimbra, Edição de O Dspertar. Pg. 3 e 4, 7 e 8, 11

 

Crentes no futuro, como no início, em 1917 eis “O Despertar”, quase a entrar no seu 98.º ano de publicação ininterrupta, rumo ao centenário. Com os olhos postos no futuro mas fiel aos valores dos seus fundadores e continuadores. A Honra e a Dignidade não têm preço, nem hiatos, nem prazos de validade. A Verdade tem hoje – em todas as linhas e páginas do jornal – a mesma forma que teve ontem e a que terá amanhã.

Acedido em 06.12.2015, em http://odespertar.com/pt/index.php/estatuto-editorial

 

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por Rodrigues Costa às 09:37

Quinta-feira, 10.12.15

Coimbra, o edifício Chiado 4

Quando em 1991 fomos convocadas para fazer este projeto, sentimos uma forte emoção … pela significação cultural deste edifício e pela situação de extrema sensibilidade e delicadeza que se cria, por muito pouco invasiva que seja a intervenção num edifício com estas características … A Grande Intervenção da Camara Municipal de Coimbra em 1992 no Edifício Chiado, visou a sua conservação, restauro e salvaguarda … As modificações a executar deveriam ter o menor impacte possível, devendo ser compatíveis.
… Os edifícios da época – falamos do fim do séc. XIX início do séc. XX – eram todos bastante semelhantes … Se olharmos para todos os edifícios da Rua Ferreira Borges e Visconde da Luz vemos que basicamente correspondem a este padrão, variando unicamente a riqueza formal do trabalho nas decorações, talhas ou cantarias e/ou madeiras nos guarda corpos em ferro e trabalhos em ferro. Todos menos um – o Edifício Chiado de 1910.
Este aponta-nos para uma nova Era – a Era pós Revolução Industrial, a era pós Exposição Mundial de Paris e pós Gustavo Eiffel. É um edifício moderno – moda efémera, mas com seguidores um pouco por toda a Europa.
… O Edifício Chiado era basicamente o Corpo da Frente com quatro pisos e sótão (encoberto pelo frontão) e o Corpo de Trás com três pisos e sótão em torno de sanguão central coberto (poço de luz)
… Em 1910 o edifício sofreu grandes obras de alteração … Onze anos mais tarde (em 1921) foram realizadas obras de ampliação …

Os problemas essenciais que se colocam (à intervenção em 1992) eram ao nível das coberturas (Corpo de Trás e Corpo da Frente), Saguão Central e Fachada …
No processo de conservação e reabilitação, as principais formas de intervenção adotadas foram a demolição/substituição parcial ou integral …
Em 1999, sete anos depois da intervenção de 1992, o destino deste edifício vai mudar – é a musealização do edifício para a instalação da Coleção Telo de Morais em 2001.
… Hoje passados 18 anos sobre este projeto, pensamos que também ele já faz parte da História. Já é um layer, uma marca no Percurso de Vida deste Edifício através dos tempos.
… Finalmente queremos afirmar, que é enorme o orgulho de termos feito a reabilitação do Edifício Chiado – é talvez a obra que mais prazer nos deu, até porque continua vivo e a desempenhar um papel indiscutível na nossa cidade.

Freitas, T. e Quinta, T. 2010. Edifício Chiado. Obra de conservação e reabilitação. In Caminhos e Identidades da Modernidade. 1910. O Edifício Chiado em Coimbra. Actas. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 227 a 245

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:26

Terça-feira, 08.12.15

Coimbra, o edifício Chiado 2

Em Março de 1978, um grupo de cidadãos, encabeçado pelo Delegado da Direção-Geral dos Desportos, Fernando Mendes Silva, iniciou um movimento cívico, a “Operação Chiado” com o intuito de salvar o edifício: “Dêem-nos 4 meses e mostraremos o que se pode fazer disto”, terá pedido Mendes Silva. Em colaboração com várias entidades foi elaborado um programa de animação com atividades variadas. Para além dos Serviços de Turismo da Câmara Municipal de Coimbra foram envolvidos na definição do programa: a Fundação Calouste Gulbenkian, a Secretaria de Estado da Cultura, a Universidade, o Museu Nacional de Machado de Castro, entre outras … Assim se realizaram, finais de xadrez, exposições … ciclos de cinema e até concursos de doçaria regional.
Enquadrado neste clima de mobilização cívica … a 5 de Junho de 1978, a “Noite de Coimbra” evento realizado na Praça do Comércio e em defesa da renovação urbanística e remoção do estacionamento, com o objetivo de lhe devolver a função de centro cívico e de convívio. Neste evento o banco “entregou” simbolicamente a chave ao impulsionador deste movimento, Fernando Mendes Silva, ficando os Serviços de Turismo da CMC encarregados da sua dinamização.
Na sequência da “Operação Chiado” e da consequente ocupação do edifício, com atividades culturais, a Câmara Municipal comprometeu-se com o Banco Pinto & Sotto Mayor em adquirir o edifício o que só aconteceu em 1984, já no mandato do próprio Mendes Silva como presidente da autarquia … Entretanto a Câmara Municipal solicitara no dia 11 de maio de 1978 a classificação do edifício como de “interesse público” … O Instituto de Salvaguarda do Património Cultural e Natural deu um parecer positivo a este pedido no dia 14 de Junho de 1978 … a sua classificação só se concretiza em 1997, sendo publicado o decreto de classificação como imóvel de interesse público em 2002 … a sua aquisição ao Banco fez-se através da permuta de um terreno na Avenida Fernão de Magalhães … Depois da sua aquisição pela CMC passou a ser um espaço expositivo de temas e obras diversificadas até que, em 2001, inaugurou como Museu Municipal.

Sendo à data o responsável pelos Serviços Municipais de Turismo, seja-me permitido um testemunho.
No final da “Noite de Coimbra” o Dr. Mendes Silva depois de entregar as chaves procurou-me e disse-me: “A minha tarefa está terminada. Agora é com a Câmara”. E, acrescentou, com aquele seu inconfundível linguarejar coimbrão: “Aguente-se à bronca”.
Rodrigues Costa

Magalhães, R. 2010. Edifício Chiado. Uma das curiosidades de Coimbra. In Caminhos e Identidades da Modernidade. 1910. O Edifício Chiado em Coimbra. Actas. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 217 a 220

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por Rodrigues Costa às 10:10

Segunda-feira, 07.12.15

Coimbra, o edifício Chiado 1

Conforme a história oficial, divulgada pelos Grandes Armazéns do Chiado, em Abril de 1888, os irmãos Joaquim Nunes dos Santos e Abílio Nunes dos Santos … fundaram a firma Nunes dos Santos e Companhia … Tinha sede na travessa de S. Nicolau (n.º 12) em Lisboa e explorava o negócio da importação de rendas e bordados … Durante os anos de 1903-1904 a sociedade passa de grossita a retalhista … são inaugurados a 3 de Abril de 1905 os Grandes Armazéns do Chiado … Em 1906, instalavam-se duas filiais, no Porto e Coimbra.
… Em 1909, na rua Ferreira Borges (antiga Rua da Calçada) era, então vendido um edifício à sociedade Nunes dos Santos e Comp.ª composto por duas lojas, sobrelojas e três andares, com o objetivo de para aí ser transferida a agência dos Grandes Armazéns do Chiado, passando esta a ser uma sucursal com a dignidade e a variedade de produtos que a cidade merecia … Numa segunda-feira, dia 15 de Abril de 1910, inauguraram-se as novas instalações dos Grandes Armazéns do Chiado … em prédio amplo e elegante, que na Rua Ferreira Borges se destaca pela originalidade da sua frontaria, pela vastidão das montras e pela iluminação feérica de todo o estabelecimento … A fachada do edifício esteve iluminada em todos os andares … à noite o Edifício produz um efeito deslumbrante…
… O pedido de autorização do projeto … data de 3 de Junho de 1909.
O Autor assina … com as iniciais A.S. e o último nome Correia, que pressupomos ser Alberto de Sá Correia, técnico de engenharia (condutor de obras) da … Repartição de Obras Públicas da Câmara Municipal de Lisboa.
… Os motivos decorativos do projeto inicial eram estilisticamente geométricos mas com um certo movimento orgânico Arte Nova … o edifício foi feito em função da fachada, sendo a qualidade e originalidade superior á do interior … As estruturas metálicas foram executadas numa grande fundição alemã da bacia do Reno, a Hoerde, conforme se confirma através das inscrições.
… Nos finais dos anos quarenta as filiais terão iniciado a sua decadência, facto confirmado por uma expressão utilizada em Coimbra para caracterizar as peças de vestuário fora de moda, apelidados de “monos do Chiado”.
… no início de 1952, o Edifício Chiado de Coimbra é vendido a Santiago Alvarez Mendes … o objetivo da aquisição terá sido servir de armazém de tecidos … iniciou-se também uma fase de produção fabril de peças de vestuário … Tendo em vista a comercialização deste vestuário surgiu a necessidade de se designar a marca, e a empresa Sociedade Têxtil Santiago A.A. Mendes passou a chamar-se Santix.
Estes armazéns sofreram um grande incêndio no dia 13 de Abril de 1963 e os últimos dois pisos ficaram muito danificados … os bombeiros referiram que o edifício não tinha caído pela qualidade da construção e pelo facto da sua estrutura ser em ferro.
… Pelo valor de 16.000 contos é, então, vendido em 12 de Setembro de 1973 ao Banco Intercontinental Português … Em 1977, o Chiado passava para propriedade do Banco Pinto e Sotto Mayor.

Magalhães, R. 2010. Edifício Chiado. Uma das curiosidades de Coimbra. In Caminhos e Identidades da Modernidade. 1910. O Edifício Chiado em Coimbra. Actas. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 179, 192, 197, 198, 207, 213, 215, 217

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por Rodrigues Costa às 11:13


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