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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 19.02.19

Coimbra: Convento do Louriçal, um convento a conhecer 1

Breve explicação: o Convento do Louriçal, embora já esteja para lá do distrito de Coimbra, sempre esteve muito ligado à nossa Cidade e integra a sua diocese, razões pelas quais aqui publicamos este belo texto que traça a sua história.

O CONVENTO DO LOURIÇAL
O desejo do ser humano de se retirar da sociedade para se dedicar a um ideal de perfeição divina é transversal a todas a grandes religiões. No cristianismo as primeiras manifestações deste ideal datam da segunda metade do século III e surgem com características bastante semelhantes em diferentes partes do mundo cristão. Conheceram várias experiências importantes: o movimento anacorético e o cenobitismo egípcio, os protótipos sírios e orientais, o monaquismo com feição própria da Gália, da Irlanda e da Península Ibérica. Foi o monaquismo beneditino que trouxe a racionalização e humanização das primitivas estruturas, criando um tipo de complexo monástico que os cistercienses aperfeiçoaram e as restantes ordens religiosas adaptaram às suas características. Mesmo as ordens mais voltadas para a intervenção na sociedade organizaram as casas de forma a propiciar aos seus membros um constante estado de intimidade com os mistérios divinos, quer sob a forma individual e privada, quer litúrgica ou coletiva.

Convento Louriçal vista exterior.JPG

Convento do Louriçal, vista exterior e portaria

O convento do Louriçal é um exemplo disso, mas fruto de condições específicas que estão na origem do seu aparecimento nesta vila do concelho de Pombal e outrora ela própria sede de um concelho, extinto em 1855.
A sua história está intimamente relacionada com a da fundadora, a madre Maria do Lado. Maria de Brito, que na religião adotou o nome de Maria do Lado, nasceu no Louriçal em 1605, numa família da pequena nobreza local. De educação profundamente religiosa, aderiu à Ordem Terceira Franciscana em 1626 e ficou muito impressionada com a profanação e vandalização do sacrário da igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, em 1630. A necessidade sentida de desagravar este desacato levou-a a instituir as Religiosas Escravas do Santíssimo Sacramento fundando no Louriçal o Recolhimento de Terceiras em 1631. Maria de Brito faleceu em 1632. Recebeu o nome de Maria do Lado já no seu leito de morte, por devoção à chaga lateral que Cristo recebeu na cruz. A sua vida, povoada de visões místicas, provocou a veneração popular, pelo que, logo em 1633, se iniciou o processo de beatificação que teve interrupções várias e atualmente se encontra reaberto e em curso.
A comunidade sofreu vários contratempos com as invasões francesas e a extinção das ordens religiosas em 1834. Na implantação da República o edifício foi ocupado por forças militares e as freiras expulsas. Em 1927, cinco antigas religiosas, ainda vivas, decidiram comprar o convento e regressar, restaurando assim a comunidade.
Inicialmente o Recolhimento funcionava na casa de Maria do Lado, o que condicionou toda a organização espacial.

Convento do Louriçal, porta da Igreja.JPG

Convento do Louriçal, porta da Igreja

A construção da igreja iniciou-se em 1640. Não seria mais que uma simples capela. Só em 1688 se pensa e aprova transformar o Recolhimento em Convento. D. Pedro II dá o apoio régio, mandando ao Louriçal o arquiteto João Antunes para desenhar o projeto dos edifícios, cuja primeira pedra se lança em 9 de março de 1690. Foi, porém, D. João V, por um voto feito em 1700, quem ordenou a edificação do que existe. Sob a sua proteção integrou a comunidade na Regra de Santa Clara, dando assim origem às Clarissas do Desagravo.
Para quem esteja habituado a observar em planta a orgânica de mosteiros e conventos, com o claustro como motivo ordenador, em cujos lados se erguem a igreja, o dormitório, o refeitório e outras dependências, a solução adotada no Louriçal é irregular. O claustro, do tipo de arcadas sequentes sobre pilares, tem um só piso e ao centro do espaço reticulado, a fonte de traçado curvilíneo fortemente escultórico. Bordejam-no várias dependências utilitárias, designadamente o refeitório, abobadado em arco abatido. Todo este conjunto de edifícios se encosta em diagonal à zona da capela-mor da igreja. A torre campanário situa-se ao lado dos coros. Para além deste núcleo estende-se a cerca, onde se encontra uma capela de meditação.

A portaria, com portal de bom desenho, rematado por volutas envolventes das armas reais, ergue-se próximo da cerca o que acentua o caracter diferenciado da planta do convento.
Voltaremos ao Louriçal, para a obra de arte total que é a igreja.

NELSON CORREIA BORGES

In: Correio de Coimbra, n.º 4723, de 17 de Janeiro de 2019.

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por Rodrigues Costa às 09:22


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