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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 13.08.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 1

O Arquivo Histórico Municipal de Coimbra para além do vasto património relativo à história da cidade e do seu termo, detém um conjunto de documentos que, face ao seu interesse, iremos divulgando, sobre a epígrafe acima referida.
Nesta entrada iremos abordar:
- um desafio para a confeção das receitas apresentadas;
- uma reflexão sobre a politiquice local que já vem de há muito tempo como se pode constatar.

Livro de Receitas e Despesas … de um estabelecimento comercial do século XIX [1852-1879] da cidade Coimbra, importante para o conhecimento da nossa história local.
Regista a receita e despesa corrente de uma indústria de licores. O autor que não está identificado explicitamente no livro, vem da Figueira da Foz para Coimbra, tomar conta do negócio de uma sua tia.
Regista a receita e despesa corrente de uma indústria de licores. O autor que não está identificado explicitamente no livro, diz qe veio da Figueira da Foz para Coimbra, tomar conta do negócio de uma sua tia.
Livro de Receita e Despesa, de um estabelecimento



No meio dos pagamentos e recebimentos de uma contabilidade apurada, na gestão corrente da casa de família e com o empréstimo de dinheiro a juro sobre penhores de pequenos bens, regista receitas de licor de canela, de licor de rosas, licor de marrasquino; receitas de pudim de batata; pudim de leite; receitas de mézinhas para cura de doenças, receita de tinta de escrever.
Além disso, o autor utiliza o livro como uma espécie de diário: regista episódios do seu quotidiano familiar, do que acontece no país e na cidade, crises e doenças; noticia a morte do rei Dom Pedro V, a inauguração da ponte de ferro de Coimbra em 8 de maio de 1875, entre outros eventos.

Transcrição paleográfica
[fl. 65] Licor de Rozas
Fiz hoje 14 quartilhas do Licor de Rozas, e levou aguardente regular 9 quartos; assucar 2 e meio arrattes, Essencia e Coxenilha.


[fl. 153] Receita para fazer Podim [de batata]

Livro de Receita e Despesa Fl. 533.JPGLivro de Receita e Despesa, de um estabelecimento comercial de venda de licores em Coimbra, 1852-1879, fl. 153. AHMC

Hum arratte de assucar muito fino; hum quarto manteiga ingleza;
Meio arratte batata cozida
Dezoito gemmas de ovos
Faz se da seguinte maneira

Parte primeira
Cozem-se as batatas, dispois de bem cozidas, passão se pella peneira, peza se dispois d’esta massa o meio arratte asima ditto.

Parte segunda
Poem se o assucar a ponto de espedana e nelle emquanto esta quente lansa se lhe o resto da manteiga que subejar dispois de untada a lata; Feito isto em seguida, vai-se lhe lançando a batata pouco a pouco, devendo mecher-se sempre com a colher, em seguida vão-se lançando tambem os ovos, mais devagar devendo sempre mecher-se com a colher; dispois de tudo muito bem disfeito, aquese-se hum pouco ao lume, depois lansa se dentro da lata e vai para
o forno.

[fl. 553] Inauguração da ponte de Coimbra.

Ponte de ferro. Final da construção. Fotografia.

Ponte de ferro. Final da construção

Livro de Receita e Despesa fl. 153.jpg

Livro de Receita e Despesa, de um estabelecimento comercial de venda de licores em Coimbra, 1852-1879, fl. 533. AHMC

Em 8 de Maio deste anno foi que se fez a inauguração da nova Ponte mas nem Camera nem Dereção das Obras Publicas se prestarão a couza nenhuma por cauza da politica do Penacho que então governava, cuja politica trazia muitos e muitas pessoas desgostozas, e para as auctoridades desse tempo não sofrerem alguma disfeita nada fezerão, mas o Illustrissimo Senhor Director serião 5 horas da manhãa mandou deitar os tapumes abaixo, e declarou podia entrar quem quizesse, sem mais etiqueta, foi como se costuma dizer foi feita a Capucha. Só os molleiros de Sernache entrarão pello meio dia em grande pandega vindo todos a cavallo em sima das mesmas cargas com bandeiras e gaita de folles, andando precorrendo as ruas. Houve então muzica e muito foguetorio feito pella Assuciação Liberal que fizerão a inauguração da Ponte hindo ali tucar e lançando muitas girandollas de foguetes mas tudo de porpozito cauzando isto muitas zangas.

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf

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por Rodrigues Costa às 22:45

Segunda-feira, 08.07.19

Coimbra: Conquistas e reconquistas

De como as Reis de Leão ganharão Coimbra, antes do Imperador D. Fernando, e de como se sustentou na Fé.

Antes que o Imperador D. Fernando Magno libertasse Coimbra, a ganhou aos infiéis D. Ramiro, Rei de Leão [770-850] e a tirou do poder de Haneh, Rei tyranno della.

Ramiro I de Leão.jpg

Ramiro I, Rei de Leão
Acedido em: http://www.barrosbrito.com/1386.html

Depois deste heroico Principe a conquistou outra vez D. Affonso, o Terceiro Rei de Leão [866-910]… quando castigou o traidor Vostisa.
Vindo sobre ela com hum grande exercito no anno do Senhor de 838, a 30 de Dezembro, dia da Trasladação do Apostolo Sant-Iago. Nesta batalha se achou com elle o Conde Hermenegildo seu parente, e seu Capitão General, de Nação Portuguez.

Afonso_III_o_Magno.jpg

Afonso III, o Magno
https://ww.alamy.com/stock-photo-afonso-iii-o-magno-tumbo-a-r-132573717.htm

Representação de Hermenegildo Guterres.jpg

Representação de Hermenegildo Guterres
Acedido em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/69/Estacao_de_Rio_Tinto_Azulejo_07.jpg 

Mas logo foi conquistada por El-Rei Almaçor [938c.-1002], com que chegou a tal desventura, que sete annos esteve despovoada, e quasi arruinada, no fim dos quaes os Mouros a reedificarão.

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El-Rei Almanzor, acedido em
https://alchetron.com/Almanzor#demo

Busto_de_Almanzor_(26_de_marzo_de_2016,_Calatañaz

Busto de Almaçor em Algeciras de onde era natural
Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Almançor#/media/Ficheiro:Question_book-4.svg

…. Vendo-se seus nobres moradores deitados de suas casas, despojados dos sues patrimonios; mas de continuo alegres por terem suas Igrejas, e Mosteiros concedidos de E-Rei Alboacem, neto de Tarif, aquelle forte vencedor de Hespanha, que foi Senhor e Principe della. E toda a mais terra, que banha os rios Alva e Mondego. Hum deles foi de clérigos claustraes, que estava em Santa Justa, que o fez hum D. Rodrigo … Os mesmos Religiosos tinhão em S. Bartholomeu, que o dotou o Sacerdote Samuel a Lorvão nestes infelices dias.

… Aquelle bellicoso Rei Mouro Alboacem … que reinou prosperamente em Coimbra, inda que bárbaro, Principe clementíssimo, foi o que benignamente concedeo nova Lei, que os Catholicos, que estavão debaixo do seu Senhorio, tivessem Condes para com elles serem governados, conforme seus Institutos, e Fóros. E sendo Rei desta Cidade Marvam Ibenzorach, foi Conde della hum generoso varão, chamado Theodoro, descendentes dos Serenissimos Reis Godos.

Gasco, A.C. Conquista, Antiguidade, e Nobreza da mui Insigne, e inclita Cidade de Coimbra… Recolha de textos e notas por Mário Araújo Torres. 2019. Lisboa, Sítio do Livro. 51

 

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por Rodrigues Costa às 08:49

Quinta-feira, 04.07.19

Coimbra: Cernache, o concelho que foi a freguesia que é

A comunidade rural de Cernache … [é] desde 1836 mais uma das freguesias do concelho de Coimbra. Todavia, durante mais de quatro séculos gozou da prerrogativa de vila – sede de um concelho sem termo, que detinha a jurisdição cível e crime.

Livro onde está guardado o Foral de Cernache. AHM

Livro onde está guardado o Foral de Cernache. AHMC

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Livro do Foral de Cernache, fl.1 AHMC

Foral de Cernache.jpg

Foral de Cernache. AHMC

… A paisagem é marcada por largos vales de fundos aplanados, com vertentes muitas vezes em escadaria, onde facilmente se detecta a fertilidade dos solos, a abundância de água e a riqueza do espaço agrícola.
… A região envolvente de Cernache divide-se em duas partes distintas, contrastantes mas complementares. A ocidental é baixa, com largos fundos aluviais, onde as ribeiras entalham os seus leitos, sendo aqui que a acção humana mais se evidencia.
… Opondo-se a este pequeno mundo onde a água reina e o verde impera, surge-nos a serra, mais dura, agreste e seca.

Cernache Moinho das Lapas 1 a.JPG

Museu Moinho das Lapas

… Em setecentos, o elemento que dominava a paisagem era, sem dúvida, a água. As ribeiras que ainda hoje vão tomando o nome das povoações que nasceram nas suas margens (Ribeira de Cernache, Ribeira de Casconha, Ribeira de Pão Quente) e as múltiplas linhas de água que atravessam os campos até atingirem o Munda, actuaram não só como elementos definidores da paisagem agrária, ao permitirem as culturas de regadio e de estruturas transformadoras, mas também como elementos delimitadores do território dos poderes que aí eram exercidos.
… A origem e evolução medieva do regime senhorial neste “ilhéu” da periferia da cidade de Coimbra foi traçada por António de Oliveira num texto que passamos a citar dado o seu relevante conteúdo:
“Cernache pertencia a um dos muitos donatários que dividiam entre si o termo coimbrão – Fernão Vasques Pimentel - o primeiro que aparece como senhorio da vila”.
… Em 14 de Junho deste mesmo ano [1375], Coimbra toma posse da jurisdição cível de Cernache, aldeia do seu termo.
… Em 1417, pelo menos, Cernache com outros lugares, é dado a D. Pedro, duque de Coimbra, separado do termo desta cidade.
… D. Manuel I concedeu foral à vila, em 15 de Setembro de 1514.

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Monumento a Álvaro Anes de Cernache

… Álvaro Anes de Cernache, antes de partir para a batalha de Aljubarrota, fundou no seu solar, nesta vila, um hospital, que dotou com bens que seus pais ali deixaram, entregando a sua administração, bem como a dos respectivos rendimentos, à cidade de Coimbra. Por mercê régia, a “administração” e o “rendimento” do hospital, que estava na vila de Cernache, pertenciam à cidade e Câmara de Coimbra, recebendo o juiz de fora, vereador mais velho e escrivão municipal uma “ordinaria” pelas visitas anuais ao mesmo hospital. … O hospital e albergaria funcionaram até que, por força do decreto de 25 de Abril de 1821, este o fez voltar à coroa.

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Igreja Matriz de Cernache. Torre sineira

… O prior … que faz a abertura do livro de casamentos em 1738, já que aí deixa exarado:
“He hey ser costume nesta freguezia darem os noyvos de offerta quando se recebem huã guallinha e huã quarta de trigo; ou dizem que quatro bollos grandes de trigo, isto alem da offerta que lançarem elles e padrinhos quando se lhe der a beyjar o Senhor depois das bênçãos de que fiz esta lembrança”.

Já quando o pároco realizava o baptizado, que representa a entrada do neófito na comunidade cristã, regista no início do livro de baptismos:
“He estillo nesta fregesia dar de offerta de cada Baptizado huã quarta de trigo e huã guallinha e huã vella de cera branca, ou seis vintens per ella dando ao pároco, e isto alem da offerta que o padrinho quizer dar, ao qual pertence dar a vella, e a quarta de trigo e guallinha dam os pais do baptizado. E por verdade fis esta lembrança informado de pessoas antigas e por expriencia digo tenho recebido the hoje de Junho 7 de 1751”.

Figueira, A.S. A comunidade de Cernache. A governança municipal (1787-1834). Dissertação de Mestrado em História Moderna. 2009. Acedido em 2019.01.25, em https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/13483/1/Tese_mestrado_António%20Figueira.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 16:57

Terça-feira, 02.07.19

Coimbra: Retábulo da Vida da Virgem, na Sé Nova

Os retábulos dos altares da Sé Nova formam um conjunto notável e raro que demonstra a evolução da talha desde os fins do séc. XVI até ao princípio do XVIII. Já aqui nos referimos ao retábulo barroco da capela de S. Tomás de Vila Nova. Quedamo-nos agora no que representa a Vida da Virgem, na segunda capela do lado direito, a seguir à porta da entrada.

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Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem

Datará ele de cerca de 1676 e apresenta uma estética ainda claramente maneirista.
É uma bela composição arquitetónica, fazendo apelo a elementos clássicos. Divide-se em três panos verticais e três zonas em altura. Pares de colunas laterais, com entablamentos em avanços e recuos definem espaços preenchidos por relevos. São totalmente revestidas com motivos vegetalistas. O topo, em meia lua, para se adaptar à abóbada da capela, é preenchido por motivos decorativos envolvendo um medalhão oval com simples pintura alegórica, outrora um Pentecostes, de Josefa de Óbidos, que agora se encontra no museu Machado de Castro.

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor. c

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da predela

A predela do retábulo é ilustrada com três relevos baseados em gravuras do renascimento italiano. O Nascimento da Virgem é o mais pitoresco, com a parturiente numa cama de dossel, uma serva aquecendo a roupa e outras três dando banho à menina, enquanto S. Joaquim dorme recostado numa cadeira. Segue-se a Apresentação de Maria no templo e os Esponsais da Virgem com S. José, acompanhados, respetivamente de três figuras femininas e outras tantas masculinas.

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da Coroação da Virgem

Mesmo um olhar menos experimentado notará que os relevos do andar superior não têm o mesmo nível de execução dos do inferior. O tema central do andar inferior é a Coroação da Virgem, de figuras delicadas e suaves, tanto da Virgem como da Trindade, como dos inúmeros anjitos envolventes, que formam uma auréola oval por sobre a Virgem. Nos intercolúnios laterais vêem-se a Assunção e a Anunciação. A Virgem da Assunção é criatura de graça recatada e pura, panejamentos naturais, bem talhados. O estreito espaço disponível obrigou o escultor a colocar o anjo da Anunciação quase na vertical, parecendo descer com sua mensagem sobre a Virgem recetiva, resultando numa cena de gracioso encanto.
A parte superior destes relevos laterais denota, porém, já mão de outro artista menos hábil. Será o mesmo dos relevos da parte superior, de figuras mais rígidas e tipificadas. O quadro central é dominado pela Senhora da Conceição e os laterais mostram a Sagrada Família e a Visitação a Santa Isabel.
O retábulo da capela fronteira, dedicado à Senhora do Pópulo ou Santo António é, sem dúvida, do mesmo escultor dos relevos da parte inferior da Vida da Virgem. Apresenta uma linguagem já protobarroca e tem como principal valor artístico a Assunção, plena de serena graciosidade.
Quem terá sido o escultor destas figuras vagamente aparentadas com a escultura castelhana contemporânea?
Não existe prova documental para este retábulo, mas outros indícios indicam o nome de Manuel da Rocha. Manuel da Rocha era original da região do Porto e veio estabelecer-se em Coimbra, cidade onde o trabalho não faltava para dotação dos colégios universitários que então ainda se erigiam. Casou em 1647 com uma filha de Manuel Tibau, outro escultor radicado em Coimbra. Em 1654 contratou fazer o retábulo da Senhora das Neves, antecessor do que agora se encontra na Sé. Faleceu em 30 de janeiro de 1676, sendo sepultado na igreja de S. João de Santa Cruz (hoje o Café), onde repousam também outros artistas de Coimbra, designadamente João de Ruão. A morte impediu-o de terminar o retábulo da Vida da Virgem, continuado talvez por um seu colaborador, donde a diversidade de execução que ficou saliente.
A capela apresenta um revestimento lateral de mármores polícromos almofadados que deixam livre espaço superior outrora ocupado por pinturas que agora se encontram noutro lugar da Sé. A sua linguagem encontra-se, por isso incompleta, mas as figuras de Manuel da Rocha continuam a encantar com o seu ar de repouso, de ventura íntima e serena tocada de ternura que, porque não?, continuam a encaminhar-nos à devoção.

Nelson Correia Borges. Correio de Coimbra, n.º 4744, de 20.06.2019

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por Rodrigues Costa às 10:34

Quinta-feira, 27.06.19

Coimbra: Reconquista de Fernando Magno

O manuscrito original do texto que hoje se divulga foi escrito nos anos 20 do século XVII, por António Coelho Gasco, jurisconsulto, licenciado pela Universidade de Coimbra, homem naturalmente inclinado ao Estudo da genealogia e que antes de partir para o Brasil, onde viria a falecer, deixou um conjunto de obras escritas pela sua mão entre as quais se encontra o manuscrito intitulado Conquista. É a este que nos reportamos, chamando a atenção para o facto do mesmo se encontrar redigido no estilo próprio da época.
Apesar de, ao longo dos séculos, esse texto ter sido editado e reeditado, a verdade é que há muito tempo desapareceu do mercado livreiro.
Graças ao amor que Mário Araújo Torres dedica a Coimbra fica-se-lhe a dever a recolha e a reedição do texto de Gasco, bem como as relevantes notas que o acompanham.
A cidade tem obrigação de lhe agradecer o esforço despendido na divulgação desta interessante obra.

De quem era filho El-Rei D. Fenando Magno, e de como os Monges de Lorvão o persuadem a vir sobre Coimbra

Fernando I de Leão.jpgFernando I de León. Acedido em
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c3/Ferdinand_Leonsky.jpg

A Mui famosa, e sempre leal Cidade de Coimbra, celebre entre as da Europa, jaz em huma insigne Costa de agradavel sitio em extremo, airosa, e fortalecida pela natureza, lavada de favoráveis ventos, e estrellas, plantada em Clima benigno de ares, com a fronte ao tão conhecido por suas claras, e amorosas aguas, como na verdade ellas o são, para quem em lembrança traz o espirito cançado. Foi conquistada por hum nobre Imperador, homem de heroicas virtudes, e de grandes feitos em armas, chamado por excellencia D. Fernando o Magno, que foi o primeiro Rei que felizmente reinou em Castella, filho do Conde D. Sancho, o qual estendeo grandemente seus Reinos, e Estados, com as continuas victorias, e novas conquistas.
… vierão ter com elle em Carion dois Religiosos do antigo Mosteiro de Lorvão, que fica duas leguas, e meia além de Coimbra. Em segredo lhe disseram o estado em que a Cidade estava … porque como hião la, vião bem a pouca vigilancia, e presidio que tinha.
… Promettendo-lhes, que sendo Deos servido, a iria cercar com seu Exercito.


Castelo de Coimbra maqueta.JPGMaqueta do Castelo de Coimbra proposta por Isabel Anjinho

Como El-Rei D. Fernando ganhou Coimbra, e o que nella lhe succedeo.
Tanto que El-Rei D. Fernando o Magno, juntou seu Exercito, veio sobre Coimbra no anno do Senhor de 1064, e por espaço de sete mezes a teve mui apertada com contínuos assaltos, e combates. Defendendo-se sempre os Mouros animosamente com seu Rei Cide Arabum Arabe, guerreiro Africano; porque he natural de corações esforçados quererem morrer com liberdade, que viver em captiveiro, assim pelo inexpugnável sitio da Cidade, como pella boa cavalaria que dentro tinhão. Faltando neste tempo mantimentos, mandou El-Rei lançar pregão, que dahi a quatro dias presentes, levantava seu arraial, e marchava com elle a Leão. O que sabendo o Abbade de Lorvão fez uma avisada partida a seus Monges, em que summariamente lhes relatou o muito que importava ao bem da Christandade de Hespanha ser conquistada Coimbra. Com a qual vierão todos em claustro pleno, que lhe levassem os mantimentos, que então tinhão.

Arco da Traição, planta.jpg

Pormenor do arco da Traição no perfil DA 22 dos desenhos pombalinos

… continuou outra vez o cerco, e antes que acabasse a semana, entrarão os nossos victoriosos pela porta, que hoje se chama da traição, que era a vinte e oito de Junho, dia mui assignalado, por ser véspera dos Apostolos S. Pedro, e S. Paulo.
Alvorárão as Bandeiras, Estendartes, e Pendões sobre os altos muros, invocando nelles com grande vivas, e vozes o nome de Fernando.

Nota:
Com a ajuda da Isabel Anjinho acrescenta-se: o cerco de Coimbra começou a 20 de janeiro de 1064 e durou quase 6 meses; quanto à data da tomada de Coimbra existem divergências entre historiadores, sendo que a Nova História Militar de Portugal refere o dia 9 de julho de 1064. Data que é considerada a mais correta.

Gasco, A.C. Conquista, Antiguidade, e Nobreza da mui Insigne, e inclita Cidade de Coimbra… Recolha de textos e notas por Mário Araújo Torres. 2019. Lisboa, Sítio do Livro. 43-45

 

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por Rodrigues Costa às 09:41

Terça-feira, 25.06.19

Coimbra: Oficinas de Coimbra nos séc. XV e XVI 3

É curioso notar a existência da mesma fonte nos túmulos reais de Santa Cruz de Coimbra, começados por Diogo de Castilho, irmão do mestre-de-obras dos Jerónimos [João de Castilho] e responsável pelo belo portal da igreja do mosteiro crúzio; o artista, chegado à cidade mondeguina no início de 1518, esteve à frente de uma companha que incluía também os portugueses Diogo Francisco, Pêro Anes e João Fernandes, aos quais se juntou, mais tarde, Juan de la Faya.

Mosteiro de Santa Cruz. Túmulo de D. Afonso HenriMosteiro de Santa Cruz. Túmulo de D. Afonso Henriques [https://www.postais-antigos.com/coimbra-tumulo-d-afonso-henriques-coimbra3.html]

Parece que se podem estabelecer provas da atividade, nestas obras, de um estatuário alemão ou flamengo, que era auxiliar de João de Castilho, normalmente designado por Mestre dos Profetas. Embora não sendo possível considerá-lo artista de gabarito, apresentava certo mérito e as suas esculturas situam-se na tradição do final do século XV, apresentando-se muito vincadas, com fortes requebros, pregueado das vestes violento, rostos estereotipados com maçãs salientes e cabelo ondulado com largas madeixas a cair sobre os ombros.
… Nos arredores de Coimbra, em São Marcos (1522), o mesmo Diogo de Castilho é o responsável pela capela e pela abóbada do mosteiro dos frades Jerónimos, mas os túmulos de Aires da Silva e de João da Silva, saíram do cinzel do já referido Diogo Pires-o-Moço, possivelmente discípulo de Nicolau Chanterene e deste mestre arquiteto.

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de João da Silva.J

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de João da Silva

A oficina coimbrã do artista conseguiu clientela e prestígio, mas a sua imaginária apresentava aspetos flamengos, numa síntese notável da tradição e das novidades tardo-góticas. As obras saídas do seu cinzel documentam a passagem do gótico para a renascença, embora exibam uma assimilação não muito clara. Além de sofrer influência da Flandres, patente nos anjos tenentes dos escudos heráldicos, nos cabelos ondulados das virgens e santos, no gosto pelos detalhes, depois de 1521 passou a incluir grutescos e medalhões nos frisos e entablamentos de romano, como acontece nos túmulos de S. Marcos.
Também lhe são atribuídos três túmulos parietais ediculares, em que os aspetos arquitetónicos goticistas se mesclam com a decoração manuelina: trata-se do de frei João Coelho, na igreja dos Hospitalários de Leça do Balio (1515), do de D. Diogo de Azambuja (c. 1518) que se conserva intacto na igreja do convento de Nossa Senhora dos Anjos, em Montemor-o-Velho, e do de D. Luís Pessoa (c. 1525) que se pode ver na mesma vila.

Convento de Nossa Senhora dos Anjos. Túmulo de Di

Convento de Nossa Senhora dos Anjos. Túmulo de Diogo da Azambuja

Da sua oficina saíram ainda, entre outras obras, a lápide brasonada outrora aposta na ponte de pedra de Coimbra, assinada e datada de 1513; as pias batismais de Leça do Balio (1514-1515) e a da igreja de S. João de Almedina (atualmente na Sé Velha de Coimbra); bem como os dois anjos heráldicos que apresentam o escudo de D. Manuel e a esfera armilar e se destinavam a guarnecer a guirlanda da igreja do mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra.

Anjo Heráldico.jpgAnjo Heráldico

Anacleto, R. El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla. Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499.

 

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por Rodrigues Costa às 09:05

Quinta-feira, 20.06.19

Coimbra: Oficinas de Coimbra nos séc. XV e XVI 2

Mas no interior do país começam a desenvolver-se oficinas de reconhecido mérito e que mais à frente iremos analisar de forma um pouco mais profunda. Em Coimbra (1498), o pintor Vicente Gil, que em 1491 fora nomeado por D. João II pintor régio e privilegiado por um alvará que lhe permitia usar armas na cidade de Lisboa, encontra-se ativo pelo menos até 1525.

Mestre do Sardoal. Políptico.jpg

Mestre do Sardoal. Políptico

Parece que este Vicente Gil, conjuntamente com seu filho Manuel Vicente são os rostos visíveis dos pintores conhecidos pelo nome de “Mestre do Sardoal”.
… A partir de 1938 foi sendo reunido um numeroso acervo pictórico saído de uma produtiva oficina sediada em Coimbra, todo ele muito homogéneo, mas a apresentar características ‘periféricas’ e pouco eruditas; como os sete painéis provenientes da igreja matriz do Sardoal integram o conjunto, por comodidade, dado que o nome do pintor(es) permanecia omisso, passou a designar-se o responsável do estaleiro por “mestre do Sardoal”.
Vergílio Correia identifica o autor como sendo o pintor régio Vicente Gil (já anteriormente referido), ativo entre 1491 e 1518 e senhor de elevado estatuto social, documentado não só pelos privilégios concedidos por D. João II, como pelas relações que manteve com o mosteiro de Celas e com o círculo de D. Leonor, pelos seus avultados bens e pela sua inserção na vida da cidade.

Mosteiro de Celas. Adoração dos Reis Magos. Pol

Mosteiro de Celas. Adoração dos Reis Magos. Políptico

O filho, Manuel Vicente, também pintor, ativo em Coimbra entre 1521 e 1530, deve ter integrado a oficina paterna, a par com outros artistas, todos eles a trabalhar em regime de parcerias; certamente porque conheciam das obras uns dos outros evoluíram dentro de um marcado tradicionalismo e influenciaram-se mutuamente.
… Para a compreensão do evoluir da pintura portuguesa na charneira de Quatrocentos-Quinhentos não pode deixar de se ter em conta o importância desta oficina, dita do Sardoal e sediada na cidade mondeguina, porque a sua qualidade plástica, embora ainda ligada a esquemas ideologicamente medievalescos e onde o cosmopolitismo lisboeta não se faz sentir, “permite reivindicar para a cidade de Coimbra, seja ou não Vicente Gil o mestre pintor mais influente do ciclo Sardoal, um papel deveras representativo no desenrolar da arte portuguesa do manuelino”.

Centro de Apoio Social de Runa. S. Bento e Santo ACentro de Apoio Social de Runa. S. Bento e Santo Ambrósio

Anacleto, R. El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla, Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499

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por Rodrigues Costa às 09:18

Terça-feira, 18.06.19

Coimbra: Oficinas de Coimbra nos séc. XV e XVI 1

Na segunda metade do século XV e nos primeiros trinta anos do XVI assiste-se a um impressionante surto construtivo, passível de permitir afirmar que entre 1490 e 1530 foram levantados no território português mais edifícios do que nos dois séculos anteriores.
O facto pode explicar-se através de fatores de ordem económica concatenados com o enriquecimento da burguesia; com o acesso da nobreza aos rendimentos da expansão; com o aumento demográfico; com aspetos socioculturais relacionados com a laicização da sociedade; com o aparecimento de uma certa prosápia cívica das comunidades urbanas; e com a afirmação individual, embora simbólica, do peso relativo dos senhorios que se materializa especialmente através da arquitetura.

Mosteiro de S. Marcos. Túmulo de Fernão Teles deMosteiro de S. Marcos. Túmulo de Fernão Teles de Meneses

… Diogo Pires-o-Velho e Diogo Pires-o-Moço trabalhavam em Coimbra e, das suas oficinas, saíram algumas obras notáveis.
O primeiro esculpiu, prenunciando já, na decoração, a estética manuelina, o túmulo parietal edicular de Fernão Teles de Meneses (c. 1490) que se encontra na igreja do mosteiro de S. Marcos, próximo de Coimbra; o arcossólio apresenta uma solução incomum em Portugal, pois do interior da ogiva, pendem, saídos de um dossel, panejamentos apanhados lateralmente por ‘homens selvagens’ que, se repetem no friso inferior da arca, ladeando, a par de ramos e folhas, a máscara de um negro com guizos ao pescoço.
… Ao seu cinzel é também devida a arca funerária de D. Afonso, 3.º conde de Ourém (1485-1487), que ostenta uma notável decoração naturalista, bem como a imagem policromada, esculpida em calcário de Coimbra, da Virgem com o Menino, que D. Afonso V, antes de morrer (1481) ofereceu à igreja matriz de Leça da Palmeira e que revela grande naturalismo no tratamento da cabeça, de onde saem cabelos lisos a cobrir os ombros.

Leça da Palmeira. Nossa Senhora da Conceição.jpLeça da Palmeira. Nossa Senhora da Conceição

Das estátuas de Diogo Pires-o-Velho pode destacar-se a maneira como trata os panejamentos, o surgimento de um certo naturalismo e a utilização de um convencionalismo mais atenuado.
Será ainda possível, num primeiro momento, enquadrar Diogo Pires-o-Moço numa estética medieval, onde o gosto tardo-gótico se faz sentir, mas o artista acaba por evoluir para uma linguagem que se vai aproximar da utilizada pelo renascimento transalpino.

Túmulo de Mateus da Cunha.jpg

Pombeiro da Beira. Túmulo de Mateus da Cunha

Está-lhe atribuída a arca feral de Mateus da Cunha, 7.º senhor de Pombeiro da Beira (antes de 1500), em cuja igreja se encontra o monumento.

Anacleto, R. El arte en Portugal en la época de Isabel La Católica, em Isabel La Católica, Reina de Castilla. Madrid-Barcelona, Lunwerg, 2002, p. 451-499.

 

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por Rodrigues Costa às 08:46

Quinta-feira, 13.06.19

Coimbra: Grades da igreja de Santa Cruz

Dignas de rivalizar com alguns dos trabalhos artísticos, de que se ufanam as catedrais espanholas, seriam porventura as grades monumentais, que, no venerando templo de Santa Cruz, separavam o cruzeiro do restante da igreja e as que vedavam os túmulos dos reis.

Igreja de Santa Cruz. Interior antigo 01.jpg

Igreja de Santa Cruz, ainda com grades

Hoje já não as podemos contemplar, mas sabemos da sua existência por alguns documentos e referências históricas, que mais ou menos diretamente lhes dizem respeito. Citaremos em primeiro lugar o trecho de uma carta de 19 de março de 1522, em que Gregório Lourenço dá consta a D. João III do estado em que se achavam as obras que o seu antecessor, D. Manuel, mandara fazer no templo de Santa Cruz. Um dos itens da carta é do seguinte teor:
«Item Senhor, mandou que fezessem huua grade de ferro grande que atravessa o corpo da egreja de XXV palmos d’alto com seu coroamento, e ao rredor das sepulturas dos rreix a cada hua sua grade de ferro, segundo forma dhum contrato e mostra que pera ysso se fez. Estam estas grades feitas e assentadas, e pago tudo o que se montou na obra dos pillares e barras das ditas grades porque disto avia daver pagamento a rrazom de dous mil reis por quintal asy como fosse entregando há obra. E do coroamento das ditas grades que lhe ade ser pago per avaliação nom tem rrecebidos mais de cinquoenta mil reis, que ouve dante mão quando começou a obra, que lhe am de ser descontados no fim de toda hobra segundo mais compridamente vay em huua certidão que antonio fernandes mestre da dita obra disso levou pera amostrar a V.A. E nom se pode saber o que d’esta obra he devido atee o dito coroamento destas grades ser avaliado.»
O trecho da carta de Gregório Lourenço é parcamente descritivo, mas apesar disso, muito agradecido lhe devemos ficar por ter salvado, ainda que involuntariamente, o nome do artista que fabricou a obra, António Fernandes.
Como se sabe, D. Francisco de Mendanha, prior do mosteiro de S. Vicente de Lisboa (1540), escreveu uma descrição em italiano do templo de Santa Cruz, a qual D. João II ordenou se traduzisse em português, sendo impressa nos prelos deste último convento. De tão curioso opusculo cremos que não se conhece hoje nenhum exemplar, mas D. Nicolau de Santa Maria perpetuou-o, incluindo-o na sua «Chronica», prestando assim um serviço, literário e artístico, bastante apreciável. Mendanha não se esquece de falar das grades e dedica-lhe as seguintes linhas:
«Alem deste púlpito espaço de 20 palmos contra a Capela mor está a grande e vetusta grade de ferro, que atravessa toda a igreja, ficando dentro o Cruzeiro, e tem de alto trinta palmos.»
O epíteto vetusta sintetiza, para assim dizer, em toda a sua singeleza, a formosura da grade. Entre Mendanha e Gregório Loureço há, todavia, uma discrepância no que respeita às dimensões; Mendanha dá a grade 5 palmos mais alta. Outra diferença notamos ainda. O prior de S. Vicente dis que as grades dos túmulos eram de «cinco palmos de alto, todas de pau preto e bronzeadas com ouro»: Gregório Lourenço claramente especifica que eram de ferro.
Coelho Gasco (In: Conquista, Antiguidade e Nobresa da mui insigne e ínclita cidade de Coimbra, pg. 83) classifica de sumptuosas as grades do cruzeiro e acrescenta que nelas havia um epitáfio, ou antes letreiro, latino, em letras de ouro, que rezava da seguinte forma:
«Hoc templum ab Alphonso Portugaliae primo rege instrutum ac tempore pene collapsum, Regno succesore & actore Emmanuele restauraverit. Anno Natalis Domini MDXX».
Esta data 1520 refere-se por certo à época em que foi assentada a grade e colocado o respetivo letreiro. A igreja já estava reconstruída, como, além de outros documentos, o demonstra o epitáfio do bispo D. Pedro, falecido a 13 de agosto de 1516.
No priorado de D. Acúrsio de Santo Agostinho (eleito em princípio de maio de 1590) as grades foram pintadas e douradas de novo.
Diz o cronista «… e porque as grades de ferro do cruzeiro e capelas da mesma igreja estavam pouco lustrosas, as mandou limpar, pintar e dourar em partes e particularmente mandou dourar as armas reais e folhagens, em que as ditas grades se rematam e tem as do Cruzeiro trinta palmos de alto e as das capelas quinze também de alto, e ficaram depois de pintadas e douradas mui aprazíveis à vista…».

Túmulo de D. Afonso Henriques já sem grades.jpg

Tumulo de D. Afonso Henriques já sem grades

Túmulo de D. Sancho.jpg

Tumulo de D. Sancho I já sem grades

Não sabemos até que época durassem as grades de Santa Cruz. Das que circundavam os sepulcros temos informação de 1620. Ou haviam chegado a extrema ruína ou foram substituídas ineptamente por outras. Referindo-se ao governo de D. Miguel de S. Agostinho, que foi eleito pela segunda vezem 30 de abril de 1618, escreve o cronista da ordem: «Nos últimos meses do seu triénio ornou o P. Prior geral, as sepulturas dos primeiros Reys deste Reino, que estão na capela-mor de S. Cruz grades de pau santo, marchetadas de bronze dourado.»

Viterbo, F.M.S. As grades de Santa-Cruz de Coimbra. In: Revista Archeologica. Estudos e Notas. Volume II. 1888. Direção de A.C. Borges de Figueiredo, Pg. 58-60

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 11.06.19

Coimbra: Capela de Nossa Senhora do Loreto

Já conhecia, de passagem, a capela de Nossa Senhora do Loreto, mas a necessidade de a fotografar, a fim de poder ilustrar uma entrada, levou-me até lá e, se por um lado fiquei desiludido, porque, como o templo se encontrava Coimbra: Capela de Nossa Senhora do Loreto e Quinta
fechado, não consegui ver o seu interior, por outro tive uma surpresa, pois deparei-me com a, para mim desconhecida, Quinta do Loreto, conforme se pode ler num letreiro de azulejo que ali foi colocado.
Quando pensamos que tudo conhecemos, Coimbra tem sempre algo escondido para nos surpreender e encantar.

xxx

CAPELA DE NOSSA SENHORA DO LORETO — no sítio do Loreto.

Por escritura de 18 de maio de 1548, D. Leonor Cabral, viúva, moradora em Coimbra, doou a Fr. Ma¬nuel certo terreno para construir uma capela.
Este eremitão está sepultado na capela-mor. Por sua morte tomou posse o cabido, na pessoa de Brás Pereira, correndo o ano de 1564.
O grande reformador da capela, como diz o his¬toriador António Brandão e os letreiros confirmam, foi o cónego Manuel Teles; a capela em 1596, a casa do eremitão em 1617, vindo a falecer em 1625 e sendo igualmente sepultado na capela.
O elegante conjunto da capela, cruzeiro e casa, vendidos os terrenos, está perdido. A capela ameaça ruína.
Capela do fim do séc. XVII, composta de alpendre, corpo e santuário

Capela do Loreto 4.JPGCapela do Loreto fachada principal

Alpendre de três vãos de frente, divididos por pilares, de capi¬téis jónicos, com o cheio das volutas para fora. Dá-lhe acesso escada de dez degraus. Na modesta sineira lê-se a data de 1596, além de restos de letreiros.

Capela do Loreto alpendre.jpg

Capela do Loreto alpendre

Três retábulos de pedra do fim do séc. XVI, secundários. Os dois laterais de três nichos, diversificados em pormenores. Da ermida an¬tiga deve ser a Virgem que foi recolhida no Museu. As esculturas são secundárias e da¬quela época: Santo Amaro e uma santa; S. Brás, S. Roque e Santa Luzia; acima do arco cruzeiro um Crucifixo.
Numa lisonja do santuário lê-se: S(EPVLTVR)A / DO PA/DRE FREI / MANOEL.IRMI / TÃO.Q.FOI DESTA CA / ZA.DI-ZEM Q(VE) FOI / O INSTITVII / DOR DE / LLA.

A campa do corpo diz: S(EPVLTVR)A. DE M(ANV)EL TELLEZ. CONE / GO.Q(VE).FOI.DA SEE.DE / COIMBRA.REFORMA / DOR.DESTA.IRMIDA / E FALLEÇEO A DE MAIO / 1625.

Capela do Loreto vista geral.jpg

Capela do Loreto vista geral

A capela, posta em terreno declivoso, completa-se de um cruzeiro, sobre coluna, a meio da parede que segura uma dupla rampa;

Capela do Loreto templete.JPG

Capela do Loreto templete

na estrada, que lhe passa inferiormente, há um templete com grande nicho de Almas. Na base do cruzeiro lê-se: M(ANO)EL TELLEZ O FEZ.
A casa do eremitão, um pouco afastada e desnaturada, com alpendre de duas colunas, tem na porta: EMANVEL.TELLES. / ME FECIT.1617.ANO


CASA ANTIGA — no Loreto.
Pertence ao séc. XVII. Mostra para a estrada quatro saca¬das com cornija e ferros recortados, do tem¬po, e mais uma janela que corresponde à va¬randa. Esta de cinco vãos inferiormente, formados de arcos sobre colunas dóricas, e de seis no andar de cima, divididos por colu¬nas (um de serviço da escada), com friso de pedra. Fica em frente da arcada, separado por um pátio, um vasto celeiro do séc. XVIII, de elegante sacada, vendo-se no topo posterior um brasão.

Quinta do Loreto casa antiga.jpg

Quinta do Loreto casa antiga

Quinta do Loreto celeiro.jpg

Quinta do Loreto celeiro

Quinta do Loreto brasão.jpg

Quinta do Loreto brasão

Três esclarecimentos:
- A capela foi restaurada tendo as suas paredes exteriores sido totalmente rebocadas;
- Da casa do eremitão não encontramos vestígios;
- O termo lisonga só foi encontrado no Dicionário Ilustrado de Belas Artes, de Luís Manuel Teixeira, significando no contexto, peça heráldica diminuta com a forma de losango.

Gonçalves, A. N. e Correia, V. Inventário Artístico de Portugal. Distrito de Coimbra, vol. IV. 1953. Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, p. 56.

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por Rodrigues Costa às 08:45


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