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A' Cerca de Coimbra



Sexta-feira, 15.04.16

Coimbra: a Judiaria Velha

… Já fora de portas, encontrava-se um outro núcleo de propriedade régia, onde a concentração era quase compacta: a Judiaria Velha, no local onde existe a Rua Corpo de Deus.

… Em Coimbra, como sucedia em muitas outras cidades e vilas do país, o rei era o grande proprietário das casas habitadas pela minoria judaica …

… Embora correspondendo grosso modo ao espaço que é hoje ocupado pela Rua Corpo de Deus como aliás indicam os limites fixados no título da descrição “que se começa tralla ousia de Santiago e se vai ferir na rua derecta acima da egreja do Corpo de Deus”, a judiaria contava seguramente com outras ruas… provavelmente de menores dimensões, são as ruas da Marçaria, do Pintosinho e da Moreira.

… Na data em que o tombo foi realizado (1395) já a judiaria se encontrava desativada, tendo os judeus aí residentes passado para a judiaria próxima do mosteiro de Santa Cruz, local mais tarde designado por Rua Nova.

É uma imagem de abandono a que perpassa pelo texto onde se descreve a maioria das propriedades como abandonadas, em rossio ou em chão.

… A Judiaria Velha de Coimbra era, pela sua localização, um exemplo paradigmático das judiarias portuguesas: junto a uma via principal, económica e socialmente importante, a Rua da Calçada, encostada à muralha e quase delimitada nos topos por duas portas da cidade, Porta Nova e Porta de Almedina, para além de vizinha de um templo cristão, o de São Tiago, como tentativa de conversão da população judaica.

Embora pouco saibamos das casas que constituíam o bairro, não nos parece que se distinguissem do panorama geral. Oscilando entre o piso único e os dois pisos, por vezes recorrendo ao meio sobrado como forma de ganhar uma câmara extra, algumas contavam com cortinhais, num caso com uma amoreira noutro com quatro pés de oliveira. Um terceiro fora aproveitado para a edificação de uma cozinha. Só duas casas parecem fugir à regra: uma descrita como «paaço grande» a outra, de dois pisos e quatro portais, embora provavelmente dividida em duas moradas já que a traziam aforada Boroeiro Judeu e Samuel peneireiro.

O tombo não deixa perceber até que ponto a Judiaria era um espaço fisicamente delimitado e efetivamente fechado, embora a porta da Judiaria seja referida por duas vezes. Junto a esta, e na zona de maior movimento pela confluência com as Ruas da Calçada e de Coruche, situava-se a albergaria dos judeus. Não muito longe a carniçaria onde, provavelmente a cargo de «Salomon carneçeiro», a carne era tratada segundo os preceitos hebraicos.

… Um instrumento redigido a pedido dos judeus por Vasco Martins tabelião, em 1357, diz que moravam em cerca apartada e “sob chave e guarda de el-rei”.

 

Trindade, L. 2002. A Casa Corrente em Coimbra. Dos finais da Idade Média aos inícios da Época Moderna. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 122 a 123

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por Rodrigues Costa às 09:59

Quinta-feira, 14.04.16

Coimbra: propriedades régias em 1395

 

Localização

Número de propriedades

Madalena

(corresponde a parte da atual Fernão de Magalhães … troço delimitado a Norte pela Rua da Moeda e a Sul pelo Largo das Ameias)

 

8

Rua da Moeda

7

 

Rua dos Tanoeiros

(troço da atual Rua Adelino Veiga)

3

Rua dos Caldeireiros

(troço da atual Rua Direita)

1

Rua dos Piliteiros

(entre a igreja de S. Tiago e o rio Mondego)

1

Montarroio

 

2

Rua de Coruche

(atual Rua Visconde de Luz)

1

Judiaria Velha

(atual Rua Corpo de Deus)

24

Rua Nova da Ferraria

(“rua que se começa aa porta dalmedina e se vai finir na rua da moreira” … corresponderia à atual Rua Fernandes Tomás)

 

20

Rua da Almedina

(… na bibliografia consultada não existe qualquer referência à Rua da Almedina)

 

15

Da sota, acima da Porta de Almedina ao adro da Sé

 

4

Do adro da Sé aos Paços do Rei

 

22

Dos Paços do Rei ao Castelo

 

10

S. Gião

(atual Rua das Azeiteiras)

1

 

Total das propriedades inventariadas

 

119

 

 

Composição das propriedades régias

Tipo de bem

Número

Casas

87

Tendas

9

Pardieiros

8

Chãos

9

Cortinhais

4

Casa de falcoaria e pombais

2

Total dos bens arrolados

119

 

… verifica-se que a totalidade dos chãos referidos se situam extramuros: seis na Judiaria Velha, os restantes três dispersos pelas Ruas da Moeda, dos Tanoeiros e de Coruche. De cinco deles sabemos que foram casas, noutro teria existido uma tenda. O mesmo acontece com o grosso dos pardieiros contabilizando-se seis no Arrabalde e dois na Almedina … concluímos que à exceção de dois casos, todas as propriedades régias que nessa data se encontravam em ruína têm em comum a mesma situação geográfica: o arrabalde. Se procurarmos as causas da degradação destes imóveis surge-nos invariavelmente a mesma explicação: «… derrubados cando el rey Dom Anrique veio a este regno», que «jaz ora em campo por que foy destruída pola guerra» ou «… que queimarom os castelaaõs…»

O tombo descreve-nos que o raio de ação do exército castelhano por ocasião do cerco de Coimbra. A ausência de muralhas no arrabalde facilitou certamente o avanço do inimigo cujo rasto de destruição deixou vestígios desde a zona ribeirinha, na Madalena e Rua da Moeda, até aos muros da cidade, na Judiaria Velha.

 

Trindade, L. 2002. A Casa Corrente em Coimbra. Dos finais da Idade Média aos inícios da Época Moderna. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 118 a 119, 124 e 125

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:37

Quarta-feira, 13.04.16

Coimbra: A higiene pública ou a falta da mesma

A rua era, na sociedade do Oriente medieval, entendida e vivida como uma extensão natural da casa. Um espaço público que os particulares tendiam frequentemente a privatizar, prática tanto mais grave quanto mais estreita, sinuosa e íngreme fosse a rua em questão o que, de resto, sucedia na esmagadora maioria dos casos.

Do alvorecer ao toque das Trindades, em que o tanger do sino anunciava o recolher obrigatório, a rua fervilhava de movimento ... O mesmo se passava em Coimbra onde “se faziam muitos furtos de noite e porque é cousa deshonesta e de que os homens não têm necessidade haverem de estar depois do sino corrido à sua porta, e por se evitarem os maus azos, acordaram (os vereadores) que toda pessoa se recolha”

... à porta de casa, na soleira, num degrau ou no alpendre, desenrolavam-se inúmeras atividades ... As posturas municipais de Coimbra proibiam “maçar linho em ruas correntes” bem como lançá-lo “nos adros das igrejas estendido para se amanhar”, prova de que era um hábito comum.

... Presença constante eram os animais que cada vizinho criava. Galinhas, patos e porcos vagueavam livremente pelas ruas ... Também em Portugal, os regulamentos municipais tendem a restringir a criação de porcos no interior da cidade ... Em Coimbra não era consentida a sua presença pelas ruas da cidade «pela muita sujidade que fazem»

... Para a rua, onde já se acumulavam dejetos vários, lixos, excrementos de animais e até animais em putrefação, vertiam-se diariamente as águas domésticas, os conteúdos dos "camareiros" ... É o que se pode inferir pelas posturas municipais (coimbrãs): “quando quer que pelas ruas e praças se acharem bestas, cães, gatos, aves mortas e quaesquer outras coisas sujas e fedorentas”

... Em 1525, era D. João III quem determinava a limpeza de um monturo em Coimbra, lembrando que na cidade haviam falecido trezentas e setenta e três pessoas.

... “considerando como muitas pessoas no tempo das chuvas e enxurradas grandes deitam (em Coimbra) de suas casas nas ditas enxurradas muitas sujidades de esterco, palha  com que os canos da cidade entupem donde se recebem muitas perdas”

... Em Coimbra, um dos espaços destinados à recolha do lixo situava-se fora da Porta do Castelo, “em uma grande barroca que aí está ao fundo da calçada”

… Em Coimbra, a edilidade proíbe a qualquer pessoa fazer «os seus feitos na praça ou em ruas e quelhas públicas» sob pena de 30 reais, medida que não se aplicava a «meninos de quatro anos para baixo». O incumprimento das posturas era de tal ordem que nem a escada que dava acesso à Torre de Almedina, onde então se realizavam as sessões camarárias, era poupada da «descortesia que os homens e moços faziam em virem fazer seus feitos». Aí, porém, o castigo era proporcionalmente mais grave: mil reais e quatro dias de prisão se fosse homem, mancebo ou escravo, trezentos reais e dez dias de cadeia se fosse moço».

 Trindade, L. 2002. A Casa Corrente em Coimbra. Dos finais da Idade Média aos inícios da Época Moderna. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 96 a 101

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:02

Terça-feira, 12.04.16

Coimbra: tipologia da habitação corrente nos séculos XIV a XVI 2

Em Coimbra, à semelhança do que se passava um pouco por todo o país, a casa de sótão e sobrado era então uma solução recorrente. A tendência para elevar as casas térreas, através da sobreposição de um sobrado fez-se sentir ao longo de todo o seculo XIV … São pardieiros que se transformam em casas sobradas no prazo de um ano, são casas térreas na Almedina ou na Rua dos Caldeireiros às quais, de «San Miguel que passou a huu ano», deve ser acrescentado um novo piso; é o ar que se afora sobre duas tendas da comuna judaica sob condição que façam «no dicto aar huu sobrado».

… em finais do século XIV, as casas sobradadas fossem claramente predominantes. Dispersas por toda a cidade, encontram-se tanto no arrabalde, na zona ribeirinha da Madalena ou em Montarroio, como na Alta … a partir do adro da Sé, em direção ao Paço da Alcáçova e castelo, a casa térrea ganha protagonismo, rareando a casa sobradada … já em 1312, eram abundantes os pardieiros e casas arruinadas.

… No espaço intramuros fronteiro ao arrabalde … predominam os artífices e mesteirais tais como açagadores, cuteleiros, sapateiros ou ferreiros, para quem a tenda do piso térreo era fundamental … nas imediações da Alcáçova, se situam serviços e dependências régias como os açougues ou os celeiros do vinho e do pão, as casas da falcoaria, os pombais, a chancelaria, as «casas do ofício da merçee del Rey». É também aí que se situam (ou situavam) as escolas das leis, da lógica, da gramática.

… embora a casa sobradada se encontre um pouco por toda a cidade … adquire uma presença incontestável, por vezes única, nos locais de maior dinamismo comercial … nas Ruas da Almedina e Ferraria, nelas residem sapateiros, ferreiros, marçeiros, peneireiros, para quem a residência era simultaneamente local de trabalho, oficina ou tenda. A duplicação de portais proporcionaria ao mesmo tempo preservar o espaço doméstico.

… Em relação aos materiais utlizados na construção das casas … elementos dispersos em documentação coeva asseguram que o leque de escolha não seria muito diferente do utlizado em tantas outras localidades: as omnipresentes pedra e madeira, a telha e a cal.

… segunda metade do século XIV as muralhas encontravam-se … parcialmente obstruídas por casas, encostadas ao interior da cerca, na rua da Ferraria, adossadas ao exterior do muro, na Judiaria Velha.

Trindade, L. 2002. A Casa Corrente em Coimbra. Dos finais da Idade Média aos inícios da Época Moderna. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 127 a 130

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por Rodrigues Costa às 10:47

Segunda-feira, 11.04.16

Coimbra: tipologia da habitação corrente nos séculos XIV a XVI 1

Anísio Saraiva, ao estudar a propriedade urbana das confrarias e hospitais de Coimbra, em 1504, deparou-se com 51,61% de casas de um só piso para 48,39% de casas sobradas … Das propriedades que o rei detinha em Coimbra, em 1395, 60,9% eram compostas de sótão e sobrado sendo os restantes 39,8% relativos a «casas» ou «casas térreas». A desproporção entre as duas tipologias aumenta consideravelmente para o património camarário de 1532: 73% de casas sobradadas para 27% de casas térreas. Importa ainda referir que, no século XVI, dentro das casas sobradadas, a que ocorre mais frequentemente é a de três pisos, sobrelevando claramente a de sótão e sobrado. Mais significativa ainda é a constatação que 20% da amostragem é composta por casas de três, quatro e cinco sobrados, ou de quatro a seis pisos, para usarmos a terminologia atual.

… O poder atrativo dos centros económicos e/ou de decisão politico-administrativa, a que normalmente se alia o prestígio social, determinam a procura que naturalmente encarece o valor do solo. Mais caro e escasso, torna-se necessário rentabilizar o lote sobrepondo um ou mais pisos nos já existentes. Verificámo-lo … na Rua da Calçada, em Coimbra … Em Coimbra, encontra-se, em 1504, um prédio de três andares junto à porta do Castelo … dois dos mais significativos edifícios conservados em Coimbra: um prédio de quatro andares na Rua do Sargento-Mor e uma casa de dois pisos, na travessa da Rua Velha…

… em 1514, solicitava autorização para lançar um passadiço (na Casa da Rua de Sobre Ribas), de resto, um dos poucos ainda existentes…

… Coimbra … são apenas alguns exemplos de cidade em que o casario se apropriou das cercas defensivas … em 1427, a câmara de Coimbra aforava … parte da muralha ocidental da cidade, incluídas as torres de D. Joana e Belcouce, salvaguardando para a cidade a possibilidade de «andar pelo dicto muro e casas e tore e alpenderes e belar e roldar e en eles quando conprir ao conçelho».

Ao longo desta obra são apresentados alguns dados estatísticos sobre a tipologia das habitações no País que permitem a seguinte síntese no que respeita a Coimbra:

Tipologia média das habitações em Coimbra

Área

50,43 m2

Número de pisos

2 pisos

Número de divisões por casa

1 a 2 divisões

Materiais de construção

Pedra e cal, madeira, tijolo, adobe, telha

 

Trindade, L. 2002. A Casa Corrente em Coimbra. Dos finais da Idade Média aos inícios da Época Moderna. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 47 a 50, 62, 101, 107, 109

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por Rodrigues Costa às 12:04

Sexta-feira, 08.04.16

Coimbra e as suas personalidades: Bissaia Barreto

Fernando Baeta Bissaya Barreto nasceu em Castanheira de Pera, a 29 de Outubro de 1886, e faleceu, em Lisboa, em 16 de Setembro de 1974 … Em 1911, terminou o bacharelato em Medicina com 19 valores … ascendendo a Professor Catedrático em 1942 e jubilando-se em 1956.

No campo político pertenceu ao Partido Evolucionista e chegou a deputado eleito, em 1911, tomando parte na 1.ª sessão da Assembleia Nacional Constituinte que decretou a abolição da Monarquia.

… Detentor de exemplares capacidades humanísticas, científicas e pedagógicas, instituiu, em 1958, a Fundação Bissaia Barreto, vocacionada para prestar e desenvolver assistências, nas mais diversas áreas, nomeadamente na luta antituberculosa, no apoio à criança e à mulher-mãe. Aos leprosos, à psiquiatria, aos surdos e aos cegos, em geral a todo o espaço social e científico/médico. A obra deixada revela o amor que dedicou ao seu semelhante e à sua profissão sublinhando-se: três sanatórios anti tuberculose; um preventório; dois hospitais psiquiátricos; uma Colónia Agrícola Psiquiátrica; uma Leprosaria; uma Creche/Preventório para filhos de leprosos, bem como um Centro de Reabilitação para ex-leprosos; um Hospital Central, um Pediátrico, um Instituto materno Infantil; uma Casa da Mãe; um Centro de Neurocirurgia; um Centro Hospitalar; um Instituto de Surdos; um de Cegos; 26 Casas de Crianças; 3 Colónias de Férias; dois Bairros Sociais; Escolas de Enfermagem, Normal Social, de Enfermeiras Puericultoras, de Agricultura, Artes e Ofícios; Dispensários, Brigadas Móveis, Postos Rurais; Aeródromo de Coimbra; a Obra de Assistência Materno-Infantil, e outras instituições de cariz social, cultural, científico e assistencial. Em Coimbra deixou diversas instituições de que o Portugal dos Pequenitos, os Hospitais dos Covões e Pediátrico e os Ninhos dos Pequenitos abraçam uma fatia do bolo que legou aos homens

 

Nunes, M. 2005. Estátuas de Coimbra. Coimbra, GAAC – Grupo de Arqueologia e Arte do Centro. Pg. 181 a 183

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por Rodrigues Costa às 10:19

Quinta-feira, 07.04.16

Coimbra: A ‘roda’ dos expostos

Nos termos das Ordenações Filipinas (1603) os filhos ilegítimos deviam ser criados à custa dos pais... Não o querendo estes fazer, ou sendo filhos de religiosos ou de mulheres casadas, mandar-se-iam criar à custa dos hospitais ou albergarias que houvesse, com bens ordenados para a criação de enjeitados.

Na falta de tais hospitais e albergarias, criar-se-iam à custa das rendas do concelho. Quando as não houvesse, lançar-se-iam fintas pelas pessoas que tinham obrigação de pagar nas fintas e encargos do concelho.

Competindo esse encargo inicialmente à Câmara, que com grandes dificuldades o ia suportando, pouco depois já a Misericórdia de Coimbra, no seu compromisso de 1620, inseria o capítulo XXVI, intitulado «De como se há-de acudir aos meninos desamparados»... Mais adiante, por provisão régia de 7-V-1708, foi a Câmara aliviada da administração dos expostos e atribuída à Santa Casa da Misericórdia, entregando-se a esta, para a criação dos mesmos, as rendas da imposição, fintando-se ainda 400.000 reis anuais nos lançamentos das sisas da cidade de Coimbra e seu termo.

... Na primeira metade do século XVIII, surgiu, de importação estrangeira, a prática das ‘rodas’ dos expostos favorecendo e de algum modo oficializando a exposição clandestina, com o benéfico propósito de suprimir ou pelo menos reduzir a proporções mínimas o crime de infanticídio.

... Num documento, datado de 15-III-1712, vê-se que o provedor e demais irmãos da Misericórdia de Coimbra compraram... umas casas sitas em Montarroio ... «para nela se fazer uma roda de enjeitados».

... do referido Compromisso da Misericórdia de Coimbra de 1629, edição de 1830, vem inserto, sem data, o «Regulamento da Real Casa dos Expostos da cidade de Coimbra» ... lê-se que o edifício da Roda se acha muito mal situado, por ser húmido e abafadiço, no inverno, exposto a calores extraordinários no verão, e privado pela sua posição dos ventos de norte e dos outros que possam arejá-lo e refrescá-lo ... O cemitério, em que ao tempo eram sepultados os expostos, imediato às paredes das casas da Roda, que ficava ao norte, em risco de infecionar e corromper os ares, devia em todo o caso mudar-se para sítio mais distante e retirado.

Em 1836, sendo lastimoso o estado em que se achavam reduzidas as diversas rodas de expostos em todo o país... o decreto de 19 de Setembro dispôs... 3.º que a administração de cada um dos estabelecimentos de expostos competia às Câmaras Municipais...; 4.º que assim cessava a competência que em algumas terras estava incumbida às Misericórdias.

... recebeu a Câmara (20-I-1838), do provedor da Misericórdia a relação dos tributos que se cobravam para a manutenção dos expostos ... nomeou escrivão dos expostos e fez imprimir ... «Regulamento e instrução para a administração dos expostos do distrito de Coimbra»... só a partir de então se pôde considerar a Câmara investida na administração dos expostos, iniciada em 3-V-1839 ... assentou (4-IX-1839) em não mudar a Casa da Roda antes de fazer na então existente as reparações indispensáveis

... Essa Casa da Roda devia ser situada na Travessa de Montarroio, onde mais tarde... se instalou o Asilo da Mendicidade.

... em 26-II-1847 a Câmara deliberou sobre a transferência da Casa da Roda para o Dormitório do Pilar (dependência dos antigos edifícios do Mosteiro de Santa Cruz)

... uma proposta ... sobre a supressão da Roda dos Expostos ... veio a ser votada em 21-III-1872, criando-se então o Hospício dos Abandonados ... continuando a sua administração a cargo da Câmara Municipal.

... o decreto de 22-II-1911 extinguiu o hospício do distrito de Coimbra ... e criou uma Maternidade anexa á Faculdade de Medicina ... onde fossem recebidos até poderem ser colocados em criação externa os expostos e as crianças desvalidas de abandonadas.

 

Loureiro, J.P. Relatório sobre os edifícios e terrenos do antigo Mosteiro de Senta Cruz. In Câmara Municipal de Coimbra. 1958. Antigas Dependências do Mosteiro de Santa Cruz. Petição e Fundamentos. Separata do Arquivo Coimbrão. Vol. XV. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 12 a 18

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:15

Quarta-feira, 06.04.16

Coimbra: Cadeias que aqui existiram

À Câmara competia na verdade, e desde remoto tempo, a instalação e administração da cadeia.

Durante o século XVI, a prisão do Castelo tornou-se insuficiente e até inconveniente pelas promiscuidades a que obrigava e criaram-se:

 

1.º O Aljube, destinado a prisão eclesiástica (do clero e dos seus privilegiados), defronte do Paço Episcopal;

2.º A prisão académica, destinada a gente da Universidade nos baixos da sala dos Atos Grandes, mais tarde transferida para os baixos da Biblioteca da Universidade e mais tarde ainda para a Rua dos Loios ...

3.º A cadeia da Portagem, mandada construir pela Câmara, no atual Largo da Portagem

 

(Noutro lugar da mesma publicação o Autor ainda refere o Aljube de Santa Cruz ...no ‘Isento’ de Santa Cruz ... «cadeia especial para as penas impostas aos habitantes na área da jurisdição do prior-geral. Essa cadeia estava em Montarroio, numa casa ligada à Torre».

 

No meado do século XIX levantaram-se grandes clamores contra a ‘Cadeia da Portagem’, que intitulavam «inferno dos vivos», pela falta de condições higiénicas, mesmo elementares. E todos se insurgiam por ser um espetáculo desolador a quem entrava em Coimbra vindo dos lados de Lisboa, com os presos de mão estendida, pedindo «uma esmolinha pelo amor de Deus».

... Em 1856 a Câmara deliberou transferi-la para a chamada «casa vermelha», dependência do antigo Mosteiro de Santa Cruz.

Para aí se transferiram, feitas as obras necessárias, não só os presos da Cadeia da Portagem mais os do Aljube.

 

... E de então em diante só passou a haver nesta cidade a Cadeia de Santa Cruz e a Cadeia Académica, enquanto se não construiu (muito mais tarde), a Penitenciária e há poucos anos ainda a cadeia civil na cerca da Penitenciária.

A Cadeia da Portagem foi construída e administrada sempre pela Câmara ... e a Cadeia de Santa Cruz foi também arranjada e reparada largos anos igualmente pela Câmara que continuou, como anteriormente, a pagar ao carcereiro.

 

Loureiro, J.P. Relatório sobre os edifícios e terrenos do antigo Mosteiro de Santa Cruz. In Câmara Municipal de Coimbra. 1958. Antigas Dependências do Mosteiro de Santa Cruz. Petição e Fundamentos. Separata do Arquivo Coimbrão. Vol. XV. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 20 a 21

 

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por Rodrigues Costa às 10:09

Terça-feira, 05.04.16

Coimbra: Utilização dos edifícios do antigo Mosteiro de Santa Cruz

... Após a extinção das congregações religiosas em 1834, pouco depois ingressaram no património municipal ... os edifícios e terrenos do extinto Mosteiro de Santa Cruz, desde o Terreiro de Sansão (atualmente praça 8 de Maio) até à Fonte Nova, com exclusão apenas da igreja e suas dependências.

Mas, com o rodar dos anos, esses edifícios passaram por grande mutações, tanto na forma como na aplicação. O corpo principal do Mosteiro, por exemplo, com frente para o Terreiro de Sansão, foi demolido para no seu lugar se construírem os atuais Paços do Concelho; todo o conjunto cedido foi mais tarde dividido em dois lotes completamente separados pela abertura da via de acesso de Sansão à Fonte Nova, anos depois e ainda agora denominada Rua Nicolau Rui Fernandes, e pela consequente demolição do Arco do Correio em 1856; a parte que ficou a norte dessa linha divisória, antigamente celeiro, botica, residência do prior-mor e hospedaria do convento (além destas aplicações tiveram os prédios urbanos ainda a de cárceres do Mosteiro de Santa Cruz), tem sido cadeia, esquadra policial, Roda dos Expostos, Hospício dos Abandonados, Creche, Instituto Industrial e Comercial de Coimbra, e Escola Industrial e Comercial de Brotero; uma parte dos edifícios a sul dessa linha divisória foi devorada por um incêndio em 1917, assim como mais tarde o edifício em que se encontravam instalados os correios e telégrafos, já há anos reconstruído.

A par disto, construiu-se o Mercado D. Pedro V na antiga horta e laranjal do convento, abriu-se uma via de ligação da entrada do mercado com a Rua Martins de Carvalho, e instalaram-se por ali diversos serviços públicos e particulares.

Sessão (da Câmara Municipal) de 17 de Dezembro de 1836

... O presidente dá parte à Câmara de que no dia 15 do corrente fora chamado pelo Administrador do Concelho para lhe dar posse do extinto Convento de Santa Cruz, e do da Graça ... com a clausula de neste estabelecer um quartel militar e naquele colocar as Repartições Públicas. A Câmara ficou ciente.

Leu-se um ofício do Administrador do Correio ... para se entender com a Câmara, e esta lhe dar cómodo no extinto Convento de Santa Cruz ... aplicado ... para Administração do Correio a parte do dormitório denominado de São Francisco, desde a parede que divide o refeitório em prumada ao telhado dentro de paredes do dito até à frente de Sansão menos o vão da denominada despensa rente ao chão, que fica para casa da bomba contra incêndios, e depósito de azeite da iluminação da cidade; o refeitório para audiência do Júri de pronúncia servindo o vão de topo para casa de retenção de presos, e a casa por cima deste com duas janelas para o pátio de Sessão dos Jurados, fazendo-se escada de madeira por dentro; o resto do dormitório de S. Francisco dividido em três habitações tendo a ponta superior serventia pelo lado da horta, as duas pela antiga escada de pedra por que se servia a extinta comunidade. O vão a nível da varanda de pedra por cima do claustro grande, e por baixo do denominado noviciado para Secretaria do Administrador do Concelho e habitação do secretário de ante o mesmo; o noviciado com frente para os claustros grandes e do banho para uma habitação tendo serventia por aquela escada de pedra; a outra parte do noviciado debaixo e de cima com frente para o Claustro do banho e costas ao cerco do lado da Rua das Figueirinhas servir com este para habitação do secretário da Câmara com serventia pela varanda do claustro grande; o dormitório baixo com frente para a rua, o claustro do banho para habitação, tendo serventia pelo lado da horta; o dormitório denominado do Pilar na sua generalidade com o jardim para habitação e secretaria do Administrador Geral, com serventia pela escada de pedra que vem da horta; as casas da Botica e as que pegam pelo lado de Montarroio para habitação; a Hospedaria desde a porta do Carro até o cunhal da que corre para a torre, muito convém demolir-se para tornar o grande pátio em terreiro público que acomode as contratadeiras de legumes e de aves, e se colocar ali cadeia pública no primeiro e segundo andar.

 

Loureiro, J.P. Relatório sobre os edifícios e terrenos do antigo Mosteiro de Senta Cruz. In Câmara Municipal de Coimbra. 1958. Antigas Dependências do Mosteiro de Santa Cruz. Petição e Fundamentos. Separata do Arquivo Coimbrão. Vol. XV. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 10 e 11, 22 e 23

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por Rodrigues Costa às 10:35

Segunda-feira, 04.04.16

Coimbra e as suas personalidades: Joaquim António de Aguiar

Grande estadista nacional, Joaquim António de Aguiar nasceu em Coimbra a 24 de Agosto de 1782, e morreu a 26 de Maio de 1874 … sendo o corpo trasladado para a terra natal.

Aquando da invasão napoleónica seguia, ainda, os estudos preparatórios, que abandonou para se alistar no Batalhão Académico … Acabada a guerra matriculou-se em leis na Universidade, doutorando-se em 1815. Habilitado para lecionar na Faculdade de Direito, viu preterida a sua pretensão por ter abraçado as ideias liberais. Admitido no Colégio de S. Pedro foi mandado sair, em 1823, quando se restabeleceu o regime absolutista. Abandonou o magistério e refugiou-se no Porto

… em 1826, e proclamado o governo de D. Pedro IV, regressou a Coimbra e foi nomeado Regente da Faculdade de Leis. Eleito deputado às Cortes pela província da Beira, ocupou o lugar na Câmara parlamentar em 13 de Março de 1828

… Naquele ano, D. Miguel regressou a Portugal, e dissolveu as Cortes. Aguiar teve de fugir e emigrou para Inglaterra, sendo banido da Universidade para sempre … alistou-se … sendo um dos chamados ‘7.500 bravos do Mindelo’.

Em 1833 foi nomeado Ministro do Reino e depois Ministro da Justiça … elaborou e mandou executar o célebre decreto de 30 de Maio de 1834, que extinguiu as Ordens Religiosas em Portugal, cujos bens foram incorporados na Fazenda Nacional

… Este decreto valeu-lhe a alcunha ‘Mata-Frades’. Reorganizou os Municípios. Foi Par do Reino em 1851 e, diversas vezes, deputado às Cortes pela Estremadura e Coimbra. Desempenhou, também, o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em 1859.

Por deliberação camarária … o monumento em sua honra, na Portagem … terminaram em 21 de Junho de 1913, com o assentamento da estátua. O projeto escultórico pertenceu ao escultor Costa Mota (tio) … A estátua em bronze simboliza o momento em que Joaquim António de Aguiar assina o decreto de extinção das Ordens Religiosas (8 conventos e 22 colégios em Coimbra).

 

Nunes, M. 2005. Estátuas de Coimbra. Coimbra, GAAC – Grupo de Arqueologia e Arte do Centro. Pg. 163 a 165

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por Rodrigues Costa às 12:35



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