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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 05.12.17

Coimbra: Mosteiro de Santa Cruz, o porquê do nome

É sabido que os mosteiros e conventos ocupam os melhores troços de paisagem: vales férteis, outeiros com vistas soberbas, e, em regra geral, assegurando a presença de água dentro das suas cercas – bem cumprida no caso do Mosteiro de Santa Cruz.

... sempre seguro na sua excelente localização ao longo do vale da Ribela, vale largo de terras férteis para onde corriam águas de nascentes, formando um pequeno afluente que terminava no Mondego.

Vale da Ribela (2).jpg

 Vale da Ribela, atual Av. Sá da Bandeira

 A escolha do lugar merece ser contada e Ilídio de Araújo transcreve-a de D. Nicolau de Santa Maria, que, por sua vez, conta como D. Tello, varão amigo e contemporâneo de D. Afonso Henriques, escolhe o sítio: «(...) achou hum fora da cidade, nos arrabaldes dela, onde chamavam os Banhos da Rainha, que lhe contentou mais que todos, por ter da parte Norte hum monte coroado de oliveiras, árvores bem afortunadas e ditosas que sempre pronosticavão grandes felicidades; porém a principal razão que o moveu a escolher este sítio foi aver nelles hua Igreja antiga de invocação de Sta. Cruz, que no tamanho e no estar fundada junto de hua horta se parecia com o Santo Sepulcro, que D. Tello trazia estampado na alma (...)». Razões da qualidade física e espiritual da paisagem misturam-se na origem da escolha do lugar. 

Mosteiro de Santa Cruz Planta.tif

 Planta do Mosteiro de Santa Cruz em meados do séc. XIX

 Os espaços exteriores deste convento foram mantidos intactos até meados do século XIX, garantindo séculos de utilização ao serviço da comunidade monástica. É certo que a área a área construída em redor da igreja passou de uma unidade com um claustro a três claustros com os respetivos edifícios em redor, mas a horta que comovera D. Tello, o parque e o cabeço das oliveiras mantiveram-se intactos de cima abaixo do vale.

É certo, também, que neste longo percurso de séculos, outros monarcas representado por outros religiosos deixaram a sua marca no convento e na cerca.

 Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 108-121

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por Rodrigues Costa às 09:01

Quinta-feira, 19.10.17

Coimbra: Colégio de S. Agostinho 2

Foi longo o processo de maturação que, no Mosteiro de Santa Cruz, haveria de conduzir à construção do Colégio de Santo Agostinho que sobrevive... Num ambiente de contenção financeira sempre denunciada pelos cronistas, apenas do Capitulo Geral de 1569 «se comessou a tratar da mudança do nosso Collegio apartado do Convento de S. Cruz» a despeito de todos os obstáculos movidos pelo bispo de Coimbra, contra a eventualidade de que o «Collegio se apartasse do Convento de S. Cruz e se edificasse nas cazas de João de Ruão, que he o mesmo sitio onde depois de muitos annos o fundou» ... no local encostado à muralha, onde, aliás, já anos antes o mosteiro se tinha preocupado em alargar através de compras e trocas de terrenos.

... Tradicionalmente... o edifício do Colégio de Santo Agostinho anda atribuído a Filipe Terzi, mas, intencionalmente ou não, os cronistas nem sempre têm acertado nas atribuições que fazem ... a presença frequente de Jerónimo Francisco em Santa Cruz indicia uma ligação que parece apontar para a hipótese de uma fortíssima contribuição no problema construtivo que, nesta data, mais afetaria os crúzios: o colégio novo.

Colégio de S. Agostinho pulpito.jpgColégio de S. Agostinho igreja púlpito

A estrutura colegial, que sobrevive às transformações posteriores e ao violento incêndio de 1967, ajusta-se à especificidade do terreno ocupado, com a linha da fachada poente assentando os alicerces no antigo pano da muralha da Almedina.

A igreja e o claustro dinamizam o espaço onde se encontraram a estabilidade e o equilíbrio para fornecer aos colegiais um percurso ordenado e inteligível. Tanto quanto é possível apurar pelas plantas do edifício, e depois das reformas do século XIX para albergar o Colégio dos Órfãos, a Misericórdia e, recentemente, a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, a nota mais dissonante à normal constituição dos espaços colegiais é dada pela presença do corredor que estabelece a ligação entre o portal (aberto em 1859) e o claustro (desembocando no ângulo sudoeste), protegendo a entrada principal da igreja e provocando a formação de uma ala com diversas dependências, onde se instala, agora, a Misericórdia.

Colégio de S. Agostinho claustro.jpgColégio de S. Agostinho claustro

... Inteiramente nova na cidade é a conceção plástica que envolve o claustro retangular datado de 1596.

Craveiro, M.L. O Colégio da Sapiência, ou de Santa Agostinho, na Alta de Coimbra. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 68-71

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por Rodrigues Costa às 22:19

Terça-feira, 11.07.17

Coimbra: a evolução da Cidade 1

Edificada numa colina, e cingida pelo forte círculo de altas e espessas muralhas, tendo lá ao cimo a alcáçova real, o castelo onde residia o Alcaide, e o paço do Bispo, a formarem como que os vértices de um triângulo aproximadamente equilátero, a cidade estendia-se pela encosta ocidental do monte quase até ao sopé.

Alta antes das demolições vista aérea.jpg

A alta antes das demolições do séc. XX

Desde o século XII que a população, extravasando-se pela porta ocidental e principal da cidade, situada onde ainda hoje perdura a denominação de «arco de Almedina», fora construir novas habitações pelo arrabalde, umas pertencentes a comunidades religiosas, outras a pessoas leigas. Assim se edificaram grupos de casaria, como que acostados aos templos que aqui se viam erguidos: os de S. Bartolomeu, S. Tiago e Santa Cruz, formando na planície uma linha quase paralela à muralha, e pouco distantes desta; o de Santa Justa (no que é hoje o Terreiro da Erva) um pouco mais afastado para NO, à beira do caminho que conduzia ao campo do Arnado; finalmente o de S. Domingos, fronteira a Santa Justa, junto ao rio, um pouco abaixo do local onde hoje se encontra a estação do caminho-de-ferro (as ruínas estão sob o Hotel Almedina).

Planta da Cidade 1845 2.jpgPlanta da cidade 1845

Próximo das igrejas de S. Bartolomeu e de S. Tiago, é que o casario mais se apinhava, constituindo um bairro bastante populoso.

Como havia a ponte a ligar entre si as duas margens do rio, já as edificações se tinham estendido para a orla esquerda do Mondego, onde se viam, junto deste, a jusante da ponte o convento de S. Francisco (o primitivo, não o atual); a montante o de Santa Ana (cujas ruínas ainda são visíveis na gravura de Baldi), e um pouco mais afastado o grupo de construções incompletas, modestas e acanhadas, do projetado mosteiro clarista de Santa Isabel de Hungria, começado a edificar por D. Mór Diaz, e que fiaria incompleto (posteriormente incorporado no Conventos de Santa Clara-a-Velha).

Coimbra 38 Vista áerea.jpgVista área da Cidade nos inícios do século XX

Ora essa parte baixa ou suburbana, o arrabalde, que se estendia a Oeste e Noroeste de «almedina de Coimbra», tornara-se o bairro mais apreciado e estimado das famílias coimbrãs; para aqui vinham residir aqueles mesmos que possuíam casas velhas, mais ou menos mesquinhas, no bairro alto, e que ficavam em regra abandonadas, por não aparecer quem as alugasse.

Outro facto concorreu para o grande decrescimento da população da «cerca de almedina», ou bairro compreendido dentro das muralhas. Durante os quatro primeiros reinados fora em Coimbra a residência mais aturada dos monarcas, nos paços da alcáçova, que formavam a coroa da cidade; por isso era então lá o bairro nobre, onde preferiram viver com suas famílias os grandes, os fidalgos, os funcionários palatinos. Quando, em tempo de D. Afonso III, Coimbra deixou de ser a sede habitual da corte, a população cortesão abandonou esta cidade, e devem ter-se fechado por isso muitas das casas da almedina.

 

 Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 82-83, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 09:26

Sexta-feira, 07.07.17

Coimbra: a Família dos Rabaldes

Iniciado o seu percurso e afirmação com o conde D. Henrique, a família dos Rabaldes apaga-se um pouco durante o governo de D. Teresa e de Fernão Peres de Trava (1121-1128).

O apoio a Afonso Henriques na luta contra sua mãe e o subsequente protagonismo de Coimbra, refletido no papel diretivo que a cidade desempenha na Reconquista desde a década de 1130, faz a família recuperar poder e prestígio. Filhos e netos de Rabaldo frequentam a alcáçova régia e acompanham Afonso Henriques nas guerras ofensiva e defensiva, de Santarém e Lisboa ao Alentejo. Alguns perdem aí a vida. E com a perda da varonia rapidamente a linhagem desaparece.

A guerra, as funções militares na fronteira e a colaboração no repovoamento propiciam-lhes riqueza e a constituição de um pujante património.

Outros almejam e logram mobilidade social e poder na carreira eclesiástica, no bispado do Porto, sob a sombra protetora do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, seu parente.

As filhas de Rabaldo fazem bons casamentos, com cavaleiros do mesmo nível ou de superior posição social, proporcionando, assim, uma maior segurança à família. As boas posições desses esposos no xadrez político-militar ocasionam substanciais doações por parte do rei ....

E muitas são as compras e escambos que ... fazem, com seus maridos.

Por presúria, compras e doações se constrói o património da linhagem; por múltiplas partilhas sucessórias, o mesmo se desagrega; enfim, por doações e vendas, no mosteiro de Santa Cruz de novo se reunifica.

Rabaldo vende terras de Enxofães.jpg

Rabaldes, filho de Rabaldo vende uma propriedade a Santa Cruz de Coimbra

A guerra de fronteira que o ajudara a construir obriga, por vezes, à sua alienação.

A mesma guerra, matando também os genros de Rabaldo, propicia os recasamentos das suas filhas, cujo elevado grau de fertilidade gera uma fortíssima subdivisão do património e a sua progressiva desvalorização.

À semelhança de outras famílias de Coimbra, da mesma posição na mesma época, assinala-se a presença, nas várias gerações da linhagem, de importantes cavaleiros do exército régio, com funções militares ou administrativas (vigários, mordomos, juizes), e, simultaneamente, de outros com cargos eclesiásticos, nomeadamente bispos...

Na Corte e na Igreja se construíram, pois, alguns percursos familiares que a documentação régia ou a eclesiástica nos foi revelando e permitiu reconstituir. Porque na Corte ou na Igreja exerceram cargos. Porque na Corte receberam bens e mercês, e na Corte combinaram casamentos. Porque à Igreja doaram ou venderam bens, e pela Igreja foram rememorados.

Ventura, L. 2003. O Elemento Franco na Coimbra do Século XII: a Familia dos Rabaldes. In Revista Portuguesa de História t. XXXVI (2002-2003), pp. 89-114 (vol. 1), pg. 108-109

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por Rodrigues Costa às 09:58

Terça-feira, 24.01.17

Coimbra: Uma Escola de Canteiros 1

Iremos aqui relembrar um artigo que Joaquim Martins Teixeira de Carvalho - Homem que em Coimbra foi, na transição do século XIX para o século XX, professor da Universidade, arqueólogo, crítico de arte, jornalista, diretor do jornal A Resistência, polemista, entre muitas outras coisas, conhecido então apenas por Quim Martins - publicou na conceituada revista Illustração Portugueza, no segundo semestre de 1906, a propósito de uma exposição promovida, em Lisboa, pela conimbricense Escola Livre das Artes do Desenho.

O texto, de excelente recorte literário e com ilustrações magníficas, revela também um profundo amor a Coimbra e ao que de melhor aqui, então, se fazia. Para uma mais fácil compreensão decidimos proceder a pequenos acertos e à atualização da grafia.

UMA ESCOLA DE CANTEIROS

Em Coimbra, a arte de canteiro é uma eflorescência do solo, criou-se pelo amor ao calcário brando, que se vê alvejar à flor da torra, mal passa a chuva forte do inverno.

E é opinião que aqui teria nascido e florescido naturalmente a mais bela escola de escultores se não fosse o que muitos julgam a ventura da arte em Portugal – o glorioso movimento da Renascença, que é mais uma página da histeria da arte estrangeira do que propriamente um movimento decisivo e determinante de progresso na evolução da arte nacional.

O delicioso claustro de Celas, tão tocante de sentimento popular e de ingenuidade artística, as obras, assinadas ou não, de dois Pires, o velho e o moço, as de Pedro Anriquez e do irmão, as dos Alvares, as estátuas anónimas que o acaso depara às vezes esquecidas, os lábios num sorriso enigmático, os olhos pequeninos a rir, cobertas de ouro, como ídolos preciosos, de um lavor gótico cheio de intenção, inquieto, revelando num detalhe mínimo sempre a vontade de progredir, palpitando da vida da consciência artística nacional em formação, muitas vezes me têm feito adivinhar a gloriosa escola de escultores que poderia ter sido a honra de Portugal e que morreu no meio dos esplendores da Renascença como as crianças fracas ao beber à vontade um leite abundante e forte.

Os canteiros de Coimbra foram sempre os primeiros de Portugal, e são-no ainda hoje, como demonstrou a exposição que vamos analisando ao correr destas sumárias notas.

Pelos trabalhos expostos não pode fazer-se ideia completa nem das aptidões dos artistas nem da sua orientação.

A exposição foi organizada com as obras em elaboração no momento, em estilo determinado, com destino certo.

O acaso fez por isso que as obras expostas tenham o cunho do estilo manuelino, ou da Renascença francesa.

JazigoNeoRenascentista.png

João Machado – Fragmento de um retábulo Renascença, em gesso

Carvalho, J.M.T. Uma escola de canteiros, In Illustração Portugueza, 2.º semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 162-165.

 

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por Rodrigues Costa às 11:04

Terça-feira, 20.12.16

Coimbra: as casas da Câmara

A Casa da Câmara não foi sempre no mesmo sítio, e à Casa do Concelho medieval não se lhe conhece local exato, avançando alguns autores várias hipóteses, junto da alcáçova, ou da Sé Velha.

Desde o século XIV está seguramente documentado que a Vereação reunia na Torre de Almedina, também designada por Torre da Relação. Aí se manterá até ao século XIX.

Todavia, teve outros locais esporádicos, nomeadamente durante as épocas de peste, quando a cidade ficava impedida. Os vereadores reuniam fora de portas, no Convento de São Francisco da Ponte, em Condeixa, ou nas casas e quintas dos membros da vereação.

A Casa da Cidade, na Praça de São Bartolomeu, durante o final do século XVII e XVIII, foi um espaço muito apreciado, pois permitia também assistir, das suas varandas, às festas e touradas, que se desenrolavam na Praça Velha, (atual Praça do Comércio). As Invasões Francesas incendeiam e destroem este espaço em 1810. E a Vereação retorna à velha Torre. 

A extinção do Tribunal da Inquisição, no espaço da cidade que ainda hoje mantém a designação de Pátio da Inquisição, fornecer-lhe-á um novo local para reuniões. Mas não é o adequado.

Em 1834, surge uma nova oportunidade: com a extinção das ordens religiosas, a Câmara solicita parte do Mosteiro de Santa Cruz, que lhe será concedido. Durante vários anos decorreram obras de adaptação do espaço conventual a Paço do Concelho, endividando-se o município por causa dessa obra. 

O edifício será finalmente inaugurado em 13 de Agosto de 1879. Além deste espaço físico, sede do poder e cartório do município, existe toda a vasta região envolvente, o chamado “arrabalde” que mais tarde é designado por “termo da cidade de Coimbra”, composto por muitos concelhos e povoações que estavam submetidos à jurisdição da cidade.  

Em tempos mais recuados, a cidade assegurava a todas essas populações a defesa e proteção das suas muralhas, recebendo em troca a prestação de serviços e tributos diversos. Este espaço envolvente foi-se modificando e reduzindo ao longo do tempo, fruto de variadas reformas administrativas e fiscais, estando hoje limitado às 31 freguesias do atual concelho de Coimbra.

França, P. 2011. O Poder, o Local e a Memória, 1111-2011. Catálogo da Exposição. Coimbra, Arquivo Histórico Municipal de Coimbra/ Câmara Municipal de Coimbra . Pg. 7-8

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por Rodrigues Costa às 18:26

Segunda-feira, 19.12.16

Coimbra: Mosteiro de Santa Cruz construção e reconstruções

1131, 28 de Junho – Colocação da primeira pedra do Mosteiro de Santa Cruz “o nascimento visível da comunidade sediada na zona dos Banhos Régios, a pouca distância da muralha norte de Coimbra”.

1150 (cerca de) – Ano provável da conclusão do templo, bem como da parte conventual

... subsistem alguns vestígios arquitetónicos da notável igreja românica, que se pode conhecer e reconstruir através de restos construtivos e decorativos de valor excecional, porque realçam um saber qualificado, verdadeiramente responsável pela solidez das estruturas ainda visíveis, levantadas sob orientação técnica do mestre Roberto, coadjuvado de canteiros peninsulares ... a nave, de grandes proporções e com abóbada de berço, seguia da capela-mor até próximo do coro superior, a que correspondem os dois tramos dos atuais abobadamentos. Nos flancos, possuía três capelas laterias, em pleno coincidentes com as presentes e que mutuamente se ligavam por grandes arcos, perspetivando naves colaterais, cujos eixos eram perpendiculares ao da principal. Um átrio, repartido de três estreitas naves perpendiculares e cortadas de três outras transversais, abria na direção da nave central.

 1500 (ao longo do século) - ... nos inícios de Quinhentos, começaram as obras do conjunto monumental, repartidas em três fases: a de dom Pedro Gavião que, sob a direção de Boytac, mandou desmanchar o nártex, as abóbadas, fez os atuais abobadamentos e janelas elevadas, a casa capitular, a capela das Donas, a sacristia manuelina; a do Venturoso (D. Manuel I) que, na supervisão de Marcos Pires, estabeleceu terminar os coroamentos da memorável igreja, bem como reconstruir o claustro do silêncio; por fim a de Dom João III, na qual Diogo de Castilho, com Nicolau Chanterene, levantaram o novo portal de pedra branca, na fachada românica

... Repentinamente, tudo desaparecia das interessantes estruturas medievais. Em presença daquelas intensas devastações, o pequeno mosteiro das Donas extinguia-se, ficando livres esses espaços, antes ocupados; o prolongamento das novas alas possibilitaram o claustro da Manga; também um grande refeitório, com anexos e cozinha, ficava circundado dos imprescindíveis apoios e serviços; enfermaria, dormitórios dos cónegos, dos noviços, repartições civis e portaria – com um outro claustro restrito.

Dias, P. e Coutinho, J.E.R. 2003. Memórias de Santa Cruz. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 22, 54, 59 e 61 a 62

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por Rodrigues Costa às 09:37

Quarta-feira, 30.11.16

Coimbra: a Baixinha 1

Da observação ao tecido urbano da Baixinha são detetados alguns padrões morfológicos das cidades medievais, formalizados segundo percursos, largos, praças e quarteirões irregulares... O seu aspeto formal reflete as dinâmicas do urbanismo medieval, onde o espaço sempre teve funções de encontro, de troca e de circulação de bens e ideias. O carácter multifuncional, dado na altura, contribuiu para que os elementos estruturadores do espaço fossem agregadores de todas as atividades sociais, económicas, políticas e religiosas da urbe. A rua e a praça eram por isso, os elementos principais do sistema, assumindo o carácter central e identificador para cidade.

O núcleo da Baixinha desenvolveu-se precisamente na borda Poente da colina em contacto direto com a via fluvial. O local estava inserido numa rede viária de comunicação terrestre, criada na altura de expansão e difusão do Império Romano, funcionando para que todo o tipo de informação, acontecimentos e bens materiais fossem difundidos pelo território peninsular. O poder relacional da via tornou-a no principal agente de divulgação e consolidação urbanas. Assim, a via litoral da Península Ibérica Oissipo-Bracara Augusta foi uma ferramenta do sistema urbano nacional, importantíssima para o processo de assentamento e aglomeração urbanística, pois funcionou como um canal de ligação e como ponto de encontro junto dos aglomerados e promoveu o suporte às relações urbanas. Neste sentido, a Baixinha, é o reflexo formal da aglomeração implantada em torno de uma via de passagem às portas de entrada da muralha da cidade propriamente dita.

O processo de fixação e estruturação do território não foi espontâneo nem casual, uma vez que obedeceu à lógica da implantação das Ordens e Comunidades religiosas e fixação das suas agregações em porções de terrenos delimitados por cercas. A regra de localização das capelas e igrejas foi ditada ao longo da via principal, aquela pela qual “todos” passavam, podendo assim fazer cumprir as suas obrigações de assistência no apoio aos peregrinos e de quem mais precisasse. Assim, o arrabalde passou a ser definido pela colocação de igrejas ao longo do eixo viário, direcionando todo o espaço urbano. Implantaram-se quatro templos: Santa Justa, S. Tiago, S. Bartolomeu e o convento Crúzio. Os conventos foram as grandes estruturas organizadoras do arrabalde, tendo a sua fundação gerado importantes aglomerações, dentro de novas circunscrições religiosas. O casario crescia de forma compacta em torno dessas igrejas paroquiais. Destes espaços abertos nasceu uma tipologia urbanística que vive ainda nos nossos dias: o terreiro e o adro sempre foram espaços ancestrais de encontro e troca na cidade medieval. Poder-se-á dizer que são um elemento espacial identificador da cultura citadina. Os aglomerados populacionais reuniam-se à volta de uma paróquia como suporte institucional e espiritual da vida em comunidade.

... Enquanto arrabalde, a zona da Baixinha era considerada um bairro fora de portas, pertencente ao subúrbio da povoação da cidade alta, fora dos limites administrativos, mas com forte vocação mercantil. Situado entre a calçada romana e o rio, a zona fixava todas as atividades relacionadas com o comércio. Os mercadores instalavam-se ao longo da via, fora do perímetro amuralhado, onde os produtos não estavam sujeitos a taxas e onde havia espaço mais amplo, mais barato e de maior acessibilidade. O percurso mais direto entre a ponte e a porta da cidade foi o ponto propício ao início do fluxo de atividade comercial, donde resultou a chamada Rua dos Francos. Era o local onde se cobravam os direitos de “portagem”, quando as mercadorias ficavam dentro da cidade, ou de “passagem” quando estas apenas transitavam dentro dela. Daí resultar a conformação de um “Largo da Portagem” com continuação da rua a que, hoje, designamos de Ferreira Borges. Durante toda a época medieval houve um progressivo desenvolvimento comercial da zona ribeirinha, potenciando a sua definição e consolidação urbana.

Ferreira, C. 2007. Coimbra aos Pedaços. Uma abordagem ao espaço urbano da cidade. Prova Final de Licenciatura em Arquitectura pelo Departamento da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, orientada pelo Professor Arquitecto Adelino Gonçalves, p. 27-29

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por Rodrigues Costa às 11:33

Quinta-feira, 17.11.16

Coimbra: o Mosteiro de Santa Cruz e os Mártires de Marrocos

Os cinco desafortunados franciscanos ... naturais de Toscânia, foram enviados a Marrocos, por São Francisco, para levarem e pregarem a mensagem evangélica nas terras do Miramolim.

... Movido de má vontade, perante várias insistências dos pregadores, o sultão mandou matá-los e deitar os cadáveres na lixeira da cidade. Dom Pedro (irmão do rei D. Afonso II), quando soube do caso, procurou maneira de, secretamente, no silêncio da noite posta, recolher as ossadas poupadas ao fogo, sendo coadjuvado nessa piedosa tarefa pelo seu confessor e cónego de Santa Cruz, o padre João Roberto.

Sabe-se que procederam às preparações das relíquias e, já limpas e secas ao sol, envolveram-nas em panos mouriscos e colocaram-nas em caixas de madeira. Partiram com estes despojos e, chegados à Galiza, Dom Pedro separou-se da comitiva, que prosseguia para Coimbra, no sentido de homenagear o monarca, como também a sua cidade natal, com um legado muitíssimo valioso, vindo sob o cuidado do serviçal Afonso Pires.

No campo do Bolão, teve lugar a condigna receção, feita na presença de Dom Afonso II, do cabido da catedral e de grande multidão de fiéis que, processionalmente, quiseram acompanhar o percurso das referidas caixas, transportadas por duas azémolas, sempre ligeiras à cabeça do cortejo, mas, em vez de seguirem na direção da Sé, meteram-se, milagrosamente, para Santa Cruz, cujos cónegos terão preparado para serem os detentores daquelas preciosidades.

Dias, P. e Coutinho, J.E.R. 2003. Memórias de Santa Cruz. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 54, 56 e 57

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por Rodrigues Costa às 14:50

Quarta-feira, 16.11.16

Coimbra: S. António e o Mosteiro de Santa Cruz

Uma riqueza tão dilatada, como se sabia ter o Mosteiro conimbricense, contribuiu, juntamente com outros acontecimentos entretanto verificados na comunidade, para que Dom Fernando Martins, cónego regrante de Santa Cruz, ansiasse por atingir uma vida de maior perfeição, requerida pela brilhante cultura que foi recebendo desde que chegara de Lisboa, por força da radicalidade das exigências evangélicas e pelo singular testemunho da pobreza manifestado nos humildes frades franciscanos.

... Com efeito, nas opções do futuro Sant’António, pesaram as vicissitudes epocais e, também, as circunstâncias em que se viram os cinco desafortunados franciscanos (martirizados em Marrocos) que conhecia.

... Refletindo, pois, a vida missionária dos mártires marroquinos, o cónego Dom Fernando Martins desvincula-se dos crúzios e faz-se frade franciscano (num pequeno convento franciscano no local onde hoje está a igreja de Santo António dos Olivais): com o hábito de burel, o novo nome vai ser António, depois célebre como notável pregador e, porque distintamente culto, declarado Doutor Evangélico, num manifesto reconhecimento das invulgares capacidades intelectuais e da brilhante preparação cultural obtida no Mosteiro de Santa Cruz, assim declarado pelas altas instâncias eclesiais romanas.

 Dias, P. e Coutinho, J.E.R. 2003. Memórias de Santa Cruz. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 54 e 57

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por Rodrigues Costa às 10:04


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