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Quinta-feira, 21.02.19

Coimbra: Convento do Louriçal, um convento a conhecer 2

A IGREJA DO CONVENTO DO LOURIÇAL

Só a proteção régia de D. Pedro II e sobretudo de D. João V teria permitido a edificação de uma igreja e dependências adjacentes do convento do Louriçal com o esplendor que ali se pode observar. D. Pedro II mandou ao Louriçal o arquiteto João Antunes para traçar a planta da primeira edificação, sendo encarregado das obras Francisco de Lousada Ribadaneira. A igreja era de pequena dimensão, pelo que D. João V decidiu ampliá-la, encarregando Carlos Mardel do novo projeto e António Andrade do Amaral de dirigir os trabalhos. Mardel terá seguido o projeto de João Antunes com as necessárias adaptações às novas dimensões da igreja. Em 27 de Outubro de 1739 estavam as obras concluídas e procedeu-se à inauguração.
O corpo da igreja encontra-se deslocado em relação ao núcleo das dependências conventuais. O acesso faz-se por uma porta lateral, como é habitual nos conventos femininos, encimada por um medalhão com a adoração do Santíssimo Sacramento.

Ig.Conv.Louriçal.jpg

Igreja do Convento do Louriçal
O interior, de nave única retangular, com os ângulos da cabeceira cortados, coberta de abóbada de berço, é um exemplar notável da arquitetura da época de D. João V. A capela-mor, separa-se da nave por arco cruzeiro com as armas reais, encostando em vigorosa cornija, que percorre todo o espaço da nave, e tendo na parte superior um nicho de volutas ao estilo de João Antunes, com uma imagem de S. Miguel. Uma abóbada de caixotões em meia laranja cobre a luminosa capela-mor. Aqui se encontra o túmulo de madre Maria do Lado. A abóbada do corpo da igreja é decorada com pinturas já ao gosto rococó, onde se mostra a adoração do Santíssimo Sacramento e o êxtase de S. Francisco e Santa Clara.
O corpo da igreja tem dois altares laterais e dois colaterais. Todos têm retábulos de mármores polícromos, lavrados e esculpidos por João António Bellini de Pádua, estatuário italiano que ao tempo trabalhava em Portugal. Compõem-se de colunas laterais com anjos nos remates.


Igreja do Convento do Louriçal, altar-mor.JPG

Igreja do Convento do Louriçal, altar-mor

O altar-mor destaca-se pelo trono e baldaquino onde permanentemente se expõe a custódia eucarística.
No topo da igreja, junto à porta de entrada, situam-se os coros, alto e baixo, defendidos por grades de pontas. O coro alto, de teto abobadado, é revestido de azulejos com cenas bíblicas. O coro baixo, acessível aos visitantes, também se encontra revestido de azulejos, com cenas da vida de Santo António.
Toda a igreja é azulejada, desde o solo até à cornija, numa sucessão de quadros e motivos decorativos verdadeiramente invulgar. Valentim de Almeida será o seu autor. O pintor azulejista mostra aqui um nível superior, de traço perfeito e perfeito domínio da técnica da aguada. Os quadros apresentam ciclos sequenciais. Na nave, ao nível inferior, o ciclo da vida de S. Francisco de Assis, com oito quadros; ao nível superior, separado por leve cornija, o ciclo da Paixão da Cristo, formado por dez painéis. Na capela-mor, preenchendo os tímpanos das paredes norte sul, situa-se o ciclo da vida da Virgem, com quatro painéis, e, nos restantes espaços, o ciclo da vida de Santa Clara, com doze painéis.

Igreja do Convento do Louriçal.JPG

Igreja do Convento do Louriçal, imagem

O coro baixo, também completamente azulejado, apresenta grandes cenas enquadradas por motivos arquitetónicos e decorativos, formando outro ciclo, agora dedicado a Santo António. Nesta sala se encontra, deitada na sua naveta, uma formosa imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, oferecida ao convento pelo rei D. José.
A igreja do convento do Louriçal ilustra bem o conceito de arte total, tão caro do barroco. A arquitetura, a pintura, a escultura, os relevos, a azulejaria cristológica, mariana e de exaltação da Ordem Franciscana, formam um conjunto plástico coerente, em que o tema unificador é o Santíssimo Sacramento.
Entrámos ali num fim de tarde, quando as freiras entoavam no coro o ofício de vésperas, com o Santíssimo Sacramento exposto no trono. Apanhados entre os dois fortíssimos focos espirituais, sentimos quão grande é a diferença entre uma casa religiosa em pleno uso das suas funções e tantas outras dispersas por este país fora, abandonadas, degradadas, vazias ou adaptadas sabe Deus a que fins!NELSON CORREIA BORGES

In: Correio de Coimbra, n.º 4727, de 14 de Fevereiro de 2019.

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por Rodrigues Costa às 21:23


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