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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 18.02.20

Coimbra: Festas de Nossa Senhora da Boa Morte, em 1897

Coimbra, a ridentíssima cidade, decantada pelos nossos mais egrégios poetas, que tantíssimas vezes se tem extasiado perante a beleza incomparável dos seus arredores, povoados de luxuriantes pomares, e a amenidade sempre constante das formosas margens do Mondego. O deleitoso rio sobre a qual se debruçam os rumorosos salgueiros, enamorados da prata das suas águas; Coimbra a vetusta cidade, onde os seus carcomidos e tisnados monumentos, iluminados pelos clarões das façanhas épicas dos nossos antepassados, nos fazem evocar os cultos legendários de outras eras e as tocantes e sentimentais legendas que brotaram da imaginação popular, é uma das terras portuguesas, em que se encontra mais intensamente radicado o sentimento da religiosidade, que se manifesta de uma maneira exuberante nas esplendorosas solenidades religiosas que se celebram nos seus templos e a que o povo conimbricense, de índole essencialmente bondosa e sincera, se associa espontaneamente como para agradecer a Deus os mil e um encantos de que revestiu a Atenas portuguesa, o foco vivíssimo das ciências, de onde irradiam as luzes para todo o país.
… Mas como estávamos dizendo, são na verdade sumptuosas as festividades que costumam realizar-se na Sé de Coimbra; há, porém, uma que eclipsa todas as outras, tal é o brilhantismo que costuma assumir, tal é a riqueza que se apresenta perante a nossa vista fascinada: a festividade de Nossa Senhora da Boa Morte, feita a expensas da irmandade que possui o mesmo nome e que, desde 1723, se encontra ereta na capela particular na Catedral de Coimbra.

Sé Nova. Imagem de NS Boa Morte.jpg

No tempo dos jesuítas e nos anos anteriores esta festa, que há anos passou a bienal a fim de lhe aumentar o esplendor, costumava fazer-se no segundo domingo de agosto, consoante as prescrições dos seus estatutos; como, porém, nesse tempo Coimbra se acha quase deserta em virtude da debandada de famílias que se retiram para as praias, e como todos se lastimassem que uma tão luzida procissão percorresse algumas ruas sem vivalma, a irmandade deliberou que este ano [1897] se celebrasse no dia 4 do corrente mês [de Julho], como se celebrou, com uma pompa extraordinária, tornando-se a útil instituição religiosa digna dos mais rasgados encómios.
Como o nosso intento é dar uma leve ideia dessa festividade, e como muitos dos nossos leitores podem ser interessados em saber os primórdios do culto pela Senhora da Boa Morte, principiaremos por apresentar uns ligeiros traços históricos relativamente a este assunto.

Foi em Roma que se instituiu a primeira irmandade sob o sugestivo titulo de Nossa Senhora da Boa Morte … os exercícios deviam realizar-se em todas as sextas-feiras do ano na Igreja da Casa professa da companhia de Jesus.
Em Lisboa estabeleceu-se a primeira irmandade no século XVII; outras cidades e povoações portuguesas seguiram o exemplo da capital, sendo somente instituída pelos jesuítas no Real Colégio de Coimbra no dia 15 de agosto de 1723.
…. Foi copioso o número de irmãos que se inscreveram logo depois da instituição da irmandade em Coimbra, concorrendo para isso as muitas graças e indulgências que por esse tempo foram concedidas em três breves particulares, pelo papa Inocêncio XIII.
A corrente de adesões redobrou quando o papa Benedito XIII expediu, a 23 de setembro de 1729, a bula especial que principia, «Redemptoris nostri Jesu Christi etc.» concedendo à congregação de Nossa Senhora da Boa Morte de Roma grande número de indulgências prerrogativas e isenções … Desejando a irmandade do colégio de Coimbra participar desses privilégios, resolveu agregar-se à de Roma, união que se efetuou a 8 de setembro de 1731.
… Este ano a festividade excedeu as dos anos anteriores, deixando deslumbrados os que tiveram a felicidade de a ver. Não falaremos da bonita ornamentação das ruas com festões e galhardetes e cuja iluminação produzia um belo efeito, nem do soberbo fogo que na véspera se queimou no Largo da Feira e em que os pirotécnicos de Coimbra mostraram mais uma vez os recursos de que dispõem, se bem que desejássemos extintas por completo essas velhas usanças de fogo preso, que podiam ser substituídas por um lauto bodo aos pobres, para nos ocuparmos exclusivamente do aspeto verdadeiramente majestoso que apresentava o amplo templo jesuítico que, como por encanto, perdeu a sua aparência pesada e fria, transformando-se numa mansão celestial…
A nossa paleta não possui tintas com que possa dar uma ideia do brilhantismo que imprimia a festividade o sumptuoso altar-mor, onde se ostentava descoberto o riquíssimo trono, chapeado de prata lavrada, e com o frontal e dossel do mesmo metal; os altares do transepto onde faiscavam riquíssimas pratas e que estavam ornamentados com discrição e bom gosto, e sobretudo a monumental eça, mandada fazer em Roma pelos jesuítas, que se elevava ao centro do cruzeiro, com uma profusão enorme de lumes e flores que lhe davam o aspeto de um formosíssimo jardim.

Sé Nova. Eça de NS Boa Morte.jpgNo centro da eça achava-se colocada a formosa imagem da Senhora da Boa Morte, mandada vir de Itália pelos jesuítas.

Sé Nova. Imagem de NS Boa Morte atual.jpg

Sé Nova, imagem de Nossa Senhora da Boa Morte

A imagem, que é de cera e de escultura muito regular, veste ricamente e está deitada numa graciosa naveta de talha dourada e revestida de uma prodigiosa quantidade de mimosas florinhas.

Sé Nova. Naveta de NS Boa Morte.jpg

De manhã a festividade teve a realçar a palavra inspirada no notável orador sagrado e talentoso lente de teologia sr. Dr. Porfírio da Silva, que produziu um discurso à altura dos créditos de que goza: de tarde saiu a formosa imagem em imponente procissão, que levava um grande número de anjinhos primorosamente vestidos.
Eis uma ligeira resenha, ao correr da pena, do que foi essa solene e esplendorosa, festa que pode ombrear com as que Coimbra dedica a Santa Isabel.

Sousa, A.J.V. A Festividade de Nossa Senhora da Boa Morte (Em Coimbra). In: Branco e Negro. Semanário Illustrado. 2.º ano. n.º 67, de 4 de Julho de 1897. Lisboa, Editora de António Maria Pereira.

 

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por Rodrigues Costa às 12:03


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