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A' Cerca de Coimbra



Quinta-feira, 28.03.24

Coimbra: Sé de Coimbra, os seus primórdios

Com a presente entrada chamamos a atenção dos leitores para um estudo, da autoria da Professora Doutora Maria do Rosário Barbosa Morujão, o qual nos permite conhecer como, nos seus tempos iniciais, se organizava a Sé de Coimbra.

Sé de Coimbra, os seus primórdios 1.jpgOp cit., capa.

Sé de Coimbra, os seus primórdios 2.jpg

 Pormenor do jacente do Bispo D. Tibúrcio (Sé Velha de Coimbra). Fotografia de Anísio Miguel de Sousa Saraiva .Op. cit., pormenor da capa

A obra que agora se dá à estampa tem como base a dissertação de doutoramento em História da Idade Média apresentada, em 2005, à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O tema que aborda encontra-se claramente definido no seu próprio título: A Sé de Coimbra: a lnstituição e a Chancelaria (1080-1318). Com efeito, o objeto do estudo elaborado é a catedral conimbricense, ao longo de uma cronologia que se estende desde a restauração da diocese, após a reconquista definitiva da cidade, até ao final do episcopado de D. Estêvão Eanes Brochardo, falecido em 1318.

A data de início da investigação explica-se por si mesma: começa precisamente quando a diocese é restaurada, no ano em que encontramos provas de que o primeiro bispo, D. Paterno (1080-1087) já ocupava a cátedra conimbricense, dezasseis anos depois de ter sido escolhido para o cargo pelo rei Fernando Magno e pelo conde Sesnando, mas só tendo podido assumir funções depois de Afonso VI se ter tornado imperador da Hispânia.

Já a escolha do «terminus ad quem» é menos óbvia justificando-se pelo desejo de incluirmos na análise realizada os episcopados de dois chanceleres de D. Dinis, D. Pedro Martins (1296-1301) e D. Estêvão Eanes Brochardo (1303-1318). Efetivamente, pareceu-nos que a prática adquirida pelos prelados no serviço de escrivaninha do monarca se poderia refletir na organização da chancelaria da catedral. Assim se explica a data de 1318, e fica definida a amplitude desta abordagem no tempo longo, que nos permitiu acompanhar a história da diocese desde a sua restauração até à primeira década do século XIV ou seja, do tempo em que Coimbra, recém-conquistada era sede de um condado no limite meridional do mundo cristão peninsular, até quase ao final do reinado de D. Dinis, quando Portugal adquiriu as suas fronteiras definitivas.

Coimbra. Sé Velha, c. 1862.jpg

Antiga Sé de Coimbra em meados do séc. XIX. Acervo RA

…. [A] Primeira Parte, dedicada, como dissemos, ao estudo da Sé enquanto instituição, é composta por quatro capítulos. No primeiro, abordámos a restauração e a organização da diocese, traçando as linhas gerais da sua história desde os mais recuados tempos, analisando o processo de restauração que se seguiu à reconquista cristã, a integração de Coimbra na província bracarense e a definição das fronteiras do território diocesano.

No segundo capítulo, procedemos ao estudo dos bispos que Coimbra conheceu durante este período: ao todo contam-se dezoito prelados, cujas vidas, percursos e formas de atuação à frente da diocese procurámos reconstituir, no decurso de três períodos de características bem definidas, cuja existência se tornou evidente à medida que progredíamos na investigação.

O terceiro capítulo versou sobre a organização do cabido: a sua evolução ao longo dos séculos, desde o tempo em que os cónegos viviam em comunidade, em torno da Sé recém-restaurada, passando pelo processo de secularização ocorrido entre o século XII e as primeiras décadas de Duzentos, caracterizando-se, por fim, a estrutura da canónica tal como ficou definida pelos estatutos recebidos em 1229, que estabeleceram as suas bases para todo o restante período abrangido pela cronologia do nosso trabalho.

 Morujão, M.R. B. Sé de Coimbra: A Instituição e a Chancelaria (1080-1318). 2010. Coimbra, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e a Técnica.

 

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por Rodrigues Costa às 10:34

Terça-feira, 26.03.24

Coimbra: Mosteiro de Celas, delimitação do burgo e da cerca

Desconhece-se o ano exato da sua fundação, sabendo-se, contudo, ter sido anterior a 1213, pois existem documentos com esta data no Cartório do Mosteiro, permitindo concluir que a lnstituição se encontrava lançada e procurava então desenvolver-se, adquirindo propriedades, confinantes com o Mosteiro. Chamava-se ao local Vimarannes … nome do proprietário da zona no período visigótico. Ainda hoje existe, a poente do Mosteiro, a Quinta de Guimarães.

… Embora tenha atravessado períodos de dificuldades económicas, como provam alguns documentos, o Mosteiro teve vida de relativa prosperidade … como se prova pela abundante documentação do antigo Cartório do Mosteiro e que hoje se conserva no Arquivo da Universidade de Coimbra. Nos finais do século XVII, o Mosteiro recolhia 120 monjas e aproximado número de criadas (encostadas).

D.Burgo Celas, pg. 26.jpgFachada do Mosteiro de Celas e parte do adro de São Germano. Op. cit., pg. 26

… Todo o burgo de Celas com seus quintais e a cerca do Mosteiro estavam perfeitamente delimitados por 25 marcos com a inscrição epigráfica «CELAS» e ainda por muro alto de que ainda restam alguns vestígios a poente e a sul do Mosteiro. Nenhum dos marcos. porém foi encontrado nos locais onde presumivelmente se localizavam.

 

Fig. 64 - Marco 31, in situ.JPGMarco do Mosteiro de Celas, adaptado a marco do Mosteiro de Santa Cruz, com a abertura de uma cruz. Encontrado em Murtede, Cantanhede. Acervo RC

O precioso manuscrito que tivemos a sorte de encontrar e que a seguir se publica na íntegra, permitiu-nos reconstituir. com aproximada exatidão, o circuito que delimitava o Burgo e a Cerca do Mosteiro de Celas.

… Tal como fizeram os intervenientes na demarcação do Burgo e Cerca do Mosteiro de Celas, convidamos o prezado leitor a deslocar-se ao local onde teve início a dita demarcação, situado a cerca de 40 metros acima da atual Cruz de Celas, junto do muro que serve de suporte a um vetusto mirante… que à esquerda se encontra, na atual Rua Bernardo Albuquerque.

Imagine o soar das seis badaladas nos sinos do Mosteiro na manhã fresca, mas amena do dia 9 de agosto de 1740.

… No local acima referido, encontrava.se um dos vários cruzeiros existentes no burgo.

Daqui, rumando ao sul e atravessando a estrada que vinha de Coimbra para o Burgo, na distância de 50 varas, encontraram um marco do Celas, junto à esquina do muro dum quintal então aí existente.

Viraram a nascente pela Carrelra dos Namorados provavelmente do trajeto aproximado à atual Rua Gomes Freire, ondo foi encontrado o 2.° marco e do anterior a este mediram 24 varas.

A descrição da demarcação prossegue no mesmo estilo.

D.Burgo Celas, pg. 34 e 35.jpgDemarcação do burgo e cerca do Mosteiro de Celas em 1740. Op. cit., pg. 34-35

Sendo apresentado um mapa onde toda a informação é sintetizada, optamos por nos circunscrevermos à referência dos demais topónimos referidos no manuscrito estudado, a saber, Rua das Parreiras, Rua Silva Ferreira, rua ou estrada que vai para Santo António, caminho que vai para a fonte da mãozinha, carreira dos namorados.

D.Burgo Celas, pg. 34.jpgAbertura da Avenida que devassou a antiga cerca do Mosteiro. Op. cit., pg. 34

Silva, J.M.A. Demarcação do Burgo de Celas e da Cerca do Mosteiro de Celas. In: MUNDA, Revista do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro. N.º 1, maio de 1981. Pg. 25-35

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por Rodrigues Costa às 11:01

Quarta-feira, 20.03.24

Conversas Abertas:  O Mikveh da Baixa de Coimbra (c. 1364-1496) - contribuição da geo-arqueologia para o conhecimento da comunidade judaica medieval

É já, depois de amanhã, sexta-feira, 22 do corrente, às 18h00, na sala D. João III, do Arquivo da Universidade de Coimbra que irá decorrer mais uma Conversa Aberta.

CA. 22.04.2024 f1.jpg

Desta vez o palestrante será o Professor Catedrático Doutor Pedro Proença e Cunha (Departamento de Ciências da Terra da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra) que irá apresentar o tema O Mikveh da Baixa de Coimbra (c. 1364-1496) - contribuição da geo-arqueologia para o conhecimento da comunidade judaica medieval.

CA. 22.04.2024 c1.jpg

A entrada é livre e, como é uso neste ciclo de conferências, após a apresentação do tema segue-se um período aberto à participação dos participantes.

Agrademos a ajuda possível, na divulgação do evento. Obrigado.

Rodrigues Costa (Blogue A´Cerca de Coimbra)

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por Rodrigues Costa às 16:54

Terça-feira, 19.03.24

Coimbra. Carnaval de 1854, 5

Augusto de Oliveira Cardoso Fonseca, em 1911, publicou um outro relato dos acontecimentos decorrentes do carnaval de 1854, identificando o autor do arremesso da panela, que terá originado toda a contestação, como sendo o “Lima Valentão”.

16395.jpg

Imagem acedida em: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=43505

João Lúcio de Figueiredo Lima era natural de Sandomil, distrito da Guarda, e formou-se em Filosofia no ano de 1855. Também frequentou o primeiro ano matemático, em 1855 para 1856, assim como, de 1856 a 1858, o primeiro e segundo de Direito. Havia casado em Coimbra com a filha de um negociante de panos, estabelecido no largo de Sansão, hoje praça 8 de maio, e, com sua esposa, residia no 2.º andar do prédio em que o sogro tinha o seu estabelecimento.

Tinha bazofia de ser valente, pelo que era conhecido por Lima Valentão.

Foi ele, se pôde dizer, o principal provocador dos celebres tumultos por ocasião do entrudo de 1854.

Nesse tempo as brincadeiras de entrudo eram verdadeiras batalhas, cujos combatentes despediam, uns contra os outros, ovos, laranjas e outros que tais projeteis, que por vezes se tornavam ofensivos. Numa das janelas da casa de sua residência estava Lima Valentão com sua esposa e outra senhora, quando de um grupo de estudantes, que no largo se divertiam, simulando uma corrida de touros, partiu um ovo que foi bater em cheio no peito de uma daquelas senhoras. Tanto bastou para que Lima Valentão, num indesculpável impulso de arrebatamento, fosse buscar uma panela de barro, com que atirou ao grupo; e ainda, completamente desorientado, e empunhando uma espingarda, ameaçou os estudantes de lhes atirar.

Largo de Sansão 3.jpgPraça de Sansão.

 Foi este o grande rastilho dos graves tumultos que por essa ocasião se deram.

Muitos estudantes correram em massa a casa de Lima Valentão, chegando a subir a escada, mas não o encontrando por se haver ele evadido pelo telhado.

Nesse tempo era governador civil o conselheiro António Luiz de Sousa Henriques Seco, lente de direito, e administrador do concelho o bacharel António dos Santos Pereira Jardim.

António Luis de Sousa Henriques Seco.jpgAntónio Luís de Sousa Henriques Seco. Col. RA

 Devido aos esforços destas autoridades serenaram.

Fonseca, A.O.C. A entrudada de 1854 e o Lima Valentão, In: Outros Tempos ou velharias de Coimbra, 1850 a 1880, pg. 91-96.

 

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por Rodrigues Costa às 11:49

Sexta-feira, 15.03.24

Conversas Abertas: Mikveh em Coimbra, resultados da escavação arqueológica

É já – de hoje a oito dias, na 6.ª feira, dia 22 de março, às 18h00 – que no Arquivo da Universidade de Coimbra, as Conversas Abertas irão prosseguir, com uma palestra em que serão apresentados os resultados das escavações arqueológicas, realizadas no único vestígio construtivo conhecido, da desaparecida comunidade judaica de Coimbra, localizado na Rua Visconde da Luz.

Recordo que uma «mikveh» é um tanque onde é recolhida a água de uma nascente, que serve para a realização de uma cerimónia de purificação, por imersão em água, praticada na religião judaica.

CA. 22.04.2024 c1.jpg

Cartaz da palestra

CA. 22.04.2024 f1.jpg

Folha de sala a distribuir na palestra, 1

CA. 22.04.2024 f2.jpg

Folha de sala a distribuir na palestra, 2

 

A entrada é livre e após uma introdução do tema pelo palestrante seguir-se-á o habitual tempo de discussão com os assistentes.

Pedimos a ajuda de todos na divulgação deste evento.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:38

Quinta-feira, 14.03.24

Coimbra. Carnaval de 1854 4

Última entrada sobre o texto de Joaquim Martins de Carvalho, reacionado com os desacatos acontecidos no Carnaval de 1854.

Os acontecimentos do entrudo tinham dado lugar a processos, de que resultara serem alguns estudantes riscados da universidade, e pronunciados diferentes outros indivíduos. O governo, porém, concedeu uma amnistia a todos os que se achavam envolvidos nestas ocorrências; e além disso mandou abonar aos estudantes que estavam em Tomar os meios de que carecessem para se transportarem ou para Coimbra, ou para as terras da sua naturalidade.

Tendo voltado os académicos para Coimbra, havia da parte deles, em resultado das rixas do entrudo, uma grande irritação contra os habitantes da cidade. Por causa disso, trataram alguns académicos de fundar uma sociedade secreta, a que deram o nome de Liga Académica, que tinha por fim o mútuo auxílio dos sócios, a independência da academia, e o afastamento de todas as relações com os habitantes de Coimbra. Chegou até a haver o projeto de fazer vir de fora da cidade por conta dos sócios os objetos de consumo, o que, porém, não levaram a efeito. Esta sociedade secreta tinha uma organização quase semelhante á Carbonária.

As iniciações eram feitas numa casa da rua dos Militares, onde habitavam alguns estudantes ilhéus. As sessões eram celebradas ao ar livre; e algumas delas se fizeram de noite no Penedo da Saudade.

Planta da Alta.jpg

Rua dos Militares, localização

Colégio dos Militares, adap. hospital.jpg

Colégio dos Militares, já adaptado a hospital, que deu nome à rua

Penedo da Saudade. Sala dos poetas.jpg

Penedo da Saudade

O presidente da Liga Académica era o estudante do 4.º ano de direito, Manuel Joaquim da Fonseca. Esta sociedade secreta compunha-se de 120 sócios, divididos em turmas de 10. Em cada 10 havia um decurião, que os governava; e a todos superintendia um conselho. No poder dos membros do conselho estava a cifra da correspondência. Era a conhecida vulgarmente pelo nome de cifra de Napoleão, mas um pouco mais simplificada.

A chave da correspondência era «Fé viva”; a palavra de reconhecimento era «Sym-pa-thi-a»; e a de socorro «A mim, filhos de Minerva!»

Da Liga Académica ê que saíam as numerosas correspondências, que por essa época apareciam publicadas em diferentes jornais do reino, em que se tratava de justificar o procedimento dos estudantes nas ocorrências do entrudo, e se acusavam várias pessoas estranhas à academia. Os estudantes encarregados de escrever as correspondências eram os srs. Luiz António Nogueira, Duarte Gustavo Nogueira Soares, Francisco Joaquim de Sá Camelo Lampreia, e outros. Este trabalho era dividido por turno; e da mesma forma se fazia uma ronda noturna que pelas ruas da cidade tinham disfarçadamente os membros da Liga Académica, a fim de evitar que houvesse conflitos entre algum académico mais apaixonado e os habitantes da cidade.

Conselheiro Dr. Duarte Gustavo Nogueira Soares.jpg

Duarte Gustavo Nogueira Soares. In: “O Ocidente” de 1886.07.11

Esta sociedade secreta teve pouca duração. Como havia sido fundada por motivo de uma contenda com muitos habitantes de Coimbra, e se foi de parte a parte desvanecendo a inimizade, voltando por fim tudo ao estado normal, deixou por isso de ter razão de ser. Quando os estudantes vieram frequentar os estudos em outubro do mesmo ano de 1854, tinha a Liga Académica por si mesmo acabado, não se tornando mais a reunir.

 Carvalho, J. M. Graves conflitos em Coimbra pelo entrudo de 1854. In: Apontamentos para a História Contemporânea, 1868: Coimbra, Imprensa da Universidade, pp. 241-248. Acedido em: https://drive.google.com/file/d/1v-_FRydFPXvB6h6mwq3J2w75ylFmkMsd/view?fbclid=IwAR3I0Zqi_2y3soFLcZe6r5fLsX-Q2qn4McLYJbRj10EtL39pkTqs53l7Oys

 

 

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por Rodrigues Costa às 12:00

Quinta-feira, 07.03.24

Coimbra. Carnaval de 1854 3

Na continuação da entrada anterior, importa assinalar que, na época, a deslocação de parte da Academia até Tomar foi referida por “Tomarada” ou por “Entrudada”.

No texto que, como já se especificou, é da autoria de Joaquim Martins de Carvalho, um profundo conhecedor de Coimbra e do seu passado, surge a referência às “Escadas de Santa Cruz”, designação toponímica que eu, bem como outros apaixonados pela história da Cidade, desconhecíamos,

O restante trajeto percorrido pelos académicos não levanta grandes dúvidas e passaria por descer a Couraça dos Apóstolos, a atual Rua do Colégio Novo e no cimo da antiga Rua das Figueirinhas, agora “batizada” de Rua Martins de Carvalho, descer para Sansão.

O problema coloca-se neste local, pois talvez os jovens pudessem descer umas escadas do Mosteiro crúzio que iam desembocar na sua horta e eram utilizadas polos cónegos regrantes para, por uma passagem secreta de que ainda restam alguns vestígios, se deslocarem até ao Colégio de S. Agostinho.

Avento a hipótese de serem estas as referidas “Escadas de Santa Cruz”, e lanço o desafio a outros conhecedores da cidade para se pronunciarem sobre esta possibilidade.

O itinerário referido, desde que, na época, fosse possível utilizar as alegadas “Escadas”, permitiria aos dois grupos de estudantes em confronto entrarem, simultaneamente, em Sansão, uns pelo lado Norte e outros pelo lado Sul.

Fica a hipótese e o desafio.

Feito este parêntesis, prosseguimos com o texto que temos vindo a utilizar.

À noite reuniu-se a maior parte da academia no largo da Feira, e aí se espalhou a falsa noticia de que os habitantes do bairro baixo da cidade tratavam de se armar para os ir atacar no bairro alto. Os ânimos, que estavam excitados em virtude dos acontecimentos da tarde, mais se exasperaram com tal boato.

Sé Nova e Largo da Feira.jpgSé Nova e Largo da Feira. Col. RA

Alguns estudantes menos prudentes, querendo ostentar força, e julgando-se vitoriosos dos acontecimentos da tarde, começaram a incitar os seus condiscípulos para virem ao bairro baixo, e assim mostrar que nenhum medo tinham. Não faltaram conselhos e pedidos para que se não efetuasse semelhante resolução: esses esforços, porém, foram inúteis. Mostrando-se alguns, ainda que poucos, estudantes resolvidos a vir ao bairro baixo, todos os outros os seguiram, uns por espírito de camaradagem, e outros até para evitar as cenas desagradáveis que podiam ocorrer. Desceram em número de perto de 600, parte pelo Arco de Almedina, e outra pelas escadas de Santa Cruz, juntando-se em Sansão.

 

Paços Municipais (Praça 8 de Maio) por volta de Largo de Sansão, hoje Praça 8 de Maio. Inicio do séc. XX. Col. RA

Mal constou que os estudantes vinham ao bairro baixo, receou-se que se repetissem os excessos da tarde; e por isso resolveram-se alguns indivíduos, no caso de ser preciso, a repelir a força com a força. Ao mesmo tempo dizia-se, posto que infundadamente, que os estudantes queriam incendiar a cidade; e por isso quando eles desciam a rua do Cego para a praça, foram recebidos por algumas descargas, que lhes atiraram da esquina próxima da igreja de S. Bartolomeu, de que resultou ficarem alguns estudantes feridos, e corresponderem estes também com alguns tiros.

Reconhecendo a imprudência do passo que tinham dado, retiraram-se os estudantes para o bairro alto, dirigindo-se uma parte deles pela Portagem, onde a guarda lhes não consentiu que passassem para a Couraça de Lisboa, senão a dois de fundo. Assim o fizeram, terminando por essa noite os tumultos.

Na quarta feira de cinza correram boatos de que nesse dia haveria ainda maiores desordens. Em lugar, porém, dos sinistros acontecimentos que se receavam, tomaram muitos académicos a resolução de sair da cidade, dirigindo-se para Lisboa.

Os académicos participaram esta deliberação ao seu prelado, o qual não pôde fazê-los mudar de parecer; e por isso resolveu em conselho de decanos não mandar tocar o sino para as aulas, esperando ainda que se acalmasse tal estado de irritação.

Chegada a questão a estes termos, foi convocado o claustro pleno para confirmar a deliberação do conselho de decanos; porém, sendo chamado a assistir a ele o sr. governador civil, este instou e fez tomar a decisão de que houvesse aulas no dia seguinte e continuasse aberta a universidade.

Na quinta feira de madrugada, 2 de março, mais de 200 académicos se reuniram no largo da Feira, e dali marcharam para Lisboa, a fim de representar contra os habitantes de Coimbra.

Em cumprimento da resolução do claustro pleno, abriram-se as aulas, e os professores foram para as suas cadeiras; mas raros alunos compareceram, havendo classes em que faltaram totalmente os discípulos.

Os académicos que tinham saído de Coimbra caminharam a pé até Tomar. Aí os veio encontrar o sr. Roussado Gorjão, encarregado pelo presidente do conselho, duque de Saldanha, e pelo ministro do reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães, de os persuadir a voltar para Coimbra. Os académicos acederam ás razões que lhes foram expostas, e pela maior parte vieram outra vez para esta cidade.

Pelo ministério do reino foi primeiro concedida aos académicos a faculdade de se apresentarem na universidade até ao dia 25 de março, para continuar as aulas, na certeza de que lhes seriam abonadas as faltas que desde o dia 28 de fevereiro tivessem dado nos exercícios escolares. Depois, em portaria de 17 de março, atendendo a que poderia haver alguns académicos ou muitos deles, que, tendo ido para as terras da sua naturalidade como o governo lhes permitira, ou por quaisquer outros motivos, não pudessem concorrer dentro do tempo prescrito para prosseguir nos seus estudos, á semelhança dos que de Tomar tinham regressado á universidade, foi-lhes prorrogado o prazo para se poderem apresentar até ás ferias da Páscoa.

Coimbra. Carnaval de 1907 2.jpg

Carvalho, J. M. Graves conflitos em Coimbra pelo entrudo de 1854. In: Apontamentos para a História Contemporânea, 1868: Coimbra, Imprensa da Universidade, pp. 241-248. Acedido em: https://drive.google.com/file/d/1v-_FRydFPXvB6h6mwq3J2w75ylFmkMsd/view?fbclid=IwAR3I0Zqi_2y3soFLcZe6r5fLsX-Q2qn4McLYJbRj10EtL39pkTqs53l7Oys

 

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por Rodrigues Costa às 12:47

Terça-feira, 05.03.24

Coimbra. Carnaval de 1854 2

Dos festejos dos Carnaval de 1854 e dos incidentes então ocorridos, existem, como refere a publicação do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra a que aludimos na entrada anterior, outras narrativas menos jocosas, mas mais rigorosas e minuciosas.

Tanto esta entrada, como as outras duas que se lhe seguem, servem-se da informação saída da pena de Joaquim Martins de Carvalho.

Joaquim Martins de Carvalho 1.jpg

Joaquim Martins de Carvalho. Imagem acedida em: https://arepublicano.blogspot.com/2018/09/joaquim-martins-de-carvalho-1822-1898.html

Pelo entrudo de 1854 houve em Coimbra alguns acontecimentos muito deploráveis. Essas tristes ocorrências eram tanto mais para lamentar, quanto todas as pessoas prudentes reconhecem, que muito convém que entre os habitantes desta cidade e a academia reine a harmonia mais cordial.

Nos dias do carnaval os académicos entregavam-se aos costumados folguedos dos mais anos, arremessando ovos às pessoas que das janelas das suas casas presenciavam as mascaradas que transitavam pelas ruas. Aos habitantes da cidade desagradava este género de divertimento pelo incómodo e prejuízos que lhes causavam.

No domingo gordo, 26 de fevereiro, houve por tal motivo principio de desordem na praça de S. Bartolomeu, pelo que o prelado da Universidade, o sr. conselheiro José Manuel de Lemos, atual bispo de Coimbra, deliberou mandar rondar de dia, na segunda feira, pelas ruas da cidade, os empregados de policia académica, recomendando-lhes que usassem de todos os meios suaves e persuasivos para evitar as cenas do dia anterior.

Praça de S. Bartolomeu.jpgPraça de S. Bartolomeu, hoje Praça do Comércio. Inícios do séc. XX. Col. RA

Os desejos do prelado foram em parte atendidos, dando-se, contudo, nesse dia a circunstância de ser a ronda académica recebida por alguns estudantes com vozerias e apupos.

Á noite um grupo numeroso de estudantes percorreu as ruas da cidade, dando vivas á independência académica e gritos contra os archeiros. Chegando as coisas a este estado, entenderam as autoridades que convinha como medida preventiva distribuir a pequena guarnição militar pelos principais pontos da cidade, a fim de acudir a qualquer conflito que pudesse aparecer, visto que os habitantes mostravam desagradar-lhes o procedimento dos estudantes.

Praça de Sansão. José Carlos Magne a.jpgLargo de Sansão, hoje Praça 8 de Maio. Desenho de José Carlos Magne. In: Monumentos, 25, p. 147. Praça de Sansão, 1796.

Ás três horas da tarde desse dia uma mascarada dava no largo de Sansão uma corrida de touros em caricatura. Estavam algumas famílias ás suas janelas, e nessa ocasião dos grupos dos estudantes partiram ovos para várias casas. Daí resultou que um individuo clamasse contra os estudantes, e, insistindo estes, arremessou-lhes da varanda uma panela de barro, não resultando, contudo, daí nenhum mal para ninguém. Os estudantes julgaram-se ofendidos por tal motivo; e os habitantes da cidade, pela maior parte artistas, que presenciavam o espetáculo na rua, tomaram logo um aspeto ameaçador, e daí resultou travar-se entre uns e outros altercação, que redundou prontamente em vias de facto.

Por maiores que fossem os esforços que algumas pessoas empregaram para apaziguar a desordem, o conflito continuou, as portas e janelas fecharam-se, e o terror espalhou-se por toda a cidade. Acudiu então o posto militar da antiga porta fidalga de Santa Cruz, que foi envolvido pela multidão, e não pode empregar a força para restabelecer a ordem.

Praça de Sansão. José Calos Magne, 4b.jpg

Imagem onde são visíveis as portarias do Mosteiro.Pormenor do desenho de José Carlos Magne. In: Monumentos, 25, p. 147. Praça de Sansão, 1796.

Apareceu pouco depois o governador civil, que então era o sr. conselheiro António Luiz de Sousa Henriques Seco. S. Ex.ª empregando todos os esforços, conseguiu restabelecer a ordem naquele ponto, tranquilizando-se os paisanos, retirando-se os académicos para a Calçada, e entrando em formatura os soldados que tinham ali acorrido.

A desordem agravou-se de novo, quando pouco depois correram da Calçada a Sansão muitos estudantes, bradando vingança contra os paisanos. O tumulto prolongou-se logo pela rua da Sofia, a despeito dos gritos de ordem que soavam por parte das autoridades e outras pessoas.

A força militar do posto de Santa Cruz, vendo que o tumulto tomava um aspeto medonho, correu a marche-marche pela rua da Sofia, para separar os grupos dos tumultuários. Fazendo, porém, alto, foi logo envolvida pelos académicos.

Neste momento chegou o resto da guarnição disponível, que com a que estava não chegaria a 50 praças, e formou toda em linha. Conseguiu-se finalmente apaziguar a desordem na Sofia e Sansão pelos esforços do administrador do concelho, bacharel António dos Santos Pereira Jardim, e outras pessoas de influência que ali estavam, empregando-se particularmente o meio de mandar recolher os paisanos a suas casas, e dirigir para a Calçada os estudantes.

Parecia terminada a desordem, da qual tinham resultado alguns ferimentos, posto que leves; mas os estudantes, reunindo-se novamente na Calçada, continuavam a agredir os paisanos, deixando-se arrastar pela excitação, e não cedendo aos conselhos de algumas pessoas, entre as quais se contavam vários académicos, que tratavam de restabelecer o sossego.

Foi ainda necessário que o sr. governador civil marchasse com a força toda para a Calçada, para onde tinha já ido o sr. administrador do concelho, achando-se também aí o sr. presidente da camara, dr. Cesário Augusto de Azevedo Pereira, Aires Tavares Cabral, e outras pessoas, que tentavam dispersar os estudantes antes da chegada da tropa. Junto desta tinha o sr. governador civil exigido que marchassem também dois bedéis e alguns archeiros, a fim de reconhecer os estudantes que "estavam envolvidos na desordem”.

Logo que apareceu a tropa na Calçada, o ajuntamento académico, que estava defronte do Arco de Almedina, começou a gritar — fora os soldados!  As pessoas empenhadas na pacificação correram para os soldados, rogando que se retirassem: e daí resultou que, aproximando-se os tumultuados da tropa, esta calou instintivamente baioneta, mas sem avançar, retida pelas instâncias do sr. governador civil, a fim de evitar derramamento de sangue; e pela mesma razão a fez recuar para o principio da rua do Coruche.

Alguns estudantes bateram então palmas, e a esta demonstração parou a tropa, por ordem do sr. Governador civil, para não ser exautorada a força publica.

Graças aos esforços pacificadores o tumulto dissipou-se, recolhendo a tropa a quartéis.

Carvalho, J. M. Graves conflitos em Coimbra pelo entrudo de 1854. In: Apontamentos para a História Contemporânea, 1868: Coimbra, Imprensa da Universidade, pp. 241-248. Acedido em: https://drive.google.com/file/d/1v-_FRydFPXvB6h6mwq3J2w75ylFmkMsd/view?fbclid=IwAR3I0Zqi_2y3soFLcZe6r5fLsX-Q2qn4McLYJbRj10EtL39pkTqs53l7Oys.

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por Rodrigues Costa às 11:53


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