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O Professor Doutor Nelson Correia Borges teve a responsabilidade de redigir o tomo nono, intitulado Do Barroco ao Rococó, que integra o conjunto de 14 volumes da História da Arte em Portugal, editados pelas publicações Alfa, entre 1986 e 1988. Num texto, necessariamente breve, dedicado à história da construção do Seminário Maior de Coimbra, deu a conhecer o nome do religioso capucho Frei João da Soledade, que, de acordo com as Constituições do Cabido da Sé de Coimbra, depositadas no Arquivo da Universidade, foi quem, por ordem do bispo D. Miguel da Anunciação, planeou o edifício, posteriormente intervencionado por outros arquitetos.

O Seminário de Coimbra foi ainda planeado e começado a construir em pleno reinado de D. João V, por ordem do bispo D. Miguel da Anunciação. Estão ainda mal conhecidos a obra e o estilo do seu autor, mas a maneira como os elementos arquitetónicos se dispõem ao longo da fachada indica artista de personalidade que bem poderia ter evoluído para o neoclassicismo. Op cit.
Outro arquiteto que marcou ainda o barroco coimbrão foi o religioso capucho Frei João da Soledade, que projetou e dirigiu várias obras no seu Colégio de Santo António da Pedreira.
O bispo D. Miguel da Anunciação mandou delinear a traça do pequeno convento das ursulinas de Pereira, já desaparecido, e do Seminário de Jesus, Maria e José, de Coimbra, com sua igreja e colégio.
Este edifício, embora com alguma utilização de elementos arquitetónicos de tipo simplista, é por si só suficiente para enaltecer o arquiteto que o planeou.
Na fachada norte, a principal, destaca-se um corpo central, correspondente à igreja, e as torres de grandes ventanas de balaústres, erguendo-se um só piso acima da cimalha real. O último andar parece ser um acrescento posterior, talvez dos italianos Tamossi e Azzolini, que mais tarde dirigiam as obras; sem ele o conjunto pareceria mais elegante e menos compacto.
Seminário de Coimbra, fachada norte. Acervo RA
A fachada do Sul, mais alta devido ao declive do terreno, resulta mais monumental, apesar de mais sóbria.
Seminário de Coimbra, fachada sul. Acervo RA
A igreja é pequena, mas muito elegante e atinge um nível excecional pela sua estrutura arquitetónica e decoração. Segue a planta de outros templos traçados por portugueses: um quadrado com os ângulos cortados, do que resulta um octógono irregular.
O espaço ganha novo alento com a cúpula pintada a fresco.

Seminário de Coimbra, cúpula da capela. Acervo RA
A obra de Frei João da Soledade situa-se já nos meados do século. O seminário foi contratado pelo mestre-de-obras Manuel Rodrigues em 11 de junho de 1748 e terminado em 1765.
BORGES, Nelson Correia, Do Barroco ao Rococó, em História da Arte em Portugal, vol.9, Lisboa, Publicações Alfa, 1986, p. 27-28.
Terceira entrada dedicada à divulgação do livro de historiador Milton Pedro Dias Pacheco, Do aqueduto, das Fontes e das Pontes.
O Chafariz do Largo da Feira dos Estudantes, culminaria a conduta do aqueduto de São Sebastião … Embora as fontes documentais não permitam conhecer a data precisa para a sua construção julgamos que a mesma tenha sido edificada no seguimento da conclusão do reservatório para a água transportada pelo aqueduto, a qual surge como parte integrante.
Neste terreiro … foi então construído, entre 1570 e 1572, o depósito de água. Este não só veio a permitir o funcionamento do fontanário local – que a história viria a consagrar como Fonte dos Bicos devido aos motivos decorativos em ponta de diamante salientes que ornamentavam a sua frontaria principal –,
Fonte dos Bicos. Acervo RA
como garantiu o abastecimento de outros equipamentos aquíferos, como o Chafariz da Sé,

Chafariz da Sé. In: Archivo Pittoresco. 1866.09. Acervo RA
onde existia um segundo reservatório para levar água até ao fontanário localizado na Praça de São Bartolomeu.

Chafariz de S. Bartolomeu. Última remodelação, hoje instalada à entrada do Museu dos Transportes Urbanos
Alguns anos mais tarde, este mesmo reservatório acabaria por ser dotado com os encanamentos destinados a abastecer o vizinho Palácio da Mitra Episcopal de Coimbra e outros institutos religiosos existentes na Alta citadina, como os colégios de Jesus, o da Sapiência e o da Estrela. De acordo com as informações recolhidas, nos anos de 1715-1858, julgamos que o depósito do fontanário do paço episcopal, e, provavelmente o da catedral, a Sé Velha, eram abastecidos durante o dia, sendo os depósitos dos colégios dos Jesuítas e dos Agostinhos durante o período noturno.
…. Terá sido construído no seguimento da carta régia outorgada por D. Sebastião em 7 de maio de 1573, no qual ordenava a construção do chafariz da Feira.

Fonte dos Bicos. Acervo RA
Tratar-se-ia, muito provavelmente, de uma ampliação ou reedificação material, pois, quer esta bica de água, quer a localizada junto da catedral de Santa Maria de Coimbra, já são mencionadas em datas anteriores.
No que diz respeito à composição arquitetónica do primitivo fontanário da Praça da Feira pouco ou nada sabemos. Teria, ao que parece, três bicas para o fornecimento de água, número que manteria ao longo da sua existência, mesmo após as obras de beneficiação de que foi alvo, em 1747 ou em 1864, a primeira para renovação do frontispício e a segunda para a colocação das armas da cidade.
Até à destruição do Fontanário dos Bicos, ocorrida durante a construção da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e do Instituto de Medicina Legal, nos finais da década de 1940, a água ainda era utilizada para regas e limpezas locais.
Pacheco, M. P.D. Do aqueduto, das Fontes e das Pontes: a Arquitetura da Água na Coimbra de Quinhentos. In: História Revista. Revista da Faculdade de História e do Programa de Pós-graduação em História, v. 18, n. 2, p. 217-245, jul. / dez. 2013. Goiânia (Br.). Acedido em:
É já na próxima 6.ª feira, pelas 18h00 que voltam a acontecer as Conversas Abertas.

Desta vez o tema é: Assistência Social às Crianças e Adultos Pobres em Coimbra, dos séculos XVIII e XIX.
A palestrante é a Doutora Maria Antónia Lopes que tem como primeiras áreas de interesse e investigação, a História da Pobreza e políticas sociais e a História das Misericórdias.
Como é habitual as Conversas Abertas decorrem na Sala D. João III, do Arquivo da Universidade de Coimbra.


A entrada é livre e após a apresentação do tema segue-se um período destinado às intervenções de quem participa.
Rodrigues Costa
O Dr. Mário Araújo Torres, prossegue na tarefa a que meteu ombros de puxar para o nosso tempo, textos esquecidos: uns em que se faz a história, outros em que se contam vivências na nossa Cidade.
Daí, considerar que todos os conimbricenses lhe devem, mais uma vez, um reconhecido: Muito obrigado.
Na prossecução desse caminho acaba de publicar mais uma obra.

Op. cit., capa
Obra que leva o título Coimbra Doutora seguido de Livro de Horas (1908-1911) e que Mário Araújo Torres sintetiza, na contracapa da seguinte forma:
«Coimbra Doutora» foi o título dado por Hipólito Raposo à edição em livro, em livro da sua «Memória sobre tradições universitárias de Coimbra», com que concorreu e foi premiado nos jogos Florais Hispano-Portugueses de Salamanca, de 1909, onde descreve as fases principais da história da instituição universitária portuguesa, desde a fundação em Lisboa em 1290 por D. Dinis, passando pelo ambiente do século XV até ao esplendor após a transferência para Coimbra em 1537, o declínio subsequente à entrada dos jesuítas e insta]ação da inquisição, ao ressurgimento dos estudos com a reforma pombalina, até ao século XIX e a luta pela modernização e europeização. Não se limitou somente à história institucional, traçando impressivos quadros da vivência quotidiana dos membros da Universidade, suas praxes e costumes. Conclui a obra com transcrições de poesias constantes de manuscritos descobertos, graças ao seu labor investigatório, na Biblioteca Joanina, designadamente sobre a jornada da Academia a Elvas, em 1645, na Guerra da Restauração.
Ainda escolar em Coimbra, Hipólito Raposo editou o seu «Livro de Horas», cobrindo o período de 1908 a 1911, onde, em pequenos capítulos, evoca monumentos e suas histórias (Mosteiro de Lorvão e Santa Comba), lentes (Avelino Calisto e Paiva Pita), estudantes (Diogo Polónio), a famosa Maria Marrafa (servente de estudantes e distribuidora de sebentas), artistas famosos (Mimi Aguglia), e diversos episódios da sua vivência coimbrã.
Com diversos condiscípulos seus (entre eles, Alberto de Monsaraz, Alberto da Veiga Simões, António Sardinha, Luís de Almeida Braga, Luís Cabral de Moncada, Manuel Eugénio Massa, Manuel Paulo Merêa), integrou o grupo, de Tendências literárias, designado por Exhoterikos, de cujo órgão – a Treiskaidekopeia – se publicou um único número, reproduzido no presente volume.

Op. cit., capa, pormenor
Sobre o autor dos textos ora relembrados é apresentado a seguinte nota biográfica.

Hipólito Raposo. In. Op. cit., capa, pormenor
José Hipólito Raposo nasceu em S. Vicente da Beira (Castelo Branco), a 13 de fevereiro de 1885. Filho de João Hipólito Raposo e de Maria Adelaide Gama, no seio de uma família de agricultores, profundamente religiosa, ingressou em 1902 no Seminário da Guarda, donde seria expulso em 1904, devido a atitudes de independência e frontalidade, que sempre o caraterizaram.
Cursou o ensino secundário no Liceu de Castelo Branco, finalizando-o no Liceu de Coimbra, cidade onde se matriculou na Faculdade de Direito em 1906, formando-se em 1911.
Ainda estudante, distinguiu-se pela frequente colaboração na imprensa periódica (crónicas semanais no «Diário de Notícias») e publicou os primeiros livros, sobre temas históricos e literários.
Terminado o curso, enveredou pelo ensino (Conservatório Nacional e Liceu Passos Manuel) em Lisboa, onde se fixou.
Em 1914 foi um dos fundadores do movimento politico-cultural «Integralismo Lusitano».
Teve papel relevante no pronunciamento monárquico de Monsanto, em 1919, tendo sido demitido das funções públicas que exercia e condenado a prisão no Forte de S. Julião da Barra. Cumprida a pena de prisão, exilou-se em Angola (1922-1924), dedicando-se à advocacia.
De regresso a Portugal, continuou a exercer a profissão de advogado e publicou diversas obras políticas, literárias e históricas.
Reintegrado no cargo de professor do Conservatório (1926), prosseguiu a sua atividade de doutrinador político independente.
Em 1940, a publicação da obra «Amar e Servir» em cujo prólogo tecia críticas à «Salazarquia», provocou de novo a sua demissão das funções públicas e a sua prisão, com subsequente deportação para a Ilha Graciosa.
Hipólito Raposo faleceu em Lisboa, a 26 de agosto de 1953, deixando uma vasta obra publicada sobre temas políticos, históricos, literários e artísticos.
Numa primeira leitura, Coimbra Doutora é uma visão muito própria da história da Universidade de Coimbra, dos factos e das pessoas que a marcaram. Visão polvilhada de memórias de estudantes que se destacaram aos longo dos séculos.
O Livro de Horas e a Treiskaidekopeia, cada um por si, constituem quadros que, para os princípios do século XX, nos permitem conhecer não só acontecimentos que em Coimbra ocorreram, bem como a idiossincrasia das pessoas que aqui se preparavam e construíam as bases do seu futuro pessoal e do futuro do País.
A leitura e a ponderação da obra ora editada merecem uma leitura e reflexão atenta. Quanto mais não seja para se aquilatar das profundas diferenças entre esse passado e o nosso presente.
Rodrigues Costa
Textos citados do livro: Raposo, H. Coimbra Doutora seguido de Livro de Horas (1908-1911). Recolha de textos, introdução e notas por Mário Araújo Torres. 2025. Lisboa, Edições Ex-Libris.
Monsenhor Nunes Pereira, conimbricense por adoção, foi um Homem, um Sacerdote e um Artista cuja grandeza e simplicidade se tornaram reconhecidas pela Cidade onde viveu a maior parte da vida e que o identificou como um dos seus maiores.
Importa lembrar que o atual Executivo, já perto de terminar o seu mandato, por certo vai, em breve, honrar o compromisso que assumiu, procedendo à inauguração do monumento que o lembrará aos vindouros e cujo projeto foi delineado pelo artista plástico José Maria Pimentel e pelo arquiteto António José Monteiro.
Projeto do monumento a instalar na R. Nunes Pereira
De Nunes Pereira, podemos atualmente admirar muitas obras que se encontram espalhadas por igrejas e por casas particulares, o vitral da Ressurreição que orna, em Coimbra, a capela-mor da igreja de S. José e que pode ser considerado o seu testamento artístico, bem como o espólio que se encontra na Oficina-Museu Nunes Pereira, localizada no Seminário Maior de Coimbra, local onde trabalhou até ao fim da vida.
De momento está ali exposta uma mostra temporária intitulada “Da Terra e do Céu - No Caminho da Esperança” que bem merece ser visitada.
Oficina-Museu Nunes Pereira. Cartaz da mostra temporária
E, se pretenderem aprofundar o conhecimento da sua obra, poderão deslocar-se a Fajão, sua terra natal (concelho da Pampilhosa da Serra), a fim de visitar a Casa-Museu Nunes Pereira.
Uma aldeia típica e um museu que vala a pena ir conhecer.

Casa-Museu Monsenhor Nunes Pereira. Acedida em: https://www.aldeiasdoxisto.pt/media/filer_public_thumbnails/filer_public/ce/...
À dimensão artística da obra de Nunes Pereira há ainda que acrescentar a sua vertente de investigador, com destaque para a antropologia cultural, neste caso, local, de que o seu livro Contos do Fajão é um excelente exemplo.
Nesse volume traduziu, em registo escrito e ilustrado, os contos de raiz popular que foi recolhendo ao longo dos anos, relacionados com a cultura e com as tradições da antiga vila de Fajão.
É para ele que, agora, chamamos a atenção dos nossos leitores.

Capa do livro
Na “Nota Prévia” à 1.ª edição”, a Direção do Museu e Laboratório Antropológico, salienta que Os «Contos de Fajão» tão oportunamente recolhidos por Monsenhor Nunes Pereira tornam-nos espectadores de tramas movimentadas e pitorescas representadas por uma galeria de personagens finamente recortadas pelo olhar perspicaz, atento e sensível do artista, sobre a cultura e tradições da antiga vila de Fajão. Efetivamente, sem perda do colorido e sabor tradicionais, o recolector soube captar com todo o rigor e expressividade o imaginário da autocaricatura introspetiva„ contrastante na sua ingenuidade e sagacidade jocosa, por vezes brejeira, mas acima de tudo de raiz popular, traduzida no registo escrito dos contos.
O valor pedagógico desta obra é referenciado sobretudo na figura do «almocreve», herói cultural que introduz soluções oportunas e «miraculosas», nem sempre devidamente assimiladas, a exemplo de «A caça aos ratos» ou «Como os de Fajão iam à serra todos os dias buscar a manhã», como ainda na emblemática personagem do «Juiz», tão irreverente quanto protagonista de sentenças justas e prontas.
Ao que o Autor acrescenta na “Nota prévia à 2.ª edição”, historiando o seu trabalho. Quando resolvi publicar a coletânea dos Contos de Fajão, que fui recolhendo ao longo de cerca de vinte anos, bem certo estava do seu enorme interesse no campo da literatura oral portuguesa. O interesse com que o Museu
Antropológico da Universidade de Coimbra prefaciou e publicou a primeira edição desta obra, e o facto de ela se ter esgotado, confirmam essa minha convicção.
Ao publicar uma segunda edição, agora a cargo da Junta de Freguesia, através do Museu de Fajão, pareceu-me oportuno acrescentar uma nota.
Numa das minhas viagens à Alemanha, sucedeu hospedar-me em Beckum, pequena cidade da Vatesfália, num hotel dos arrabaldes da cidade. Qual não foi a minha surpresa quando vi nas paredes do hotel pinturas de cenas que lembram os Contos de Fajão.
Soube então que são famosos os "Contos de Beckum", ao ponto de serem referidos nos Guias turísticos e um deles ter figurado numa nota de banco.
Obtive mais tarde fotografias das referidas pinturas, e até um livro, publicado em 1985, mas baseado noutro de 1924, com uma coletânea ilustrada desses contos.
O título do livro é: UNSERE BECKUMER ANSCHLAGE. Não sendo iguais aos de Fajão, são, contudo, semelhantes alguns deles.
Dos vinte e quatro contos compilados no livro, destaco o intitulado “Assim se rosna por sua Vila e termo”, não só pela sua beleza divertida e pedagógica, mas também porque me foi revelado por Monsenhor numa das nossas conversas. Recordo com saudade o seu riso divertido e feliz.
O Juiz de Fajão estava um dia sentado à porta do tribunal com um pé calçado e outro não, a dobar uma meada, quando chegou um sujeito ali dos lados do Vidual
e perguntou: Diz-me onde é que aqui mora o Juiz de Fajão? (Não pediu por favor nem tratou por Senhoria).
E vai aqui assim o Juiz - Olhe: o senhor vá por esta rua acima e volte por aquela rua abaixo; onde encontrar um homem sentado à porta, a dobar uma meada, com um pé calçado e outro não, esse é que é o Senhor Doutor Juiz de Fajão.
O homem foi por aquela rua acima, voltou por aquela rua abaixo, e não encontrou nenhum homem sentado à porta, a dobar uma meada, com um pé calçado e outro não, senão aquele. Então caiu nela e disse: Saberá Vossa Senhoria que eu fui por esta rua acima e voltei por aquela rua abaixo, e não encontrei nenhum homem sentado à porta, a dobar uma meada, com um pé calçado e outro não, senão Vossa Senhoria. Vossa Senhoria é que é o Senhor (Doutor) Juiz de Fajão?
- Assim se rosna por sua Vila e termo!
(Versão de José Maria Simão, de Fajão)

Assim se rosna por sua Vila e termo!
Pereira, A. N. Os Contos de Fajão. 2.ª edição. 2008. Pampilhosa da Serra, Junta de Freguesia de Fajão.
Esta segunda entrada dedicada à divulgação do livro de historiador Milton Pedro Dias Pacheco sobre o sistema de abastecimento de água a Coimbra, será abordada a história das Arcos do Jardim, ou Aqueduto de S. Sebastião.
Fig. 2. Aqueduto da cidade de Coimbra (pormenor). In: Civitates Orbis Terrarum, vol. V, 1598. Op. cit.pg. 220
Assumindo-se hoje como um dos marcos históricos mais emblemáticos da cidade, o mais antigo aqueduto de Coimbra, de duplo orago sebástico – pois foi reconstruído por ordem régia do monarca D. Sebastião (1554|1568-1578) e dedicado ao mártir romano São Sebastião –, tem as suas origens numa construção que remonta ao período da romanização do território que é hoje Portugal.
Aqueduto de S. Sebastião, arco principal. Gravura. Acervo RA
Esta estrutura de abastecimento de água potável à cidade, localizada entre a colina onde se erguia o desaparecido Colégio de Nossa Senhora da Conceição e o atual Convento de Santa Teresa e o Fontanário dos Bicos,
Fontanário dos Bicos, à esquerda. Acervo RA
no Largo da Feira dos Estudantes, em plena Alta Universitária, possui ainda um segundo orago, São Roque, santo que, com São Sebastião, assume o papel de especial protetor contra o flagelo da peste. A escolha destes dois santos patronos está intimamente ligada ao surto pestífero que grassou em Coimbra nos finais da década de 1560, período da construção do aqueduto.
…. Denominadas de fontes de el-Rei e da Rainha, as nascentes que iriam abastecer o centro da cidade com água potável estavam localizadas junto do quinhentista Colégio de Tomar, sobre o qual foi levantado o edifício da Penitenciária de Coimbra nos finais do século XIX, e, nas proximidades da estrada para Celas. Em local próximo encontrava-se ainda a denominada Fonte da Nogueira, atualmente no Jardim da Sereia que, por alvará régio lavrado em 4 de Abril de 1588 e mais tarde reconfirmado em 20 de Abril de 1736, deveria ser vistoriada anualmente pelos oficiais camarários.
Inicialmente com uma extensão de aproximadamente de um quilómetro, o aqueduto de São Sebastião, popularmente conhecido como Arcos do Jardim, é hoje constituído por apenas vinte e um arcos dispostos ao longo da Calçada Martim de Freitas e da Praça João Paulo II. Superando uma relativa depressão territorial, os arcos, uns semicirculares e outros abatidos, estão assentes em robustos pilares de faces externas dispostas em degrau que, por sua vez, suportam no topo o canal adutor. Este, coberto por abóbada de berço, só seria desativado no século XX, por volta do ano de 1942. Quanto ao aparelho construtivo podemos indicar a presença de alvenaria de pedra calcária, fixada com argamassa e reboco, recentemente beneficiado.
A partir do setor nascente do atual edifício do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, a estrutura aquífera continuaria o seu percurso subterraneamente até alcançar o Largo da Feira dos Estudantes, junto da concatedral.
Entretanto, nos finais da década de 1940, no seguimento da reorganização urbanística da Alta para a construção da Cidade Universitária de Coimbra, alguns dos arcos seriam destruídos para a abertura da atual rua do Arco da Traição, enquanto outros, junto ao Jardim Botânico, acabariam por ser desobstruídos do casario habitacional que havia sido edificado ao longo dos tempos.
Aqueduto de S. Sebastião. Arco principal, templete, imagem de S. Sebastião. Acervo RA

Aqueduto de S. Sebastião. Arco principal. templete, imagem de S. Roque. Acervo RA
…. A coroar o respetivo arco principal, sobre o canal adutor, ergue-se um pequeno templete, de planta trapezoidal, composto por colunas dóricas que suportam uma cúpula e lanternim superior. Em cada um dos flancos, cada um dotado com o respetivo nicho, encontra-se as esculturas dos oragos do aqueduto: a de São Sebastião disposta na face sul, e a de São Roque, na face norte.
Desconhecemos, no entanto, o nome do arquiteto responsável pelo projeto, assim como o dos mestres-de-obras que conduziram os diversos trabalhos construtivos. Embora sem grande consenso, surge, entre alguns autores, apenas um nome, o de Fillipo Terzi.
Pacheco, M. P.D. Do aqueduto, das Fontes e das Pontes: a Arquitetura da Água na Coimbra de Quinhentos. In: História Revista. Revista da Faculdade de História e do Programa de Pós-graduação em História, v. 18, n. 2, p. 217-245, jul. / dez. 2013. Goiânia (Br.). Acedido em: https://www.academia.edu/37539380/DO_AQUEDUTO_DAS_FONTES_E_DAS_PONTES_A_ARQUITETURA_DA_%C3%81GUA_NA_COIMBRA_DE_QUINHENTOS
O Grupo Folclórico e Etnográfico de Arzila ao terminar o ciclo de realizações comemorativas dos seus 50 anos de existência, que designou por “50 anos, 50 eventos” realizou, no passado domingo, no auditório do Convento de S. Francisco, um espetáculo, no qual contou com a colaboração da Filarmónica União Taveirense, onde se fundiram harmoniosamente o amor pelas tradições ancestrais e a beleza de um espetáculo de luz e som.

O Grupo Folclórico e Etnográfico de Arzila é hoje, entre os grupos similares, um grupo de referência que se vem destacando pela sua ação na defesa do património. Trabalho assente na recolha de elementos etnográficos, realização de debates, jornadas culturais, exposições, recuperação de festas, de jogos e outras tradições que estavam a desaparecer. Tem sido também sua preocupação a defesa do artesanato, na qual as “esteiras” de Arzila, assumem papel de destaque.
Estamos perante um grupo que dignifica Coimbra e que muito contribui para o melhor conhecimento da história local da zona rural do nosso Concelho.
O espetáculo "Num Só Mundo", foi estruturado em 13 cenas das quais destacamos:
- A cena dois, o musical “Medley FUT” que João Paulo Fernandes, Diretor Artístico da Filarmónica União Taveirense, recriou para este agrupamento algumas das recolhas musicais realizadas pelo GFE de Arzila. Recriação que voltou a ocorrer em outras cenas do espetáculo.
- A cena três em que Afonso Santana tocou, em violino solo, uma peça de Lino Silva, baseada na “Oração de Peregrino”, outra recolha do CFE de Arzila.
- As cenas quatro, seis, sete e doze, nas quais que foram encenadas, respetivamente as recolhas efetuadas sobre o “azurrar”, o cavar a terra ou “mandar a manta”, a merenda no campo e o “corte do cobrão”. Obviamente presente a confeção e venda das esteiras de Arzila.
De lembrar ainda a participação dos gaiteiros e sete das danças recolhidas pelo GFE de Arzila.
O espetáculo foi um presente à Cidade, vindo das gentes de Arzila.

O excelente texto que uniu e contextualizou as diversas cenas do espetáculo, ao falar da oferta de uma travessa de arroz-doce com que os moradores de Arzila eram presenteados pelas noivas, salientou que essa oferta significava a união e o carinho que sempre uniu as gentes daquela Comunidade, lembrando a todos que, quando a alegria é dividida, o amor é multiplicado.
O espetáculo oferecido a Coimbra, foi sem dúvida um espetáculo feito de amor pela terra e pelas suas tradições, com um recurso adequado às novas tecnologias, e que, mais uma vez reafirmou a importância da etnografia e folclore, enquanto estudo das raízes do nosso passado.
Só teve um senão, os únicos lugares livres, eram alguns dos reservados às autoridades e demais convidados.

A que se acrescenta uma nossa perceção: estando o auditório completamente cheio, eram mais as gentes vindas de todo o País, do que as gentes de Coimbra.
Perderam um espetáculo memorável, no dizer do Presidente da Federação Portuguesa de Folclore.
Perderam, permitam-me acrescentar, para além de um belíssimo espetáculo, um verdadeiro cântico que sabiamente misturou quer o saber do passado e a arte do presente, bem como o erudito com a arte popular.
Um espetáculo que é uma lição e que espero possa ser reapresentado.
Bem o merece.
Rodrigues da Costa
O historiador Milton Pedro Dias Pacheco publicou em 2013, um interessante estudo intitulado Do aqueduto, das Fontes e das Pontes: a Arquitetura da Água na Coimbra de Quinhentos no qual aborda a temática do abastecimento de água decorrente da chegada à urbe de um significativo número de pessoas docentes, funcionários e discentes.
Desse texto respigamos os excertos que constituem a série de entradas que, a partir da referida obra, elaboramos.
A principal cidade do Mondego, a romana Aeminium convertida pelos Árabes em Qulumriyya e depois rebatizada pelos Cristãos de Coimbra), veio a sofrer grandes transformações materiais e culturais ao longo de toda a centúria de Quinhentos.
Profundamente marcada pelas instituições reais, episcopais e monásticas nos finais da Idade Média, a cidade de Coimbra, nos alvores da Idade Moderna, foi palco de uma séria reforma promovida pela Coroa e efetivada in situ pela casa monástica de Santa Cruz de Coimbra. Se a partir de 1527 D. João III perspetivou a reinstalação do Studium Generale em Coimbra, onde já estanciara por duas vezes no século XIV, foi frei Brás de Braga, o monge hieronimita, tornado prior-mor de Santa Cruz, quem a concretizou a partir da década de 1530.
Fig. 1. Vista da cidade de Coimbra em 1572. In: Civitates Orbis Terrarum, vol. V, 1598. Op. cit., pg. 219
… Junto do Mosteiro de Santa Cruz, casa reformada nos princípios do século XVI, viria assim a constituir-se o primeiro núcleo da rede de colégios … Foi, pois, em torno da Rua de Santa Sofia – a artéria urbana consagrada à Sagrada Sabedoria –, que as diversas Ordens Religiosas nacionais ergueram e sustentaram alguns dos mais importantes colégios, instituições responsáveis pelo contínuo afluxo de estudantes naquela instituição universitária através da administração de um ensino que hoje chamaríamos de preparatório. Junto a este novo eixo urbano, paradigma nacional no planeamento urbano e arquitetónico Quinhentista, também a Coroa decidiu pela construção de uma unidade colegial laica, ainda que a funcionar por um breve período: o Real Colégio das Artes.
…. Mas dentro em breve uma segunda fase construtiva irrompia no casco antigo da cidade em torno do Paço Real da Alcáçova, a mais antiga residência régia portuguesa que se tornaria na principal morada da Sabedoria, pois aqui se instalou a Universidade a partir de 1537. Uma vez mais, os novos modelos arquitetónicos adotados viriam renovar a estética urbana conimbricense, sobretudo, com a presença esmagadora do grande complexo colegial promovido pela Companhia de Jesus.
No final do trabalho ora visitado são apresentadas as Considerações Finais de que destacamos, o que segue.
Poderíamos ter mencionado também muitas outras obras arquitetónicas relacionadas com a distribuição e fornecimento de água à cidade e que seguramente sofreram algumas diversas transformações técnicas, assim como aperfeiçoamentos materiais ao longo de todo o século XVI, mas fomos, em certa medida, obrigados a tratar somente o conjunto mais emblemático.
Sabemos, por exemplo, através das vereações de 21 de Agosto e de 24 de Setembro de 1567, que a edilidade havia planeado uma intervenção de limpeza e reparação da Fonte dos Judeus, noticiada já em 1137;
Fonte Nova ou dos Judeus. In: Planta de Coimbra de Isidoro Emílio Baptista. 1845.
ou que, em 1592, o chafariz de Sansão, junto do Mosteiro de Santa Cruz – conhecido pelas suas águas boas “para amassar o pão e para lavar o rosto porque o faz mais alvo” –, recebera, sobre um pedestal quadrangular, a estátua da personagem bíblica homónima, com cerca de dois metros de altura, da autoria do escultor Manuel Fernandes (séc. XVI).
Outras deixam-nos algumas dúvidas quanto à data da sua execução, como a Fonte da Bica, construída junto do antigo Colégio de São Miguel, no início da Rua da Sofia e onde hoje se ergue o edifício da Caixa Geral de Depósitos.
Mosteiro de Santa Cruz, celeiro e outros. Acervo RA
Ou, noutro caso, a Fonte da Torre de Santa Cruz, erguida no local onde mais tarde se instalou a cadeia comarcã (ficando conhecida desde então como Fonte da Cadeia), cuja água, proveniente das nascentes do Jardim da Sereia, jorravam, pelo menos desde o ano de 1541, da tromba de um elefante.
De igual modo, surgem inúmeras dúvidas quanto à data de construção do mais antigo chafariz da praça de S. Bartolomeu abastecido pelo reservatório da fonte da Sé Velha e identificado no desenho levantado em 1572, mas publicado na obra Civitates Orbis Terrarum em 1598.
Merece ainda especial menção o fontanário central do claustro do Mosteiro de Santa Maria de Celas, fundado por D. Sancha (c.1180-1229), filha de D. Sancho I, para a comunidade da Ordem de Cister, cuja estrutura se assemelha às piscinas batismais utilizadas nos primórdios do Cristianismo.
Claustro de Celas
Através da documentação relativa a esta casa religiosa, sabemos que o claustro recebeu novas obras de revalorização durante o abadessado de D. Maria de Távora (séc. XVI), entre 1541 e 1572. De facto, D. João III oferecera à comunidade, no ano de 1553, um conjunto de capitéis historiados proveniente do edifício dos antigos Estudos Gerais
Pacheco, M. P.D. Do aqueduto, das Fontes e das Pontes: a Arquitetura da Água na Coimbra de Quinhentos. In: História Revista. Revista da Faculdade de História e do Programa de Pós-graduação em História, v. 18, n. 2, p. 217-245, jul. / dez. 2013. Goiânia (Br.). Acedido em: https://www.academia.edu/37539380/DO_AQUEDUTO_DAS_FONTES_E_DAS_PONTES_A_ARQUITETURA_DA_%C3%81GUA_NA_COIMBRA_DE_QUINHENTOS.
Segunda e última entrada extraída da obra das Doutoras Maria Margarida Lopes Miranda e Carlota Miranda Urbano, intitulada Um invulgar achado do século XXI: o fundo jesuítico desconhecido do Colégio de Jesus (Sé Nova) de Coimbra.
Sé Nova. Altar da Coroação e Assunção da Virgem. Acervo RA
Sé Nova. Altar da Coroação e Assunção da Virgem, pormenor. Acervo RA
Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da predela. Acervo RA
A origem do tesouro.
O tesouro deixado por António de Vasconcelos inclui as suas memórias pessoais e as memórias da Companhia, ameaçada de extinção. Para o salvar, o jesuíta teria subido ao altar da Coroação e Assunção da Virgem e ali depositado o conjunto, certamente na esperança de um dia regressar e poder reaver aquilo que era por todos os meios impedido de levar consigo.
…. as cartas reunidas no macete eram mais do que um objeto de devoção pessoal. Eram cartas com mais de duzentos anos, escritas por Santo Inácio, S. Francisco Xavier, e João de Polanco.
Além das cartas, o jesuíta conservou dois volumes manuscritos: um de controvérsia filosófica e teológica e outro do Padre António Vieira; e por fim uma bolsa de serapilheira contendo um conjunto de pequenos embrulhos bem fechados, cinco ao todo: um único embrulho de papel identificado com o monograma AV e quatro de pano, identificados com o nome de Ant. de Vasconcelos e com as designações “Apontam, e Nom.”; “Cartas mhs e alh”; “Matrim.”
Sé Nova, frontão. Acervo RA
Descrição do corpus
Descrevemos agora de forma sumária o conteúdo das cerca de 1000 páginas que constituem o corpus, agrupando-o em quatro secções distintas:
Documentos fundacionais: o macete de cartas atadas por cordel corresponde a um conjunto de documentos fundacionais de elevado poder simbólico. O interesse do investigador aumenta com a inscrição que se lê na face superior, sob o cordel: “Somente o Superior deve ter estas cartas em Coimbra” (Soli supri/õ[m]nes hae epistolae cohimbricaé). São cartas dos fundadores, na sua maioria enviadas de Roma pelo Governo central, por Santo Inácio de Loyola e por João de Polanco, seu assistente e secretário pessoal, mas também enviadas de Cochim, na índia, por S. Francisco Xavier, ou enviadas de Lisboa para Roma, como alguns textos de Dom João III. O monarca responsável pelo bom acolhimento da Companhia no reino antes mesmo da sua confirmação pela Sé Apostólica, escreve para diferentes destinatários, acerca do P. Luís Gonçalves da Câmara e das obras da Companhia de Jesus que em 1553 ele deveria representar em Roma.
De Santo Inácio conservam-se pelo menos sete cartas diferentes: duas dirigidas a Simão Rodrigues, de 1542 e 1545; a célebre carta sobre a obediência como” virtude mais necessária e mais especial que nenhuma outra na Companhia”, de 1552; e ainda quatro cartas do ano de 1555: uma dirigida ao P. João Nunes Barreto que fora nomeado patriarca da Etiópia; outra a D. João III, sobre assuntos relacionados com Dom Teodósio de Bragança; uma carta a Diogo de Mirão, provincial, sobre as relações entre o Patriarca eleito, o Provincial da índia e o Visitador [da Companhia] e as obrigações de obediência de cada um; e por fim uma carta dirigida ao P. Francisco [Boija?] e aos Provinciais e Reitores dos Colégios da Companhia de Jesus, em Espanha e Portugal.
…. Numa segunda secção, o volume de controvérsia filosófica e religiosa traz consigo o nome de Francisco Soares [Lusitano] e a data de 1652. Corresponde a um conjunto daquilo que se designava Conclusiones mas que também podia designar-se por theses, quaestiones, controuersiae, propositiones, ou no singular, dissertado ou disputado.
…. Como terceira secção temos um manuscrito da Clavis Prophetarum do P. António Vieira, que chegou até nós em excelente estado de conservação. Compõe-se de uma junção de seis cadernos cosidos, num total de 495 páginas de texto, para além de 11 páginas de índice e uma página de título.
…. A quarta e última secção corresponde aos documentos coevos da expulsão, nomeadamente um caderno de matéria hagiográfica e o espólio pessoal de António de Vasconcelos.
Miranda, M.M.L. e Urbano, C. M. Um invulgar achado do século XXI: o fundo jesuítico desconhecido do Colégio de Jesus (Sé Nova) de Coimbra. In: Brotéria, n.º 185, Pg. 508-614. Acedido em registo: https://hdl.handle.net/10316/44575.
As Doutoras Maria Margarida Lopes Miranda e Carlota Miranda Urbano, investigadoras do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra publicaram um muito interessante trabalho intitulado Um invulgar achado do século XXI: o fundo jesuítico desconhecido do Colégio de Jesus (Sé Nova) de Coimbra, sobre o achado de documentos jesuíticos escondidos na Sé Nova.
Desse trabalho destacamos o texto que ora se apresenta.
O Altar da Coroação, um esconderijo com mais de 250 anos.
Sé Nova. Altar da Coroação e Assunção da Virgem. Acervo RA
Já ninguém imaginava que segredo algum pudesse subsistir nos espaços que outrora pertenceram aos religiosos exilados. A Fábrica da Sé Nova também não podia imaginar que a limpeza e restauro da sua talha dourada pudesse revelar bem mais do que o brilho original do ouro; mas ciente do elevado património que tem à sua guarda, o Cónego Sertório Baptista Martins, confiou a missão a uma equipa de profissionais. E eis que o Altar da Coroação e Assunção da Virgem, no transepto do lado do Evangelho (ou seja, à esquerda da Capela Mor), guardava um inesperado tesouro.
… A Técnica de restauro aspirava o interior das quatro colunas quando encontrou um objeto em forma de cunha, colocado no interior de uma das colunas do lado direito do altar.
Sé Nova, colunas. Pormenor. Acervo RA
Na face posterior da coluna encontrava-se uma caixa de madeira, em forma de cunha, que continha um pequeno crucifixo de marfim envolvido em estopa de linho. Nessa mesma coluna (a coluna interior do lado direito do altar) encontrava-se ainda um saco cilíndrico, de pano branco muito escurecido pelo tempo. O seu interior guardava um grosso volume manuscrito e dentro dele um caderno de menor dimensão.
Surpreendida pelo sucedido, a Técnica que procedia à limpeza, a senhora Fernanda Monteiro Vouga, decidiu examinar as restantes colunas dos espaços congéneres da igreja, para se certificar de que nada ficava esquecido. E acabou por encontrar um novo conjunto. Na coluna interior, à esquerda do mesmo altar, encontravam-se mais dois objetos: um códice enrolado em cilindro (de modo a caber no interior da coluna) contendo um macete de cartas atadas por um cordel; e uma bolsa de serapilheira identificada pelo nome António de Vasconcelos, contendo vários embrulhos de pano (de 12-14 cm) cuidadosamente fechados a ponto de costura e identificados por fora; e ainda um último embrulho com o mesmo formato, mas em papel.
…. À medida que procedíamos no inventário, tornava-se cada vez mais clara a origem daquele pequeno tesouro. O recorte temporal dos documentos examinados dava-nos desde logo a sua chave: se os mais antigos remontam ao século XVI (a carta mais antiga é de Santo Inácio, escrita em 18 de Março de 1542), os textos mais recentes têm a data de Setembro de 1759, ou seja, são contemporâneos do decreto de expulsão dos Jesuítas (de 3 de Setembro de 1759) e dos acontecimentos que precederam a partida dos últimos jesuítas de Coimbra, no dia 24 de Outubro daquele ano. Ou seja, pouco antes da partida, um jesuíta teve a coragem de salvar da destruição um conjunto de documentos que considerava preciosos, na expectativa certamente de que um dia eles fossem resgatados por alguém que soubesse apreciá-los mais do que o poder persecutório instituído, ou, quem sabe, na esperança de um dia regressar a casa e de os recuperar.
Sé Nova. Fotografia aérea, inícios do século XX. Acervo RA
A expulsão do Colégio de Coimbra
De acordo com o relato do Padre José Caeiro, o colégio de Coimbra foi cercado por soldados na noite que precedeu o dia 15 de Fevereiro de 1759. Os jesuítas tinham tomado conhecimento da Carta Régia que determinava o cerco, três dias antes. Desde a manhã de 15 de Fevereiro, quando entraram no Colégio as forças militares, até ao dia da partida dos últimos, os jesuítas viveram um rigoroso isolamento do exterior. Nenhuma notícia do que se passava no exterior podia chegar aos jesuítas. Não lhes era permitido receber cartas nem presentes. Quando em Julho foram autorizados a descer à cerca do colégio e demorar-se algum tempo nos quintais, a vigilância foi reforçada, bem como o número de sentinelas.
…. A ofensiva do cerco ia muito além do isolamento. A parte do edifício destinada às aulas foi totalmente ocupada pela infantaria, que nele praticava tudo quanto se faz habitualmente num quartel. Mas nem assim os estudos foram interrompidos.
…. Para reforçar o isolamento dos padres, estes eram cuidadosamente separados dos soldados, a fim de evitar qualquer fuga de informação. Cerraram-se portas com trancas de madeira, com cal e cimento. Uma vigilância especial foi reservada à igreja do Colégio - onde o tesouro seria escondido. Era aí que as entradas eram mais restritas e sumamente vigiadas …No dia 30 de Setembro os jesuítas tomaram conhecimento de que os mais velhos … partiriam nessa mesma noite … Finalmente, no dia 24 de Outubro de 1759, também eles [os membros da comunidade, mais novos] foram forçados a partir do Colégio.
Miranda, M.M.L. e Urbano, C. M. Um invulgar achado do século XXI: o fundo jesuítico desconhecido do Colégio de Jesus (Sé Nova) de Coimbra. In: Brotéria, n.º 185, Pg. 508-614. Acedido em registo: https://hdl.handle.net/10316/44575.
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