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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 02.10.18

Coimbra: Rede de saneamento, os primórdios

“Sob o ponto de vista da limpeza e esgoto é a cidade de Coimbra uma daquelas que indubitavelmente se acha no nosso país em mais extraordinário estado de atraso. Em parte dela, privada de canos, os despejos das respetivas casas são feitos do modo o mais incrível e repugnante, e lançados, mesmo de dia, nas margens do Mondego e arrabaldes da cidade. A parte canalisada acha-se em um estado muito mais inconveniente para a salubridade da terra, porque, desaguando todos os canos no rio, foram construídos, uns sem secção correspondente ao volume a que deve dar saída; outros sem a conveniente inclinação para a vasão; alguns sem soleira; aquelles com a soleira inferior à estivagem do Mondego, de onde resulta conterem um deposito, que jamais se substitue; e todos, finalmente muito mais baixos do que as cheias ordinarias do rio, o que dá logar  a que nesta ocasião a primeira inundação da cidade é feita com as matérias retidas no interior dos canos, e refluídas em consequencia do represo das cheias.” [Adolfo Loureiro]

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 Adolpho Ferreira Loureiro

 Em 1880, o município encarregou o engenheiro municipal José Cecílio da Costa de estudar uma nova rede de canalizações de modo a “melhorar os existentes e a construir nas ruas onde os não haja.”

 

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 José Cecílio da Costa, Projecto de Esgotos e Saneamento da cidade de Coimbra, 1893

 Estudo este publicado em “O Instituto”, com o título “Memória sobre o saneamento da cidade de Coimbra: esgotos e irrigação”. Prevendo as dificuldades de elevação da cidade baixa, propunha um plano “comum a quer seja ou não alteado o bairro baixo”, projetava a continuação do dique marginal entre o Arnado e a vala dos Lázaros e fundamentalmente a substituição do coletor existente entre a Portagem e os Oleiros que não tinha a pendente necessária e que estava mal selado deixando entrar as águas do Mondego. Defendia que a solução mais económica para a construção deste coletor seria o alargamento da margem cerca de 3 metros de modo a implantar no interior do novo dique o novo coletor, acresce que sendo uma obra na margem ficaria sob domínio e a expensas da Direção de Obras Públicas do Mondego. Propunha ainda uma densa rede de condutas que garantiriam o escoamento de todos os edifícios da cidade.

Desconhecemos quais foram as obras realmente realizadas, mas no ano seguinte, o concessionário inglês da rede de abastecimento de água apresentava a sua proposta para a construção de uma rede de esgotos.

… só em 1887, depois de adquirida a Quinta de Santa Cruz e enquanto decorriam as obras de terraplanagem das novas ruas, a Câmara Municipal, impulsionada por um surto de “febre de caracter typhoso que assolou a cidade… pondo em risco a vida de muitos moços distintos que frequentam a universidade e a dos habitantes de Coimbra” procurou assegurar as condições de salubridade do novo bairro e, resolveu solicitar o auxílio do governo para o estudo e construção da nova rede de saneamento, alegando a: “deficiencia de meios para empreender os necessarios melhoramentos da cidade, e em especial a urgentíssima obra de reforma dos seus canos de esgoto, aonde todos os annos concorrem centenares de alumnos de todos os pontos do paiz, solicitava que o governo lhe prestasse a competente coadjuvação”.

Em resposta, o Ministro das Obras Públicas Comércio e Industria, Emídio Navarro, incumbiu o engenheiro Adolfo Loureiro de elaborar com a máxima urgência o estudo de um sistema de esgotos para a cidade

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 Emídio Navarro

 … No ano seguinte o projeto e orçamento foram aprovados … dois concursos públicos para a execução das obras, mas ambos ficaram desertos, o que obrigou o município e empreender ele próprio, as obras mais urgentes.

O deputado por Coimbra, Alberto Monteiro conseguiu junto do Governo uma comparticipação anual que permitiu a construção de grande parte da rede. No entanto a construção fragmentada da rede comprometeu o seu desempenho e só no início do século XX é que a situação foi verdadeiramente resolvida.

Calmeiro, M.I.B.R. 2014. Urbanismo antes dos Planos: Coimbra 1834-1924. Vol. I. Tese de doutoramento em Arquitetura, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, pg. 272-278

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por Rodrigues Costa às 09:40

Quinta-feira, 27.09.18

Coimbra: Abastecimento de água 2

[Finalmente] a Câmara Municipal presidida por João José Dantas Souto Rodrigues, encetou uma nova e decisiva fase, não só para o abastecimento de água, mas para o futuro da cidade. Fruto também do amadurecimento do papel da administração municipal na construção da cidade e da experiência da construção do novo Bairro de Santa Cruz, o município resolveu assumir a responsabilidade da execução deste melhoramento e empreender com os seus próprios meios a construção da nova rede de captação e distribuição de água a partir do Mondego.

O município de Coimbra tornou-se assim pioneiro na administração municipal ao assumir o papel reservado às companhias privadas, consideradas na época o único meio de levar a cabo a construção e exploração dos novos serviços urbanos. Neste sentido, o novo presidente, Luís da Costa e Almeida, depois de conseguir a rescisão do anterior contrato, continuou a estratégia de Souto Rodrigues e solicitou a Adolfo Loureiro que revisse o seu plano e o orçamento para o abastecimento de águas a partir do rio. Em Setembro desse mesmo ano foi aberto o concurso e a adjudicação das obras de canalização, fornecimento e instalação de máquinas para o abastecimento de água, foi feita no dia 5 de Janeiro do ano seguinte a Eugène Béraud. 

Planta de reconstituição da rede.jpg

 Planta de reconstituição da rede de captação e distribuição d’águas a partir do rio mondego. Início da década de 1890

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 Louis-Charles Mary, “Ville de Coimbra, Avaint-Projet de distribution d’eaux. Type de Station des Pompes”

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 Easton & Anders engineers. “Abastecimento de Aguas a Coimbra. Reservatório de Distribuição. 1866

As obras de captação e dos depósitos iniciaram-se em Março desse mesmo ano e no ano seguinte estavam concluídas.  Nove anos depois da cidade de Lisboa e três anos depois da cidade do Porto também Coimbra começou a abastecer a cidade a partir do rio e pelas novas técnicas mecânicas.  A água era captada no Mondego, elevada a partir de uma estação elevatória para dois reservatórios, um no Jardim Botânico para abastecer a cidade baixa e outro na Cumeada para a cidade alta e o novo bairro de Santa Cruz.

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 Imagem atual da entrada do reservatório do Botânico

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 Reservatório da Cumeada 1

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Reservatório da Cumeada 2

 Depois da captação e da elevação foi adjudicada a construção das redes de canalizações para os domicílios, de acordo com o regulamento aprovado em Maio de 1889 e pouco a pouco a rede foi-se expandindo por toda a cidade.

No início do século XX o abastecimento chegou ao Calhabé, a Santo António dos Olivais e a Santa Clara, implicando a construção de um terceiro reservatório em Santo António dos Olivais.


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 Reservatório dos Olivais

De notar que o projeto de Adolfo Loureiro, de 1887, tinha sido estudado para abastecer um total de 16 mil habitantes com um consumo diário de 100l/dia, calculado de acordo a previsão de crescimento de população para os 30 anos seguintes, no entanto o crescimento foi muito mais alto e em 1890 já tinha ultrapassado os 17 mil habitantes.

 Calmeiro, M.I.B.R. 2014. Urbanismo antes dos Planos: Coimbra 1834-1924. Vol. I. Tese de doutoramento em Arquitetura, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, pg. 264-271

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por Rodrigues Costa às 22:28

Terça-feira, 25.09.18

Coimbra: Abastecimento de água 1

A iniciativa de dotar a cidade de uma moderna rede de abastecimento de água a partir do Mondego surgiu em 1865, graças ao médico António Augusto da Costa Simões, antigo Presidente da Câmara. Dois anos antes, “O Instituto” tinha publicado a análise das águas das principais fontes da cidade e do rio, efetuadas pelo professor Francisco António Alves que concluía: «Para bebida devia preferir-se a agua do rio e da fonte do Cidral. Convinha construir poços a certa distância do rio, que por filtração dos terrenos recebessem a agua d’elle, tendo no fundo grossa camada d’areia para a tornar mais límpida, mormente durante as cheias do Mondego. D’estes poços poderia elevar-se a agua por meio de bombas e reservatórios, que tornassem mais commoda a sua distribuição pelos habitantes de grande parte da cidade».


António Augusto Costa Simões.jpg

António Augusto da Costa Simões (1819-1903)

Fonte: http://pt.ars-curandi.wikia.com/wiki/António_Augusto_da_Costa_Simões

No seguimento deste estudo, Costa Simões médico experiente e ciente da importância deste melhoramento urbano para a saúde pública, enquanto realizava uma viagem de estudo pela Europa apresentou à Câmara Municipal os “seus oferecimentos para tratar em Paris do projeto de abastecimento d’agua para esta cidade”. Para estudar este projeto, recorreu ao engenheiro Louis Charles Mary, e no início de 1866, já em Coimbra, apresentou à nova vereação o projeto de abastecimento de água à cidade aproveitando as águas do rio, mas na mesma data a vereação preferiu adicionar à rede existente, as águas da Quinta dos Sardões, em Celas, e talvez por esta razão ou por outros constrangimentos a questão da nova rede de abastecimento de águas foi sendo esquecida.

Só em 1870, sob a presidência de Anthero Augusto Marques de Almeida Araújo Pinto foi aberto o primeiro concurso para o projeto e construção de uma rede de abastecimento de água a partir do rio. Surgiram duas propostas, a primeira apresentada por Costa Simões em parceria com Cândido Xavier Cordeiro, a segunda de Louis Penny, de Londres. A escolha recaiu sobre a primeira mas dificuldades … levaram à rescisão do  contrato … Foi aberto novo concurso e voltou a ser assinado [outro] contrato … no dia 13 de Agosto de 1873, mas novamente não se conseguiu mobilizar investidores e este segundo contrato acabou por caducar.

… Costa Simões conseguiu estabelecer uma parceria com o empresário francês, Hermann Lachappelle … o contrato foi assinado a 28 de Fevereiro de 1879 … [mas Simões viu-se] obrigado a trespassar o contrato a 3 de Junho de 1881 para o engenheiro industrial inglês James Easton … [que, depois de analisar as cláusulas] confrontado com a sua pequena dimensão recusou-se a assinar o contrato definitivo “sem a conclusão da rede de esgotos”. Depois de uma série de tentativas e muitas divergências, em 1887 o contrato com o concessionário inglês foi rescindido.

Fonte do Largo da Feira ou dos Bicos 01.jpg

 Fonte do Largo da Feira

 

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 Fonte da Sé Velha

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 Fonte de Sansão

 Vinte e dois anos depois de iniciado o processo [o problema da] distribuição de água mantinha-se com graves prejuízos para a cidade que continuava a depender da água de fontes e nascentes.

Calmeiro, M.I.B.R. 2014. Urbanismo antes dos Planos: Coimbra 1834-1924. Vol. I. Tese de doutoramento em Arquitetura, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, pg. 264-271

 

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por Rodrigues Costa às 18:35


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