Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra



Sexta-feira, 06.05.16

Coimbra e as invasões francesas 3

No dia 26 (de Junho de 1808) não havendo pólvora para a luta a travar iniciaram-se no Laboratório Químico da Universidade os trabalhos da sua produção, sob a direção do Doutor Tomé Rodrigues Sobral, lente da Faculdade de Filosofia. Nesse dia de tarde, veio da Quinta de Santa Cruz, ainda então propriedade dos frades crúzios, uma carrada de vides para se fazer carvão. Às 10 da noite já havia alguma pólvora feita, faltando contudo o pessoal para a encartuchar. Por isso se mandaram vir do hospital dois soldados portugueses convalescentes, para se lhes incumbir essa tarefa, bem como todos os ourives e funileiros para fundirem as balas. Nessa faina levaram a noite inteira, sem descanso algum, preparando as formas, fundindo metal e ensinando outras pessoas.

Na mesma noite se cuidou de produzir metralha para as peças que se esperavam da Figueira; e às seis horas da manhã estavam feitos mais de 3.000 cartuchos … Até ao dia 14 de Julho estavam já feitos 60.000 cartuchos …

«Além do material de guerra fabricado … foram consertadas grande número de espingardas e preparado um número extraordinário de objetos necessários para a campanha, na fábrica de fiação de Manuel Fernandes Guimarães, estabelecida na Rua João Cabreira…»

No mesmo dia 26, tocando-se a rebate em Coimbra, por haver chegado a Viseu o general Loison (o odiado e temido “maneta”) que segundo voz corrente se encaminhava para Coimbra, o Governador da Cidade, Doutor Manuel Pais de Aragão Trigoso, publicou uma proclamação ordenando a todas as autoridades civis e militares que convocassem às armas as ordenanças, milícias e quaisquer militares que tivessem tido baixa desde o ano de 1801 e todos os corpos civis. E no dia seguinte – maravilha foi presenciá-lo – 15.000 a 20.000 paisanos se apresentaram, «armados de lanças e roçadoiras, armas que não erram o tiro» ávidos de lutarem contra os inimigos.

… Nesse mesmo dia, alistaram-se numerosos estudantes, posto que a maioria se encontrasse já ausente, em gozo de férias. E com os inscritos organizou o Doutor Tristão Álvares da Costa Silveira, lente de cálculo e major de engenharia, um corpo académico.

 

Loureiro, J. P. 1967. Coimbra no Século XIX. Separata do Arquivo Coimbrão, Vol. XXIII. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 55 a 57

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:08

Quinta-feira, 05.05.16

Coimbra e as invasões francesas 2

Umas execuções de 9 soldados e de alguns populares feitas pelos invasores nas Caldas da Rainha, a 29 de Fevereiro de 1808, e a opressão tornando-se dia-a-dia mais insuportável, constituíram fatores que tornaram inevitável o rompimento.

… a 22 de Junho, vieram do Porto, em direção a Coimbra, o doutor José Bernardo de Azevedo, José Pedro da Silva e Custódio José da Maia, este acompanhado de alguns voluntários, com o propósito de surpreenderem e aprisionarem a guarnição francesa desta cidade.

Uma vez chegados a Óis do Bairro, trataram de pedir todo o possível auxílio ao respetivo coronel das milícias … marchando incorporados sobre Coimbra a cujo subúrbio norte, no sítio da Ponte Nova, modernamente Rua do Padrão, chegaram às 8 horas da tarde de 23 de Junho.

Uma vez aí, defrontaram-se com quatro soldados de cavalaria dos ocupantes, dois franceses e dois portugueses que, interrogados acerca de quem vivia, prontamente responderam que Napoleão, disparando simultaneamente dois tiros de pistola, correspondidos com uma descarga que pôs três deles por terra, dois mortos e um gravemente ferido, vindo unir-se-lhes o soldado português sobrevivente, que soltou um viva ao príncipe de Portugal … todos arremetendo logo impetuosamente contra a guarda avançada de dez soldados, postada à entrada da cidade, ferindo quatro e prendendo os restantes.

Foi indiscutível o entusiasmo popular resultante deste primeiro êxito, logo se juntando inúmeros voluntários com o apoio dos quais assaltaram o aquartelamento francês, no antigo Colégio de S. Tomás (demolido há anos, erguendo-se em seu lugar o Palácio da Justiça) defendido por 40 soldados, que chegaram a disparar 18 tiros. Mas que foram rapidamente dominados.

O seu comandante, que era um tenente, foi preso na Rua da Sofia, bem como o comissário de guerra e outros franceses.

… Foram chamar o tanoeiro José Pedro de Jesus, juiz do povo, e com ele trataram de descobrir as armas reais da Câmara, bem com as de Santa Cruz e de outros lugares públicos, recobertas com argamassa pelos invasores; e, no dia seguinte … todos os franceses aprisionados, em número de 60, foram enviados na direção do Porto.

Loureiro, J. P. 1967. Coimbra no Século XIX. Separata do Arquivo Coimbrão, Vol. XXIII. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 53 e 54  

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:44

Quarta-feira, 04.05.16

Coimbra e as invasões francesas 1

A 17 de Março de 1808, seguiu de Lisboa para Baiona a referida deputação portuguesa, da iniciativa de Junot, enviada cumprimentar Napoleão Bonaparte. E um dos seus membros foi o reformador-reitor da Universidade e bispo-conde desta diocese, D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho

… Por esse facto, tornou-se o prestigioso prelado suspeito de «jacobino», termo sinónimo de partidário dos franceses, adesão que durante a guerra peninsular foi justamente considerada um dos mais graves crimes, só tendo regressado a Portugal dois anos mais tarde, saído de Bordéus a 15 de Setembro de 1810, e chegando à Mealhada no princípio de Dezembro do mesmo ano.

Tendo, porém, o propósito de dirigir-se a Coimbra, foi impedido de o fazer, recebendo ordem de seguir para o Porto, onde foi sujeito a prolongados interrogatórios por parte do chanceler da Relação e Casa do Porto, plenamente se justificando de tudo quanto praticara.

Mas não foi este o único episódio em que puderam entrever-se estranhos laivos de derrotismo.

A 29 de Maio seguinte (1808), realizou-se uma sessão memorável nas casas da Câmara da vila de Ançã, ao tempo concelho pertencente à comarca de Coimbra … em que tomaram também parte as pessoas mais distintas da nobreza e povo da vila e seu termo, depois de lida uma carta de 17 de Abril da deputação enviada a Baiona, em que vinham promessas de felicidade, feitas e afiançadas por Napoleão … foi assinada uma representação em que se pedia a Napoleão um rei da sua família para Portugal.

E a 28 de Junho seguinte, dois dias após a eclosão do movimento insurrecional de Coimbra, ainda na Figueira da Foz … Ponderando-se que os tumultos e motins populares de algumas cidades e outras terras do reino «contra as autoridades constituídas» faziam temer que ali surgissem também, com grave risco da paz e sossego, assentou-se em que todas as pessoas presentes trabalhassem quanto em si coubesse «para inspirar a todos os mais habitantes sentimentos de tranquilidade e pacificação», e que nesta conformidade se passassem editais.

Todavia, não obstou isso a que noutro auto da Câmara, de 3 de Outubro seguinte, após a expulsão dos franceses do país, se assentasse em fazer uma demonstração de ação de graças pela restauração do reino.

Loureiro, J. P. 1967. Coimbra no Século XIX. Separata do Arquivo Coimbrão, Vol. XXIII. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 52 e 53

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:45

Terça-feira, 03.05.16

Coimbra: Comedorias conventuais

A 14 de Junho de 1802, em capítulo pleno do mosteiro de S. Marcos, tomou-se a deliberação por unanimidade … deferindo-se um requerimento apresentado por alguns frades … requerimento e termo dignos de registo.

… «Nosso muito reverendo padre D. Abade … os monges deste mosteiro de S. Marcos, humildes súbditos de vossa paternidade, abaixo assinados que, requerendo eles no triénio passado o aumento das vestiarias, cedendo de várias pitanças, que tinham por costume no mosteiro, em os dias festivos de primeira e segunda classe, e outros dias do ano, sucedeu deferir-se àquele requerimento com mutilação do pedido, sem que eles fossem ouvidos para ver se assentiam ou dissentiam às condições daquele deferimento; mas agora mais bem advertidos, e ainda requerendo, caso lhes seja preciso, o benefício da restituição, que lhes toca … e que outrossim fique em seu vigor o costume antigo, que havia a respeito dos jantares dos dias do Natal, Quinta-Feira Santa, Páscoa, S. Marcos, Ascensão, Pentecostes, Corpo de Deus, nosso padre S. Jerónimo, aniversário do benfeitor do Cacheu, e dois entrudos, em cujos dias eles só poderão guardar os restos dos seus jantares.

Além disto requerem, que nos dias em que havia de haver casa de fogo, fique a ceia sendo de lombo de porco, conservando-lhes sempre o prato das castanhas, bem como a pitança do lombo que se lhes dava na semana antecedente ao entrudo quaresmal; bem entendido que, por isso que eles ficam com uma só pitança em os clássicos, esta deve sempre ser boa, e naqueles em que por costume se dava peru e leitão, ou lombo do porco, ele seja de isto mesmo, conservando-se também sempre o prato de arroz de leite, bom e bem feito.

Nas segundas classes, porém, a pitança seja de frango, carneiro, ou vaca assada; e caindo algumas destas festividades em dia de jejum, a pitança será de peixe assado, frito ou guisado, e nunca de ovos só; e como nisto não há inovação, ou acrescentamento, antes é uma muito e assaz módica compensação … pedem humildemente a vossa paternidade haja propor este requerimento a toda a comunidade em capítulo pleno, pois que como isto toca a todos, todos devem ser ouvidos; e decidindo-se pela pluralidade, de tudo de faça termo para a todo tempo constar e se zelar a sua observância.

… aí foi mandado ler o requerimento supra, tendente à compensação das pitanças, pelo aumento das vestiarias, e depois sendo ouvida toda a comunidade, unanimemente, sem discrepância de votos, assentaram se devia cumprir tudo quanto se acha expresso no dito requerimento.

Loureiro, J. P. 1967. Coimbra no Século XIX. Separata do Arquivo Coimbrão, Vol. XXIII. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg.41 a 43

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:45

Segunda-feira, 02.05.16

Coimbra: Vaga de crimes na transição do século XVIII para o século XIX

Nos anos de 1799 a 1802, a região de Coimbra foi inundada por uma verdadeira vaga de crimes. Os assassinatos, roubos, violações e resistência às autoridades sucediam-se a traziam as populações em permanente inquietação. O «quartel-general» dos malfeitores estava localizado na vizinha povoação da Cruz dos Morouços e em outras aldeias não distantes desta cidade.

… Um atentado grave, porem, pôs em sobressalto a população citadina, que indignadamente se ergueu em protesto contra a impunidade em que vivam os criminosos … Este atentado teve lugar na noite de 20 de Janeiro de 1802. Dez facínoras dirigiram-se à Quinta da Cheira, no Calhabé, entraram numa casa particular, amarraram a sua moradora (mãe de um capitão de Ordenanças), estenderam-na sobre um banco, deram-lhe algumas picadas com uma faca, tendo um alguidar por baixo … intimidando-a assim para revelar onde tinha escondido o dinheiro. Como nem assim conseguiram que ela falasse, encaminharam-na para um quintal, abriram uma cova para enterrar a sua vítima, e reentraram em casa, revolvendo e arrobando tudo, roubando dinheiro, roupas e cereais. Nem um porco vivo escapou.

… Mas tornara-se corrente e geral a convicção de que as autoridades locais eram impotentes para fazer face à audácia dos criminosos …por carta régia foi o desembargador … incumbido de dirigir superiormente as averiguações … Chegado a Coimbra … instalou-se … na casa do correio velho, na Rua das Fangas, e logo expediu ordens severas para todas as autoridades da província da Beira, determinando a prisão dos criminosos. E em breve começaram a afluir ao pátio da casa do correio os criminosos capturados em diversas terras… Concluída a devassa, os réus presos foram enviados para a cadeia da Relação do Porto, ligados uns aos outros com cadeias de ferro.

… De Coimbra foram remetidos para o Porto 25 presos, e na capital do norte foram julgados por sentença de 25 de Junho de 1803, sendo 17 condenados a pena última, 3 a degredo perpétuo, 3 a degredo por dez anos, 1 a degredo por 5 anos, e só um absolvido … Por carta régia foi substituída a pena dos condenados à morte por outra menor … de degredo perpétuo, dando três voltas em roda da forca e sendo açoitados ali e em outros lugares.

… De harmonia com esse julgado, os réus vieram a Coimbra para a aplicação dos açoites, dando entrada na cadeia da Portagem. No dia seguinte para a triste cerimónia, saíram da cadeia seguros uns aos outros por gargalheiras de ferro, de mãos atadas adiante e nus da cinta para cima. O meirinho leu o acórdão da Relação logo à saída da cadeia, no Largo da Portagem, batendo o algoz em seguida com uma sola nas costas de cada um dos condenados. Percorreram as principais ruas e largos da cidade, repetindo-se o castigo em diversos pontos, e por último no Calhabé, no local do crime referido. E, voltando novamente ao Porto, de lá seguiram para o degredo.

Loureiro, J. P. 1967. Coimbra no Século XIX. Separata do Arquivo Coimbrão, Vol. XXIII. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg.27 a 29

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 09:24

Pág. 2/2



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Maio 2016

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031