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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 30.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 2

 

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Divus Pelagius Conimbricensis. Porta principal do Colégio de S. Tomás. Coimbra
Foto: Bernardino F. C. Marques

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Pormenor da porta principal do Colégio de S. Tomás, Coimbra. Estilo renascentista, 1545. Museu Machado de Castro, Largo de S. Salvador, Coimbra
Foto: Bernardino F. C. Marques

Frei Paio de Coimbra ou ‘Frater Pelagius Parvus’ nasceu em Coimbra, provavelmente entre 1195 e 1200, vindo a falecer por volta de 1249. Foi sepultado no primitivo convento dominicano desta cidade.
Pouco conhecemos da sua vida, mas as informações que os seus biógrafos nos transmitiram dão-nos o perfil de um frade culto, humilde e milagreiro após a sua morte.
O primeiro cronista da Ordem dos Pregadores, Gerardo de Frachet, que deve ter conhecido Frei Paio quando visitou os conventos da parte ocidental da Hispânia, refere que «depois de este ter trabalhado fielmente durante muito tempo, com fervor e humildade no desempenho do cargo de pregador e de ouvir confissões, por fim, presentes os frades e orando por eles, descansou no Senhor no convento de Coimbra, reino de Portugal».
Relata em seguida «os prodígios que realizou Frei Pelágio, para honra e glória de Jesus Cristo», em favor daqueles que devotamente acorriam ao seu sepulcro, ou dele tomavam a terra.

Frei S. Paio.jpgS. Paio de Coimbra

O prodígio mais emblemático foi o ‘milagre da fundição do sino, que assim é narrado: «… encontrando que por um certo erro do fundidor, faltava muito cobre, levantou-se de orar um frade e tomando terra do sepulcro de Frei Pelágio, lançou-o ao forno e converteu-se imediatamente em cobre…».
Os próprios infiéis beneficiaram, por seu intermédio, das graças de Deus: «E o que foi mais admirável – diz o cronista -, dois sarracenos de Coimbra que padeciam de violentas febres, tomaram terra da sepultura de Frei Pelágio e, nesse instante, por misericórdia divina, ficaram plenamente curados».
A eficácia da sua pregação permanecia, pois, mesmo depois da sua morte.
Teria Frei Paio frequentado a escola episcopal de Coimbra ou a do mosteiro de Santa Cruz. Foi recebido na Ordem dos Pregadores, sendo já adulto, por Frei Sueiro Gomes, companheiro de S. Domingos e primeiro provincial da Hispânia. O historiador dominicano Frei António do Rosário lança a pergunta: - Donde provieram (est)as vocações (adultas)»? E responde com presteza: «O caso de Santo António, cónego regular que se fez mendicante franciscano, não ficaria único. Dos Mosteiros, das Colegiadas e da Cleresia proveio, sem dúvida, o melhor e o mais avultado contingente das primeiras vocações em Portugal, aliás como nas outras partes da Europa».

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Santo frei Payo. Frontispício da Primeira Parte da História de S. Domingos, de Frei Luís Cácegas e Frei Luís de Sousa – 1623. Museu de Aveiro, inv. nº 9/L. In Frei António José de Almeida, O.P.,
Disponível na WWW, <portugaldominicano.blogspot.com/>

«Era Frei Paio, quando veio à religião - diz Frei Luís de Sousa -, entrado já em dias, e conhecido por letras, e virtude. E como tal foi o primeiro Prior do Convento, e ficando em Coimbra morador contínuo». Foi este o primitivo Convento Dominicano construído no lugar da Figueira Velha, ao Arnado, em 1227, sob o mecenato de duas filhas de D. Sancho I, a princesa D. Teresa, que fora casada com D. Afonso, rei de León, a qual comprou os terrenos necessários, e a princesa D. Branca, que financiou a construção.
Afirma Frei Luís de Sousa que o ‘Santo frei Payo’ «faleceo, segundo a conta dos mais dos autores, que d’elle escrevem polos annos do Senhor de 1257, pouco mais ou menos». Mas logo refere que, numa inscrição tardia da lápide tumular na capela-mor da igreja do Colégio, estava registava a data de 1240: «Primus huius Conventus Prior morum sanctitate ac miraculorum gloria insignis Pelagius hic situs est. Obiit circa annum 1240».
No entanto, quem mandou gravar tal data foi induzido em erro, pois no registo da abertura do testamento de D. Sancho II, em 1248, consta a presença de Frei Pelágio Abril, nome pelo qual era também conhecido, à data prior do convento da cidade do Porto: «Pelagius Aprilis Portugalensis et frater Fernandus Petri».

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full 

 

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por Rodrigues Costa às 11:08

Terça-feira, 28.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 1

No passado mês de abril publiquei uma entrada sobre o primitivo Convento de S. Domingos.
Entretanto chegou ao meu conhecimento uma imagem das escavações realizadas e a que ali me referi a qual, a dado o seu interesse, ora reproduzo.

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Descoberta das estruturas do Convento medieval (primitivo) de São Domingos (1227) no Centro Histórico de Coimbra
LUSA - Agência de Notícias de Portugal, 23 de Fevereiro de 2009

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No texto publicado era feita uma referência a Frei, ou, Dom, ou São Paio de Coimbra.
Pouco ou nada sabendo sobre esta figura da nossa terra foi, entretanto, possível recolher as informações que agora se divulgam.

Há trinta anos, pelo menos, quando nos pusemos a estudar um por um, todos os códices alcobacenses da Biblioteca Nacional de Lisboa, respeitantes à Idade Média … vieram ao nosso encontro estes sermões [o Sermonário de Frei Paio de Coimbra, o Cód. Alc. 5/cxxx], ou melhor, esquemas de sermões, escritos em pergaminho, em letra de transição do séc. XIII, com iniciais a vermelho e azul, filigranadas … Só desejamos acentuar que todo o códice (e não unicamente os sermões de Frei Paio) se destinava a pregadores mais ou menos incipientes. Era um manual teórico e prático de oratória cristã.

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Frontispício do Sermonário. Cod. Alc. 5/cxxx Fotocópia de microfilme: Hill Monastic Manuscript Library, 1980

Tornando aos sermões, foi seu autor o dominicano Frei Paio de Coimbra ou Pelagius Parvus. E conforme a nota final, da mesma letra, foi copista deles o monge alcobacense Frei Domingos Pires ou Peres (Dominicus Petri), no ano de 1250, a pedido de Dom Pedro Eanes, abade do Mosteiro de Tarouca.
Frei Luís de Sousa [refere] a data duvidosa da morte de Frei Paio de Coimbra, [citando uma lápide que dizia] «Aqui jaz Frei Paio, primeiro prior deste convento [de S. Domingos-o-Velho de Coimbra] e notável pela santidade de costumes e pela glória dos seus milagres».
Morreu à volta de 1240. E acrescenta Frei Luís de Sousa: «foi sua vida e morte surda e sem rumor». Talvez isto explique a ignorância do ano exato em que morreu um dos maiores pregadores do séc. XIII.
… Outros autores apontam o ano de 1257 (e não o de 1240), o que faz supor a inexistência de lápide antiga com ano certo. De contrário, talvez a levassem quando trasladaram o túmulo ou as ossadas.
O cónego coimbrão Pedro Álvares Nogueira (f 1598) fala-nos também de Frei Paio, assim como do «mosteiro de sam Domingos o velho». Nele esteve muitos anos a sepultura do grande pregador, até que «os frades levarão tudo pera o mosteiro novo e não deixarão mais que hum sino, em lembrança do milagre» que, na fundição do mesmo sino, realizou «o bemaventurado sam Payo».

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São Frei Paio. Capela do Espírito Santo, Carapinheira, Montemor-o-Novo. Testemunho do culto popular
Foto: Bernardino F. C. Marques

… Que nos dizem de Frei Paio os informadores (diretos ou indiretos) de Frei Gerardo? Pois bem, dizem que ele confessou e pregou durante largo tempo e partiu deste mundo no convento de Coimbra, rodeado pelos outros frades postos de joelhos e a rezar.
Passado algum tempo (notemos a frase) morreu outro frade e enterraram-no junto do seu coval... Ora, tanto o coveiro como os frades sentirem evolar-se dele um perfume maravilhoso e uma espécie de névoa. E estando bastante doente a filha do coveiro e sem poder levantar-se, de regresso a casa ofertou-a a Frei Paio… isto é, fez por ela uma promessa. Logo se levantou a moça, pegou no cântaro e foi buscar água ao rio, sem doença nenhuma.
... A fama de santidade, julgamos nós, espalhou-se mais a partir do povo … Segue o famoso milagre da fundição do sino; mais outro duma mulher com dores no estômago; um escudeiro dos arredores de Coimbra e um frade dominicano do convento, ambos eles curados da febre; a confissão dum pecador empedernido; a cura dum cego que dantes se confessava a Frei Paio; cinco endemoninhados salvos da sua aflição … enfim, duas mulheres sarracenas, dos arredores de Coimbra, atacadas de febre e livres da doença, por tomarem terra do sepulcro de Frei Paio … Milagre deveras notável… por se tratar de muçulmanas, gente doutra religião.
… Ora bem, este frade, cuja morte foi «surda e sem rumor», deixou-nos uma coleção de sermões que podemos colocar, sem vergonha ao lado dos que escreveu Santo António de Lisboa, seu contemporâneo. Nada menos de quatrocentos e sete sermões, quase todos panegíricos de santos. Entre eles, dois sermões em louvor de Santo António, o que faz de Frei Paio um dos panegiristas antonianos mais antigos — e muito desejaríamos nós que fossem estes os mais recuados sermões ainda existentes, em honra do grande santo de Lisboa.
…Que os sermões de Frei Paio sejam de importância para a história da eloquência medieval, salta aos olhos, sobretudo para o caso português. E não só.
…Já provámos ter Frei Paio estado em Santarém. E decerto em muitas mais terras portuguesas, pois os pregadores … Que pregou em português não oferece dúvidas … entre os sermões de Frei Paio, existam nada menos de nove panegíricos de S. Tomás de Cantuária… significaria ter Frei Paio estado em Cantuária.
… Quanto à presença de Frei Paio em Bolonha (e por conseguinte noutros lugares da Itália) nenhuma dúvida possível. Foi Bolonha o lugar preferido para alguns dos primeiros capítulos gerais dos frades pregadores.

Martins, M. 1973. O Sermonário de Frei Paio de Coimbra do Cód. Ale. 5 / CXXX. In: Didaskalia. III (1973). Pg. 337-362. Acedido em 2919.01.03, em
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/11993/1/V00302-337-361.pdf 

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full

 

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por Rodrigues Costa às 09:47

Terça-feira, 21.05.19

Coimbra: Mitra Episcopal 1

A Mitra Episcopal de Coimbra representa essencialmente o conjunto de bens patrimoniais que estavam destinados ao sustento e provisão do bispo de Coimbra.
A diocese de Coimbra teve sede, primitivamente, em Conímbriga, no período de romanização da Península Ibérica, depois em Emínio (Aeminium), durante o domínio dos Suevos, tendo sido nestes períodos sufragânea de Mérida e depois de Braga, e por fim ficou sedeada na cidade de Coimbra, enquanto diocese isenta.
Os limites geográficos do bispado ficaram definidos em 1253, pela bula Provisionis nostrae de Inocêncio IV, de 12 de Setembro, tendo sido retirados a Coimbra os territórios entre o rio Douro e Antuã que foram anexados ao bispado do Porto.

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Inocêncio IV

A área geográfica do bispado de Coimbra sofreu alterações com a criação do bispado de Leiria, pela bula Pro excellenti apostolicae sedis de Paulo III, de 22 de Maio de 1545, no reinado de D. João III, que ditou a saída de seis paróquias (Caranguejeira, Colmeias, Espite, S. Simão de Litém, Souto da Carpalhosa e Vermoil) da diocese de Coimbra que passaram a pertencer ao novo bispado.

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Paulo III

Idêntica situação ocorreu aquando da criação da diocese de Aveiro, desmembrando localidades diversas do bispado de Coimbra, por breve de Clemente XIV de 12 de Abril de 1774.

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Clemente XIV

Com a nova circunscrição diocesana ditada pela bula Gravissimum Christi de 30 de Setembro de 1881, na diocese de Coimbra foi integrada parte dos bispados de Leiria e Aveiro, que só voltaram a ser restaurados pelo papa Bento XV em 1918 (Leiria) e 1938 (Aveiro).

As doações patrimoniais à Sé de Coimbra são anteriores à fundação da nacionalidade. A necessidade de sustentação dos bispos, cónegos e mais prelados esteve na origem de várias doações, nomeadamente, a importante doação do Mosteiro da Vacariça, em 1094, por D. Raimundo e D. Urraca, e do mosteiro do Lorvão, em 1109, que apenas por sete anos esteve na posse da Mitra.

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D. Raimundo

No entanto, as propriedades de Santa Comba Dão, Couto do Mosteiro, Midões, Vila Cova e parte da Pedrulha, que eram do dito mosteiro do Lorvão, mantiveram-se na sua posse.
Em 1082, o conde D. Henrique e D. Teresa doam à Sé de Coimbra os castelos de Coja e Arganil, altura em que os bispos de Coimbra passam a designar-se Senhores de Coja.


D. Henrique e D. Teresa. Iluminura da Genealogia d

D. Henrique e D. Teresa

A partir do reinado de D. Afonso V, o bispo de Coimbra passa a acumular o título de conde de Arganil, na sequência do reconhecimento da participação do bispo D. João Galvão nas campanhas do Norte de África (conquista de Tânger e Arzila), em 1471… concedeu também a este prelado, por provisão régia de 18 de Agosto de 1472, a vedoria mor das obras e alcaidaria-mor das comarcas da Beira e Ribacôa, razão pela qual se intitulava alcaide-mor de Avô.

Bandeira, A.M.L., Silva, A.M.D., Mendes, M.L.G. 2007. Mitra Episcopal de Coimbra: descrição arquivística e inventário do fundo documental. Acedido em 2019.04.29, em
https://www.uc.pt/auc/fundos/ficheiros/DIO_MitraEpiscopalCoimbra 

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por Rodrigues Costa às 09:02

Quinta-feira, 02.05.19

Coimbra: História de uma arca de pedra

Uma explicação breve, mas necessária. Escolhemos este texto pelo seu fino recorte literário, mas também por tratar um tema muito pouco conhecido.
Ao ser lido deve ter-se em consideração que quer o Museu Machado de Castro, quer o Convento de Santa Clara-a-Nova, atualmente não apresentam a configuração que o Autor descreve.

Há no Museu Machado de Castro uma sala em que ando sempre receosos, de vagar, o ouvido à escuta, como nos palácios maravilhosos dos meus contos de menino, comovido sem saber porquê, sempre à espera de ver começar a história de uma empresa grande.
Tudo ali tem para mim o ar de qualquer coisa que talvez tenha sonhado, confuso, misterioso, como o reflexo de um espelho mágico.
Nunca vi, senão uma vez, na primeira rosa de Alexandria que me mostraram, vermelho como o do tapete persa que ali se encostam as velhas esculturas de madeira que o tempo roeu, dando-lhe a leveza das rendas e da espuma, e do nevoeiro frio e dourado em que se embrulha às vezes o sol para morrer com ele.
Aquele tapete enche o ar de perfuma das rosas, que se não vêm, e cuja respiração cansada parece ter parado ali num espasmo de amor, como os reflexos de outo e púrpura do sol poente que a água fria dos lagos prende no brilho triunfante de um esmalte.
De fundo a um calvário de madeira, há ali um tapete de Arraiolos, precioso como um complicado esmalte verde sobre ouro, pálido como um sorriso que se desfaz.
Porque será que aquele velho e gasto tapete me comove, como as joias pequeninas e preciosas de outros tempos que irresistivelmente evocam em mim as cores delicadas de carne que nunca vi senão na adoração dos corpos delicados das flores?...
Aquele tapete foi dependurado com carinho por António Augusto Gonçalves para não se perderem as marcas dos pés pequeninos de mulher, que por ali passaram nus, mais levemente do que as pétalas das rosas que o perfume quente do incenso faz cair mortas das jarras dos altares num último gesto triunfante de beleza.
Sala de encantamento…
Um dia, encontrei ali, numa redoma simples de vidro, uma madeixa de cabelos loiros, com a indicação que fora de D. Isabel, mulher do infante D. Pedro, o duque de Coimbra que morreu em Alfarrobeira.
Dizia mais o letreiro haver sido encontrado num túmulo de pedra que para o mosteiro novo viera do mosteiro velho de Santa Clara.

Custa a subir esta ladeira de Santa Clara!

Santa Clara-a-Nova. Bilhete Postal.jpgMas, quando se chega ao cimo, é de encantar olhar para Coimbra, branca, como nela tivessem pousado todas as pombas de Vénus.

Vista de Coimbra. 1907.jpgCoimbra, vista geral em 1907

A igreja é fresca e alegre.
Ao fundo, lá está o tumulo de pedra a que serve de decoração. Um brasão em que se leem as armas de Portugal com a cruz de Avis, o banco de pinchar e as barras de Aragão.

01bb.jpgArca tumular de D. Catarina, filha de D. Pedro e de D. Isabel, duques de Coimbra

… Fr. Manuel da Esperança, que a princípio supôs, como era natural, pudesse ser esta a sepultura de D. Isabel, filha dos condes de Urgel e mulher de D. Pedro, o de Alfarrobeira … [depois considerou que] este tumulo seria o de D. Maria. filha de D. Pedro, o cru, e de D. Constança … O Sr. Dr. Ribeiro de Vasconcelos … discorda … e atribui a sepultura à mulher de D. Pedro, o de Alfarrobeira.
…. Ora a arca de pedra é de pequenas dimensões próprias para sepultura de uma criança …. É pequenina a arca … Dentro do túmulo encontrou-se o esqueleto de uma criança, de lindos cabelos loiros que o tempo conservara.
Quem seria?
As barras de Aragão, o banco de pinchar, a cruz de Avos, os carateres da escultura circunscrevem as investigações à família de D. Isabel, duquesa de Coimbra, e mulher do infante D. Pedro.
A princesinha conservada na arca de pedra do mosteiro de Santa Clara de Coimbra não pode ser senão D. Catarina, filha de D. Pedro, o de Alfarrobeira e da duquesa, sua mulher.
… A 16 de Dezembro de 1466 devia ter morrido já porque … tem essa data o testamento da mãe, a duquesa de Coimbra que não se refere a ela … É a morte de D. Catarina que explica ainda a saída da duquesa, sua mãe, de Coimbra e a sua ida para as partes de Lisboa, aonde foi enterrar-se viva, na frase … de Fr. Manel da Esperança.

Nota: o banco de pinchar é uma figura da heráldica utilizada para diferenciar os brasões dos filhos de pessoas brasonadas ao utilizarem o brasão dos pais.

Carvalho, J.M.T. História de uma arca de pedra e de uma madeixa de cabelos loiros. In Atlantida. Mensário Artístico Literario e Social para Portugal e Brazil. Ano II, n.º 18, 15 de Abril de 1917.

 

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por Rodrigues Costa às 09:53

Terça-feira, 23.04.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal, um lugar a visitar

Frequento com alguma assiduidade do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra e tenho para mim que se trata de um local que não pode ser ignorado por todos aqueles que se interessam pela história da cidade.
Alicerço a minha convicção em virtude do vasto e valioso acervo que ali se encontra depositado, constituído, em boa parte, pelos documentos fundacionais da nossa cidade. Além disso, pode sempre visualizar-se uma exposição temporária de médio ou longo prazo que mostra documentação original e contextualizada, na medida em que se encontra especialmente vocacionada para centrar, num discurso claro e integrado, uma mensagem relacionada com a cidade.

Também se pode observar a imagem de S. Jorge, montado num cavalo, a fim de participar na procissão do Corpus Christi, a festa maior que, durante muitos séculos, acontecia em Coimbra.

S_Jorge.pngImagem de S. Jorge

Não posso, nem quero, deixar de chamar a atenção para a grande competência, disponibilidade e simpatia das Técnicas responsáveis pelo aquivo e que atendem personalizadamente (o que é muito importante para quem investiga) todos quantos ali se deslocam.
Podemos ainda observar as varas que os vereadores outrora levavam nas mãos quando participavam em atos oficiais, bem como peças de vestuário que então utilizavam

obj20.JPGVaras dos vereadores da Câmara de Coimbra

A exposição temporária de médio ou longo prazo é periodicamente renovada e nela podem ser observados, quando integram a mostra, alguns destes documentos:

- Carta de Sentença
1297, Julho, 8, Coimbra. Carta de Sentença do Ouvidor da Corte, Estêvão Peres, ordenando ao alcaide de Coimbra, João Arrais, que restituísse a dízima, indevidamente cobrada ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, “atendendo ao Costume de Coimbra, sobre que foram perguntados os alvazis e homens bons”.
É o documento original mais antigo que se encontra no AHMC.

Carta de Sentença.png

 

- Carta partida por ABC
1299, Maio, 20, Coimbra. Instrumento de composição amigável feito entre o concelho de Coimbra, representado pelos seus procuradores Domingues Esteves e Martim Anes, mercadores, e o concelho de Penela, pelo procurador António Anes, sobre a jurisdição e direitos a cobrar nos lugares de Pousafoles-o-Velho, Pousafoles-o-Novo (conc. Miranda do Corvo); Pereiro (conc. de Penela); Cabeça de Boi e Lavarrabos (actual Rabarrabos, conc. de Penela).
O acordo alcançado referia que os moradores dos lugares pagariam “irmãmente a metade” de todos os serviços e tributos que aí fossem lançados quer pelo concelho de Coimbra, quer pelo de Penela.

Carta partida por ABC.jpg

Nota: Uma carta partida por ABC, era um pergaminho no qual era escrito um original e uma cópia fiel do mesmo, ambos devidamente assinadas. O pergaminho era cortado na forma que se vê na imagem, sendo cada uma das metades entregue às partes subscritoras. Se fosse necessário confirmar a veracidade de uma das partes, juntavam as duas e verificavam se o corte coincidia.

Lei das Sesmarias
1375, Junho, 1, Coimbra. “Exórdio da ordenação da lavoura”, conjunto de medidas decretadas por D. Fernando e posteriormente conhecidas por “Lei das Sesmarias”, para que “haja maior abundância no reino”, tentando recuperar a produção agrícola, após uma época de grave crise económica, provocada pela epidemia da “peste negra”. É um dos poucos originais do texto fernandino que hoje se conhece.

Lei das Sesmarias.jpg

Acordãos e Vereações
1491, 23 de Março a 31 de Dezembro, Coimbra. “Livro dos Acordos e Verações do ano de mil iiijc LRj”em que foram oficiais: João de Barros, cavaleiro e João Pessoa, juízes; Pedro Brandão, cavaleiro, Aires Alvelo e Álvaro Vasques, vereadores; Garcia Rodrigues Pacheco, procurador da cidade. É o mais antigo livro de registo das reuniões da vereação que se preservou até à actualidade.

Acordãos e Vereações.png

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra ali na Rua Pedro Monteiro, no edifício da Casa da Cultura, ao cimo da Sereia. Vá por lá que vai gostar.

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Catálogo da Exposição. 2018

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por Rodrigues Costa às 09:46

Terça-feira, 02.04.19

Coimbra: Convento velho de S. Domingos

Segundo o cronista da Ordem [em Coimbra], o convento de São Domingos estava já formado em 1227 sendo seu prior Frei João e a iniciativa da fundação ter-se-ia ficado a dever a D. Branca, filha de D. Sancho I [a quem] atribui … todo o mérito da elevação do convento que … seria um dos mais antigos do reino, fundado antes de vinte anos decorridos sobre a confirmação da Ordem.

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S. Domingos. Gravura de Jacques Callot

… Frei Luís de Sousa … anota que D. Teresa, sabendo do propósito da irmã, como que dele se apropria e concede o lugar de Figueira Velha, para a instituição do mesmo, acrescentando, contudo, que a cargo de D. Branca teria ficado a construção, em si, do edifício.
Mas é possível que o convento de S. Domingos de Coimbra já fosse uma realidade em 1226, data em que um chantre da Sé … lega aos pregadores 10 morabitinos. Sem dúvida, no ano de 1229 aí se sepultava [um] cidadão de Coimbra.
… o arcebispo de Braga D. Silvestre (1229-1244), passando pelo convento de São Domingos, concedeu, a todos os homens que fossem ajudar nas obras, 40 dias de indulgência.
…. Logo desde o início da sua existência os Pregadores de Coimbra atraíram vocações …. Adquirem a credibilidade e estima dos vizinhos da cidade e arredores que lhes legam bens móveis e imóveis e escolhem o convento como sepultura.

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Frei Gerardo de Frachet, na sua obra Vitae Fratrum Orditiis Praedicatorum, dedicou aos sermões e aos milagres de Frei Paio de Coimbra várias páginas

… E o mosteiro de São Domingos de Coimbra teve a felicidade de contar, logo no início, entre os seus frades, com um pregador da envergadura de D. Paio de Coimbra. Os seus 407 sermões são o maior acervo de sermonaria medieval que possuímos, alguns dos quais poderão ombrear com os de Santo António de Lisboa. A sua palavra calaria fundo no coração do povo e a sua fama de santidade depressa se espalhou, chegando célere a Gérard Frachet que inclui a sua vida e milagres na «Vitae Fratrum», posta a correr em 1259.

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Localização do convento velho de S. Domingos na carta da cidade levantada em 1845 por Isidoro Emílio Baptista

…. Breves são estas notas históricas sobre o convento velho de S. Domingos, como breve foi também a duração do primitivo edifício e do seu arquivo, arrasado pelas cheias do Mondego… Segundo Nogueira Gonçalves situar-se-ia este primitivo convento ao fundo da Rua Direita, já na confluência com a atual Rua de Fernão de Magalhães, mas desconhece-se, completamente, pormenores sobre o seu traçado. Sabemos apenas que o claustro tinha dois pisos, abrindo-se para o superior a porta da sala do cabido, e o interior da igreja seria ornamentado com vários altares, entre eles o de S. Frei Gil, Santa Iria, Santa Catarina e, no final do século XV, o de Nossa Senhora do Rosário.
Os efeitos das águas já se faziam sentir em pleno século XIV … as obras do convento novo começaram em 1543.

Localização atual do convento velho de S. Doming

Localização do convento velho de S. Domingos, na atualidade. Imagem Google

Nota:
Há alguns anos, no início do atual milénio realizaram-se obras nos terrenos situados nas traseiras do antigo Hotel Almedina, atual Stay Hotel.
Face às estruturas e aos materiais encontrados no decurso desses trabalhos tornou-se necessário levar a cabo estudos arqueológicos – cujo relatório, julgamos, não se encontra ainda divulgado – que possibilitaram localizar o velho convento de S. Domingos naquele local. Já Nogueira Gonçalves, em artigos outrora publicados e relacionados com o assunto, apontara para aquela zona, embora com um pequeno desvio de cerca de 100 metros.

Coelho, M.H.C. e Matos, J.J.C. 1986. O Convento velho de S. Domingos de Coimbra. Contributo para a sua história. Separata do Arquivo Histórico Dominicano Português. Vol. III/2

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por Rodrigues Costa às 09:47

Terça-feira, 19.03.19

Coimbra: Misericórdia breve história

Dentro de alguns anos [1998] passa o meio milénio da Misericórdia coimbrã … Entre vária documentação notável, merece referência o conjunto de 25 grossos volumes, denominados «Documentos antigos», que agrupam manuscritos que vêm da fundação da Casa até meados do seculo XVIII, e o precioso «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra».


Folha de abertura do Memorial de João Baptista.jp

Folha de abertura do «Memorial» de João Baptista

…. Abrindo com uma folha branca, está a folha seguinte toda ocupada por um desenho nas cores sépia, preto e vermelho … Na oval, em chefe, está a figura de Nossa Senhora da Misericórdia lateralizada por dois anjos apoiados nos brasões nacional e dos Almeidas, decerto em lembrança do benemérito bispo Dom Jorge de Almeida, que na sua Sé acolheu a Misericórdia quando da sua instituição.
…. [Do «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra»] Se respigam alguns capítulos concernentes à história da Santa Casa até ao ano [1645] em que ele a escreveu:
- Teve sua origem em princípio de 1498.
- No ano de 1500 se ordenou essa Confraria na cidade de Coimbra, como parece, por uma carta do … Rei de 12 de Setembro de 1500 escrita aos Vereadores desta cidade em que os louva e aprova quererem instituir a dita confraria e lhe concede os privilégios todos que haviam concedido à Misericórdia de Lisboa por um alvará feito no mesmo dia.
- É tradição que primeiro se assentou esta Confraria da Santa Misericórdia na Sé, daí se passou para a Igreja de Santiago, na casa que serve de celeiro, na quina da praça onde se diziam as missas e se chamava Capela da Misericórdia.
- No mesmo sítio esteve até o ano de 1546 em que se ordenou fazer-se nova casa sobre a Igreja de Santiago como está edificada, como se vê do contrato celebrado pelo provedor e mais irmãos dela… e o prior … e mais beneficiados da dita Igreja [de Santiago].

Relevo da frontaria da Misericórdia de Coimbra 02

Relevo da frontaria da Misericórdia e Coimbra (In: Borges, N.C. 1960. João de Ruão. Escultor da Renascença Coimbrã)

- Os retábulos e mais obras desta casa parece fazer aquele grande mestre João de Ruão como se vê de uma quitação sua.
- Depois, em diversos tempos, se tratou de mudar a casa da Misericórdia para vários sítios, escolhendo a praça desta cidade no canto do hospital de S. Bartolomeu até o Romal e para isso compraram as moradas de casas que estão feitas na praça nas costas da mesma Igreja do hospital que ao depois se tornaram a vender. E depois se quis edificar na entrada da Rua do Corpo de Deus, onde se começou nova casa em o ano de 1589 a 29 de Maio, cujas obras se suspenderam depois da obra estar aberta, havendo-se nela despendido já cópia de dinheiro.

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A Misericórdia ocupava os dois pisos superiores ao portal de Santiago, e ali se encontravam somente a administração e a capela, de que se nota a Torre sineira

- Finalmente no ano de 1605, em 6 de Março se tomou o último assento que a casa da Misericórdia se não mudasse e se fizesse as casas, convém a saber, do despacho, sacristia, e da cera, e mais obras novas na forma e que hoje estão.

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Miseri

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Misericórdia, pormenor c.1773

…. Perante os insucessos a Irmandade vai-se mantendo na sua exótica Igreja e sede -porque, caso único, estava construída sobre outra igreja – até que tendo o Cabido da Sé sido mudado da velha Sé para a Igreja dos Jesuítas, logo a Irmandade da Misericórdia, em Março de 1772, voltou à casa onde havia nascido quase três séculos antes.

- As grandes dificuldades de alojamento só viriam a ser resolvidas pela Carta de Lei de 15.XI.1841 quando concedeu à Misericórdia a ocupação do Colégio Novo (onde num pequeno espaço funcionava o Tribunal, e em resultado da cedência teve que vir instalar-se na Torre de Almedina).


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O «Colégio Novo» restaurado após o incêndio. À direita a «Torre de Anto» e o moderno colégio onde se encontram os alunos

- A vida da Misericórdia continuou com altos e baixos até que na noite de 1 de Janeiro de 1967 um violento incêndio destrói grande parte do edifício

Nota:
O trabalho citado integra uma transcrição do Inventário dos «Moveis desta S. Caza…» realizado em 1645.

Silva, A. C. 1985. Um Inventário seiscentista da Misericórdia de Coimbra. Separata de Munda.

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por Rodrigues Costa às 21:32

Terça-feira, 26.02.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 1

O problema da instituição e administração das estalagens ou «estaos», era antigo e frequentemente levantado pela administração municipal junto do poder régio. É assim que D. Duarte numa sua carta de 1436, «mandamos que taes pessoas pousem nos Estaos que há pelo caminho, ou da dita cidade [de Coimbra] e não nas aldeias e casais que estão fora das estradas».

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Estalagem de caminho. De salientar os diferentes tipos de meios de transporte


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Estalagem de caminho em Espanha

Nas Cortes de Lisboa de 1440 pediu-se o «estabelecimento de estaos para pousadas nas cidades, vilas e aldeias e a taxa dos mantimentos, camas e mais serviços presentes neles».
…. Há notícia da existência na cidade, nos princípios do século XVI de três estalagens, da sua localização e nomes dos proprietários:

- Estalagem Nova

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Capela do Senhor do Arnado que se situava cerca do local onde hoje se encontra o monumento a Cindazunda

Situar-se-ia na entrada da cidade para quem viesse do norte, próximo da «goleta» [Então o «porto dos oleiros», teria algum pequeno canal que ligava ao rio, e assim o topónimo «goleta»], próximo do local onde existia um crucifixo em pedra, a céu aberto, que levou à edificação da Capela do Arnado no meado do século passado [século XIX]
Aquela zona era desde a Idade Média domínio dos oleiros, até que no século XVIII se mudaram para a zona do Terreiro de Santa Justa e foram ali substituídos pelos cordeeiros vindos da sirgaria de Santa Clara, destinada a outros fins.

- Estalagem do Pintor

Estalagem da Donata.jpgA quinhentista estalagem do Pintor, que no século XIX era estalagem da Donata

[Situava-se] na, na Rua de Tinge-Rodilhas, depois Rua da Louça … que muito anos depois seria conhecida pela «estalagem da Donata», alojada em edifício ainda hoje existente, muito degradado, e que merecia recuperação para fins turísticos.

Nota 1
Quando era muito jovem, as camponesas que vinham vender à praça – ao Mercado D. Pedro V – guardavam neste edifício os burros onde transportavam os legumes, as galinhas, os ovos e a fruta destinados a serem ali comercializados. Atualmente, e depois de obras de recuperação, com entradas pela Rua da Moeda e pela da Louça, funciona no edifício um estabelecimento que vende, entre outras vitualhas, leguminosas, batatas e rações para animais.

Nota 2
De assinalar que esta estalagem na parte inicial do texto é designada por «Pintor» e na parte final do mesmo texto por «Prior».

- Estalagem do Paço do Conde

No centro do casario quinhentista, o gravador [Hoe

No centro do casario quinhentista, o gravador [Hoefnagel] fez ressaltar o Paço do Conde de Cantanhede com seu claustro, depois Estalagem do Paço do Conde.

Em 1662 estabeleceu-se uma das melhores estalagens do país no que fora o rico paço do Conde de Cantanhede, D. Pedro de Menezes, no centro mais vivo da cidade, próximo da praça, da Câmara, dos açougues, da «casa-do-ver-do-peso», ponto de reunião obrigatório a mercadores e vendeiros, por ali chegarem e estacionarem os carros e azémolas que vinham do sul, do norte e das Beiras com a maior parte dos géneros de que se alimentava a cidade. Era o terminal dos grandes carroções, já que eles, por disposição camarária não podiam ir até à Praça.
O edifício magnífico, fora construído nos anos do meado do século XVI …. Parece que a ocupação do edifício por tão nobre família não chegou a efetivar-se … nos primeiros meses do ano de 1622, escreveu a Filipe III … «que fizera uma estalagem para agasalhar os passageiros e caminhantes e almocreves com muitos aguazalhados [quartos] e camaras fechadas para fidalgos e pessoas graves que fica sendo dos melhores deste reino por estar na melhor passagem da cidade e junto da praça dela…».

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

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por Rodrigues Costa às 11:13

Quinta-feira, 10.01.19

Coimbra: Pesca Artesanal no Rio Mondego

A carne era o complemento alimentar básico da população [da população da região de Coimbra, no século XVI], mas como era escassa, o peixe do rio, ou vindo dos portos da costa mais próximos, como Buarcos e Aveiro, supria as necessidades maiores em anos de fome.
… O ano de 1526 foi terrífico, tendo a Câmara deliberado em 28 de fevereiro, que todo o peixe pescado no rio, fosse nas «bugigangas» [rede de malha apertada, com cerca de 20 metros, que com embarcações em cada extremo formavam um círculo em que o peixe ficava aprisionado] ou noutro qualquer artifício, teria de ser levado à praça, salvo aquele que os pescadores necessitassem para sua alimentação.
… conhecem-se notícias que vêm de muito longe, sobre a comercialização na cidade [de Coimbra] do peixe do rio e do mar, uma das quais se pode ler no «Livro das Kalendas» … [respeitante a] uma tenda … no local das «Tendas» que se estendia da Almedina à Sé, pela então Rua dos Fiveleiros, e hoje de Quebra-Costas. Essa tenda, identificava-se como a «casa da pedra do peixe» que, em data imprecisa, se mudou para a Rua das Fangas da Farinha. O peixe era então cortado e vendido à posta, e aquela «pedra» não tinha outra finalidade que não fosse a de servir de mesa para o seu corte. Era obrigatório reunir nesse local todo o peixe destinado à venda, para ser taxado pelos oficiais da Câmara, e escolhido, antes da venda pública, pelos privilegiados. Parece que o peixe seria mais volumoso do que é hoje e as condições económicas da maioria não seriam propícias à compra de peixes inteiros, tanto mais que a sua conservação se resumia à salga.
Nas «Posturas Municipais», publicadas em 1554, determinavam-se as obrigações relativas aos pescadores, à almotaçaria e aos locais de venda. Aquele peixe que viesse do mar seria vendido pelo próprio pescador que o trouxesse, e na barca ou azémola em que viesse, depois de ter sido taxado. O peixe do rio podia ser vendido pelas portas, assim como os mariscos.

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Dois caneiros no rio levantados com estacaria, redes, ou entrançado de vimes ou ramos de choupo. Desenho não identificado

… A legislação do tempo sobre a pesca é extensa, e aparece com frequência nas «Posturas, Cartas Régias, Alvarás, Forais» e outro tipo de legislação. Os primeiros documentos régios que se conhecem sobre o colocar no rio os «caneiros» … remontam a uma autorização de D. Afonso I concedida no ano de 1139, aos crúzios, para colocarem no rio, em seu benefício, aquele tipo de apanha do peixe que subia ou descia o rio.

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Barco de pesca do baixo Mondego. Desenho não identificado

… O Mosteiro era também autorizado a ter uma barca de pesca, no rio ou no mar, isenta de qualquer tributo.
… [no] regresso da tomada de Ceuta, são dados ao Infante D. Pedro junto com o título de 1.º Duque de Coimbra, inúmeros benefícios materiais, e, entre eles, o direito, expressamente mencionado, de ter um «caneiro» no rio. [Este caneiro] após Alfarrobeira, passou a ser referido por «caneiro real»
…. Conhece-se documentação que dá notícia de nas tendas do mercado da Almedina, aí pelos anos 40 do século XIV, haver tendas em que o peixe era vendido frito ou cozido.

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Um pescador coimbrão, setecentista, com rede ao ombro e cesta de peixe na mão. O fundo da gravura é o Mosteiro de S. Cruz, com a cruz de uma «estação», e a porta para a zona de Santa Margarida. Desenho não identificado

Os pescadores que livremente queriam pescar no rio, tinham que previamente se inscrever em livro próprio da Câmara … e pressionados pela mira do lucro ou por carências alimentares, não guardavam as distâncias entre os «caneiros», em que era proibido pescar, ou a eles iam, de noite, apanhar o peixe. Isso se depreende de queixas que a Cidade fez ao rei.

Livro das posturas dos piscadores, pormenor do in

Livro das posturas dos «piscadores», pormenor do início

…. No «Livro dos Regimentos e Posturas da Câmara» mais conhecido por «Livro I da Correia» … no capítulo que tocava às «pescadeiras» … eram obrigadas a vender todo o peixe, a peso, fresco ou seco, na praça ou no açougue do peixe – a tal «casa da pedra do peixe» – salvo os linguados, lampreias e azevias que se venderiam por contado, e finalmente os mariscos, que não tinham preço fixado e, portanto, variável.

Nota:
No Livro das posturas dos «piscadores» pode observar-se um pormenor deveras interessante. O mester Fernão da Serra à frente do seu nome colocou, desenhada, uma serra; contudo, pensamos que a assinatura terá sido caligrafada pelo escrivão e o mester, devendo ser analfabeto, em vez de colocar a costumeira cruz utilizava a figuração do seu apelido.

Livro das posturas dos piscadores, pormenor das as

Livro das posturas dos «piscadores», pormenor das assinaturas

Silva, A.C. A pesca artesanal no Rio Mondego como factor económico na vida Coimbrã. Separata do Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol. X. 1988.

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por Rodrigues Costa às 11:46

Quinta-feira, 26.07.18

Coimbra: O Pelourinho e as suas peregrinações pela cidade 2

Orgulhoso e altaneiro, bem cioso dos direitos que representa, o pelourinho não desvenda com facilidade a sua origem, mas verificamos que a sua existência se estendeu a toda a Europa ocidental, cronologicamente até à implantação das ideias liberais e que, nalguns países, ultrapassou mesmo esta época. Sabemos também que atravessou os mares e se implantou no Novo Mundo por influência de portugueses, espanhóis e ingleses.

Herculano pretende ver a sua origem associada ao direito itálico (jus italicum) que consignava uma total organização municipal e permitia levantar no forum a estátua de Marsyas ou de Sileno com a mão erguida, símbolo da liberdade burguesa.

Pinho Leal, filia a origem destes monumentos na columna moenia, colocada pelo cônsul romano Moenio na praça, isto é, no forum que se estendia frente à sua casa, onde se realizavam os julgamentos feitos pelos magistrados (triumviros), se aplicavam os castigos públicos e se faziam as festas populares.

Teófilo Braga vê no pelourinho a representação do Genius Loci romano, patrono da independência municipal.

Luís Chaves filia o aparecimento do pelourinho na antiga imagem do poste pessoal ou coletivo de um clã, de um povoamento ou de um agrupamento religioso.

Mas a sua origem, provavelmente, tem de se ir buscar em tempos ainda mais recuados.

Todas as picotas, mais ou menos esbeltas, mais ou menos ricas na sua decoração, têm um elemento comum: a coluna.

… Monsenhor Nunes Pereira, nos idos de Quarenta, escrevia que os pelourinhos “testemunham a autonomia (jurisdicional, digo eu) que a terra goza ou gozou noutros tempos. Devem ser estimados, conservados e reconstituídos onde isso possa fazer-se”.

*

 O pelourinho de Coimbra transferiu-se do adro da Sé Velha, onde se encontrava junto à Casa do "Vodo" (casa da audiência da Câmara que se erguia frente à igreja da Sé [Velha] para a praça do Comércio nos finais do século XV (1498).

Retirado deste lugar, deslocou-se para o Largo da Portagem (1611), tendo então sido adaptado a fontanário. Aí permaneceu até 1836, ano em que o desmontaram e armazenaram até 1894. 

Grimpa do pelourinho de Coimbra, original.jpg

Grimpa do pelourinho de Coimbra, original

 Do original resta apenas a grimpa, conservada no acervo do Museu Nacional de Machado de Castro.

*

Da sua reconstrução, ocorrida nos anos oitenta do século passado, posso dar testemunho.

Eu era, ao tempo, Chefe de Serviços de Turismo aos quais estava adstrito o Gabinete de Salvaguarda do Património, de que era responsável o arquiteto António José Monteiro.

Tendo sido determinado pelo então Presidente da Câmara, Dr. Mendes Silva, a recuperação da Praça do Comércio, na altura mais conhecida por Praça Velha, entendeu-se reinstalar ali uma reconstituição do Pelourinho, até porque ele, outrora, já estivera erguido naquele local.


Pelourinho de Coimbra na Portagem.jpg

 Pelourinho de Coimbra na Portagem

 

Baseado em desenhos que se pensam ser fidedignos, o arquiteto António José Monteiro riscou uma proposta reconstrutiva e o saudoso Mestre Pompeu Aroso bateu as partes metálicas, copiando-as do original, existente no Museu Machado de Castro. 

 

Pelourinho de Coimbra c.JPG

 Pelourinho de Coimbra reconstituição

 

Praça Velha com reconsituição do pelourinho.jpg

 

Praça Velha com reconstituição do pelourinho

 

 

Bibliografia

. Anacleto, R. 2008. Para que servem os pelourinhos? Conferência proferida nas I Jornadas de História local, Pampilhosa da Serra. Auditório Municipal, 2008.04.10 e 2008.04.11.

. Malafaia, E.B.A. 1997. Pelourinhos portugueses. Tentâmen de inventário geral. Col. Presenças de Imagens. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda.

. https://pt.wikipedia.org/wiki/Pelourinho_de_Coimbra. Acedido em 2018.07.17

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por Rodrigues Costa às 19:03


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