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A' Cerca de Coimbra



Quinta-feira, 29.02.24

Coimbra. Carnaval de 1854 1

O Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, ao divulgar os documentos mais relevantes e mais interessantes ali depositados, tem vindo a realizar um meritório trabalho.

Ultimamente, com transcrição da Dr.ª Paula França, revelou a existência de dois documentos que que nos dão a conhecer como, em meados do século XIX, se vivia, em Coimbra, o carnaval ou o entrudo, como então se dizia.

Coimbra. Carnaval de 1854, 1.jpg

Transcrevemos, de seguida, o documento divulgado, embora, a fim de facilitar a leitura, tenhamos atualizado a grafia.

Tudo era alegria, tudo contentamento, Sansão estava povoada até as orelhas.

Homens mulheres rapazes, cães, tudo isto enchia e animava com um esplendor maravilhoso o Largo de Sansão mas, não se entenda que tudo era desordem; não, ao contrário, todo este povo se tinha arranjado e disposto na forma de um ovo, quero dizer, num círculo oval, de sorte que todos, ou pelo menos a maior parte dos constituintes desta figura geométrica, podiam gozar do que no meio da mesma figura se passava.

Praça 8 de Maio e rua Visconde da Luz. Inícios dLargo de Sansão, hoje Praça 8 de Maio. Inícios do séc. XX

 Era uma cena do Carnaval, era uma corrida de burros arvorados em touros, pela simples adjunção de uma armação bicórnea, que estava oferecendo um espetáculo vistoso e divertindo a jovial e variadíssima multidão.

Três touros tinham vergado sob o peso da infatigável destreza e habilidade com que os peritos capinhas os atormentavam de dor de ilhargas, porém, três homens eram levados em braços, vítimas também do seu excesso de dedicação!

Eram mártires da tauromaquia, deviam ser respeitados, todos os circunstantes pagaram o seu tributo de compaixão aos infelizes.

Coimbra. Carnaval de 1854, 2.jpg

Enquanto isto se passava, dois amáveis estudiosos discutiam acaloradamente uma questão que tinha por objeto a referida forma geométrica em que o povo se tinha agrupado, para gozar do espetáculo. Para melhor explicar esta figura ao seu antagonista, o defensor da preposição sacou de um ovo e o expôs a vista do seu adversário, porém, não foi só este que o viu, foi um terceiro amável, que passando por este belo julgar descobrir um belo meio de transtornar as rubicundas faces ao seu amigo da análise tornando-lhas amarelas!

Foi por isso que ele imprimiu, sobre a mão que segurava o ovo, uma tão grande porção de movimento que não só este saltando do seu invólucro rastejou pelas faces do seu admirador, que ficando aterrado, por um golpe tão violento, e ao mesmo tempo tão imprevisto, porque apenas teve tempo de se lembrar que um vácuo se operara na mão que sustentava o ovo, e que era esse mesmo ovo, que rolava agora por seu despeitado rosto; mas até, como íamos dizendo, correu a observar as leis que lhe eram impostas pela natureza, vindo por isso a formar um ângulo de reflexão, igual ao de incidência em virtude da sua elasticidade, operação que teve lugar na cara daquele com quem já estava relacionado. Foi, pois, furando o ovo a natureza, e que ia ser refreada a sua fúria por um transparente vidro, parte constituinte de uma vidraça, que indignado por ver um atentado inaudito, entesou as fibras segurou se no betume e revestindo-se de ânimo esperou o inimigo a pé firme, vendo o ovo preparativos tão hostis redobrou de coragem e velocidade e zás cai sobre o miserável que reduz a mil pedaços, mas ah! Coitado que ele foi vitimado seu furor! Caiu feito em pedaços sobre o ferro frio e impassível!

Foi um som lúgubre e sinistro que anunciou a morte destes dois heróis. Inconcebível desígnio da sorte adversa! O génio mau não quis pôr termo a tão desastrosa catástrofe!

Prosseguiu avante, irritado o senhor da vidraça pela fraqueza de um seu súbdito, começou em contrações nervosas e tão violentas, que de certo as grades voariam, se não fora um novo incidente, que veio pôr termo a um ataque tão terrível.

Uma desgraçada panela rolava furiosamente impelida pela casa, fazendo as delícias duma travessa circunvizinha, que dava agudíssimos gritos ao ver as ligeiras da mísera paciente. Ao rouco e rachado som da panela volta-se exasperado o recém epilético e tomando como insulto feito à sua dignidade, as expressivas cabriolas com que a panela o mimoseava, salta denodadamente sobre a infeliz, que ainda rolava, atraca pelas azas e arroja ao meio do largo o último suspiro, acompanhado dum roufenho gemido. Momento terrível de dor, com imprecações, desordem, tumulto e agitadas desesperações!

Sensações diagonalmente opostas incendiaram e agitaram a multidão e se apoderaram de seus ânimos!

O quarto touro, que ia experimentar a perícia e rigor de seus terríveis e hábeis

perseguidores, foi despojado das armas e completamente reduzido a impassibilidade de um burro!

Os três atores da tragedia altercaram com uma eloquência de Cícero, porém foram interrompidos em sua discussão por uma bravejante coorte de Ciclopes que se arremessaram em todos os sentidos causando mil encontrões e zig-zags. Tarde espantosamente celebre e notória!

Os sucessos que tu viste serão memorizados pelos vindouros por milhares de modos! A História te consagrara duas linhas para eterno monumento de glória!!

Coimbra. Carnaval de 1907 1.jpg

Sem Autor. Episódios do carnaval de 1854, manuscrito. Transcrição Paleográfica de Paula França. Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. JMC/n.º 14, fl. 119

 

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por Rodrigues Costa às 17:55


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