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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 18.05.21

Coimbra: Reflexões sobre a evolução do brasão

A preparação das entradas publicadas sobre o brasão de Coimbra, implicaram um trabalho de leitura do que sobre o tema se tem publicado, bem como alguma investigação no Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

Estava em causa uma reflexão, à luz dos conhecimentos atuais, da evolução do brasão de Coimbra.

Reflexão que teve a ajuda da Dr.ª Paula França que nos chamou a atenção para o facto de os diversos autores que ao longo do tempo tem escrito sobre o brasão e o selo da cidade acabam por ir dar ao artigo de Afonso de Dornelas, acrescentando ser comum não só a utilização das referências ali citadas, bem como o tema tratado girar sempre em torno da figura no selo representar uma mulher de cabeça coroada, a Rainha / a Virgem / Nossa Senhora / ou a Cindazunda.

Aquela Investigadora, no seu trabalho quotidiano de investigação, localizou no Arquivo Nacional da Torre do Tombo outros documentos que permitem concluir: houve um selo com figura coroada, anterior ao selo com a cobra e esse selo está presente em mais actos/documentos do que aqueles que são referenciados por Afonso de Dornelas.

Apresenta, os seguintes exemplos.

- Carta de venda feita por Johannes Petris ao cabido da Sé de Coimbra de uma herança em Embibera, pelo preço de 60 morabitinos, datada de abril de 1244.

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ANTT. Carta de venda datada de 1244.04. Acedida em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=7585002

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ANTT. Carta de venda datada de 1244.04, pormenor do selo. Acedida em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=7585002

Trata-se de um documento lavrado quando reinava D. Sancho II, antes do início do seu exilo em Toledo, onde viria a morrer em 1248. O selo pendente representa, unicamente uma mulher coroada.

- Carta de venda feita por Pedro Eanes, Alcaide, Tomás Martins e Martinho Eanes, Alvazis de Coimbra, por autoridade de carta régia de 1275.10.11, a D. João Pires, Cónego de Coimbra, de um olival com todas as suas pertenças, no lugar chamado Fonte da Rainha, no termo de Coimbra, por 200 libras.

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ANTT. Carta de venda de venda datada de 1275.10.11. Acedido em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=7585006

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ANTT. Carta de venda de venda datada de 1275.10.11,pormenor do selo. Acedido em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=7585006

Trata-se de um documento lavrado 31 anos depois do anteriormente referido, quando D. Afonso III já era, efetivamente, rei de Portugal e no qual para além da Mulher coroada são representados dois castelos com as cinco quinas e por baixo uma serpente.

No que concerne às pedras colocadas por cima das portas das casas foreiras da Câmara de Coimbra, com cronologia desconhecida, guardadas no Museu Nacional de Machado de Castro, já agradecemos aos Técnicos daquele Museu, Drs. Pedro Ferrão e Jorge Venceslau, a ajuda na localização das imagens que ilustraram e documentaram este conjunto de entradas.

De assinalar que nas referidas pedras, quanto à base sobre a qual está a figura feminina, existem exemplares que mais se assemelham a um pedestal e quanto aos animais estando o leão sempre presente, numa das pedras o dragão foi substituído por uma serpente. Entre outros exemplos possíveis, apresentamos o seguinte.

MNMC710; E589 a.jpg

© DGPC| Arquivo do MNMC. 710; E589

Sobre a razão da presença de uma serpente no brasão de Coimbra não se conhece qualquer documento que a explique.

Tendo procurado um significado para a sua simbologia encontramos no Diccionario de símbolos, de Juan-Eduardo Cirlot, a seguinte passagem. Las serpientes son poderes protectores de las fuentes de la vida y de la imortalidade así como de los bienes superiores simbolizados por los tesoros ocultos. Hay una evidente conexión de la serpiente com el principio feminino.

Según Zimmer, la serpiente es la fuerza vital que determina nacimientos y renacimientos, por lo cual se identifica com la Rueda de la vida.

Será esta a explicação para a presença da serpente, depois transformada em dragão?

 

Aqui chegados deixamos à consideração e à discussão dos leitores as seguintes conclusões.

- O brasão de Coimbra foi evoluindo ao longo dos séculos até se fixar em 1930, na composição que hoje apresenta.

- As lendas da Cindazunda e outras que ao longo do tempo foram surgindo, são isso mesmo lendas sem qualquer suporte documental que as justifiquem.

- A hoje Sé Velha foi reconstruída sob a invocação da Virgem Santa Maria, na segunda metade do século XII, por iniciativa de D. Afonso Henriques e de D. Miguel Salomão, bispo de Coimbra. Partilhamos a hipótese levantada pela Dr.ª Paula França de a figura feminina que decora o selo de Coimbra, na sua versão mais antiga documentada, se deverá tratar da Virgem Santa Maria.

- Lembrando que foi nas cortes de Coimbra que ocorreu a aclamação de D. João I, com a consequente criação de uma nova dinastia, será credível a explicação de que o Município de Coimbra de então assinalou esse facto tão relevante na História de Portugal, com a integração no brasão da Cidade de elementos do brasão dessa nova dinastia, ou seja, o leão e o dragão.

Deixo à reflexão dos leitores a decisão sobre a justeza das conclusões tiradas.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 21:46


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