Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 07.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 2

Ora foi, justamente, a opção mais difícil que Mendes Silva e os seus colegas diretores assumiram, contando para tal com o acordo e o facto de Bissaia Barreto ter sido, enquanto professor catedrático de Cirurgia da Faculdade de Medicina, não só um crítico em relação à forma como foram feitas as obras na cidade universitária – ao ponto de manifestar essa discordância pública nas páginas do Diário de Coimbra –, mas também de se bater pela construção de um novo hospital universitário fora da Alta, que evitasse, uma vez mais, a prevista destruição de edifícios significativos do ponto de vista do seu valor patrimonial, como eram os casos do Colégio de São Jerónimo e do Colégio das Artes. Com efeito, o dirigente estudantil Fernando Mendes Silva solicitou uma reunião a Bissaya Barreto, a qual teve lugar no antigo edifício dos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde foi delineada e concertada uma estratégia que iria permitir dotar no futuro a Associação Académica com as elegantes e funcionais instalações que atualmente ocupa e, ao mesmo tempo, acelerar a transferência do Instituto Maternal para os terrenos que hoje ocupa na então designada Quinta da Rainha e cujas instalações são projeto do arquiteto Carlos Ramos. Sabemos, ainda, que Bissaya Barreto colocou como condição para o estabelecimento de tal acordo, que o futuro teatro universitário viesse a ser construído integrado no complexo das novas instalações para a Académica, de modo a tirar o máximo partido da centralidade da sua localização em termos urbanos. Numa visão retrospetiva destes factos atendamos melhor ao alcance estratégico e à importância do acordo então estabelecido entre o presidente da AAC e o cirurgião conimbricense.

MS 2.1.jpg

Maternidade Bissaia Barreto. Imagem acedida em: https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid

 É que, além do mais, ele permitiu dotar e beneficiar a cidade com uma nova Maternidade, a qual passou, por sua vez, a integrar mais tarde a presente estrutura dos hospitais civis – complexo hospitalar criado apenas em 1971 e que já existia, desde há muito, nas cidades de Lisboa e do Porto, a par dos respetivos hospitais universitários – que então faltava a Coimbra e que seria essencial para potenciar e valorizar, ainda mais, o ensino superior e universitário, tal como a prática e o exercício quotidiano da Medicina, da Farmácia, da Enfermagem e do Serviço Social, que desde há muito se desenvolviam na cidade (cf. Jorge Pais de Sousa - Bissaya Barreto: Ordem e Progresso. Coimbra: Minerva, 1999, p. 223).

          Em conclusão, a cidade e a Associação Académica de Coimbra devem, à visão da direção de estudantes presidida por Fernando Mendes Silva, entre 1953 e 1954, a iniciativa associativa e o entendimento estratégico que permitiu culminar com a construção no final daquela década de um moderno e funcional complexo de instalações associativas e culturais, projetado pelo arquiteto Alberto Pessoa

MS 2.2.jpg

Novas instalações da AAC, início das obras. Acervo Carlos Ferrão

MS 2.3.jpg

A ala das Secções da AAC já em fase adiantada. Acervo Carlos Ferrão

Complexo arquitetónico que é constituído pelo corpo do edifício que aloja as secções, o corpo que compreende as salas de ensaios, o edifício do Teatro Gil Vicente e o corpo das cantinas, os quais orlam, por sua vez, o jardim projetado pelo arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles. Jardim que constituiu um primeiro ensaio para o posterior projeto paisagístico dos jardins que envolvem hoje a sede da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.

MS 2.4.jpg

Edifício do Teatro Gil Vicente, década de 70. Imagem acedida em https://tagv.pt/sobre/

 

MS 2.5.jpg

Ala das Secções já finalizada. Acervo RA

MS 2.6.jpg

“Cantinas Velhas”. Imagem acedida em: www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid

Do ponto de vista artístico, Abel Manta realizou e concluiu, em 1960, dois painéis para valorizar este emblemático património arquitetónico. Um primeiro painel que está voltado para o jardim interior e que representa as atividades culturais da Academia, e um segundo painel, projetado sobre o corpo das salas de ensaio e voltado para a Avenida Sá da Bandeira, que representa a evolução do traje académico.

MS 2.7.jpg

Jardim interior da AAC e painel azulejar da autoria João Abel Manta. Acervo RA

MS 2.8.jpg Fachada  principal do edifício da AAC. Painéis de azulejos da autoria de João Abel Manta. Acervo RA

Em linguagem arquitetónica, todos podemos fruir hoje de um conjunto de edifícios que vivem da “articulação de vários corpos, de várias escalas e, de um modo mais subtil, de várias linguagens. Desde o volumoso corpo do teatro – que sugere citações dos edifícios charneira de Alvar Alto, ou mesmo do londrino Royal Festival Hall, de Leslie Martin – , até ao edifício das secções – que, apesar da sua pouca ortodoxia, é o mais corbusiano de todos, com o seu coroamento em terraço coberto e os seus rasgamentos horizontais quebrados pela caixa de escada na fachada posterior –, passando pelo sabor 'brasileiro' das sucessivas abóbadas de betão, tão prolificamente usadas na época” (José António Bandeirinha – Os Edifícios da Associação Académica e o Teatro de Gil Vicente, in Monumentos, Lisboa, Março de 1998, p. 86).

 Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 15:32

Terça-feira, 06.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 1

Damos hoje início a uma série de sete entradas, referentes ao Dr. Mendes Silva. Alguém com quem tivemos a honra de trabalhar e com quem aprendemos que “Por Coimbra, tudo” e, também, que o mais importante é meter “Mãos à obra”.

O texto, inédito, que a morte prematura do seu Autor deixou por publicar, foi-nos facultado pelas Filhas do antigo Presidente da Câmara Municipal de Coimbra que, igualmente, nos cederam algumas das imagens que o vão ilustrar. Por isso, o nosso obrigado.

MS  1.1.jpg

Mendes Silva, 1982. Acerbo da Família Mendes Silva

 O que mais caracterizou a trajetória de vida de Fernando Luís Mendes Silva foi, em nosso entender, o facto de ele ter sido um notável na sociedade e na política em Portugal. E talvez, por isso, possamos hoje afirmar que poucos cidadãos como Mendes Silva contribuíram tanto, indireta e diretamente, para marcar e capacitar Coimbra com equipamentos modernos de uso público, bem como para urbanizar a cidade segundo os princípios urbanísticos mais arrojados para a Europa do seu tempo. Neste sentido, o seu perfil, enquanto cidadão e dirigente desportivo ímpar que também foi expressa a tensão e a síntese criativa que conseguiu estabelecer entre os interesses legítimos da esfera do privado e a consecução do interesse público.

É para assinalar a passagem dos cento e vinte anos sobre a fundação da Associação Académica de Coimbra e, simultaneamente, dos quinze anos sobre o desaparecimento de um dos seus antigos e mais destacados dirigentes que nos ocorreu escrever este texto de carácter ensaístico. E tudo isto num país historicamente dependente da ação centralizadora do Estado, sendo esta última, por sua vez, tantas vezes obstáculo para o desenvolvimento pleno da participação na vida pública associativa e a consequente assunção das responsabilidades da cidadania por cada um de nós. Neste sentido, o curto percurso de vida de Fernando Luís Mendes Silva (22.10.1930-31.05.1992) merece, justamente, ser salientado e rememorado, na medida em que ele foi pontuado por momentos de fulgurância e de singularidade na participação no espaço público.

Arquitectar” a Associação Académica de Coimbra

 Foi com apenas 20 anos de idade que o jovem estudante universitário, Fernando Luís Mendes Silva, iniciou a sua trajetória como diretor desportivo tendo a seu cargo as equipas de formação da Secção de Futebol da AAC.

MS 1.2.png

Mendes Silva, finalista de Direito. Acervo da Família Mendes Silva

 E na verdade, a estreia foi auspiciosa, uma vez que logo na época de 1950/51, a Académica conquistou, sob a sua direção, o campeonato nacional de juniores. O mesmo título de campeã nacional que, aliás, a Académica voltaria a ganhar durante a época de 1953/54, ou seja, coincidindo com o mandato e o empenhamento pessoal a todos os níveis extraordinário durante o qual Mendes Silva presidiu aos destinos da AAC. 

Oriundo de uma família da classe média conimbricense, Fernando Luís Mendes Silva presidia em 1953-1954 aos destinos da Direção Geral da Associação Académica, num altura em que estudava Direito na Universidade de Coimbra, quando teve a oportunidade de promover, enquanto dirigente estudantil, um estudo circunstanciado sobre as gritantes necessidades de espaço sentidas e vividas pelas diversas secções culturais e desportivas acantonadas nas instalações do vetusto e desadequado Palácio dos Grilos.

MS 1.3.jpg

Palácio dos Grilos. Sede da AAC, ao tempo da presidência de Mendes Silva. Acedido em: https://1.bp.blogspot.com/-nrLZWS7peI4/XaHhI0_S-0I/AAAAAAAADpo/

 No entanto, o jovem e dinâmico dirigente não se ficou apenas pela identificação e estudo cuidado destes problemas. É que, em seguida, teve a ousadia e a irreverência política de solicitar uma audiência em Lisboa, ao então presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, no sentido de lhe apresentar as pretensões estudantis e pedir uma solução para o problema do completo desajustamento e inadequação das instalações associativas, com base na entrega de um documento meticuloso a que denominou de «Exposição da Academia de Coimbra» (Acessível no Arquivo Salazar, in Instituto dos Arquivos Nacionais Torre do Tombo, AOS/CO/ED-3)

O presidente do Conselho entendeu a urgência em resolver o problema da insuficiência e da inadequação do espaço com que então se confrontava, no seu quotidiano, a mais prestigiada associação de estudantes universitários portugueses. A falta de dignidade das instalações era pouco condizente com o facto de a Associação Académica constituir a mais antiga associação estudantil universitária em Portugal (1887), a maior em dimensão e património e, sobretudo, em dinâmica, diversidade e criatividade cultural e desportiva. Numa atitude paternalista, Oliveira Salazar propôs-se, naquela conjuntura histórico-política do Estado Novo, encontrar uma solução para os problemas colocados pelos “rapazes de Coimbra” no quadro das obras em curso na cidade universitária (Cf. Fernando Mendes Silva – Ainda a Segunda Tomada da Bastilha, in «Jornal de Coimbra», 30 de dezembro de 1987, p. 2). Colocavam-se então dois cenários possíveis em matéria de construção de raiz das novas instalações da Associação Académica.

O primeiro cenário estudado consistia em construir os novos edifícios da AAC junto ao atual Estádio Universitário na margem esquerda do Mondego, o que significava que as novas instalações associativas ficariam longe do campus universitário.

O segundo cenário congeminado, e também o mais difícil de concretizar, passaria por encontrar uma localização central e nobre no contexto do tecido urbano da cidade, mas exigiria sempre obter um compromisso com Bissaya Barreto, o então diretor da Instituto Maternal e do Ninho dos Pequenitos, cujas edificações, adaptadas e já então também desajustas face ao cumprimento dos seus objetivos e necessidades em matéria de saúde, ocupavam a área de implantação delimitada pela Rua Padre António Vieira, pela Avenida Sá da Bandeira e pela Rua Oliveira Matos.

 

MS 1.4.png

Instalações do “Ninho dos Pequenito”, em 1938. Imagem acedida:  https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/20486/1/Texto%20final%20da%20tese.pdf

 Acontecia, também, que o Instituto Maternal procurava terrenos para novas instalações, de forma a capacitar Coimbra com novos equipamentos projetados e construídos de raiz para alojar e prestar, adequadamente, serviços de saúde pública vocacionados para a proteção e a promoção da infância e da maternidade.  O país vivia um tempo de crescimento demográfico e de promoção da natalidade. Tratava-se de um acordo difícil de concretizar por implicar terceiros, mas era de longe aquele que, a médio e longo prazo, mais beneficiaria a cidade e a Associação Académica, em termos da criação de novas e modernas infraestruturas e da consequente melhoria da prestação de serviços nos domínios da promoção da cultura, e da interação estreita que deve existir entre desporto e saúde pública, numa cidade com uma significativa população escolar. 

Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:15

Quinta-feira, 01.12.22

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos. Reflexões 4

Os eléctricos centenários de Coimbra estão há 20 anos à espera de futuro é o artigo a que nos referimos na primeira entrada desta série, assinado pelo jornalista Camilo Soldado, com fotografias de Paulo Pimenta e publicado no jornal “Público” a 20 de agosto de 2022. Aos seus autores agradecemos a autorização para citarmos o texto e para reproduzir as fotografias.

Artigo Museu 1. Foto Paulo Pimenta b.jpg

O eléctrico 15 foi recuperado e é frequentemente colocado à frente da antiga central. Foto Paulo Pimenta

Vários eléctricos que serviram o sistema de transportes públicos de Coimbra até à década de 1980 estão fechados, na sua antiga remise, desde a década de 2000. Entre os nove veículos que ainda se encontram na antiga central da Alegria, ao fundo da mata do Jardim Botânico, há carros centenários, que são testemunha do nascimento do serviço de transportes públicos de Coimbra.

Entre 1984 e a viragem do milénio, os veículos históricos podiam ser visitados no Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, que funcionava no mesmo edifício. Desde que o espaço fechou as portas, houve planos para as voltar a abrir, mas nunca saíram do papel.

A viatura mais rara da remise da Alegria é o carro americano, um veículo que andava sobre carris mas era de tracção animal. O “chora”, como ficou conhecido, começou a circular em 1874.

 

Artigo Museu 2. Foto Paulo Pimenta b.jpg

O Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra esteve aberto entre 1984 e a viragem do milénio. Foto Paulo Pimenta

 Nova candidatura

É difícil apontar uma data de fecho com precisão. A autarquia não tem essa informação … Certo é que, entre 2004 e 2008, o antigo museu teve novos inquilinos: a companhia O Teatrão, que ali se instalou depois da Capital Nacional da Cultura (CNC) de 2003 … pelo que o museu já tinha sido desmantelado nesse ano.

… Em Fevereiro deste ano, poucos meses depois de tomar posse, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), José Manuel Silva, visitava o edifício. “Vamos trabalhar para que possa ter melhores dias”, escrevia o autarca, numa declaração de intenções com que legendava uma publicação nas redes sociais.

Ao PÚBLICO, o gabinete de comunicação da autarquia refere que “o actual executivo pretende criar um núcleo dedicado ao carro elétrico em Coimbra e à sua relação com o crescimento e com a história da cidade”. Para isso, submeteu já “uma candidatura ao programa [de fundos comunitários] 2030 neste sentido”.

… Pelo meio, em 2016, o primeiro director do museu, António Rodrigues Costa, diz ter sido encarregue pelo então presidente da câmara, Manuel Machado, de elaborar um documento que fizesse um ponto de situação do museu. No relatório, há um inventário e breve história de cada veículo, mas há também uma menção a quatro itens em falta: um chassi e motor do eléctrico número 19, que permitiria compreender o funcionamento do veículo; o troleicarro número 21 (o primeiro do género a circular em Coimbra; o autocarro número oito, da marca Volvo, e um carro torre da marca Hansa-Lloyd, utilizado para a manutenção da rede eléctrica.

Desses elementos, sabe-se que o chassi terá sido cedido ao Museu de Sintra e que o troleicarro estaria resguardado nas instalações dos SMTUC. A autarquia não conseguiu responder em tempo útil ao pedido de informação do PÚBLICO sobre a localização dos restantes.

 Manter a memória

… No seu site, Kers publicou a mais completa informação sobre o serviço de eléctricos que circulou em Coimbra, com várias linhas que foram abrindo entre 1911 e 1934 e que chegaram a ligar o centro da cidade como Santo António dos Olivais, o Calhabé e Coimbra B.

Artigo Museu 5. Foto Paulo Pimenta b.jpg

Autarquia tem um projecto para recuperar o espaço e voltar a abrir portas. Foto Paulo Pimenta

 O último eléctrico circulou em Coimbra na noite de 8 para 9 de Janeiro de 1980, perto da uma da madrugada, escreve Ernst Kers, no site onde disponibiliza a informação compilada.

Uma relação complicada

…  Em 2014, o processo é recuperado e o executivo de Machado aprova o traçado da linha, que ligaria a Rua da Alegria à rotunda das Lages, na margem esquerda.

O investimento necessário, estimava a autarquia em 2016, rondava 4,9 milhões de euros. Desde que, em 2016, a câmara aprovou um protocolo com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes a proposta não voltou à praça pública. Questionada pelo PÚBLICO, a CMC responde através do gabinete de comunicação que essa questão está “ainda a ser estudada, não havendo ainda uma decisão do actual executivo”.

Perante tudo “isto”, repetimos o nosso apelo.

Elaborem e planejem os projetos que entenderem, mas façam-no faseadamente.

Num primeiro momento reabram o Museu, o Núcleo, ou que lhe quiserem chamar, porque embora mutilado, ainda ali existem peças únicas a nível mundial.

A reabertura deve ter em linha de conta as novas técnicas museológicas relacionadas com o património industrial, o que está, perfeitamente, ao alcance do Município de Coimbra, sem lhe seja necessário recorrer a subsídios de qualquer Entidade.

Este é, quiçá, o único caminho a trilhar, para tentar redimir, minimamente, os erros do passado.

 

Soldado, C. Os eléctricos centenários de Coimbra estão há 20 anos à espera de futuro. Fotografias de Paulo Pimenta. Acedido em https://www.publico.pt/2022/08/20/local/noticia/electricos-centenarios-coimbra-estao-ha-20 anos-espera-futuro-2017719?access_token=7DA9PSwHVE2PY%2BV2Uq0vzjR8mXXZzKG4s7HJzVdEqM8W9R05xizcUcxDIhPdgDsy

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 09:52

Terça-feira, 29.11.22

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos. Reflexões 3

Na primeira entrada desta série assinalei um relato difundido nas redes sociais por Bob Lennox, um profundo conhecedor e estudioso dos sistemas de tração elétrica e da sua musealização a nível internacional

É esse texto que, numa tradução de Ana Rita Costa, levamos ao conhecimento dos conimbricenses e de todos os interessados no assunto.

Cada carro elétrico precisa de sobresselentes, ou seja, materiais guardados em armazém para reparações e substituições devido ao uso e desgaste que ocorre diariamente e em condições normais. O carro elétrico de Sintra não é diferente, mas não estava muito dotado dessas peças.

No entanto, quando que se estabeleceu uma colaboração entre o falecido Waldemar Alves, administrador do elétrico de Sintra e responsáveis políticos na cidade de Coimbra, que também tinha tido um sistema de carros elétricos que funcionou até 1980, surgiu uma oportunidade de colmatar essa falta.

Isto, porque tomamos conhecimento de que um número de peças dessa frota estava a definhar numa lixeira municipal, periférica perto de Coimbra, sob a ameaça de destruição iminente.

Liderados pelo chefe de manutenção, Berto Francisco, partimos com um camião para lá, a 221 quilómetros a norte de Sintra.

Ao chegar, deparamos com a triste cena de restos de três motores de elétricos e um atrelado, todos deteriorados por estarem expostos aos elementos durante vinte anos.

 

Elétricos “guardados” nas instalações munic

Elétricos “guardados” nas instalações municipais de Eiras. O veículo da esquerda, datado de 187(?) era um carro americano de tração animal, depois adaptado a “chora”.

Elétricos “guardados” nas instalações munic

O elétrico n.º 13, datado de 1928, Foto Jorge Oliveira

Elétricos “guardados” nas instalações munic Elétricos “guardados” nas instalações municipais de Eiras.

As carrocerias dos grandiosos veículos que outrora transportaram orgulhosamente os bons cidadãos da Cidade Universitária estavam irreconhecíveis, mas o coração do equipamento parecia poder ser salvo. Com a ajuda dos funcionários da lixeira, começámos a tarefa dilacerante de desmantelar o que tínhamos à nossa frente.

Passadas algumas horas, tínhamos ‘libertado’ com sucesso uma seleção de motores e rodas, três carruagens completas e uma coleção de diversos equipamentos elétricos, que poderiam ser úteis para manter as operações de Sintra vivas.

Infelizmente, já não tínhamos mais espaço no camião e um número de equipamentos úteis (incluindo o chassis e rodas da carruagem), tiveram de ser abandonadas e deixadas à sua sorte.

Regressando a Sintra, o stock recém-adquirido foi descarregado no há pouco renovado depósito da Ribeira, onde agora integra uma substancial reserva para o elétrico de Sintra.

A foto anexada

Elétrico em Sintra, utlizando um truck trazido de

Elétrico em Sintra, utilizando um truck trazido de Coimbra Foto Ernest Keers

mostra um truck Brill 21E, vindo de Coimbra, temporariamente colocados de baixo do carro elétrico número 2, permitindo que este seja movido. Este carro elétrico é o único à espera de renovação total.

Este e um outro truck, salvos de irem para a sucata são os únicos do tipo Brill 79E, no seu desenho final de dois rodados motrizes, produzidos pela “Birney Safety Car”.

Quando lemos este texto, que relata factos ocorridos por volta de 2005, a nossa primeira reação foi de estupefação, a que se seguiu um sentimento de revolta.

A revolta agravou-se (ainda mais, se assim se pode dizer) quando informações posteriores nos referiram que o truck Brill 21E, pertencente ao carro elétrico n.º 19, se encontra “exposto” na Casa do Elétrico de Sintra. A peça, que estava completa, possuindo sistema de travagem e dois motores, a partir de 1984 foi preservada e integrava o espólio do “Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra”.

Truck  e motor 79E SMC 19 - 1995. Foto Ernest Keer

Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra. Truck e motor de elétrico quando expostos devidamente carrilados e conservados. Foto Ernst Kers

A mesma peça guardada em Sintra. Foto Pedro Mende

A mesma peça cedida pela CMC ao Museu de Sintra, na atualidade. Foto Pedro Mendes

Estes factos levam-nos a colocar uma outra questão: como é que se explica a “cedência”, para Sintra, onde se encontram expostas, peças do património industrial conimbricense que integravam o acervo do Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra?

Nota 1. O texto que vai em itálico foi publicado nas redes sociais por Bob Lennox que autorizou, expressamente, a sua divulgação.

Nota 2. A investigação que vimos realizando com o apoio de Pedro Rodrigues da Costa, aponta para que o depósito de carros elétricos tenha ocorrido em dois tempos. A primeira leva deverá datar de cerca de 1997, e a segunda ocorreu aquando do fecho do Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra cerca do ano 2000.

Rodrigues Costa

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:33

Quinta-feira, 24.11.22

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos. Reflexões 2

Na anterior entrada referimos o recente trabalho do Professor Doutor José Amado Mendes, intitulado O património industrial e os museus: que relação?

Vamos seguir esse texto, a fim de compreender o que se entende por património industrial.

O património industrial é um novo bem cultural e um dos patrimónios emergentes. A sua grande relevância corresponde ao significado dos fenómenos históricos a que está indissociavelmente ligado, isto é, a Revolução Industrial, o processo de industrialização e o desenvolvimento da tecnologia.

O património que nos foi legado pela industrialização é imenso … A sua diversidade é enorme e passa, entre outras, pelas seguintes modalidades: estruturas… equipamentos … aquivos, fotografias e relatos orais … meios de transportes e comunicações.

Álvarez Areces: «A arqueologia industrial como matéria que estuda, investiga e defende a preservação do património industrial está-se convertendo num movimento cultural e social que amplia, dia a dia, o marco estrito de uma disciplina académica»

O património industrial tem dado um excelente contributo à museologia, em especial à chamada nova museologia, intimamente associada à profunda renovação dos museus, à “criatividade renovada”, iniciada nos anos de 1970 e que se acelerou na década de 1980.

Texto que é ilustrado com as seguintes imagens.

O património industrial e os museus, pg. 68.png

Op. cit. Pg. 68

O património industrial e os museus, pg. 69.pngOp. cit., pg. 69

O património industrial e os museus, pg. 70.pngOp. cit., pg. 70

O Autor prossegue para, no final do artigo, apresentar as seguintes conclusões:

A evolução política, socioeconómica e cultual das comunidades, desde meados do século XX, induziu os decisores, investigadores, professores e agentes culturais a prestarem mais atenção aos vestígios e testemunhos do desenvolvimento económico, ao longo do tempo. Consequentemente, a noção de património cultural ampliou-se de forma significativa, passando a englobar novos aspetos da realidade, de entre os quais se tem destacado exatamente o património industrial.

… Simultaneamente com a valorização e preservação do dito património industrial foi criada, a partir dos anos de 1950, um novo “território” de pesquisa e ensino-aprendizagem, a Arqueologia Industrial. Esta, cujo objeto é precisamente o mencionado património industrial, tem por função o estudo e divulgação, bem como a sua salvaguarda, requalificação e reutilização de bens culturais de índole industrial, no sentido genérico da expressão e sem restrições cronológicas rígidas.

As repercussões desse novo olhar para os bens culturais de índole industrial fizeram-se sentir, por exemplo, no mundo académico – investigação, ensino-aprendizagem e publicações especializadas –, no turismo, especialmente no turismo cultural, e nas políticas e estratégias de gestão cultural, urbanística e ambiental.

No âmbito da museologia – sobretudo na “nova museologia” – os efeitos foram de grande monta e muito contribuíram para a criação ou atualização de elevado número de instituições museológicas, designadamente museus, ecomuseus e centros de interpretação. Em muitas circunstâncias, tem-se também optado pela musealização e preservação in situ de ambientes industriais, mineiras ou relacionados com os transportes e comunicações.

Importa reter esta conclusão e, pensamos, as fotografias que seguidamente publicamos encontram-se em consonância com os conceitos atrás enunciados.

A primeira mostra as primitivas instalações, onde, na Rua da Alegria, os elétricos eram reparados e, inicialmente, guardados.

Primitiva oficina e recolha dos elétricos, nas in

Primitiva oficina e recolha dos elétricos, nas instalações da R. da Alegria

A segunda apresenta a fachada exterior dessas mesmas instalações, quando ali funcionava o Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra.

Museu dos Transportes, exterior.jpg

Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, exterior

Por último, reproduz-se um pequeno desdobrável do Museu, então elaborado.

Museu Transp Urbanos Coimbra 1.jpg

Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra, desdobrável. Col. Vítor Rochete

Tudo o que ficou dito permite-nos colocar uma questão: a musealização e a preservação dos carros elétricos e da oficina onde eles eram reparados “in situ” é, ou não adequada? Tanto uns, como a outra, fazem parte do património histórico da cidade.

A resposta é, para nós, óbvia.

Rodrigues Costa

Mendes, J.A. 2022. O património industrial e os museus: que relação? In: Revista Memória em Rede, Pelotas, v.14, n.27, Jul/Dez 2022. Pg. 59-84.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:31

Terça-feira, 22.11.22

Coimbra: Museu dos Transportes Urbanos. Reflexões 1

Carro elétrico n.º1, à saída da fábrica.jpg

Carro elétrico n.º 1, à saída da empresa construtora, J.G. Brill Company.1910.

Noticia da inauguração.jpg

Noticia da inauguração da tração elétrica em Coimbra. In: Illustração Portugueza, n.º 258. 1911.01.30, pg. 139.

Quem tem uma já longa experiência de vida, a par com uma passagem – ainda que efémera – na esfera da ação política e quem trabalhou muitos anos numa autarquia, aprendeu, obviamente, algumas regras da prática política.

No âmbito deste contexto, embora fazendo uma caricatura onde as exceções só confirmam a regra, constata-se que um político nunca diz não a um projeto que lhe seja apresentado.  Numa primeira fase afirma: sabem que a autarquia não tem dinheiro, há que estabelecer prioridades, vamos pensar.

Num segundo tempo, se a pressão dos eleitores se fizer sentir de forma muito persuasiva, declara: vamos elaborar um projeto, a fim de analisar o que fazer e os respetivos custos.

Num terceiro momento, se a pressão pública continuar a fazer-se sentir, fala-se de um projeto, que raramente é apresentado publicamente, e, simultaneamente, revela-se a respetiva orçamentação, essa sim, bem publicitada e calculada por um valor tão elevado quanto o possível; ao mesmo tempo informa-se que esta obra não cabe dentro do orçamento camarário, consequentemente iremos apresentar uma candidatura destinada a obter o seu financiamento.

Estamos perante a quadratura do círculo perfeita, pois nada de concreto é feito, nada é prometido, mas o político pode afirmar o “grande” interesse do projeto e a esperança da atribuição do tal subsídio, ainda que este não tenha viabilidade ou aponte para uma hipotética exequibilidade, num futuro tão longínquo quanto possível.

Vem esta introdução a propósito, porque, curiosamente, no mesmo dia tive conhecimento de um artigo publicado no jornal “Público”, assinado pelo jornalista Camilo Soldado e de um relato difundido em Inglaterra, nas redes sociais, por Bob Lennox, um profundo conhecedor e estudioso dos sistemas de tração elétrica e da sua musealização. Os dois textos lançam alguma luz sobre o que se passou na nossa cidade nos últimos vinte e poucos anos, tantos quantos os que já decorreram desde o encerramento do então designado “Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra”.

Para além dos referidos textos, que tenciono abordar em entradas subsequentes, remeto os leitores para um recente trabalho do Professor Doutor José Amado Mendes, que se encontra disponível na net, intitulado O património industrial e os museus: que relação?

Os textos em causa merecem uma séria reflexão, até porque nos permitem esclarecer o que se tem passado com o espólio existente no Museu, a partir do seu encerramento no ano de 2000.

Ao longo destes anos tive conhecimento de “ideias” relacionadas com a criação de um Núcleo Museológico dedicado aos transportes urbanos de Coimbra a que estava associada a existência de uma linha histórico/turística. Contudo, se foi executado um qualquer projeto que desse corpo ao Museu, a verdade é que nunca o visualizei e, em contrapartida, relativamente ao preço da concretização dessas “ideias”, já ouvi referências ao seu elevado custo e à consequente necessidade de obter financiamento para o mesmo.

Elétrico com chora. Cerca de 1911.jpg

Carro elétrico com “chora”, na Rua da Sofia, cerca 1911

Estas “ideias” lançadas sem um projeto que as suporte, conjuntamente com os textos que referi, levam-me a tecer as seguintes considerações:

- Até ao momento, não me apercebi de que tenha sido alguma vez questionada a importância histórica do património então guardado no “extinto” Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra. Muito pelo contrário, tive conhecimento da existência de um elevado número de visitantes e das frases elogiosas que, acerca da estrutura então montada, proferiram.

Cito, apenas, a título de exemplo:

. Bob Lennox: Entrei no depósito da Alegria pela última vez em fevereiro de 1980. O depósito havia sido transformado em museu e alguns carros restaurados;

. Um dos impulsionadores do similar museu da Carris de Lisboa, ao visitar o Museu conimbricense, afirmou: Vocês com pouco fizeram muito.

- É verdade que já me inteirei, vagamente, da existência de projetos e referências relacionadas com a “futura” musealização do que ainda resta do espólio então exposto no “Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra”, mas jamais me foi concedida oportunidade de consultar a referida documentação. A notícia mais marcante relacionada com este assunto assenta na apresentação feita, com pompa e circunstância, em 2010.08.08, numa cerimónia presidida pela então Vereadora do Pelouro da Cultura, de um projeto para remusealização do material existente.

Dessa cerimónia subsiste documentação fotográfica que, seguidamente, reproduzimos.

Apresentação, em  2010.08.08 ---Col. Vitor Roche

Apresentação, em 2010.08.08, de um projeto de remusealização. Col. Vítor Rochete

Apresentação, em  2010.08.08 ---Col. Vitor Roche

Outro aspeto da mesma cerimónia, em 2010.08.08. Col. Vítor Rochete

Do que ficou dito depreende-se que tem sido abordada a forma de expor o material, mas ignoram-se os cuidados a ter com o património que ainda ali existe.

Esse património necessita de manutenção permanente, tem de estar recolhido em local que não permita a sua deterioração e muito menos pode ser mandado para a sucata ou ser oferecido a outras autarquias, a fim de estas enriquecerem com ele o seu acervo museológico.

Museu dos Transportes. Interior. 1995. Foto Ernest

Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra. Vista do interior. Foto Ernst Kers

Decorrem desta reflexão as propostas que seguidamente apresento:

- Alterem a designação de “Museu dos Transportes Urbanos de Coimbra” para “Núcleo do Carro Elétrico do Museu da Cidade” ou aponham-lhe outro qualquer nome que julguem mais adequado. Para descanso das consciências outrossim sensíveis, até que seja possível a concretização dos seus grandes projetos, coloquem uma placa onde se possa ler “Instalações provisórias”.

- Procedam ao faseamento desses grandes projetos, dando prioridade à musealização “in situ” do património existente e deixem para uma segunda fase outras “ideias”, tais como a criação de uma linha histórica/turística, com a qual estamos, obviamente, de acordo, mas que implica uma manutenção consideravelmente onerosa.

- O Museu que existia, teve em mente dois objetivos essenciais: por um lado, salvaguardar um exemplar de cada um dos tipos de viaturas que, ao longo do tempo, integraram a frota do sistema de transportes urbanos de Coimbra e, por outro, manter a operacionalidade da oficina/recolha, de forma a assegurar a viabilização do funcionamento de uma hipotética futura linha histórica/turística.

De acordo com o que ficou dito, sugerimos que refaçam o Museu com as peças (ainda existentes) que estiveram expostas, com êxito, durante cerca de 20 anos, embora tendo em conta, na medida do possível, a nova filosofia da musealização do património industrial.

E isto, rapidamente, antes do possível desencaminhamento do património existente que ainda integra peças únicas a nível mundial.

A concretização, das sugestões que apresento, estão perfeitamente ao alcance das capacidades económicas do Município de Coimbra sem necessidade do recurso a qualquer subsídio ou candidatura, e podem ser levadas a cabo pelos técnicos municipais do sector.

Rodrigues da Costa

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:47

Quinta-feira, 10.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 4

Para terminar a divulgação do livro Coimbra de capa e batina, volume II, vamos às páginas 219 a 225, rever a conquista pela Associação Académica de Coimbra, em 1939, da Taça de Portugal, em futebol.

AAC emblema.png

Emblema da AAC. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Final da taça 2.png

Equipa que disputou a final da Taça de Portugal, ganhando ao Benfica por 4-3. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Bola Académica

Golo!... E o abraço caiu como um raio em cima do companheiro do lado!... 0 homem, porém, era do Benfica! . . .

~Vá lá abraçar um raio que o parta…

A situação foi salva imediatamente por uns companheiros da «claque», que o nervosismo nunca deixava estar parados nos 90 minutos do jogo. Daí o engano da fúria daquele abraço. . .

Mas a realidade era aquela. A Associação Académica tinha metido um estupendo golo...

Ali, nas redes do Benfica e no campo das Amoreiras! com o Tibério a ser «metralhado» por detrás das balizas.

Final da Taça 1.png

Intervenção do guarda-redes da AAC, Tibério. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

No retângulo do jogo, onze rapazes de camisola negra, davam luta de peito aberto a onze homens do Benfica e a uns milhares de adversários, espicaçados por aquele atrevimento dos «gajos» de Coimbra.

Sobre meia dúzia de adeptos da Associação começaram a cair as fúrias dos benfiquistas.

Mas, nem um passo de recuo… Nem uma vibração abalada. O grito era sempre o mesmo e redobrava de fé, a cada instante: é «Briosa»!!

Um fogo sagrado temperava aquela magnífica resistência dos estudantes de Coimbra. Havia ali a defender qualquer coisa de grande e de tradicional. Aquela equipe negra, impunha responsabilidades a jogadores e a adeptos.

Ninguém fugiu a dar. Os que jogavam aceitavam os ataques desleais dos adversários e procuravam destruí-los sem timidez. Os que aplaudiam, metidos entre agressões iminentes, mantinham a mesma atitude e continuavam a aclamar a Associação, que naquele momento se batia com um futebol e com uma alma, que um benfiquista traduziu, nesta expressão:

- Estes tipos são tremendos

Quando o árbitro deu por findo o encontro, o brio académico e a velha tradição da «malta» estavam perfeitamente salvos. O Benfica foi derrotado.

img20220826_14053862.jpg

No final do desafio da Taça de Portugal- Fan, Fan, Fan, Auto Fan… Repare-se na derrota estampada na cara dum jogador do Benfica… Op.cit. 225

Final da Taça. Op. cit. Pg. 225.jpg

No final do desafio da Taça de Portugal. Imagem acedida em https://www.academica-oaf.pt/historia/

Uma espécie de loucura, atacou-nos então e ali, naquele campo das Amoreiras, mesmo nas barbas do Benfica e dos seus adeptos. Esqueceram-se posições sociais, conveniências próprias e o perigo de qualquer manifestação. Médicos, advogados funcionários públicos, alunos da Escola Militar, etc., deitaram cá para fora aquela alegria exuberante de incondicional estima pela Associação.

Que extraordinária vibração a desses momentos. Que admirável e sã energia, dum punhado de rapazes que traziam consigo aquela Coimbra eterna da nossa juventude!

Á saída, os jogadores estudantes, foram «assaltados» por nós. . . Um rapaz do grupo, que nunca estudou em Coimbra – Mas que ainda hoje é capaz duns bons murros para defender a Associação – queria por força abraçar as pernas do Faustino, que, no seu entender, foram as traves do desafio. Não sei se chegou a tal manifestação, o que sei, é que nessa noite levou a família ao Teatro. Chegou mesmo a «decretar» à mulher, que só iria nos dias em que a Associação ganhasse. Um empate merecia cinema. Uma derrota, não se jantava e ia tudo para a cama, com as galinhas, curtir a tristeza do chefe familiar.

Sou testemunha de que estas ordens foram algumas vezes cumpridas.

Nessa tarde, quando no Rossio continuavam as manifestações académicas, descobrimos, a entrar para a «Brasileira», um antigo estudante de Coimbra e diretor da Associação, com profundos traços de tristeza no fácies …  Aquele seu antigo grupo vencer o Benfica era mágoa que o acompanharia até à eternidade … Infelizmente há disto…

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 12:30

Terça-feira, 08.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 3

Prosseguindo na divulgação do livro Coimbra de capa e batina, volume II, salienta-se que nas páginas 174 a 191 é apresentada a história do nascimento do Teatro Académico da Universidade de Coimbra. Desse texto selecionamos o que se segue.

O Teatro Académico, chegou a ser um sistema pedagógico, não só na Universidade de Coimbra como em outras da Europa. Mestres e alunos tomavam parte em representações e elas, por vezes, constituíam até uma parte do ensino que então se ministrava.

… Uma provisão de El-Rei D. João III, no ano de 1546, ordenou o seguinte, quanto ao Teatro Académico. «O lente de Gramática, da mais alta Regra, que lê no Colégio de São Gerónimo seja obrigado a fazer e a representar, em cada ano, uma comédia nas escolas, no tempo e nos lugares que pelo Reitor lhe for ordenado…»

E foi com muita graça e propriedade, que António José Soares – autor dos vários cenários dos autos de Gil Vicente e artista de rico temperamento – foi desenterrar a referida provisão aos Arquivos da Universidade, para a apresentar como sendo a «certidão de nascimento» do Teatro dos Estudantes de Coimbra que o Professor Doutor Paulo Quintela, com tanto brilho, vem dirigindo.

Talvez pareça estranho, mas é verdade: o Teatro dos Estudantes nasceu do Fado. Esta fatalidade nacional e coimbrã, foi sem dúvida, a origem do renascimento teatral na academia de Coimbra.

 A sua história é esta: Em 1937 existia em Coimbra o «Fado Académico». foi seu fundador e dirigente Jorge de Morais (Xabregas) que à sua volta reuniu todos os guitarristas e cantores que então havia na Academia. O grupo tinha um interesse profundamente romântico. Xabregas, com a sua eterna fé por esta terra ribeirinha, pretendia criar uma escola de cantores e guitarristas ao jeito coimbrão. Profetizava que um dia, deixaria de haver rouxinóis a cantar baladas de amor e de saudade.

Apesar dos seus esforços, o «Fado» morria de dia para dia … Jorge de Morais pensou então em remodelar o seu grupo e surgiu-lhe a ideia dum conjunto dramático.

E assim, em Novembro de 1937, foi eleita uma direção [segue-se uma relação de 12 estudantes]. A ideia da criação dum grupo cénico tomou então, vulto e para ela, foi solicitada a colaboração do Professor Doutor Paulo Quintela.

Paulo Quintela.png

Professor Doutor Paulo Quintela. Imagem acedida em: http://www.cvc.instituto-camoes.pt/seculo-xx/paulo-quintela.html#.Y0RA61LMJPY

Havia, porém, um grande problema a resolver: a inclusão, no grupo, de raparigas universitárias, sem as quais não seria possível realizar obra de vulto.

Mas esta Coimbra, mexeriqueira e maldosa criava sérias dificuldades, pois as raparigas num temor compreensível, negavam a sua colaboração. Até que surgiu a estudante Madalena Coelho de Almeida que de alma erguida se entregou devotadamente à realização de tão simpática iniciativa. Depois de vencer algumas resistências, apresentou uma lista de raparigas que se propunham colaborar no Teatro Académico. Vencido este obstáculo foi constituído o «Grupo Cénico» - designação inicial. [Segue-se uma relação de 9 alunas da Faculdade de Letras e de 10 alunos de diversas faculdades].

Numa sala do Museu Zoológico, iniciaram-se em seguida, os ensaios da peça «Braz Cadunha» do escritor Samuel Maia.

O Prof. Doutor Paulo Quintela, porém, tinha um Plano cultural mais vasto e o teatro clássico português desde o início que lhe merecia uma atenção especial. E assim, simultaneamente com o «Braz Cadunha» começaram os ensaios da «Farsa de Inês Pereira» de Gil Vicente. Estava dado o primeiro passo, para o que mais tarde viria a ser a coroa de glória do Teatro dos Estudantes. Três meses depois, o Grupo Cénico do «Fado Académico» apresentou-se no Teatro Avenida, em récita de gala, com a designação de «Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra». O «Fado Académico» morrera nessa noite.

TEUC logo.jpg

Logotipo. Imagem acedida em https://www.facebook.com/photo?fbid=1007766936661205&set=pb.100022837253956.-2207520000..

TEUC en cena. Op. cit. 117.jpg

Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Op. cit. Pg. 177

TEUC cartaz.jpg

O TEUC em 2022. Imagem acedida em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=7811227052228113&set=pb.100022837253956.-2207520000

O Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra venceu. A sua fama espalhou-se por Portugal inteiro e em Coimbra.

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 16:17

Quinta-feira, 03.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 2

As páginas 149 a 153 do livro Coimbra de capa e batina, volume II, são dedicadas à «Orxestra Pitagórica», reinventada nos inícios dos anos 40, do século passado.

Orxestra Pitagórica. Op. cit. Pg. 153.jpg

A «Orxestra Pitagórica». Op. cit., pg. 153

Na legenda desta fotografia pode ler-se: Aires Biscaia, estudante agarrado ás tradições coimbrãs, meteu ombros à empresa e reorganizou há 2 anos a «Orxestra Pitagórica» que se apresentou, sob a sua regência, com um êxito notável. Aqui se «verifica» a referida «Orxestra» em «pleno rendimento musical… Rui Castilho, o romântico diretor da dita «Orxestra» «castiga as meninas de Coimbra, com versos caídos do Olímpio … e assinados por Júpiter com a marca do Rui.

No texto é referido.

A «Orxestra Pitagórica» foi durante muitos anos, um grande atrativo dos saraus académicos. Vários regentes (declaramos à posterioridade que Raposo Marques nunca pegou naquela batuta) afirmaram dela, as suas extraordinárias aptidões musicais, que em princípio, assentavam na base de não saber música … Conhecer o «do ré mi fá sol lá si dó» era «crime» de lesa «orxestra» e como tal punido com a determinação: «é proibida a entrada a estudantes que afinem pelo lamiré do Raposo Marques»…

Aquilo, ali, era só ouvidinho puro e desentupido … Quem sofresse de purgação dos mesmos, não podia ser pitagórico. A coisa era tocada à base do tímpano sem cera…

Figueirinhas, Figueiral, Figueiredo da Figueira da Foz, na vida civil, política, religiosa e no bilhete de identidade José de Figueiredo, foi durante muitos anos o regente da «Pitagórica» e diga-se de passagem, que neste período da sua intervenção naquele «famoso» organismo artístico, ele atingiu um grande apogeu na música mitológica…

As mais extraordinárias partituras do Olimpo, desceram à terra, para serem executadas pelos mais variados instrumentos de corda e de badalo … E mal rompia no palco a «Orxestra Pitagórica» dos estudantes de Coimbra, Condorcet, «enviado especial» de Júpiter, fazia a sua apresentação, ao respeitável público, nos seguintes termos:

Minhas senhoras e vossos senhores

Deram-me em Coimbra os doutores

Missão difícil a desempenhar;

Esta «orxestra» a vós apresentar

Prosseguia a apresentação no mesmo tom, relatando uma incrível zaragata entre os deuses do Olimpo para terminar deste modo:

Aqui o harmonioso penicofone

Além o tilintoso cuecofone

O silencioso cisofone

O telefone, o microfone

O gramofone e o mudo caladofone

Ireis ouvir colcheias desgrenhadas

Bemóis, claves, pausas descompassadas

Semifusas de cabelos à garçone

E contra breves a tocar saxofone

Não falando já, bem entendidos

Nas tremifusas que perdem os sentidos

E dir-me-eis agora qual é mais excelente

Se ser do mundo Rei se de tal … cambada.

A «Pitagórica» depois desapareceu…

A geração que lhe emprestou as cuecas com guizos, os ferrinhos e as pandeiretas, formou-se. A que se lhe seguiu não renovou esse instrumental, nem se dedicou a aprender as «altas» partituras musicais de tão «famoso agrupamento artístico»…

Nota:

Temos conhecimento de que, ao longo do tempo, surgiram tentativas para ressurgir a «Orxestra Pitagórica».

No site https://orxestrapitagorica.pt/ é contada, com omissões, a história deste tipo de música no seio da academia coimbrã. Ali surge uma Orxestra Pitagórica, enquanto grupo da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra que Nasce nos seios voluptuosos da Academia Coimbrã, criada exclusivamente por estudantes da cidade, com intuito de satirizar e dar a conhecer os assuntos principais da cidade, dos estudantes e do país.

São apresentados vídeos das suas atuações de que Zumba na caloira é um exemplo e é feita publicidade do nosso Tour: Pita Trapstar e habilitem-se a ouvir o cagar na primeira fila (promoção limitada ao stock existente).

São certamente outras músicas e outros tempos.

Rodrigues Costa

 

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 19:23

Terça-feira, 01.11.22

Coimbra: Coimbra de capa e batina, 1

Chegou-nos às mãos, datado de 1945, muito usado e em mau estado, o segundo volume de Coimbra de capa e batina, um verdadeiro retrato de uma época e de uma vivência académica.

Coimbra de capa e batina. Volume II, capa.jpg

Coimbra de capa e batina. Volume II, capa

Este exemplar tem a particularidade de na página de anterrosto ter manuscrita a seguinte dedicatória:

Ao Julio Teixeira, velho e querido amigo dos tempos de Coimbra, com um abraço do Carminé Nobre. Coimbra 21/5/1945

 

Coimbra de capa e batina. Volume II, dedicatória.

Coimbra de capa e batina. Volume II, dedicatória

Carminé Gil Abranches Nobre, natural de freguesia de Vide, do concelho de Seixo, do distrito da Guarda. Em Coimbra, depois de concluir o curso de Magistério Primário, matriculou-se e frequentou o Curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras.

Carminé Nobre.jpg

Requerimento de matrícula no Curso de Ciências Pedagógicas. Imagem decida pelo AUC

Carmine Nobre foi um estudante com uma presença relevante na Academia do seu tempo, jornalista e escritor que faleceu em 1946, precocemente vitimado por um acidente de viação.

Carminé Nbre.jpg

Carminé Nobre. Imagem acedida em https://www.bing.com/images/search?view=detailv2&iss

O livro está dedicado AOS MEUS QUERIDOS AMIGOS: Dr. Guilherme de Oliveira, Dr. Ramiro Valadão, Tenente Manuel Delgado e Silva – ESTA LEMBRANÇA ALEGRE DE COIMBRA.

Na Nota com inicia o texto diz.

Quando em 1937 publiquei o I volume desta obra – que o publico esgotou em pouco tempo – propunha-me escrever a seguir o II volume.

Já passaram 8 ano sobre esse propósito e só agora esse livro aparece para concluir o documentário alegre e despretensioso que me propus realizar sobre a vida académica de Coimbra. Não perdi com a demora. Durante 8 anos de espera passaram muitos e curiosos factos que agora valorizam a obra de 1937.

No I volume fiz a advertência de que não existia nas suas páginas, qualquer pretensão de ordem literária. Neste II volume sigo a mesma rota… A nada sacrifico a graça do «dito», do «acontecimento» ou da «partida». De forma alguma. O que se segue é natural e verdadeiro. E é nesta base que o leitor deve principiar a ler este livro.

CN.

 Na realidade o livro é um documentário escrito sobre a vivência da primeira metade do século XX, nomeadamente do seu segundo quartel.

f777cc9fd8c8396d20566457e10352df

Coimbra de capa e batina. Volume II, pg. 65

Dele iremos, em próximas entradas, destacar três dos relatos ali feitos.

Nobre, C. Coimbra de capa e batina. Volume II. 1945. Coimbra, Atlântida – Livraria Editora, Ld.ª

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 21:39


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Janeiro 2023

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031