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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 14.03.17

Coimbra: A obra de João Machado na igreja de Santa Cruz 1

A igreja foi sofrendo alterações e nos finais do século XIX encontravam-se a ladear o arco cruzeiro ornamentações de estuque e madeira, além de dois retábulos de talha dourada em que se veneravam respetivamente as imagens de Nossa Senhora da Conceição e S. João Baptista, orago da freguesia.

Igreja de Santa Cruz.jpg

 No ano de 1898 a junta de Paróquia, depois de obtida autorização superior, uma vez que os altares haviam sido mandados retirar do local em que se encontravam, leiloou-os em hasta pública a 2 de Outubro desse mesmo ano ... Ignoramos o local para onde foi vendido um dos altares laterais e pensamos que o outro se encontra na Capela de Nossa Senhora da Apresentação, na Vimieira, concelho da Mealhada. Se tal se confirmar, no que respeita a este último, estaríamos perante um retábulo dos finais do século XVII que mostra colunas salomónicas decoradas com parras.

... João Machado, que já nessa altura se começava a destacar no meio artístico coimbrão, riscou em 1899 o projeto de dois altares laterais destinados ao majestoso templo de Santa Cruz ... Não me foi possível concluir como se organizou o processo que culminou na feitura dos colaterais de Santa Cruz, mas ao consultar os livros de Receita e Despesa de João Machado deparou-se-me a seguinte nota relacionada, sem sombra de dúvida, com o altar de Nossa Senhora da Conceição:

«Em dezembro de 1905, justo com a Junta de Parochia da freguezia de Santa Cruz, um altar para o lado direito do arco cruzeiro, pela quantia de 650$000 reis, para estar pronpto em 29 de novembro de 1906».

O artista deve ter começado de imediato a fazer as moldagens em gesso e a desbastar a pedra ... O altar esculpido em pedra de Ançã atinge a altura de seis metros e poderia parecer, a quem o visse na oficina, de um tamanho exagerado, mas, integrado no respetivo contexto, a harmonia do conjunto é evidente.

Scan0003.jpg

 Os nichos da predela que representam a Anunciação, a Assunção e a Virgem da Cadeira, têm a separá-los, assentes sobre pedestais em que se encontram esculpidos medalhões e sob baldaquinos adossados, os Doutores da Igreja, Santo Agostinho, São Gregório, São Jerónimo e Santo Ambrósio. A ladear as edículas, de entre lavares renascentistas, destacam-se os bustos do Papa que então pontificava, Pio X e o do seu antecessor, Leão XIII. «A composição na linha geral e nos detalhes, a disposição das figuras dos doutores, os baixos-relevos, a riqueza dos baldaquinos, a variedade dos capiteis, a delicadeza dos medalhões, a belleza com que a Renascença vestia a admiração pelos camapheus antigos, os frisos decorados, o corte das molduras, a sua disposição, as suas penetrações» revelam bem como João Machado se encontrava totalmente imbuído do estilo que escolheu para cinzelar o seu altar.

O segundo corpo é formado por um grande nicho e flanqueado por duas colunas-balaústres. Remata este corpo uma arquitrave. Dois pequenos nichos embutidos na moldura albergam as imagens de São Pedro e São Paulo; os medalhões de São João e São Marcos ladeiam a parte superior da edícula coroada por dois anjos tenentes que sustentam uma coroa.

Remata todo o conjunto um relevo representando o Padre Eterno em Glória.

Notório se torna que a escultura de Nossa Senhora da Conceição, demasiado vultosa, se ajusta mal ao conjunto tirando-lhe harmonia, mas não nos podemos esquecer que a imagem então exposta ao culto era de roca e bem mais pequena; consequentemente, para apreciar toda a beleza da pedra esculpida por Mestre Machado, é imprescindível abstrair da figura central.

O altar, que foi dourado nas suas linhas decorativas por António Eliseu, está lavrado como se se tratasse de uma joia e não há cantinho, por mais pequeno que seja, de onde não saia um medalhão, um enrolamento, uma cartela, um animal fantástico ou uma deliciosa figurinha, de atitudes graciosas e ágeis, sugerindo aves em rápido movimento; «é bem uma obra da Renascença, pelo espírito, pela linha, pela belleza e pela harmonia».

Anacleto, R. 1984. A obra de João Machado na Igreja de Santa Cruz de Coimbra. In Santa Cruz de Coimbra do século XI ao século XX. Estudos, Coimbra, p. 195-208.

 

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por Rodrigues Costa às 10:53

Quarta-feira, 08.02.17

Coimbra e a Arquitetura Revivalista 2

Em Coimbra seguir a moda seria, por exemplo, restaurar Santa-Clara-a-Velha, o que por várias razões, incluindo as de ordem técnica, era inviável; mas a Sé Velha, românica, mesmo no coração da velha urbe, carecia de obras.

... António Augusto Gonçalves bateu-se com firme determinação para que o seu restauro se transformasse de utopia em realidade. Apoiado pelo Bispo-Conde e pela imprensa local, mas olhado com estranheza e desconfiança pelo grande público ... O Mestre podia, com certa segurança, abalançar-se a obra de tamanha envergadura, porque à sua volta gravitavam todos aqueles artistas que desde há alguns anos frequentavam a Escola Livre e aí tinham adquirido maturidade e conhecimentos. De entre eles ressaltava o nome de João Machado, que devido à sua grande intuição e habilidade conseguiu reconstruir com relativa segurança o desenho das almofadas laterais em que assentam as impostas da primeira arquivolta da porta principal do templo e o dos fustes das colunas[1]. Tanto umas como outros se encontravam profundamente corroídos não só pelo salitre como, e principalmente, pelo uso. Com efeito, ao longo de muitos séculos, os fiéis, quando amontoados saíam dos atos litúrgicos, roçavam na pedra friável e foram fazendo com que os desenhos se sumissem.

António Augusto Gonçalves conseguiu transformar o sonho em realidade: a Sé Velha foi restaurada. Os artistas que frequentavam a Escola Livre das Artes do Desenho deram a sua colaboração.

 

Portal da Sé Velha.jpg

 Portal da Sé Velha

O restauro do vetusto templo não podia, no entanto, deixar de influenciar o mundo artístico mondeguino e o neorromânico aparece ligado a outras construções. Os jazigos, tão em voga na época, deram possibilidade aos artistas de soltar a sua imaginação criadora. Utilizaram este estilo, quer alargando-o a toda a construção, quer incluindo apenas alguns elementos em conjuntos heterogéneos mas harmoniosos; e assim, podemos vê-lo um pouco por toda a parte, tanto no Cemitério da Conchada ...

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 Cemitério da Conchada. Jazigo da Família António Augusto Gonçalves

... como espalhado por outros pontos do país, embora saído de oficinas coimbrãs. Os capitéis de tipo românico, que foram também esculpidos em profusão, sustentavam muitas vezes entablamentos de varandas e arquivoltas de portas, em moradias de certo aparato.

Anacleto, R. 1982. Arquitectura Revivalista de Coimbra. In Mundo da Arte, 8-9. Coimbra, 1982, p. 3-29.

 

[1] Em fase posterior à publicação do artigo, a Autora verificou que nos fustes se verificara intervenção vultuosa de José Barata, também artista ligado à Escola Livre.

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por Rodrigues Costa às 10:12

Quarta-feira, 01.02.17

Coimbra: Uma Escola de Canteiros 5

O sacrário de altar, que António Gomes fez para a capela do palácio do Sr. Dr. Carvalho Monteiro em Sintra, é de um desenho que o moço artista complicou no desejo, que tão nobremente o distingue, de se aperfeiçoar e de caminhar na profissão em que é tão estimado pelo seu caracter, como pela alegria com que trabalha, sempre a procurar fazer melhor.

O seu sacrário, de uma bela linha, com os santos em oração sob baldaquinos rendilhados, encimando um curioso enfeixamento de colunas mostra todas as suas qualidades e recursos artísticos.

Luís da Fonseca – Parte média de um frontal de

Luís da Fonseca – Parte média de um frontal de altar

Luiz Fonseca é de uma família de artistas e tem trabalhado sempre na oficina de João Machado, ao lado do pai, artista justamente considerado em Coimbra, há muitos anos.

O seu trabalho - um frontal de altar - é delicadamente tratado, numa grande doçura de cinzel, amorosamente detalhado, e revela-o já como trazendo galhardamente o nome que assinala toda uma família de excelentes canteiros.

 

Para terminar a resenha dos trabalhos em pedra, apresentados na exposição da Escola Livre das Artes do Desenho, resta-me falar da mísula de António Gomes.

É um rapaz muito novo ainda, mas, em tudo o que faz ou planeia, revela uma natureza artística fora do vulgar.

Desenho ou modelação sua fazem demorar o olhar.

O seu desenho revela um espirito que viu e a intenção de dizer claramente o que o impressionou na obra de arte ou da natureza.

A sua modelação não tem nada da banalidade d'um estudante que tenta reproduzir planos e volumes.

Modela por amor á pedra, para fixar numa matéria branda o que concebeu para ser executado em pedra. Não é o barro que vê quando está modelando, nem os seus efeitos que procura, é a pedra que os seus olhos estão lavrando, tentando realizar a imagem no barro dúctil.

A palheta é como que o escopro de dentes e no barro traça logo os efeitos que mais tarde há-de realizar na pedra

As cabecinhas de dois anjos da mísula eram de uma técnica de encantar, como toda a execução, em que a pedra por efeitos no lavrar se coloria dos mais imprevistos tons.

António Gomes – Modilhão em gesso.png

António Gomes – Modilhão em gesso

 O modilhão, que apresentou em gesso, é uma obra de forte execução, que não parece de uma criança. A mascara é colorida e viva, o desenho fácil e largo.

Na modelação, os seus dedos não deixam seduzir-se pelas facilidades do barro, que trata como se fosse uma matéria dura, num grande amor pela pedra, que revela a excecionalidade da sua organização artística.

Com amor á sua profissão, e á matéria que lavra, com a sua forte organização artística, António Gomes virá um dia a honrar singularmente a arte em que trabalha e que se assinala no movimento artístico nacional por tão notáveis obras dos artistas de Coimbra.

 

Na alocução proferida na abertura da exposição disse António Augusto Gonçalves: as artes da pedra e do ferro estão ostentando em Coimbra recursos de vitalidade e tão desenvolvida compreensão estética como em parte alguma do país.

Assim o mostra o que deixamos dito, quanto á arte de canteiro, e esperamos demonstra-lo também quanto á serralharia artística, objeto do próximo artigo, com que fecharemos estas despretensiosas notas sobre a exposição de Coimbra.

JOAQUIM MARTINS TEIXEIRA DE CARVALHO

Carvalho, J.M.T. Uma escola de canteiros, In Illustração Portugueza, 2.º semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 162-165.

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por Rodrigues Costa às 11:06

Terça-feira, 31.01.17

Coimbra: Uma Escola de Canteiros 4

Coimbra: Uma Escola de Canteiros 4

António Carolino – Verga de uma fresta manuelin

António Carolino – Verga de uma fresta manuelina

 Dos outros lavrantes expositores, apenas não é discípulo de João Machado o Sr. António Carolino, artista de dotes naturais, que se tem desenvolvido á vontade, longe de qualquer direção, e que é um dos sócios mais recentes da Escola Livre das Artes do Desenho.

Expôs a verga de fresta manuelina, que reproduzimos e foi feita, como aliás todos os trabalhos de canteiro de que teremos a ocupar-nos, para o palácio que faz atualmente construir em Sintra o Sr. Dr. Carvalho Monteiro.

O desenho foi bem compreendido, num desenvolvimento gradual e natural das linhas, sem hesitações; a modelação é vigorosa, o corte largo, e planos bem acentuados e bem graduados.

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José Ferreira – Gárgula

A gárgula de José Ferreira é, pela conceção, uma das obras expostas em que mais se acentua o espirito da Renascença, pela visagem dolorida da máscara terminal.

Não é uma obra forte, como as gárgulas do Jardim da Manga ou do Colégio de S. Tomás, em que o espirito gótico se vê ainda bem na nitidez dos planos, no grotesco das figuras, na acentuação caricatural dos detalhes anatómicos; é antes um trabalho de completo espirito do renascimento na conceção e na sua realização técnica, de uma execução, de uma doçura exageradas talvez.

A boca é enigmática como a compreendeu a arte do renascimento; ri e chora, ao mesmo tempo, misteriosamente.

A anatomia, de visão, dá bem a carne, saindo viva do tufo de plantas que prende a gárgula ao edifício.

O movimento, escolho em que tantas vezes se embaraçam os artistas modernos, que tentam criar tipos novos d'estas delicadas fantasias artísticas, é bem achado: a figura adianta-se numa atitude natural, graciosa, em pleno equilíbrio no gigante de que espreita.

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João das Neves Machado – Pia de água benta

João das Neves Machado, primo de João Machado tem um modo de talhar a pedra, com decisão, em planos largos e encontrados, de um belo efeito decorativo. É um artista de recursos naturais, cuja individualidade se acentua dia a dia, conhecendo bem a natureza da pedra em que trabalha, e sabendo utilizar todas as suas qualidades nos efeitos decorativos que obtém.

A sua execução pode dizer- se colorida, tais são os efeitos de luz e sombra que procura, já pela disposição dos planos e volumes, já por particularidades de técnica que modificam o aspeto da pedra, nas esculturas de outros, uniformemente branca e monótona.

Carvalho, J.M.T. Uma escola de canteiros, In Illustração Portugueza, 2.º semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 162-165.

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por Rodrigues Costa às 10:54

Sexta-feira, 27.01.17

Coimbra: Uma Escola de Canteiros 3

João Machado é o mais completo discípulo de António Augusto Gonçalves, quer na sua arte, quer na orientação geral do seu espirito.

E uma alma de artista formada já, um temperamento que começa agora a contar-nos as suas visões artísticas.

Expõe duas obras - a predela em execução, e um estudo em gesso, ambas para o altar de Nossa Senhora da Conceição na igreja da Santa Cruz, que, como as obras de arte capitais do convento, foi delineado em estilo do renascimento.

É seu o desenho como a execução da obra. João Machado conhece a Renascença bem de muito a ter estudado, e nesse estudo tem feito a educação do seu espirito que é, apesar de tudo, apaixonado por todas as tentativas modernas de arte.

A Renascença é na verdade a mãe da escultura contemporânea: Donatello e Miguel Ângelo são os ascendentes diretos de Rodin.

Muito cedo diretor de uma oficina, João Machado tem versado toda a vida problemas de arquitetura; daí o equilíbrio de todas as suas obras, ou sejam o plano de um grande edifício, ou o desenho de uma pequena joia para o capricho de um ourives.

Os maiores artistas do renascimento italiano começaram por ourives; só mais tarde passaram a escultores, revelando sempre o seu trabalho o amor que lhes ficou ao seu primeiro mister.

Com João Machado deu- se o fenómeno inverso: foi do estudo e contemplação demorados das obras da Renascença que lhe nasceu, pela admiração, o amor às artes do metal.

Assim é que hoje são numerosas as obras feitas em ferro forjado por desenhos seus; e mais de um tem feito para obras de ourivesaria.

Assim se criou e completou nele o espirito da Renascença, que domina a maior parte da sua obra decorativa.

Mas, apesar de tão intimamente consubstanciado com a alma dos artistas da Renascença, João Machado é um artista de hoje, como o prova a sua larga obra.

A sua alma moderna vê-se mesmo através dos seus mais perfeitos trabalhos do renascimento.

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João Machado – Predela de um retábulo, em estilo Renascença, para a igreja de Santa Cruz de Coimbra

Na predela tudo revela a posse em que está deste estilo: a composição na linha geral e nos detalhes, a disposição das figuras dos doutores, os baixo relevos, a riqueza dos baldaquinos, a variedade dos capitéis, a delicadeza dos medalhões, a beleza com que a Renascença vestia a admiração pelos camafeus antigos, os frisos decorados, o corte das molduras, a sua disposição, as suas penetrações.

O altar de João Machado é bem uma obra da Renascença pelo espirito, pela linha, pela beleza e pela harmonia.

É-o também pela análise subtil dos movimentos fugidios que animam todas as figuras, coisa tão própria da Renascença a que, no apostolado da Sé Velha, dá a unidade, a intensidade dramática que nos domina naquela obra de arte excecional.

Pela riqueza da decoração e pelo seu espirito, a obra da predela é da Renascença francesa e lembra por uma aproximação fácil a do púlpito de Santa Cruz, não faltando quem erradamente iguale João Machado ao artista genial que lavrou aquelas formosas pedras.

Os dois artistas são, porém, dois temperamentos opostos, em duas situações diversas de vida.

O autor do púlpito é um torturado, conhecendo bem toda a miséria da carne, toda a alucinação que persegue os artistas franceses muito para além do período gótico.

O seu trabalho condensa, é um artista reprimindo-se, cortando por exuberâncias.

João Machado é um tranquilo, uma natureza que se expande alegre, nas primeiras horas da sua vida de artista.

As figuras de João Machado aparecem-nos tranquilas, a sorrir, quando evocadas; as do autor do púlpito perseguem-nos.

É que ao artista de hoje falta o meio de então.

Só assim se poderiam gerar obras iguais de sentimento e intenção decorativa.

Para fazer as gárgulas do Jardim da Manga, é necessário ter visto os corpos deformados pela histeria, ter visto o diabo nos corpos dos possessos, na crispação das mãos e dos pés, torcendo o olhar, convulsionando a garganta num grito satânico.

Para se sentir assim a pompa dos brocados raros, a leveza aristocrática das linhas preciosas era necessário ver e admirar todo o esplendor do culto antigo no convento de Santa Cruz.

João Machado não tem tido tempo de se encontrar com Deus ou com o Diabo, que nestes tempos se furtam mais á analise; o seu talento criou-se na adoração do seu lar modesto.

Por isso é vulgar encontrar, em imagens da Virgem que ele faz, as feições queridas da mulher estremecida, e ver o sorriso, a boca fresca dos filhos nos anjos que voam em volta dela.

João Machado é um artista do seu tempo e é hoje pelo amor á sua arte, pelo conhecimento que tem da sua evolução histórica, pela sua técnica delicada, pela sentimentalidade fina da sua alma de artista, o primeiro canteiro do seu país.

Há na exposição uma pequenina obra, que mostra que o seu espirito inquieto, na ânsia de saber, aspira a mais alguma coisa. É o busto da filha, trabalho incompleto, mas em que a frescura da boca, a delicadeza de modelação do colo e da parte superior do peito, revelam uma tendência nova do seu espirito.

Deve segui-la.

Modele do natural pertinazmente, como tem modelado de obras de arte e encontrará pela admiração da carne a revelação do pensamento, como a admiração do mármore o levou á revelação da carne e da vida.

Carvalho, J.M.T. Uma escola de canteiros, In Illustração Portugueza, 2.º semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 162-165.

 

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por Rodrigues Costa às 10:52

Quarta-feira, 10.02.16

Coimbra e as suas personalidades: Pompeu Aroso

Antes de concluir apenas gostaria de prestar a minha singela homenagem a um grande mestre do ferro forjado, que foi José Pompeu Aroso (13.7.1910-26.2.1986). Trabalhou o ferro desde os 14 anos de idade e dedicou-se à arte do ferro forjado até ao fim dos seus dias. Em 1984 fora-lhe atribuída a Medalha de Ouro da cidade de Coimbra. Foi para mim uma experiência inesquecível ter visitado a sua oficina, tendo-o como guia, em Fevereiro de 1982. Ao tempo, o Mestre Pompeu Aroso ainda alimentava uma esperança, embora ténue, de os seus colaboradores poderem vir a manter a oficina em laboração, mesmo após o seu desaparecimento. Isso, infelizmente, não se verificou. Entretanto ofereceu-me, gentilmente, uma síntese da sua biografia, em verso, datada de 4-7-1978, à qual deu o título «É assim uma vida». É com esse testemunho, que considero de relevância para o conhecimento do homem e do artista, no seu percurso por este mundo, que termino este trabalho.

É ASSIM UMA VIDA

Sou de Coimbra de ferro torto
Tenho os brasões em pessoa

Mestres Machados e Gonçalves
Pioneiros de Belas Artes
Chaves de Almeida e Rodrigues
E saudoso Albertino Marques

Com amor e sacrifício
De muitos anos vincados
Este serralheiro de ofício
Aquém dos seus antepassados

Autor de vários cinzeiros
O carro de mão e o gato
É do signo dos caranguejos
E do bacalhau sem pataco

Ferro frio mal tratado
Quando se pensa em casa
Para ser bem forjado
Só obedece estando em brasa

Nada tenho nada valho
Por tudo aquilo que fiz
De bigorna martelo e malho
Neste século dos xis-xis

O’ Coimbra minha terra
Da cultura e da arte
Da tradição o que se espera
É deixar morrer a “Forjarte”
Eu trabalho sim senhor
Quando não tenho que fazer
Luto sempre com amor
Sempre e sempre até morrer

4-7-78
José Pompeu Aroso

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 312 e 313

Uma nota pessoal.
Tive ocasião de conviver com Pompeu Aroso e de visitar diversas vezes a sua oficina. Aquando da homenagem que lhe foi prestada pela Cidade e da consequente organização da exposição "Serralharia Artística. Homenagem da CMC a José Pompeu Aroso", esse conhecimento transformou-se em amizade. Fui, também, testemunha da sua esperança que a Forjarte continuasse.
Tinha já adquirido os atrás referidos cinzeiros “O carro de mão … o signo dos caranguejos … e o bacalhau sem pataco”. Um dia, menos de uma semana antes da sua morte, fui surpreendido no meu gabinete por Mestre Aroso que me disse que fazia questão de me oferecer uma peça.
A peça – uma simples mas muita bela candeia – ainda hoje está em local destacado em minha casa.

 

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por Rodrigues Costa às 11:16

Terça-feira, 09.02.16

Coimbra, a “cidade das grades” 2

… No que ao ferro forjado diz respeito, foi também a partir dos inícios do século que aquela arte mais se desenvolveu, graças à Escola Livre das Artes do Desenho (criada em 1878) e ao Mestre António Augusto Gonçalves

… Já em 1906, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho (Quim Martins), no trabalho intitulado «Os serralheiros da Escola de Coimbra», aludia a nomes destacados da arte do ferro forjado, alguns deles discípulos de António Augusto Gonçalves. Começa por se referir a Manuel Pedro de Jesus e a João Machado, que considerava cooperadores daquele mestre, «nesta obra de ressurgimento artístico». Menciona outros nomes, como António Maria da Conceição, António Couceiro e Lourenço d’Oliveira Chaves de Almeida, arquiteto Augusto da Silva Pinto Joaquim Mendes de Abreu e Joaquim Abreu Couceiro.
Ao concluir o seu artigo, Quim Martins sublinhava:
«E é, em minha opinião, o ensino de António Augusto Gonçalves o único que, no nosso país, mostra a compreensão inteligente das preocupações pedagógicas que têm reformado completamente no estrangeiro a educação artística do operário».

Como é sabido, a estes grandes mestres do ferro forjado, em Coimbra, outros se sucederam, ao longo de cerca de três quartos de século. A sua vida e obra constituem património cultural de grande relevância, sem esquecer um saber-fazer, ancestral, que é hoje pouco conhecido e divulgado. Além do estudo da obra feita por aqueles, devia manter-se viva a tradição, em oficina a funcionar nos moldes tradicionais, que fosse não só um museu vivo, mas também um centro pedagógico e cultural.

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 310 a 312

 

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por Rodrigues Costa às 10:46

Quinta-feira, 17.12.15

Coimbra, a Escola de Canteiros de Coimbra 2

A obra do “Monteiro dos Milhões” (o Palacete da Regaleira) começava a dar brado, e, em 1904, ‘O Século’, na correspondência de Sintra, escrevia:
… Os artistas de cujas mãos sáem éssas óbras primas em pédra são da Batalha …

… transcrito na ‘Resistência’, mereceu uma violenta réplica, saída certamente, porque o tom o deixa adivinhar, da pena do seu diretor, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho.
“ … Os artistas que fizérão as obras que o critico cita são de Coimbra e châmão-se António Augusto Gonçalves, João Machado, Jozé de Souza Barata e José Fonseca. João Machado e Jozé Barata são discipulos de António Augusto Gonçalves e estudárão na Escola livre das artes do desenho. Jozé Fonseca foi aluno da Escóla Brotéro e discipulo de João Machado. Jozé Baráta, lavra como nenhum outro artista português, em estilo manuelino. João Machado é um artista de sensibilidade artística rára, compreendendo e sentido as belezas de todos os estilos, como demonstrão as suas obras (…). Fonseca é um rapás muito novo, já oje um canteiro de valor e que mais poderá elevar-se, se continuar a estudar e não perder no meio lisboeta a modestia e a capacidade do trabalho”.

Mas o autor do artigo olvidara-se de um nome e, certamente a sensibilidade do artista visado terá sofrido com o esquecimento, pelo que no mesmo jornal, dias depois, voltou à carga … esqueceu-nos o nôme de um artista, injustiça que ôje reparamos. Chama-se êle João das Neves Machado; foi aluno da Escóla Brotéro, e é ôje socio da Escóla Livre das Artes do Desenho. É, com J. Fonsêca, um discipulo tambem de João Machado, na sua oficina completou a educação insuficiênte da Escóla Brotéro …”

… Um outro aspeto, quiçá bem importante, relaciona-se com a escola de canteiros de Coimbra que desde sempre se teve como ligada à obra … A maior parte dos artistas, encontravam-se associados à Escola Livre e praticamente todos a João Machado … Mas se alguns, como José Barata e António Gomes que se haviam deslocado para Sintra, a fim de trabalhar na Regaleira, regressaram à cidade, outros, como José e Luís Fonseca por lá se quedaram, o primeiro na vila e o segundo em Lisboa.
Mestre Fonseca acompanhou os trabalhos da Regaleira, pode bem dizer-se, desde o princípio até ao fim.
Esta verdadeira escola de canteiros de Coimbra, durante a sua vigência, assume tal importância na vida artística do país que ouso perguntar-me se ela, dentro destes parâmetros, se pode considerar periférica.

Anacleto, R. 1997. Arquitetura Neomedieval Portuguesa. 1780-1924. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Pg. 335 a 337

 

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por Rodrigues Costa às 10:30

Quarta-feira, 16.12.15

Coimbra, a Escola de Canteiros de Coimbra 1

Para lavrar os ornatos do imóvel (o atual Bussaco Palace Hotel) foram chamados canteiros-artistas da cidade mondeguina, formados na Escola Livre das Artes do Desenho … No ‘Tugúrio de Almedina’, onde as relações entre professores e alunos se estreitavam e confundiam, formaram-se serralheiros, canteiros, escultores, marceneiros, entalhadores, ceramistas e pintores, que procuravam colher ensinamentos válidos no campo da história da arte, quer através de conferências, verdadeiras lições, proferidas por alguns eminentes vultos deste ramo do saber ou, sempre que tal o justificasse deslocando-se às terras circunvizinhas, a fim de ‘in loco’, observar detalhadamente os monumentos … Foram homens como João Machado, José Barata, José da Fonseca, Alberto Caetano, José Ferreira, Anacleto Garcia e outros, que colocaram o seu saber e o seu talento ao serviço da cantaria lavrada, utilizada no imóvel: homens que eram considerados, nas folhas de pagamentos, como ‘escultores’.

… A autoria das estátuas é facto irrefutável, pois num dos ‘Livros de lucros e perdas de João Machado’, encontra-se escriturado na relação do ‘Trabalho executado durante o ano de 1897’ … 2.ª estátua para o Bussaco … 3.ª estátua para o Bussaco … “Acabei a estatua para o Bussaco que / representa a Victoria

… A caixa da escadaria nobre … duas airosas estatuetas representando uma açafata e um pajem, saídos … da oficina de João Machado … A pedra esculpida que ornamenta o grande salão de festas saiu do cinzel de João Machado … Para o mesmo salão lavrou a monumental chaminé … Ao centro surge um menestrel a tocar alaúde, estátua esculpida por Costa Mota … Do salão nobre passa-se, através de duas portas, encimadas por bustos … saíram do escopro de Costa Mota Sobrinho …

As obras iniciaram-se em Novembro de 1888 e desenvolveram-se … até 30 de Junho de 1891 … acabou por paralisar a construção … 28 de Julho de 1894, foi autorizado o seu prosseguimento.

Anacleto, R. 1997. Arquitetura Neomedieval Portuguesa. 1780-1924. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Pg. 312, a 320

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por Rodrigues Costa às 11:38

Terça-feira, 30.06.15

Coimbra e João Machado

João Machado nasceu em Coimbra, no seio de uma família de operários. Muito novo começou a trabalhar com seu pai, que possuía uma pequena oficina … que tinha uma natural inclinação para as Belas Artes … nomeadamente a modelagem e a escultura em madeira. Não terá sido pois, por mero acaso, que a primeira obra de João Machado premiada numa exposição foi um «Cristo» em bucho.
Em 1879, tentando aperfeiçoar a sua incipiente técnica, inscreve-se na Associação dos Artistas … mas logo no ano seguinte, com a fundação da Escola Livre, para aí se transfere, começando a receber orientação de Mestre Gonçalves.
Produz em seguida obras dos mais variados tipos, passando pela pintura, pela talha e pela modelação em barro e em gesso, e pouco a pouco começa a ver os seus méritos reconhecidos pelo público.

Definitivamente estabelecido como canteiro decorador, João Machado, viu aumentar o número das suas encomendas … levaram-no a ser contratado para as obras do Palácio do Buçaco … Em 1893, quando se inicia o restauro da Sé Velha é convidado também a colaborar nesta obra.

À sua oficina, no n.º 23 da Rua da Sofia acolhiam-se então alguns jovens artificies que eram industriados na arte de talhar a pedra … Revivia-se assim o tipo de trabalho coletivo tão típico da cidade do Mondego no século XVI.

Em 1907 foi contratado para lecionar … na Escola Brotero de Coimbra

A obra-mestra de João Machado é … o conjunto de dois altares do cruzeiro da Igreja de Santa Cruz, dedicados a Nossa Senhora e executados entre 1906 e 1910.
O do lado direito dos visitantes foi o primeiro a ser terminado … Como o seu par é de pedra de Ançã e eleva-se a seis metros de altura.

De características diferentes é o busto da «República» que hoje se pode ver na escadaria do edifício do Município Coimbrão. Aqui a «República» é a jovem real, serena e confiante, de lábios entreabertos a deixar perceber um leve sorriso, mas simultaneamente grave, como que prevendo as muitas contrariedades que teria de enfrentar ao longo da vida.

É nesta atividade de materializar na dura pedra os seus sentimentos … que Machado de mostra verdadeiramente e inegável artista, um artista que nos legou uma obra notável.

Dias, P. 1975. João Machado. Um Artista de Coimbra. Edição do Autor, pg.13, 15 a 17, 22, 26, 31

 

 

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por Rodrigues Costa às 19:05


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